Cinema e Argumento

A falência narrativa da terceira temporada de “The Affair”

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A francesa Irène Jacob, musa do diretor Krzysztof Kieslowski em A Fraternidade é Vermelha, é uma das desperdiçadas aquisições da terceira temporada de The Affair.

Quando o criador de uma série anuncia que está abandonando um programa que ajudou a tornar realidade por diferenças criativas com a emissora é porque algo está muito, mas muito errado em todo o processo. É o que aconteceu com Hagai Levi em The Affair, uma das séries recentes mais célebres do canal Showtime, que, convenhamos, é especialista em arruinar boas ideias (e não há a trajetória mais desastrosa para ilustrar essa afirmação do que a de Dexter). A situação é lamentável porque, partindo de uma ideia altamente criativa – a de narrar um caso extraconjugal a partir das diferentes perspectivas dos envolvidos na história -, o programa segurou bem a peteca mesmo na segunda temporada, quando já havia solucionado o principal conflito de sua trama.

Com o passar do tempo, The Affair passou a se debruçar cada vez mais sobre a imperfeição de seus personagens, todos seres humanos confusos que mentem, traem e, principalmente, agem por impulso. O Globo de Ouro, única premiação que reconheceu o programa em sua primeira temporada com os prêmios de melhor série e atriz drama, seguiu comprando a ideia ao inclusive premiar merecidamente a coadjuvante Maura Tierney pelo segundo ano. Contudo, a terceira temporada, que terminou no fim de janeiro deste ano, cumpre o trágico destino de basicamente todas as séries concebidas pela Showtime – e nem o Globo de Ouro, que costuma ser fiel a séries que só ele celebra (Mozart in the Jungle é outro exemplo) pode defender o que o programa se tornou.

Saltando no tempo para mostrar a nova vida de todos os personagens após a prisão de um deles, o terceiro ano de The Affair já não sabe mais o que fazer com o quarteto principal e muito menos com novos coadjuvantes que entram para o elenco, como a francesa Irène Jacob, musa do cineasta Krzysztof Kieślowski em A Fraternidade é Vermelha, cujo desperdício é tão lamentável quanto o de Charlotte Rampling na última temporada de Dexter. Pior ainda é que, por não dar conta de criar conflitos realmente interessantes para seus personagens, o programa cai novamente na armadilha de apostar em um mistério com a intenção de colocar algum tipo de tempero à mistura.

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Quase irreconhecível, Brendan Fraser é outra adição da temporada, amargando a storyline mais desinteressante e ineficiente de toda a série até aqui.

Só que além do tom do suspense não casar com a série (algo que já deveriam ter aprendido com as temporadas passadas), a investida resulta em uma das narrações mais pobres e inexpressivas já criadas por The Affair, o que não tem nada a ver necessariamente com a resolução profundamente decepcionante ou com o fato de tal problemática dar destaque excessivo a Brendan Fraser, um ator sempre inexpressivo. A situação misteriosa dispersa o espectador em relação ao que realmente importa na discussão dos roteiristas: a influência mesmo negativa que Noah Solloway (Dominic West) causa em todos a sua volta. Ele é de fato um personagem que faz de tudo para que o espectador o deteste – e West continua tomando frente dessa proposta com competência -, mas as desculpas que o roteiro inventa para que Noah, de um jeito ou de outro, nunca saia da vida dos outros personagens são frequentemente esfarrapadas.

Por colocá-lo como protagonista cada vez mais absoluto de The Affair (Ruth Wilson, que dividia acirradamente o estrelado com ele, hoje é quase coadjuvante), todos os múltiplos olhares da drama acabam se virando para o personagem. Mesmo quando não está em cena, Noah é a pauta dos acontecimentos, o que se revela um tremendo obstáculo que os roteiristas criem conflitos que não sejam relacionados a ele. Tomem como exemplo Cole (Joshua Jackson), o ex-marido de Alison (Wilson), que não tem mais razão de estar na história e que encara a ingrata missão de contracenar com uma personagem estereotipada vivida por uma insossa Catalina Sandino Moreno. É uma storyline perfeitamente descartável que a série não sabe como incrementar ou até eliminar de vez.

