Cinema e Argumento

Rapidamente: “Batman vs Superman”, “Eu, Daniel Blake”, “Mulher do Pai” e “Mulheres do Século 20”

Mais um filme muito íntimo e pessoal do diretor Mike Mills, Mulheres do Século 20 se destaca pelo excelente trabalho do elenco feminino e de suas inteligentes referências e contextualizações.

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016, de Zack Snyder): Foi massacrado mundo afora, e com toda razão, já que só deve perder para Esquadrão Suicida como o pior filme de super heróis dos últimos anos. A lista do que não funciona é imensa: dos protagonistas inexpressivos (Ben Affleck não traz personalidade ao icônico Batman, enquanto Henry Cavill nunca funcionou mesmo como Superman) aos coadjuvantes que variam de caricaturas ineficientes (Jesse Eisenberg tenta fazer algo divertido, mas sem sucesso) a presenças desperdiçadas (dá pena ver Amy Adams tendo que se contentar com o papel da mocinha que só vive em função de seu homem), Batman vs Superman tem um roteiro dos mais problemáticos, onde nada é suficientemente consistente para nos convencer do confronto entre os herois. Porém, o mais decepcionante deve ser a concepção estética completamente pobre do filme, pois, se os universos dos dois heróis já não conversam direito, a situação só se agrava com uma direção que comanda cenas de ação no piloto-automático e apostando na velha e já inaceitável fórmula de cidades sendo inteiramente destruídas durante os confrontos só para mostrar algum tipo de grandiosidade. A própria luta entre os dois protagonistas é concebida de forma preguiçosa, como se fosse apenas uma brincadeira onde os dois alteram porradas com diversos poderes e artimanhas. E mais: o conflito tem uma solução das mais esfarrapadas imagináveis. Talvez Batman vs Superman não chegue a aborrecer tanto quanto Esquadrão Suicida, mas é um aventura ultrapassada demais, o que não nos dá nem desculpa de classificá-lo como uma homenagem ou uma experiência nostálgica para tentar defendê-lo.

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach): Não está entre os casos mais graves, mas a Palma de Ouro para Eu, Daniel Blake não deixa de contribuir para as escolhas extremamente irregulares do júri presidido pelo cineasta australiano George Miller no Festival de Cannes em 2016. O novo filme de Ken Loach é muito simbólico e relevante em tempos que discutimos tanto os direitos trabalhistas no Brasil e no mundo, mas, em termos de execução, o resultado é bastante decepcionante. Acompanhando os difíceis dias de Daniel Blake (Dave Johns), que, após ficar desempregado em função do diagnóstico de um problema cardíaco, enfrenta as burocracias do governo para receber seus auxílios por direito, Eu, Daniel Blake não exige que a plateia já tenha compartilhado da mesma situação do protagonista para se indignar e até reconhecer as inúmeras situações absurdas relacionadas ao descaso do governo com a classe trabalhadora. O que acontece é que Eu, Daniel Blake, apostando em um ritmo bastante lento, se repete demais e, sempre que procura dar alguma guinada na trama, soa artificial. Por mais comovente que seja a interpretação de Hayley Squires como Katie, a amiga de Daniel que passa por problemas bastante semelhantes, seu conflito com o protagonista a respeito da profissão que resolve adotar para resolver problemas financeiros é executado com arbitrariedade. Mais decepcionante ainda é o desfecho que, nada sutil e imprevisível, ainda reserva uma última cena repleta de drama que, justamente, por ser consequência de uma escolha conduzida apressadamente pelo roteiro, não surte efeito algum. Em tese, Eu, Daniel Blake é necessário. Na prática, beira o esquecível. 

