Cinema e Argumento

A vez de Julianne Moore (finalmente?)

Por Still Alice, Julianne Moore deve finalmente receber o reconhecimento que há anos merece nas premiações

Por Still Alice, Julianne Moore deve finalmente receber o reconhecimento que há anos merece nas premiações de cinema

Fora Glenn Close, não deve existir atriz mais injustiçada pelas premiações de cinema do que Julianne Moore. Muito se fala em Amy Adams atualmente (o que é errado, já que, apesar das várias indicações, ela nunca teve um grande papel ou momento em que merecia levar todas as estatuetas possíveis), mas não existe intérprete mais respeitada, querida, trabalhadora e talentosa que ainda não tem um Oscar em casa como Julianne Moore. Se Kate Winslet já fez as pazes com o Oscar anos atrás e Glenn Close parece ter saído do circuito dos bons filmes há anos para ter maiores chances, resta apenas Moore para a Academia finalmente quitar uma grave dívida. E, ao que tudo indica, a coroação já parece garantida para 2015 com Still Alice.

Não gosto de fazer afirmações categóricas com muita antecipação, mas, assim como Cate Blanchett ano passado, tudo indica que, sim, Julianne Moore é disparada a favorita para a próxima temporada de premiações na categoria de melhor atriz. Não era até pouco tempo atrás, mas bastou Still Alice estrear no Festival de Toronto para a atriz ser ovacionada e despontar como a grande aposta para uma categoria que até então só tinha como favoritas nomes já consagrados como Hilary Swank (The Homesman) e Reese Witherspoon (Livre). De lá para cá, as críticas positivas para o desempenho de Moore se tornaram constantes e recentemente a atriz já foi indicada ao Independent Spirit Awards (que ano passado também premiou Blanchett), faturou o National Board of Review e teve anunciada uma homenagem no festival de Palm Springs para janeiro.

Vale lembrar que Still Alice por si só já carimba Julianne Moore como pelo menos uma candidata de respeito aos prêmios. A razão é muito simples: o filme da dupla Wash Westmoreland e Richard Glatzer é sobre uma professora de letras precocemente diagnosticada com Alzheimer na faixa de seus 50 anos. Sim, Alzheimer. Todos nós sabemos como os votantes de qualquer prêmio adoram uma enfermidade, não? Mas muito mais do que o filme em si, a circunstância está toda a favor da atriz: não é apenas o ano fraco para as intérpretes femininas que está ao seu lado, mas também o notável renascimento de sua carreira nos últimos anos.

Celebrada em Cannes com Mapa Para as Estrelas (ela agora tem a trinca dos festivais de cinema mais importantes do mundo: Berlim por As Horas, Veneza por Longe do Paraíso e agora Cannes por Mapa), Julianne Moore parece estar em todos os cantos. No início de 2014 participou do razoável suspense Sem Escalas ao lado de Liam Neeson, recentemente chegou aos cinemas com o furacão comercial Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 e futuramente ainda vai para as salas de cinema com a fantasia O Sétimo Filho. Natalie Portman sabe bem como estar em tantos filmes ajuda em uma campanha (na época de Cisne Negro ela também estrelava Entre Irmãos e Sexo Sem Compromisso). Uma lógica que também deve ajudar Moore na campanha ao Oscar.

Impossível não mencionar ainda que, na bagagem da atriz, está uma recente e bem sucedida passagem pela TV. Como a republicana Sarah Palin no excelente telefilme Virada no Jogo, da HBO, Moore ganhou todos os prêmios da temporada, reforçando seu prestígio entre os colegas de profissão. E curiosamente é justamente nas premiações de cinema (ou mais especificamente na falta delas) que a atriz carrega sua maior força para possível consagração com Still Alice. Afinal, são quatro derrotas no Oscar onde duas delas poderiam ter sido facilmente evitáveis. Em termos de merecimento, seria extremamente justo premiá-la duplamente por As Horas e Longe do Paraíso em 2003. Ou, então, logo em sua primeira indicação por Boogie Nights em 1998. O caso mais grave, obviamente, é o de As Horas, onde perdeu para Catherine Zeta-Jones em Chicago.