Estruturalmente, as narrativas distintas perderam também sua criatividade: enquanto antes elas acusavam as diferentes percepções de cada personagem acerca de importantes situações (até mesmo penteados e figurinos oscilavam entre os capítulos, reforçando que, dependendo do contexto, o ser humano é mesmo propenso a interpretar contextos como bem entende), agora servem apenas para, em uma distribuição previsível, se encaixar na linearidade da trama como um todo. Tudo parece ter falido em The Affair, das interpretações à vontade da série de fazer algo realmente original. O próprio visual, mais soturno do que o habitual, dá um certo cansaço ao resultado que, não restam dúvidas, só comprova que o criador Hagai Levi tomou a mais sábia das decisões ao se afastar do projeto. Assim como ele, corto meus laços com a série por aqui.

Os vencedores do Oscar 2017

violaoscarfinalQuem considera engraçada a situação envolvendo a leitura errada do vencedor do Oscar de melhor filme certamente não compreende o quanto esse momento foi a coroação máxima da tragicidade da temporada de premiações de 2017. Em um ano que já havíamos comentado ser extremamente difícil do ponto de vista de discussões, onde cinéfilos fizeram da disputa uma arena onde filmes se digladiam como se tivessem nascido exatamente para isso, o equívoco só endossa o tom odioso das últimas semanas. Ver La La Land vencer para depois ter seu prêmio entregue para Moonlight foi algo lamentável de se ver – e o que dizer, então, de quem vivenciou isso. Todos saem perdendo: independente de preferências, imaginem a frustração de quem subiu ao palco, estava prestes a terminar o discurso de vitória e de repente recebe um cochicho no ouvido de que aquele prêmio não foi entregue corretamente. Igualmente chata – e isso já foi declarado por Mahershala Ali, vencedor como melhor ator coadjuvante por Moonlight – é a situação da equipe do filme de Barry Jenkins, que precisou subir ao palco para comemorar uma vitória diante da desgraça alheia de outra equipe. Ali, coberto de razão, diz que não se sentiu à vontade para celebrar qualquer coisa diante daquela confusão. 

O grande problema não está no erro em si, mas no tempo demorado para corrigir a situação. Afinal, se existe uma auditoria que, no backstage, tem em mãos o mesmo envelope que está sendo lido pelos apresentadores a fim de evitar qualquer tropeço, como demoraram tanto para barrar a vitória de La La Land, que, nesse meio tempo, se abraçou, subiu ao palco, pegou prêmio e ainda quase terminou um discurso? Houve também erro de Warren Beatty, que simplesmente não soube como agir quando percebeu que algo estava errado: qualquer vídeo que você assistir dá conta de mostrar o veterano visivelmente confuso com o resultado que tinha em mãos (ele ainda procura outro cartão dentro do envelope que esclarecesse sua dúvida), além de Faye Dunaway olhar para ele com uma expressão de preocupação e de Beatty entregar a bomba a ela para depois sussurrar “está escrito Emma Stone”. Mais grave ainda, no entanto, é o fato de nenhum representante do Oscar ter tomado frente da situação, deixando a ingrata missão para os próprios vencedores de La La Land. Nem a auditoria, que já se desculpou publicamente pelo ocorrido, sabe como o envelope de melhor atriz foi parar nas mãos de Beatty (dizem que ainda estão investigando), o que desmonta ainda mais a credibilidade do prêmio.

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Toda a situação é lastimável porque a vitória de Moonlight nunca será lembrada antes da gafe. O mico foi o verdadeiro marco da 89ª edição do Oscar. Por mais que ainda restem dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente abraça a diversidade com sinceridade, um filme como o de Barry Jenkins merecia uma lembrança mais emblemática do que essa que está fadado a ter. Primeira história de cunho LGBT a ganhar o prêmio principal da Academia, Moonlight pode até ser um filme estruturalmente imperfeito (já comentei várias vezes sobre como o terceiro ato me decepciona profundamente), mas tem qualidades inegáveis e é uma obra incrivelmente catártica para os tempos que vivemos. Entretanto, quando digo que tenho minhas dúvidas sobre o quanto o Oscar realmente mudou é porque, em 2014, 12 Anos de Escravidão ganhou exatamente os mesmos prêmios de Moonlight – filme, roteiro adaptado e um de coadjuvante – para logo em seguida a vitória ser sucedida pelo ano do Oscar So White.