MULHER DO PAI (idem, 2017, de Cristiane Oliveira): Rodado na região de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, Mulher do Pai faturou os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante no Festival do Rio 2016, além de ter feito trajetória internacional ao ter sido selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. Ao contrário dos festivais, já não compartilho o mesmo entusiasmo com esse trabalho de estreia da diretora Cristiane Oliveira, que, também autora do roteiro, opta por um caminho nobre em seu debut (o de economizar ao máximo as emoções de uma história que, centrada nas descobertas e no amadurecimento de uma jovem do interior que precisa cuidar do pai cego), mas que, por isso mesmo, resvala em outro o problema: o de que, muitas vezes, menos realmente é menos. Marat Descartes, como o pai da protagonista, é sempre ótimo, e Mulher do Pai ambienta muito bem a vida no interior. Mas falta visceralidade aqui, inclusive nas sutilezas: um exemplo claro disso é a relação da protagonista com a professora de artes (a ótima Verónica Perrota, vencedora do Kikito de melhor atriz em Gramado ano passado pelo uruguaio Las Toninas Van al Este), que, inicialmente interessante e cercada de delicadezas, se desenrola de forma previsível e nada catártica ao se transformar em conflito quando a professora se interessa pelo pai da menina. Existem outros problemas, como a geografia não ser devidamente explorada (a protagonista quer desesperadamente conhecer o Uruguai por questões culturais e, quando viaja até lá, quase nada é mostrado do país), que me desconectam bastante do filme. Tratando-se de um relato sobre a transição da adolescência para a vida adulta, o cinema brasileiro já nos trouxe histórias muito mais envolventes nos últimos anos.

MULHERES DO SÉCULO 20 (20th Century Women, 2016, de Mike Mills): Não é preciso retroceder tanto a carreira do diretor Mike Mills para constatar o quanto ele é apaixonado por histórias íntimas. Basta lembrar de Toda Forma de Amor, filme que rendeu o Oscar ao veterano Christopher Plummer pela personificação de um pai de família que, após a descoberta de um câncer, resolve finalmente sair do armário para o filho. Agora, Mills sai da relação de um personagem com o pai para falar sobre a influência de uma mãe (e de várias outras figuras femininas) na vida de um garoto adolescente. É bonito como o diretor consegue imprimir uma assinatura sem nunca se repetir, e Mulheres do Século 20 é particularmente marcante do ponto de vista pessoal, já que essa é uma história baseada na vida do próprio diretor. Pop e recheado de referências e contextualizações das mais variadas naturezas (da música ao cinema, passa até pelo marcante documentário Koyannisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, de 1982), o relato é delicado ao retratar as relações familiares, especialmente nos momentos em entre mãe e filho. Falando em mãe, ela é vivida com talento e elegância por Annette Bening, com uma figura interessantíssima e que, aos poucos, parece também fazer parte da nossa família. Para não ser injusto, vale mencionar ainda Elle Fanning e Greta Gerwig, ambas em plena sintonia com Bening em um elenco feminino para lá de especial.

As mulheres imbatíveis e eternas de “Feud: Bette and Joan”

Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) em Feud: Bette and Joan: o que poderia ser uma mera diversão envolvendo a rivalidade entre duas mulheres se revela um profundo estudo sobre o machismo em Hollywood.

As atrizes Bette Davis e Joan Crawford faziam questão de afirmar que eram mulheres e profissionais bastante diferentes quando, na verdade, compartilhavam mais semelhanças do que estavam dispostas a admitir. Ambas abandonadas por seus respectivos pais, Bette e Joan vieram de famílias pobres, tornaram-se famosas entre os anos 1920 e 1930, ganharam Oscar de melhor atriz, eram democratas e feministas, casaram quatro vezes, adotaram crianças e tiveram filhos que, posteriormente, ficariam famosos por escrever biografias que exploravam as complicadas relações que tiveram com suas mães. Isso só comprova como, no fundo, as duas estrelas de Hollywood sabiam que a lendária inimizade entre elas era uma situação criada por uma indústria machista e avessa ao envelhecimento das atrizes. No entanto, também compreendiam que, infelizmente, tal dinâmica era uma ferramenta de sobrevivência na indústria: sem essa tônica, faltavam manchetes em jornais, aparições em colunas sociais e até mesmo papeis em filmes que já não vinham mais naturalmente. 