As injustiças em prêmios, porém, vão muito além das indicações sem vitória. Foram diversas as vezes que Julianne Moore merecia ter concorrido ao Oscar e sequer chegou entre as finalistas. No início dos anos 1990, a lembrança já deveria ter vindo por Short Cuts – Cenas da Vida. Depois por Magnólia em 1999. Em 2008, talvez, por Ensaio Sobre a Cegueira? E com certeza absoluta em 2010 pelo lindo momento que compartilhou com Colin Firth em Direito de Amar e também em 2011 por Minhas Mães e Meu Pai (onde está, inclusive, melhor que a sua companheira indicada Annette Bening). Engana-se, porém, quem pensa que a dívida é apenas do Oscar: Julianne Moore sequer tem um Globo de Ouro, um SAG ou um BAFTA por desempenho em cinema. Simplesmente inacreditável.

Obviamente sua carreira teve um grande momento de baixa nos anos 2000. Foram inúmeros os abacaxis como Totalmente Apaixonados, A Cor de Um Crime e O Vidente. Ou, então, a participação em filmes que prometiam e terminavam decepcionando, a exemplo de Pecados Inocentes, onde ela era a mãe de Eddie Redmayne, também um dos favoritos ao próximo Oscar por A Teoria de Tudo. Mas o talento falou mais alto, Julianne Moore aos poucos se reergueu e, apesar dos desvios de percurso, voltou aos trilhos. Este ano mais do que nunca. Com Still Alice, parece estar com o filme certo na hora certa. E eu não vejo a hora de aplaudir o reconhecimento a esta atriz tão singular e especial. Um momento muito aguardado que só não deve acontecer caso alguém resolva fazer uma macumba poderosa. Mas quem faria isso para uma atriz tão maravilhosa como ela?

Grace: A Princesa de Mônaco

The idea of my life as a fairytale is itself a fairytale.

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Direção: Olivier Dahan

Roteiro: Arash Amel

Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi, Geraldine Somerville, Nicholas Farrell, Robert Lindsay, Olivier Rabourdin, Roger Ashton-Griffiths, Jeanne Balibar

Grace of Monaco, EUA/França/Bélgica/Itália/Suíça, 2014, Drama, 97 minutos

Sinopse: O casamento de Grace Kelly (Nicole Kidman) e o príncipe Rainier III (Tim Roth) foi considerado um conto de fadas na vida real quando aconteceu, em 1956. Entretanto, cinco anos mais tarde e com dois filhos, a verdade é que Grace está insatisfeita com a vida no palácio e o distanciamento do marido. A chance de novamente sentir-se útil surge quando seu velho amigo, o diretor Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), a convida para retornar ao cinema como protagonista de seu próximo filme: “Marnie – Confissões de uma Ladra”. O problema é que Rainier é terminantemente contra e, ainda por cima, está envolvido com uma ameaça vinda do presidente francês Charles de Gaule (André Penvern): caso Mônaco não pague impostos à França e acabe com o paraíso fiscal existente, o principado será invadido em seis meses. Em meio às inevitáveis tensões, Grace e Rainier buscam resolver seus problemas tentando evitar que eles causem o divórcio. (Adoro Cinema)

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A própria Nicole Kidman declarou que Grace: A Princesa de Mônaco não é uma cinebiografia ou um documentário, mas sim uma busca da vulnerabilidade e humanidade da icônica atriz Grace Kelly. Só que, ao ver o primeiro corte do diretor Olivier Dahan, Harvey Weistein não gostou do que viu. Para que deixasse o filme ser distribuído, adiou o lançamento a fim de realizar mudanças, solicitou cortes e alterou vários pontos da estrutura proposta pelo diretor francês. A polêmica ganhou a mídia e o desgosto de Dahan pelo total controle do distribuidor em cima de seu filme foi escancarado para o mundo inteiro. Dahan deve ter suas razões porque, conferindo este resultado final que abriu o último Festival de Cannes ao som de vaias, fica a impressão de que se, para Weinstein, esta é a versão que merece chegar aos cinemas, é bem provável seus conceitos sobre o que é um bom filme sejam bem questionáveis. Essa sensação vem à tona porque Grace: A Princesa de Mônaco é tão decepcionante, sem personalidade e vazio quanto outra recente cinebiografia: Diana, que, ao invés de ser o tão esperado Oscar de Naomi Watts, revelou-se um filme conceitualmente errado em todos os sentidos.