Mais do que isso: mesmo com a consagração do longa de Jenkins, o Oscar segue limitando os intérpretes negros a vitórias em categorias de coadjuvante e sem dar um prêmio de direção a um negro. Importante saber: o vencedor da categoria de melhor filme vem a partir de quem tem a melhor média de colocação no ranking de preferência que os votantes precisam fazer na hora de votar. Ou seja, de nada adianta La La Land ser o primeiro colocado em inúmeras listas se, em outras, aparece entre os últimos colocados. É mais benéfico para um filme, na categoria de melhor filme, estar em terceiro ou quatro lugar, mas de forma unânime na cédula da maioria dos votantes (eu próprio teria favorecido Moonlight, pois ele era o terceiro melhor na minha avaliação). Já o Oscar de de direção computa simplesmente quem recebeu mais votos. Ou seja, a vitória de Damien Chazelle por La La Land sugere mais sobre o Oscar do que estamos dispostos a admitir. A mudança poderia – e merecia – ser bem mais expressiva.

Em termos de distribuição de estatuetas, o Oscar preferiu seguir a tendência do BAFTA, que não deixou La La Land monopolizar os prêmios, fazendo suas escolhas de forma mais democrática. E, novamente, não podemos dizer que houve injustiças ali (até A Chegada foi lembrado)! É um saldo positivo, ainda que, particularmente, me entristeça Isabelle Huppert não ter vencido: poucas atrizes francesas tiveram uma trajetória tão promissora no Oscar por um filme tão atípico, o que, parando para pensar, já é por si só uma vitória tremenda. Jimmy Kimmel, que fez um bom trabalho como apresentador ao não ficar se enrolando em monólogos intermináveis e aparições infinitas, teve sacadas espertas e corajosas, como Twittar para Donald Trump em plena cerimônia e pedir para que Meryl Streep levantasse e recebesse o aplauso de uma plateia em pé, fazendo novamente uma clara provocação ao presidente estadunidense que, ao ser criticado por ela no Globo de Ouro, definiu a atriz como “superestimada”. Agora, um momento dessa cerimônia que precisa ficar mesmo marcado é a vitória de Viola Davis (merecida, por sinal), que fez um discurso emocionante e arrebatador sobre a honra que sente de fazer parte de uma profissão que tem o mágico dom de exumar corpos e dar protagonismo a histórias que, em vida, nunca foram contadas. Poucas vezes Viola esteve tão emocionada. E mal sabe ela que somos nós que recebemos o presente de vê-la consagrada. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILMEMoonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR DIREÇÃO: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)

MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALManchester à Beira-Mar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Moonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Apartamento (Irã)
MELHOR ANIMAÇÃOZootopia – Essa Cidade é o Bicho
MELHOR DOCUMENTÁRIOO.J.: Made in America
MELHOR FOTOGRAFIALa La Land: Cantando Estações
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOLa La Land: Cantando Estações
MELHOR FIGURINOAnimais Fantásticos e Onde Habitam
MELHOR MONTAGEMAté o Último Homem
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações)
MELHOR TRILHA SONORALa La Land: Cantando Estações
MELHOR MIXAGEM DE SOMAté o Último Homem
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Chegada
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Esquadrão Suicida
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Mogli: O Menino Lobo
MELHOR CURTA-METRAGEM: Sing
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIOThe White Helmets
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOPiper: Descobrindo o Mundo

Apostas para o Oscar 2017

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Há quem pule Carnaval e há quem não perca por nada a entrega do Oscar. Como faço parte do segundo grupo, hoje vou estar sintonizado na TNT, a partir das 21h, para acompanhar a etapa final da temporada de premiações. A cerimônia, que será apresentada por Jimmy Kimell, começa de verdade somente às 22h30, mas antes já estarei na área com um novo live na página oficial do Cinema e Argumento no Facebook para comentar melhor as apostas elencadas aí embaixo. Lá no Twitter também faço meus comentários ao longo da cerimônia. Então, para quem for deixar as serpentinas de lado, fica o convite: vamos curtir todos juntos o Oscar 2017?

