Cinema e Argumento

A partida memorável e nada repentina de “The Leftovers”

Coragem estética, temática e narrativa: em seu terceiro e último ano, The Leftovers se eterniza como referência na forma de contar histórias na TV.

São muitos os aspectos que tornam The Leftovers uma série memorável (e discutimos vários deles na crítica da segunda temporada), mas um é particularmente decisivo: o do programa ter plena consciência de que nem toda pergunta precisa de resposta. Em contrapartida, isso não significa que a narrativa de The Leftovers possa ser rotulada como incompleta ou frustrante. Para falar bem a verdade, só faz tal afirmação quem realmente não compreende a proposta da série criada pela dupla Damon Lindelof e Tom Perrotta. Para The Leftovers, que exibiu o último episódio da sua curta jornada de três temporadas no último domingo (04), pouco importa o que fez 2% da população desaparecer misteriosamente no episódio-piloto e sim a forma como todos os que ficaram para trás reagem a um acontecimento que, ao contrário da morte, não oferece qualquer tipo de conclusão para quem precisa superá-lo. Se nem o livro homônimo de Tom Perrota no qual a série é baseada se preocupa em explicar a chamada Partida Repentina, por que a versão audiovisual haveria de se preocupar? Mais do que isso, não há necessidade alguma de explicação, pois não é a espera por uma eventual solução que cimenta o drama dos personagens ao longo da trama. Ciente disso, o programa, ao introduzir ainda a possibilidade de um novo evento apocalíptico em sua temporada derradeira, não deixa de brincar com a situação ao sugerir possibilidades: tudo estaria resolvido se finalmente reencontrássemos aqueles que partiram? Nem de perto. E é por esse tipo de maturidade que The Leftovers já faz falta.

Respeitando o ciclo narrativo do programa, a HBO, após anunciar o cancelamento de The Leftovers na segunda temporada, rapidamente garantiu o terceiro ano para que os roteiristas dessem o devido fechamento à história. Que sorte tremenda esses escritores têm de trabalhar em uma emissora que permita tal planejamento e muito mais: afinal, se uma espécie de revolução de storytelling começava a se desenhar na temporada passada, aqui ela de fato se concretiza. Escapa à memória a última vez que um programa ousou tanto na forma e no conteúdo, propondo uma construção dramática que foge de qualquer padrão. Percebam, por exemplo, como pelo menos quatro dos oito episódios dessa temporada se concentram somente em um personagem para narrar uma trajetória individual em um determinado recorte de tempo. É uma jogada inevitavelmente arriscada, especialmente se tratando de uma temporada com poucos capítulos, mas The Leftovers tira tudo de letra. Se, quando os roteiristas adotam esse formato, a história como um todo parece truncada em termos de acontecimentos, emocionalmente tudo está muito bem resolvido com o olhar ainda mais clínico que o texto lança aos personagens, o que faz ainda mais sentido do ponto de vista afetivo, considerando que essa é uma temporada de despedida.

Realidade e fantasia não se anulam em The Leftovers. Mesmo em passagens mais malucas, a série está com os pés bem firmados no chão para explorar os dilemas de seus personagens.

Transferindo diversos personagens dos Estados Unidos para a Austrália de maneira muito orgânica, o programa frequentemente mistura fantasia e realidade, mas sempre para fazer reflexões com os pés no chão. Isso, aliado ao fato da história responder tudo sem responder nada, só revigora a esperança de que há sim espaço para experimentação de qualidade na TV. Já entre os aspectos mais básicos, a refinação se faz presente quando The Leftovers sabe até que ponto certos personagens devem ficar em cena (por mais maravilhosa que fosse Regina King, sua Erika Murphy não tinha mais espaço na trama, o que não impediu que a série arquitetasse uma última aparição para que ela não simplesmente desaparecesse com displicência). Enquanto isso, os que ficam e são introduzidos, como a Grace Playford de Lindsay Duncan, que tem um momento memorável nos minutos finais do episódio Crazy Whitefella Thinking, seguem sendo beneficiados por escolhas inteligentíssimas dos roteiristas, como a de entregar monólogos aos atores ao invés de optar pelo caminho fácil de encenar flashbacks para ilustrar acontecimentos passados. De fato não é exagero afirmar que The Leftovers revoluciona o modo de contar histórias ao não fazer concessões, o que só contribui para uma trama poderosa por si só em sua proposta e que aqui, inclusive, tem sua estética incrementada (são particularmente memoráveis os planos da água escorrendo pelo rosto de Carrie Coon em G’Day Melbourne e do ataque nuclear contemplado por Justin Theroux e Ann Down em The Most Powerful Man in the World (And His Identical Twin Brother)).

