Cinema e Argumento

O Impossível

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Direção: Juan Antonio Bayona

Roteiro: Sergio G. Sánchez

Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin, Marta Etura, Ploy Jindachote, Johan Sundberg, Douglas Johansson, Jan Roland Sundberg, Tor Klathaley

Lo Imposible, Espanha, 2012, Drama, 114 minutos

Sinopse: O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) está aproveitando as férias de inverno na Tailândia junto com os três filhos pequenos. Mas na manhã de 26 de dezembro de 2004, enquanto curtiam aquele paraíso após uma linda noite de Natal, um tsunami de proporções devastadoras atinge o local, arrastando tudo o que encontra pela frente. Separados em dois grupos, a mãe e o filho mais velho vão enfrentar situações desesperadoras para se manterem vivos, enquanto em algum outro lugar, o pai e as duas crianças menores não têm a menor ideia se os outros dois estão vivos. É quando eles começam a viver uma trágica lição de vida, movida pela esperança do reencontro e misturando os mais diversos sentimentos. (Adoro Cinema)

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“A dor é universal, mas também a esperança”, já dizia o material de divulgação de Babel, filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. Essa mesma frase de efeito pode muito bem ser aplicada a O Impossível, que retrata as consequências devastadoras do tsunami que invadiu a Tailândia no dia 26 de dezembro de 2004 e deixou milhares de mortos. Dirigido pelo cineasta espanhol Juan Antonio Bayona, o longa sempre deixa bem claro que pensa primeiro na emoção do que em qualquer outro aspecto. Por isso, há quem o chame de “apelativo” ou até mesmo “exagerado”, mas a verdade é que poucas vezes vimos – pelo menos no cinema recente – uma trágica história baseada em fatos reais que funcione tão bem por, justamente, não ter medo de fisgar o espectador pela emoções. Tentativas extremamente falhas como o monótono As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, por exemplo, murcham frente ao novo filme de Bayona, que, manipulador ou não, consegue emocionar até o mais resistente dos corações.

Por falar em manipular, não é necessário um olhar muito clínico para perceber todos os elementos que O Impossível orquestra para alcançar o sentimento de todos na plateia. O mais evidente deles é a trilha sonora de Fernando Velázquez, sempre presente com seus violinos e pianos e ainda mais elevada nos ápices dramáticos do filme. Só que o compositor entrega composições muito boas e aí fica difícil resistir… Bayona também não economiza emoções na hora de mostrar a cidade devastada, os cádaveres perdidos entre os destroços e a degradação física dos personagens (resultado de um ótimo trabalho de maquiagem). Ele não esconde o melodrama e cabe ao espectador decidir até que ponto essa decisão interfere no espetáculo. Para mim, não foi problema algum: assisti a O Impossível com o coração na mão, seja por presenciar a desgraça super realista vivida pela população ou por torcer incansavelmente para que os protagonistas encontrassem uma saída para aquela impensável situação.

Financiado e filmado em território espanhol (o que explica o título original, Lo Imposible), o novo trabalho de Bayona traz uma abordagem crua da tragédia climática. O diretor, que só havia realizado um longa anteriormente – o terror independente O Orfanato -, realiza um excelente trabalho, dessa vez de maior orçamento e muito mais ambicioso, que não economiza nos efeitos visuais e na direção de arte para aproximar o espectador daquela situação. E se a devastadora cena do tsunami deixa fortes impressões (é praticamente impossível saber o que é efeito visual ali), o resto do filme também é igualmente eficiente porque o espanhol mostra tudo com um olhar documental, desde os planos que exploram a dimensão da Tailândia devastada até os pequenos detalhes da reconstrução impecável de cada cenário. A própria técnica, portanto, já transmite a angústia do filme, o que é um feito louvável. Outra boa notícia é que, em termos narrativos, O Impossível não decepciona: tem uma boa introdução (não perde tempo enrolando nem é muito rápido na hora de trazer a esperada cena do Tsunami), consegue ser econômico no velho esquema de sobrevivência e ainda encerra todos os ciclos no momento certo.

