Cinema e Argumento

Questão de Tempo

All the time traveling in the world can’t make someone love you. 

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Direção: Richard Curtis

Roteiro: Richard Curtis

Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Joshua McGuire, Tom Hollander, Margot Robbie, Will Merrick, Vanessa Kirby

About Time, Inglaterra, 2013, Romance, 123 minutos

Sinopse: Ao completar 21 anos, Tim (Domhnall Gleeson) é surpreendido com a notícia dada por seu pai (Bill Nighy) de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Ou seja, todos os homens da família conseguem viajar para o passado, bastando apenas ir para um local escuro e pensar na época e no local para onde deseja ir. Cético a princípio, Tim logo se empolga com o dom ao ver que seu pai não está mentindo. Sua primeira decisão é usar esta capacidade para conseguir uma namorada, mas logo ele percebe que viajar no tempo e alterar o que já aconteceu pode provocar consequências inesperadas. (Adoro Cinema)

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É impossível falar de romances contemporâneos sem citar o nome do britânico Richard Curtis. Ele só dirigiu três filmes até agora, mas fez grande carreira ao roteirizar sucessos como Um Lugar Chamado Notting Hill, O Diário de Bridget Jones e Quatro Casamentos e Um Funeral. Como diretor, debutou com o ótimo Simplesmente Amor, e, na sequência, realizou uma divertida comédia que não tinha nada de romântica: Os Piratas do Rock. Afastado da cadeira de direção desde 2009 (mas sem perder a prática de roteiros), agora ele volta aos cinemas comandando mais uma história de amor. Dessa vez, menos marcante e distante de se tornar candidata a marcar época, mas que também traz toda a desenvoltura de Curtis com o gênero e cuja essência vem muito a calhar neste final de ano. Isso mesmo: Questão de Tempo pode ser sim esse filme afetivo que você procura para terminar seu ano cinematográfico de forma bastante espirituosa.

A premissa não é o que podemos chamar de original: jovem descobre que pode viajar no tempo e usa esse poder para conquistar uma garota e fazer com que cada minuto de sua relação com ela seja perfeito. Mas Richard Curtis não se preocupa tanto com as piadas que pode fazer com essa mágica e sim com o romance mesmo. Com isso, Questão de Tempo é quase uma fábula sobre um garoto estranho mas sonhador que encontra a garota da sua vida. Em tempos tão pessimistas e cada vez mais distantes de afetos, é bom acompanhar uma história que preze justamente pelos pequenos momentos com a pessoa amada e pelo verdadeiro encantamento que é a paixão. As mensagens, que poderiam ser enfadonhas nas mãos de outro diretor, mostram-se eficientes e o resultado chega até mesmo a emocionar nos momentos finais – só que com outra figura: a de Bill Nighy, um ator que esbanja naturalidade e que representa toda a força familiar do filme.

Por falar em elenco, Questão de Tempo tem certamente a seu favor um grupo de atores bem escolhido, começando pela figura do protagonista. Aqui, nada de Hugh Grant ou Colin Firth. O mocinho da vez é vivido por Domhnall Gleeson, um jovem ruivo e magricelo que já passou discretamente por filmes como Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2Não Me Abandone Jamais e o novo Bravura Indômita. O fato de ele ser estranho e desengonçado faz toda a diferença para o filme, que ganha um tom muito mais realista com essa escolha. Todos são pura simpatia em Questão de Tempo, até mesmo Rachel McAdams, normalmente especialista em papeis de mulheres enjoadas e desagradáveis, que aqui surge encantadora.

Só que Questão de Tempo tem um problema facilmente irritante para alguns: a falta de conflitos. Qualquer problemática apresentada pelo roteiro dura no máximo cinco minutos até o protagonista decidir voltar no tempo e remendar a situação. Isso faz com que o filme não tenha um grande obstáculo a ser vencido ou um questionamento contínuo. Cabe a cada um decidir até que ponto esse detalhe altera o resultado do filme, que particularmente me envolveu e me encantou. Richard Curtis, ainda que em menor escala de originalidade e contundência, continua com sensibilidade para contar histórias de amor. E, em uma trama guiada por viagens no tempo, o que na realidade fica é: não existe tempo melhor que o agora. E Curtis consegue passar essa mensagem de forma bastante afetuosa. Para senti-la, basta se desarmar.

