Cinema e Argumento

Rapidamente

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Além da ótima presença de Tilda Swinton, Expresso do Amanhã se destaca pelo criativo design de produção e pelas ideias que escapam das previsibilidades de boa parte dos filmes de ficção

UMA AVENTURA LEGO (The Lego Movie, 2014, de Christopher Miller e Phil Lord): Conquistou uma legião de fãs esse filme que, para mim, resultou em uma grande dor de cabeça. Gosto do humor e das várias referências que a dupla Christopher Miller e Phil Lord trouxe para o ótimo visual do mundo Lego, mas construir um filme somente em cima dessas piadas não é, ao contrário do que pode parecer, uma jogada inteligente. O grande problema de Uma Aventura Lego é que, fora o humor subversivo e a imensa gama de personagens, situações e histórias referenciadas aqui, não existe uma trama consistente. Por isso, a animação parece ter o dobro da duração que realmente tem, se arrastando em uma jornada infinita de situações desconexas e histriônicas. Em cinco minutos, é possível ir de um submarino ao México, de Cleópatra a Batman – algo que resultaria genial em um filme que tivesse pensado em uma história realmente boa antes. Aqui, as divertidas aparições desses personagens e a construção de situações inimagináveis soam mais como um artifício forçado para conquistar a galera geek. De lembrança mesmo fica apenas o visual e Everything is Awesome, a canção mais divertidamente grudenta em sabe-se lá quantos anos.

EXPRESSO DO AMANHÃ (Snowpiercer, 2013, de Bong Joon Ho): Estreia do diretor coreano Bong Joon Ho (O HospedeiroMother) em um filme falando em inglês, Expresso do Amanhã é baseado na HQ francesa Le Transperceneige, que traz uma trama similar ao de José Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo: uma comunidade sendo construída em uma circunstância extraordinária onde pessoas são isoladas por uma força maior. No caso do filme de Joon Ho, um enorme trem, que abriga os últimos sobreviventes de uma catástrofe climática que congelou o mundo. Fora as discussões envolvendo rebelião e construção de um novo modelo de sociedade, Expresso do Amanhã também é uma boa ficção, bastante gráfica e conceitual. Não é uma experiência fácil (aqui inexistem as previsibilidades do gênero, com personagens importantes morrendo ao longo da trama e referências bastante espertas, a exemplo da tirana antagonista vivida por Tilda Swinton que usa os mesmos óculos de Margaret Thatcher!). Enquanto até a metade o longa parece mais um (interessante) videogame em que os personagens precisam apenas avançar nos perigos de cada vagão do trem, logo a história traz uma reviravolta (com uma ótima sequência protagonizada por Alison Pill) e tudo ganha outra dimensão. Vale ressaltar ainda o excelente design de produção e a sensacional criação de Tilda Swinton como a ministra Mason. Se Oscar conta alguma coisa, são duas faltas bastante sentidas na cerimônia de 2015.

MESMO SE NADA DER CERTO (Begin Again, 2013, de John Carney): O diretor irlandês John Carney gosta mesmo de usar a música para falar sobre sentimentos. Mas, se em Apenas Uma Vez, o clima era incrivelmente melancólico, a situação já é diferente em Mesmo Se Nada Der Certo, uma produção bastante espirituosa. A lógica é a mesma: personagens com vidas pessoais bagunçadas ou despedaças encontram na música uma razão para esquecer os problemas e seguir em frente. Comparado ao filme anterior do diretor, este novo trabalho é menos inspirado, com canções agradáveis mas não tão fundamentais à construção da narrativa e um tanto repetitivo na mensagem que Carney parece querer seguir em longas com sua assinatura. Mark Ruffalo e Keira Knightley, a dupla protagonista, são o ponto alto da história, com destaque para ela, que, em seus últimos trabalhos, finalmente aprendeu a deixar as caras e bocas de lado. Alguns descuidos na história são perceptíveis (como o personagem de Ruffalo está quase falido e desabrigado se tem um grande amigo que diz dever sua fortuna de milhões a ele?), mas a boa vibe do filme compensa. Agradável aos ouvidos e à alma, Mesmo Se Nada Der Certo funciona facilmente como uma diversão despretensiosa.