Carrie Coon é impecável como Nora Durst, e o final da série concentra quase todas as perguntas, respostas e reflexões na sua comovente personagem.

Tematicamente falando, a última temporada de The Leftovers abre um espaço muito maior para discussões relacionadas à fé. Antes, o assunto já era frequentemente pontuado pelas questões envolvendo o reverendo Matt (Christopher Eccleston) e a chegada dos personagens ao município de Miracle, onde nenhuma pessoa desapareceu durante a Partida Repentina. Agora, as discussões são muito mais simbólicas, já que Kevin (Justin Theroux) passa a ser encarado como um novo Jesus Cristo, com direito até a um Novo Testamento escrito pelo próprio Matt. A possível chegada de um dilúvio que varrerá a humanidade do mundo também amplia o caráter bíblico da temporada que, apesar da abordagem, jamais trata esses assuntos apenas como brincadeiras temáticas. Novamente, The Leftovers puxa tudo para o plano da realidade e se utiliza das leituras para falar sobre dilemas inerentes a boa parte do seres humanos. É especialmente impactante a conversa que o reverendo Matt tem com um homem que diz ser Deus. Ao ser questionado sobre as punições divinas que lança aos homens da Terra por seus pecados, “Deus” diz não ter inventado qualquer mandamento e que tudo o que as pessoas fazem em vida são escolhas delas próprias. Nesse momento, Matt fica sem palavras, e do lado de cá da tela uma série de valores e certezas também são colocados em reflexão. 

Ao encenar situações realmente “malucas”, The Leftovers, por outro lado, nunca faz com que seus personagens questionem a maluquice do que estão vivendo. Na verdade, toda e qualquer resposta procurada pelas figuras em cena está puramente no plano emocional. Em três temporadas, o programa de Damon Lindelof e Tom Perrotta foi um profundo relato sobre o luto, sobre a nossa eterna busca por algum tipo de reconciliação e sobre como, muitas vezes, o mundo acaba dentro de nós mesmos antes da chegada de qualquer dilúvio apocalíptico. A prova real dessa abordagem é The Book of Nora, o episódio final que se revela uma verdadeira crônica sobre as dores que permanecem ano após ano, mesmo quando encontramos as respostas que precisamos e que julgávamos ser a solução para todo mal que nos aflige. Diferente do esperado e talvez um tanto desleal com o espectador em relação a certas decisões (é imperdoável o retorno de uma personagem que a série nos fez acreditar ter se despedido dois episódios antes), The Book of Nora compensa estranhamentos e tropeços com uma pegada melancólica que encerra a série com um alento há muito tempo esperado. De elenco coeso (destaque absoluto para Carrie Coon, em desempenho impecável no episódio final) e coragem estética, temática e narrativa, The Leftovers, uma série sobre perdas, termina, curiosamente, como uma homenagem à força que inevitavelmente precisamos encontrar em quem está ao nosso lado, aqui e agora, para finalmente seguir em frente. Inesquecível.

Personal Shopper

Is it you? Or is it just me?

Direção: Olivier Assayas

Roteiro: Olivier Assayas

Elenco: Kristen Stewart, Nora von Waldstätten, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Benjamin Biolay, Audrey Bonnet, Pascal Rambert, Aurélia Petit, Olivia Ross, Thibault Lacroix

França/Alemanha, 2017, Drama, 105 minutos

Sinopse: Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como personal shopper para uma celebridade local. Ela também tem uma capacidade especial para se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos. (Adoro Cinema)

