Cinema e Argumento

A trilha sonora de… Tão Forte e Tão Perto

Só existe uma razão para Alexandre Desplat não ter emplacado uma indicação sequer ao Oscar 2012: a enorme quantidade de trilhas que apresentou. Tudo Pelo Poder, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2A Árvore da Vida são apenas alguns exemplos. Mas, sejamos sinceros, se John Williams conseguiu dupla indicação (o que podemos considerar um exagero), por que não fizeram o mesmo com Desplat? Seria muito mais justo. De todas as trilhas apresentadas pelo francês que eram elegíveis ao Oscar, a melhor, sem dúvida, é a de Tão Forte e Tão Perto, que, facilmente, entra para as melhores já feitas por ele.

Não importa se o longa de Stephen Daldry dividiu opiniões. Independente de ser bom ou não (o que será discutido posteriormente aqui no blog), a trilha de Desplat consegue se destacar. Se dentro do filme ela funciona, fora consegue deixar uma impressão ainda mais positiva. O que temos no álbum de Tão Forte e Tão Perto é um momento raro na carreira do francês: aqui, ele realiza uma trilha quase que inteiramente baseada em piano. Jean-Yves Thibauted (que já trabalhou com o premiado Dario Marianelli) interpreta com perfeição as composições de Desplat, que fazem um magnífico trabalho com o instrumento.

A composição-tema, que abre o álbum, é apenas uma prévia do maravilhoso trabalho que Desplat apresenta ao longo de 18 faixas – onde até mesmo as mais compridas, como The Swings of Central ParkThe Worst DayThe Sixth Borough nunca perdem o ritmo. Inicialmente, a trilha de Tão Forte e Tão Perto estava a cargo do jovem Nico Muhly, que já havia feito parceria com o diretor Stephen Daldry em O Leitor. Muhly, no entanto, abandonou o projeto (chegou a deixar um trabalho inacabado), abrindo espaço de última hora para Desplat. Não sei se ele estava fazendo um trabalho decepcionante, mas, ao ouvir o álbum de Tão Forte e Tão Perto, dá para ficar feliz com a saída de Muhly, uma vez que Desplat conseguiu um resultado digno de aplausos.

1. Extremely Loud & Incredibly Close

2. The Sixth Borough

3. Piano Lesson With Grandma

4. The Very Best Plan

5. The Worst Day

6. Mother and Son

7. Visiting the Blacks

8. The Phone Call

9. Oskar’s Monologue

10. Oxymorons

11. The Renter’s Story

12. The Key

13. Nothing Fits

14. Listening to the Messages

15. The Renter Leaves

16. William Black’s Story

17. Reconciliation

18. The Swings of Central Park

A trilha sonora de… W.E.

Direito de Amar, além de ser um filme impressionante, revelou um grande compositor. No trabalho de estreia do estilista Tom Ford atrás das câmeras, o polonês Abel Korzeniowski, junto com as composições adicionais de Shimgeru Umbayashi, entregou uma trilha digna de figurar entre as melhores do cinema contemporâneo. O que Abel, absurdamente ignorado pelo Oscar, realizou em Direito de Amar era de cair o queixo. Por isso, as expectativas para seu próximo trabalho eram imensas. Uma surpresa, portanto, vê-lo envolvido em W.E., o fracassado filme de Madonna que, até agora, só foi bombardeado pela crítica. É maravilhoso constatar, no entanto, que os erros da cantora pop na direção não afetaram em nada o trabalho de Korzeniowski, que realiza mais um trabalho excepcional – recentemente agraciado com uma merecidíssima indicação ao Globo de Ouro (a segunda do compositor).

W.E. vem para confirmar Abel Korzeniowski como um grande talento. Na trilha sonora, temos uma sonoridade com jeito de clássica, bem ao estilo de Direito de Amar. Fácil, inclusive, constatar a semelhança entre algumas faixas – aqui, Fight (possivelmente, a melhor do álbum) lembra bastante Swimming. Apesar de parecidas em vários aspectos, cada trilha tem sua personalidade. Por isso mesmo, belas composições como Six Hours e Duchess of Windsor nunca parecem cópias. Korzeniowski, ainda que crie passagens desnecessárias (são cinco faixas com menos de um minuto que pouco acrescentam), realiza mais um trabalho que vale a pena sempre ser ouvido. W.E., como já dito, pode até ser o desastre que muitos apontam – mas, em nenhum momento, devem dizer que a trilha teve qualquer parcela de culpa nisso. Korzeniowski, mais uma vez, foi estupendo.

1. Six Hours
2. Duchess of Windsor
3. Umbrellas
4. Drive to Belvedere
5. Revolving Door
6. Impotency
7. Security Office 1
8. Charm/Cartier Montage
9. Diner
10. I Will Follow You – Part 1
11. I Will Follow You – Part 2
12. Security Office/Kilt
13. Evgeni Date 1
14. Evgeni Date 2
15. Auction 1
16. Auction 2
17. Fight
18. Abdication
19. Evgeni Runs
20. Apartment
21. Brooklyn Faces
22. Typewriter
23. Satin Birds – Part 1
24. Satin Birds – Part 2
25. Letters
25. Paris Walk
26. Park

A trilha sonora de… A Dama de Ferro

Thomas Newman é um grande compositor e, assim como Alexandre Desplat, Philip Glass, Clint Mansell e James Newton Howard, um verdadeiro injustiçado por nunca ter vencido um Oscar sequer. Dono de grandes trabalhos como Beleza Americana ou, então, Angels in America (sua obra-prima), Newman é o compositor de dois filmes que terão certo destaque na próxima temporada de premiações. O primeiro é Histórias Cruzadas, com Emma Stone e Viola Davis. O segundo é A Dama de Ferro, cinebiografia de Margaret Thatcher estrelada por uma das favoritas ao Oscar de melhor atriz (mais uma vez), Meryl Streep. A boa notícia é que, dessa vez, o compositor está longe de apresentar a reciclagem que ouvimos em Foi Apenas Um Sonho, por exemplo. Seu trabalho no filme de Phyllida Lloyd é bem acima da média.

O esperado para um longa como A Dama de Ferro seria uma trilha que remetesse ao trabalho que Alexandre Desplat apresentou em A Rainha ou em O Discurso do Rei. Ou seja, algo mais clássico e previsível (não que isso signifique algo ruim), seguindo o padrão de filmes sobre a realeza/política britânica. E, verdade, Newman, em diversos momentos, entrega-se a esse comodismo, como em The Great in Great Britain e Discord and Harmony (ainda que seja uma faixa bem orquestrada). Só que, na medida em que escutamos a trilha de A Dama de Ferro, percebemos que o compositor tomou várias liberdades, não limitando o álbum a apenas um estilo. Podemos encontrar muitas variações, desde ecos de Desplat até sonoridades que não se parecem com as de um filme desse estilo (o que não é preocupante aqui, mas, se mal utilizadas no filme, podem trazer resultado negativo).

Thomas Newman, então, cria uma trilha que apresenta sim aspectos previsíveis, mas que aqui ou ali, apresenta momentos que podemos chamar de inspirados. Se Swing Parliament é quase a mesma durante todo o tempo para depois tomar ritmo mais frenético em seus momentos finais, outras como Steady the Buffs (com um ótimo uso de violino) e Comunnity Charge já preferem apostar no diferencial. A Dama de Ferro, portanto, pode se considerar um filme bem sucedido no setor de trilha sonora, já que, Newman, ao misturar fatores clássicos com outros mais inovadores para o gênero, consegue um resultado que não cai na mesmice. Em um ano de grandes compositores (John Williams com Cavalo de Guerra, Howard Shore com Hugo e Abel Korzeniowski com W.E.) não seria nenhuma injustiça ver Thomas Newman sendo lembrado por este trabalho. Se Desplat foi por O Discurso do Rei, por que não Newman?

1. Soliders Of The Queen
2. MT
3. Grocer’s Daughter
4. Grand Hotel
5. Swing Parliament
6. Eyelash
7. Shall We Dance? (From “The King & I”)
8. Denis
9. The Great in Great Britian
10. Aire Neave
11. Discord and Harmony
12. The Twins
13. Nation of Shopkeepers
14. Fiscal Responsibility
15. Crisis of Confidence
16. Community Charge
17. Casta Diva (From “Norma”)
18. The Difficult Decisions
19. Exclusion Zone
20. Statecraft
21. Steady the Buffs
22. Prelude No. 1 in C major, BWV 846

As melhores composições de 2011

Alberto Iglesias – El Cigarral (A Pele Que Habito)

Alberto Iglesias – Los Vestidos Desgarrados (A Pele Que Habito)

Alexandre Desplat – The King’s Speech (O Discurso do Rei)

Alexandre Desplat – Lily’s Theme (Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2)

Alexandre Desplat – Statues (Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2)

Alexandre Desplat – River (A Árvore da Vida)

Carter Burwell – Mildred Pierce Opening Titles (Mildred Pierce / TV)

Carter Burwell – Mounting Monty (Mildred Pierce / TV)

Cliff Martinez – They’re Calling My Flight (Contágio)

Clint Mansell – Nina’s Dream (Cisne Negro)

Clint Mansell – Perfection (Cisne Negro)

Gustavo Santaolalla – Elegiac (Biutiful)

John Lunn – Downton Abbey (Downton Abbey / TV)

Sergey Yevtushenko – Romanze (A Última Estação)

Sergey Yevtushenko – Morning Song (A Última Estação)

Sergey Yevtushenko – The Last Station (A Última Estação)

Sylvain Chomet – Illusionist Finale (O Mágico)

O mágico piano de Philip Glass

Poucos minutos depois das nove horas da noite do dia 19 de setembro, um senhor vestido todo de preto entrou no palco do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, e arrancou aplausos da plateia. Ele, com jeito muito tímido, saudou a plateia com um “boa noite” em português. Era o músico norte-americano Philip Glass que, em sua terceira apresentação na capital gaúcha, mostrou o porquê de ser considerado um dos profissionais mais influentes de sua área. Ele falou em português a noite inteira, surpreendendo a plateia, e fez uma apresenteção de quase duas horas – excedendo a duração inicial programada para apenas 80 minutos.

Philip Glass, hoje com 74 anos, já transitou entre os mais variados cenários musicais: compôs para o teatro, criou óperas, dedicou-se a solos em piano, trabalhou para o cinema e já direcionou o seu talento para inúmeros instrumentos. O autor das espetaculares trilhas de As Horas (sua obra-prima definitiva) e Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, alcançou fãs incondicionais ao redor do mundo com obras extremamente íntimas e singulares em suas sonoridades. Se Einstein on the Beach é o seu trabalho mais aclamado, também não podemos deixar de citar passagens da carreira de Glass igualmente impressionantes, como o álbum Solo Piano.

Apresentando-se com o violinista Tim Fain, Philip Glass revelou que a obra selecionada para aquele momento era extremamente pessoal e que ele quase nunca se apresenta desta maneira. O evento teve alternância entre solos de piano e violino, para, depois, unir os dois instrumentos nos melhores momentos da apresentação: Music for The Screens e a recente Pendulum. Nas três divisões de Music for The Screens (onde podemos destacar a maravilhosa The French Lieutenant) e também na breve Pendulum, fica evidente a eficiente parceria de Glass e Fain.

A apresentação, que teve início mais do que marcante com a belíssima Metamorphosis Two (composição que serviu de inspiração para algumas das melodias da trilha de As Horas), foi um verdadeiro espetáculo para os apaixonados por música. Não só por ter como principal estrela Philip Glass, mas, também, por revelar o jovem Tim Fain, que já foi solista de várias orquestras do mundo tocando de Beethoven à Tchaikovsky. É uma dupla que faz o melhor com seus respectivos instrumentos, mostrando, claro, forte dedicação pela arte.

Aplaudidos fervorosamente, Glass e Fain retornaram ao palco duas vezes após o anúncio do final da apresentação. O veterano compositor, então, disse que o bis seria dividido entre ele e Fain. Enquanto o violinista tocou de forma impressionante uma parte de Einstein on the Beach (obra que é um verdadeiro desafio para se tocar em solo), Glass encerrou sua passagem por Porto Alegre com Opening, de Glassworks. Em qualquer momento da noite, o veterano compositor transpareceu sua paixão por música: fácil vê-lo tocando de olhos fechados, como se estivesse “sentindo” a música.

Glass, portanto, recebe pelo menos três agradecimentos. Primeiro, o da plateia, que estava visivelmente encantada. Segundo, o de Fain (numa escala de tempo, tem mais aparição que o próprio Glass, devido ao maior tempo dos solos de violino), que muito em breve deve seguir os passos de outro pupilo de Glass: Nico Muhly, que foi assistente do compositor em Notas Sobre Um Escândalo e, depois, fez sucesso e compôs a trilha de O Leitor. E, por último, o meu. As três horas de fila para conseguir ingresso valeram a pena. Obrigado, sr. Glass, por uma das noites mais incríveis da minha vida!

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