Cinema e Argumento

Rapidamente

O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, é, desde já, um dos filmes mais provocativos do ano.

O Homem Duplicado, do canadense Denis Villeneuve, é, desde já, um dos filmes mais provocadores do ano.

ERA UMA VEZ EM NOVA YORK (The Immigrant, 2013, de James Gray): Exibido no último Festival de Paulínia, é um longa cercado de superlativos, já que o próprio diretor James Gray declarou que este é o seu melhor filme e que Marion Cotillard foi a melhor atriz com quem trabalhou até hoje. A crítica também caiu de amores por este longa, e até agora tento entender o porquê de tanta comoção. É fato que Cotillard (que só se aperfeiçoa com o tempo) é o ponto alto da história, mas a trama novelesca não ajuda: a Ewa Cybulska da atriz é basicamente a injustiçada imigrante que apenas quer uma vida melhor, cujo todos os atos “repreensíveis” (como um roubo, por exemplo), são justificados. Além disso, ela é disputada por dois homens completamente diferentes (Joaquin Phoenix e Jeremy Renner) e não consegue escolher entre eles. Um triângulo amoroso, claro, para completar o melodrama. Todo Era Uma Vez Em Nova York é assim: previsível com uma atriz maravilhosa carregando a história nas costas. Não é pela ausência de grandes resoluções ou por reviravoltas que o filme decepciona, mas por simplesmente ser óbvio demais para um diretor que, no seu filme anterior (o belo Amantes), tinha sido tão profundo e contrário a emoções fáceis.

O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, de Denis Villeneuve): Foram somente Ensaio Sobre a CegueiraO Homem Duplicado as obras que José Saramago liberou para adaptação enquanto ainda estava vivo. Se o primeiro, levado às telas com bastante dignidade por Fernando Meirelles, mexeu com várias plateias, O Homem Duplicado repete o feito, mas, dessa vez, sendo muito mais provocativo em diferentes níveis. Dirigido pelo talentoso Denis Villeneuve, é um filme complicado por induzir o espectador a acreditar que é meramente uma história investigativa mas que, na realidade, é sobre uma outra temática só percebida com um olhar extremamente clínico. Por isso, quando o O Homem Duplicado chega ao fim, escancarando uma metáfora que obriga o espectador a procurar significados, a irritação vem à tona – e parte de cada um descobrir até que ponto as discussões levantadas pela tal metáfora são geniais. Mas isso não é razão para depreciar o resto do filme, que tem uma constante atmosfera da angústia, tanto em função da estética (a fotografia amarelada é quase sufocante) quanto da própria condução em termos de direção e roteiro. Um trabalho provocativo – e até bastante diferente de tudo realizado por Villeneuve anteriormente – e que escapa de qualquer indiferença, para o bem ou para o mal.

MUPPETS 2: PROCURADOS E AMADOS (Muppets Most Wanted, 2014, de James Bobin): O primeiro tinha suas fragilidades, mas era um irresistível e ingênuo encontro com os adoráveis personagens, além de ser ajudado por uma trilha sonora contagiante e por vezes emocionante (Pictures in My Head permanece inesquecível neste sentido). Mas o segundo volume não tem o mesmo encanto e talvez seja por isso que as falhas fiquem bem mais evidentes. A sátira ganha maior espaço e o elenco continua nobre (Ricky Gervais! Tina Fey!), com pontas de luxo de estrelas musicais como Lady Gaga e Céline Dion. Só que falta novidade e as piadas estão menos originais, o que faz com que os personagens não segurem a trama sozinhos. Muppets 2: Procurados e Amados, dessa forma, se torna completamente esquecível, em uma uma sessão quase arrastada. É uma sequência desnecessária e que deve selar a trajetória contemporânea de Kermit e sua turma (pelo menos aqui no Brasil, o filme passou muito discretamente pelas salas, ao contrário do antecessor).

PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO (Dawn of the Planet of the Apes, 2014, de Matt Reeves): Em uma primeira análise, pode parecer que a continuação deu um (grande) salto apenas na parte técnica, mas basta prestar a atenção conceitualmente em Planeta dos Macacos: O Confronto para perceber que este é também um longa muito mais maduro em suas ideias. Com a saída de Rupert Wyatt e a entrada de Matt Reeves na direção, não existe mais o extremo de que os humanos são exclusivamente a representação do mal enquanto os macacos são retratados como apenas as vítimas. Nada disso, pelo contrário: a sequência faz questão de mostrar que nenhuma espécime está isenta do corrompimento e da maldade. Com isso, Planeta dos Macacos: O Confronto, mesmo sendo demorado para começar sua história, se torna bastante tenso: é impossível definir definitivamente em quem confiar, principalmente porque os conflitos entre humanos e macacos são bem conduzidos, resultando em consequências bastante sérias e plausíveis. A intensa adrenalina das cenas de ação  ainda ajudam a dar o tom trabalhando com uma parte técnica simplesmente exemplar (efeitos, som e trilha sonora são dignos de aplausos).

A Culpa é das Estrelas

I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.

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Direção: Josh Boone

Roteiro: Michael H. Weber e Scott Neustadter, baseado no romance homônimo de John Green

Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Nat Wolff, Lotte Verbeek, Ana Dela Cruz, Randy Kovitz, David Whalen, Milica Govich, Emily Peachey, Tim Hartman, Jean Brassard

The Fault in Our Stars, EUA, 2014, Drama, 126 minutos

Sinopse: Diagnosticada com câncer, a adolescente Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) se mantém viva graças a uma droga experimental. Após passar anos lutando com a doença, ela é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio cristão. Lá, conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), um rapaz que também sofre com câncer. Os dois possuem visões muito diferentes de suas doenças: Hazel preocupa-se apenas com a dor que poderá causar aos outros, já Augustus sonha em deixar a sua própria marca no mundo. Apesar das diferenças, eles se apaixonam. Juntos, atravessam os principais conflitos da adolescência e do primeiro amor, enquanto lutam para se manter otimistas e fortes um para o outro. (Adoro Cinema)

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Logo no primeiro momento de A Culpa é das Estrelas, a protagonista Hazel Grace (Shailene Woodley) afirma que existem várias maneiras de contar uma história triste – e que, na maioria das vezes, o esquema é sempre o mesmo: pessoas bonitas aprendendo lições de vida. Hazel, no entanto, faz questão de se desculpar e avisa que a sua história não será óbvia assim. Pouco eu sabia do bestseller que deu origem ao filme, a não ser que a história era um romance teen e que a menina tinha câncer. Por isso, fui fisgado por essa promessa inicial do filme que apontava para algo diferente e franco – o que muito me interessa. Mas, infelizmente, não é o que ocorre: A Culpa das Estrelas não cumpre a sua promessa e, mesmo sendo um sucesso literário e cinematográfico perfeitamente compreensível, fica bem perto de só entregar banalidades.

Não existe nada de muito novo nesse segundo longa-metragem de Josh Boone, especialmente porque a produção é um filme de viés mais comercial e em parte dirigido a adolescentes, o que faz com que diminuam as chances do diretor fazer algo realmente ousado. Também é por isso que, neste sentido, A Culpa é das Estrelas tem uma repercussão aceitável: existe emoção no filme; simplista, mas existe – e isto é o suficiente para agradar o grande público. Outro problema é que a história fala de câncer, mas o usa apenas como o grande empecilho na vida do casal. A doença não traz reflexões individuais ou sofrimentos relativos à vida em si, por exemplo; é unica e exclusivamente o que impede que o casal fique junto.

Voltando à promessa feita pela protagonista do filme, a teoria de que histórias tristes sempre são encenadas por pessoas bonitas é contraditoriamente aplicada aqui. Vejam o Gus de Ansel Elgort, que, se não é é o clássico galã teen de romances colegiais da Disney, é pelo menos o namorado idealizado, educado, romântico e de frases prontas. Já a Hazel Grace de Shailene Woodley de fato escapa de belezas fáceis, mas, novamente, é quase uma personagem sem defeitos, cujo único olhar dramático que paira em sua personalidade é o fato de não ser feliz com o seu mais novo amor em função do câncer. São pessoas gentis e sonhadoras, que não chegam nem a ter personalidades mais complexas ou difíceis, sendo ainda questionavelmente jovens demais para palavras e reflexões tão “bonitas”.