O que Bette Davis e Joan Croawford não sabiam é que, além das mazelas profissionais, a situação acarretaria profundas cicatrizes pessoais. E é com esse olhar que Feud: Bette and Joan, antologia criada por Ryan Murphy junto à dupla Jaffe Cohen e Michael Zam, procura abordar a tortuosa relação entre as atrizes, cuja inimizade foi muito além das gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que marcou o primeiro e único encontro entre as duas imortalizado nas telas do cinema. Ao longo de oito episódios, o primeiro ano da série que, em temporadas posteriores, retratará outras rixas mundialmente famosas, tem o mérito de se esquivar da mera curiosidade cinéfila (esse poderia muito bem ser um relato cheio de referências e brincadeiras endereçado aos fãs da sétima arte) para se tornar um registro universal e, claro, profundamente atual, visto que, hoje, muita gente ainda lucra e se diverte com a inimizade entre mulheres, especialmente na indústria fonográfica, onde parece impossível enaltecer uma diva pop como Madonna ou Lady Gaga sem depreciar alguma outra na mesma intensidade.  

Susan Sarandon é um milagre como Bette Davis. Além das semelhanças físicas, a atriz ressuscita toda a personalidade forte e o temperamento difícil de uma das intérpretes mais celebradas de todos os tempos.

Feud: Bette and Joan termina de forma bem diferente do que começou, transformando uma certa frustração em algo extremamente recompensador. Inicialmente vendido como a reprodução dos bastidores de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, o projeto, já no quarto episódio, encerra as gravações do célebre filme para, aos poucos, ter sua trama cada vez mais concentrada na vida de Joan Crawford (Jessica Lange), cultivando no espectador a frustração de ver Bette Davis (Susan Sarandon) escanteada em cena. Afinal, como não lamentar o fato de Feud: Bette and Joan negar igual protagonismo a essa mulher forte e de trajetória vitoriosa que, entre tantas coisas, foi a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a atriz com o salário mais alto de sua época quando realizou A Malvada e, até hoje, a única intérprete, ao lado de Greer Garson, a alcançar o recorde de cinco indicações consecutivas ao Oscar de melhor atriz? Só que não demora muito para a série nos atentar ao fato de que Bette, por uma série de razões, sempre será a grande protagonista da famosa relação com Joan Crawford, e que existe muito mais a ser contado por trás dessa história. Feud não deixa de fazer uma reparação ao apostar em uma abordagem bastante diferenciada: aqui, a maior parte do protagonismo está finalmente entregue a Crawford, que, riquíssima em conflitos, é dramaticamente mais interessante por, ao contrário de Bette, ser insegura, emocionalmente instável, secretamente desesperada pela aprovação da colega e incapaz de lidar com rejeições.

Tamanha é a conscientização da série acerca do danoso incentivo ao confronto entre mulheres que toda a diversão de ver Bette e Joan se sabotando nas gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se transforma em puro mal estar, mais especificamente no episódio And the Winner is… (The Oscars of 1963), onde o diretor Ryan Murphy delicia os fãs do cinema com inúmeras recriações e referências (o plano-sequência de Crawford transitando entre os bastidores do Oscar é impecável) ao mesmo tempo em que usa tudo isso como munição para potencializar os conflitos internos das protagonistas. Enquanto uma vê seu sonho de ganhar um terceiro Oscar ser destruído pela colega (Crawford fez uma ampla e reconhecida campanha contra Bette após não receber uma indicação pelo mesmo filme), a outra encontra um falso e doentio conforto ao receber o Oscar de melhor atriz em nome de Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan), que superou o nome de Bette na disputa pela estatueta e não pôde comparecer à cerimônia devido a outros compromissos profissionais. A partir daí, é um soco no estômago atrás do outro, pois Feud: Bette and Joan não poupa esforços para mostrar o quanto envelhecer em Hollywood é algo extremamente doloroso para as mulheres em função da oferta quase inexistente de papeis e das humilhações que a indústria faz com que elas se submetam só para continuar trabalhando.

Vindo de uma trajetória vitoriosa na TV com American Horror Story, Jessica Lange brilha novamente como Joan Crawford. É pelo seu olhar que se desenvolve a trama de Feud: Bette and Joan.

