Cinema e Argumento

Oscar 2016: apostas

oscarapostas16Chegamos à noite do Oscar 2016 com uma cerimônia que promete ser a mais imprevisível em anos – e realmente isso não é coisa de manchetes corriqueiras que lemos ano a ano. O responsável pelo mistério tem nome: Alejandro González Iñárritu, que, este ano, voltou vencendo todos os prêmios que perdeu ano passado para Boyhood: Da Infância à Juventude. Mas e o Oscar? Iñárritu fará história e repetirá os prêmios que ganhou ano passado por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)? Ou A Grande Aposta surpreenderá? Spotlight ainda está vivo na disputa? Todas as perguntas serão respondidas hoje, a partir das 22h30, quando começam a ser anunciados os vencedores. A cerimônia será transmitida no Brasil pelo canal TNT a partir das 22h30. Sem mais delongas, vamos aos nossos palpites, excetuando as categorias de curtas-metragens!

MELHOR FILME
Quem leva: O Regresso, porque não discuto mais com matemática
Quem merece: Mad Max: Estrada da Fúria, o único indicado que revoluciona
Fique de olho em: A Grande Aposta, já que é sempre bom considerar o Sindicato dos Produtores
Nunca venceria: Perdido em Marte

MELHOR DIREÇÃO
Quem leva: Alejandro González Iñárritu (O Regresso) pode até não levar filme, mas essa é praticamente barbada
Quem merece: George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria), indiscutivelmente
Fique de olho em: George Miller, que faz coisas sobrenaturais em Mad Max
Nunca venceria: Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack), que chegou de última hora sem o aval de outros prêmios

MELHOR ATRIZ
Quem leva: Brie Larson (O Quarto de Jack), sem hesitar
Quem merece: Charlotte Rampling (45 Anos), que deixa suas concorrentes comendo poeira
Fique de olho em: não tem jeito, é da Brie Larson
Nunca venceria: dizem que Rampling pelas bobagens que falou sobre racismo invertido, mas, se Jennifer Lawrence vencesse de novo, o mundo desabava

MELHOR ATOR
Quem leva: Leonardo DiCaprio (O Regresso), o prêmio mais certo da noite
Quem merece: Michael Fassbender (Steve Jobs)
Fique de olho em: e quem vai ter coragem de tirar o prêmio do DiCaprio?
Nunca venceria: qualquer um dos outros

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Quem leva: Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa), e prometo que vou me isentar de comentar sobre a fraude
Quem merece: Rooney Mara (Carol)
Fique de olho em: Kate Winslet (Steve Jobs), que, na realidade, está quase empatada com Vikander
Nunca venceria: Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados), que não deveria nem estar indicada

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Quem leva: Sylvester Stallone (Creed: Nascido Para Lutar)
Quem merece: a categoria não me empolga, mas acho que iria de Tom Hardy (O Regresso)
Fique de olho em: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
Nunca venceria: Tom Hardy, que não foi lembrado em qualquer outra premiação

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados / alt: Straight Outta Compton
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta / alt: Carol
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR FIGURINO: A Garota Dinamarquesa / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MIXAGEM DE SOM: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MONTAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: A Grande Aposta
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: O Regresso
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Til it Happens to You” (The Hunting Ground) / alt: “Simple Song #3” (Juventude)
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados / alt: Star Wars – O Despertar da Força
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Star Wars – O Despertar da Força / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy / alt: Cartel Land
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Filho de Saul (Hungria) / alt: Cinco Graças (França)
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente / alt: O Menino e o Mundo
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: Ponte dos Espiões

