Cinema e Argumento

Okja

And most importantly… They need to taste fucking good!

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Jon Ronson, baseado em história de Bong Joon-ho

Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Paul Dano, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Lily Collins, Byun Hee-Bong, Jungeun Lee, Steven Yeun, Shirley Henderson, Devon Bostick, Jose Carias

EUA/Coréia do Sul, 2017, Drama/Aventura, 118 minutos

Sinopse: Nova York, 2007. Lucy Mirando (Tilda Swinton), a CEO de uma poderosa empresa, apresenta ao mundo uma nova espécie animal que foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, de forma que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. A ideia é que os animais permaneçam espalhados ao redor do planeta por 10 anos, sendo que após este período participarão de um concurso que escolherá o melhor super porco. Uma década depois, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) convive desde a infância com Okja, o super porco fêmea criado pelo avô. Prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, custe o que custar. (Adoro Cinema)

Quando meio mundo resolveu alimentar a mal interpretada polêmica de que Okja, um filme produzido originalmente pela Netflix e sem lançamento previsto para as telas de cinema, talvez não devesse integrar a mostra competitiva no Festival de Cannes por não ser uma obra pensada para a tela grande, a atriz Tilda Swinton deu o argumento definitivo para encerrar qualquer discussão: nem todo filme que ganha as telas da Riviera Francesa durante o célebre evento chegam aos cinemas mundiais, o que, na realidade, deveria fazer com que o público fosse grato à Netflix por disponibilizar Okja menos de dois meses após a premiação de Cannes e ao alcance de um clique. Tilda está certíssima, mas prefiro levar a discussão também para o plano criativo: como espectador, é mais gratificante ver, nem que seja em casa, um filme onde o resultado final é fiel ao que foi idealizado no papel do que conferir, na sala de cinema, uma obra que, para ganhar distribuição de grandes dimensões, precisou ser transformada e reconfigurada por uma série de produtores mais preocupados em garantir a bilheteria do que dar vida a um projeto autoral. Por isso – e pelo argumento de Tilda, claro – é tão bom ver Okja levando o selo da Netflix, uma vez que, para viajar o mundo nas telonas, o filme do sul-coreano Bong Joon-ho certamente passaria por uma série de modificações que, sem dúvida, não foram solicitadas pela plataforma on demand.  

Com uma clara denúncia em pauta (às vezes até explícita e didática demais, diga-se de passagem), Okja reafirma o talento de Bong Joon-ho de criar alegorias para falar sobre temas muito próximos da realidade. É bem provável que o pouco visto Expresso do Amanhã tenha naufragado comercialmente justamente por essa proposta de negar o óbvio e de não fazer apenas o entretenimento pelo entretenimento. A situação se repete com Okja, que, entre as tantas coisas que traz à tona, a última é ser uma mera história de monstro. A reflexão que a história faz em cima do abate animal na indústria alimentícia norteia o roteiro escrito por Joon-ho em parceria com Jon Ronson, cujo maior mérito reside na escolha do ponto de partida para a comovente denúncia. Inteligentemente, Okja opta por dispensar uma leitura macro da indústria para propôr um olhar muito mais íntimo. Ao acompanhar tudo pelo percepção da pequena Mija (Seo-Hyun Ahn), é muito mais fácil e natural se afeiçoar aos personagens, em especial ao super porco que, no terço final da projeção, terá protagonismo fundamental. É isso o que compensa o claro problema estrutural do texto que, no irregular segundo ato, se dilui em discursos fáceis, caricaturas um tanto descontroladas (o que também se estende ao elenco) e cenas perfeitamente dispensáveis. 

Ao retomar a abordagem particular de sua protagonista e o quão fundamental é para ela salvar a vida do animal que lhe acompanha há tantos anos, Okja recupera a força emocional perdida em seu miolo. Aliás, ela só é ampliada na medida em que o filme se encaminha para os momentos derradeiros, já que a crítica em relação ao modo ostensivo como o mundo industrializado é impiedoso com os animais se torna muito mais comovente visto todo o laço emocional que criamos com os personagens. Do ponto de vista técnico, o longa é de uma eficiência envolvente e funcional: dos dias desbravando as montanhas da Coreia às eletrizantes perseguições em movimentadas rodovias dos Estados Unidos, Okja impressiona pela qualidade com que torna cada situação crível, sem que o super porco pareça artificial esteticamente ou incoerente com o mundo real. A fotografia de Darius Khondji, que já trabalhou com diretores do calibre de Woody Allen, David Fincher, Michael Haneke e Wong Kar-Wai, ainda cria com precisão o tom bucólico das montanhas coreanas ao passo em que rebusca a sujeira e a palidez de uma Nova York sem alma. Em seu melhor, Okja é uma contundente reflexão que poderá comover até o mais carnívoro dos espectadores. E, no final das contas, o fato do filme ter sido concebido ou não para a tela grande é o que menos interessa.