Ainda é gratificante ver o belo trabalho de elenco de O Impossível. Quem tem levado as maiores honrarias é Naomi Watts (e ela realmente sempre dispensa comentários), mas não é justo falar do filme sem elogiar todos, sem exceções: Ewan McGregor tem o seu momento aqui e o elenco juvenil é simplesmente impecável. Porém, a surpresa fica mesmo com o jovem Tom Holland, como o destemido filho que, após o tsunami, tenta sobreviver com a mãe. É o primeiro filme de Holland e vale a pena ficar de olho nesse nome. Estreia de tirar o chapéu! A entrega desse conjunto de atores é essencial para que O Impossível seja uma experiência humana e repleta de momentos emocionantes e outros de bastante impacto. Não é um trabalho revolucionário e brilhante no gênero, mas é um drama tão bem feito e eficiente nas emoções “manipuladoras” que fica impossível resistir. Principalmente porque é a esperança que move o roteiro de Sergio G. Sánchez. A beleza da superação diante de um momento tão inimaginável é o que nos faz ter compaixão e torcer pelos personagens de O Impossível. Afinal, vale lembrar, a esperança é universal.

FILME: 8.5

4

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

O que passou…

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AMOR IMPOSSÍVEL (Salmon Fishing in the Yemen, 2012, de Lasse Hallström): Ainda tento entender como conseguiram convencer toda uma equipe a fazer um filme tão desinteressante como esse. O sueco Lasse Hallström já teve seus dias de brilho (mais pelos nomes que reuniu em longas como ChocolateRegras da Vida do que por qualquer outro mérito), mas, em Amor Impossível, ele alcança a completa mediocridade. O problema já começa com a própria premissa: quem vai se interessar pela história de um xeique visionário que resolve trazer ao Iêmen a prática da pesca de salmão? Além disso, o longa é um completo desperdício de elenco, com Ewan McGregor forçando sotaque, Emily Blunt completamente deslocada em cena e Kristin Scott Thomas flertando com a caricatura. Amor Impossível também não tem ritmo e nunca deixa muito claro qual é o seu verdadeiro conflito. É, certamente, o pior filme da carreira de Hallström e também o mais insuportavelmente tedioso do ano.

FUTURO DO PRETÉRITO: TROPICALISMO NOW! (idem, 2012, de Ninho Moraes e Francisco Cesar Filho): Não é o tipo de documentário que chega a trazer grandes estímulos para o público que não se interessa pelo tema: no caso, a Tropicália, um dos movimentos culturais mais efervescentes da história do Brasil. E se Ninho Moraes e Francisco Cesar Filho optaram, em parte, por trazer os formais depoimentos frente às câmeras – Gilberto Gil, ministro da cultura na época das gravações, é uma das fontes de respeito reunidas aqui – eles também acertam ao apresentar uma forte abordagem musical ao documentário. O melhor de Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now! é exatamente a trilha sonora, executada de forma impecável por André Abujamra. As performances, registradas em um show gravado especialmente para o filme, são envolventes e empolgantes – o que, sem dúvida, compensa o conjunto final que, às vezes, devido à parte documental sem grandes inspirações, é um pouco repetitivo.

INSÔNIA (idem, 2011, de Beto Souza): O tempo só destruiu qualquer impressão positiva de Insônia. Filmado em 2007, esse longa gaúcho de Beto Souza só foi finalizado em 2011 devido à dificuldade de captação de recursos. E se, no em ano que foi filmado, Insônia já poderia ser considerado extremamente bobo e mal contado, agora sofre porque outros filmes adolescentes infinitamente melhores já foram produzidos. Da introspecção de Os Famosos e os Duendes da Morte ao formato acessível e descontraído de Antes Que o Mundo Acabe, o cinema já parece ter visto, nos últimos anos, todas as formas do mundo adolescente. Insônia, portanto, surge desatualizado (a protagonista ainda conversa por MSN!) e perdido no tempo. Mas mesmo se relevarmos esses pontos, ainda encontramos um filme muito amador em termos dramáticos, com interpretações bastante inconvincentes, surpresas sem efeitos e um roteiro que sequer entrega ao espectador uma linha dramática decente.

