Cinema e Argumento

Rapidamente: Anomalisa, Boi Neon, Ex-Machina, Maze Runner: Prova de Fogo e Ponte dos Espiões

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Melancolia, sexo, nudez frontal e uma versão de cortar o coração de “Girls Just Wanna Have Fun”: Anomalisa é uma das animações mais diferentes e realistas que você vai ver em muito tempo.

ANOMALISA (idem, 2015, de Charlie Kaufman e Duke Johnson): Claro que são estilos extremamente distintos, mas Anomalisa não deve absolutamente nada a Divertida Mente, a animação mais unânime realizada em anos. Aqui o público é outro pois Anomalisa leva a assinatura de Charlie Kaufman, um diretor de ideias e formas atípicas. Em seu novo trabalho, ele aposta novamente em toda a rejeição à convencionalidade ao contar uma história melancólica. Para embarcar mesmo no clima, é preciso entender que a amargura com que Michael (voz de David Thewlis) enxerga cada aspecto do cotidiano não é gratuita ou uma mera atitude rabugenta, mas sim reflexo de uma vida já cansada, estagnada e ainda afetada por escolhas erradas do passado. É quando o nosso protagonista encontra Lisa (magnífica voz de Jennifer Jason Leigh) que o jogo muda: enquanto ele volta a desabrochar para a vida, ela, que não acredita que possa ser interessante para qualquer pessoa, começa a descobrir felicidades até então desconhecidas. Adulta, a animação encena sexo e nudez frontal com a maior naturalidade possível, alcançando momentos realmente tocantes em uma bela sequência dos personagens em um quarto de hotel (acredite: você nunca mais conseguirá ouvir Girls Just Wanna Have Fun, da Cindy Lauper, sem ter um nó na garganta). Pode até ser que Kaufman perca um pouco a mão no terço final, descambando demais para a loucura e deixando o coração de lado, mas, no geral, a impressão que Anomalisa deixa é uma das mais tocantes.

BOI NEON (idem, 2015, de Gabriel Mascaro): Boi Neon viajou de Toronto a Veneza e aqui no Brasil foi eleito o melhor filme pelo júri oficial do Festival do Rio em 2015. Ainda assim, não foi o suficiente para que ganhasse uma distribuição digna nos cinemas brasileiros, onde nem mesmo o circuito alternativo abraçou a obra com muita perseverança. A situação é compreensível, já que o filme de Gabriel Mascaro é mais sobre personagens do que sobre situações, e indo mais além: é uma história sobre um determinado grupo de pessoas em uma região muito específica. É uma pena, porém, que o público não tenha tido as devidas chances de conferir essa obra que desenha a questão da identidade de gênero com um pincel muito fino (é maravilhoso o personagem de Juliano Cazarré, que veste camisa rosa e é apaixonado por costura, mas que nunca balança a nossa certeza sobre a sua sexualidade), além de encenar o sexo de forma bastante transgressora (a longa transa com uma mulher grávida pode ser até mesmo angustiante para os espectadores mais sensíveis). Boi Neon funciona como cinema de autor, estudo de personagens e um fiel registro da geografia brasileira, especialmente a nordestina. Para seu público-alvo, é uma experiência bastante recompensadora.  

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2015, de Alex Garland): Chegou discretamente em home video aqui no Brasil, mas já tem uma carreira consolidada no circuito alternativo, o que deve lhe garantir o status de filme cult pelos próximos anos. O que existe de mais precioso neste primeiro longa dirigido por Alex Garland é a sua ambientação insegura. Apesar dos ambientes cheios de tecnologia e segurança, parece que sempre algo está prestes a acontecer na isolada casa em que estão os personagens. Muitas das figuras em cena corroboram essa sensação que também não deixa de assombrar Caleb (Domhnall Gleeson, um ator estranho e exótico à la Eddie Redmayne que certamente terá um grande papel no futuro), em especial a Ava de Alicia Vikander, uma vez que Oscar Isaac frequentemente escorrega nos exageros para construir um personagem que deveria ser cheio de dubiedades. As discussões já são antigas (os robôs podem ter humanidade? Um dia eles circularão entre nós sem que consigamos distingui-los?), mas o que quase derruba Ex Machina é mesmo o desfecho com furos indesculpáveis (ainda tento entender como se deu com tanta naturalidade a busca do helicóptero) e um joguinho super clichê de reviravoltas onde um personagem tenta mostrar ao outro quem é mais esperto.  

MAZE RUNNER: PROVA DE FOGO (Maze Runner: The Scorch Trials, 2015, de Wes Ball): Maze Runner é puro entretenimento e faz questão de assumir isso, o que quer dizer que a saga dirigida por Wes Ball não tem muita preocupação em se levar a sério com metáforas políticas e sociais. O importante é a diversão. O primeiro filme era mais introdutório, e Prova de Fogo, a continuação, realmente abraça por completo a ideia de adrenalina. Por um lado, Maze Runner tem muito a ganhar com essa escolha, já que é muito melhor ser descompromissado do que pretensioso – e, para quem compartilha tal ideia, é fácil embarcar nas correrias incessantes e em sequências indiscutivelmente nervosas, como aquela em que uma personagem fica à beira de um abismo sustentada apenas por um chão de vidro prestes a rachar. Por outro, o filme se resume a uma correria sem fim, tornando-se uma espécie de videogame cansativo onde os personagens precisam enfrentar um novo vilão ou desafio a cada fase. No fim, Prova de Fogo é a clássica diversão de momento, e é bem provável que a sessão acabe e você já nem lembre direito do (pouco) que aconteceu em termos práticos.

PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, 2015, de Steven Spielberg): Um cineasta como Steven Spielberg não deveria estar trilhando uma carreira tão desinteressante como a dos últimos anos. A aposta do diretor em filmes mais históricos e políticos como Cavalo de GuerraLincoln e agora Ponte dos Espiões certamente atrai uma ala mais tradicional, mas deixa muito a desejar na questão de trazer o diretor fazendo o seu melhor. No caso deste último, em particular, surpreende como não apenas a direção de Spielberg se limita a aproveitar com proeza o excelente design de produção e a envolvente fotografia mas também como o roteiro escrito pelos irmãos Coen em parceria com Matt Charman engana o espectador ao nunca entregar uma reviravolta sequer em uma história que sugere a possibilidade de novos rumos o tempo inteiro. Com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, o previsível Ponte dos Espiões é bem produzido, mas excessivamente morno e linear. Nem uma obra complicada chega a ser, o que só aumenta a sensação de que realmente a pior sensação que um filme pode deixar é a de indiferença.

Melhores de 2015 – Fotografia

Melhor Fotografia - Macbeth

Adam Arkapaw tem uma infinidade de trabalhos como diretor de fotografia em curtas-metragens, mas a sua credencial definitiva como o profissional ideal para esse segmento de Macbeth: Ambição e Guerra foi a trajetória em seriados e minisséries como Top of the Lake True Detective, programas que, curiosamente, refletem, assim como o texto de Shakespeare no qual o filme é baseado, a ideia de que não existe nada mais sombrio na vida do que a própria mente humana. As escolhas de Arkapaw não são unânimes: há quem considere óbvio o uso das cores e a forma como as lentes exploram o design de produção. Particularmente, senti o oposto, e fui submerso (ou seria sufocado?) pela fotografia, seja quando Arkapaw enquadra lady Macbeth (Marion Cotillard) sorrateiramente atrás de seu marido, representando a figura aparentemente secundária mas manipuladora que ela é ou quando assombra o espectador ao fazer um personagem desaparecer em uma paisagem avermelhada que claramente remete ao inferno que destruiu todo um reino. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)Mad Max: Estrada da FúriaSicario: Terra de NinguémSr. Turner.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Ida | 2013 Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

Ator certo, Oscar errado – parte 2

Esta é a segunda parte do nosso especial sobre atores certos que ganharam Oscar pelo papel errado. Cabe reforçar e esclarecer aqui a proposta do post. Não estamos falando da probabilidade de outra pessoa ter vencido em determinado ano, questionando a qualidade do desempenho vencedor ou muito menos nos atendo apenas aos desempenhos indicados ao Oscar de determinado ator para julgar um prêmio equivocado. A lógica é simples: tudo parte do nosso gosto pessoal, da nossa escala de preferência em uma categoria e do quanto achamos que o Oscar em questão realmente simboliza algo para a carreira de um ator. Portanto, nessa seleção em particular, você pode dizer que o Oscar de George Clooney era inevitável (era mesmo, sem dúvida) ou que Morgan Freeman é ótimo ator e está bem em Menina de Ouro (as duas afirmações estão corretas), mas isso não quer dizer que, na nossa avaliação, ambos eram realmente merecedores de festa por esses papeis, seja qual for a “desculpa”. O que conta única e exclusivamente para o Cinema e Argumento nessa série de posts é a excelência dos desempenhos no ano em questão.

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clooneyoscarGeorge Clooney (Syriana – A Indústria do Petróleo, 2006): Como não premiar um astro que começava a dar rumos completamente diferentes para sua carreira? O problema é que, em 2006, George Clooney merecia um Oscar não por sua atuação no complicadíssimo Syriana – A Indústria do Petróleo, e sim pelo auge de sua sofisticação como diretor em Boa Noite, e Boa Sorte. No entanto, ele não tinha chances contra Ang Lee por O Segredo de Brokeback Mountain, e acabou levando a estatueta, como compensação, pelo filme de Stephen Gaghan. A pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição: além do tempo ter mostrado que, de fato, Syriana não é nem de longe um dos momentos mais memoráveis do ator, Clooney teve chances muito mais dignas ao longo dos próximos anos. Mesmo que tenha vencido o prêmio como produtor por Argo, o galã poderia ter facilmente levado para casa uma estatueta de melhor ator por seu trabalho em Os Descendentes (Jean DuJardin só ganhou por O Artista justamente em função de Clooney já ter sido consagrado como intérprete) ou até mesmo como roteirista pelo inteligente Tudo Pelo Poder. Roubou o Oscar de: Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança), considerando que Jake Gyllenhaal não é coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

judidenchoscarJudi Dench (Shakespeare Apaixonado, 1999): Sou defensor de praticamente todo e qualquer prêmio para Judi Dench, mas não dos que recebeu por Shakespeare Apaixonado. Embalada pelo sucesso do filme, a veterana recebeu a estatueta em mais um daqueles momentos em que o Oscar resolve consagrar, com atraso, uma grande atriz, custe o que custar. Não é exatamente um problema ela ser coroada por um desempenho de oito minutos em um filme de 123 (Viola Davis tem mais ou menos isso em Dúvida e me assombra até hoje), só que sua aparição em Shakespeare Apaixonado parece mais uma curiosidade do que algo fundamental para a construção da história. A própria atriz brincou, ao receber o Oscar, que merecia apenas um pedacinho da estatueta – e com toda razão. Entre tantos papeis diferenciados e dignos do prêmio, merecia ter na estante uma estatueta por um momento mais marcante, seja como a complexa professora de história Barbara Covett de Notas Sobre Um Escândalo (era minha favorita em um ano fortíssimo para as atrizes) ou pela transgressora Laura Henderson, a protagonista de Senhora Henderson Apresenta, que, nos anos 1930, choca toda Londres ao abrir um teatro com espetáculos de nudez (se fosse para perder, que pelo menos Felicity Huffman tivesse a honra de ser derrotada por um ícone como Judi Dench e não por Reese Witherspoon). Roubou o Oscar de: Rachel Griffiths (Hilary & Jackie), a única candidata que conferi e que, mesmo assim, já merecia mais a lembrança.

freemanoscarMorgan Freeman (Menina de Ouro, 2005): Talvez não seja o caso de colocá-lo em uma lista de grandes injustiças do Oscar, mas aí quando você pensa em papeis marcantes de Morgan Freeman, certamente não é Menina de Ouro que a memória puxa. Muito antes, tem Conduzindo Miss DaisyUm Sonho de LiberdadeSeven: Os Sete Crimes Capitais, só para começo de conversa. Nem no próprio Menina de Ouro o ator é um dos aspectos que reverberam até hoje: o que fica mesmo com o espectador é a direção minuciosa de Clint Eastwood, a força emocional do trágico drama da protagonista e o desempenho excepcional de Hilary Swank. Novamente, lá atrás, vem a lembrança de Morgan Freeman. Por mais que a matemática apontasse uma vitória de Clive Owen por Closer – Perto Demais (ele levou o Globo de Ouro e o BAFTA por sua performance), a aposta em Freeman era uma das mais fáceis daquele ano, já que era uma nova oportunidade dos votantes finalmente darem atenção a um veterano há muito tempo querido pelo público e também pelo próprio Oscar (ele estava na quinta indicação). O ator faz muito bem o feijão com arroz em Menina de Ouro e não é possível dizer que sua performance é sem inspiração (especialmente em um ano não tão forte para a categoria), mas, verdade seja dita, em um filme de emoções complicadíssimas para qualquer um dos intérpretes, seu personagem basicamente não demanda maiores complexidades. Roubou o Oscar de: Clive Owen, que tem a árdua missão de encarnar o personagem mais antipático de Closer.

bridgesoscarJeff Bridges (Coração Louco, 2010): Pouco conheço a carreira de Jeff Bridges (tanto que não conferi nenhuma de suas outras indicações ao Oscar), mas reservo esse espaço para falar de um crime inafiançável que me bate de forma muito particular. Não é difícil constatar que Jeff Bridges ganhou o Oscar por ser um veterano que veio com o papel certo no momento certo para agradar os votantes, mas tanto o papel quanto o momento são altamente discutíveis. Primeiro porque não há novidade alguma no cantor decadente e alcoolista que resolve retomar as rédeas de sua vida, e segundo porque, independente do que a Academia supostamente devia a Jeff Bridges, não existia atuação mais indefectível naquele ano do que a de Colin Firth em Direito de Amar. Dilacerante, o filme representa até hoje o auge da maturidade de Firth como ator, que mergulha com perfeição na generosidade e na camuflada dor de um homem que raramente se mostra de verdade, seja pela sua própria sexualidade em uma época preconceituosa ou pela dor que julga ter que superar em silêncio. Não há correção de injustiça com qualquer ator que justifique a derrota do britânico, simples assim – e, por isso, nem preciso dizer de quem Jeff Bridges roubou o Oscar, certo?

Os vencedores do BAFTA 2016

Nunca escondi que sou um fiel escudeiro do BAFTA, dicaprioinarritumas vou confessar que o prêmio tem me decepcionado bastante nos últimos tempos. Foi-se o tempo em que os britânicos demonstravam autenticidade (ou justa fidelidade ao seu próprio cinema) ao ignorar o circuito indicando um filme como O Segredo de Vera Drake em 11 categorias ou celebrando obras como Desejo e ReparaçãoA Rainha. Hoje em dia, o BAFTA vai conforme a maré e celebra o que está em voga na temporada. A premiação deste domingo (14) foi mais uma clara prova disso, já que ela se tornou mais uma das tantas que resolveram “reparar” a derrota de Birdman para Boyhood no ano passado. Ao que tudo indica, Alejandro González Iñárritu deve mesmo se tornar o maior diretor da história com O Regresso (afinal, quem conseguiu faturar as estatuetas de filme e direção em dois anos consecutivos ou cinco Oscars em apenas dois anos?), enquanto Brie Larson e Leonardo DiCaprio têm tudo para também levar o prêmio mais cobiçado do cinema para casa.

O que desaponta especificamente no BAFTA é o fato dos votantes terem esnobado por completo o delicado drama Carol, o recordista de indicações da edição deste ano. Primeiro porque o filme está longe de merecer essa esnobação toda do circuito (fraude por fraude, Rooney Mara merece infinitamente mais o favoritismo de coadjuvante do que Alicia Vikander) e segundo porque os britânicos estão acostumados a festejar obras mais “clássicas” e calcadas no emocional (o próprio Boyhood ganhava tinha um afeto indiscutível). O que ainda se conclui com a lista de vencedores é que Mad Max: Estrada da Fúria pode levar menos Oscars do que o esperado: Emmanuel Lubezki também já conquistou o sindicato de fotografia por O Regresso, a categoria de efeitos visuais deve ser o prêmio de consolação para Star Wars: O Despertar da Força e o a lembrança do filme de Iñárritu em melhor som pode muito bem se repetir entre os votantes. Sobre os coadjuvantes escolhidos pelo BAFYA, a consagração de Kate Winslet por Steve Jobs não significa muita coisa, pois Alicia Vikander concorria certeiramente como protagonista por A Garota Dinamarquesa, ao passo que Mark Rylance deve se contentar apenas com a distinção dos britânicos, já que Sylvester Stallone não concorria por Creed: Nascido Para Lutar. Confira abaixo os vencedores:

MELHOR FILME: O Regresso
MELHOR DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu (O Regresso)

MELHOR ATOR: Leonardo Dicaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ: Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kate Winslet (Steve Jobs)
MELHOR FILME BRITÂNICO: Brooklyn
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Relatos Selvagens
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Star Wars: O Despertar da Força
MELHOR SOM: O Regresso
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR EDIÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria

A Garota Dinamarquesa

You are the only person who made sense of me.

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Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lucinda Coxon, baseado no romance “The Danish Girl”, de David Ebershoff

Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Adrian Schiller, Amber Heard,  Emerald Fennell, Henry Pettigrew, Jake Graf,  Nicola Sloane,  Pip Torrens

The Danish Girl, Reino Unido/EUA/Alemanha, 2015, Drama, 119 minutos

Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco, o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher. (Adoro Cinema)

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Na equação de A Garota Dinamarquesa, vários fatores contribuem para que metade do mundo já torça o nariz para o filme antes de vê-lo. O primeiro é Tom Hooper, que passou a ser odiado em função da paixão excessiva do Oscar por seu O Discurso do Rei e que, sim, investe em uma série de maneirismos infundados na tentativa de construir algum estilo. O segundo é Eddie Redmayne, ator que ninguém leva muito a sério por causa da idade e que até hoje é lembrado por ter roubado todos os supostos prêmios de Michael Keaton por Birdman com seu Stephen Hawking em A Teoria de Tudo. Já o terceiro e último é o fato de A Garota Dinamarquesa não ser inclusivo por preferir um jovem ator de Hollywood ao invés de um transexual para o papel principal.

O tema demanda grande delicadeza, e A Garota Dinamarquesa pode respirar aliviado: não é ofensivo ou sequer caricatural o roteiro escrito por Lucinda Coxon. Mesmo que não traga ao set pessoas que possam responder pela verossimilhança da história (ao contrário do seriado Transparent, por exemplo, que coloca transexuais em sua equipe para escrever roteiros e prestar consultoria), é respeitoso o retrato que o filme faz da transição do pintor Einar Wegener (Redmayne) para Lili Elbe, passando com dignidade por etapas importantes, como a primeira vez em que Einar desperta para o seu lado feminino e já mais tarde quando ele, agora Lili, finalmente começa a entrar na sociedade como mulher.

É cuidadosa, especialmente no princípio, a construção de A Garota Dinamarquesa em relação à personalidade de seus personagens e o que isso significa para o futuro deles: em questão de minutos, percebemos o quão frágil e inseguro é Einar, enquanto sua esposa Gerda (Alicia Vikander) é quem coordena as ordens da casa e até mesmo as decisões que o marido deve tomar na vida. Sutilmente, é aí que já percebemos toda a delicadeza de Einar, o que nos tira, em um sentido positivo, maiores surpresas quando a esposa, Gerda, forçando-o a posar para uma pintura de meia-calça e vestido, desabrocha no marido uma certa identidade que sempre esteve viva, mas até então adormecida.