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 2

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MELHOR ATOR

O sofrimento como excelência

Nunca entendi muito bem as brincadeiras em torno do Oscar que nunca chega para Leonardo DiCaprio. Basta olhar ligeiramente o histórico do ator na premiação para perceber que ele nunca foi franco favorito ou merecedor da estatueta (com O Aviador ele não tinha como rivalizar com o Ray Charles de Jamie Foxx e em O Lobo de Wall Street ele nunca bateria a transformação física de Matthew McCounaghey em Clube de Compras Dallas, citando suas performances mais lembradas). De qualquer forma, não deixa de ser desestimulante a ideia de vê-lo ganhando por um de seus papeis menos emblemáticos. Ele literalmente quase morre em O Regresso para ganhar um Oscar, mas o que impede DiCaprio de estar superlativo aqui é o papel quase desprovido de arco dramático e que leva as premiações a acreditarem que sofrimento é sinônimo de excelência. Em contramão, a fórmula é perfeita para que seu favoritismo seja absoluto: um bom histórico no prêmio, um papel de empenho físico e o protagonismo do filme com mais indicações este ano. Ainda assim, é tarefa árdua ter qualquer empolgação com a sua futura consagração, inclusive porque, pelo segundo ano consecutivo, teremos mais uma láurea preguiçosa para alguém que merecia mais do que isso (contextualizando: sigo inconformado com todos os prêmios para Julianne Moore por Para Sempre Alice).

É pela celebração de um papel errado e por não compreender muito bem essa obsessão injustificada de entregar logo o prêmio ao ator que de certa forma me indigno com a ideia de que esta categoria esteja tão decidida. Concorrentes não faltam e dois deles são muitíssimo dignos. Primeiro tem o visceral Michael Fassbender desaparecendo por completo no protagonista-título do subestimado Steve Jobs. Ele é ótimo em todas as fases desenhadas pelo filme, e os saltos temporais não representam qualquer problema para o ator em termos de reprodução física ou construção dramática. E segundo – e sei que dividirei opiniões – continuo achando Eddie Redmayne digno de aplausos agora com A Garota Dinamarquesa. Sinceramente, não vejo a caricatura que muitos apontam, e considero tocante e envolvente a sua composição para a primeira pessoa que se submeteu à cirurgia de troca de sexo. O mistério dessa categoria é a lembrança de Matt Damon por Perdido em Marte (aliás, a indicação a melhor filme também é questionável), principalmente porque o ignorado Jacob Tremblay é soberbo em O Quarto de jack e porque não seria ruim ver Samuel L. Jackson, por exemplo, lembrado por seu ótimo desempenho em Os Oito Odiados (viu só como basta deixar a preguiça de lado para encontrar atuações de atores negros dignas de indicação, Academia?).

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MELHOR ATOR COADJUVANTE

O carinho como alternativa

Sylvester Stallone deu muita, mas muita sorte este ano. Comemorando 40 anos de Rocky, o ator volta ao seu papel mais emblemático dessa vez como coadjuvante em Creed: Nascido Para Lutar. Desgosto profundamente do filme, que é um amontoado de clichês e reciclagens da clássica história envolvendo um lutador destemido e um treinador veterano (procurem Guerreiro, de 2011, e vejam o que, apesar de novelesco, consegue ser um filmaço cheio de emoção e adrenalina no gênero), e a presença de Stallone só tem algum impacto mesmo em função desse seu retorno ao papel de Rocky Balboa. Não é culpa necessariamente dele, e sim do roteiro de Aaron Covington e Ryan Coogler, que abusa demais dessa metáfora entre ator e personagem sobre como o tempo passa e derrota, mas mesmo assim não derruba uma história de glória. E que preguiça só de lembrar que tem doença no meio…

Mesmo solenemente ignorado pelo Screen Actors Guild Awards e pelo BAFTA, que premiaram Idris Elba (Beasts of No Nation) e Mark Rylance (Ponte dos Espiões), respectivamente, Stallone chega como favorito ao Oscar 2016 de ator coadjuvante justamente em função dessa lembrança de carinho que cultivou na indústria – e basta rever sua vitória no Globo de Ouro para reforçar a teoria da comoção. A categoria é a mais fraca entre as listagens de atuação, e é por isso que nem dá para reclamar tanto da vitória do ator. Vamos aos fatos: Mark Rylance adota a fórmula de menos é mais (algo raríssimo de ser valorizado pela Academia), Mark Ruffalo tem seu show em uma cena particular de Spotlight, mas esse é um filme de grupo, Christian Bale misteriosamente roubou uma vaga que era para ser de Steve Carell por A Grande Aposta e Tom Hardy, mesmo sendo ótimo em O Regresso, só foi lembrado pelo Oscar, algo que matematicamente desqualifica qualquer possibilidade de vitória. Ou seja, o Oscar não deve nada a ninguém e a seleção não traz nenhum grande desempenho. A saída é ir pelo coração, e nisso há certa razão: o desempenho de Stallone é o único da lista que segue mais a emoção do que a técnica.

