Cinema e Argumento

Na TV… a ascensão dramática da segunda temporada de “The Affair”

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Seres humanos repletos de falhas, os personagens de The Affair chegam ao segundo ano com suas angústias exploradas com mais complexidade por um roteiro em constante amadurecimento.

Ninguém mais parece se importar com The Affair. O próprio Globo de Ouro que, no ano passado, celebrou o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem com os troféus de melhor série e atriz dramática não deu muita importância para a temporada que estreou este ano, conferindo-lhe apenas uma merecida indicação para Maura Tierney como atriz coadjuvante. O público também já não acompanha mais a trama com fervor e é difícil encontrar quem tenha assistido religiosamente ao segundo ano do relacionamento entre Alison (Ruth Wilson) e Noah (Dominic West). O esquecimento é crime dos grandes porque The Affair consegue, em sua nova temporada, abraçar muito mais a complexidade dos personagens e dos sentimentos ao invés de se focar na engenhosidade dos fatos – e o resultado é uma bela ascensão dramática para um programa que merecia mais atenção por sua maturidade ao falar sobre relacionamentos complicados e seres humanos repletos de falhas.

Nunca escondi os meus receios com os rumos de The Affair (afinal, até onde dura uma série cujo plot se sustenta a partir um caso extraconjugal?) e muito menos com o suspense capenga que os criadores colocaram em flashforwards na trama e ainda estenderam para o segundo ano, mas é bom ver uma maior maturidade na nova temporada, que coloca nos holofotes discussões muito mais adultas acerca de casamentos, traições e relacionamentos. Há muito a ser dito sobre esses temas e a leitura deve parar por aqui para quem não quer pegar spoilers, mesmo que os próximos parágrafos tentem dizer o mínimo possível sobre os acontecimentos da segunda temporada, cujo último episódio foi exibido no dia 20 de dezembro.

Apesar de consistente na criação de seus personagens e no desenvolvimento de seus dramas pessoais, a primeira temporada de The Affair não deixava de ser uma fase introdutória que eventualmente ganhava tons de novela mexicana (impossível esquecer um encontro decisivo na estação de trem ou uma arma apontada para que determinado personagem finalmente tomasse uma decisão). No segundo ano, parece não existir mais tanto tempo para dramas simplistas envolvendo descobertas de traição ou sucessões de mentiras – e, se eles existem aqui, estão todos bem arquitetados e com ótimos propósitos. De brinde, os roteiristas ainda retornaram com uma nova aposta para a estrutura do programa: se antes The Affair se construía a partir da percepção isolada dos protagonistas Noah e Alison, agora a história também ganha o ponto de vista de Helen (Maura Tierney) e Cole (Joshua Jackson), os cônjuges traídos.

Tem quem saia ganhando muito com a multiplicidade mais ampla de olhares, como Helen, a esposa abandonada que, insegura e sempre vivendo à sombra do dinheiro dos pais, tenta reconstruir sua vida como mãe e mulher. Já outros saem perdendo, como Cole, dono do arco dramático menos interessante e que parece viver uma história paralela, já que seu personagem está distante do centro dos acontecimentos (ele vive em outra cidade e inicia um relacionamento previsível com uma estrangeira vivida pela atriz Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar em 2005 por Maria Cheia de Graça). Os quatro pontos de vista organizados de forma aleatória estagnam, em princípio, o andamento de The Affair (principalmente nos episódios iniciais, quando a história demora a engrenar), mas é questão de tempo para que comecem a enriquecer a história como um todo.

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Um dos destaques da segunda temporada, Maura Tierney representa The Affair no Globo de Ouro com uma indicação na categoria de melhor atriz coadjuvante.

É particularmente eficiente como os roteiristas lançam diferente olhares para o divórcio entre Noah e Helen, por exemplo. A separação está sendo mais amigável ou mais agressiva? Helen é uma figura magoada ou indiferente? E Noah? Seria ele o pai realmente devotado ou o homem que está interpretando tal papel para ganhar a guarda dos filhos? Se em termos de conflitos o divórcio tem bobeiras dramáticoa quase imperdoáveis (sério mesmo que precisava Helen se descuidar com drogas para a situação começar a se resolver?), em análises The Affair se compensa – e é importante perceber como a percepção muda discretamente de um capítulo para outro até mesmo nos figurinos e na fotografia para cada um dos personagens.