FILME: 8.0

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Álbum de Família

Life is very long.

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Direção: John Wells

Roteiro: Tracy Letts, baseado na peça “August: Osage County”, de autoria própria

Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Margo Martindale, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Dermot Mulroney, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Sam Shepard, Misty Upham, Newell Alexander

August: Osage County, EUA, 2013, Drama, 121 minutos

Sinopse: Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) são três irmãs que são obrigadas a voltar para casa e cuidar da mãe viciada em medicamentos e com câncer (Meryl Streep), após o desaparecimento do pai delas (Sam Shepard). O encontro provoca diversos conflitos e mostra que nenhum segredo estará protegido. Enquanto tenta lidar com a mãe, Barbara ainda terá que conviver com os problemas pessoais, com difíceis relações com o ex-marido (Ewan McGregor) e com a filha adolescente (Abigail Breslin). (Adoro Cinema)

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Violet (Meryl Streep) disse tudo o que bem entendia em um jantar com a família. Sua veracidade foi tamanha que uma das filhas imediatamente questiona o porquê da matriarca estar sendo tão cruel com todos à mesa. Entretanto, Violet não vê a situação dessa maneira. Para ela, tudo não passa de uma sucessão de verdades sendo ditas cara a cara. Na realidade, o choque que a matriarca causa frente aos familiares é muito simples: ela não esconde o que pensa. Ao contrário de todos a sua volta, tão cercados de restrições afetivas e pensamentos nunca verbalizados, ela prefere ser franca com suas opiniões – nem que isso machuque os outros. Claro que esse comportamento é resultado de uma vida de insatisfações e de um longo vício em pílulas para amenizar as dores de um câncer (de boca, ironicamente), mas também diz muito sobre como se estabelece a dinâmica de Álbum da Família: se o desaparecimento de Bev (Sam Shepard) é o pretexto para reunir a família Weston durante um fim de semana, as verdades de Violet são as responsáveis por trazer à tona angústias e ressentimentos de um grupo que, mesmo tendo o mesmo sangue, há muito deixou de ser uma família.

Recebido com certo descaso lá fora, Álbum de Família foge do que estamos cada vez mais (mal) acostumados a procurar: filmes sempre revolucionários e que esbanjam originalidade. Parece que hoje não existe mais espaço para o tradicional, e isso é um grande problema. É também uma injustiça, pois, assim, filmes interessantíssimos não são devidamente valorizados, como é o caso desse longa de John Wells. O diretor, que fez carreira na TV ao produzir e dirigir episódios para séries como E.R. e The West Wing, entrega justamente um drama familiar convencional mas que, dentro de suas normalidades, tem atributos suficientes para ser admirado por fazer tanto com basicamente texto e atores. Não à toa é fácil se lembrar da era de ouro do seriado Brothers & Sisters. Ou seja, alguns estereótipos perfeitamente admissíveis, segredos familiares envolventes, ressentimentos previsíveis mas bem explorados, cenas dramáticas eficientes e até mesmo alívios cômicos divertidos. Inovador? Não, mas como uma (boa) trama novelesca deve ser, com histórias sobre a vida mesmo, facilmente identificáveis por todos nós.

