No calor do momento, o que podemos concluir sobre o Oscar de “Melhor Filme Popular”?

Foi anunciado há pouco pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a partir de 2019, o Oscar terá a categoria de “Melhor Filme Popular”. Ao contrário do que a Academia pensa, estamos falando de um enorme desserviço, já que segmentar não é necessariamente um mérito. Os documentários e as animações estão aí para provar, pois praticamente nunca são lembrados nas ditas categorias principais. E por que não são? Ora, não há razão para indicá-los em “Melhor Filme” já que eles têm categorias próprias para concorrer. É por isso que a mudança se revela uma baita bola fora: ao criar a categoria de “Melhor Filme Popular”, o Oscar diz, nas entrelinhas, que blockbusters como Pantera Negra, por exemplo, não devem ser levados tão a sério quanto A Forma da Água ou Moonlight, citando os vencedores recentes da honraria máxima.
A mudança reflete, claro, o próprio diagnóstico que a Academia deve ter feito de seu histórico recente. E vamos muito além do fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas ter sido ignorado na categoria principal em 2009. Mesmo ampliando o número de indicados em melhor filme, tal escolha mais diluiu a reputação do prêmio do que necessariamente aprimorou a disputa. Afinal, dois casos que corroboram essa afirmação ainda estão muito vivos na memória: Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria. Ambos faturaram sete e seis estatuetas respectivamente, mas não levaram para casa o título de “Melhor Filme”. No caso de Gravidade, o prêmio foi para 12 Anos de Escravidão, vencedor apenas nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Já com Mad Max, a situação piora: Spotlight, vencedor daquele ano, conquistou somente o prêmio de melhor roteiro original. Como não encarar tal cenário, afeito aos “projetos sérios”, como puro preconceito com o cinema de alta repercussão popular?
O diagnóstico certamente foi feito, mas a solução é um equívoco. Não à toa, você já deve ter ouvido que animação não é cinema. Agora, futuramente, também correrá o risco de ouvir que filmes populares também não são. Com a maturidade de um MTV Movie Awards, a Academia não observa o próprio Globo de Ouro, que há décadas coloca as comédias em um cantinho à parte, decisão que inferioriza o gênero e rende indicações preguiçosas ou de gosto duvidoso, provando que o prêmio realmente não dá mesmo muita bola para esse segmento. Com tantas novas categorias para serem criadas (alô, melhor elenco!), o Oscar opta não pela inovação, mas por um caminho fácil, antiquado e que há muito tempo já se provou tão ineficiente quanto problemático em ideias. Para completar, a Academia ainda anunciou a decisão de apresentar os vencedores de determinadas categorias (a serem definidas) durante os comerciais, exibindo a entrega dessas estatuetas mais tarde na cerimônia, com os momentos já gravados e editados. Talvez ainda seja cedo para avaliar o real efeito, mas tudo isso não parece nada favorável. E, vocês, o que acham?
Os vencedores do Oscar 2018

Depois de Alfonso Cuarón e Alejandro González-Iñárritu, outro diretor mexicano conquista o Oscar: Guillermo Del Toro é o grande vencedor da cerimônia em 2018 com A Forma da Água, vencedor em quatro categorias, incluindo melhor filme.
Seguindo a linha de todas as outras premiações, o Oscar 2018 consagrou, no geral, todos os favoritos até então ou, ao menos, aqueles que eram considerados alternativas. Foi o ponto final esperado para uma temporada que, apesar da diversidade em qualidade e estilo de seus indicados, em nenhum momento chegou perto de ousar, seja nas categorias principais ou nas técnicas. Vejam bem, não falo da surpresa pela surpresa e sim da capacidade de pensar diferente em uma lista que claramente permitiria isso. Com quatro vitórias, incluindo filme e direção, A Forma da Água confirmou o seu favoritismo como melhor filme, principalmente porque, lá pelo meio da cerimônia, Três Anúncios Para Um Crime perdeu a categoria de roteiro original para Corra! (era sua única esperança de um triunfo maior, visto que não concorria em direção).
Com a celebração de A Forma da Água, a teoria de que o filme mais apaziguador reina no Oscar novamente se confirma. No entanto, não vale reduzir o filme de Del Toro a essa estatística: é super importante (e cinematograficamente justo) que cada vez mais sejam celebradas obras onde os heróis são uma faxineira muda, uma faxineira negra, um artista gay e um cientista comunista, especialmente quando eles estão todos contra o homem branco, engravatado, elitista, autoritário e preconceituoso. Para uma cerimônia de 90 anos, faltou um espírito maior de celebração, mas, quando um diretor mexicano que a vida inteira fez carreira com histórias de cunho fantástico ganha o Oscar de melhor filme, só temos a comemorar. Confira a lista completa de vencedores:
MELHOR FILME: A Forma da Água
MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Me Chame Pelo Seu Nome
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Corra!
MELHOR TRILHA SONORA: A Forma da Água
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa)
MELHOR MONTAGEM: Dunkirk
MELHOR FOTOGRAFIA: Blade Runner 2049
MELHOR FIGURINO: Trama Fantasma
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Forma da Água
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: O Destino de Uma Nação
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Dunkirk
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Dunkirk
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Blade Runner 2049
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Uma Mulher Fantástica (Chile)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Ícaro
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Silent Child
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Heaven is a Traffic Jam on the 405
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Dear Basketball
Apostas para o Oscar 2018

A possibilidade de ter até nove indicados na categoria principal já proporciona por si só uma grande variedade de filmes, mas a renovação do corpo de votantes do Oscar feita pela ex-presidente Cheryl Boone Isacs no segundo semestre de 2016 já surte um efeito maior. Talvez nunca tenha existido na história da premiação uma seleção tão coerente com os nossos tempos: este ano, na categoria de melhor filme, tem obra dirigida por mulher, por negro, por mexicano, por italiano, e por aí vai, para não entrarmos apenas na questão de gêneros, que passa por drama, suspense, comédia, fantasia e guerra. Este é, enfim, o Oscar que reflete os estilos de cinema que vemos ao longo ano. Não há como negar essa linda vitória.
Com o quarteto de atores já com suas estatuetas praticamente em mãos (nem tente inventar qualquer surpresa para Frances McDormand, Gary Oldman, Allison Janney e Sam Rockwell), restam pouquíssimas disputas abertas. A maior é na categoria principal, que teria Três Anúncios Para Um Crime como soberano, caso o diretor Maruin McDonagh não tivesse ficado de fora da categoria de direção. É raríssimo um filme ganhar o Oscar na categoria principal sem indicação para seu diretor (Argo venceu anos atrás, mas o movimento reivindicando o esquecimento de Ben Affleck era infinitamente maior). Também existe o agravante do sistema de votação de melhor filme escolher a obra que, na escala de preferência dos votantes, alcançou a melhor média de aprovação. E Três Anúncios é ao mesmo tempo defendido e rejeitado com igual intensidade. Em tese, é caminho fácil para A Forma da Água, um longa mais apaziguador, faturar os dois grandes prêmios da noite.
Se a responsabilidade de escolher os vencedores estivesse nas minhas mãos, o cenário seria bastante diferente, mesmo gostando muito de sete dos nove indicados ao Oscar de melhor filme (uma estatística que tem sido compartilhada por muita gente e que acredito ser histórica desde que passaram a ser selecionadas até 10 obras para o prêmio principal). Não pensaria duas vezes antes de escolher Trama Fantasma como o melhor candidato de diversas categorias, incluindo melhor filme e direção. Já entre os atores, torcida total Sally Hawkins (A Forma da Água), Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma), Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar) e Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo). As categorias restantes vocês podem conferir abaixo junto à minha lista de apostas.