Quando o divórcio finalmente se resolve, The Affair passa a lapidar seus dramas com uma maturidade invejável, lançando questões mais do que pertinentes não apenas para os personagens mas para os próprios espectadores. Afinal, como se configura a confiança em um relacionamento que nasceu justamente a partir da quebra dela em um outro casamento? Como construir uma nova família depois de você ter abandonado a sua? E a mais intrigante: o que acontece quando um caso extraconjugal vira um romance oficial? Afinal, não seria justamente a impossibilidade do amor o afrodisíaco daquela relação? Noah e Alison não imaginavam que o novo caminho que trilhariam juntos seria tão difícil, especialmente quando ambos se dão conta de que, no final das contas, viraram um casal normal como qualquer outro. A traição, na realidade, pode ter sido apenas um intervalo de suas vidas individuais tão cheias de dúvidas – e dúvidas que, vale refletir, não têm necessariamente a ver com a vida compartilhada, e sim com o que cada um quer para o seu próprio destino, independente de relações.

As interpretações sobre a traição em si ganham ainda mais facetas na segunda temporada. Para Alison, pode ser um problema emocional, uma compulsão ou o resultado de uma vida em constante insatisfação. Já Noah chega a questionar que, para um artista como ele (hoje um escritor finalmente famoso e reconhecido pela crítica), pode ser uma forma de conhecer o máximo de pessoas possíveis, viver o maior numero de experiências e apurar cada vez mais os sentidos. O que Noah considera é que o descompromisso com a monogamia talvez seja algo antropológico e não necessariamente desleal ou meramente sexual. Mas ele seria um cretino por querer isso e uma vida estável ao mesmo tempo?

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Joshua Jackson tem um bom personagem, mas rivaliza com um roteiro que o coloca longe do centro dos acontecimentos principais da trama.

Sujeito facilmente odiável em um primeiro momento, Noah, na realidade, tem todas suas falhas justificadas ou pelo menos discutidas. Autor celebrado e com o sucesso cada vez mais inflando seu ego, ele parece novamente não saber o que fazer da vida até mesmo com toda a inesperada repercussão de Descent, seu romance secretamente autobiográfico baseado no relacionamento extraconjugal com Alison. Sua nova esposa, por sinal, agora lhe parece quase um estorvo durante a turnê de promoção do livro pelos Estados Unidos. Noah, é verdade, continua uma figura das mais complicadas de se torcer, mas agora está muito mais humano, complexo e defendido com extrema dignidade por Dominic West (que já revelou ter tremendas dificuldades com o papel por justamente odiar o ser humano que seu personagem é).

West, aliás, tem momentos bastante inspirados nesta temporada, muitos deles em um episódio ambientado em uma consulta com sua terapeuta (Cynthia Nixon), e outros na season finale, onde admite que, apesar dos pesares, não se arrepende de ter traído sua ex-exposa com Alison, já que assumir essa relação o livrou de uma vida de comodismos, insatisfações e arrependimentos. Também são belos os momentos que o ator compartilha com Maura Tierney, principalmente aqueles em que ambos já percebem que viraram a página e conseguem falar sobre passado, presente e futuro como duas pessoas que se conhecem há muito tempo e já viveram muitas coisas juntos. A moral da história é que todos os personagens de The Affair são pessoas profundamente falhas e que, cedo ou tarde, e isso é o mais bonito, admitem seus erros com a vontade de repará-los, mesmo que muitos deles sejam eternos.

O calcanhar de aquiles desse apanhado de discussões adultas segue sendo a pífia tentativa de The Affair criar algum suspense com um assassinato e, dessa vez, um julgamento no tribunal. Não funciona porque: a) o clima de suspense já não condiz mais com a trama contemplativa, b) entrega cedo demais revelações que seriam mais impactantes em ordem cronológica, c) a morte em questão envolve um personagem secundário e desinteressantíssimo, e d) como toda novela que inventa de última hora o mistério de um assassinato só para instigar a audiência, cria-se a expectativa e a resolução termina sendo um tanto forçada só para surpreender. Não sei quem colocou na cabeça dos roteiristas que esse mistério deveria durar duas temporadas para ser resolvido e muito menos quem achou essa uma boa jogada para uma história que, neste segundo ano, só cresceu dramaticamente. Dados os acontecimentos do último episódio, tudo indica que, no terceiro ano, as coisas devem ser bem diferentes – e The Affair só tem a ganhar com isso.

Macbeth: Ambição e Guerra

So foul and fair a day I have not seen.