O roteiro foi escrito por um sujeito chamado Tracy Letts, constante colaborador de William Friedkin (trabalharam juntos em Killer Joe – Matador de AluguelPossuídos), que adaptou a sua peça homônima. A direção sem grande personalidade de John Wells deixa transparecer em diversos momentos esse caráter teatral – em particular em uma das cenas finais, onde pratos são literalmente quebrados com um tom nada condizente com o cinema -, mas não é nada comparado a total histeria apresentada por Roman Polanski em Deus da Carnificina recentemente. Lá sim tudo era muito fake e descontrolado. Em Álbum de Família, o roteiro de Letts constroi um grande mosaico com figuras das mais variadas idades e tipos: a filha que abdicou da vida para não deixar os pais abandonados, a irmã quase fútil que troca de namorado a cada ano, a tia engraçadinha mas que também tem suas frustrações, a favorita do pai que – ao contrário do que todos pensam – não tem uma vida tão bem sucedida assim, e por aí vai… E a boa notícia é que o filme tem espaço para todos. Ninguém é superficial, cada um tem personalidade muito clara e nós compreendemos todos os membros da família Weston – o que só confirma a disciplina do roteiro, que, estivesse nas mãos de alguém mais inexperiente, perderia-se entre tantas storylines.

Já não bastasse o roteiro pontuar muito bem cada drama e distribuí-las com precisão ao longo do filme, o elenco estelar só amplia essa sensação do tradicional bem contado. A figura indiscutivelmente mais marcante é, sem dúvida, Violet, a matriarca vivida por Meryl Streep. Desprezando a dor dos outros simplesmente porque julga ter passado por situações bem mais penosas na vida, é uma personagem afiada que poderia cair facilmente na unidimensionalidade – como a irmã Aloysius, de Dúvida, outro papel bastante difícil e antipático de Meryl. Não é o que acontece aqui: ao mesmo tempo em que somos intimidados por sua presença, também compreendemos sua amargura – e a cena em que ela conta um episódio de sua infância envolvendo uma bota é particularmente tocante. Assim,  Meryl Streep, em mais um desempenho impressionante, nunca hesita com o sotaque e a voz de uma mulher que parece constantemente embriagada pelo uso excessivo de remédios. Vai do drama à comédia e do introspectivo ao explosivo com uma força que só ela tem. Mais um papel inteiramente novo para sua carreira e que, arrisco dizer, supera o nível do recente A Dama de Ferro por se tratar de um desempenho muito mais livre e aberto a criações. 

O grupo de atores ainda merece outra menção particular: Julia Roberts como Barbara,  a filha que mais recebe destaque na história. Sem glamour algum (o que é proposital e ótimo), a atriz prova que as comédias românticas já fazem parte de seu passado e que passou da hora de ser reconhecida por seus trabalhos dramáticos – e o Oscar por Erin Brokovich – Uma Mulher de Talento não chega a contar necessariamente como uma celebração dessa sua vertente. Desde Closer – Perto Demais (um de seus desempenhos mais subestimados) merece mais atenção nos dramas. Quando divulgava Espelho, Espelho Meu, Roberts chegou a chorar em uma coletiva do filme quando anunciou em primeira mão que estrelaria Álbum de Família ao lado de Meryl Streep, atriz que é sua grande referência na profissão. Posteriormente, também revelou que atuar ao lado da veterana foi o seu maior  desafio como intérprete. Pois fique tranquila, Julia, você não ficou devendo nada à Meryl. Formou com ela uma dupla excelente e de pura sintonia.

Com uma boa trilha do duplamente oscarizado Gustavo Santaolalla e ótimos créditos finais ao som de Last Mile Home, música escrita especialmente para o filme pela banda Kings of Leon, Álbum de Família faz jus à vida como ela é, mostrando que são os nossos sentimentos e atitudes que desencadeiam acontecimentos, e não o contrário. Nós somos responsáveis por aquilo que nos acontece. Somos, enfim, as escolhas que fazemos. É uma pena que essa simplicidade não tenha sido abraçada por todos e que Álbum de Família esteja fadado a ser lembrado como um mero drama repetitivo e até mesmo histriônico. Para mim, foi uma das melhores surpresas de 2013, especialmente depois de ter sido tratado com tanto descaso lá fora. Chegando aos 45 do segundo tempo de 2013, é um filme que acerta ao falar tudo com apenas um recorte, mais especificamente de um fim de semana… Dias que, certamente, os Weston não vão querer colocar em um álbum para lembranças posteriores.