A verdade é que não tem dado muito certo essa história de “humanizar” figuras históricas. Ao mesmo tempo em que realizadores tentam se esquivar das já fatigadas e quadradas fórmulas de biografias, os resultados apostam em um caminho nobre mas que até agora não foi executado de maneira envolvente. Grace até consegue reconstruir o ícone Grace Kelly, só que é insosso nos dramas pessoais da atriz, além de desinteressante na forma como apresenta seus questionamentos. O recorte escolhido já não é um dos mais interessantes: o início dos anos 1960, quando Grace havia abdicado da carreira de intérprete para se dedicar ao marido, príncipe de Mônaco. Usando como pano de fundo os conflitos com o estadista francês Charles de Gaulle, o longa de Dahan (ou de Weinstein?) opta erroneamente por dedicar boa parte de sua atenção à política, desviando-se da proposta de ser um retrato de uma mulher que, apesar da vida cheia de glamour, tinha problemas iguais aos nossos.

Se a disputa política fosse de certa forma uma influência dramática interessante na vida de Grace Kelly, a produção ganharia contornos realmente complexos. Porém, tanta atenção ao assunto resulta como tempo perdido e a política sempre fica longe de atrair o espectador. Paralelo a isso, o roteiro de Arash Amel traz uma leitura quase machista da vida de uma mulher que anseia voltar ao cinema mas que desiste de uma proposta de ouro (trabalhar novamente com Hitchcock!) para colocar os interesses do marido frente aos dela. Talvez fosse assim na vida mesmo, mas Grace – que logo em sua abertura diz ser um relato ficcional de uma história real -, mostra as desistências da protagonista de forma tão rasa e entediante que a relação dela com o marido resulta apenas inverossímil. Todas estas situações ainda são sublinhadas por uma trilha extremamente invasiva de Christophe Gunning – que é, de longe, um dos piores aspectos do filme.

Nicole Kidman há tempos não recebia uma responsabilidade como essa: protagonizar a cinebiografia de uma figura icônica e ser dirigida por um profissional que anos atrás revelou uma grande atriz ao mundo (a francesa Marion Cotillard). E o curioso aqui é que Nicole se esforça e tem bom resultado, mas contra a sua interpretação está o fator beleza. Grace Kelly tinha uma aparência singular. Só que Nicole também tem. Ou seja, ao mesmo tempo em que os closes de Olivier Dahan e o endeusamento da protagonista evidenciam uma mulher belíssima, em momento algum ela chega perto de ser… Grace Kelly! Nós vemos uma Nicole Kidman esbanjando beleza, não Grace Kelly. Escolher uma beleza forte para emular outra beleza forte não foi uma escolha acertada. Resumindo, nada é plenamente bem sucedido neste filme. Afinal, o que aconteceu com Dahan, que anos atrás realizou Piaf – Um Hino ao Amor, uma das biografias mais completas e relevantes dos últimos anos? Se ele quer se especializar em contar histórias de pessoas da vida real, é bom rever várias escolhas, já que Grace: A Princesa de Mônaco é fraco e decepcionante. Aqui no Brasil, pelo menos, não verá a luz do dia antes de 2015, mesmo já tendo rodado dezenas de países .

Na TV… o peso da amargura em “Olive Kitteridge”

Em Olive Kitteridge, Frances McDormand e Richard Jenkins são complementos perfeitos para personagens extremamente distintos

Em Olive Kitteridge, Frances McDormand e Richard Jenkins são complementos perfeitos para personagens extremamente distintos

Deve ser pesado estar na pele de Olive Kitteridge (Frances McDormand). Rígida professora de matemática e pessoa muito distante da imagem que temos de uma mãe, a personagem-título desta nova minissérie da HBO dirigida por Lisa Cholodenko (Minhas Mães e Meu Pai) não parece sentir felicidade em qualquer momento da vida. Nem o sensível marido ou um simples desconhecido que a abraça despertam em Kitteridge alguma sensibilidade. Quase antipática, ela pesa o ambiente com ácidas observações e uma visão pessimista do mundo. Tal abordagem seria um tremendo obstáculo para uma minissérie envolver o espectador. Só que, com uma protagonista muito bem justificada e uma Frances McDormand inspiradíssima, Olive Kitteridge acaba, de fato, fazendo jus a seu slogan de que nenhuma vida é simples.