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Direção: Justin Kurzel

Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, baseado na peça “Macbeth”, de William Shakespeare

Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard,  Paddy Considine, David Thewlis, David Hayman, Jack Reynor, Lochlann Harris, Sean Harris, Ross Anderson,  James Harkness,  Maurice Roëves

Macbeth, Reino Unido/França/EUA, 2015, Drama, 113 minutos

Sinopse: Macbeth (Michael Fassbender) é um general do exército escocês que trai seu rei após ouvir um presságio de três bruxas que dizem que ele será o novo monarca. Ele é altamente influenciado pela esposa Lady Macbeth (Marion Cotillard), uma figura manipuladora que sofre por não poder lhe dar filhos. (Adoro Cinema)

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Somente no IMBb, a pesquisa por Macbeth rende quase 200 resultados entre episódios de TV, telefilmes, curtas e longas-metragens, o que nos leva a pensar se ainda existe algo de novo a ser mostrado no cinema em relação a este que é um dos textos mais consagrados de William Shakespeare. Em contrapartida, não deixa de ser injusto exigir inovação desta nova versão estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard já que existe essa infinita quantidade de leituras já produzidas pelo cinema e pela TV. Afinal, é possível um realizador conferir esse montante monstruoso de adaptações e ainda pensar algo realmente inédito? Do lado de cá, como espectador, também me abstenho de falar sobre Macbeth considerando a falta de conhecimento em relação a outras de suas literais centenas de adaptações. Já em uma avaliação isolada, o filme de Justin Kurzel – que, reza a lenda, foi aplaudido durante dez minutos no Festival de Cannes deste ano -, é uma das experiências mais interessantes de 2015 por transmitir com a devida densidade e apuro estético a obscura viagem de poder e corrompimento de um general do exército escocês assombrado por profecias sombrias e, principalmente, por uma esposa altamente manipuladora.

Não é só por ser tão sombrio e pesado que Macbeth se torna um filme de nicho. O que não populariza esta adaptação – e o que obviamente fará com que o longa fique pouquíssimo tempo em cartaz – é a ideia do roteiro escrito a seis mãos por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso adaptar o texto de Shakespeare mantendo seu estilo original. Tomar a decisão de preservar a linguagem de Shakespeare é arriscado também para o próprio tom do filme, uma vez que exige muita disciplina de um diretor não transformar a experiência em um mero teatro filmado. Por sorte, o australiano Justin Kurzel, em seu segundo longa-metragem, conduz Macbeth com destreza e, junto a um notável trabalho técnico, dá a dimensão necessária para que o filme realmente seja… um filme! É assombrosa, por exemplo, a trilha sonora de Jed Kurzel, que intensifica o lado já sombrio da história do protagonista, ao passo que a fotografia de Adam Arkapaw, uma das mais belas do ano, negrita as sensações dos personagens com uma intensidade expressiva de cores, criando cenas ao mesmo tempo lindas e angustiantes de serem vistas (o último plano submerso em um vermelho amedrontador é impressionante nesse sentido).

Fora a parte técnica, que em momento algum nos remete aos clichês dos filmes de época com figurinos esdrúxulos e locações megalomaníacas, Macbeth é um filme envolvente em sua dramaticidade com um roteiro que sabe arquitetar a suja ascensão do protagonista e a eventual paranoia que toma conta de sua vida após a conquista do poder. É mais instigante ainda o arco da esposa de Macbeth, vivida por Marion Cotillard (ela diz sempre ter sonhado interpretar esse papel), que manipula facilmente o protagonista para que ele se torne uma figura poderosa e relevante, custe o o que custar. A culpa por não poder lhe dar filhos está ali, e, ao mesmo tempo em que Macbeth chega a boa parte de suas conquistas graças a esposa, também é nítida a angústia da esposa ao vê-lo se tornar uma figura gradativamente perigosa e até fora de seu controle durante a escalada. A proposta é encenada até os dias de hoje (Claire Underwood não seria uma espécie de lady Macbeth no seriado House of Cards?), mas nunca deixa de ser densa essa viagem sem escrúpulos rumo ao poder e incômodo o pavor ao constatarmos o quanto o ser humano é suscetível a se transformar quando passa a ser expressivamente dominante. Uma história como essa já teria impacto por si só, imagine, então, com o peso do texto de William Shakespeare!

Vícios teatrais, entretanto, ainda deixam seus resquícios no filme de Justin Kurzel. Frequentemente Macbeth entrega aos atores longos monólogos em lindas paisagens, flertando, então, com esse problema de remeter demais aos palcos, seja na câmera estática no corpo dos atores ou na própria formalidade com que eles interpretam cada palavra. Certamente é um belo presente para que Fassbender e Cotillard tirem o máximo de proveito, mas se torna um tropeço para o filme em si. Deixando de lado o deslize, dá gosto, por outro lado, ver atores tão talentosos quanto eles brilhando nesses momentos (e abençoado seja quem teve a ideia de juntá-los em um filme!). Enquanto Fassbender capta com precisão as oscilações entre insegurança e ganância de um homem inicialmente comum que aos poucos se corrompe, Cotillard surge inofensiva e perigosa na espreita dos bastidores como a mulher que, na realidade, é a grande responsável pelo marido ser quem realmente é. O diretor e os atores se reunirão futuramente em um projeto inusitado: Assassin’s Creed, a adaptação do videogame homônimo lançado em 2007. Julgando pela ideia, não é bem difícil criar expectativas, mas, considerando esse ótimo resultado de Macbeth, quem sabe?