FILME: 8.5

4

Rapidamente

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), "Frances Ha" é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde "A Lula e a Baleia"

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), Frances Ha é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde A Lula e a Baleia

FRANCES HA (idem, 2013, de Noah Baumbach): Não sou grande fã de Noah Baumbach, nem mesmo de seu celebrado A Lula e a Baleia, com Laura Linney e Jeff Daniels, lançado anos atrás. Mas esse Frances Ha foi particularmente uma surpresa, com uma história bastante jovem e otimista. Seria errado, no entanto, defini-lo como um feel good movie sem também falar de todos os questionamentos que ele traz sobre a juventude. As expectativas e inseguranças da vida aos 20 e poucos anos estão bem representadas por esse roteiro que se atém a pequenas situações do cotidiano para nos aproximar da protagonista (Greta Gerwig, ótima). Isso mesmo: não existe necessariamente um grande conflito ou maiores reviravoltas em Frances Ha, mas sim uma vida contada em momentos, seja com a ida ao dentista ou com uma mera conversa de final de noite ao lado de um melhor amigo. De vez em quando, Baumbach insiste demais no tom indie ou na própria homenagem à nouvelle vague colocando a protagonista desengonçada a correr na rua ao som de David Bowie, mas é impossível resistir ao carisma do filme. Para quem gosta de comparações, a adolescência nova-iorquina insegura e contemporânea também é retratada de forma similar por Lena Dunham na série Girls, da HBO.

O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013, de Peter Jackson): Com O Hobbit, Peter Jackson passou a ser diretor exclusivo para o pior tipo de público que existe: aquele que é tão apaixonado por uma obra literária que não aceita a existência de liberdades cinematográficas em uma adaptação. Se tirou uma cena importante do livro, o filme não presta. Se alguém reclama de determinado aspecto, é porque na obra original tudo é melhor explicado. Enfim, um público que não entende que cinema é cinema e literatura é literatura. O resultado é esse engodo chamado O Hobbit, em especial essa continuação que recebe o subtítulo de A Desolação de Smaug. Nesse novo volume, estão os mesmos problemas do filme anterior, e o pior: em nível mais acentuado, já que esta é uma parte de transição da história. Não existe qualquer fator surpresa na continuação, que é mais aborrecida, enrolada, confusa e desinteressante que o volume anterior. Nem a parte técnica – com exceção do dragão, que é realmente impressionante -, chega a se sobressair. Tudo é muito igual e repetido, o que prova, mais uma vez, que a decisão de dividir um livro de aproximadamente 300 páginas em três longas de quase três horas foi completamente equivocada.

KICK-ASS 2 (idem, 2013, de Jeff Wadlow): Poucos viram essa mediana continuação do filme original, que era inspirado e divertido. Não que essa sequência tenha perdido seu senso de humor e entretenimento, mas o frescor já não existe mais. Aliás, exageraram na quantidade de violência – que, no final das contas, o próprio Jim Carrey (uma adesão passageira aqui) reclamou -, e no excesso de piadas colegiais. Aqui também já existe uma diferença bastante significativa: agora Kick-Ass (Aaron Taylor-Johnson) já transa em pelo menos duas cenas do filme e a Hitgirl (Chloë Grace Moretz) já olha com segundas intenções para o corpo descamisado do protagonista. Ou seja, se antes a aventura tinha sua graça por ser apenas sobre jovens super-heróis, agora a trama já começa a sair dos trilhos ao dar espaço para peripécias e para os clichês estudantis. Quem acha que a ação por si só já sustenta essa trama certamente vai gostar de Kick-Ass 2, que tem o triplo de adrenalina e sangue. No entanto, acredito que as raízes do protagonista e sua trupe não estejam aí. Em termos de referências ao mundo dos quadrinhos e de sacadas inteligentes com esse universo, a continuação decepciona – quando não aposta no exagero, que está representado nos fraquíssimos vilões, responsáveis pelos momentos de maior baixa do filme.