MELHOR FILMELa La Land: Cantando Estações / alt: Moonlight: Sob a Luz do Luar
MELHOR DIREÇÃO: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações) / alt: Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

MELHOR ATRIZ: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações) / alt: Isabelle Huppert (Elle)
MELHOR ATOR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) / alt: Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis (Um Limite Entre Nós) / alt: Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar) / alt: Dev Patel (Lion: Uma Jornada Para Casa)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALManchester à Beira-Mar / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Moonlight: Sob a Luz do Luar / alt: Lion: Uma Jornada Para Casa
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Apartamento (Irã) / alt: Toni Erdmann (Alemanha)
MELHOR ANIMAÇÃOZootopia – Essa Cidade é o Bicho / alt: Kubo e as Cordas Mágicas
MELHOR DOCUMENTÁRIOA 13ª Emenda / alt: O.J.: Made in America
MELHOR FOTOGRAFIAMoonlight: Sob a Luz do Luar / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOLa La Land: Cantando Estações / alt: Animais Fantásticos e Onde Habitam

MELHOR FIGURINOJackie / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR MONTAGEMLa La Land: Cantando Estações / alt: Até o Último Homem
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações) / alt: “How Far I’ll Go” (Moana: Um Mar de Aventuras)
MELHOR TRILHA SONORALa La Land: Cantando Estações / alt: Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR MIXAGEM DE SOMLa La Land: Cantando Estações / alt: Até o Último Homem
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Até o Último Homem / alt: La La Land: Cantando Estações
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Star Trek: Sem Fronteiras / alt: Esquadrão Suicida
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Mogli: O Menino Lobo / alt: Doutor Estranho

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2017

lalalandmovieDesde o advento da internet, nunca houve um Oscar tão complicado de se acompanhar. E isso não tem nada a ver com La La Land: Cantando Estações ter monopolizado a disputa ou com as reações adversas que um filme instantaneamente desperta ao se tornar o grande favorito da temporada, mas sim com a completa intolerância de quem se propõe a discutir a temporada. Ou melhor: problematizá-la como se fosse uma missão de vida. É um pouco estranho pensar que a situação seja encarada dessa maneira visto que um salto histórico foi dado no sentido de representatividade. Algumas discussões são inegavelmente importantes, enquanto outras parecem apenas pretexto para procurar cabelo em ovo, especialmente quando o engajamento na discussão é mais pose do que reflexão genuína. Com pessoas metendo o bedelho em assuntos espinhosos só para polemizar, muitas vezes foi rompida a barreira do bom senso em relação a  diversos ideais.

Há quem considere errado gostar de La La Land por ele ser supostamente machista. Adorar Viola Davis também se revela uma opinião extremamente rasteira para certos espectadores, já que existem outras atrizes negras tão talentosas quanto ela que não recebem o mesmo reconhecimento. Já a possível vitória de O Apartamento é motivo de torcida como forma de protesto contra Donald Trump e não por méritos próprios ou como um claro reflexo de que a Academia tem dificuldades em premiar comédias como Toni Erdmann. E o que dizer de Amy Adams, cuja ausência por A Chegada não podemos lamentar já que foi Ruth Negga quem entrou de surpresa na disputa com Loving? Sobrou até para Lion porque um garoto pobre e de origem indiana não pode ser resgatado por uma família branca e rica porque isso é celebrar os chamados white saviors.

Entretanto, não me interpretem de maneira errada. O que quero dizer é que não há nada problema em levantar qualquer uma dessas questões (no cinema, como diz o crítico Luiz Carlos Merten, experiências são feitas de olhares particulares: se eu não enxergo uma coisa, isso não significa que tal coisa realmente não esteja lá) ou muito menos em elucidar problematizações que são realmente necessárias para os tempos efervescentes que vivemos no cinema. Só que o pessoal, especialmente nas redes sociais, pesa demais na discussão, impondo opiniões como verdades absolutas e não como ferramentas para um debate democrático. Para falar sobre cinema no Oscar 2017, você precisa amar ou odiar determinada coisa, defender ou recauchutar determinada posição. Até porque, dizem, se você se exime de entrar nesse jogo, você comete o pecado da omissão. Confesso que isso cansa bastante.