As Sufragistas

Never surrender. Never give up the fight.

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Direção: Sarah Gavron

Roteiro: Abi Morgan

Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Ben Whishaw, Anne-Marie Duff,  Romola Garai, Grace Stottor,  Geoff Bell, Adam Michael Dodd, Sarah Finigan, Lorraine Stanley, Adam Nagaitis, Finbar Lynch

Suffragette, Reino Unido, 2015, Drama, 106 minutos

Sinopse: No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios. (Adoro Cinema)

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O momento mais impactante de As Sufragistas não está entre os sofridos dias de Maud Watts (Carey Mulligan) resistindo às más e preconceituosas condições de trabalho que lhe são oferecidas em uma lavanderia. A maior denúncia do filme de Sarah Gavron também não está estampada nos dramas pessoais que o roteiro de Abi Morgan coloca em meio a um relato histórico. Na realidade, As Sufragistas deixará mesmo o espectador de boca caída com seus créditos finais, que, por meio de uma linha do tempo relativamente comprida, coloca na tela a cronologia dos países que aderiram ao voto feminino. E surpresa! O ano de 2015 está lá. Isso mesmo, foi apenas em 12 de dezembro de 2015 que a Arábia Saudita, último país do mundo a negar o direito de voto às mulheres, realizou a sua primeira eleição recebendo o público feminino como votantes e candidatas a cargos políticos. É o melhor momento do filme não porque As Sufragistas divague sobre o tema de forma inexpressiva, mas porque sua relevância temática, infelizmente, é muito maior do que a cinematográfica.

É importante ressaltar que, conceitualmente, As Sufragistas faz o dever de casa. O filme tem figuras femininas por toda sua equipe: na direção, Sarah Gavron; no roteiro, Abi Morgan; no elenco, praticamente apenas mulheres (e ótimas atrizes, vale destacar). Esse passo é sim significativo para a igualdade de sexos no fazer cinematográfico, já que ainda vivemos tempos em que atrizes do calibre de Meryl Streep precisam promover laboratórios para que mulheres possam exercitar sua criação no segmento de roteiros e ingressar nesse mercado de trabalho. Tudo bem que essa concepção da equipe seria o mínimo para um filme que fala justamente sobre justiça entre homens e mulheres, mas nunca é demais comemorar que composições como essa realmente saiam do papel. O que acontece é que, dramaticamente falando, As Sufragistas não entrega absolutamente nada de criativo, talvez cometendo o erro de acreditar que a força do tema que tem em mãos é o suficiente para dar conta do impacto da experiência. Não deixa de ter sua parcela de razão, mas, para realmente se tornar um produto de discussões e grandes dimensões, é necessário muito mais. Cinema não pode ser apenas um mero registro histórico sem criação. Para isso, existe uma infinidade de programas de grandes reportagens na TV.

Não precisamos ir fundo na memória para resgatar outras produções que se entregam ao tema de igualidade sem exercitar muitas ideias. The Normal Heart, sobre a disseminação da AIDS nos Estados Unidos, é uma delas. Até mesmo – e sei que muitos vão me crucificar aqui – o oscarizado 12 Anos de Escravidão parece muito mais um simples relato sobre o horror da escravidão do que propriamente um cinema de grandes criações. De forma alguma esses filmes perdem sua relevância temática (e só a existência de obras que contemplem tais temas já vale a iniciativa), mas, se formos falar além dessas fronteiras, a impressão que fica é bem menor. As Sufragistas não foge à regra e é possivelmente o longa mais tradicional entre os já citados. As feministas de plantão certamente terão muito a contribuir em relação à fidelidade dos fatos, mas, cinematograficamente falando, o longa de Sarah Gavron se utiliza de ferramentas cômodas demais para ambientar o mundo de injustiças  vivido pelas mulheres britânicas no início do século XX. Percebam a jogada mais básica: em menor ou maior escala, todos os homens da história são tiranos ou insensíveis. Não existe saída mais óbvia do que vilanizar de forma unilateral uma maioria para vitimizar as minorias, e uma história como a de As Sufragistas merecia um pouquinho mais de requinte.