Todos têm suas vontades realizadas em A Culpa é das Estrelas (até mesmo uma viagem internacional em tempos de dificuldades financeiras na família!), os pais não têm outra função a não ser cuidar dos filhos (e que desperdício de Laura Dern!) e até mesmo o esconderijo que simboliza o horror nazista da vida de Anne Frank vira palco de um beijo romântico misteriosamente aplaudido por todos os visitantes do local. A trilha indie ajuda a dar o clima, e algumas coisas realmente se sobressaem, com destaque para Shailene Woodley, a atriz mais interessante de sua geração, que se diferencia totalmente do papel que desempenhou em Os Descendentes, tirando tudo de letra. Só que no geral A Culpa das Estrelas é mais do mesmo. Não é que o romance tivesse que ser a depressão de Uma Lição de Vida (estrelado por Emma Thompson e possivelmente o filme mais doloroso já realizado sobre câncer), mas que então fosse pelo menos franco e não prometesse logo na abertura algo que não seria capaz de cumprir. É feio mentir – ou simplesmente não conseguir julgar de longe a sua própria história.

Três atores, três filmes… com Stella Daudt

stellatresSou muito fã da Stella Daudt, a autora do By Star Filmes. Admiro essa sensibilidade dela ao assistir a filmes e ao escrever sobre eles. Tenho para mim que a Stella é uma cinéfila que mede a grandeza de um filme por seus significados e pela forma como ele toca o espectador, muito antes de sua técnica ou do nome do diretor, por exemplo. Penso e assisto a filmes da mesma maneira, e talvez venha daí o meu apreço cinematográfico por ela. Conversando com a Stella, descobri que escolher três interpretações para esta seção não foi uma tarefa nada fácil para essa convidada. E o resultado foge de qualquer escolha óbvia ou previsível, trazendo escolhas que, sem dúvida, podem servir de guia para que cinéfilos descubram outras pequenas grandes interpretações que não foram necessariamente tão celebradas. Mais do que tudo, é uma lista que é a cara da Stella. Confiram:

Maggie Smith (Assassinato em Gosford Park)
A irônica Constance Trentham é uma precursora de Lady Violet Crawley, a condessa viúva em “Downton Abbey”.  Ambas destilam ironia e comentários sarcásticos em abundância, não respeitando criatura alguma. No papel de Violet, embora evite criancinhas, Maggie ainda mostra empatia e humanidade por seus semelhantes. Já como Constance Trentham, ela não perde a chance de fazer uma piada maldosa e só se importa com ela mesma. Que diferença de Charlotte Bartlett, a aborrecida prima pobre que Maggie interpretou em “Uma Janela para o Amor”! Maggie Smith é uma das mais brilhantes e completas atrizes inglesas vivas, uma versão feminina do talentoso Sir John Gielgud. Deus lhe dê saúde e memória para seguir atuando até o fim de seus dias!

Leila Diniz (Todas as Mulheres do Mundo)
No filme de Domingos de Oliveira, a Maria Alice criada pela Leila consegue ser modesta, responsável, uma companheira afetuosa e, ao mesmo tempo, sensual e divertida. Em alguns momentos ilumina a tela com um sorriso contagiante, para depois nos entristecer com um semblante reflexivo ou melancólico. Seu desempenho torna fácil perceber o que o mulherengo Paulo sente: para estar só com ela, valeria a pena deixar todas as outras. Maria Alice era “todas as mulheres do mundo”. A história é uma belíssima declaração de amor de Domingos de Oliveira a Leila Diniz. Para quem ainda não viu o filme, vale a pena assistir e conhecer o desempenho primoroso de uma atriz natural, sensível e inteligente.

Jacques Tati (Mon Oncle)
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958. A criação de Tati como Monsieur Hulot, o tio distraído do menino Gérard Arpel, e um senhor socialmente desajeitado e totalmente adorável – toca o coração e fica na memoria.  Os Arpel, os pais de Gérard, são gente moderna, muito ocupada e um tanto impessoal; tudo o que Hulot não é. Sua simplicidade conquista o sobrinho e a nós. Graças à terna interpretação de Jacques Tati, Hulot foi um dos personagens que permaneceu comigo desde a infância.