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CATEGORIAS TÉCNICAS

O peso do nome e do espetáculo

O BAFTA já deu a dica e é bom ficar de olho: não será surpresa alguma ver Mad Max: Estrada da Fúria levando menos prêmios do que o esperado. Afinal, O Regresso vem crescendo tanto nos últimos tempos que já consolidou sua consagração na categoria de melhor fotografia (o histórico terceiro Oscar consecutivo para Emmanuel Lubezki!) e invadiu outras que pareciam certas para o filme de George Miller, como edição e mixagem de som. O que se percebe, no entanto, é a predileção do Oscar por grandes espetáculos nesta seleção de 2016. Tanto O Regresso quanto Mad Max são filmes indiscutivelmente grandiosos (e com o bônus de serem, cada um a sua forma, revolucionários ou marcantes em muitos aspectos), o que não abre qualquer espaço para que outras obras calcadas na sutileza triunfem aqui ou ali: Carol, por exemplo, deveria ser aposta fácil em melhor figurino, enquanto o mestre Roger Deakins merecia ser finalmente premiado por seu pequeno grande trabalho como diretor de fotografia no quase independente Sicario: Terra de Ninguém.

Em 2016, os votantes da Academia também parecem muito propensos a não discutir com grandes nomes do cinema e da música. Um exemplo disso é a categoria de melhor trilha sonora, que é uma das barbadas da noite com a provável vitória do mestre Ennio Morricone depois de cinco indicações sem vitórias. Seu talento é incontestável, claro, mas, no caso específico de Os Oito Odiados, a vitória vem apenas como compensação. Na lista, Carol novamente se sobressai com uma trilha muito mais narrativa e que expressa, de forma sutil e elegante, a viagem emocional das protagonistas. Já no caso de Morricone, o tema criado por ele é ótimo, mas, ao longo do filme, a trilha se revela como um dos elementos menos marcantes. Entre as canções originais, o Oscar ficou de mãos dadas com o Globo de Ouro e resolveu celebrar tudo o que é estrela do momento: Sam Smith, The Weeknd e Lady Gaga. A última é a favorita para ganhar a estatueta, e me abstenho de comentar porque não vi o filme, mas, no caso de Sam Smith e The Weeknd, as lembranças são absurdas, pois as duas músicas não tem qualquer função no filme e surgem completamente avulsas nos respectivos contextos. Música em cinema precisa conversar com a obra em questão, o que é feito com perfeição pela ópera “Simple Song #3”, do belíssimo Juventude, outra indicação menor que corre totalmente por fora.

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 1

inarrituoscar16Não existe diretor mais poderoso atualmente do que Alejandro González Iñárritu. Prestes a entrar também no mundo da TV (ele atua em todas as frentes de The One Percent, drama estrelado por Hilary Swank e Ed Harris), o mexicano desbancou o favoritíssimo Boyhood no Oscar 2015 levando as estatuetas de filme, direção e roteiro para casa com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Agora, em 2016, ele tem tudo para fazer história como o primeiro diretor em 88 anos de Oscar a vencer consecutivamente as categorias de melhor filme e direção com O Regresso. Mas, afinal, de onde vem esse poder? Ora, em qualquer tempo ou espaço, um filme como O Regresso seria amplamente celebrado: a produção em grande escala é invejável, a ambição técnica dispensa comentários e toda a logística das filmagens é puro chamarisco que carrega a ideia de que excelência cinematográfica está diretamente associada a sofrimento nos bastidores. Não tenha dúvidas: filmes que rendem matérias como “rodado todo com luz natural” e “Leonardo DiCaprio comeu carne mesmo sendo vegetariano” são certeiros para fisgar mídia, público e votantes. Boyhood, de certa forma, bebeu dessa mesma fonte ano passado ao ganhar praticamente todas as premiações televisionadas com sua manchete de produção gravada ao longo de 12 anos. No entanto, o filme de Richard Linklater mas não foi páreo para os longos planos-sequências de Birdman no Oscar. Afinal, independente da fórmula, os votantes da Academia não são afeitos a dramas naturalistas.