Retratados como frouxos ou medíocres, mas devidamente explorados em suas dimensões, os homens da série tem papel fundamental nessa degradação. Se Jack Warner (Stanley Tucci), o magnata da Warner Bros., é inescrupuloso ao conscientemente jogar lenha na fogueira de Bette e Joan para conseguir promover mais um sucesso de bilheteria, Robert Aldrich (Alfred Molina), o diretor de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, prefere se enxergar como um homem inseguro e injustiçado ao ter que administrar tantas disputas no set e não como peça decisiva para acelerar ou frear a maliciosa engrenagem que coloca as atrizes em confronto. Ainda que muito do que as protagonistas colheram fosse fruto do que elas próprias plantaram (Joan especialmente tem um longo histórico de decisões destrutivas tomadas por pura vaidade e orgulho, como ter se recusado a promover Baby Jane junto a Bette, o que certamente influenciou sua não-indicação ao Oscar pelo filme), Feud: Bette and Joan jamais deixa de reforçar o fato de que elas são resultado inegável de um entorno que nunca foi generoso com qualquer uma das duas. É por isso que um episódio como Abandoned! dói tanto: o diálogo em que as duas atrizes, após uma discussão, baixam a guarda e se (re)conhecem na mesma situação de vida ao lembrar o quão prazeroso era sentirem-se as intérpretes mais talentosas e bonitas de sua geração é de partir o coração — e, claro, um show de duas grandes intérpretes.

Por sinal, enfim chegamos a elas: Jessica Lange e Susan Sarandon. Dando orgulho a Bette e Joan não só pelas representações humanas e respeitosas dessas figuras, mas também por já passarem dos 60 anos com carreiras bastante ativas, Lange e Sarandon brilham em cena e são dignas de notas particulares. A primeira, que vem de um recente histórico vitorioso na TV com American Horror Story (foram dois Emmys pela antologia também criada por Ryan Murphy), abraça todas as imperfeições de Joan Crawford e torna a personagem crível mesmo quando fica difícil defendê-la em seus ataques de vaidade. Ela dá conta total da minissérie quando a trama se volta muito mais para sua percepção ao mesmo tempo em que estabelece um dinâmica sempre cercada de generosidade com Sarandon. Como Bette Davis, a colega de Lange é um milagre: além da semelhança física ao reproduzir filmes como A Malvada e Pérfida, Sarandon capta a atriz de dentro para fora, trazendo à tona, com plena fidelidade e sensibilidade, a intensa personalidade que lhe era tão caraterística. Ao contrário do que a imprensa quis criar (Murphy diz ter sido procurado diversas vezes sobre uma possível inimizade entre Jessica e Susan), estamos falando de uma dupla com pura sinergia. Juntas, elas são imbatíveis.

De forma mais racional, Feud: Bette and Joan tem lá suas fragilidades, como a artificialidade de encenar a gravação de um documentário onde atrizes como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates) comentam a rivalidade do título da minissérie. O formato é artificial porque, além de subutilizar Kathy Bates (não há razão alguma para sua inclusão, já que ela sequer é introduzida de fato na história), está ali apenas para fazer contextualizações (cinéfilas, na maioria das vezes), simplificar passagens do tempo e explicar determinadas situações que não são recriadas. Por outro lado, há de se entender que essa é uma ferramenta identificável e até necessária para os padrões da TV aberta, bem como o ajuste de fatos e datas para maior impacto dramático. Errado? De forma alguma. A obrigação com a fidelidade cirúrgica dos fatos pode ficar para os documentários, até porque Feud: Bette and Joan tem pleno domínio de suas emoções ao arquitetar os ajustes honestos que faz. No embate entre as protagonistas, faz pensar. Já em qualquer momento de generosidade entre elas, consegue cortar até o coração mais pedregoso. Afinal, como o próprio título do episódio derradeiro indica ao relembrar uma frase clássica de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, elas realmente poderiam ter sido amigas durante todo aquele tempo.