A OUTRA TERRA (Another Earth, 2011, de Mike Cahill): Chegou a vencer o prêmio especial do júri em Sundance esse filme de estreia de Mike Cahill no universo de tramas de ficção (antes ele havia dirigido o documentário Boxers and Ballerinas). Cahill trabalhou em parceria com Brit Marling, a jovem protagonista que também escreveu o roteiro e produziu o longa com ele. Enigmático e bastante envolvente, A Outra Terra traz uma garota atormentada por uma tragédia pessoal que testemunha a descoberta de um novo planeta habitados por seres humanos com identidades iguais às nossas. Contudo, não pense que esta é uma trama de ficção no sentido clássico do gênero ou um suspense envolvendo alienígenas e coisas do gênero. Na realidade, toda a descoberta do outro planeta e a possibilidade de realmente ainda termos muito o que descobrir nesse vasto universo servem para ajudar a moldar a própria trajetória da protagonista em busca de redenção e algum tipo de paz. O final surpreendente, o roteiro bem lapidado dramaticamente e a simplicidade realista de uma produção alternativa fazem de A Outra Terra uma experiência interessantíssima e envolvente para quem procura obras que escapem de conceitos fáceis.

Oscar 2015: melhor atriz

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É a categoria que nos reservou a melhor surpresa de 2015. A francesa Marion Cotillard deveria ter sido considerada  favorita para ser indicada à categoria desde sempre, mas, entre os grandes prêmios, somente o Oscar lembrou do desempenho dela em Dois Dias, Uma Noite. Não é só porque Cotillard vinha acumulando uma série de papeis injustiçados pela Academia (Inimigos PúblicosNineFerrugem e Osso) que merecia estar aqui. Aliás, sua interpretação em nada chega entre as finalistas como uma mera reparação. Ela está de fato extraordinária no filme dos irmãos Dardenne, mas sua indicação surpreende porque não representa o tipo de papel que o Oscar costuma normalmente celebrar (aquele de poucas palavras e de choro contido). Mas parece que os votantes tiveram uma epifania e se deram conta do valor desse estilo de abordagem em 2015 (também considero Boyhood um exemplar disso). Lembrança mais do que merecida.

Já as outras concorrentes eram apostas certas para figurar aqui e, com exceção de Felicity Jones, em A Teoria de Tudo, todas entregam desempenhos pelo menos bastante acima da média. Jones não está ruim no filme de James Marsh, mas recebeu uma indicação apenas para cumprir uma frequente cota que o Oscar normalmente reserva para jovens estreantes. É um bom ano para as atrizes e quem deve mesmo levar a melhor é Julianne Moore, que, depois de quatro indicações sem vitória (podendo ter vencido em pelo menos duas ocasiões anteriormente), está com o papel certo no ano certo. Afinal, como rivalizar com uma veterana amada por todos, reconhecidamente injustiçada e que interpreta uma mulher sofrendo do mal de Alzheimer? Uma pena, no entanto, que Moore chegue à cerimônia com esse franco favoritismo por uma indicação que é a menos interessante entre todas que já recebeu ao prêmio. Mas não hesite: o prêmio sem dúvida é dela.

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FELICITY JONES (A Teoria de Tudo): Poderia realmente merecer a lembrança caso o filme estivesse focado mais na sua figura como prometia e não tanto na reprodução das deficiências do físico Stephen Hawking. Jones dá conta de suas cenas dramáticas e também esbanja carisma nos tempos de adolescente ao lado de Eddie Redmayne, mas, no fim, A Teoria de Tudo não aproveita tanto a intérprete. De qualquer forma, levando em consideração as politicagens do Oscar, sua indicação representa a cota de 2015 reservada para uma jovem atriz em ascensão. Pensando assim, a lembrança até que é coerente.

JULIANNE MOORE (Para Sempre Alice): Não tem como reclamar tanto da indicação pois é evidente que os votantes abraçariam este desempenho mais tradicional de Julianne Moore e não a sua ousada e ácida atuação em Mapa Para as Estrelas. Só que não deixa de ser frustrante ver mais uma grande atriz tendo que apelar para um papel formulaico para ganhar prêmios. Moore é sempre sensacional e aqui esbanja a sua humanidade incomparável de sempre, mas é óbvio que ela daria conta do recado – e, neste sentido, Para Sempre Alice não é nada desafiador ou aberto a criações para a atriz.