Tem sido um exercício complexo, onde frequentemente me indigno com quem parece ver filme só para postar polêmica na internet ao mesmo tempo em que procuro apurar o olhar, na medida do possível, de quem acha que representatividade não é algo assim tão importante. Mas foi difícil porque não existem discussões, e sim monólogos para ver quem tem mais razão ao final. Felizmente, não estamos mais em Esparta para ganhar discussões no grito, e, por isso, aos poucos fui procurando me distanciar do furacão que se tornou a temporada de prêmios. Não é diferente agora. Muito já falamos aqui no blog sobre o que determinadas indicações simbolizam em termos de representatividade (e isso inclui até a lembrança de Meryl Streep por Florence: Quem é Essa Mulher?, única intérprete que concorre por um papel de comédia esse ano) e sobre o quanto fatores exteriores às vezes precisam ser considerados na disputa, mas agora vou pendurar um pouco as chuteiras nesse assunto para falar sobre os filmes em si e sobre o quanto a gente vê merecimento em um ou outro dentro da tela. Vamos nessa?

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O olhar comum

É o tipo de cinema que sempre me tocou e que poucas vezes o Oscar celebrou como agora: aquele sobre pessoas comuns como eu e você. Seja em musicais (La La Land), relatos históricos (Estrelas Além do Tempo), adaptações teatrais (Um Limite Entre Nós) e situações muitos próximos da realidade (Moonlight: Sob a Luz do Luar), a temporada se debruçou sobre sonhos, dores, esperanças e dúvidas identificáveis a todos nós. Não é nem loucura colocar Elle nesse balaio, já que sua protagonista é, em muitos aspectos, a representação da mulher madura, independente, bem sucedida e sexualmente ativa que o cinema norte-americano raramente retrata dessa maneira. Por isso, percebam como as pessoas de realidades distantes e em situações extraordinárias foram aos poucos perdendo os holofotes. É o caso de Jackie, antes tão bem cotado para dar um segundo Oscar para Natalie Portman e até para concorrer nas categorias principais. Seu destino foi ser finalista em dois segmentos técnicos e perder o favoritismo para a sua intérprete.

Os violinos do Titanic

Uma brincadeira da internet dá conta de que o musical La La Land é como o trio de músicos que tocam violino enquanto o Titanic afunda no filme de James Cameron. E que problema há no escapismo? Um filme, por não ser tão engajado socialmente ou politicamente quanto os outros, é inferior por causa disso? Na crítica de La La Land já havia falado sobre o preconceito contra a leveza de um romance, mas talvez seja mesmo necessário um filme como esse, que nos propõe a sair um pouco de um mundo que, a cada dia, noticia as coisas mais absurdas. A vida está pesada e não há mal nenhum em ir ao cinema para sonhar com realidades paralelas. É a homenagem de La La Land aos clássicos musicais de Hollywood e esse seu escapismo que despontam o filme de Damien Chazelle como franco favorito ao Oscar de melhor filme. Simplesmente não há disputa. Antes assinalado como uma alternativa, Moonlight se enfraqueceu na temporada ao perder o Screen Actors Guild Awards de melhor elenco, ficando apenas com o Globo de Ouro de melhor drama na bagagem. Caso vença, o filme de Barry Jenkins desafiará toda a matemática dos prêmios, o que só aconteceu de verdade com Crash – No Limite em 2006 (Spotlight foi um caso à parte ano passado).