Os registros pioneiros de “When We Rise”

Mary-Louise Parker e Rachel Griffiths em When We Rise: a minissérie criada por Dustin Lance Black reúne um excelente grupo de atores que fizeram carreira na TV.

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original por Milk – A Voz da Igualdade, Dustin Lance Black diz que nunca houve um registro audiovisual tão amplo sobre a luta dos direitos LGBT quanto o da minissérie When We Rise. Criada, roteirizada e eventualmente dirigida por ele, a atração exibida em março pela ABC teve uma trajetória tímida em termos de repercussão, mas é importante que seja reconhecida exatamente pelo ineditismo citado por Black: começando em 1969 para chegar ao governo Barack Obama, que tornou inconstitucional a Proposição 8, iniciativa que bania a realização de casamentos de pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, When We Rise é realmente ambiciosa e pioneira do ponto de vista de registro histórico, chegando a compensar as superficialidades e decisões comerciais tão inerentes a programas realizados originalmente para a televisão aberta norte-americana.

Com um elenco repleto de excelentes atores que fizeram carreira na TV ou pelo menos tiveram um momento de glória nela (Mary-Louise Parker, de Angels in America e Weeds; Rachel Griffiths, de Six Feet Under e Brothers & Sisters; Carrie Preston, de True Blood e The Good Wife; e até Guy Pearce, que ganhou um Emmy como o interesse romântico de Kate Winslet na minissérie Mildred Pierce), When We Rise acerta ao narrar a trajetória de toda uma geração a partir de histórias íntimas e pessoais. Isso confere ao resultado um estofo dramático diferenciado em termos de relatos LGBT, já que uma quantidade significativa de produções com a temática prefere uma pegada mais documental, incluindo filmes como o próprio Milk, escrito por Black. Já When We Rise reúne personagens comuns, torna todos facilmente identificáveis e, a partir daí, explora a emoção que vem organicamente das batalhas coletivas em que todos eles se engajam.

De 1969 a 2008, When We Rise é, segundo o criador Dustin Lance Black, o maior registro audiovisual já feito sobre os direitos LGBT.

Mesmo lidando com uma infinidade de personagens e passagens de tempo, a minissérie tem um ótimo tino para fazer diferente em muitas de suas representações. Uma freira, por exemplo, pode sim ser compreensiva quando descobre um caso de homossexualidade em sua escola. When We Rise também não demonstra qualquer hesitação ao narrar as contradições e preconceitos que inacreditavelmente existem dentro de grupos que lutam pelas minorias – e, nesse sentido, é embasbacante a passagem em que um coletivo feminista se recusa a ajudar ou ter qualquer simpatia por gays portadores do vírus HIV porque eles supostamente não dão a mínima para o câncer de mama. Por sinal, o segmento que explora a disseminação do HIV nos Estados Unidos é um dos mais contundentes do programa porque também explora outra abordagem importantíssima: a dos políticos conservadores que usaram a doença como argumento para potencializar suas propostas políticas calcadas no preconceito e na intolerância.

Ao abraçar tantas representações diferenciadas, é possível até esquecer os personagens clássicos que When We Rise também coloca em cena, como o gay que vive no armário por ser filho de um político homofóbico, o casal de lésbicas que precisa lidar com a vontade da filha adotada de conhecer seu verdadeiro progenitor e, claro, o jovem que abandona os pais para viver em outra cidade e finalmente ser quem ele é. Mas assim é o mundo: diverso e com pessoas de histórias que já conhecemos como a palma da nossa mão ou que sequer imaginamos. Um adendo, no entanto, precisa ser feito: é importante lembrar que When We Rise foi produzida para a TV aberta, o que exige trilha sonora explicativa, arcos dramáticos mais palatáveis, escolhas estéticas simplificadas e uma série de outras escolhas que tornem o programa atraente para o maior número possível de espectadores. Compreendendo e principalmente aceitando esse formato, também há muito o que se garimpar na história.

Quando o drama se sobrepõe ao documental, When We Rise vai além dos registros pioneiros e se torna um programa vivo também em criações.

