Cinema e Argumento

Melhores de 2014 – Atriz

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Como fã de Julianne Moore, nunca pensei que fosse lamentar uma vitória sua em uma temporada de premiações. E não foi apenas porque em Para Sempre Alice ela está longe de ter um papel desafiador como tantos outros de sua carreira, mas porque tinha uma concorrente infinitamente superior: Rosamund Pike, reveladora e avassaladora em Garota Exemplar. Não há dúvidas de que o papel é o mais surpreendente de 2014, e a atriz, que elimina por completo o seu sotaque britânico, encarna com perfeição todas as fases da complexa Amy Dunne, transitando entre a linda e supostamente esposa indefesa a uma mulher forte e que não é tão delicada quanto aparenta. Pike é realmente um furacão em cena, e sua marcante atuação é incrementada por uma personagem repleta de leituras e, por que não, polêmicas. Ainda disputavam esta categoria: Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca – Parte 2), Judi Dench (Philomena), Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta) e Veerle Baetens (Alabama Monroe).

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Três atores, três filmes… com Roberta Pinto

rtarobertatresPor aqui no Rio Grande do Sul, a cinéfila Roberta Pinto já teve passagens por importantes veículos de comunicação. Como gosta de dizer, é fã de cinema desde que se “conhece por gente” e encontrou no Jornalismo uma maneira de expressar o seu amor pela sétima arte. Já são mais de dez anos na profissão, passando por experiências em rádio, TV e online – entre os projetos dela, inclusive, esteve o blog Janela Indiscreta/Em Cartaz. Já quando o assunto é assistir a filmes, um “santíssima trindade” norteia a vida da nossa convidada. Suas escolhas para a coluna são, por isso, baseadas em longas dos três diretores que vocês vão descobrir logo abaixo. E que diretores! Todos os desempenhos escolhidos pela Roberta são inéditos aqui na coluna – e são ainda um excelente guia para quem está querendo começar a procurar interpretações no cinema de diretores clássicos.

Sou uma cinéfila inveterada desde que me conheço por gente. Aprendi a gostar de filmes antes de mesmo de aprender a ler ou escrever. O cinema acabou me levando de forma indireta ao jornalismo onde tive a oportunidade de comentar e escrever sobre….Adivinhou? Ci-ne-ma. E eis que tenho uma “santíssima trindade” quando se trata da sétima arte. São três cineastas que devoto: Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Woody Allen. Acho que além do talento para contar histórias de uma forma muito particular (Hitchcock e Kubrick fazem amor com a câmera e Woody Allen com as palavras), os três cineastas também conseguiram extrair desempenhos memoráveis de seus atores.

James Stewart (Um Corpo Que Cai)
O ator encarna com perfeição o perturbado policial obrigado a se aposentar após um trauma e acaba prestando favores como detetive particular para um conhecido. Só que o personagem tem mais profundidade do que isso, e Stewart vai trazendo aos poucos com olhares, sutilezas, expressões, uma camada mais densa. A camada de uma homem obcecado e perturbado, que decide manipular e transformar uma mulher na outra que pensou ter perdido. Sempre gostei de pensar que o personagem tem muito de como o próprio Hitchcock via o feminino: como algo a ser manipulado para o seu prazer. Afinal, era assim que Hitchcock operava com suas estrelas: decidia seus penteados, a maneira de falar, sua postura, suas roupas e até se era ou não o momento de terem filhos (o papel de Kim Novak em Um Corpo que Cai era para ser de Vera Miles que OUSOU engravidar e perdeu para sempre o status de estrela de primeiro escalão no coração do mestre do suspense). James Stewart em Um Corpo que Cai é um perfeito Hitchcock.

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
Partimos então para outro diretor exigente: Kubrick. Ele tinha mania de perfeição e costumava levar seus atores à exaustão até conseguir uma tomada perfeita. Se ele conseguiu o desempenho perfeito de Jack Nicholson em O Iluminado (já comentado aqui no blog), também extraiu o máximo de um ator que estava em início de carreira quando cruzou seu caminho: Malcom McDowell em Laranja Mecânica. A entrega de McDowell ao personagem foi tão intensa que durante a cena em que Alex é submetido ao tratamento Ludovico o ator teve a sua córnea arranhada pelos pequenos ganchos e ficou temporariamente cego. Num outro exemplo de sintonia entre o ator e seu ator, a cena clássica do estupro, onde Alex canta Singin´ in the rain foi filmada sem ser planejada. Stanley perguntou se McDowell sabia cantar e dançar e o ator improvisou a canção de Gene Kelly. Não precisa dizer que essa cena entrou para história do cinema. Pena que o projeto de Napoleão com direção de Kubrick e McDowell no papel título não saiu do papel. Teria sido interessante de assistir.