Se as palmas e as vaias ao fim das sessões do Festival de Cannes significassem alguma coisa (na maioria das vezes não significam, como aponta certeiramente esse artigo do site Indiewire), minha expressão de incredulidade seria grande com a recepção para Personal Shopper. Vaiado, o filme de Olivier Assayas foi amplamente criticado em sua primeira exibição mundial, provando que são mais frequentes do que pensamos os casos de obras rejeitadas equivocadamente em reações imediatas. A mais lógica das teorias para justificar o distorcido julgamento é a de que nem sempre reagimos de forma instantaneamente positiva a obras que provocam, mexem com zonas de conforto e entregam resultados bem diferentes do esperado. Personal Shopper é um perfeito exemplo nesse sentido, uma vez que, ao misturar drama e suspense, sua história não se desenrola de maneira convencional em ambos os gêneros. Aliás, o que menos a obra estrelada por Kristen Stewart quer é fazer concessões, mas nem todas as plateias – por mais refinadas que sejam – estão necessariamente preparadas para aplaudir os méritos de um filme que trabalha assim, sem se limitar a regras ou formatos. Por isso, se pensarmos a partir de tal ótica, as vaias que Personal Shopper levou em Cannes soam até elogiosas. Inclusive, ele poderia até estar  na lista do Indiewire de excelentes filmes renegados em uma primeira sessão, mas posteriormente reconhecidos pelo melhor termômetro de qualidade quando o assunto é cinema: o tempo.

Sem jamais encarar a experimentação como mero passatempo estilístico ou simples autoafirmação autoral, Olivier Assayas se destaca por utilizá-la como uma importante variável para explorar os sentidos de histórias que ele própria costuma escrever. Foi assim em Acima das Nuvens, onde o diretor misturava a linguagem cinematográfica e teatral ao narrar o conflito de identidade entre duas mulheres bastante distintas. Agora, a situação é um tanto mais complicada porque Assayas navega no drama a partir do suspense, gênero que tem uma plateia estranhamente conservadora. Criando uma espécie de crônica fantasmagórica sobre uma médium (Kristen Stewart) que passa uma temporada em Paris à espera do contato de seu falecido irmão gêmeo, o filme se arrisca ao não oferecer respostas para todas as interrogações que lança em termos de mistério (e elas são várias, envolvendo desde mensagens anônimas e assassinatos a contatos do além-vida). É uma contramão para lá de interessante, pois Personal Shopper prioriza a construção e os significados ao invés da resolução dos suspenses que introduz para discutir, na verdade, questões como o fato da protagonista ser uma médium, mas sequer estar convicta do espiritualismo. Uma prova real da inteligência desse caminho é que, quando o filme resolve ser mais conclusivo do que se propõe, a situação desanda, como na pobre conclusão que dá para um crime que merecia ser tratado com uma inteligência à altura do restante da obra.  

Ainda assim, Personal Shopper compensa tropeços com todas as experimentações que faz e também com a relação estabelecida entre realidade e fantasia. Ao mesmo tempo em que é mais um relato de Assayas pontuado por crises de identidade (são ótimas as cenas em que a protagonista enfrenta desejos contraditórios acerca de vestir ou não as roupas que compra para as célebres clientes que considera supostamente diferentes de si), o longa também se esmera para impactar na forma, em especial no clima de mistério, onde o diretor consegue, em poucas cenas, deixar muita produção de terror no chinelo tamanha a densidade da atmosfera criada pela escolha certa de composições visuais e até de sustos perfeitamente orgânicos. Outro aspecto importante de ser ressaltado é que, mesmo se apoiando na questão da espiritualidade e trabalhando o drama com base em uma série de mistérios, Personal Shopper não afasta o espectador de sua protagonista e muito menos dos temas que apresenta. Há uma segurança muito grande entre o roteiro e a direção de Assayas, que compreende a necessidade de não realizar uma obra estritamente temática ou de gênero específico. Os contrastes que ele desenha de forma cada vez mais interessantes em sua carreira são realmente uma marca. No caso de Personal Shopper, inclusive, levados até o último minuto de projeção, quando a trama deixa questões pontuais abertas, mas termina completa em reconciliações emocionais de certa forma tão esperadas.