ÚLTIMA VIAGEM A VEGAS (Last Vegas, 2013, de Jon Turteltaub): Ao contrário do que aparenta, Última Viagem a Vegas não tem muito de Se Beber, Não Case!. Sim, o filme também conta a história de um solteirão (Michael Douglas) que reúne os amigos para uma viagem de despedida de solteiro que promete ser inesquecível, mas esse novo trabalho de Jon Turtelbaut é mais sobre a reunião de quatro atores veteranos em uma história completamente descompromissada do que qualquer outra coisa. Tanto que não é muito difícil perceber que, sem o quarteto, Última Viagem a Vegas não sobreviveria. Previsível do início ao fim – seja na história ou até mesmo na repetição de piadas -, o longa se apoia infinitamente no inegável carisma de seus atores, que conseguem sobreviver aos clichês de seus respectivos personagens. Essa é a boa notícia: eles fazem com que o filme funcione mesmo com tantas obviedades. Sim, Última Viagem a Vegas é dispensável e bem aquém do que poderia ser realizado com atores tão talentosos, mas é inofensivo – o que já se tornou marca registrada de Turtelbaut, diretor de outras obras bobas mas com certo entretenimento como A Lenda do Tesouro Perdido.

Os Suspeitos

Pray for the best, but prepare for the worst.

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Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Aaron Guzikowski

Elenco: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Melissa Leo, Paul Dano, Maria Bello, Viola Davis, Terrence Howard, Dylan Minnette, Kyla Drew Simmons, Zoe Borde, Erin Gerasimovich, Wayne Duvall, David Dastmalchian, Brad James

Prisoners, EUA, 2013, Suspense/Drama, 153 minutos

Sinopse: Boston, Estados Unidos. Keller Dover (Hugh Jackman) leva uma vida feliz ao lado da esposa Grace (Maria Bello) e os filhos Ralph (Dylan Minnette) e Anna (Erin Gerasimovich). Um dia, a família visita a casa de Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis), seus grandes amigos. Sem que eles percebam, a pequena Anna e Joy (Kyla Drew Simmons), filha dos Birch, desaparecem. Desesperadas, as famílias apelam à polícia e logo o caso cai nas mãos do detetive Loki (Jake Gyllenhaal). Não demora muito para que ele prenda Alex (Paul Dano), que fica apenas 48 horas preso devido à ausência de provas contra ele. Alex na verdade tem o QI de uma criança de 10 anos e, por isso, a polícia não acredita que ele esteja envolvido com o desaparecimento. Entretanto, Keller está convicto de que ele tem culpa no cartório e resolve sequestrá-lo para arrancar a verdade dele, custe o que custar. (Adoro Cinema)

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Pelo menos dois diretores provaram, em 2013, que, ao contrário do que vozes mais radicais apontam, é possível sim deixar seu país de origem para trabalhar nos Estados Unidos sem perder a veia autoral – e ainda, de quebra, dar uma aula de como revitalizar gêneros aparentemente cansados. O primeiro foi o mexicano Alfonso Cuarón, que ensinou como a tecnologia ainda pode estar inteiramente a favor da narrativa de um blockbuster com o impressionante Gravidade. Já o segundo veio do Canadá, entregando esse suspense policial chamado Os Suspeitos. É Denis Villeneuve, que, anos atrás, concorreu ao Oscar por Incêndios e agora se aventura em terras estadunidenses sem qualquer sugestão que tenha se vendido ou se adaptado a padrões comerciais. Isso porque Os Suspeitos é um filme subversivo para o gênero e frequentemente inovador em pequenas decisões que, quando analisadas em conjunto, resultam em um dos filmes mais contundentes de 2013.