O filme de abertura e os homenageados do 42º Festival de Cinema de Gramado

O suspense Isolados é o filme de abertura do 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Dan Behr

O suspense Isolados é o filme de abertura do 42º Festival de Cinema de Gramado.

Em dia que os paulistas começam a celebrar o retorno do Festival de Paulínia, a serra gaúcha também manda lembranças ao circuito de festivais com novidades para a 42ª edição de seu Festival de Cinema de Gramado, que acontece de 8 a 16 de agosto. Se os eventos tem dois filmes em comum em suas mostras competitivas (Infância, de Domingos Oliveira, e Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas), as propostas de cada um se mostram bem distintas.

Gramado anunciou hoje (22) que abre sua programação com o suspense Isolados. Protagonizado por Bruno Gagliasso e Regiane Alves, o filme marca o último trabalho no cinema do agora saudoso José Wilker, que desde 2012 era curador do Festival e anos antes tinha sido apresentador do evento em diversas edições. É um agradecimento do Festival a Wilker – e, certamente, um carinho que falará mais do que qualquer resultado do filme. O quarteto de homenagens desta edição também foi divulgado. A força das distinções entregues por Gramado é um diferencial (mesmo com a sentida falta de uma dama entre os homenageados deste ano), e em 2014 a multiplicidade de perfis é uma marca.

Recebendo o Troféu Oscarito (destinando a grandes atores) está o paulista Flávio Migliaccio, que em muito se assemelha a vários nomes do cinema estadunidense como Margo Martindale e Richard Jenkins. Ou seja, é aquele ator que tem uma extensa filmografia, mas cujo nome não está na ponta da língua do público – seja por nunca ter tido um grande papel ou um sucesso estrondoso de público. Isso é ruim? Longe disso. É até raro encontrar uma homenagem como essa, que celebra um ator talentoso, trabalhador e que já atuou com as mais variadas gerações de profissionais e que sempre se manteve em cena.

Responsável pela fotografia de clássicos do cinema nacional como Central do Brasil e Lavoura Arcaica, Walter Carvalho é um dos homenageados

Responsável pela fotografia de clássicos do cinema nacional como Central do Brasil e Lavoura Arcaica, Walter Carvalho é um dos homenageados desta edição

Quem recebe o Troféu Eduardo Abelin (homenagem para cineastas) é Walter Carvalho. A filmografia fala por si só: são mais de 100 trabalhos como fotógrafo no cinema brasileiro, incluindo clássicos como Central do Brasil Lavoura Arcaica. E ainda vale lembrar que Carvalho é diretor: fez Cazuza – O Tempo Não Para ao lado de Sandra Werneck, adaptou o livro Budapeste, de Chico Buarque, e fez um documentário sobre Raul Seixas, entre outros. Homenagem mais do que merecida.

Já o Troféu Cidade de Gramado, que tem se revelado muito mais um agradecimento da cidade a importantes nomes do cinema do que propriamente um prêmio para artistas ligados à cidade e ao evento, fica com Rodrigo Santoro. É certo que sua carreira lá fora não deu muito certo (ficou no limbo: não estourou como galã e também não deu certo nas produções alternativas), mas o que ele fez aqui no Brasil merece muitos aplausos, da sua contundente atuação no impressionante Bicho de Sete Cabeças ao seu mais recente retrato do jogador de futebol Heleno de Freitas em Heleno, ele é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes de sua geração.

Fechando o quarteto de homenagens vem o ator franco-argentino Jean Pierre Noher, muito famoso nas telenovelas argentinas, mas também com uma boa filmografia lá fora. Tanto que despontou no Brasil (atualmente está no remake de O Rebu) e chegou a ser recomendado por ninguém menos que Fernanda Montenegro (atuaram juntos em Redentor) a Walter Salles para o elenco de Diários de Motocicleta. Em Gramado, Noher já ganhou um Kikito especial do júri em 2001 por sua atuação em Um Amor de Borges. Todos têm presença confirmada em Gramado.

O Grande Hotel Budapeste

 There are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity.

