Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Mayara Bastos

mayaratresAutora do Apaixonada Por Cinema, a Mayara Bastos é, ao meu ver, uma cinéfila super sensível, fã de bons dramas e aberta a todos os tipos de experiências cinematográficas – o que vai muito de encontro com o meu próprio gosto para cinema. Também é uma blogueira com quem constantemente tenho contato nas redes sociais, onde sempre trocamos ideias sobre o que está rolando em relação a filmes e premiações. Já faz um certo tempo que nos conhecemos e posso dizer, sem sombra de dúvida, que ela é uma das figuras mais queridas com quem convivo nesse mundo de blogueiros cinéfilos. Por isso, além da afinidade cinematográfica, estava ansioso para ver a lista dela – que, claro, não me decepcionou. Duas das atuações escolhidas pela Mayara estão entre as minhas favoritas dos últimos anos. E a terceira, que ainda não conferi, certamente já está na minha lista para assistir muito em breve. Fiquem abaixo, então, com esta excelente lista da Mayara!

Carey Mulligan (Educação)
Confesso aqui que assisti a Educação em um momento decisivo de escolhas para o meu futuro. A Jenny de Carey Mulligan tem paixão pela cultura francesa e é muito bem instruída, tanto que estava se preparando para o “vestibular” de Oxford quando conheceu um homem maduro que lhe apresenta um dilema de aproveitar o momento ou construir um futuro. Mulligan dá a Jenny uma representação de duas mulheres em uma só: aquela menina doce e ao mesmo tempo decidida com seus objetivos.

Marion Cotillard (Ferrugem e Osso)
Minha admiração pela atriz francesa Marion Cotillard não é somente pela elegância europeia, mas também pela capacidade dela de aceitar desafios. Foi assim com Ferrugem e Osso de Jacques Audiard. Desafio não só por deixar a vaidade de lado, mas por construir a Stéphanie com todas as nuances e emoções possíveis, principalmente pelo fato de tentar retomar a vida após perder seus principais membros. Mesmo com a dramaticidade, ela dá uma esperança ao espectador de que é preciso superar os empecilhos na vida com muita força de vontade.

Saoirse Ronan (How I Live Now)
A nova-iorquina radicada na Irlanda Saoirse Ronan mostrou atuações notáveis em filmes como o belo Desejo e Reparação no papel da jovem Briony Tallis e no mediano Um Olhar do Paraíso. How I Live Now (Minha Nova Vida) é inédito no circuito brasileiro que possui um belo trabalho de direção do escocês Kevin Macdonald e mostra uma atuação madura e poderosa de Saoirse. Ela interpreta Daisy, uma jovem norte-americana que é mandada para Inglaterra a contragosto para passar férias com seus primos, ao mesmo tempo que começa uma nova guerra mundial. Aqui, Ronan captura bem os motivos de sua rebeldia adolescente, mas que vai mudando e compreendendo a força do amor no decorrer do filme, tornando-se mais humana.

Melhores de 2013 – Roteiro Adaptado

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Um belo filme sobre crescer e amadurecer, Azul é a Cor Mais Quente tem um roteiro que sabe exatamente como mostrar essa evolução: se utilizando da devida calma para fazer o espectador refletir sobre como cada pequeno momento da vida é capaz molda a nova pessoa que vamos nos tornando dia após dia. Baseado na HQ Le Bleu est une Couleur Chaude, o roteiro adaptado pelo diretor Abdellatif Kechiche em parceria com Ghalia Lacroix é menos sobre a descoberta da homossexualidade e mais sobre desbravar cada etapa da vida, da inevitável necessidade de achar um talento próprio ao precioso prazer de finalmente se conectar afetivamente a alguém. Mesmo com quase três horas de duração, Azul é a Cor Mais Quente nunca cansa e é um verdadeiro mergulho nas felicidades e angústias de uma protagonista em plena transformação. Todas elas desenvolvidas com impecável sutileza pelo roteiro de Kechiche e Lacroix.

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OUTROS INDICADOS:

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Mostrando que o simples drama familiar ainda pode ser muito envolvente, o roteiro de Álbum de Família explora diversos personagens com o devido destaque / Ferrugem e Osso é uma bela história de amor que não cai no melodrama graças também ao ótimo roteiro de Jacques Audiard e Thomas Bidegain / O texto de O Lugar Onde Tudo Termina sabe conduzir com grande precisão três histórias diferentes, mas também interligá-las mostrando como gerações se influenciam / Um dos longas mais sensíveis de 2013, As Sessões tem momentos emocionantes graças à sutileza com que seu roteiro lida com questões bastante delicadas.

EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

Time is luck. Don’t waste it living someone else’s life. Make yours count for something.

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Direção: Marc Webb

Roteiro: Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci, baseado em história de Alex Kurtzman, James Vanderbilt, Jeff Pinkner e Roberto Orci, e nos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DeHaan, Sally Field, Paul Giamatti, Chris Cooper, Felicity Jones, Colm Feore, Campbell Scott, B.J. Novak, Max Charles, Marton Csokas, Sarah Gadon

The Amazing Spider-Man 2, EUA, 2014, Aventura, 142 minutos

Sinopse: Peter Parker (Andrew Garfield) adora ser o Homem-Aranha, por mais que ser o herói aracnídeo o coloque em situações bem complicadas, especialmente com sua namorada Gwen Stacy (Emma Stone) e sua tia May (Sally Field). Apesar disto, ele equilibra suas várias facetas da forma que pode. No momento, Peter está mais preocupado é com o fantasma da promessa feita ao pai de Gwen, de que se afastaria dela para protegê-la. Ao mesmo tempo ele precisa lidar com o retorno de um velho amigo, Harry Osborn (Dane DeHaan), e o surgimento de um vilão poderoso: Electro (Jamie Foxx). (Adoro Cinema)

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Quando chegou aos cinemas em 2012, O Espetacular Homem-Aranha decepcionou por ser um desnecessário reboot da bem sucedida trilogia de Sam Raimi. Decepcionante no sentido de que apenas cinco anos tinham passado desde que a saga estrelada por Tobey Maguire havia se aposentado. O tempo era pouco para que o público desassociasse o herói do rosto de Maguire ou para que a história fosse recontada praticamente da mesma forma. O primeiro filme comandado por Marc Webb – recém saído do ótimo (500) Dias Com Ela -, parecia, então, uma apenas uma cópia inferior do excelente trabalho de Raimi.  Mais do que inferior, uma cópia até mesmo tediosa, cujo único grande mérito era trazer um casal infinitamente mais carismático. Por isso, as expectativas eram nulas para essa continuação produzida em apenas dois anos. E se esse reboot continua se mostrando injustificável, pelo menos agora o diretor já está se desgrudando do que vimos antes para explorar outras facetas do personagem. Com as devidas proporções, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro consegue ser um avanço desde o debut de Webb no mundo do aracnídeo.

É fato que os filmes de Raimi continuam trazendo saudades em praticamente todos os sentidos, mas agora terminaram as introduções dos personagens e suas motivações começam a ficar mais claras. Essa qualidade surtiria mais efeito caso o filme não tivesse tantos problemas de estrutura e excessos – o que fica evidente logo nos primeiros minutos, quando o roteiro escrito pelo trio Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci dedica sua longa sequência a um fato envolvendo o passado de Peter Parker (Andrew Garfield) para depois só tocar no assunto brevemente ao longo do filme. Por que abrir o longa com tanto destaque a esse fato, então? Só que o problema mais sério de todos é justamente aquele que atingiu Homem-Aranha 3, o pior longa comandado por Raimi na antiga franquia: o grande número de vilões. Qualquer espectador mais desatento consegue sentir que não havia necessidade de introduzir três inimigos neste filme. O Electro de Jamie Foxx já cumpre a missão de antagonista da vez e, por isso, apresentar Harry Osborn na metade para somente na meia hora final transformá-lo em Duende Verde é pura perda de tempo. O jovem Dane DeHaan continua ótimo para o tipo conturbado, mas sua história soa como algo paralelo e avulso. Pior ainda é a situação de Rino, vivido por um descontrolado Paul Giamatti que, em duas cenas, já surge como uma figura completamente desinteressante.

Tal excesso traz uma grande dispersão para a trama e tantas alegorias de vilões nos remetem aos tempos de Batman Eternamente, filme que era um festival colorido e fantasioso de uma cidade ameaçada pelos mais diversos tipos de antagonistas. Sem falar da grande falta de ritmo, especialmente porque O Espetacular Homem-Aranha 2 leva duas horas e meia para contar sua história, tornando-se, desnecessariamente, o filme mais longo já feito sobre o personagem. O que faz a diferença – para o bem ou para o mal, dependendo do espectador – é que o longa de Webb retoma um tipo de super-heroi em extinção: aquele caricatural, bem de quadrinhos mesmo, com romance idealizado, piadinhas e vilões eloquentes. Em tempos que o realismo é cada vez mais comum em histórias de HQ’s, tal escolha soa como antiquada ou saudosista? Cabe ao espectador decidir. Detalhes à parte, o conjunto geral funciona, com o devido aprofundamento de personagens e com o acerto de ser até bastante sentimental. Todo romance de Peter e Gwen Stacy (Emma Stone) é funcional não só pelo carisma dos atores, adoráveis juntos, mas porque a história sabe aproveitar bem o sentimento de culpa de Peter, seu afastamento para não colocar a amada em perigo e também seu impulso de estar sempre próxima dela de um jeito ou de outro. A trama chega a ser emocionante nesse sentido, com um desfecho até corajoso para o gênero.