Discussão de sobra entre as atrizes

Não houve categoria mais polêmica entre as atuações do que a de melhor atriz. Com a ausência de Amy Adams por A Chegada, caíram pesado em cima de Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?), que realmente não mereceu a indicação, mas se esqueceram que, considerando o histórico de todos os outros prêmios da temporada, quem entrou de última hora foi Ruth Negga, que não acho que faça nada de muito maravilhoso em Loving para estar aqui também. Com Natalie Portman (Jackie) já considerada uma carta fora do baralho, a disputa sobra para Emma Stone (La La Land) e Isabelle Huppert (Elle), com a primeira tendo larga vantagem por ter conquistado o BAFTA e o SAG (pouco conta o Globo de Ouro, já que ela só concorria com Meryl lá). Em contramão, não considerem a francesa uma impossibilidade, pois, além de ser um ícone do cinema europeu mundialmente adorado pela crítica e ainda em plena atividade, Huppert vem sendo celebrada mundo afora, algo que nunca aconteceu em sua carreira. Ela tem feito direitinho o tema de casa, concedendo entrevistas para todos os meios, participando de todos os prêmios e sendo fotografada por revistas importantíssimas. Ainda que o histórico dos prêmios trabalhe contra a sua vitória, em termos de Oscar, vale a velha lógica: quem é visto termina por ser lembrado.

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E a vida pessoal?

Casey Affleck reacendeu a chama das discussões sobre até que ponto a vida pessoal de um ator deve interferir no julgamento de seu trabalho no cinema. Com acusações de assédio sexual, Affleck vem colhendo a antipatia de muita gente por essa situação, o que passa um pouco longe de mim: já que o filme está aí, prefiro julgá-lo exclusivamente por ele, e aí há de se reconhecer o quanto Affleck é sensacional em Manchester à Beira-Mar. A disputa é de igual para igual com Denzel Washington em Um Limite Entre Nós, já que ambos estão inspirados em seus respectivos filmes, mas apresentando estilos bem diferentes de interpretação. Também seria justo colocar no mesmo patamar o jovem Andrew Garfield, que tem em Até o Último Homem o momento mais expressivo de sua carreira até agora. No geral, o nível da categoria é excelente, onde somente Ryan Gosling concorre sem muitos méritos por La La Land. Para quem for participar de algum bolão, a disputa se divide entre Casey e Denzel, com uma pequena vantagem do primeiro considerando o número de prêmios conquistados na temporada.

Coadjuvantes pulverizados

Quer uma estatueta ainda mais disputada? Então dê uma olhada entre os atores coadjuvantes. Repetindo a situação do ano passado, a seleção desse ano se divide entre intérpretes que ganharam diferentes prêmios por seus desempenhos. Mahershala Ali vem com o SAG por Moonlight e Dev Patel com o BAFTA por Lion: Uma Jornada Para Casa. Nem o Globo de Ouro ajuda a desempatar a situação, já que o vencedor lá foi Aaron Taylor-Johnson, por Animais Noturnos, que sequer concorre ao Oscar. Nunca subestime o poder de um queridinho da Academia como Jeff Bridges, que tem sido celebrado pelo mesmo papel desde Coração Louco (e vale lembrar que, por essa lógica, Christoph Waltz ganhou um segundo Oscar de coadjuvante por Django Livre em um ano igualmente pulverizado). Agora, se os votantes realmente fossem espertos, uma consagração para Michael Shannon por Animais Noturnos não cairia nada mal dado a falta de favoritismo da categoria (e o fato de que, claro, o ator é sempre uma unanimidade, menos em coisas como Homem de Aço). O único que infelizmente tem suas chances zeradas é o jovem Lucas Hedges, o meu favorito entre os cinco e que é uma grande revelação em Manchester à Beira-Mar.

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Do protagonismo às participações de luxo

Viola Davis bem que poderia estar concorrendo como protagonista por Um Limite Entre Nós e, mesmo que a aceite como coadjuvante no filme dirigido pelo colega Denzel Washington, é inegável o quanto sua nova classificação novamente suscita a discussão sobre a categoria de coadjuvante ser um reduto de protagonistas que ajustam sua campanha para ganhar um prêmio que não conquistariam entre as atrizes principais. Curiosamente, existe outro extremo: o de Michelle Williams, que, caso concorresse ao Emmy por Manchester à Beira-Mar, seria enquadrada na categoria de atriz convidada e não de coadjuvante. Nicole Kidman também tem papel bem pequeno em Lion, deixando apenas para Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) e Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar) a representação fiel da categorização de coadjuvante em tempo de cena e relevância. Viola reina soberana como favorita e também como merecedora, mas bem que também poderia existir algum espaço para a Naomie Harris, não?