Gena Rowlands (A Outra)
Sei que ela já apareceu aqui no blog também, mas não posso deixar e registrar o desempenho de Gena Rowlands em A Outra, de Woody Allen. Woody escreve os melhores papeis que um ator pode desejar, e valoriza muito as atrizes com as quais trabalha. Em A Outra, filme que mostrava uma imersão mais bergminana do diretor nova-iorquino, Gena interpreta uma intelectual prestes a completar 50 anos que parece se concentrar na confecção de um livro aluga um apartamento vizinho a um consultório de psiquiatra. Pela ventilação, Gena escuta as consultas dos pacientes (uma mulher em particular chama a sua atenção) e passa a questionar as próprias escolhas que fez na vida. Uma atriz completa, Gena Rowlands descasca todas as camadas da personagem e termina o filme de uma maneira totalmente diferente de como iniciou, buscando uma sensibilidade que sempre esteve nela, porém adormeceu com o tempo. Sem dúvida um grande desempenho na carreira de uma das melhores atrizes de sua geração. 

Melhores de 2014 – Montagem

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Realizado com notável firmeza pelo estreante em longas Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta concentra todo o seu suspense em uma narrativa não-linear que acompanha os depoimentos de um trio envolvido no desaparecimento de uma criança. Da tarde na delegacia aos meses que anteciparam tal mistério, a montagem de Karen Akerman é peça fundamental para intensificar o suspense e também moldar a força dramática do filme, que, aos poucos, revela uma refinada teia de traições e deslealdades. Com precisão, a construção de O Lobo Atrás da Porta envolve pela agilidade e complexidade de uma trama nunca excessivamente engenhosa ou muito menos perto de flertar com escolhas fáceis. Ainda disputavam esta categoria: Alabama MonroeGarota ExemplarO Grande Hotel BudapesteRelatos Selvagens.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2014 – Ator

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O Abutre representa o auge da escalada profissional que Jake Gyllenhaal vem fazendo nos últimos anos. Desde que O Segredo de Brokeback Mountain o revelou como um ator de calibre maior, muitos papeis vieram para reafirmar seu talento, como o detetive Loki de Os Suspeitos ou a dupla Adam e Anthony de O Homem Duplicado. Porém, nenhuma aparição do ator foi tão surpreendente no cinema quanto a de O Abutre, onde interpreta o problemático Louis Bloom, jovem que encontra em crimes e acidentes a oportunidade perfeita para lucrar com o jornalismo sensacionalista. Do tom de voz completamente diferente de tudo que já realizou às suas perfeitas transições entre o homem manipulador e o profissional desesperado (a cena em que ele grita frente ao espelho chega a ser amedrontadora), Gyllenhaal consegue marcar até mais do que o próprio filme. Envolvente em todas as suas facetas, o ator fica na lembrança pelo tom imprevisível que imprimiu a Louis Bloom e já se consolida como um dos intérpretes mais confiáveis de sua geração. Ainda disputavam esta categoria: Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão), Joaquin Phoenix (Ela), Johan Heldenbergh (Alabama Monroe) e Matthew McCounaghey (Clube de Compras Dallas). 

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre) | 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno) | 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhores de 2014 – Fotografia

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Com plateias cada vez mais intolerantes ao preto-e-branco, filmes como Ida são uma raridade. Mas celebrar o filme de Pawel Pwalikowski apenas por esta opção estética é tolice, já que, também filmado em um formato ousado para os dias de hoje (o 3:4, a famosa “tela quadrada”), o longa frequentemente surpreende em suas composições quadro a quadro. Existe algo de sufocante na jornada da protagonista Anna (Agata Trzebuchowska), e isso está diretamente ligada à forma como a dupla de fotógrafos Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski acompanha na fotografia as transformações e as evoluções da jovem ao longo da trama. É um trabalho que transmite toda a frieza de uma Polônia invernal e imprime os tons corretos para dialogar com os sentimentos reprimidos e rígidos de seus personagens. Ainda disputavam esta categoria: Até o FimO Grande Hotel BudapesteInside Llewyn Davis – Balada de Um Homem ComumNebraska.

EM ANOS ANTERIORES: 2013Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira