Cinema e Argumento

Melhores de 2015 – Efeitos Visuais

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Descrito pelo diretor George Miller como uma alegoria que se aproxima da ideia de um western sobre rodas, Mad Max: Estrada da Fúria faz um belo serviço para os filmes de grande escala que ganham as telas de cinema: o de nos lembrar de que nem sempre o CGI é uma ferramenta indispensável. Isso porque mais de 80% do longa estrelado por  Charlize Theron e Tom Hardy utiliza efeitos práticos, com explosões reais, dublês e sets e maquiagens feitos especialmente para retratar determinado contexto. É puro realismo, mas isso também não desmerece o CGI muitíssimo bem empregado em momentos grandiosos (a imponente tempestade de areia) e em construções particularmente discretas (o braço mecânico da Imperatriz Furiosa). Ainda disputavam a categoria: No Coração do MarStar Wars: O Despertar da Força.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 Planeta dos Macacos: O Confronto | 2013 – Gravidade | 2012 O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)

A Bruxa

Wouldst thou like to see the world?

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Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Julian Richings, Wahab Chaudhry

The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/Canadá/Brasil, 2015, Terror, 92 minutos

Sinopse: Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus piores medos e seu lado mais condenável. (Adoro Cinema)

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O verdadeiro terror de A Bruxa se escancara logo no início do filme e, assim como no restante da produção, ele está longe de se configurar da maneira como estamos habituados a ver no gênero. O motivo não é nada associado a sustos: em plena década de 1630, uma família é expulsa de uma comunidade religiosa não por pecado ou voluptuosidade, mas sim pelo excesso de credo. Isso mesmo, excesso de religiosidade em 1630! Existe algo mais amedrontador do que isso? O afastamento dos personagens é o ponto de partida para a série de paranoias desse clã que, ao se isolar em uma paupérrima casa no meio da floresta, começa a viver situações estranhas que fogem de seu controle e a acreditar que aquele local está sendo pouco a pouco tomado por uma entidade sobrenatural. Não se engane, porém, ao pensar que A Bruxa é um terror clássico para ir ao cinema assistir com os amigos. Na realidade, é bem provável que seja o oposto: praticamente os sustos inexistem neste filme que preza muito mais por angustiantes conflitos psicológicos e por uma técnica que nos mergulha no silencioso descontrole contado aqui.

Dirigido pelo estreante Robert Eggers, A Bruxa não deixa de lembrar o clima de A Vila, aquele subestimadíssimo filme de época assinado por M. Night Shyamalan que também falava sobre uma comunidade isolada em uma floresta e cercada pelo medo, ou então A Fita Branca, celebrado longa de Michael Haneke também sobre fatos misteriosos em uma cidade alemã nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial . Só que aqui a situação é mais difícil porque falamos não de comunidades, mas de apenas seis pessoas que, dentro da própria casa, já vivem um mundo próprio e de distanciamento. Parece não existir mais ninguém no mundo além deles, o que aumenta consideravelmente o sufocamento. Para a família de A Bruxa, as regras devem ser seguidas à risca, a rotina é milimetricamente bem definida e a religião é utilizada como forma de opressão disfarçada de busca por boa índole. É claustrofóbico o convívio daquela família, ainda mais quando todos sufocam indomáveis mudanças interiores: enquanto a mãe pouco a pouco começa a culpar o marido pelo isolamento forçado a que foram submetidos, o único menino da família já começa a sentir os ímpetos de sua sexualidade ao não conseguir desviar o olhar dos seios da irmã. Tudo feito e sentido às escuras, já que não são necessário grandes pretextos para que trechos da Bíblia sejam evocados e que julgamentos surjam a partir de situações perfeitamente corriqueiras.

Por outro lado, é com extrema disciplina que Eggers, também autor do roteiro original, constrói a opressão religiosa do ambiente. Em momento algum A Bruxa se entrega a discursos fáceis sobre a palavra de Deus para que você compreenda a repressão do ambiente. No próprio suspense envolvendo o desaparecimento de um bebê e na ideia de uma força maligna entre a família, A Bruxa desenvolve tudo nas entrelinhas e em tom menor e mais lento, o que se apresenta como uma alternativa extremamente funcional que só reforça o clima intimidador já construído em todos os detalhes da exemplar parte técnica. Há de se tirar o chapéu para a ideia de Eggers e do fotógrafo Jarin Blaschke de filmar a história quase inteiramente em luz natural, pois isso faz com que realmente mergulhemos em uma época onde a luz inexistia  e os ambientes eram iluminados apenas por velas e lampiões. E ter todo esse contexto no meio de uma floresta inabitada já é capaz de causar arrepios por si só. Por isso, não estranhe se você achar o filme escuro e frequentemente incômodo em suas cores. Afinal, isso é resultado direto da inteligente escolha de A Bruxa causar desconforto até mesmo em um primeiro contato com os olhos.

Não será difícil encontrar quem desdenhe o filme de Robert Eggers por ele não conter sustos. Ora, tal percepção não deixa de ser fruto dos olhos treinados pelo cinema preguiçoso de terror que Hollywood vem entregando nos últimos anos. Particularmente, fujo do gênero justamente pelas suas implausibilidades, pela sua falta de criatividade e principalmente pela eterna confusão de que susto é sinônimo de atmosfera bem construída. Claro que existem filmes autorais e de menor orçamento, mas eles praticamente não ganham lugar ao sol, e por isso é tão importante que uma obra pequena e assinada por um estreante como A Bruxa ganhe merecida repercussão (uma obra de terror ganhar prêmio de direção no Festival de Sundance não é pouca coisa!). Vamos ser justos e reconhecer exemplares comerciais que funcionam, como Invocação do MalA Morte do Demônio. Só que raros e especiais mesmos são obras como o espanhol [REC], o uruguaio A Casa e agora A Bruxa. Ainda assim, pelo que me vem à memória, o terror psicológico de Eggers em nada se compara a qualquer exemplar do gênero que tenha ganhado as telas nos últimos anos. É experiência conceitual e experimental, o que pode repelir muita gente. Mas quer saber? Se conseguir embarcar, é coisa de mestre mesmo. 

Melhores de 2015 – Ator Coadjuvante

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Se não fosse por um imbatível J.K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição), Edward Norton poderia muito bem ter vencido o seu primeiro Oscar por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Seria não apenas um tributo ao talento do ator já explorado em outras obras, mas também aos altos níveis de interpretação que ele alcança no filme de Alejandro González Iñárritu. Perfeito em toda loucura, imprevisibilidade, egocentrismo e genialidade de um ator que acaba de embarcar na peça de teatro estrelada por Riggan Thomson (Michael Keaton), Norton rouba a cena toda vez que aparece, e não é de se duvidar que ele entregue a atuação mais marcante dentro de um elenco já excepcional. Nós amamos odiar o genioso Mike interpretado pelo ator, especialmente porque Edward Norton se esbalda em todas as possibilidades que lhe permitem brilhar. Ainda disputavam a categoria: Benicio Del Toro (Sicario: Terra de Ninguém), Irandhir Santos (Ausência), Lourenço Mutarelli (Que Horas Ela Volta?) e Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Jared Leto (Clube de Compras Dallas) | 2013 – Philip Seymour Hoffman (O Mestre) | 2012 – Nick Nolte (Guerreiro| 2011 – Alan Rickman (Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2| 2010 – Michael Douglas (Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme| 2009 – Christoph Waltz (Bastados Inglórios| 2008 – Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez| 2007 – Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford)

Melhores de 2015 – Atriz Coadjuvante

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É preciso admirar a coragem de Kristen Stewart ao ter topado embarcar em um projeto como Acima das Nuvens. Amaldiçoada por seus desempenhos repetitivos e enjoados na saga Crepúsculo, a jovem atriz não se intimidou ao aceitar o desafio de trabalhar ao lado de uma gigante como Juliette Binoche. Em qualquer circunstância, era de se imaginar que esse seria um completo suicídio e que, por mais generosa que fosse La Binoche, Stewart estaria fadada a desaparecer diante dela. Poucas vezes – e poucas vezes mesmo! – foi maravilhoso estar enganado. Ninguém era capaz de prever que ela faria um trabalho minucioso em parceria com a protagonista, provando que seus dias no mundo vampiresco realmente ficaram para trás. Como Valentine, a fiel assistente da consagrada intérprete Maria Enders (Binoche), Kristen Stewart brilhou nos detalhes e nas discretas complexidades de um papel essencial para a ampliação dos dramas pensados pelo diretor e roteirista Olivier Assayas. A dinâmica cinematográfica e teatral entre as duas personagens e o confronto de gerações que surge cena a cena tiram o melhor de Stewart, que, muito merecidamente, se tornou a primeira atriz estadunidense a conquistar um César em mais de quatro décadas da premiação. Ainda disputavam a categoria: Karine Telles (Que Horas Ela Volta?), Laura Dern (Livre), Naomi Watts (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)) e Tilda Swinton (Expresso do Amanhã).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões) | 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas)| 2011 – Amy Adams (O Vencedor| 2010 – Marion Cotillard (Nine| 2009 – Kate Winslet (O Leitor| 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro| 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)

Os vencedores do Oscar 2016

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Excetuando a tão esperada consagração de Leonardo DiCaprio e os merecidos e justificados memes para os comentários lacônicos de Glória Pires na transmissão da Rede Globo, o Oscar 2016 dificilmente será lembrado por qualquer acontecimento. Nem mesmo a não tão surpreendente vitória de Spotlight – Segredos Revelados é para tanta comoção: mesmo que não estivesse na dianteira para ganhar o prêmio principal, o filme de Tom McCarthy tinha na bagagem o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice. Pela lógica, também era um filme acessível e fácil de chegar ao triunfo com o sistema de votação da categoria que elenca os votos por ordem de preferência. Ou seja, em uma escala de zero a dez (no caso, oito), é muito mais provável colocar Spotlight no topo do que filmes mais específicos como O RegressoMad Max: Estrada da Fúria, que, na lista dos adoradores de Spotlight, podem muito bem ter sido os últimos.

Nunca o Oscar reuniu tantas pessoas negras para premiar brancos, e podemos dizer que Chris Rock fez o tema de casa como apresentador ao tocar na ferida. O mais importante é que a própria Academia reconheceu o problema, pautando a discussão em inúmeras esquetes ao longo da cerimônia. Volto a repetir, por outro lado, que não adianta elogiar muito: já não é de hoje que o Oscar tenta compensar um erro para depois, logo em seguida, voltar a fazer bobagem. Lembram de quando chamaram Ellen Degeneres, lésbica assumida, para apresentar o prêmio após a polêmica derrota de O Segredo de Brokeback Mountain? Parece não ter tido grande efeito para que Carol, por exemplo, sequer chegasse ao prêmio principal este ano mesmo com uma lista que possibilite até dez indicados. E não vale dizer que A Garota Dinamarquesa vencendo atriz coadjuvante com Alicia Vikander (mais uma atriz que o midas da atuação Tom Hooper ajuda a premiar!) indica o contrário.

Quanto à distribuição de prêmios em si, no geral, a cerimônia foi menos surpreendente do que o esperado (ah, essa nossa ilusão de que tudo pode ser inesperado!). Mad Max papou merecidamente uma penca de prêmios técnicos, Alejandro González Iñárritu levou novamente o prêmio de direção por O Regresso e, com exceção de Mark Rylance (Stallone, apesar do afeto, não vinha matematicamente com força para ganhar, enquanto o ator de Ponte dos Espiões era o único da categoria indicado a todos os prêmios da temporada), as estatuetas principais foram para o favorito ou, então, para um runner-up. O que não dava mesmo para prever era a absurda vitória de melhor canção original para “Writing’s on the Wall” (depois daquela justíssima vitória de Adele por um tema de 007, é meio constrangedor que uma música tão inexpressiva quanto essa também tenha a estatueta pela franquia) e a vitória de Ex-Machina em efeitos visuais, algo que certamente quebrou o bolão de todo mundo. No mais, nos vemos novamente em 2017! Confira a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR DIREÇÃO:
Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
MELHOR ATRIZ:
Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR:
Leonardo DiCaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
MELHOR ATOR COADJUVANTE:
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:
 Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MONTAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Writing’s on the Wall” (007 Contra Spectre)

MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Ex-Machina: Instinto Artificial
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Filho de Saul (Hungria)

MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: A História de Um Urso
MELHOR CURTA-METRAGEM: Stutterer
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO: A Girl in the River: The Price of forgiveness