“O Animal Cordial” | Entrevista com a diretora Gabriela Amaral Almeida

“Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei)”.

Não foram poucas as vezes que comentei aqui no blog sobre a minha relação tortuosa com os filmes de terror/horror. O que mais me fascina no gênero é, justamente, o que o grande público não busca ou pelo menos não é tão explorado quanto deveria: histórias que utilizam a morte, o medo e a insanidade (entre tantas outras matérias-primas) para falar sobre questões emocionais inerentes aos seres humanos, mesmo que de forma extremada ou sanguinolenta. Gabriela Amaral Almeida, a diretora de O Animal Cordial, trabalha a partir dessa perspectiva: nos curtas que já dirigiu e, agora, em seu primeiro longa-metragem, Gabriela define seus personagens como um reflexo de atritos que ela própria enxerga no mundo, especialmente aqueles que incomodam e que, por uma série de razões, tornam-se tabus na sociedade. E O Animal Cordial está cheio de alegorias sobre atritos e tabus, abordagem que me levou de imediato ao centro desse filme que enxerga sangue, sexo e violência sem pudor algum (não à toa, a classificação indicativa nas salas brasileiras será 18 anos). O cenário? Um restaurante de São Paulo que, prestes a encerrar o expediente, é assaltado por dois homens. No entanto, Inácio (Murilo Benício), o dono do estabelecimento, decide que a situação não pode fugir do seu controle. Muito sobre o que achei do filme está na crítica publicada aqui no blog, mas o resto eu deixo a Gabriela, que gentilmente conversou comigo sobre o filme, contar para vocês na entrevista que reproduzo abaixo. Lembrando que O Animal Cordial chega aos cinemas brasileiros no dia 9 de agosto.

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Tomando como referência determinadas obras da tua carreira, é possível perceber uma certa preferência por temas e abordagens que “incomodam”, digamos assim. Em A Mão Que Afaga, por exemplo, temos a questão de uma mãe solteira e solitária que tenta fazer uma festa de aniversário para a filha. Já Vaca Profana, que conta com o teu roteiro, propõe uma importante discussão acerca do que é “feminino” e do chamado “instinto materno”. E agora temos O Animal Cordial, que segue essa mesma linha com temas muito mais amplos. O teu cinema é assim mesmo? Inclinado a tocar em assuntos necessários, muitas vezes renegados pela sociedade, e levantar reflexões sobre eles? Isso é proposital ou coincidência?

Os personagens que nascem dentro de mim carregam muitas das contradições humanas que eu mesma não sei resolver (nem nunca saberei). Todo personagem é uma espécie de tótem das questões caras a cada escritor, uma entidade que torna de alguma maneira palpável a matéria de que todos nós somos feitos. Nesse sentido, o que compõe meus tótens-personagens está intimamente relacionado com os atritos que eu vejo e/ou sinto no mundo. Muitos desses atritos incomodam porque, ao não serem discutidos no correr dos dias úteis da vida útil, tornam-se tabu; tabu é tudo aquilo que varremos para debaixo do tapete. A sujeira pode estar escondida, mas os calombos são visíveis sob esta tapeçaria a que chamamos de “vida funcional”. O que eu tento fazer na criação dos meus personagens é entrar em contato com esses calombos. Não é uma questão de escolha deliberada de tema – “vou escolher temas incômodos para conseguir este ou aquele efeito” –, mas de uma atração inconsciente por tudo que está à margem. Estamos sempre na margem em relação a algum centro – qualquer centro. Da minha margem, eu me pergunto: para onde vão as mães sem instinto materno? E o feminino que não se encaixa nos padrões ditados pela sociedade? Os pais que não gostam dos filhos, os filhos que não gostam dos pais, os homens que matam, as mulheres que matam: “all the lonely people, where do they all belong?”. As minhas criaturas (e histórias) vêm todas dos calombos do tapete.

Poucas vezes, pelo menos se tratando do cinema brasileiro recente que chega a festivais e grandes plateias, vi um filme tão forte e cru como O Animal Cordial, mesmo se tratando de obras de terror. Como é a relação do público brasileiro com esse gênero? Claro que há iniciativas importantes para a valorização dele, como é o caso do Fantaspoa, aqui em Porto Alegre, onde o teu filme foi premiado em duas categorias (direção e atriz), mas como é de fato essa relação com as plateias? Ainda existem tabus que precisam ser quebrados junto a elas? Ou o público está mais aberto?