No geral, todo o arco dramático escrito por Abi Morgan (é sempre complicado ter boa vontade com ela depois do desastre que foi A Dama de Ferro) segue caminhos já conhecidos, como o fato da protagonista obviamente se entregar ao movimento sufragista depois de tanto renegá-lo. Existe também a figura de uma garota mais jovem em quem a Maud de Carey Mulligan obviamente vê o seu reflexo de adolescente sofrida e sem chances na vida de anos atrás – e precisa algum esforço para adivinhar como se desenhará o destino dessa relação? Este é o clássico caso de um filme basicamente certinho e inofensivo, mas que em momento algum expande suas ambições. Público para isso tem de sobra, e não podemos dizer que As Sufragistas não é dotado de elementos para satisfazê-los. Mesmo os mais exigentes devem reconhecer o bom elenco feminino, especialmente Mulligan, em seu trabalho mais relevante desde Educação. Aos curiosos, vale o comentário: Meryl Streep, apesar da divulgação, tem apenas uma cena, mas sua escalação faz todo sentido, já que somente uma atriz de sua grandeza poderia dar a força de presença necessária para Emmeline Pankhurst, a líder foragida do movimento sufragista que era raramente vista e só discursava para suas seguidoras em momentos e lugares estratégicos.

Com uma boa parte técnica (destaque para a trilha de Alexandre Desplat), As Sufragistas tem um claro comodismo ao construir a dramaticidade de sua trama, mas termina cumprindo sua missão como produto temático, se isso for suficente. Na estreia do filme em Londres, um grupo de mulheres protestantes ultrapassou as barreiras de segurança e invadiu o tapete vermelho bradando pelas gerações que morreram sem direito ao voto e lembrando que o sufragismo ainda está aí. Helena Bonham Carter comemorou a iniciativa delas e disse estar feliz pelo filme ter tido algum efeito, e que é justamente para isso que ele existe. Só vou discordar um tantinho de Helena e voltar a afirmar que, sim, o bom cinema é aquele que provoca e que mais questiona do que responde, mas a forma também me parece fator preponderante para uma experiência mais instigante. As Sufragistas pode fazer um belo serviço para as discussões envolvendo os direitos da mulheres. Já nos debates sobre cinema em si, o papo deve ser menos empolgante…

Rapidamente

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Jennifer Lawrence tenta, mas o último filme da saga Jogos Vorazes é problemático individualmente e como complemento aos outros capítulos da saga.

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – O FINAL (The Hunger Games: Mockingjay – Part 2, 2015, de Francis Lawrence): Lamentável uma série que dependia tanto deste último volume para se tornar um marco terminar de forma tão decepcionante. Com a sucessão de escolhas erradas que foi dividir o último capítulo em dois volumes, Jogos Vorazes, no final das contas, fica na lembrança como uma franquia bastante irregular. São inúmeras as razões que fazem de A Esperança um capítulo aquém do que a série mostrou no ótimo Em Chamas, e todas estão ligadas a essa velha decisão comercial que coloca as bilheterias em primeiro lugar e não a história. Como complemento ao capítulo anterior, este novo filme só enrola durante longos 130 minutos para chegar a um clímax mal conduzido e pobremente arquitetado (Julianne Moore mais uma vez deu azar!), enquanto Jennifer Lawrence faz o que pode com o roteiro pobre em ação e que não cria discussões ou metáforas interessantes nos momentos de calmaria. Nós já sabemos tudo o que precisamos saber sobre a protagonista e sua batalha, e o que importa mesmo aqui é passar a régua e terminar as contas. Só que Jogos Vorazes: A Esperança – O Final tem pouco a dizer (reflexo de que tudo deveria ter sido condensado em um filme só), além de um elenco desperdiçado, um triângulo amoroso insosso e uma das cenas finais mais cafonas do ano. Não serve nem como uma carinhosa despedida do saudoso Philip Seymour Hoffman, em seu último filme lançado nos cinemas.

MY HOUSE IN UMBRIA (idem, 2003, de Richard Loncraine): Deve ter sido pela dívida de nunca ter premiado uma dama como Maggie Smith que o Emmy a consagrou como melhor atriz em telefilme/minissérie por esse açucarado drama dirigido por Richard Loncraine. A teoria é essa porque My House in Umbria não traz qualquer desafio para a veterana ou sequer uma cena mais especial onde ela possa realmente brilhar. Na tentativa de fazer um mosaico com personagens de diferentes origens e idades (todos sobreviventes de um ataque terrorista em um trem que passam uma temporada na mansão da protagonista vivida por Maggie), My House in Umbria fica sem consistência pois não desenvolve com propriedade nenhuma das figuras em questão. Até mesmo a relação da protagonista com uma garotinha que fica órfã após a tragédia é trabalhada de forma rasa e sem a emoção que merecia. Maggie está lá, com sua habitual sobriedade britânica, mas a mão frequentemente pesada de Loncraine para o drama mina o filme quase por completo, especialmente quando, na falta de conflitos mais sólidos, o diretor resolve aumentar o tom da trilha sonora ou inventar pequenos conflitos que nunca se revelam uma verdadeira contribuição para o todo da história.  