MARION COTILLARD (Dois Dias, Uma Noite): A grande surpresa do Oscar 2015 não poderia ser mais merecida. Em sua primeira colaboração com os irmão Dardenne, Marion Cotillard volta a provar o porquê de ser a atriz estrangeira com a carreira mais exemplar atualmente, conseguindo equilibrar com grande harmonia seus trabalhos em Hollywood com os filmes autorais que realiza em sua língua original. Aqui ela está particularmente notável, entregando um de seus melhores desempenhos até agora. Sem qualquer chance de vencer (até porque é uma francesa que já tem a estatueta em casa), é possivelmente a melhor atriz na disputa.

REESE WITHERSPOON (Livre): É fácil torcer o nariz para Reese Witherspoon porque até hoje é difícil engolir o fato de ela ter levado o Oscar de melhor atriz no ano em que a extraordinária Felicity Huffman concorria por Transamérica, mas sendo sensato dá para reconhecer o bom momento da atriz em Livre. É o seu trabalho mais relevante desde Johnny & June e bem possivelmente o mais interessante já realizado por ela. O filme em si funciona melhor quando fala do passado da protagonista, mas Reese consegue transitar com naturalidade entre todos os tempos da trama. Um marco para a carreira da atriz. 

ROSAMUND PIKE (Garota Exemplar): O desempenho feminino mais visceral indicado ao Oscar 2015 corre por fora, o que é de se lamentar. Em um mundo ideal, Rosamund Pike seria franca favorita à estatueta ao lado de Marion Cotillard, deixando a escolha ser puramente em função do tipo de interpretação, já que as duas estão no mesmo nível. Entretanto, levando também em consideração que o próprio Garota Exemplar não caiu no gosto dos votantes (esta é a única lembrança reservada ao filme de David Fincher), não ajuda o fato de sua Amy Dunne ser uma personagem tão atípica para as preferências quadradas do Oscar. À parte isso, Rosamund está maravilhosa com essa personagem camaleônica que ela explora minuciosamente.

Oscar 2015: melhor ator coadjuvante

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Ao contrário das mulheres, é boa a disputa entre os atores coadjuvantes de 2015. Disputa não é bem a palavra certa porque o jogo já está definido para que J.K. Simmons ganhe merecidamente a estatueta por Whiplash: Em Busca da Perfeição, mas devemos reconhecer o bom nível e a diversidade dos estilos de interpretação reconhecidos aqui. Na seleção você pode encontrar, por exemplo, um J.K. Simmons perfeitamente intenso em Whiplash, mas também um Ethan Hawke sutil e eficiente como um pai que, após o divórcio, tenta manter uma boa relação com os filhos. Ainda há espaço para atores bastante trabalhadores e ativos em suas gerações como Mark Ruffalo e Edward Norton. De questionável mesmo só fica a lembrança ao veterano Robert Duvall, mas a previsibilidade do papel (o senhor rabugento quase senil e vítima de um câncer) “justifica” sua presença entre os indicados.

A concorrência estaria ainda mais refinada e respeitável caso Duvall ficasse de fora para a inclusão de um desempenho que está classificado em uma categoria bastante errada: o de Steve Carell como ator protagonista em Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo. Ora, se J.K. Simmons aparece em 43% da projeção de Whiplash e Steve Carell em 42% de Foxcatcher, sendo que os dois possuem a mesma importância narrativa em seus respectivos filmes, nada mais justo do que considerá-los na mesma categoria (bem como fez o BAFTA, a única premiação a se atentar para tal fato). Com essa configuração, talvez Simmons tivesse realmente alguém em seu caminho na disputa (e também um candidato a sua altura).

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EDWARD NORTON (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)): Seria um ótimo ano para Edward Norton vencer o Oscar caso J.K. Simmons não estivesse concorrendo. Antigo conhecido do prêmio (sua primeira indicação veio em 1997 com As Duas Faces de Um Crime), Norton tem a sua melhor aparição em anos neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. Transitando com total naturalidade entre o ego inflado e a imprevisibilidade de seu personagem, o ator entrega um dos melhores desempenhos de Birdman ao lado de Michael Keaton. Não só pelo trabalho em si, Norton seria facilmente reconhecido por seu histórico em um ano não tão decidido em relação ao vencedor.