Baseada no romance homônimo escrito por Elizabeth Strout em 2008 (vencedor do Pulitzer no ano seguinte), a minissérie dirigida por Cholodenko começa de forma interessante, mostrando a protagonista já envelhecida, com uma arma em punho e prestes a se matar. Eis que, na sequência, retrocedemos e vemos uma Olive muito mais jovem, casada com um farmacêutico e mãe de um garoto que estuda na mesma escola onde leciona. A partir daí, são mostrados os 25 anos seguintes, a partir de um olhar bastante cotidiano da vida de uma mulher que, por diversas razões, não dá qualquer indício de ver prazer na vida. Só que Pharmacy e Incoming Tide, os dois primeiros episódios, são bastante estranhos porque cometem o erro de deixar Olive quase de escanteio para se focar em outros personagens que, sim, são interessantes, mas não a ponto de se igualarem à protagonista em termos de envolvimento e complexidade.

Neste tempo que Olive está quase como uma coadjuvante na trama, quem ganha pontos, obviamente, é o maravilhoso Richard Jenkins, um ator perfeito para papeis de homens comuns como o retratado aqui. Compreendendo por completo a linha tênue entre a bondade e a ingenuidade que existe em seu Henry, Jenkins segura, com sua habitual competência, os dois primeiros episódios, mesmo que sempre fique um tanto nebuloso (e não no bom sentido) o verdadeiro rumo da história. Já a partir da terceira parte, A Different Road, Olive Kitteridge entrega por completo o protagonismo a quem de fato pertence a minissérie e  se transforma por completo, dando as devidas chances para Frances McDormand e analisando minuciosamente como uma vida inteira de amargura pode, no final, se sobrepor impiedosamente nos ombros de alguém que preferiu viver com tal pessimismo.

Como a protagonista Olive Kitteridge, Frances McDormand tem a melhor chance de sua carreira em anos

Como a protagonista Olive Kitteridge, Frances McDormand tem a melhor chance de sua carreira em anos

Escrito por Jane Anderson, o roteiro de Olive Kitteridge, em suas duas partes finais, é certeiro ao explorar as consequências de uma vida vista e vivida com infelicidade. É certo que a protagonista nem sempre agia conscientemente (e o belo momento em que ela diz que não batia no filho deliberadamente só prova como a sua quase falta de emoções tem um longo histórico que desconhecemos e que a minissérie não precisa explicar), mas muitas das escolhas feitas com ciência por Kitteridge foram decisivas para o dia a dia solitário e sufocante que a protagonista passa a viver – e perceber – quando a história se encaminha para os seus momentos finais. No fundo, Olive é uma mulher de pensamentos desprovidos de maiores julgamentos (quando testada sobre a hipotética situação de seu filho ser gay, ela é categórica ao dizer que o amaria independente de qualquer coisa), mas criou uma carcaça tão dura e oposta ao marido gentil que nunca mais conseguiu se despir dela.

Os anos passam e Olive começa a pagar o preço por ter encarado a vida desta maneira. E é a partir desta fase, quando acompanha a protagonista já com cabelos brancos e tendo que se confrontar com ela própria, que Olive Kitteridge entrega momentos realmente preciosos. Não é só porque o roteiro de Anderson prefere não julgar o gênio difícil da personagem-título que o resultado impressiona, mas também porque não faz questão de facilitá-la para o espectador. A grande jogada, na realidade, é descobrir as sutis camadas que justificam todo e qualquer comportamento dessa figura que, se estivesse em nossas vidas, certamente nos empurraria para a total aversão. Nesta mesma sintonia está a fantástica performance de Frances McDormand, que há anos não tinha uma chance dramática como esta. Assim como a Jasmine de Cate Blanchett em Blue Jasmine ou a Violet de Meryl Streep em Álbum de Família, a difícil protagonista não é obstáculo para a atriz, que, assim como suas colegas mencionadas, é perfeita ao superar a antipatia de Olive e realmente impressionar o espectador.