TEMPORÁRIO 12 (Short Term 12, 2013, de Destin Daniel Cretton): É com muita maturidade e sensibilidade que o diretor Destin Daniel Cretton, em seu segundo longa-metragem, conta uma história super complicada: a de uma jovem que, na casa de seus 20 anos, convive com as mais diferentes tragédias pessoais de um grupo de adolescentes em uma clínica. A sobriedade reina em Temporário 12, que, com grande delicadeza, apresenta dramas densos sem nunca cair no melodrama ou no exagero. Hoje favorita ao Oscar de melhor atriz por O Quarto de Jack, Brie Larson já entregava um belo momento no filme de Cretton e, por mais que alguns de seus conflitos pessoais sejam perfeitamente previsíveis, a atriz nunca deixa transparecer em sua atuação qualquer fragilidade que o roteiro possa ter. Ao mesmo tempo triste e esperançoso, Temporário 12 é um exemplar clássico do cinema independente que se preocupa muito mais com a complexidade dos sentimentos do que com a complexidade dos fatos. É nos pequenos momentos e na verossimilhança de seus adolescentes problemáticos e perdidos na vida que o filme de Cretton se engrandece – o que confere ao filme uma humanidade das mais preciosas.

A VERY MURRAY CHRISTMAS (idem, 2015, de Sofia Coppola): Lançado pelo Netflix, o Natal musical de Bill Murray se assemelha muito ao que simbolizam os dois decepcionantes filmes de Sex and the City, em especial o segundo: amigos se divertindo do lado de lá da tela enquanto os espectadores ficam completamente entediados assistindo sem fazer parte da festa. Não há carisma ou ator experiente como Bill Murray que sustente este especial de uma hora onde a história simplesmente inexiste e tudo é mero pretexto para que várias celebridades soltem a voz em um karaokê infinito de músicas natalinas. Sofia Coppola, que há anos não realiza algo realmente relevante, dirige A Very Murray Christmas de forma muito displicente, provando que, caso não ela não estivesse atrás das câmeras, os atores certamente conduziriam tudo da mesma maneira sem qualquer dificuldade. Isso porque Coppola não encena os números musicais com qualquer criatividade, apostando 100% na ideia de que o carisma de figuras como George Clooney e Amy Poehler é o suficiente para que a atração se sustente. O problema é que não demora muito tempo para percebermos que não é isso o que acontece. Na realidade, A Very Murray Christmas só serve mesmo para abrir nossos olhos (e ouvidos) para a boa cantora que Miley Cyrus é. 

Na TV… como a HBO marca época com “The Leftovers”

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Justin Theroux e o grande momento de sua carreira no episódio I Live Here Now: submerso em uma atmosfera inspirada em David Lynch, o ator emociona ao cantar Homeward Bound.

A HBO se tornou HBO por respeitar suas ideias e projetos. Não é toda emissora que aposta firme em cada escolha tomada até o fim. Vejam The Leftovers, por exemplo, que adapta o livro homônimo escrito por Tom Perrotta (para quem não lembra, ele é o autor das obras que originaram os filmes EleiçãoPecados Íntimos). A primeira temporada do programa, exibida em 2014, não pontuou bem em audiência (não que isso seja um fator decisivo para emissoras de TV fechada) e recebeu avaliações bastante mistas da crítica. Ainda que o primeiro ano dessa série criada pelo próprio Perrota e por Damon Lindelof (da amada e odiada Lost) adaptasse por completo o livro original, o que seria a desculpa perfeita para que o programa terminasse ali mesmo, a HBO reconheceu, apesar de tantos fatores contra, o potencial do enredo e de sua equipe, renovando The Leftovers para uma segunda temporada. Pois abençoados sejam os executivos da emissora, já que, com a nova aposta, todos nós fomos presenteados com uma dessas temporadas que eventualmente chegam à TV para marcar época.

Assim como a temporada final de Breaking Bad mostrou como faz diferença um seriado ter roteiristas preocupados com a coesão da trajetória dos personagens, The Leftovers segue o padrão do programa criado por Vince Gilligan, com a diferença de tomar uma decisão das mais ousadas: ter o reboot como conceito em seu mais novo ano. Isso mesmo, dessa vez Kevin Garvey (Justin Theroux, no papel mais expressivo da sua carreira) abandonou o trabalho como policial de Mapleton e se mudou para Jarden, no Texas, onde busca um recomeço com sua nova família. Em contramão, a problemática que dá tom ao seriado continua a mesma: o repentino e inexplicado desaparecimento de 2% da população mundial no dia 14 de outubro. Só que Jarden, a nova cidade de nosso herói, ostenta um importante fato: nela, ninguém sofreu perda alguma no fatídico dia em questão, o que trouxe o seu apelido de Miracle (milagre, em português) e até mesmo a maravilhada busca dos turistas por um pouquinho da água que percorre o rio desse lugar supostamente abençoado. Ou seja, tudo é novo na segunda temporada de The Leftovers (até mesmo a abertura!), o que não deixa de ser uma forma de se distanciar do primeiro ano que tanto dividiu opiniões.