ETHAN HAWKE (Boyhood: Da Infância à Juventude): Se for para escolher um dos pais de Boyhood, Ethan Hawke é, sem dúvida, o melhor em cena. Não é por ter mais espaço de projeção que o ator se torna muito mais envolvente do que Patricia Arquette, mas sim porque tem um texto superior ao dela. Como o pai que não ficou com a guarda dos filhos e tenta sempre estar presente a vida deles, Hawke absorve todas as evoluções de seus personagens com uma grande sensibilidade. O que fica perceptível é que não foi apenas seu personagem que cresceu e amadureceu com o tempo, mas também ele próprio, que só ficou cada vez mais talentoso e relevante com o tempo.

J.K. SIMMONS (Whiplash: Em Busca da Perfeição): Gosto muito da celebração de alguém como J.K. Simmons. A exemplo de outros nomes como Margo Martindale e Richard Jenkins, ele sempre foi um talentoso ator que infelizmente era eternamente reduzido a papeis coadjuvantes. Fácil reconhecer o rosto, o nome nem tanto. Simmons teve sua chance agora em Whiplash e brilhou em cada segundo. Visceral, ele cria um personagem ao mesmo tempo amedrontador e respeitável, já que, apesar da rigidez quase desumana com todos os seus alunos, é uma figura que o filme não trata como unidimensional. Uma interpretação marcante para um filme igualmente brilhante.

MARK RUFFALO (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo): Mark Ruffalo é peça fundamental de um filme que tem em seu elenco masculino uma de suas maiores forças. Entre a surpresa que é Channing Tatum e a admirável transformação de Steve Carell, Ruffalo encontrou espaço para novamente chamar a atenção com um desempenho bastante contido. Mais fundamental para a história do que pode parecer, seu David Schultz é um bom complemento aos personagens de Tatum e Carell, especialmente quando Rufallo, merecidamente indicado ao Oscar pela segunda vez, passa a ficar ainda mais presente na trama com o passar dos minutos.

ROBERT DUVALL (O Juiz): É a indicação mais preguiçosa do ano. Óbvio que os votantes não deixariam de indicar um veterano que interpreta um senhor quase senil lutando contra o câncer e que, rabugento e contrariado, precisa lidar com a volta do filho rejeitado. É um papel óbvio em um filme ainda mais previsível. Como uma vaga estava sobrando, a indicação não é surpresa justamente por apostar na velha fórmula que tanto encanta as premiações. Certamente, entretanto, se os votantes fossem mais esforçados, dava facilmente para incluir outros nomes mais merecedores aqui.

Cinquenta Tons de Cinza

My tastes are very singular. You wouldn’t understand.

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Direção: Sam Taylor-Johnson

Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro “Fifty Shades of Grey”, de E.L. James

Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Luke Grimes, Max Martini, Callum Keith Rennie, Andrew Airlie, Dylan Neal, Rachel Skarsten, Emily Fonda, Anthony Konechny, Bruce Dawson, Tom Butler

Fifty Shades of Grey, EUA, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura de 21 anos, recatada e virgem. Uma dia ela deve entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey (Jamie Dornan). Nasce uma complexa relação entre ambos: com a descoberta amorosa e sexual, Anastasia conhece os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do sádico Grey. (Adoro Cinema)

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Cinquenta Tons de Cinza repete o efeito da saga Crepúsculo: é um filme-evento. Ou seja, todo mundo vê e comenta. Mesmo que o consenso seja de que o resultado é uma catástrofe, se você não o assistir, estará desatualizado nas rodas de conversa. Só que o caso dessa aguardada adaptação do romance homônimo escrito por E.L. James (que não li e nem preciso, pois cinema independe da literatura) é ainda mais grave do que Crepúsculo no sentido de disseminar ideias erradas. Isso porque Cinquenta Tons de Cinza é dirigido ao público adulto, que já deveria ter idade e vivência suficientes para perceber que basicamente tudo o que é pregado nessa história sintetiza o que existe de pior no machismo cada vez mais combatido e – por incrível que pareça – presente nos dias de hoje. Indo mais além, o filme de Sam Taylor-Johnson (do ótimo Os Garotos de Liverpool) não é só uma exposição de valores absurdos, mas também um produto cinematográfico realmente ruim e pobre em criações.