Essa carta aberta de defesa a Personal Shopper não poderia terminar sem mencionar, claro, um dos melhores elementos do conjunto: a performance de Kristen Stewart. Se Acima Das Nuvens era mais do que o suficiente para ela se consagrar como uma atriz de talento e confiança pós-saga CrepúsculoPersonal Shopper vem com novas surpresas. Depois de fazer história em sua parceria anterior com Assayas (ela é a única atriz estadunidense premiada pelo César, o Oscar francês, em mais de 40 anos) e de ter vivido experiências que dão inveja em muita gente (foi dirigida por Woody Allen e Ang Lee, além de ter contracenado com Julianne Moore, Laura Dern e Michelle Williams), Stewart agora se revela afiada em um aspecto importantíssimo: o de conferir eficiência a sua forte persona. Não é sempre que um ator se beneficia por aquilo que chamamos de interpretar a “si mesmo”, mas Stewart está entre os casos que se destacam positivamente. As expressões amenas e muitas vezes amuadas da atriz se convertem em uma instigante personalidade para papeis como o desse filme. Nem mesmo o fato de Personal Shopper parecer um spin-off da personagem de Stewart em Acima das Nuvens diminui a excelente impressão que ela já havia deixado no filme anterior. Stewart realmente deu à volta por cima e, se depender do cinema que Olivier Assayas vem apresentando nos últimos e do que ela tem alcançado em suas últimas investidas, não serie exagero algum desejar que a parceria entre os dois se repita sempre que possível.

Rapidamente: “Céu Azul”, “A Criada”, “O Rio Selvagem” e “Sobre Viagens e Amores”

Jessica Lange em Céu Azul: o primeiro Oscar por Tootsie foi mera formalidade, mas a segunda estatueta veio de forma muito merecida pelo filme derradeiro de Tony Richardson.

CÉU AZUL (Blue Sky, 1994, de Tony Richardson): Se o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Tootsie foi mera formalidade para celebrar uma Jessica Lange em início de carreira, o de protagonista por Céu Azul veio para compensar a honraria apressada e equivocada de outrora (algo semelhante aconteceu décadas depois com Cate Blanchett, celebrada sem muitos méritos por O Aviador e depois com total justiça por Blue Jasmine). No mediano e derradeiro drama dirigido por Tony Richardson, Lange brilha em todos os sentidos como a conturbada e muitas vezes polêmica Carly Marshall, mulher de um oficial do exército que se muda para uma base militar com a família. Radiante, Carly passa a ser o centro das atenções na vizinhança não só porque esbanja beleza, espontaneidade e até talento para dança em um espetáculo musical, mas porque também é uma mulher problemática e inconstante do ponto de vista emocional. Para Lange, mais linda do que nunca, é um papel para deitar e rolar: sem jamais criar qualquer tipo de caricatura, a atriz toma o filme para si ao compensar toda a apatia que toma conta do roteiro quando ele decide se voltar para o marido vivido por Tommy Lee Jones ou para o próprio dia a dia na base militar. Céu Azul é o clássico caso de uma atriz indiscutivelmente maior do que o próprio filme, e a prova definitiva dessa afirmação é o terço final da obra, quando Carly decide quebrar todas as barreiras para libertar o marido de uma complicada situação em uma instituição psiquiátrica. Não há o que discutir: o filme é todo de Lange.

A CRIADA (Ah-ga-ssi, 2016, de Chan-Wook Park): Com notável domínio estético e temático, o coreano Chan-Wook Park vem fazendo história como um diretor que não faz concessões ao contar histórias. Depois de filmes mais célebres a nível mundial como OldboySegredos de Sangue, o cineasta pontua outro momento importante de sua carreira com A Criada, que chegou a ser o representante da Coréia para o Oscar de filme estrangeiro, mas que não chegou entre os cinco finalistas porque os votantes da Academia obviamente não estão preparados para tanta franqueza. Passado nos anos 1930, A Criada se desenrola a partir de reviravoltas e por isso é complicado discuti-lo sem correr o risco de revelar algum detalhe fundamental da história. No entanto, se existe algo que realmente pode afetar aos mais sensíveis a temas fortes (caso dos votantes do Oscar), é a força sexual do filme, que, repleto de cenas muito gráficas e impactantes de sexo, surpreende por usá-las não para levantar qualquer tipo de polêmica, mas para dar potência a um filme que, no final das contas, pode ser interpretado como um romance dos mais inesperados. Com uma reconstituição de época impecável, A Criada tem estilo na forma e no conteúdo, fazendo jus a tudo de diferente e subversivo que o cinema oriental normalmente costuma produzir. Contudo, o longa dilui boa parte de suas discussões ao depender tanto de reviravoltas. Na surpresa pela surpresa, A Criada perde o espírito, parecendo muito mais um jogo onde o espectador precisa adivinhar a próxima virada do roteiro do que propriamente se envolver com uma história instigante nos mais diversos aspectos.