O LORAX – EM BUSCA DA TRÚFULA PERDIDA (The Lorax, 2012, de Chris Renaud e Kyle Balda): Já não é de hoje que as histórias do Dr. Seuss não são bem traduzidas para o cinema. Já não bastasse os histriônicos O Gato O Grinch, agora mais um de seus personagens ganha um filme insatisfatório: o Lorax. A animação dirigida por Chris Renaud e Kyle Balda tem um visual muito legal, cheio de cores, canções e bichinhos que certamente vão encantar os pequenos. Porém, é uma pena que a história seja fraca demais para sustentar um longa-metragem. Os adultos não vão se interessar pela temática de preservação da natureza e as crianças talvez nem entendam muito bem a moral do enredo com uma estrutura cheia de flashbacks. O Lorax – Em Busca da Trúfula Perdida também parece, em vários momentos, uma cópia de WALL-E, especialmente naqueles momentos em que todos correm desenfreadamente para salvar uma plantinha que é o símbolo da esperança ecológica. Boas intenções desperdiçadas em um filme que beira o irritante.

O MUNDO DOS PEQUENINOS (Kari-guarashi no Arietti, 2010, de Hiromasa Yonebayashi): No Japão, O Mundo dos Pequeninos chegou aos cinemas em 2010. Aqui no Brasil, a animação só viu a luz do dia no último outubro, quando chegou diretamente em DVD. Como a maioria das produções do gênero vindas do país, tem um toque muito especial: a clássica combinação de um visual singelo com uma história bem pensada e feita com o coração. Nenhuma surpresa nesse sentido, até porque o roteiro foi escrito por Keiko Niwa em parceria com o mestre Hayao Miyazaki. A trilha e o excelente trabalho de sonoplastia de O Mundo dos Pequeninos ainda dão o tom certo a essa história sobre uma família de pequenos humanos (do tamanho de bonequinhos mesmo) que tentam sobreviver na casa de uma família que acaba de receber um novo morador: o jovem Shô, que está repousando antes de uma cirurgia no coração. Nada de muito extraordinário, mas dentro dos padrões das animações japonesas, que frequentemente dão um banho em outros países só com a habitual simplicidade de uma história eficiente.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Home is now behind you. The world is ahead.

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Direção: Peter Jackson

Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo Del Toro, baseado no livro “The Hobbit”, de J.R.R. Tolkien

Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, Andy Serkis, Cate Blanchett, Christopher Lee, William Kircher, Ian Holm, James Nesbitt, Stephen Hunter, Aidan Turner

The Hobbit: An Unexpected Journey, EUA/Nova Zelândia, 2012, Aventura, 169 minutos

Sinopse: Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) vive uma vida pacata no condado, como a maioria dos hobbits. Um dia, aparece em sua porta o mago Gandalf, o cinzento (Ian McKellen), que lhe promete uma aventura como nunca antes vista. Na companhia de vários anões, Bilbo e Gandalf iniciam sua jornada inesperada pela Terra Média. Eles têm por objetivo libertar o reino de Erebor, conquistado há tempos pelo dragão Smaug e que antes pertencia aos anões. No meio do caminho encontram elfos, trolls e, é claro, a criatura Gollum (Andy Serkis) e seu precioso anel. (Adoro Cinema)

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“Se existe uma chave, deve existir uma porta”, diz um personagem de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, um dos projetos mais esperados dos últimos anos. Não sei se essa afirmação existe no livro de J.R.R. Tolkien, mas, se for uma invenção do roteiro de Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo Del Toro, certamente é uma prova de como o novo filme de Peter Jackson quase coloca tudo a perder com suas ambições que são sinônimos de repetições. E se a tal frase de fato existe no material original, cinematograficamente o tiro sai pela culatra e só serve para evidenciar aquele que é o maior – e tão criticado – problema de O Hobbit: a desnecessária decisão de transformar um livro com pouco mais de 400 páginas em uma trilogia cujo só o primeiro filme tem três horas de duração. É amor genuíno de Peter Jackson pela Terra Média? Ou pelo dinheiro?