A inexistência de criatividade já fica mais do que evidente nos primeiros minutos de projeção. Não é preciso puxar muito a memória para perceber que o começo de Cinquenta Tons de Cinza apresenta exatamente a mesma construção de O Diabo Veste Prada: uma menina desglamourizada se veste (mal) para uma entrevista com uma figura poderosíssima, misteriosa e intimidante. Enquanto Anastasia (Dakota Johnson), a tal moça, parte para o destino em um singelo fusca azul, Christian Grey, o tal misterioso, chega ao trabalho em uma imponente limousine. A menina admira o prédio gigantesco quando acha o destino. Na sequência, a câmera acompanha a porta do elevador se abrindo quando ela adentra o local e, durante todo esse seu deslocamento, o filme intercala rápidos momentos de Grey se vestindo e se preparando para o momento, sem que seu rosto seja revelado com o objetivo de criar certo suspense. Anastasia chega, tropeça, gagueja, fala coisas erradas e o empresário, agora revelado como um homem lindo e deslumbrante, já trata de resumir o encontro ao ver a inexperiência da garota. Mas ela faz alguma coisa especial (que não é perceptível, ao contrário do ótimo momento em que a personagem de Anne Hathaway confronta Meryl Streep em Prada quando discursa sobre como seu talento deve falar mais alto do que suas roupas), fisgando a atenção do desejado Christian Grey. E os dois, em questão de poucos minutos, já estão secretamente apaixonados.

Como se não bastasse uma certa incoerência que se revelará mais tarde (por que mesmo ela foi tão mal vestida para uma importante primeira entrevista se, cenas depois, faz uma nova reunião com Grey usando salto alto, maquiagem e um vestido que realça sua beleza?) ou o fato de que nenhum jornalista – mesmo em formação – enviaria a amiga para substituí-lo em uma entrevista se hoje existe telefone e e-mail para que perguntas sejam respondidas, a sucessão de cópias desse primeiro momento ainda é precedida por outra metáfora absurdamente preguiçosa: óbvio que a menina, após a reunião supostamente cercada de tensão sexual, opta por tomar tranquilamente um banho de chuva ao invés de sair correndo para o carro afim de não se molhar. Que original, uma chuva para abrandar o fogo interno da protagonista! E o que dizer, então, de quando a câmera, minutos depois, detalha o “Grey” desenhado no lápis que Anastasia ganhou e que coloca em sua boca durante toda uma aula de literatura? Resumo da ópera: já nas cenas iniciais, Cinquenta Tons de Cinza anuncia que não é um filme inteligente e que muito menos compensará em ideias cinematográficas a premissa que por si só já é cercada de cheia de valores errados.

Se, na casa de Christian, o quarto sexual é decorado apenas com vermelho e o de Dakota estoura os olhos de tão branco, exaltando o pecado e pureza respectivamente (sério mesmo que até na direção de arte não resolveram criar um pouquinho além?), tal preguiça de pensamento se estende ainda à construção da relação dos personagens – que, aos poucos, sai da mera obviedade para o total desleixo. Ambos são figuras completamente desinteressantes. É implausível como ele, um homem tão lindo, desejado e poderoso, foi se interessar por ela – e isso não tem nada a ver com beleza ou conteúdo, mas com o fato de Christian repentinamente ter se encantado com a personalidade da menina sendo que ela não demonstrou nada minimamente aceitável para que sequer tivéssemos simpatia por sua figura. Já ela, uma garota virgem e que nunca teve um namorado, parece mais uma mercenária: percebam como Anastasia sempre é alegremente comprada por Christian, seja com um carro caríssimo para que ela finalmente tome uma importante decisão na relação dos dois ou com uma voltinha em um avião particular para que ela finalmente esqueça uma discussão.

São muitos os aspectos questionáveis da personalidade de cada um (e que serão discutidos mais adiante), mas o pior é o que se desenrola “sentimentalmente” a partir de quando Christian finalmente revela para Anastasia as suas “preferências singulares”. Pior porque todo e qualquer conflito originado a partir daí não tem qualquer consistência. Os personagens brigam por bobagens (como a protagonista quer insistentemente exigir de seu amado algum tipo de sentimento sendo que ele, desde o início, já deixou bem claro que não se envolve a ponto de sequer namorar?), outras vezes por questões simplesmente absurdas (como quando Christian, indignado, questiona Anastasia por ela simplesmente ter decidido ir visitar a mãe em outra cidade sem ter pedido sua permissão), e no fim fica difícil ter simpatia por personagens repetitivos, irritantes e com defeitos sem qualquer justificativa convincente (“eu sou assim!”, simplificam a figura de Christian no roteiro). 