Os Suspeitos tem de tudo um pouco: do suspense policial ao drama familiar, da complexidade narrativa à simplicidade que não subestima a inteligência do espectador, do ritmo contemplativo à duração ágil… Mas o que existe de mais especial nesse longa é a forma como ele brinca com os limites de um filme policial, especialmente na figura de Keller (Hugh Jackman, em mais um desempenho marcante para a sua carreira, depois de Os Miseráveis), um protagonista totalmente anti-convencional. Seguindo basicamente a mesma lógica de que “eu não tenho provas, mas tenho a minha certeza” da freira maluca de Meryl Streep em Dúvida, Keller até tem a nossa compaixão pela situação angustiante que vive, mas também a nossa aversão, já que seu senso de justiça com as próprias mãos chega ao total descontrole. É na figura dele que está muito bem representado um dos maiores méritos de Os Suspeitos: o de que não existem respostas certas nessa trama e de que é difícil saber como agir em uma situação guiada por desespero.

Falar mais sobre a história é minar as surpresas desse longa consistente e repleto de surpresas, mas que em momento algum – ao contrário do recente Terapia de Risco – se apoia exclusivamente em excessivas reviravoltas para mostrar inteligência. Na realidade, elas são apenas parte de uma atmosfera bem construída, onde o roteiro muitíssimo bem elaborado de Aaron Guzikowski consegue mesclar várias histórias aparentemente sem ligação com total sentido, fechando cada ciclo sem deixar pontas soltas. A premissa por si só – o desaparecimento de um filho! – já é suficientemente angustiante, mas Os Suspeitos faz tudo (com êxito) para ampliar essa sensação. É uma vitória que vai além de um roteiro seguro e impactante, passando ainda por um grande trabalho de fotografia (o mestre Roger Deakins acerta mais uma vez, dessa vez tornando a história sempre nebulosa, sufocante, quase sem cores) e, claro, por uma direção extremamente no controle de cada um dos elementos, mas que não peca por se ater demais no rigor e menos na desenvoltura para alinhar todos os detalhes.

Muitos desaprovam o desfecho, que me parece ter incomodado justamente por ter uma revelação diferente e um teor que segue a linha das várias subversões narrativas do roteiro. Ao meu ver, ele só dá o fechamento ideal para essa história que permanece com o espectador depois do filme e que certamente instiga a revisões para que possamos perceber ainda mais outros detalhes da construção do quebra-cabeça. Muito além de Hugh Jackman, o elenco de Os Suspeitos é outro ponto forte da trama, visto que todos os atores possuem seu momento de brilho ou pelo menos personagens que estão ali para ter sua parcela de contribuição na solução/complexidade do suspense. O longa de Villeneuve, portanto, não é o policial de tiroteios, a investigação de resoluções desnecessariamente mirabolantes ou o drama de respostas fáceis. É melhor e mais envolvente do que isso, mas com a devida dose de sobriedade. Simples e completo, como há muito não víamos no gênero. Que venham mais exemplares assim, por favor.

FILME: 9.0

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Azul é a Cor Mais Quente

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Direção: Abdellatif Kechiche

Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ “Le Bleu est Une Couleur Chaude”

Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche, Benjamin Siksou, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Catherine Salée, Sandor Funtek, Anne Loiret, Benoît Pilot, Samir Bella, Maelys Cabezon

La Vie d’Adèle, França/Bélgica/Espanha, 2013, Drama, 179 minutos

Sinopse: Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que descobre, na cor azul dos cabelos de Emma (Léa Seydoux), sua primeira paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e com a moral vigente. (Adoro Cinema)

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Azul é a Cor Mais Quente fez história no Festival de Cannes: pela primeira vez, a Palma de Ouro – prêmio máximo concebido pelo evento -, foi oficialmente destinada a outras pessoas além do diretor. No caso, o júri presidido por Steven Spielberg entregou a distinção também às atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Uma exceção justa e coerente para este filme cujos maiores méritos se concentram exatamente nessas três figuras que compreenderam plenamente a preciosidade de uma história extremamente fiel à vida, com suas dores e alegrias. Ao longo de três horas, o diretor Abdellatif Kechiche faz justamente isso: conduz as duas atrizes por momentos totalmente de acordo com a realidade, extraindo ainda momentos singulares de cada uma delas.

O título original, A Vida de Adèle (em uma tradução literal), apesar de genérico, diz muito mais sobre o filme. Isso porque Azul é a Cor Mais Quente acompanha diversos momentos da vida de Adèle (Exarchopoulos), da sua juventude heterossexual no colégio a sua vivência como uma professora adulta que cultiva um relacionamento com uma mulher. No meio disso tudo, as pequenas e grandes descobertas, o primeiro amor, a auto-aceitação, a construção de uma vida a dois, os erros e os acertos… É, literalmente, a vida de Adèle, contada inteiramente  a partir do ponto de vista da protagonista. Desta forma, a ambiciosa duração – que é sentida mas nunca um empecilho – se revela completamente condizente com a proposta do diretor: ela é essencial para que cada momento tenha a profundidade e o impacto necessários, como se vivêssemos tudo aquilo pela primeira vez junto com Adèle.

Ou seja, Azul é a Cor Mais Quente não se utiliza de quase três horas de duração somente para narrar o maior número de fatos possíveis, mas sim para dar a devida emoção e verossimilhança a eles. Isso nos leva às tais “polêmicas” cenas de sexo, que só são chamadas assim por aqueles que não compreendem que toda a nudez e a longa duração de cada uma delas vai ao encontro dessa proposta do diretor de fazer com que o espectador acompanhe tudo com a mesma dose de surpresa e novidade que a protagonista. E esse compromisso com a vida real também se reflete, claro, no trabalho das duas atrizes, em especial no da extraordinária Adèle Exarchopoulos, a grande revelação do ano. No cinema desde 2007, quando debutou em Boxes, ao lado de Geraldine Chaplin, Adèle alcança aqui uma merecida visibilidade. É limitado resumir sua atuação à grande entrega física com Léa Seydoux, já que sua precisa interpretação acompanha todas as fases da personagem sem qualquer hesitação. É, enfim, um nome para acompanhar.

A sensação que se tem ao final de Azul é a Cor Mais Quente é que passamos por um turbilhão de acontecimentos, mas a verdade é que a intensidade que sentimos é muito mais em função da imersão proporcionada pelo roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ Le Bleu est Une Couleur Chaude. Por estarmos tão próximos de Adèle, sentimos cada uma de suas dúvidas e angústias. O que também merece ser ressaltado é que o longa está muito longe de qualquer pretensão. Em Azul é a Cor Mais Quente não existe uma insistência em metáforas ou uma vontade de trazer grandes complexidades a cada uma das situações propostas por Kechiche. E isso é muito positivo, pois, desta forma, o filme se torna muito mais natural e sem constantes rimas visuais ou de roteiro – ao contrário do que o título brasileiro implica no nosso inconsciente: a vontade de procurar azul em todas as cenas e dar significados a isso.

Favorito para ganhar todos os prêmios de filme estrangeiro da temporada (menos o Oscar, já que não foi lançado nas salas francesas no prazo exigido pela Academia para torná-lo elegível na categoria de melhor filme estrangeiro), Azul é a Cor Mais Quente se revela ainda mais sincero até mesmo nas suas curiosidades extra-filme: no set, por exemplo, Adèle e Léa não tinham maquiadoras ou cabeleireiras, apresentando-se frente às câmeras com aquilo que elas realmente são fisicamente. São esses detalhes valiosos que estabelecem o longa de Kechiche como um dos relatos mais coerentes com a vida que vimos nos últimos anos. É provável que se estenda desnecessariamente no final (a história poderia ter acabado perfeitamente na cena da cafeteria, sem a sequência da exposição), mas é pouco perto de um filme que lida muito bem com a questão da homossexualidade e das angústias e expectativas humanas. Crescer acontece mais rápido do que a gente imagina, diz Emma (Seydoux) em certo ponto. Adèle aprenderá isso. E nós, se ainda não chegamos a esse estágio, teremos esse mesmo aprendizado com a sua jornada.

FILME: 8.5

4