Independente das razões que fizeram a obra de Tolkien ser transposta para as telas de cinema nessas circunstâncias, a primeira parte da trilogia peca pelos excessos que poderiam ser facilmente evitados e que dão origem a obviedades e enrolações como a tal chave da porta – que, pelo menos na minha sessão, arrancou um “oooh” do público tamanha incredulidade perante a boba redundância da frase. Os fãs vão dizer que a duração é justificável, já que O Hobbit proporciona um retorno extremamente afetivo à Terra Média e que, nesse sentido, as três horas de história são de pura nostalgia. Mas um filme não deve ser feito com a ideia de ser dirigido apenas a um nicho. E Peter Jackson, que fez um belo trabalho de adaptação ao dar personalidade e agregar fãs à história contada na trilogia O Senhor dos Aneis, está sim priorizando um público específico. Sua decisão, portanto, exclui muitas pessoas e, claro, origina muitos problemas.

Peter Jackson, vale ressaltar, só parece funcionar mesmo em filmes grandiosos (o pouco lembrado King Kong também é um exemplo), falhando – pelo menos recentemente – em produções menores, como o fraquíssimo Um Olhar do Paraíso. E, em parte, a primeira metade de O Hobbit é superlativa, já que tem toda aquela técnica impecável que vimos em O Senhor dos Aneis: efeitos visuais perfeitos, direção de arte detalhista, etc. Não tem como negar: o neozelandês sabe dar cara à Terra Média como ninguém. A incrível concepção desse universo, entretanto, está a serviço de um diretor que deseja dar um tom épico demais para uma história que não tem essa cara e a um roteiro bastante repetitivo. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada até começa com uma fábula singela, onde Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), já velho, narra em cartas uma aventura que teve nos seus dias de jovem. Porém, o artifício logo é esquecido e, aos poucos, o filme de Peter Jackson parte para a aventura, tentando reproduzir toda a grandiosidade de O Senhor dos Aneis. Mas a história de O Hobbit nunca permite que ele alcance tal proposta. Isso porque a premissa não dá suporte: ela é muito simples e sem mistérios.

Para que a saga de Bilbo fosse narrada com mais êxito, certamente era necessário um filme mais enxuto – e vale lembrar que resumir é sempre bom, pois, assim, vemos a verdadeira essência do filme. É exatamente em função de ser alongado que o filme sempre deixa a sensação de que poderia ser mais do que realmente é. A essência está diluída em uma história que é constantemente contada com uma lógica muito clara: a de que novos seres precisam sempre aparecer a cada meia hora para trazer perigo aos personagens – que, claro,  enfrentam tudo bravamente e saem ilesos depois de muitos apuros. Outras cenas também demoram a terminar – e a que envolve o surgimento de Gollum (Andy Serkis) é particularmente cansativa. É realmente de se impressionar que uma trama tão acessível perca boa parte de seu encanto por causa dos excessos de Jackson, que, junto com mais três roteiristas (tanta gente escrevendo um filme quase nunca é bom sinal), consegue apenas fazer com que O Hobbit funcione como um pontapé da trilogia, sem vida independente.