Exibida no início de novembro em duas noites na HBO estadunidense, Olive Kitteridge ainda traz Bill Murray em uma participação que, apesar de ter um peso muito simbólico para os rumos da protagonista, é responsável por amortecer a visão frequentemente pessimista adotada por Anderson e Cholodenko. Não costumo ser muito fã desta escolha narrativa que, nos 45 do segundo tempo, resolve dar uma guinada na personagem – nem que seja de forma mais contida, como é o caso aqui – para de certa forma mostrar uma luz no fim do túnel antes dos créditos finais. Ainda assim, esta não é uma escolha que abala Olive Kitteridge, uma minissérie que começa estranha mas aos poucos se encontra – em especial no fascinante estudo de personagem e na atuação de McDormand, que já pode reservar um belo espaço em sua estante para os inúmeros prêmios que vai ganhar merecidamente na próxima temporada de premiações.

Adeus, Mike Nichols!

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“Foi uma alegria e uma inspiração conhecer Mike Nichols, um diretor que chorava sorrindo, um amigo com quem não consigo imaginar viver sem neste mundo e um homem simplesmente insubstituível”. – Meryl Streep

Normalmente não costumo escrever sobre a partida de figuras do cinema. Sinto obviamente a despedida de todos, mas alguns me tocam mais e despertam em mim a vontade de exteriorizar algo. Foi o caso de Philip Seymour Hoffman, ano passado, que me abalou profundamente. E agora me comovo com o adeus de Mike Nichols, que, parando para pensar, era um dos meus diretores favoritos. Com raízes no teatro, conquistou o EGOT, realizou obras marcantes no passado e também recentemente e provou que a humanidade é o que existe de mais incrível em um personagem de qualquer arte.

Nichols indicou 17 interpretações ao Oscar. Ele próprio ganhou uma vez como melhor diretor pelo clássico A Primeira Noite de Um Homem. Durante muitos anos, marcou gerações – e também a minha formação cinéfila. Orquestrou um elenco excepcional em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? logo em seu primeiro longa. Mostrou as alegrias e as dores dos relacionamentos amorosos no intenso Closer. Fez história na TV com a adaptação épica de Angels in America. Construiu um dos relatos mais dolorosos sobre o câncer com Uma Lição de Vida. E tantas outras coisas.

Antes de falecer hoje, aos 83 anos anos, por causas ainda não divulgadas, Mike Nichols se preparava para fazer mais um filme com a sua grande amiga, parente distante e mais fiel colaboradora: Meryl Streep. Eles se reuniram quatro vezes: Silkwood, Lembranças de Hollywood, A Difícil Arte de Amar e Angels in America. O próximo encontro dos dois seria com Master Class, para a HBO, onde Meryl interpretaria Maria Callas. Tinha tudo para ser um clássico contemporâneo dos filmes produzidos para TV. Volta, Mike Nichols! Você vai fazer muita falta.

Boyhood: Da Infância à Juventude

You know how everyone’s always saying seize the moment? I don’t know, I’m kind of thinking it’s the other way around, you know, like the moment seizes us.

boyhoodposterDireção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Steven Chester Prince, Jamie Howard, Libby Villari, Ryan Power, Andrew Villarreal, Bonnie Cross, Elijah Smith, Sydney Orta, Tess Allen

Boyhood, EUA, 2014, Drama, 165 minutos

Sinopse: O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo. (Adoro Cinema)

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Eventualmente somos tomados na vida por uma sensação de que nada acontece… Até olharmos para trás e perceber que tudo está diferente. Ao contrário do que muitas vezes esperamos de um filme na sala de cinema, por exemplo, a vida não se desenvolve apenas a partir de grandes momentos. É o conjunto de pequenas situações e aprendizados que, em sua maioria, nos faz evoluir. E o diretor Richard Linklater, um grande fã desta lógica, aplica literalmente tal proposta em Boyhood: Da Infância à Juventude, longa que filmou durante 12 anos acompanhando o crescimento de seu protagonista Ellar Coltrane. Se na trilogia Antes… Linklater já baseava a história de seus personagens em momentos do dia a dia e conversas corriqueiras, em Boyhood ele acentua ainda mais essa investida com esse filme extremamente cotidiano que prefere olhar para a beleza dos detalhes que quase passam despercebidos na vida.