A partir daí, é um caminho sem volta, e A Garota Dinamarquesa nos coloca nessa conturbada angústia do casal quanto à identidade do marido que agora quer assumir a identidade de uma mulher. O que era inicialmente brincadeira, logo se torna um dilema não apenas de identidade para Einar, mas para a própria Gerda, que, ao pintar a versão feminina de seu companheiro, estranhamente começa a ganhar inspiração e finalmente a ascender profissionalmente. Ou seja, o seu tão sonhado sucesso está diretamente ligado ao fato de seu marido ser agora uma mulher, o que torna impossível que a personagem tenha as duas coisas na vida. É um bom dilema para uma mulher que transborda humanidade ao sofrer por estar perdendo alguém, mas também por se dar conta de que não existe maneira de lutar contra aquilo, afinal, a libertação de Einar é o maior bem que ela pode fazer tanto por ela quanto por ele.

O trabalho da dupla protagonista se torna essencial para causar ainda mais empatia no espectador. Vikander começa A Garota Dinamarquesa com mais ênfase do que Redmayne, conquistando conflitos próprios e enfrentando questionamentos que são uma verdadeira saia justa. Ela é ótima ao transmitir a confusão de uma Gerda que parece não saber muito bem até que ponto vai a brincadeira do marido em se vestir de mulher ou muito menos quando ela deve parar de incentivá-la, principalmente quando sua arte ganha até exposições em Paris a partir dos belos quadros realizados com Einar inteiramente travestido de Lili. Vikander é consistente na hora de demonstrar fragilidade (a cena em que ela implora para Lili lhe devolver seu marido é um dos melhores momentos) e sensível ao externalizar a generosidade de uma mulher que coloca o outro em primeiro lugar.

O feito de Vikander conseguir chamar a atenção em cena é grande porque Eddie Redmayne é nada menos do que extraordinário como Einar Wegener/Lili Elbe. Em A Teoria de Tudo já era possível ver o quão impressionante Redmayne é no assunto trabalho corporal, mas aqui a sua transforação física é muito mais ampla dramaticamente porque, ao contrário da personificação de Stephen Hawking, ela dá mais possibilidades ao ator na construção dramática. Com um olhar, Redmayne, já um tipo um tanto andrógeno que facilita a confusão de gênero do personagem, transmite todo o universo de um homem quase-mulher que, de repente, se vê fascinado ao experimentar um vestido, ou a felicidade de uma agora-mulher que é finalmente aceita ao conquistar um emprego. A longa (e criticada) repetição dos mesmos gestos também surge claramente proposital, pois estamos acompanhando a jornada de uma pessoa que precisa reconstruir por inteiro a sua identidade emocional e física.

Tanto Vikander quanto Redmayne engrandecem o filme, procurando amortecer a série de problemas que se instalam a partir do momento em que Einar finalmente assume sua nova condição a partir da metade do filme. É nesse ponto que A Garota Dinamarquesa fica superficial, preocupando-se mais em trocar os vestidos do guarda-roupa desenhado por Paco Delgado a cada cena do que necessariamente discutir o que se passa na mente de Einar agora Lili. Desta forma, o roteiro de Coxon apenas reproduz questões já debatidas e retoma quase de forma displicente personagens esquecidos, como o Henrik de Ben Whishaw. Isso faz com que o filme patine, tornando pouco impactante até mesmo o tão esperado momento em que o protagonista, depois de diagnosticado esquizofrênico e até mesmo espancado nas ruas, finalmente encontra uma alma compreensiva que concorda em fazer a sua cirurgia de troca de sexo.

Tom Hooper, aqui mais comedido em relação a seus enquadramentos estranhos, é quem menos imprime alguma identidade ao resultado, o que é estranhamente positivo no caso dele, visto que o diretor constantemente tende a chamar mais atenção do que deveria quando tenta colocar na tela alguma identidade na tela. Com isso, o que fica na lembrança mesmo é que, apesar boa dignidade e respeito por seus personagens, A Garota Dinamarquesa vale mais como o show de dois jovens atores em papeis complicados, mas tratados por eles com o devido talento e sutileza. Isso por si só já deveria ser um incentivo para que os implicantes deixassem de lado suas eventuais birras e percebessem as pequenas mas significativas vitórias de A Garota Dinamarquesa.