O que mais desperta a curiosidade é saber o que o diretor nos reserva para os próximos capítulos já que, a julgar por Uma Jornada Inesperada, a Terra Média tem tudo para se tornar um lugar que não é devidamente aproveitado e que não corresponde às expectativas depois de tantos anos de espera. É um prazer rever Gandalf (Ian McKellen, impecável como sempre no papel), caminhar por seu universo e acompanhar o realismo das cenas de ação. E ainda tem Gollum! Também dá para perdoar o fato do hobbit Bilbo ser um completo coadjuvante (percebam como, se ele não existisse, a história poderia praticamente continuar sozinha – pelo menos nesse filme), os clichês de um pequeno grupo que enfrenta exércitos mas consegue sair ileso e outros pequenos detalhes… O que não dá para perdoar é ver um Peter Jackson flertando com “inconsequências”. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, de tão detalhista que é na adaptação da obra de Tolkien, parece mesmo uma obra sendo lida na sala de cinema. Mas o público em geral não passa três horas seguidas lendo um livro sem ter uma pausa ou um momento de descanso. E, no cinema, ser o mais fiel possível não é sinônimo de ser brilhante. Que o próximo longa nos surpreenda, mostrando que esse é apenas o início de uma trilogia especial. Porque, sem dúvida, O Hobbit merece mais.

FILME: 7.5

3*

Entre o Amor e a Paixão

Life has a gap in it… It just does.

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Direção: Sarah Polley

Roteiro: Sarah Polley

Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman, Jennifer Podemski, Graham Abbey, Diane D’Aquila, Vanessa Coelho, Aaron Abrams, Dyan Bell, Albert Howell, Danielle Miller, Matt Baram, Avi Phillips

Take This Waltz, Canadá/Espanha/Japão, Drama, 116 minutos

Sinopse: Margot (Michelle Williams) conhece Daniel (Luke Kirby) em uma viagem, durante uma visita a uma apresentação teatral a céu aberto. Eles se reencontram no voo de volta, onde conversam e se conhecem melhor. Ela logo fica interessada nele, mas contém o impulso em respeito ao marido, Lou (Seth Rogen), com quem é casada há cinco anos. Lou passa os dias em casa, já que está preparando um livro de receitas sobre frango, o que faz com que conviva bastante com Margot. Entretanto, o desgaste do relacionamento e a sensação de melancolia que carrega consigo fazem com que ela tenha uma queda por Daniel, ainda mais após descobrir que ele é seu vizinho. (Adoro Cinema)

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Só o amor não realizado pode ser romântico, diz Maria Elena (Penélope Cruz) em Vicky Cristina Barcelona. Será mesmo? É em cima dessa premissa que Sarah Polley desenvolve o seu terceiro longa-metragem como diretora, Entre o Amor e a Paixão. Depois de All I Want for ChristmasLonge Dela, a canadense volta a mostrar plena sensibilidade nessa história que constantemente pergunta ao espectador: é pior se arrepender do que fizemos ou do que não fizemos? As dúvidas de Margot (Michelle Williams), jovem casada há cinco anos que começa flertar com um novo vizinho (Luke Kirby), são o mote do filme, que fala sobre os limites dos sentimentos, da fidelidade e dos desejos. O porém é a vontade da diretora em querer apostar sempre em um tom indie, o que faz com que Entre o Amor e a Paixão perca muitos pontos com o excesso de cores, figurinos, trilhas e circunstâncias que reforçam os cacoetes “alternativos” da diretora.

Quando começa a construir sua história, Entre o Amor e a Paixão quase alcança o nível do irritante. Se, em Longe Dela, Polley apresentou uma maturidade surpreendente ao falar sobre as dores de um casal abalado pelo mal de Alzheimer, em seu mais novo trabalho ela parece se dar o direito de apresentar as bobeiras de uma diretora “jovem” – que, vale lembrar, não estiveram presentes no longa estrelado por Julie Christie. Das situações repletas de meiguices aos vestidos coloridos e listrados da protagonista, Sarah Polley falha ao apresentar os personagens. E não é apenas no mal amarrado encontro entre a protagonista vivida por Michelle Williams e o vizinho interpretado por Luke Kirby, mas também na forma como desenvolve o casamento dela com o cozinheiro Lou (Seth Rogen): o cotidiano dos dois se resume ao “eu te amo”, “mas eu te amo mais” e às tradicionais brincadeirinhas de casal que terminam com beijos e abraços no chão da sala. São vários minutos cheios dessas enrolações e artificialidades que quase nos fazem esquecer que estamos de uma jovem tão sensível e madura como Polley.

A insistência indie persiste por todo Entre o Amor e a Paixão (e, às vezes, funciona, como na cena do crazy dance ao som de Video Killed the Radio Star), mas basta o filme começar a desenvolver sua verdadeira problemática para que, pouco a pouco, a situação comece a ser revertida. Quando coloca os sentimentos da protagonista em xeque, Polley acerta com bastante segurança, pois seu filme faz questão de nos puxar de um lado ao outro. Ao mesmo tempo que entendemos a vontade de Margot de se envolver com o vizinho tamanha a atração genuína dos dois, também entendemos que tal relação não pode acontecer, já que ela é casada – e com um sujeito carinhoso e que está longe de ser uma figura ruim. Se Margot tem insatisfações, elas são mais suas do que necessariamente do casamento. E assim é Entre o Amor e a Paixão: afinal, o novo romance seria tão encantador na prática como é na teoria? Esse novo sentimento é apenas a adrenalina do flerte proibido? Ou é realmente uma nova paixão que está surgindo?

Entrando no universo de Entre o Amor e a Paixão, logo percebe-se que o título brasileiro reduz e comercializa demais o verdadeiro teor da história, pois o filme de Sarah Polley, mesmo que insista nas idealizações tão recorrentes em filmes forçadamente indies, é reflexivo e muitas vezes doloroso. Também é eficiente a forma como ela consegue nos colocar na situação da protagonista e nos deixar até mesmo angustiados com o impasse de colocar ou não em prática a atração recém surgida. Durante um bom tempo, ficamos curiosos para saber o que Margot vai decidir. Mas de uma coisa temos certeza: ela não faz nada com a consciência tranquila e muito menos ficará com o vizinho estando casada – o que, claro, dá bastante realismo para a história. Quando desenvolve os dilemas da protagonista, Entre o Amor e a Paixão abandonada maneirismos e mostra a verdadeira vertente de Sarah Polley: sempre genuína e verossímil – e, por isso mesmo, incômoda e dolorosa.

O diálogo com a vida real é ampliado pelo bom trabalho de elenco. Primeiro é importante ressaltar que conseguiram controlar o frequentemente insuportável Seth Rogen, aqui contido e dentro do que o filme pede. Luke Kirby, como o vizinho, também traz o tom certo para seu personagem que poderia ser muito bem o vilão da história. Mas o destaque fica mesmo com Michelle Williams, uma atriz que nunca decepciona. Sua Margot pode até ter ecos da Cindy de Namorados Para Sempre, mas nada que comprometa o ótimo trabalho de Williams, certeira no equilíbrio entre tudo o que existe de bom e ruim em sua personagem. A experiência de conferir Entre o Amor e a Paixão recompensa pelas questões que levanta e pelo elenco. Só que os excessos de tons e insistências indies tiram bastante a força do filme, mostrando que, em dadas passagens, Polley se preocupou mais com a embalagem do que com o conteúdo,  ainda estendendo e explicando mais do que deveria os minutos finais. Mas nem por isso deixa de ser um relato reflexivo e de ter o maior atrativo de um bom drama: fazer com que acreditemos que essa história poderia estar acontecendo na porta ao lado. Ou até mesmo em nossas vidas.