Categorias técnicas consagrarão La La Land?

La La Land já fez história ao se juntar aos clássicos Titanic A Malvada como recordista de indicações ao Oscar, mas, por outro lado, é bem provável que não leve para casa um número histórico de estatuetas (chutando por cima, deve sair com cerca de oito prêmios, a mesma quantia de Quem Quer Ser Um Milionário?, outro filme repleto de sonhos e otimismo em um ano de obras com grande cunho dramático). O que decide isso é como a Academia reagirá ao filme de Damien Chazelle em categorias técnicas, o que nos leva a considerar preferências históricas dos votantes. É bem possível, por exemplo, que Jackie fature melhor figurino, já que filmes contemporâneos raramente ganham essa estatueta. Mais provável ainda é que Até o Último Homem leve pelo menos um dos segmentos de som dado o favorável histórico de longas de guerra na categoria (Cartas de Iwo JimaA Hora Mais Escura são os exemplares mais recentes). Também não deixo de ter minhas dúvidas se a linda fotografia de Moonlight não é capaz de desbancar La La Land como forma de dar algum tipo extra de protagonismo ao filme de Barry Jenkins, que parece ter chances reais de consagração apenas em ator coadjuvante e roteiro adaptado. Aí é questão de dar sorte no bolão mesmo! As nossas apostas finais estarão por aqui no próximo post!

Moonlight: Sob a Luz do Luar

What’s a faggot?

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Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, baseado na história de Tarell Alvin McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Mahershala Ali, Janelle Monáe, Shariff Earp, Duan Sanderson, Edson Jean, Patrick Decile, Herveline Moncion, Fransley Hyppolite

EUA, 2016, Drama, 111 minutos

Sinopse: Black (Trevante Rhodes) trilha uma jornada de autoconhecimento enquanto tenta escapar do caminho fácil da criminalidade e do mundo das drogas de Miami. Encontrando amor em locais surpreendentes, ele sonha com um futuro maravilhoso. (Adoro Cinema)

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Quando surge pela primeira vez em Moonlight: Sob a Luz do Luar, o pequeno Chiron está correndo incansavelmente. Perseguido por colegas da escola que gritam “bicha!” ao mesmo tempo em que tentam encurralá-lo, o protagonista do filme de Barry Jenkins aos poucos nos revela o seu universo aterrador: negro, pobre e filho de um pai que não conhece e de uma mãe drogada, Chiron, que nem entende muito bem o que é ser gay, mas que já enfrenta o julgamento da sociedade em função de sua natureza, carrega consigo uma série de minorias que o mundo não costuma tratar com muito zelo. Já não é fácil fazer parte de uma ou outra delas, e o que dizer, então, quando é preciso levar todas nas costas. E Moonlight, que não estereotipa qualquer uma das facetas de seu protagonista, é arrebatador por conta de uma escolha muito acertada: a de concentrar seu olhar não na jornada que Chiron enfrenta contra a sociedade, mas contra os fantasmas de sua própria vida e de um destino aparentemente imutável que parece ter sido traçado desde o momento de seu nascimento.

Narrando três momentos da vida de Chiron em uma uma parte de Miami, nos Estados Unidos, movida a drogas, violência e prostituição, Moonlight é um projeto muito pessoal do diretor Barry Jenkins, que gravou o filme com apenas cinco milhões de dólares no bolso. E tudo não poderia ter vindo em momento mais oportuno: quando o mundo discute cada vez mais questões de representatividade, seja de qualquer minoria, o longa surge como uma experiência para lá de catártica. Muito mais do que um filme de incrível relevância temática, Moonlight também é cinema de incrível qualidade e delicadeza. No primeiro capítulo, quando acompanha o protagonista ainda criança, a história tem foco maior nas pessoas que cercam Chiron e como elas serão decisivas para a personalidade que o pequeno virá a moldar. Se o turbilhão do convívio com a mãe drogada parece um beco sem saída, a figura de Juan (Mahershala Ali) vem para transformar sua vida em todos os sentidos, desde a forma como construímos o valor que cada relação familiar tem em nossa vida até a compreensão do quão natural é ser gay e não ser recauchutado por isso. É um desses encontros aleatórios da vida que chegam para mudar toda uma existência – e que, muitas vezes, só mais tarde, tomando certa perspectiva, compreendemos o papel fundamental que eles desempenham nas forças que encontramos para seguir em frente. 

Quando transporta Chiron da infância para a adolescência, Moonlight se entrega muito mais ao protagonista, que agora precisa enfrentar uma das piores partes da vida de qualquer pessoa: a escola. Cada vez mais perseguido por sua natureza sexual, o garoto, que permanece mais tempo no ambiente escolar depois das aulas para não ter que encarar os bulliers que o aguardam do lado de fora para lhe dar uma surra, faz descobertas muito pessoais em relação a si próprio (a cena em que tem um primeiro contato sexual com um homem é de arrepiar de tão natural), dessa vez trilhando o seu próprio destino, já com uma cota bem menor de ajuda do que esperava ter nessa altura da vida. E é nesse capítulo que Barry Jenkins, também roteirista do filme, entrega os momentos mais brilhantes de Moonlight, sendo cuidadoso em tudo o que discute nas entrelinhas (muita coisa está implícita na “brincadeira” que um garoto valentão da escola faz com Chiron em relação à possibilidade de comê-lo caso também fosse gay) e, principalmente, no poder das imagens (a cena na praia onde acontece o primeiro contato sexual do protagonista é arrebatadora, assim como os momentos com a mãe são por vezes assustadores tamanha a composição visual digna de um filme de terror).

Ainda que dividido em capítulos, Moonlight consegue costurá-los com notável proeza, vencendo em um aspecto que considero particularmente decisivo: a capacidade de fazer com que nós, espectadores, continuemos a identificar Chiron em corpo e alma mesmo com a troca de atores e até mesmo de identidades visuais entre cada parte da história. Ironicamente, esse é o mesmo detalhe que sabota o filme em sua terceira e última parte. Afinal, quando Chiron chega à vida adulta, é difícil enxergá-lo na tela, como se não identificássemos, nem mais em seus olhos, o garoto por quem tanto nos afeiçoamos até ali, o que nada tem a ver com o fato do filme apontar para a ideia de que certos destinos são mesmo inevitáveis. Difícil constatar se é a escalação errada de elenco, as longas cenas que nunca alcançam a intensidade que deve vir de uma narrativa de baixa fervura ou simplesmente a personalidade por vezes misteriosa demais de um Chiron que já não encaramos da mesma forma. Tudo parece muito à parte do restante, e um bocado se perde – e até se acovarda – quando Moonlight se propõe a passar a régua e a fechar as contas. Por se tratar do capítulo derradeiro, isso é um problema, pois normalmente a impressão que mais reverbera é a do desfecho. 

Justiça seja feita, entretanto, a méritos que saem ilesos desse importante detalhe, como o alto nível do elenco. Os Chirons dos dois primeiros capítulos são simplesmente fantásticos, em especial Ashton Sanders, que, interpretando o personagem na adolescência, tem os momentos mais expressivos e marcantes de todo o filme (a cena que encerra essa parte é um grito dos mais libertadores). Entre os coadjuvantes, ainda que alguns deles sejam sabotados pelo o roteiro, como Mahershala Ali, que exerce com sabedoria e inteligência um papel importante demais para depois ser escanteado com tanto descaso, há um excelente nível, onde Naomie Harris também merece nota por um trabalho que se esquiva de histrionices e que ganha nova dimensão a partir da informação de que a atriz precisou gravar tudo em apenas três dias (e como sua personagem passa por mudanças significativas, isso é um verdadeiro elogio). Não deixem ainda que a conclusão frustrante de Moonlight amorteça a assombrosa trilha de Nicholas Britell e a fotografia inteligentíssima de James Laxton (Chrion aprendendo a nadar é uma das coisas mais lindas que você verá em 2017). Mais do que isso, leve, após a sessão, a mensagem forte, necessária e impactante que, com o talento de Barry Jenkins, certamente será lembrada por muito, mas muito tempo.