Já que Boyhood papou quase todas as listas anteriores ao Oscar no ano passado e que Iñárritu está de volta em 2016 com um filme certeiro para consagrações, prêmios como Globo de Ouro e BAFTA resolveram não ficar atrás e compensaram a esnobada passada no mexicano. Vejam que poder: Iñárritu ganha o Oscar e ainda retorna para conquistar todas as estatuetas que não venceu por Birdman! Nessa “reparação” dos prêmios, obviamente se criou o buzz de que o diretor tem tudo para fazer dobradinha esse ano. E será mesmo que a previsão vinga? O que parece mais provável até aqui é o Oscar confirmar a lógica que se instalou em basicamente todos os anos na era pós-Crash: deixar as surpresas de lado para evitar polêmicas, baixar a cabeça, seguir a matemática e concordar com todo mundo. Mas não custa sonhar que a Academia seja milagrosamente autêntica e prove que não deve nada ao diretor, abrindo espaço para filmes como A Grande Aposta (vencedor do Producers Guild Awards) e, em um grau bem menor, Spotlight – Segredos Revelados (que tem na bagagem o Critics’ Choice Awards e o Screen Actors Guild Awards). Agora, por que não Mad Max: Estrada da Fúria, que vem com 10 indicações, carrega uma unanimidade incomparável e tem uma escala de produção tão digna quanto a de O Regresso? Muito simples: Mad Max é ficção, filme de “entretenimento”, e isso não é levado a sério na hora do voto. No entanto, se o Oscar quisesse fazer a sua melhor manobra em décadas, o longa de George Miller seria a escolha perfeita para trazer de volta ao prêmio um amor de público e crítica que há tempos lhe está muito, mas muito distante.

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MELHOR ATRIZ

O reinado absoluto de Charlotte Rampling

Vamos ser francos: Charlotte Rampling disse bobagem – e não foi só ela. Com a história de que os brancos estavam sofrendo “racismo inverso”, a veterana britânica afundou as poucas chances que já tinha na categoria de melhor atriz com seu desempenho em 45 Anos. Ela tentou ser esperta e corrigir o que disse, mas já era tarde demais. O que só realmente não vale é diminuir seu magnífico desempenho no filme de Andrew Haigh em função dessa declaração estapafúrdia (sempre gosto de acreditar que a humanidade sabe separar o que está dentro ou fora das telas). Sabe-se lá como apenas o Oscar, em um surto repentino de inteligência, lembrou de sua atuação, que é, disparada, a melhor entre as indicadas. Protagonista absoluta de 45 Anos, Rampling tem a difícil missão de externalizar apenas em olhares os sentimentos sufocados de uma mulher assombrada pelo passado e em pleno sofrimento interno.

A concorrência de Rampling é relativamente boa, já que Saoirse Ronan brilha do início ao fim em Brooklin e Cate Blanchett é novamente deslumbrante e cheia de nuances em Carol. As três são superiores à favorita Brie Larson, que, em O Quarto de Jack, tem seu show quase ofuscado pelo brilhante Jacob Tremblay, que sequer está indicado a qualquer coisa – e talvez seja por isso que considero o futuro Oscar de Brie questionável: todo o filme se sustenta, em emoção e narrativa, na figura do garotinho. A pisada na bola dessa seleção é mesmo a injustificável indicação de Jennifer Lawrence, uma vez que nem as premiações compraram direito o mediano Joy: O Nome do Sucesso. Volto a dizer que a garota é boa, mas, no novo filme de David O. Russell, não existe nada que ela já não tenha nos mostrado antes. É preciso parar com essa superexposição da moça, afinal, existia uma Charlize Theron emblemática na fila para conquistar uma lembrança por Mad Max: Estrada da Fúria.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Os extremos das fraudes