Agora tem canal do Cinema e Argumento no Youtube!

Não só como usuário da internet, mas também como jornalista, percebo que é um caminho sem volta: ter um canal no Youtube se revela hoje uma alternativa fundamental para produtores de conteúdo. Com a crise dos meios de comunicação tradicionais, essa é uma lógica que faz cada vez mais sentido. Entretanto, a razão do Cinema e Argumento migrar agora também para o Youtube vai muito além dessa perspectiva: já não é de hoje que invejo, por exemplo, a forma como a jornalista Isabela Boscov (a pioneira na ideia de fazer crítica de cinema em vídeo no Brasil, vale lembrar) faz toda a função parecer fácil, natural e extremamente prazerosa. Pois agora resolvi me aventurar na profissão Youtuber e queria compartilhar com vocês tal experiência.

Deixo abaixo, então, os dois vídeos produzidos até agora para o canal do Cinema e Argumento que, a priori, busca dar destaque para filmes que normalmente não recebem o mesmo destaque que Mulher-Maravilha, por exemplo, em uma infinidade de canais. Vale tudo: filme novo e antigo, produção para o cinema ou para TV e o que mais vier na telha. Enfim, tudo o que achar interessante para compartilhar com vocês vai estar lá. Nessa primeira leva, os comentários são para os filmes Duas Estranhas – História de Mãe e Filha, longa de 1979 estrelado por Bette Davis e Gena Rowlads, e o recente telefilme A Vida Imortal de Henrietta Lacks, produzido pela HBO com Oprah Winfrey encabeçando o elenco junto a Rose Byrne. Espero que gostem!

45º Festival de Cinema de Gramado #1: ícone da animação gaúcha, Otto Guerra recebe o troféu Eduardo Abelin

É impossível falar de animação no Brasil sem citar o nome de Otto Guerra, que, há mais de 40 anos, trabalha com o gênero tanto em narrativas ficcionais quanto na publicidade. Levam a assinatura dele animações como Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ RollAté Que a Sbórnia nos Separe, que se destacam pela composição adulta, crítica e excêntrica, algo raro de se encontrar no cinema desse estilo no Brasil. Já tive a oportunidade de entrevistar Otto um punhado de vezes e até de lançar o Sbórnia aqui no Rio Grande do Sul como assessor de imprensa na Pauta – Conexão e Conteúdo, mas a alegria agora é vê-lo sendo merecidamente homenageado pelo Festival de Cinema de Gramado, onde já foi vitorioso com seis de seus trabalhos entre curtas e longas-metragens, como Nave Mãe, NovelaAs CobrasAbaixo, reproduzo a entrevista oficial com Otto que produzi novamente trabalhando na Pauta para divulgação do Festival, onde marcarei presença pelo sexto ano consecutivo. Espero que gostem e, claro, acompanhem as futuras novidades desse evento que tenho tanta satisfação de fazer parte!

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VIDA ANIMADA

O cineasta e animador gaúcho Otto Guerra diz ser uma vítima da animação. “Quando estamos na adolescência, a sociedade nos cobra e a família nos pressiona. Tudo é sobre fazer dinheiro, mas eu nunca quis fazer concessões. Quando desenho, o mundo se transfere para dentro do meu trabalho, é uma coisa mágica. Fui uma vítima disso, não tive escolha”, conta. A consciência de que a animação seria um caminho sem volta veio aos 13 anos, durante uma viagem à cidade de Torres, no litoral gaúcho, quando Otto Guerra entrou pela primeira vez em contato com o trabalho de Hergé, o renomado autor de célebres quadrinhos como “As Aventuras de Tintim”. “Eu era um jovem, no litoral do Rio Grande do Sul, lendo uma revista portuguesa com quadrinhos de um cara belga. Foi aí que eu pensei: então isso existe mesmo! Não é loucura minha! É possível desenhar e chegar até as pessoas!”, lembra Otto.