FILME: 7.5

3*

Intocáveis

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Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano

Roteiro: Olivier Nakache e Eric Toledano

Elenco: Omar Sy, François Cluzet, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyril Mendy, Grégoire Oestermann, Christian Ameri, Dominique Daguier, François Caron, Thomas Solivéres

Intouchables, França, 2011, Drama, 112 minutos

Sinopse: Philippe (François Cluzet) é um aristocrata rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Precisando de um assistente, ele decide contratar Driss (Omar Sy), um jovem problemático que não tem a menor experiência em cuidar de pessoas no seu estado. Aos poucos ele aprende a função, apesar das diversas gafes que comete. Philippe, por sua vez, se afeiçoa cada vez mais a Driss por ele não tratá-lo como um pobre coitado. Aos poucos a amizade entre eles se estabele, com cada um conhecendo melhor o mundo do outro. (Adoro Cinema)

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Em 2012, o cultuado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain teve que dar adeus ao posto de filme francês mais visto nos cinemas ao redor do mundo. Quem desbancou o longa de Jean-Pierre Jeunet foi esse tal de Intocáveis, que, a princípio, não tem grandes atrativos para faturar, até agora, mais de 400 milhões de dólares mundialmente (não chegou a custar nem 10). Mas, por alguma razão, todos parecem ter um carinho especial por essa história que não se difere em nada de tantos relatos motivacionais que o cinema já fez. Tanto amor pelo filme é, para mim, um mistério. Mas, certamente, o grande sucesso foi influenciado pelo boca-a-boca, uma vez que Intocáveis permanece semanas em cartaz até mesmo em grandes salas de cinema e consegue ultrapassar o obstáculo de ser um filme “menor” para interessar até mesmo um público mais comercial.

Tudo em Intocáveis é pensado para amenizar a situação dos protagonistas e tentar extrair as pequenas felicidades de suas vidas. Vejam o caso de Phillipe (François Cluzet), por exemplo: ele é tetraplégico, mas também um sujeito riquíssimo, capaz de bancar as modernidades mais caras da medicina e todos os cuidados necessários. Anula-se, então, a questão de sua condição, cujo drama funciona mais pela ideia em si do que pela execução. Já Driss (Omar Sy) é justamente o oposto: vem de uma família desajustada, não tem boas condições financeiras e está muito longe de ser um sujeito apreciador da cultura elitizada como Phillipe. E Intocáveis não hesita em brincar com os contrapontos para criar o maior número possível de cenas de humor, principalmente no que envolve a “ignorância” de um e a fineza do outro.

Só que “ei, estamos falando de um filme baseado em fatos reais!”, podem reivindicar alguns. E estão certos. O problema é que Intocáveis leva tudo demais para o lado positivo, como se quisesse se isentar de mostrar os momentos dramáticos de cada um dos personagens – que, sem dúvida, existiram e completariam o filme. E isso está apoiado no fato de que o trabalho da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano não tem um momento mais intenso ou essencialmente dramático. Quando começa a trabalhar qualquer questão complexa, Intocáveis já parte para a conversa amiga ou para a cena de humor que é responsável por trazer alguma sensação boa para o espectador. Claro que tudo é uma questão de gosto – e, se não fosse assim, o longa não seria esse sucesso de bilheteria – só que é muito simples: comparado a tantas outras histórias com esse “clima”, Intocáveis fica devendo no fator inovação.

O ponto alto de Intocáveis é, sem pestanejar, a interpretação de François Cluzet. Não necessariamente pela condição em que seu personagem se encontra, mas pela forma como ele consegue fazer justamente aquilo que o roteiro não faz: achar um ponto de equilíbrio entre o drama e a comédia. Se toda a abordagem do longa não potencializa várias situações, Cluzet tira o melhor de cada uma delas com um desempenho na medida. Já Omar Sy está acomodado com o papel mais óbvio e que é responsável por praticamente todas as risadas. Escolhido como representante francês para uma vaga ao Oscar, Intocáveis, no entanto, não deve ir muito além do sucesso de bilheteria. Falta um certo requinte do ponto de vista narrativo para que o filme consiga também ser abraçado por completo pela crítica. Afinal, quem já viu tantas histórias assim certamente não vai considerar Intocáveis uma experiência cheia de frescor. Agradável até, mas não original.

FILME: 6.5

3*