O RIO SELVAGEM (The River Wild, 1994, de Curtis Hanson): Poucas vezes Meryl Streep esteve tão sem presença e ineficiente como em O Rio Selvagem, filme que misteriosamente lhe rendeu indicações ao Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild Awards de melhor atriz no ano em que Jessica Lange conquistava seu segundo Oscar por Céu Azul. No filme do saudoso Curtis Hanson, ela interpreta Gail, uma mulher expert em rafting que, em férias com a família, cruza um perigoso rio para escapar de uma dupla que, aos poucos, começa a se revelar mais perigosa do que aparenta. Apesar do empenho ao recusar dublês em praticamente todas as cenas de ação, Meryl tem pouco a fazer nessa obra que envelheceu muito mal em termos estéticos e narrativos. Se a ação é extremamente previsível e repetitiva (demanda certa paciência acompanhar tantas sequências de rafting ao longo da história), o fato de O Rio Selvagem querer, sem sucesso, dar algum estofo dramático a seus personagens entre uma adrenalina e outra amplia a falta de firmeza do roteiro, já que os dilemas envolvendo o casamento falido entre Gail e Tom (David Strathairn) são rasos demais para causar qualquer envolvimento no espectador. Trazendo ainda Kevin Bacon e John C. Reilly como a dupla que toca o terror na vida dos protagonistas, O Rio Selvagem falha inclusive em ser uma aventura divertida, já que trata com certa seriedade até as decisões mais tolas tomadas pelos personagens em momentos de perigo. Os embates físicos, visivelmente construídos na ilha de edição, também quebram a conexão com o filme pela artificialidade, reiterando a impressão de que nem mesmo Meryl tinha muito o que fazer em uma produção pouco eficiente no senso de entretenimento.

SOBRE VIAGENS E AMORES (L’estate Addosso, 2017, de Gabriele Muccino): É da natureza do diretor Gabriele Muccino contar histórias calcadas no melodrama. Seja nos Estados Unidos ou na Itália, é facilmente identificável o estilo impresso por ele em filmes como À Procura da FelicidadeSete Vidas e agora esse Sobre Viagens e Amores. Em sua mais nova produção, Muccino lança um olhar agridoce e nostálgico para as descobertas da adolescência e, principalmente, para o quão complicado é enfrentar certas dores pela primeira vez na vida. Entretanto, o curioso de Sobre Viagens e Amores não é como o diretor novamente pesa a mão ao açucarar a história com trilhas bonitinhas, fotografia inspirada em filtros do Instagram e conflitos das mais variadas naturezas resolvidos com frases de efeito, mas sim como ele sabota a história ao transformar um interessante relato sobre o poder da amizade em uma ciranda de desejos e amores. A intenção é clara e válida – fazer uma interessante relação entre os desejos velados no fervor da adolescência e na estabilidade de um matrimônio -, mas a guinada é gratuita demais para um filme que vendia algo muito diferente até então. Dessa maneira, a mudança de foco em Sobre Viagens e Amores termina como uma traição para um filme que se desenhava como uma singela homenagem aos amigos que descobrimos e levamos para a vida toda. A proposta inicial tinha os vícios de Muccino, claro, mas era levada com muita despretensão e delicadeza pelo diretor, sem jamais sinalizar as ambições que ele logo revela, mas não consegue administrar com as devidas sutilezas e complexidades.

Alien: Covenant

We don’t leave Earth to be safe.