Dali até o início da busca por uma carreira profissional foi um pulo. Aos 18 anos, já convencido de que esse era seu destino, Otto estava em São Paulo com quadrinhos de autoria própria embaixo do braço para bater na porta de editoras que pudessem se interessar por seu trabalho. A publicação nunca aconteceu, mas, dois anos depois de suas primeiras investidas no ramo, ele se deparou com a possibilidade de trabalhar com animações em produções audiovisuais. “Fiz um curso com um produtor argentino e, de repente, aprendi a fazer tudo. Eu falava com cliente, pensava o som, animava, fazia storyboard, direção de arte. Foi extremamente libertador descobrir que era possível viver pelas minhas próprias mãos, muito em função do trabalho realizado com a publicidade”, conta.

Muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação

Em termos criativos, o cineasta brinca que trabalhar com publicidade é ter que “vender a alma ao diabo e apenas desenhar personagens felizes, sorridentes, pasteurizados e coloridos”, mas também defende a ideia de que esse é um ramo necessário para se manter financeiramente no mercado. Aliás, foi com o dinheiro que ganhou fazendo publicidade ao longo de seis anos no início da carreira que o gaúcho comprou o seu primeiro equipamento 35mm para ter os filmes em bitola profissional e conseguir se equiparar à concorrência. Se a conquista do equipamento 35mm marcou a entrada definitiva da Otto Desenhos Animados no mercado há mais de 40 anos, a exibição de “O Natal do Burrinho” no Festival de Cinema de Gramado de 1984 abriu “uma janela do nosso trabalho para o mundo”, conforme cita o homenageado. “O que aconteceu em Gramado foi muito maior do que qualquer estapafúrdia imaginação. Fui de Madri a Havana para exibir o filme por causa daquela sessão e, desde então, sempre priorizei esse evento que, durante muito tempo, foi o único ponto de partida de muitos cineastas do Rio Grande do Sul. Muita coisa aconteceu ao longo desse tempo, sem falar que hoje os festivais de cinema se multiplicaram no Brasil, mas sempre quis que Gramado fosse a primeira janela dos filmes que produzi”, defende.

A busca pelo feijão com arroz

A partir das evoluções tecnológicas, Otto Guerra observa um incremento do número de animadores no Brasil, mas afirma que a expressividade da produção brasileira no gênero ainda é incipiente. “Hoje qualquer pessoa pode pegar uma imagem ou um filme da Disney e esmiuçar, ver com o microscópio como funciona, mas animação também é saber sobre atuação, música, física, filosofia, geografia, história. Os processos também são muito relativos: em um dia, é possível fazer 10 segundos de animação se um estúdio dispõe um milhão de dólares. Agora, se a animação é feita por apenas uma pessoa, é preciso um mês para produzir um minuto de uma animação mediana”, contextualiza.

Para Otto, também não é fácil fazer o que dizem ser o “feijão com arroz” das animações de grandes estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks: “Para chegar nessa fórmula, eles demoraram 100 anos, passando por várias tecnologias e gerações. 100 anos! Eles são geniais! Eu sigo tentando fazer esse feijão com arroz!”. Pensando em um panorama mundial, ele prefere não elencar os países que melhor produzem animações. “Cada lugar tem a sua cultura: existe tradição no leste europeu, o [Hayao] Miyazaki faz coisas lindas no Japão, os canadenses trabalham outra vertente e por aí vai… Mas, na verdade, é difícil falar sobre características porque todos os humanos copiam. Ninguém é original. Basta pensarmos na língua que falamos. Nem ela é nossa! Nós nos apropriamos dela!”.

O quarto de infância de um jovem guri velho

Encarando cada filme de animação que realiza como um filho diferente (“talvez fazendo essa comparação as pessoas entendam o quanto eles são importantes pra nós!”), Otto Guerra hoje pode dizer que o patamar alcançado pela animação brasileira nos últimos anos se mistura com a sua própria trajetória. Seu último longa-metragem, Até Que a Sbórnia nos Separe, além de ser exibido nos mais importantes festivais do gênero, como Annecy e Ottawa, teve uma exibição em Burbank, na Califórnia, na sala de cinema da Dreamworks, impressionando a plateia composta por profissionais com alto conhecimento na área. “Todos eles ficaram até o fim da sessão – o que é raro – e ainda vieram perguntar como chegamos naquele resultado! Mal sabem que nós nos inspiramos neles!”, se diverte.