Romantizar uma relação abusiva é um dos tantos problemas conceituais de Cinquenta Tons de Cinza. “Abusiva? Mas eles assinaram um acordo!”, justificam alguns fãs. Sejamos sinceros: uma garota de 21 anos, virgem e que nunca teve um namorado realmente tem a mesma dimensão do que é certo ou errado em uma relação com um homem já beirando seus 30, rico e que trancafiou até aquele momento mais de 15 mulheres em seu apartamento como suas escravas sexuais? O caos é que não existe uma discussão sobre a situação e sim uma romantização mesmo. São gritantes as bobagens românticas trabalhadas, como Christian dizer a todo momento que nunca dormiu com alguém depois de uma transa para, claro, com sua nova “vítima” (é mais adequado chamá-la assim), dormir ao seu lado em um sono profundo. Ou então afirmar veemente que não faz programas de casais como jantar ou ir ao cinema para, cenas depois, lá estar ele já se voluntariando para marcar um encontro desse tipo. Oh, o homem que fazia sexo só por consumismo agora teve o seu coração flechado a ponto de abandonar seus velhos hábitos!

Com o acúmulo de gigantes fragilidades em sua construção (a mãe inútil vivida inexplicavelmente por Marcia Gay Harden nada acrescenta), implausibilidade de situações e conflitos vindo de fiapos ao longo de pouco mais de duas horas de duração, Cinquenta Tons de Cinza é arrastado e interminável. O próprio sexo, que deveria ser o afrodisíaco ou o ponto alto da crítica e da mexida na ferida (dependendo do bom senso de quem vê), tampouco consegue ser excitante ou incômodo. O machismo do filme ainda se reflete na própria nudez vista no filme: enquanto Dakota Johnson surge com os seios à mostra a todo momento e eventualmente com quase nu frontal, Jamie Dornan contracena com a atriz apenas descamisado de calça jeans em praticamente todas as cenas, ressaltando o forte problema que o cinema estadunidense ainda tem com a nudez masculina. Mulher é um objeto que pode estar nu sem qualquer pudor. Já o homem se excita com suas práticas masoquistas vestindo calça jeans, tirando-a apenas para formalizar a cena do ato da penetração em si.

Os atores não têm muito o que fazer com o roteiro mal escrito. Enquanto Dakota Johnson é esforçada mas ineficiente (suas tentativas de ser sexy mordendo o lábio são puro humor involuntário), Jamie Dornan não tem nada o que fazer além de ostentar sua inegável beleza, pois seu Christian Grey tem sempre o mesmo tom de voz e é um personagem que não cansa de surpreender negativamente com atitudes capazes de indignar qualquer pessoa sã. Como, em pleno século XXI, um público adulto pode se comover e vibrar com uma relação onde o homem decide como a mulher deve transar, o que ela come, com quem ela fala, com que frequência ela bebe ou com quem ela pode transar além dele… Isso me parece um grande mistério. Antes Cinquenta Tons de Cinza levantasse questionamentos ou discussões a partir dessas situações, mas é tudo muito claro: a mulher é uma submissa, como o filme literalmente profere e romantiza. Se, em uma produção de duas horas, isso já assusta e entedia, é ainda mais preocupante saber que existem outros dois filmes mais adiante. Sucesso e comoção mundial para uma história como essa? Parem tudo porque quero descer. Tenho medo do futuro da humanidade.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

A thing is a thing, not what is said of that thing.

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Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Nicolás Giacobone

Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Merritt Wever, Jeremy Shamos, Clark Middleton, Lindsay Duncan, Catherine Peppers, Bill Camp, Joel Marsh Garland

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA/Canadá, Drama, 119 minutos

Sinopse: No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. (Adoro Cinema)

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Folheava as últimas crônicas de Sete Anos escritas por Fernanda Torres durante minha ida ao trabalho no dia em que conferiria Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Falando sobre o falecimento de Dercy Gonçalves, Fernandinha disse que veio dela o maior elogio que já recebeu na vida. “Tive a honra de tê-la na plateia de A Casa dos Budas Ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. ‘Ele deve ser’, afirmou ela. Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi”, conta. Voltando algumas páginas, porém, encontramos, em No Dorso Instável de Um Tigre, uma longa e prazerosa reflexão da autora sobre qual o verdadeiro ofício do ator. Ela afirma que um intérprete não teme o palco ou a plateia e sim perder o sentido da profissão. Que razão há em fingir ser ou outro? Ou melhor, como bem pergunta o primeiro ato de Hamlet, quem está aí? Que feliz coincidência do destino ter lido as reflexões de Fernanda Torres horas antes de Birdman. Afinal, tudo o que ela escreveu também está, com uma com grande escalada de genialidade e inovação, neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. São duas obras que se complementam com perfeição.