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Direção: Wes Anderson

Roteiro: Wes Anderson, baseado em história própria com Hugo Guinness e nos contos de Stefan Zweig

Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, Saoirse Ronan, Jude Law, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Bob Balaban

The Grand Budapest Hotel, EUA/Alemanha/Reino Unido, 2014, Aventura, 100 minutos

Sinopse: No período entre as duas guerras mundiais, o famoso gerente de um hotel europeu conhece um jovem empregado e os dois tornam-se melhores amigos. Entre as aventuras vividas pelos dois, constam o roubo de um famoso quadro do Renascimento, a batalha pela grande fortuna de uma família e as transformações históricas durante a primeira metade do século XX. (Adoro Cinema)

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Particularmente, nunca pensei que fosse dizer que Wes Anderson se tornaria um dos meus diretores favoritos em atividade. Isso porque, anos atrás, seus trabalhos em nada me comoviam: Os Excêntricos Tenenbaums é a obra mais superestimada e tanto A Vida Marinha Com Steve Zissou quanto Viagem a Darjeeling beiram o insuportável. Mas eis que ele veio com o originalíssimo O Fantástico Sr. Raposo, o irresistível Moonrise Kingdom e, agora, O Grande Hotel Budapeste, filme que é facilmente o ponto alto de sua carreira até agora. Não dá para esconder o entusiasmo com essa escalada que ele vem fazendo nos últimos anos, especialmente quando o mais novo longa não tem um ingrediente novo sequer: é simplesmente o aperfeiçoamento de várias escolhas recentes. Ao contrário de outros realizadores que erram ao repetir estilos, Anderson só se aprimora – e o resultado em momento algum descamba para a reciclagem.

Falar sobre como o diretor aprendeu de uma vez por todas a controlar os maneirismos que tanto prejudicavam seus filmes antes da era Raposo ou sobre como eles passaram a ser tão encantadores que só sendo muito de mal com a vida para odiá-los é cair no lugar-comum. O Grande Hotel Budapeste é o auge da criatividade desse profissional que aqui expande inúmeros talentos e ainda faz o seu trabalho mais ambicioso do ponto de vista técnico. Se você pensava que Moonrise Kingdom trazia o que existia de melhor em direção de arte e figurinos em prol do encantamento de uma história, esperem por Budapeste, que tem um design de produção realmente imponente, inventivo e de acordo com tudo o que a história e seus personagens simbolizam. Cores e cenários saltam aos olhos, fazendo com que o espectador compreenda o porquê do protagonista vivido por Ralph Fiennes e todos os outros personagens terem um carinho e respeito imenso por este refinado hotel que dá título ao filme.

Muito bem ambientando por uma das trilhas mais inspiradas da carreira do francês Alexandre Desplat (e seria perfeito se alguma celebração finalmente viesse por esse trabalho), O Grande Hotel Budapeste tem uma história extremamente fluente e ágil, que, muito além do roubo de um quadro e dea saga de alguém tentando provar sua inocência diante de um crime, fala também sobre memórias, amores, aprendizados e lealdades, além de reflexões que volta e meia se revelam atuais para nossa época (“ainda existem resquícios de civilização nesse matadouro que um dia conhecemos como humanidade!”).  Este filme é outra prova de como Wes Anderson tem cada vez mais se distanciado do mero apuro técnico e do total controle de tom de suas histórias. Ele ainda se mostra mais criativo nos movimentos de câmera, na forma como enquadra seus personagens e em tantos outros detalhes que colaboram para a funcionalidade do filme.

Encabeçando um elenco inspiradíssimo e estelar, Ralph Fiennes (que há anos merecia um destaque e um papel com desafios como esse) está perfeito como o emblemático Gustave, tendo como suporte atores em pontas de luxo e participações que roubam a cena (como a irreconhecível Tilda Swinton, que até merecia mais espaço em cena, mas está sempre presente no imaginário do espectador). São vários personagens, situações e cenários que o filme sabe administrar com total equilíbrio, especialmente porque a história tem resoluções convincentes, um clímax com direito até a  ação empolgante e singela dose de afetividade e emoção. Irresistível, O Grande Hotel Budapeste merece facilmente estar na lista de melhores do ano – e, caso estreasse mais para o final do ano, seria  favorito a ocupar várias vagas na temporada de premiações. Se Wes Anderson continuar nesta escala de evolução, é bem provável que o seu próximo filme alcance a perfeição.