Para um “jovem guri velho”, como o próprio Otto se intitula, todas essas conquistas não são apenas resultado de talento, trabalho e dedicação ao longo de mais de quatro décadas, mas, também, a pura e simples paixão de uma infância sem fim: “as crianças desenham por natureza, seja em papel ou na parede, mas param aos nove, dez anos de idade. Comigo foi diferente. Eu nunca parei. Pelo contrário: o estúdio em que eu trabalho é uma extensão do meu quarto de infância”.

Confira a filmografia dos filmes produzidos pela Otto Desenhos Animados:

2018 – A Cidade dos Piratas
2015 – Bruxarias
2014 – Castillo Y el Armado
2013 – A Pequena Vendedora de Fósforos
2013 – Até Que a Sbórnia nos Separe
2006 – Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock ‘n’ Roll
2004 – Nave Mãe
1997 – O Arraial
1994 – Rocky & Hudson
1992 – Novela
1989 – O Reino Azul
1986 – Treiler – A Última Tentativa
1985 – As Cobras
1984 – O Natal do Burrinho

Mulher-Maravilha

It’s about what you believe.

Direção: Patty Jenkins

Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história dele próprio com Jason Fuchs e Zack Snyder e na personagem criada por William Moulton Marston

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, David Thewlis, Elena Anaya, Robin Wright, Danny Huston, Connie Nielsen, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Lucy Davis, Lisa Loven Kongsli, Ann Ogbomo, Eugene Brave Rock

Wonder Woman, EUA, 2017, Aventura, 141 minutos

Sinopse: Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, Diana Prince (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra. (Adoro Cinema)

Não deixe ninguém dizer o contrário: é importante e altamente gratificante que Mulher-Maravilha, um filme protagonizado e dirigido por mulheres a partir de uma história em quadrinhos, tenha finalmente chegado aos cinemas. Em tempos que a representatividade é pauta cada vez mais prioritária na indústria do entretenimento, a configuração do projeto se apresenta, no mínimo, como um reflexo histórico e pioneiro não apenas da evolução de um gênero mais dominado por homens do que a média, mas até mesmo do próprio cinema. Por outro lado, também é preciso achar um meio termo e ponderar muita coisa: ainda que catártico em sua representatividade, Mulher-Maravilha é, em termos criativos, um filme de super-herói como qualquer outro, inclusive no que se refere a problemas e vícios. A diretora Patty Jenkins, que não trabalhava com cinema desde 2003, quando fez Monster – Desejo Assassino, lapida e reajusta o que quase 100% dos homens faria, como objetificar a personagem a partir da forma como são capturados os detalhes do figurino, mas ainda está claramente de mãos atadas ao lidar com um filme dessa dimensão e com um estúdio que a obriga a usar a mesma paleta de cores dessaturadas de sempre e a infinidade de cenas de ação em slow motion que o diretor Zack Snyder tanto “consagrou” em suas adaptações de quadrinhos.

Totalmente independente do ponto de vista emocional e sexual, a protagonista Diana (Gal Gadot) acredita que os homens podem muito bem servir apenas para reprodução, trilhando o seu próprio caminho sem depender de ninguém. Seja em alto-mar ou entre os disparos de uma batalha de exército, ela é o que pode existir de mais simbólico para toda uma geração que precisa se ver representada na tela grande – e, nesse sentido, é inspirador observar crianças segurando hoje uma boneca da personagem com um orgulho inconsciente que, durante décadas, foi simplesmente impossível para gerações anteriores. É essa personagem forte que dá uma tônica diferenciada para Mulher-Maravilha, onde a israelense Gal Gadot, apesar de suas evidentes limitações como atriz dramática, defende a personagem à altura do que ela merece, respondendo tanto ao empenho físico exigido por um filme como esse quanto à personalidade decidida e tão fundamental para que a produção funcione em termos de representatividade. Fotogênica, Gadot também é estonteante com sua inegável beleza que, graças ao fato do filme ter uma mulher na cadeira de direção, jamais se torna uma muleta narrativa. Se a protagonista impressiona, não é por ser linda, mas por tudo que é e simboliza como uma figura feminina independente, algo que intimida quase todo homem hétero na vida real. É realmente importante que Diana esteja na tela dessa forma e chegando a tantas pessoas em nível mundial.