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Dante Harper e John Logan, baseado em história de Jack Paglen e Michael Green e nos personagens criados por Dan O’Bannon e Ronald Shusett

Elenco: Katherine Waterston, Michael Fassbender, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Jussie Smollett, Callie Hernandez, Carmen Ejogo, Amy Seimetz, Nathaniel Dean, Alexander England

Alien: Covenant, EUA, 2017, Ficção Científica, 122 minutos

Sinopse: 2104. Viajando pela galáxia, a nave colonizadora Covenant tem por objetivo chegar ao planeta Origae-6, bem distante da Terra. Um acidente cósmico antes de chegar ao seu destino faz com que Walter (Michael Fassbender), o androide a bordo da espaçonave, seja obrigado a despertar os 17 tripulantes da missão. Logo Oram (Billy Crudup) precisa assumir o posto de capitão, devido a um acidente ocorrido no momento em que todos são despertos. Em meio aos necessários consertos, eles descobrem que nas proximidades há um planeta desconhecido, que abrigaria as condições necessárias para abrigar vida humana. Oram e sua equipe decidem ir ao local para investigá-lo, considerando até mesmo a possibilidade de deixar de lado a viagem até Origae-6 e se estabelecer por lá. Só que, ao chegar, eles rapidamente descobrem que o planeta abriga seres mortais. (Adoro Cinema)

Há algo muito errado quando um diretor contribui para a destruição de um universo que ele próprio criou. Pois é definitivamente o que Ridley Scott faz em Alien: Covenant, o sexto filme envolvendo a franquia Alien, cujo primeiro capítulo chegou aos cinemas em 1979. Scott, que entregou a direção da franquia para James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet nas respectivas continuações (muitas delas irregulares), retomou o cargo em 2012 com Prometheus, propondo fazer um prequel da série. O projeto tem continuação agora com Alien: Covenant, supostamente responsável por complementar as discussões de Prometheus e ser uma ponte para o primeiro filme lançado na década de 1970. Lamentavelmente, Covenant é de uma arbitrariedade assustadora: além de não servir como obra de transição, tampouco se revela um passatempo que respeita os clássicos elementos que fizeram de Alien, o Oitavo Passageiro, um verdadeiro clássico. Vindo das mãos de um diretor estreante no universo, seria possível dar um desconto, mas, tratando-se de quem concebeu tudo de forma visionária há quase 40 anos, é realmente imperdoável.

Os problemas de Alien: Covenant começam já na concepção, onde o roteiro escrito pela dupla Dante Harper e John Logan é inexpressivo ao criar e desenvolver personagens. Partindo do pressuposto de que muitos deles passarão por poucas e boas ou até morrer em uma perigosa viagem interplanetária, é inadmissível que o texto não estabeleça qualquer laço entre eles e o espectador. Pior: não só os personagens transitam na história sem deixar impressão alguma, como também falham em apresentar qualquer traço de personalidade ou identidade – e é exatamente por isso que, quando revelada, a natureza homossexual de um dos tripulantes parece gratuita e oportunista. Considerando tempos em que Charlize Theron e Sandra Bullock marcam toda uma geração com personagens femininos bem explorados em filmes como Mad Max: Estrada da FúriaGravidade, Scott ainda sequer se dá ao trabalho de fazer jus às origens da franquia e nos convencer do poder feminino: mesmo esforçada, a protagonista vivida por Katherine Waterston (que era pura simpatia em Animais Fantásticos e Onde Habitam) não consegue segurar o filme, muito em função das oportunidades que nunca lhe são dadas por um roteiro fragilíssimo.

O desperdício da figura feminina nos leva a outro defeito de Covenant: a dispersão da história. Se Waterston não tem como brilhar no papel da tripulante Daniels, isso tem muito a ver com o fato dos acontecimentos serem excessivamente centrados na figura do androide David, vivido por Michael Fassbender. Por si só, o destaque do personagem já faz com que o roteiro se afaste da ideia de trabalhar a mitologia envolvendo todo o medo e o terror causado pelo monstrengo Alien, mas a situação piora porque as motivações de David (e principalmente dos conflitos que ele enfrentará posteriormente ao encontrar Walter, um semelhante de sua espécie) são desinteressantes e principalmente fracas demais para sustentar um filme da dimensão de Covenant. A limitação do texto se estende ao trabalho estético da obra: ambientada em um planeta que tem paisagens facilmente reconhecíveis (rios, árvores, montanhas), a ficção pouco instiga visualmente e colabora para a sensação de que o diretor Ridley Scott de fato dirigiu a obra no piloto-automático, reforçando a ideia de que sua carreira, apesar de repleta de filmes marcantes (Thelma & LouiseBlade Runner!), é também marcada por longas sem identidade.