O cinema de terror e/ou horror sempre terá vocação para ser marginal. Nestes filmes, se discute sobretudo a morte e/ou a possibilidade da morte – e a depender de como essa abordagem é feita dentro dos limites do(s) gênero(s), o resultado final pode ser um filme não exatamente agradável. Narciso acha feio o que não é espelho: é muito, muito difícil nos reconhecermos nas sombras de uma história própria. O público brasileiro ainda não se reconhece na mitologia do filme de horror/terror nacional porque, acho: (1) ela está em formação constante e sempre submissa à mitologia do horror/terror americana ou européia, e (2) nós não somos um povo que costuma revisar seus monstros e medos extremos (vide escravidão, vide Ditadura Militar – como sociedade, agimos como se esses momentos não tivessem existido). Os mitos são mais palatáveis e agradáveis do que os monstros, né?

A pergunta anterior me leva a outra: O Animal Cordial tem um elenco fantástico, todos em uma entrega absoluta, mas como foi o processo de vender a ideia de um filme como esse para cada um deles? O elenco abraçou o projeto desde o início, destemidos e livres exatamente como os vemos na tela?

O elenco desse filme é um verdadeiro presente. Todos embarcaram no projeto desde a primeira conversa, com uma entrega rara de se ver. Foi um mês de ensaios, leituras, trocas de correspondências, laboratórios, conversas – cada personagem é um planeta neste filme, e eu agradeço a cada ator que me ajudou na construção de suas atmosferas (além de agradecer especialmente ao meu amigo e diretor René Guerra, por ter dividido a preparação comigo). Cito um exemplo de colaboração com Irandhir Santos. Ao ler o roteiro, Irandhir me presenteou com uma memória de infância poderosa. Em Limoeiro, cidade no interior de Pernambuco onde ele havia nascido, havia um cozinheiro de buffets de festa (casamento, 15 anos, etc.) que se chamava Djair. Djair era gay, discriminado na cidadezinha, mas dono de uma personalidade forte que fez dele um cozinheiro reconhecido “na capital”. Devolvi essa memória para Iran em forma de cenas. Criei a partir do chão dele. Não há nada mais bonito que isso.

Uma favorita minha no elenco é a Luciana Paes, que já trabalhou contigo anteriormente e que também estará no teu próximo longa. Além da questão do talento, o que faz da Luciana uma atriz que te motiva a repetir essa parceria?

Luciana é meu doppelganger na vida. Já estamos muito perto de nos comunicarmos por telepatia (risos). É tão especial que eu desisti de teorizar. Ela está na minha cabeça e eu na dela. Uma atriz que amo, que me inspira e que vai comigo até a beira do abismo, sempre.

Chegando às discussões do filme propriamente ditas, dois assuntos me parecem centrais: a falência da masculinidade como a sociedade conhece/perpetua e o perigo de se apaixonar. Como foi o processo de trabalho desses dois temas no roteiro? A ideia de fazer O Animal Cordial veio da vontade de falar sobre eles?

Processos criativos são muito difíceis de explicar porque muitas coisas acontecem simultaneamente, sem ordem lógica. A fagulha da história foi um evento real: um restaurante que frequentávamos eu e Luana Demange (co-autora do argumento) havia sido assaltado. Começamos a nos questionar sobre os espaços de segurança na sociedade brasileira. De repente, estávamos emboladas na vontade de amor de Sara, uma garçonete servil e totalmente inconsciente de seus verdadeiros desejos. Inácio surge, acho, do modelo masculino de sucesso que é vendido a muitos, muitos homens brasileiros – dono de seu próprio negócio, casado, branco, heterossexual. A partir daí, foi uma questão de puxar os fios que sustentavam esses desejos todos que nos mantêm ora unidos, ora em guerra, na vida.

O terror que embrulha o estômago no filme não é o das violências físicas propriamente ditas, mas sim as emocionais: o corte de cabelo do personagem de Irandhir Santos, a maneira esnobe e elitista com que a personagem da Camila Morgado trata a garçonete do restaurante… Podemos dizer que O Animal Cordial é um filme subversivo também nesse sentido: em transferir para outros planos a verdadeira agressão?

Os personagens estão sós. É uma frase que repito para mim mesma, sempre, ao escrever uma história. Eles estão sós – e o narrador da história não tem o direito de impor nenhuma verdade que não saia deles mesmos. A verdadeira violência não é a violência anunciada pelo filme, mas aquela enfrentada no embate entre os personagens.

Tratando-se da parte técnica, O Animal Cordial é um filme muito sensorial: a trilha do Rafael Cavalcanti, por exemplo, já é impactante desde os créditos de abertura. A fotografia da Barbara Alvarez cria uma unidade ao mesmo tempo que oscila conforme o ambiente, o universo próprio de cada personagem… E por aí vai. Vindo de uma fã dos filmes de terror, o quanto a parte técnica influencia o que cada espectador sente em obras dessa natureza? Como foi trabalhar a concepção visual com toda a equipe?

O visual e o sonoro são as brechas onde o narrador-de-cinema e seus colaboradores se escondem para fazer a mágica acontecer. Para mim, quão mais escondida essa mágica estiver, melhor ela funciona. A fotografia, a direção de arte, a música, o desenho sonoro: tudo está subordinado às questões dramáticas dos personagens. Na hierarquia das camadas de um filme de gênero, sobretudo, o racional deve vir por último. Meu trabalho com Rafael Cavalcanti vem desde o roteiro, que ele acompanha desde as primeiras versões (ajuda muito sermos casados). A pesquisa de sonoridades e músicas começa nesse estágio e envereda pela montagem, da qual ele participa ativamente. O desenho de som, feito pelo Daniel Turini, foi fundamental para trazer o filme à vida (ele constrói cada ambiente sonoro dramaturgicamente, seguindo as curvas dos personagens e ações; é um colaborador preciosíssimo). Com Bárbara Álvarez, o que funciona para nós é explorar ao máximo os significados secretos de cada cena – e ir traduzindo isso em imagens.

Para encerrar, quais são três filmes bacanas para quem gostou de O Animal Cordial? E por quê?

– “Singapore Sling”, do grego Niko Nikolaids (1990) – um ensaio poético noir pornográfico sobre a relação de duas mulheres e um homem, ambientado numa mansão neo-gótica. É um filme único na forma como aborda os gêneros narrativos, que se alternam alucinadamente – e nunca, nunca de forma previsível.

– “Der Fan” (1982), do alemão Eckhart Schmidt – um filme de horror feito na Berlim ocidental de 1982, que narra a obssessão de uma adolescente por seu ídolo pop. É um filme gore sem uma gota de sangue. É alucinante ver a transformação desse feminino devoto num monstro, quando ela descobre que seu ídolo não é o que ela imaginava.

– “Uma Mulher Diferente”, do americano Robert Altman (1969) – no IMDB, aparece como drama. Mas é um filme de terror. Uma mulher rica e solitária se torna obcecada por um homem que ela abriga em sua casa, num dia chuvoso e frio. A interpretação de Sandy Dennis é das coisas mais frágeis e ameaçadoras que eu já vi.


+ SOBRE GABRIELA AMARAL ALMEIDA
É mestre em literatura e cinema de horror pela UFBA (Brasil), com especialização em roteiro pela Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV) de Cuba. Escreveu (e escreve) para outros diretores, como Walter Salles, Cao Hamburger e Sérgio Machado. Como diretora, realizou os curtas Náufragos (2010, co-dirigido com Matheus Rocha), Uma Primavera (2011), A Mão que Afaga (2012), Terno (2013, co-dirigido com Luana Demange) e Estátua (2014). O conjunto de seus curtas foi selecionado para mais de cem festivais nacionais e internacionais, tais como o Festival de Cinema de Brasília, o Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o Festival de Curtas de Nova York, dentre outros. São destaque os prêmios recebidos por algumas destas obras, como os prêmios de melhor roteiro, melhor atriz (para Luciana Paes) e prêmio da crítica no 45º Festival de Cinema de Brasília para A Mão que Afaga, e os prêmios de melhor atriz (para Maeve Jinkings) e melhor roteiro para Estátua!, no mesmo festival, dois anos depois. Com o seu projeto de longa-metragem A Sombra do Pai, foi selecionada para os laboratórios de Roteiro, Direção e Música e Desenho de Som do Sundance Institute. O projeto contou com a assessoria de Quentin Tarantino (Pulp Fiction), Marjane Satrapi (Persépolis), Robert Redford (Butch Cassidy and the Sundance Kid), dentre outros. Atualmente, trabalha no desenvolvimento de seu próximo longa-metragem, uma fábula de exorcismo (ainda sem título), a ser produzida também pela RT Features. Nos Estados Unidos, é agenciada pela WME.

Um comentário em ““O Animal Cordial” | Entrevista com a diretora Gabriela Amaral Almeida

  1. Eu não sou muito fã de filmes de suspense/terror, Matheus, mas te parabenizo pela ótima entrevista com a diretora de “O Animal Cordial”.

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