Com cenário e personagens novos, a temporada começa com um prólogo ambientado na pré-História, exatamente no local que viria se tornar a milagrosa Jarden. Lindamente filmada, a sequência acompanha o momento trágico em que uma mulher grávida se separa de sua tribo após um grande deslizamento. Sozinha, ela precisa sobreviver na mata e inevitavelmente dar luz ao seu filho em condições nada adequadas. Descobrimos aos poucos que essa é uma bela introdução para a nova fase de The Leftovers porque ela sintetiza exatamente uma das propostas da nova temporada: todos nós sofremos perdas de um jeito ou de outro, e não é porque Jarden não foi atingida pelo inexplicado desaparecimento mundial que ela não vive dramas particulares envolvendo despedidas. Dessa forma, os Garveys podem continuar como protagonistas da série, mas, no epicentro dos novos dramas, está o clã dos Murphy, que, como descobrimos logo em Axis Mundi, o capítulo de estreia, precisarão lidar com um desaparecimento inesperado. Mas, afinal – e aí está o xis da questão -, um desaparecimento de qual natureza? É a partir desse ponto que a série concentra suas discussões nesta que é a análise mais interessante pontuada pela obra de Tom Perrotta: o luto e a dificuldade que temos em seguir em frente.

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Vencedora do Emmy 2015 de melhor atriz coadjuvante em minissérie por American Crime, Regina King também está ótima e digna de prêmios como a matriarca da família Murphy em The Leftovers.

A ruptura das convencionalidades estruturais surge logo no primeiro capítulo, quando The Leftovers, ao não mostrar o que de fato aconteceu com os personagens da série após a primeira temporada, prefere simplesmente nos jogar no universo de novas figuras ao longo de um episódio de quase uma hora. Kevin Garvey e cia só dão as caras nos últimos minutos de Axis Mundi, mostrando uma imensa maturidade por parte dos roteiristas, que claramente confiam em seu material e, principalmente, em seu público. Toda a primeira metade dessa temporada divida em 10 episódios é, na realidade, um primor de negação ao lugar-comum. Ao instalar um mistério envolvendo os Murphy, a série se utiliza de dois episódios posteriores para narrar outros pontos de vista daquele mesmo período. Isso significa que, após jogar os espectadores em um conflito repleto de questionamentos, The Leftovers só retoma as discussões do tal mistério no quarto episódio. Assim, em termos cronológicos, a série simplesmente não anda ao longo desses capítulos. Não é qualquer programa que tem peito para assumir uma decisão dessas – e o melhor: a jogada não é para segurar a audiência ou coisa do gênero, e sim outro movimento em direção a uma construção dramática mais completa e transgressora.

Uma das práticas mais inspiradas da primeira temporada da série é retomada aqui: a de produzir episódios-solo para determinados personagens. No ano anterior, tivemos Nora (Carrie Coon) e Matt (Christopher Eccleston) agraciados com essa escolha (episódios assim são um presente para qualquer ator e personagem), e aqui a fórmula se repete com personagens como o próprio Matt e o protagonista Kevin. É um desafio começar narrando uma temporada a partir de diferentes pontos de vista e depois eventualmente estruturá-la com episódios-solo porque a trama como um todo pode se estagnar ou até mesmo atrasar questões importantes. Infelizmente, The Leftovers não está isenta de tropeços assim, conforme fica evidente no penúltimo episódio, dedicado a uma personagem que já não está entre as mais interessantes: Meg, interpretada por Liv Tyler. Nele, parece que resolvem tirar o atraso de muitas explicações de forma apressada e destoante do novo clima, tornando esse o único erro de uma temporada praticamente perfeita. Apesar dele, acompanhar capítulos dedicados exclusivamente a apenas um personagem é sempre uma experiência recompensadora, e o seriado sabe fazê-los como ninguém.