Obviamente é injusto aumentar as exigências em torno de um filme dessa natureza só por ele ser dirigido e protagonizado por mulheres, mas também é preciso reconhecer que não é por ele se configurar dessa maneira que seja deselegante falar sobre seus problemas, especialmente quando o roteiro não corresponde à relevância da produção como um todo. Escrito por Allan Heinberg, que nunca nunca havia trabalho com cinema e tem apenas séries populares de TV na bagagem (The O.C.Sex and the CityGrey’s Anatomy), Mulher-Maravilha começa muitíssimo bem ao encenar a vida da protagonista em uma ilha habitada apenas por Amazonas. Quando faz com que Diana saia de lá para desbravar uma Inglaterra em plena guerra com a Alemanha, a situação desanda, reforçando a ideia de que presença da personagem é muito maior do que o filme em si. Há algo de pouco instigante na relação entre o universo da heroína e a vida real, o que resulta ou em piadas datadas (Diana confundindo uma lingerie com uma perigosa armadilha e perguntando o que significa a palavra secretária é algo que já vimos centenas de vezes até em comédias desastrosas de Tim Burton como Sombras da Noite) ou em meras caricaturas, a exemplo do maquiavélico e unidimensional ditador alemão de sotaque pesadíssimo que precisa ser combatido. Ainda é um problema que o roteiro demore tanto para fazer a protagonista viver a sua própria história e não a do espião Steve Trevor (Chris Pine), que, lá pelo miolo do filme, ocupa um espaço bastante desproporcional em termos de tempo e destaque. Inexperiência por inexperiência em roteiros para o cinema, por que não dar essa chance também a uma mulher?

De ação limpa (Diana sequer sofre um arranhão em inúmeros confrontos violentos), clímax atrapalhado como o de quase todos os filmes de herói (é sempre a mesma megalomania onde os personagem precisam apresentar tudo que é tipo de poder e artimanha) e até motivações duvidosas (o que impulsiona a protagonista a arranjar forças para derrotar o grande vilão do filme pode muito bem ser interpretado como uma decisão machista do roteiro), Mulher-Maravilha volta a trazer a reflexão de que, sim, queremos histórias contadas e protagonizadas por mulheres, negros, gays e todo tipo de parcela da sociedade que a indústria subestima, não reconhece ou ignora. Da mesma maneira, queremos também histórias sofisticadas, diferentes, bem contadas, pois uma coisa não exclui a outra. Em maior e menor grau, tivemos excelentes exemplares recentes que comprovam como isso é possível (o feminismo ferrenho de Mad Max: Estrada da Fúria ou a completa catarse de Moonlight: Sob a Luz do Luar pelo menos em seus dois primeiros capítulos), enquanto Mulher-Maravilha fica no meio do caminho, acertando demais ao construir a força e a personalidade de uma personagem que já se torna marcante, mas perdendo muitos pontos no rasteiro conceito que emula de diversos outros filmes de herói. São problemas que surgem no vácuo? Não. A origem é clara: a diretora Patty Jenkins dançou conforme a música do estúdio, que já deve ter considerado a ideia de colocar uma mulher na direção algo suficientemente ousado para um produto dessa magnitude, o que deve explicar também a escolha de um homem inexperiente em cinema para escrever o roteiro. De qualquer forma, o primeiro passo importante foi dado. Por ora, celebremos!

Baywatch: S.O.S Malibu

I’m oceanic, motherfucker!

Direção: Seth Gordon

Roteiro: Damian Shannon e Mark Swift, baseado em história de David Ronn, Jay Scherick, Robert Ben Garant e Thomas Lennon, e na série criada por Douglas Schwartz, Gregory J. Bonann e Michael Berk

Elenco: Dwayne Johnson, Zac Efron, Priyanka Chopra, Alexandra Daddario, Kelly Rohrbach, Ilfenesh Hadera,  Jon Bass, Yahya Abdul-Mateen II, Hannibal Buress, Rob Huebel, Amin Joseph, Jack Kesy

Baywatch, EUA, 2017, Comédia, 116 minutos

Sinopse: Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) é um devoto salva-vidas, orgulhoso do seu trabalho. Enquanto está treinando o novo e exibido recruta Matt Brody (Zac Efron), os dois descobrem uma conspiração criminosa no local que pode ameaçar o futuro da baía. (Adoro Cinema)

Quer provocar polêmica em uma conversa sobre cinema? Então é só propor uma discussão sobre comédias para o assunto se tornar repleto de discordâncias e debates inconclusivos. Por ser algo muito particular, o humor é imediatamente decisivo na hora de julgar um filme do gênero. Ou vai dizer que é tarefa fácil desassociar o que você acha engraçado daquilo que uma comédia de pegada oposta propõe? Há, por exemplo, quem ache As Branquelas um guilty pleasure divertidíssimo enquanto meio mundo considera uma tremenda bobagem de mau gosto. Tem também que julgue um absurdo gostar de seriados como The OfficeExtras ou Getting On por eles rirem de coisas sérias como terceira idade, deficiência e homossexualidade, sendo que, na realidade, podem ser considerados até corajosos pelo humor politicamente incorreto. Já comédias como Baywatch: S.O.S. Malibu chegam ao cinema cercadas de preconceitos: afinal, será mesmo que algo de bom pode sair de um besteirol com homens que parecem praticar halterofilismo em seu maior grau, mulheres que desfilam na praia com maiôs cavadíssimos e brincadeiras envolvendo ereções, pelos pubianos e líquidos expelidos por cadáveres? A lógica da identificação com o humor se aplica aqui: quase nada é engraçado ou digno de reconhecimento em Baywatch se você não consegue rir do que está na tela, mas, na realidade, o problema se revela mais amplo, já que é muito tortuosa a forma com que o diretor Seth Gordon tenta construir alguma graça para o filme.

A crítica Isabela Boscov escreveu e dá perfeitamente para assinar embaixo: é preciso certo talento para fazer uma comédia ruim ao ponto de ela se tornar boa. Certamente não é o que acontece com Baywatch, que, no geral, é mesmo um besteirol, mas que frequentemente acredita envolver o espectador com uma trama de investigação quando, na verdade, ela é apenas desinteressante, ineficiente e enrolada. Ao invés de simplesmente deixar os personagens salva-vidas vivendo mil e uma besteiras na beira da praia, o filme prefere colocá-los como investigadores de um grande esquema de tráfico de drogas. Toda a função não é divertida porque o roteiro escrito pela dupla Damian Shannon e Mark Swift falha em tirar graça da investigação e prefere despertar algum tipo de curiosidade no espectador, como se alguém estivesse realmente interessado por aquela situação. Com isso, Baywatch se vê obrigado a tirar humor de qualquer outro lugar, e é exatamente aí que o filme se mostra incrivelmente frágil. O problema não é ter piada envolvendo sexo, ereções e vômitos, mas sim a inserção aleatória de cada uma dessas piadas. Sem talento para criar uma história divertida de tão absurda, a dupla de roteiristas resolve espalhar tudo que é tipo de situação constrangedora no filme para formar alguma identidade cômica. O resultado é um desastre: além do longa não se assumir como uma comédia de baixaria, sequer dá para dizer que ele debocha de si próprio ou se inspira na cafonice do seriado homônimo criado nos anos 1980 em que se baseia (e as participações rapidíssimas de Pamela Anderson e David Hasselhoff sequer imprimem alguma nostalgia, reforçando o espírito mal resolvido do filme).

Uma bela solução para comédias problemáticas como Baywatch pode ser a escolha de um elenco afiado e em plena sintonia para amortecer a situação. E não é errada a ideia de escalar Zac Efron para o papel do jovem gostoso, acéfalo e cheio de si, mas o ator há muito tempo deixou de ter qualquer carisma, preocupando-se apenas em ter braços cada vez mais estourados para aparecer descamisado em comédias que parecem todas iguais. Limitadíssimo, Zac não impressiona nem com atributos físicos (sua forma muscular já é desproporcional, quase ao ponto de deformá-lo e engessá-lo), abrindo espaço para que Dwayne Johnson, também interpretando a si mesmo como o brutamontes fitness de sempre, seja o responsável por dar leveza à história, muito pela brincadeira que seu personagem adota ao nunca chamar o Matt Brody de Zac Efron pelo nome, e sim por referências envolvendo sucessos teens como o próprio High School Musical estrelado por Efron. De resto, as meninas de decotes protuberantes fazem um esforço danado para completar qualquer frase, enquanto entre os coadjuvantes ainda há espaço para o gordinho cujas piadas envolvem apenas o tamanho de seu corpo e o fato de ele, um garoto que o roteiro trata escancaradamente como uma figura nada desejável frente aos corpos “esculturais” da praia, desejar a mulher mais linda da vizinhança – e é fácil deduzir como essa paixão aparentemente impossível irá se desenrolar. Após a onda de críticas negativas, Dwayne Johnson saiu na defensiva e disse que esse não é um filme para “críticos”. Pois bem, será, então, que o grande público soube apreciar devidamente a experiência? Não deixem de me contar.