Outro aspecto que se resolve em O Espeacular Homem-Aranha 2 é a ação, agora melhor pontuada, com efeitos infinitamente melhores que o primeiro (que tinha um lagarto horroroso quase vindo de um videogame) e que só melhoram as sequências que exigem adrenalina, com admiráveis voos do Homem-Aranha. Pequenas cenas também são preciosas: a conversa da tia May (Sally Field) com Peter sobre o passado de seus pais é sincera e traz o que existe de melhor em uma interpretação de Sally: a fragilidade, não as caras e bocas que tanto lhe caracterizam com o passar do tempo. A relação do Aranha com seu publico ainda rende mais um pequeno grande momento: aquele em que ele salva um garoto do bullying, conserta sua maquete destruída e o acompanha a pé até a escola para que chegue a salvo. Em suma, o reboot continua sem necessariamente empolgar, enquanto os de Raimi já despertavam emoção logo nos créditos de abertura com o inesquecível tema de Danny Elfman (o que também é relativamente corrigido aqui, com uma trilha melhor de Hans Zimmer em parceria como grupo The Maginificent Six), mas é bom ver que dessa vez o tédio não impera e que de certa forma a sensação de repetição e mera cópia deixa de existir. Pena que um pouco tarde, já que a nova franquia termina no próximo filme.

Na TV… uma aula chamada The Good Wife

Episódios como Hitting the Fan provam o porquê de The Good Wife ser uma das melhores séries em exibição mesmo depois de cinco anos

Episódios como Hitting the Fan provam o porquê de The Good Wife ser uma das melhores séries em exibição mesmo depois de cinco anos no ar

“Não se deixe enganar pelo nome”, dizia o cartaz da quarta temporada de The Good Wife, fazendo alusão ao próprio título da série, que aponta a trajetória de Alicia Florrick (Juliana Margulies) como a esposa perfeita que não se permite errar ou sequer explodir em lágrimas nos momentos de tristeza. Mas se em anos anteriores ela já tinha começado a desconstruir a imagem da mulher que muitas vezes abdica de seus sentimentos e escolhas para manter as aparências e agradar os outros, agora, na quinta temporada, que terminou no último domingo (18), ela finalmente saiu de trás das cortinas e chegou ao palco – e o melhor de tudo: o fez na temporada mais fabulosa deste programa que, mais do que nunca, alcança seu auge como um verdadeiro modelo a ser seguido pelas séries de TV aberta.

Agora Alicia Florrick traça os seus próprios rumos profissionais sem depender da ajuda de outros. Também xinga o marido Peter (Chris Noth) como bem entende. Assume suas traições – sejam elas pessoais ou profissionais -, e diz não se arrepender de nenhuma delas. Se em um primeiro momento tais transformações sugerem um tom meio repentino, basta observar toda a trajetória da série para perceber que a virada da personagem era mais do que necessária e esperada. Chegou a vez de Alicia brilhar e fazer a sua própria vida – mesmo que, em muitos casos, ela tenha que sofrer mais do que esperava e rever muitos de seus conceitos há anos enraizados. A trajetória de Alicia, por sinal, é acompanhada com maestria por Julianna Margulies, que, a cada episódio, reforça ser uma atriz que tem domínio completo das facetas da personagem que interpreta.

Na quinta temporada, Christine Baranski teve os seus melhores momentos como Diane Lockhart em toda a série

Como Diane Lockhart, a ótima Christine Baranski teve, na quinta temporada, os seus melhores momentos em toda a série

Mas antes a quinta temporada de The Good Wife fosse exclusivamente sobre Alicia Florrick. É muito mais do que isso. Neste ano, a série deu maior espaço para outros personagens, em especial Will Gardner (Josh Charles) e Diane Lockhart (Christine Baranski), que, devido a eventos decisivos no episódio Hitting the Fan (o melhor e mais eletrizante já feito pela série), passam a ter uma importância singular na trama. Repleta de embates que afloram o talento do elenco e de reviravoltas bastante corajosas para um programa que ainda não tem seu desfecho confirmado, a quinta temporada de The Good Wife continua a desenvolver o talento da série de lidar com múltiplos personagens. Se Kalinda Sharma (Archie Panjabi) perdeu o mistério e o encantamento que cultivou em anos anteriores, os atores convidados continuam a roubar a cena – em especial Michael J. Fox, perfeito como o insuportável Louis Canning.

A excelência da série, contudo, não está necessariamente em aspectos isolados como o grande momento da elegante Christine Baranski na história (e é uma pena que ela tenha que concorrer na temporada de premiações com a imbatível Anna Gunn, por Breaking Bad), a forma como os roteiristas sabem lidar cada vez mais com o humor, a dor imensurável que a história traz para a protagonista após uma tragédia, a constante evolução inventiva da trilha sonora de David Buckley ou a desenvoltura mais fluente dos diretores (raccords sonoros e movimentos de câmera nunca chamaram tanta atenção no programa). O que encanta no quinto ano de The Good Wife é justamente o conjunto de todos os episódios da temporada e, principalmente, a sinergia deles com tudo o que já foi realizado no programa em mais de 100 capítulos.

Alicia Florrick (Julianna Margulies) nunca foi tão autêntica, mas tampouco teve que lidar com tantas dificuldades ao longo trama como no quinto ano

Alicia Florrick (Julianna Margulies) nunca foi tão autêntica como no quinto ano, mas tampouco teve que lidar com tantas dificuldades ao longo da trama

É extremamente comum que um programa de mais de 20 episódios por temporada se perca após os seus primeiros anos. Especialmente quando eles são tão longos (mais de 40 minutos) e estruturados a partir da lógica de um caso por episódio. Não é o que acontece com The Good Wife. A série criada por Michelle e Robert King nunca perde o fôlego, sempre reforçando a lógica de que, quando não tem acontecimentos para necessariamente movimentar a trama, precisa pelo menos desenvolver seus personagens e plantar dicas para o que está por vir. É um belíssimo exemplo de planejamento e maturidade, onde personagens não somem e aparecem sem explicações e situações são retomadas apenas por falta de assunto. Tudo em The Good Wife tem um propósito.

O resultado da temporada é precioso por todas essas razões e porque a série faz parte da TV aberta. Se já é difícil um programa tão longo chegar em sua quinta temporada sem tropeços, o que dizer, então, de um programa que consegue fazer isso ciente de que sua audiência é infinitamente maior, que seu canal depende de anunciantes e que sua concepção não deve ser tão erudita ou complexa para não afastar o público mais convencional? Mas The Good Wife venceu e provou que é possível fazer tudo isso com grande dinamismo e a devida inteligência. Se Breaking Bad, há pouco tempo, deu a aula suprema de como construir a trajetória perfeita de um drama para os moldes da TV por assinatura, The Good Wife repete o feito de ser uma aula – e talvez com ainda mais méritos por ser tão refém de dinheiro, estatísticas e audiência na TV aberta.

Melhores de 2013 – Trilha Sonora

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É gratificante ver – ou mais especificamente ouvir – que a grandiosidade técnica de Gravidade tem uma trilha sonora à altura. Devidamente premiado no Oscar, o trabalho de Steven Price (que já havia trabalhado como assistente nos departamentos de trilha de filmes como O Senhor dos Aneis) dialoga perfeitamente com cada cena do filme de Alfonso Cuarón. É a contextualização certa para um longa que já tem um trabalho de som fenomenal e que, com as melodias de Price, ganha singularidades extras em função da trilha. O encerramento, particularmente, ao som de Gravity, a canção-tema, é um dos pontos altos. E a própria cena de Ryan (Sandra Bullock) tentando voltar à Terra com Shenzou tem sua força impulsionada pela composição de Price. Há tempos que um filme desse porte não tinha uma trilha com uma excelência proporcional.

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OUTROS INDICADOS:

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A indiscutível elegância de Anna Karenina hipnotiza ainda mais com outro belíssimo trabalho de Dario Marianelli / A envolvente trilha do brasileiro Marcelo Zarvos para Flores Raras pontua certeiramente todos os momentos do filme / Inventiva e eclética, a trilha de Indomável Sonhadora é um dos pontos altos da história de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) / Jonny Greenwood ajuda O Mestre a entrar na cabeça do espectador com um trabalho quase perturbador.

EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Tão Forte e Tão Perto | 2011 – A Última Estação | 2010 – Direito de Amar | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – A Rainha