Mesmo com o avanço mais devagar em termos de acontecimentos por causa da constante estrutura diferenciada dos capítulos, The Leftovers nunca deixa de inserir novos e instigantes temperos à mistura, como a crescente loucura de Kevin, que ainda tenta superar (literalmente) importantes fantasmas de seu passado. E o que dizer das simbologias ou até mesmo das ironias que o inteligentíssimo roteiro propõe? Não é curioso que, em uma cidade tão religiosa e milagrosa como Jarden, o reverendo Matt seja justamente a pessoa cuja palavra é mais questionada? E também não chega a ser tocante a forma como o episódio Lens finalmente desvenda o que está por trás da cena em que Erika (Regina King) desenterra um pássaro na floresta? Esta segunda cena, em particular, é um dos pontos altos da temporada, pois, fora a precisa direção de Craig Zobel que torna claustrofóbico o diálogo da personagem com Nora, as duas atrizes dão um show em cena. E, de quebra, a sequência que dá continuidade a esse momento é um dos momentos mais assombrosos da TV em 2015, graças também à sempre marcante e poderosa trilha instrumental de Max Richter.

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Carrie Coon, sempre muito crível e humana como a sofrida Nora, é uma das tantas atrizes do elenco feminino que elevam a carga dramática de The Leftovers.

Falando em elenco, são poucos os grupos de atores tão irrepreensíveis como esse, especialmente se nos referirmos às mulheres. Começamos por elas: Regina King, a nova adição da temporada, tem momentos dignos de prêmios (a cena já citada do episódio Lens ou qualquer aparição sua na season finale, com destaque para a sequência na ponte); Carrie Coon segue esbanjado humanidade como a mulher que perdeu toda a família no desaparecimento do dia 14 de outubro e tenta se agarrar a qualquer vislumbre de esperança rumo a uma nova vida; Ann Dowd, como o tormento na vida do protagonista Kevin, transmite com perfeição toda a provocação e o incômodo oriundos de sua personagem; e, por fim, Amy Brenneman, ex-esposa de Kevin que se entregou aos Remanescentes Culpados (grupo, seita, culto ou como você preferir que acha que o mundo acabou após o desaparecimento mundial e que isso nunca deve ser superado), dá sua boa contribuição à verossimilhança dos personagens mesmo em momentos menores.

Na ala masculina, Justin Theroux, como um homem lindíssimo, mas estranhamente inseguro e nada ciente de seu apelo físico, pela primeira vez está plenamente no controle de seu protagonista, surpreendendo nos seus dois episódios-solo e, principalmente, em I Live Here Now, capítulo derradeiro que entrega o grande momento da carreira do ator: aquele em que ele canta Homeward Bound, um dos clássicos da dupla Simon & Garfunkel. Enquanto isso, Christopher Eccleston continua impecável como o reverendo Matt e, assim como um bom padre, faz um magnífico uso das palavras. Fechando o expressivo grupo masculino está Kevin Carroll, debutante na série, que faz uma composição das mais instigantes: seu John Murphy é ao mesmo tempo um sujeito muito humano e perigoso, fazendo com que nossa compaixão por ele sempre seja alternada por uma incômoda insegurança. Se justiça existisse no mundo e prêmios significassem alguma coisa, o elenco de The Leftovers seria celebrado por todos os cantos (o único prêmio que fez justiça na temporada desse ano foi o Critics’ Choice Awards que, além de indicar o programa a melhor série, lembrou dos atores em todas as categorias de atuação). 

Sucesso de crítica e elencada por diversas publicações como uma das grandes séries de 2015, a atração, no entanto, pode realmente dividir opiniões quando chega a International Assassin, o oitavo episódio da temporada. Mergulhando em um universo à la David Lynch para ambientar a trama no subconsciente de um personagem e resolver um cliffhanger aparentemente defintivo, o episódio dá uma guinada brusca e momentânea de tom na série. A polêmica vem em função de International Assassin usar justamente de um devaneio para ajustar um conflito crível e pé no chão. É preciso comprar a proposta da viagem para não se decepcionar com as resoluções – mas é garantido: para quem embarcar no espírito, esse é um dos melhores momentos da TV em 2015 (o episódio, inclusive, está indicado ao Writer Guilds of America, o sindicato de roteiristas, na categoria de melhor roteiro de episódio dramático).

Encaro, na realidade, a provocação de International Assassin como outra inovação de um programa em constante evolução e transgressão, o que nunca encontramos tão facilmente por aí. A HBO novamente saiu em defesa do programa que, mesmo com boas críticas, seguiu com a audiência despencando: em 2016, The Leftovers se despede da TV, mas tendo a oportunidade de planejar seu desfecho com uma nova temporada de 10 episódios. Por mais que o segundo ano pudesse perfeitamente encerrar a trama sem qualquer prejuízo (a cena final é de uma simbologia linda e definitiva), é empolgante ver que temos mais pela frente – e com o devido planejamento. Ainda assim, não será fácil se despedir de um programa como esse. A TV sempre merece curtir ideias inovadoras e bem conduzidas pelo máximo de tempo – e qualidade – que puder.