Tudo bem que a temporada de premiações não passa de uma corrida movida a ego na indústria e que os estúdios praticamente se digladiam para conquistar qualquer estatueta no Oscar, mas esse ano abusaram do nosso bom senso. Pior ainda: chega a ser desestimulante ver que tanta gente embarca em qualquer fraude vendida por aí. Não há o que ser contestado: Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) simplesmente não são coadjuvantes em seus respectivos filmes – e talvez tenham até mais tempo em cena do que seus colegas indicados a protagonistas. Por isso, em uma análise qualitativa da categoria, a balança fica distorcida, pois é de uma injustiça absurda comparar verdadeiras coadjuvantes a protagonistas que têm muito mais tempo e chances em cena para brilhar. Não só Vikander e Mara foram indicadas como a primeira está na dianteira para levar o prêmio.

Se é para consideramos as fraudes, Rooney deveria ser a unanimidade. Vikander é excelente em A Garota Dinamarquesa, mas o trabalho de Mara é muito mais complicado e menos novelesco. Como Therese Belivet, uma jovem que abre os olhos para o mundo ao se apaixonar por uma mulher madura, ela capta com grande excelência a transição de uma menina apaixonada para uma mulher consciente de todos os seus atos e sentimentos. Já entre as verdadeiras coadjuvantes, Jennifer Jason Leigh tem o papel mais marcante com Os Oito Odiados, enquanto Kate Winslet, que vem coladinha em Vikander na disputa pelo prêmio, dá a volta por cima na sua carreira inexpressiva dos últimos anos com um ótimo desempenho em Steve Jobs. O que não dá para entender na seleção é o nome de Rachel McAdams entre as indicadas, afinal, nem se quisesse ela teria material para brilhar em Spotlight. Querer a lembrança de Kristen Stewart (Acima das Nuvens) seria ter fé demais no bom gosto dos votantes, mas não é difícil pensar em outras prováveis candidatas melhores do que a eterna Regina George de Meninas Malvadas

Melhores de 2015 – Elenco

Melhor Elenco - Birdman

É sempre admirável quando um filme consegue tirar o melhor proveito de seus atores, seja dos que protagonizam a história ou daqueles que aparecem brevemente em cena. Birdman se enquadra nesse grupo não simplesmente por ter atores talentosos por todos os cantos, mas por saber aproveitá-los. Se a ironia de ter Michael Keaton interpretando um sujeito de carreira decadente tentando dar a volta por cima é perfeitamente funcional, nomes como Zach Galifianakis e Amy Ryan se destacam em poucas cenas com versatilidade (é o caso dele) ou simplesmente por serem realmente ótimos com qualquer texto (Ryan prova mais uma vez que merecia chances melhores no cinema). E o que falar de Edward Norton totalmente ensandecido como o egocêntrico ator substituto que chega ao espetáculo encenado pelo filme? Ou de Naomi Watts, tão maravilhosa e subestimada como uma atriz insegura que está prestes a pisar pela primeira vez em um palco da Broadway? Mesmo Emma Stone, ovacionada em excesso com indicações para todos os prêmios por seu trabalho aqui, tem uma cena especial: aquela em que enfrenta o pai, acusando-o de estar alheio ao mundo a sua volta. Ainda disputavam a categoria: Foxcatcher – Uma História Que Chocou o MundoMapas Para as EstrelasQue Horas Ela Volta?Sicario: Terra de Ninguém.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Relatos Selvagens | 2013 Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

O Regresso

As long as you can still grab a breath, you fight.