Entre as decepções trazidas pelo retorno ao universo Alien, nenhuma, contudo, é maior do que a falta de clima em relação ao personagem-título. Ao cometer o mesmo erro de boa parcela de exemplares de terror, o filme mostra mais do que deveria, tornando Alien uma figura gráfica demais. O maior medo é aquele que a nossa própria mente cria, tese defendida e aplicada com grande talento pelo longa de 1979 e que aqui parece ser completamente ignorada. Encantado com o poder da tecnologia, Scott faz questão de mostrar Alien em suas mais diversas formas, além de capturá-lo em cada detalhe, cada passo, cada movimento. Com isso, vem uma artificialidade que castra qualquer possibilidade do espectador ter medo de um personagem que não parece natural até mesmo dentro de suas fronteiras. Em suma, Alien: Covenant falha na tentativa de ser qualquer tipo de filme. Por isso mesmo é de se agradecer que o canadense Dennis Villeneuve esteja no comando da sequência de Blade Runner no lugar de Ridley Scott. Afinal, seria difícil demais vê-lo sabotando, em um mesmo ano, dois universos fascinantes criados por ele próprio.

Rapidamente: “Duas Estranhas”, “Mamãezinha Querida”, “Quem é Primavera das Neves?” e “Tootsie”

Não foi apenas o desempenho de Dustin Hoffman que sobreviveu bem ao tempo: as críticas de Tootsie em relação à representação da mulher no audiovisual ainda são lamentavelmente atuais.

DUAS ESTRANHAS – HISTÓRIA DE MÃE E FILHA (Strangers: The Story of a Mother and Daughter, 1979, de Milton Katselas): Na época em que fazer TV não era algo nobre e que boa parte da indústria hollywoodiana torcia o nariz para o formato, Bette Davis abdicava de qualquer orgulho para continuar trabalhando e, na medida do possível, conseguindo bons papeis. Claro que Duas Estranhas – História de Mãe e Filha não preza pela originalidade, mas, para uma atriz de 79 anos, é um prato cheio, o que não deixa de ser verdadeiro também para os dias de hoje. Contracenando com Gena Rowlands, Bette chegou a ganhar o Emmy de melhor atriz por interpretar novamente uma clássica mulher casca grossa. Dessa vez, ela é Lucy, uma senhora solitária que recebe a inesperada visita de uma filha distante. Não é preciso ser perito para adivinhar o que vem a partir daí: longas discussões envolvendo mágoas do passado, segredos finalmente sendo revelados e, eventualmente, a aproximação e o carinho que tanto foram escanteados ao longo de uma vida. Mesmo encenado em um único cenário, Duas Estranhas jamais se torna um teatro filmado, mostrando que, apesar de apostar na extrema simplicidade, o diretor Milton Katselas teve tino suficiente para distinguir a linguagem audiovisual da teatral. Ainda assim, o que importa é a presença de Bette e Gena, que dominam a tela mesmo com o mais tradicional (e, às vezes, até rasteiro e mal explicado) dos textos. Não sei quanto a vocês, mas, para mim, isso já está de bom tamanho.