Antes de assistir à cerimônia de 90 anos do Oscar, reforço o convite que todos participem da nossa live no Facebook. É a partir das 20h com comentários sobre favoritos nas categorias de filme e direção, além das categorias técnicas (os atores já foram comentadas em outras transmissões que seguem disponíveis na página). Lembrando que o Oscar 2018 será transmitido aqui no Brasil pela TNT a partir das 22h. A apresentação é de Jimmy Kimmel. Quem quiser relembrar a lista de indicados basta clicar aqui.
MELHOR FILME: A Forma da Água / alt: Três Anúncios Para Um Crime
Meu voto: Trama Fantasma
MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água) / alt: Jordan Peele (Corra!)
Meu voto: Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime) / alt: Sally Hawkins (A Forma da Água)
Meu voto: Sally Hawkins (A Forma da Água)
MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação) / alt: Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Meu voto: Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya) / alt: Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
Meu voto: Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime) / alt: Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Meu voto: Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Três Anúncios Para Um Crime / alt: Corra!
Meu voto: Lady Bird: A Hora de Voar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Me Chame Pelo Seu Nome / alt: Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi
Meu voto: Me Chame Pelo Seu Nome
MELHOR FOTOGRAFIA: Blade Runner 2049 / alt: A Forma da Água
Meu voto: Blade Runner 2049
MELHOR FIGURINO: Trama Fantasma / alt: A Bela e a Fera
Meu voto: Trama Fantasma
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Dunkirk / alt: Em Ritmo de Fuga
Meu voto: Dunkirk
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Dunkirk / alt: Em Ritmo de Fuga
Meu voto: Dunkirk
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Blade Runner 2049 / alt: Planeta dos Macacos: A Guerra
Meu voto: Blade Runner 2049
MELHOR TRILHA SONORA: A Forma da Água / alt: Dunkirk
Meu voto: Trama Fantasma
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Forma da Água / alt: Blade Runner 2049
Meu voto: Blade Runner 2049
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa) / alt: “This is Me” (O Rei do Show)
Meu voto: “Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Sem Amor (Rússia) / alt: Uma Mulher Fantástica (Chile)
Meu voto: Sem Amor (Rússia)
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa / alt: Com Amor, Van Gogh
Meu voto: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Visages, Villages / alt: Últimos Homens em Aleppo
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Silent Child / alt: DeKalb Elementary
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Lou / alt: Garden Party
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Edith+Eddie / alt: Heroin(e)
Cinema e Argumento comenta o Oscar 2018 com programação especial em vídeo

Lives do blog sobre o Oscar 2018 será comandada pelo editor Matheus Pannebecker, com a participação da jornalista Lou Cardoso. Foto: Bianca Carneiro.
Como forma de aquecimento para o Oscar 2018, que acontece no próximo domingo, 4 de março, o Cinema e Argumento realizará uma série de transmissões ao vivo na página do blog no Facebook para fazer suas avaliações e apostas para a festa mais aguardada e disputada do cinema mundial.
De sexta-feira até domingo, o editor Matheus Pannebecker estará acompanhado da jornalista Lou Cardoso, autora do blog Cine Lou e repórter do jornal Correio do Povo, para comentar as categorias principais da premiação. O cinéfilo Acauã Brondani também faz participações especiais na programação.
Lembrando que, nesta temporada, o Cinema e Argumento já realizou duas lives comentando todos os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar. Com as próximas três transmissões, o blog contabilizará mais de cinco horas de produção de conteúdo em vídeo sobre a cerimônia. Todas as transmissões ficam arquivadas na página.
Confira abaixo as informações sobre a programação que começa hoje no Facebook:
- SEXTA-FEIRA, 2 de março, às 20h: atores protagonistas e coadjuvantes
- SÁBADO, 3 de março, às 20h: atrizes protagonistas e coadjuvantes
- DOMINGO, 4 de março, às 20h: filmes, direção e apostas técnicas