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Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu e Mark L. Smith, baseado no livro “The Revenant”, de Michael Punke

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy,  Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Paul Anderson,  Kristoffer Joner, Joshua Burge, Duane Howard, Melaw Nakehk’o,  Fabrice Adde, Arthur RedCloud, Christopher Rosamond, McCaleb Burnett

The Revenant, EUA, 2015, Drama, 156 minutos

Sinopse: 1822. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald (Tom Hardy), que ainda rouba seus pertences. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança. (Adoro Cinema)

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Não deixa de ser um desafio conferir O Regresso e se focar naquilo que define o julgamento de qualquer filme: a sua unidade. Desde que passou a realizar um cinema de maior escala e estilo consideravelmente ambicioso em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), o mexicano Alejandro González Iñárritu tem desviado a atenção do espectador para detalhes que não deveriam resumir as suas obras. É óbvio que a curiosidade despertada por uma infinidade de planos-sequência no próprio Birdman, por exemplo, é uma forte sedução para as premiações (não à toa, Iñárritu ganhou os Oscars de filme, direção e roteiro), mas a verdade é que existe muito mais a ser dito sobre seu cinema, pelo menos nesse filme. Já O Regresso segue basicamente a mesma lógica, com a diferença de que, ao contrário do excepcional Birdman, essa aventura aos confins do primitivo humano em paisagens aterradoras talvez não diga muito além do indiscutível primor de técnica e estilo.

Se não bastasse o filme por si só ser imponente e nos fazer questionar como os atores filmaram em condições tão adversas ou como Iñárritu posicionou a câmera aqui ou ali, a equipe fez questão de, em todas as suas entrevistas, falar sobre como foi difícil realizar uma obra de tal magnitude. Enquanto Leonardo DiCaprio versa sobre como deixou até seu vegetarianismo de lado para comer carne com o objetivo de entrar por completo no personagem, o diretor expõe os desafios logísticos de gravar em diversos pontos do Canadá e da Argentina somente com luz natural. Isso quer dizer que, de um jeito ou de outro, é praticamente impossível ir à sessão de O Regresso sem se ater a tantas curiosidades. O que muitas pessoas esquecem, por outro lado, é que sofrimento não é necessariamente sinônimo de excelência para um filme como um todo. Assim, a experiência pode mesmo ser impressionante do ponto de vista técnico, mas onde está o nosso envolvimento mais íntimo com ela?

Contemplativo a ponto de emular obras como Árvore da Vida, especialmente no uso de trilha e fotografia para colocar personagens em comunicação com a natureza, O Regresso vai realmente impressionar pelo seu empenho técnico, e isso não há como ser negado. Desde o início, podemos tirar o chapéu para um nervoso ataque indígena coreografado em longas tomadas ou para o talento do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki ao capturar, com um realismo assustador, a agressiva imponência de uma natureza que torna qualquer ser humano insignificante. E até o fim o filme estupefata por seu ambicioso atrevimento de jogar Leonardo DiCaprio em infinitas correntezas, em quase enterrá-lo vivo ou até mesmo em fazê-lo dormir dentro de um cavalo morto. Os defensores dirão que Iñárritu quer falar sobre os extremos da primitividade humana em circunstâncias impossíveis (e isso é muito claro para qualquer espectador), mas mexer com o espectador ao encenar os constantes sofrimentos de nosso herói é fácil. O que falta é conexão emocional com a sua jornada pessoal, principalmente se tratando de um filme de quase três horas de duração.

O que não deixa de frustrar em O Regresso é ausência de uma maior consistência no roteiro escrito pelo próprio Iñárritu em parceria com Mark L. Smith. Talvez por alongar demais a adaptação parcial do livro The Revenant, escrito por Michael Punke, fica a sensação de que pouco acontece no filme, que é apenas uma simples e silenciosa história de um homem sobrevivendo para arquitetar uma vingança. A certa limitação do texto desaponta porque Birdman era um espetáculo completo: além de inventivo na técnica, conseguia falar inteligentemente sobre a indústria do teatro e do cinema e ainda proporcionar papeis ricos a seus atores. Em O Regresso o cenário é outro, já que Leonardo DiCaprio só pode se entregar mais de corpo do que de alma a um personagem de arco dramático limitadíssimo e Tom Hardy apenas repete – com excelência, é verdade – o tipo voraz, intempestivo e amedrontador de filmes como Guerreiro. Sendo assim, por mais que a trilha de Ryûichi Sakamoto e Alva Noto seja outro aspecto de destaque nessa viagem técnica admirável, O Regresso, infelizmente, nunca chega a ser um espetáculo de emoções.