Talvez o registro da realidade tão vendido por Boyhood pare mesmo na proposta em si, já que o filme, que supõe ser quase um documentário sobre a história de vida de um garoto desconhecido, escala os famosos Patricia Arquette e Ethan Hawke como os pais – o que, de certa forma, tira o espectador deste senso de registro documental. Mas Boyhood, apesar do que aparenta e repercute, é mesmo uma ficção, onde Linklater se encontrava anualmente com o elenco para gravar novas cenas de um roteiro escrito por ele próprio. Ou seja, não se engane: este não é um reality show sobre a vida do jovem ator Ellar Coltrane. A verdade é que os 12 anos percorridos pelo diretor servem apenas para que, ao vermos o crescimento do protagonista Mason, nos afeiçoemos a ele como os seus próprios pais.

Boyhood, como já mencionado, foi desenvolvido durante 12 anos, mas a equipe só filmou mesmo durante 45 dias ao total. Neste meio tempo, Linklater fez suas adaptações a fatores exteriores, incluindo atender o insistente pedido de sua filha para colocá-la em cena. A escolha se mostrou errada por dois motivos: Lorelei Linklater não é boa atriz e ela ainda se cansou do projeto, pedindo para sair. Este é um exemplo de como deve ter sido difícil para o diretor administrar tantas mudanças de sua equipe ao longo dos anos (especialmente quando ele lida o tempo inteiro com crianças e adolescentes), mas o resultado está certamente bem pontuado na tela. O que existe de mais precioso em Boyhood é como não percebemos o nosso crescente afeto pelo protagonista até o longa chegar, por exemplo, a sua formatura no ensino médio. Neste momento, nos comovemos com sua conquista como se fossemos parte de sua família. Ou seja, a evolução do personagem de Coltrane ultrapassa a curiosidade do natural crescimento físico para também conquistar no emocional – e este é, ao meu ver, um dos grandes méritos de Boyhood.

Já quanto ao filme como um todo, não sou um dos grandes entusiastas. O experimento me comoveu diversas vezes mas algumas fragilidades são perfeitamente notáveis. O primeiro ato envolvendo os primeiros anos da infância de Mason não são lá muito inspirados, em especial a parte que traz um pai violento e autoritário que passa a intimidar todos os personagens em cena. É como se Liklater quisesse fugir do mero relato cotidiano para inserir algum tipo de dramaticidade na história – o que resulta bastante artificial diante de toda a naturalidade que guia a proposta de Boyhood. Se Ethan Hawke surge muito bem nesta parte do filme tirando de letra a representação do pai distante que passa a tentar alguma conexão com os filhos, Patricia Arquette fica meio de escanteio – o que não favorece a atriz (que só vai ter seus melhores momentos lá para o final) nem a trama em si.

É fácil, no entanto, se envolver com a fase adolescente de Mason (Coltrane), principalmente porque é aí que, como todos sabemos, estão algumas das descobertas mais importantes da vida. O amadurecimento da relação com o pai, a saída de casa, a entrada na faculdade e os primeiros casos amorosos pontuam a parte mais fluida de Boyhood, que dá o devido tom reflexivo para que a história se encerre como uma experiência inspiradora. Em 165 minutos nada cansativos, vemos o protagonista crescer sem que necessariamente percebamos suas transformações físicas e emocionais. Quando nos damos conta, do nada, lá está Mason, já de barba no rosto, independente e com uma vida inteira pela frente. Totalmente diferente do que ele era uma hora antes na projeção. E, dadas as proporções de tempo e espaço, tudo não é exatamente assim tão repentino e surpreendente na vida?