Quem está aí, afinal? Birdman, o icônico super-herói de uma trilogia bilionária de décadas atrás ainda lembrada por público e crítica, ou simplesmente Riggan Thomson, ator que nunca conseguiu provar ser um verdadeiro ator depois desse personagem marcante e que hoje tenta reerguer a carreira com uma peça de teatro que ele próprio dirige, produz e protagoniza? Independente da resposta, o mais brilhante de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é a busca interior do protagonista por essa resposta. Ao longo de quase duas horas, o personagem vivido por Michael Keaton, contando os dias para a estreia de seu espetáculo, encontrará em cada situação e em cada conversa alguma reflexão que o induzirá a tal pergunta. Quem está aí? Mais do que isso, seria sua peça de teatro uma vaidade para mostrar à crítica de que ele realmente tem alguma relevância? Seria uma jornada pessoal para ele próprio se livrar da sombra de Birdman? Ou um auto-convencimento de que ele, talvez, apesar de várias tentativas, será sempre apenas aquele super-herói de cifras estratosféricas?

Se logo no início Alejandro González Inárritu nos faz crer que Birdman será um filme excessivamente teatral, seja em termos de texto ou da forma como realmente estrutura seu filme, logo a teoria vai por água abaixo com uma obra que só evolui cinematograficamente e que dá conta por completo de todo o mosaico de personagens e dilemas que desenvolve ao longo da trama. Não é só o Birdman/Riggan Thomson de Keaton que terá seus dramas esmiuçados, mas também a atriz interpretada por Naomi Watts que estará na Broadway pela primeira vez, o instável ator de Edward Norton que acaba se tornando o grande atrativo da peça em questão e a filha de Thomson que ainda está se acostumando com sua vida após uma temporada em uma clínica de reabilitação. Mesmo Amy Ryan, como a ex-esposa do protagonista, está repleta de nuances em suas breves duas cenas. Por isso, Birdman pode até ser sobre os bastidores de uma peça de teatro, uma crítica à indústria do cinema e um relato sobre arte e o fazer dela, mas também é um filme bem sucedido quando passa a falar sobre jornadas pessoais. E é no mínimo surpreendente saber que a precisão do roteiro vem de nada menos do que quatro cabeças (dando uma aula ao também recente Invencível, que reunia o mesmo número de roteiristas em um resultado quase desastroso).

Construído todo a partir de admiráveis planos-sequência (que, dizem, às vezes desviam a atenção da história), o longa de Iñárritu só ganha pontos com essa escolha. Além de trazerem um realismo único para o conjunto, explorando toda uma fluidez e intimidade com os personagens, os planos também são obviamente uma chance extra para os atores brilharem. O diretor mexicano nunca esteve tão inventivo e ambicioso, com ideias muitíssimo bem planejadas e executadas, além de seguro para orquestrar cada detalhe sem que Birdman se torne uma experiência pretensiosa. Iñárritu sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional).

Mais do que toda a metalinguagem envolvendo o protagonista e o próprio Michael Keaton, Birdman tem momentos realmente emocionantes que são resultado de toda essa beleza vinda da precisão de Inárritu atrás das câmeras. A cena em que Riggan Thomson sai voando por Nova York é um deles. Fora isso, o elenco, em plena harmonia, dá o tom certo para cada personagem. Aliás, são todos personagens que procuram não a razão que existe em fingir ser o outro, mas a razão que existe em ser eles mesmos, em especial quando estão fora do palco. Quando não estão em cena, os personagens de Birdman se perdem. Mas talvez o filme de Iñárritu seja mesmo sobre libertação. Dos palcos, da vida, desse medo de procurar tanto ser alguém e esquecer de ser fiel a sua própria identidade. Quem está aí, afinal? Tomara que Fernanda Torres tenha gostado dessa obra-prima.