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie Dearest, 1981, de Frank Perry): Desastre sem precedentes para a época que foi lançado, Mamãezinha Querida hoje é até abraçado como cult, mas não fui espirituoso o suficiente para entrar na brincadeira. Ao abranger quase 40 anos de vida e carreira da atriz Joan Crawford, o filme de Frank Perry era cercado de expectativas antes de seu lançamento. Além de transpor às telas o polêmico livro escrito por Christina Crawford, filha de Joan, que relata os supostos abusos físicos e emocionais que ela teria sofrido na convivência com a mãe, o longa estreava quatro anos após a morte de Crawford e protagonizava o sonho dourado da atriz Faye Dunaway de ganhar um segundo Oscar. Deu tudo errado: além de arruinar a carreira de Dunaway, foi um fiasco de crítica e chegou a ser vendido pelo estúdio como comédia após a desastrosa recepção, que, com toda razão, bombardeava a dramaticidade descontrolada de atuações exageradas e cenas constrangedoras. Entretanto, o problema é muito maior do que os ataques histéricos. Na verdade, Mamãezinha Querida poderia ser sobre qualquer mãe maquiavélica, já que sequer é possível compreender quem era Joan Crawford e muito menos sua influência em Hollywood. É uma produção caótica, que faz uma bela dupla com o igualmente péssimo e biográfico A Dama de Ferro: ambos saltam no tempo com a maior displicência sem contextualizar, do ponto de vista histórico ou emocional, as mulheres que retratam. De vez em quando, o constrangedor diverte (Carla Perez deve saber o quanto Cinderela Baiana é clássico nesse sentido), mas, com Mamãezinha Querida, apenas entedia a plateia e desrespeita de forma desenfreada uma mulher da vida real que, ao menos, foi redimida recentemente na minissérie Feud: Bette and Joan.  

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES? (idem, 2017, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado): O ponto de partida é dos mais cotidianos: lendo o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, o diretor gaúcho Jorge Furtado se deparou com o curioso nome Primavera das Neves, da jornalista e escritora portuguesa responsável pela tradução da obra. Instigado, Furtado procurou sobre Primavera na internet, mas se surpreendeu ao não encontrar qualquer registro biográfico dela. A partir daí, a curiosidade virou missão: após fazer um post no site da Casa de Cinema de Porto Alegre perguntando se alguém conhecia a tradutora, o diretor recebeu o contato de uma amiga de Primavera. O encontro entre eles, no final das contas, rendeu esse Quem é Primavera das Neves?, que Furtado dirige ao lado da colega e amiga Ana Luiza Azevedo. Primavera já faleceu, mas é na ausência dela que a dupla de diretores tira a melhor tônica para o documentário, que, calcado em afeto, torna-se, em cada minuto de sua duração, uma singela e acalantadora homenagem à amizade e ao quanto certas pessoas, por mais comuns que possam parecer, influenciam nossas vidas para sempre. Além dos depoimentos de pessoas que conheceram Primavera, o filme traz a ótima atriz Mariana Lima interpretando trechos de algumas das traduções mais célebres da personagem-título (além de Lewis Carroll, ela trabalhou com materiais de Emily Brontë, Julio Verne, John Le Carré, entre outros) e até mesmo poemas e cartas escritos pela própria Primavera. Por fim, nem chega a importa a extrema simplicidade e o formato quase televisivo do documentário. O que ganha mesmo é a delicadeza.

TOOTSIE (idem, 1982, de Sydney Pollack): À parte o inexplicável Oscar de melhor atriz coadjuvante para Jessica Lange, Tootsie é uma comédia que sobreviveu muito bem ao tempo. Mais do que isso, manteve intacta a sua atualidade: as críticas do filme de Sidney Pollack ao machismo nas produções televisivas ainda são válidas, principalmente quando traz à tona a forma como diretores e roteiristas representam as mulheres bem sucedidas, que quase sempre são pintadas como mulheres masculinizadas e nada atraentes. É justamente essa mudança de cenário que Michael Dorsey (Dustin Hoffman) propõe quando, vestido secretamente como mulher, consegue um papel de destaque em uma popular novela da TV norte-americana. Como Dorothy, uma mulher inteligente, bem sucedida, divertida e sensível, Michael alcança o sucesso que nunca teve e, mergulhado na glória, passa a literalmente viver uma nova vida. Simples e divertido, Tootsie recebeu, na época de seu lançamento, uma celebração surpreendente para uma comédia assumida: foram nada menos do que dez indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Entretanto, quem brilha mesmo é Dustin Hoffman. Em um dos desempenhos mais marcantes de sua carreira, Hoffman encontra o equilíbrio certo entre a comédia pela comédia e o uso desse gênero para elucidar questões até mesmo tristes sobre seu personagem. É uma interpretação respeitosa, que jamais se entrega à caricatura e que certamente confere a Tootsie um carisma ainda mais especial.