O que acontece, porém, com esse programa que desenvolve personagens envolventes, um olhar mais íntimo do que genérico e representações importantes mas tão preteridas pela maioria das produções audiovisuais? Na reta final, lá pelo sexto episódio, Dustin Lance Black não resiste e se entrega por completo à narrativa documental. Com convencionalidades, conclui conflitos e contextualiza conquistas sociais e políticas apoiado em um formato para lá de didático, deixando de escanteio o dia a dia dos personagens que antes acompanhávamos de tão perto. É quando reproduz ou reencena incontáveis gravações da vida real e momentos de tribunal que When We Rise passa a se arrastar e se atrasar. Além disso, faz com que os encaminhamentos finais de determinados personagens pareçam apressados (um casamento específico no episódio derradeiro ganha emoção por acontecer em um determinado contexto histórico e não necessariamente pela execução de cena). Quem sai perdendo é o elenco: com ótimas personificações, intérpretes como Mary-Louise Parker, Rachel Griffiths e, principalmente, Guy Pearce mereciam encantar também por méritos do texto e não somente deles próprios. É uma pisada na bola quase imperdoável porque a minissérie dava a entender que tinha dominado muito bem a sua concepção. Dramaticamente falando e à beira da conclusão, When We Rise realmente não precisava ter entrado na vala comum de tantos outros registros tradicionais sobre a temática LGBT.

Três atores, três filmes… com Bruno Kott

Com quinze peças de teatro no currículo, o ator e diretor Bruno Kott fez a estreia de El Mate, seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, no 44º Festival de Cinema de Gramado, em 2016, quando saiu do evento com o Kikito de melhor ator coadjuvante na mala. E foi lá que esbarrei com o Bruno, que, na conversa que tivemos para o site do Festival, revelou ser um artista que gosta de potencializar as mínimas coisas em seus projetos. Esse conceito não deixa de estar presente nas três escolhas do Bruno para a coluna, onde ele destaca, por exemplo, o desempenho do ótimo Guillermo Francella em O Segredo dos Seus Olhos quando quase todos só enaltecem Ricardo Darín e até Soledad Villamil. Não deixem de conferir as outras escolhas e todos os comentários do Bruno!

Guillermo Francella (O Segredo dos Seus Olhos)
O cinema argentino é recheado de grandes filmes. Além de ótimos roteiros e grandes diretores, destacam-se atores extremamente afiados e versáteis, como é o caso de Guillermo Francella e sua ótima atuação em o Segredo dos Seus Olhos. Conhecido nos anos 90 por papéis cômicos, Francella vem mostrando seu grande potencial dramático. Em O Segredo dos Seus Olhos, ele interpreta Sandoval, amigo íntimo do protagonista Benjamín Esposito, interpretado por Ricardo Darín. A linha tênue entre o carisma e a fragilidade que Francella imprime ao personagem leva o espectador de um singelo sorriso a grandes emoções.

Daniel Aráoz (O Homem ao Lado)
Ainda nos filmes argentinos, destaco também o ator Daniel Aráoz pela excelente atuação em O Homem ao Lado, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Neste thriller despretensioso de humor e suspense, Daniel interpreta Victor, o rústico vizinho de muro de um esnobe arquiteto que mora em uma casa projetada por Le Corbousier. Victor precisa abrir uma janela para obter um pouco de luminosidade para a própria casa, porém a casa do arquiteto não pode sofrer nenhuma alteração no projeto. Daniel, que também é conhecido na Argentina por seu trabalho como escritor e produtor, mostra grande versatilidade ao brincar com a violência e a doçura desse rico personagem.

Sean Penn (O Pagamento Final)
Por último, um clássico de ação norte americano, O Pagamento Final, de Brian de Palma. O filme conta com um grande elenco, mas é Sean Pean na pele do advogado de Al Pacino que rouba a cena. Além da transformação física do ator, Sean construiu um personagem dúbio e com muitas camadas. Sean Pean, sem dúvida, alguma é um dos grandes norte-americanos.

A Bela e a Fera

I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon

Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky

Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon 

Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos

Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.

É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.

Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais. 

Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir.