Cinema e Argumento

CLOSE 2013: Mostra Competitiva II

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva do CLOSE 2013 com o curta A Dama do Estácio

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva com o curta A Dama do Estácio

As expectativas foram atendidas e essa segunda parte da mostra competitiva do CLOSE 2013 manteve o nível da primeira, com curtas de temáticas e estilos bastante variados – alguns até polêmicos e outros com grandes atrizes (caso de A Dama do Estácio, com Fernanda Montenegro). Confira o que rolou hoje nessa programação, que incluiu dois documentários e três ficções:

FILME PARA POETA CEGO, de Gustavo Vinagre: É um dos curtas mais polêmicos desta mostra pela grande miscelânea de temas difíceis que se concentram na figura de seu protagonista, o poeta Glauco Mattoso. Cego, gay, masoquista e podólatra, ele abre sua vida sem qualquer receio para o diretor Gustavo Vinagre, que documenta tudo desprovido de preconceitos e ainda experimenta um pouco (vamos preservar maiores surpresas) da vida do personagem que retrata. E aí está a benção e a maldição de Filme Para Poeta Cego: ao mesmo tempo em que sua coragem de mostrar os fetiches de Mattoso é um dos pontos altos do curta, não são todos que vão entrar na história e comprar a difícil proposta do documentário. Claro que cinema varia de pessoa para pessoa, mas certos filmes parecem feitos para causar divisões. Esse, ao meu ver, é um deles.

A DAMA DO ESTÁCIO, de Eduardo Ades: Este curta é uma homenagem ao longa A Falecida, de Leon Hirszman, que trazia uma mulher obcecada pela ideia da morte e ansiosa para ter um enterro de luxo. A mesma premissa é basicamente seguida por A Dama do Estácio, também com Fernanda Montenegro, agora vivendo uma prostituta que está com a ideia fixa de que vai morrer e que deseja comprar logo seu caixão. O problema é que, fora a sempre gratificante presença dessa atriz singular, o curta nunca deixa devidamente clara a sua premissa. Os planos longos (e sem razões para tal), o resto do elenco fora de tom (incluindo Nelson Xavier) e a falta de força de momentos intimistas mostram que, se Fernanda Montenegro tem seus momentos, é por ela mesma, e não pelas chances de A Dama do Estácio, um dos curtas mais decepcionantes da mostra competitiva deste ano.

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL, de Bruno Gularte Barreto: O título pouco diz sobre o clima melancólico do curta. “Me deu uma saudade de tudo”, diz o protagonista, quando chega de surpresa para visitar a mãe durante a madrugada. E é exatamente sobre isso que Linda, Uma História Horrível fala: saudades, arrependimentos, distâncias… Fernando (Rafael Régoli) tenta se aproximar da mãe (Sandra Dani), mas uma barreira entre os dois (obviamente o fato do filho ser homossexual) impede que maiores conexões se estabeleçam. Ele quer falar, mas ela não quer ouvir, em um relato que é fiel a essa condição tão corriqueira para filhos gays. Em apenas uma conversa, milhões de assuntos abordados com a devida sobriedade e pesar. Ainda que não seja revolucionário em termos de estrutura ou conteúdo, Linda, Uma História Horrível, baseado em conto homônimo de Caio Fernando Abreu, é de uma sinceridade admirável. Simplesmente a vida como ela é. Precisa pedir mais?

O OLHO E O ZAROLHO, de René Guerra e Juliana Vicente: O diretor René Guerra está duplamente presente no CLOSE 2013: primeiro na mostra paralela com Quem Tem Medo de Cris Negão? e, agora, na mostra competitiva com O Olho e o Zarolho, onde compartilha o trabalho de direção com Juliana Vicente. Aqui, ele mostra o cotidiano de duas mulheres que, juntas, criam um filho que já frequenta a escola. Tudo está aparentemente bem, até que uma delas começa a se preocupar com o fato de os desenhos do pequeno serem todos pretos, sem qualquer cor. Essa preocupação desencadeará várias outras, onde a protagonista chegará a questionar se cumpre bem ou não o papel de mãe. Com uma pequena participação da sempre ótima Léa Garcia, O Olho e o Zarolho tem seu foco maior nessa dinâmica familiar e menos em questões envolvendo a sexualidade das mães – o que é sempre uma boa escolha. Com isso, o curta só ganha em contemporaneidade e originalidade.

GAROTAS DA MODA, de Tuca Siqueira: Poderia ser apenas um mero documentário sobre um grupo de cinco travestis e transsexuais, mas Garotas da Moda tem uma circunstância que dá um leve diferencial a esse curta de Tuca Siqueira: a geografia. As garotas do título não estão na cidade grande e sim em Goiana, cidade distante 62 km de Recife, onde, segundo elas, tudo é atrasado – até mesmo o novo cd da Beyoncé, que só chega depois do novo álbum do Belo. É atípico porque elas marcam seu território em uma cidade que, devido ao seu tamanha, tem o dobro de fofocas e preconceitos de uma capital. As garotas têm uma clientela para as suas costuras, são estrelas da parada gay de Goiana e, dadas as limitações de alguns receios, procuram se integrar como qualquer outra pessoa. Como relato, não existe nada de novo, mas as personagens chamam a atenção e conquistam com grande simpatia – o que, para um documentário, é sempre um ponto a favor.

CLOSE 2013: Mostra Competitiva I

Antes de Palavras mostra  como o auto-descobrimento de um garoto afeta diferentes pessoas em uma escola

Antes de Palavras mostra como o auto-descobrimento de um garoto afeta suas dinâmicas pessoais e escolares

A mostra competitiva do CLOSE 2013 começou hoje com uma interessante média de qualidade entre os curtas-metragens apresentados. Histórias jovens e documentários foram os destaques dessa primeira leva, que já deixa certa expectativa para o que iremos conferir amanhã com mais cinco curtas. Resta saber como o júri vai se comportar com produções e propostas bem diferentes e eficientes – cada uma ao seu modo. Abaixo, nossos comentários.

CODINOME BEIJA-FLOR, de Higor Rodrigues: Escapando de qualquer discurso didático sobre a AIDS, esse intenso curta fala sobre a doença com uma abordagem extremamente humana. Isso porque o diretor Higor Rodrigues selecionou casos extremamente atípicos para falar sobre o tema. Aqui, não vemos homossexuais falando sobre como é a vida pós-descoberta da AIDS, e sim héteros, das mais variadas idades e circunstâncias. Duas histórias particularmente impressionam: a de um jovem garoto que traiu a namorada com alguém com suspeita de AIDS e que não quer fazer o teste para saber se tem a doença e a de uma senhora que nunca considerou que alguém como ela (uma mulher de idade) pudesse estar nessa situação. Concorrente da mostra gaúcha do 41º Festival de Cinema de Gramado, Codinome Beija-Flor impacta não só por sua utilidade pública, mas por seu alto valor humano e pela admirável decisão do diretor de fazer algo completamente fora do convencional. Que o CLOSE faça justiça a esse curta bastante especial.

TREVAS, de Will Domingos: É um estilo que particularmente não me agrada: o de usar o “nada” para falar sobre solidões, silêncios e reflexões. A diretora Sofia Coppola já se perdeu muito nesse formato e dá para dizer que o diretor Will Domingos quase cai na mesma armadilha de mostrar nada ao falar sobre…  nada. A sinopse já acusa um filme introspectivo – “Dois visitantes chegam a uma cidade do interior. Juntos no mesmo lugar, alguns mergulhos solitários” -, mas o problema é a duração de Trevas: são 25 minutos longos e, ao meu ver, frequentemente redundantes. A dupla principal está muito à vontade, o clima interiorano é bem explorado e o curta em si tem uma boa ambientação, mas parece que falta história – o que está diretamente ligado ao frequente problema mencionado anteriormente. Mas, assim como muitos apontam Sofia Coppola como injustiçada por retratar histórias desse estilo, pode ser que Will Domingos também tenha tido uma parcela de incompreensão por minha parte nesse caso.

O PACOTE, de Rafael Aidar: Filme que se estrutura a partir de um segredo a ser revelado pelo protagonista, O Pacote se sai muito bem primeiro ao construir o clima para a chegada dessa revelação ao espectador e depois para que o próprio personagem entregue a verdade para a pessoa mais interessada em sabê-la na trama. O final otimista incomoda – não por ser feliz (até porque essa escolha chega a ser inspiradora), mas por ser abrupto demais para um curta tão calmo ao esmiuçar seus conflitos e desenvolver as relações entre os personagens. O Pacote também é jovem, dinâmico e, acima de tudo, parecido com a realidade: percebam como todos os atores, por exemplo, estão muito distantes dos rostos e corpos idealizados em uma Malhação da vida. Essa aproximação deles como tipos que nós conhecemos em nossas próprias vidas, bem como a naturalidade de cada um ao desenvolver figuras gays nem um pouco estereotipadas, ajuda O Pacote a se firmar como um relato envolvente e recompensador.

O MELHOR AMIGO, de Allan Deberton: Chega a ser até angustiante o relato do dia de um menino (Jesuíta Barbosa) que está veraneando com o seu melhor amigo. Angustiante no sentido de que o curta sabe explorar muito bem o sofrimento silencioso do protagonista, que é apaixonado pelo amigo heterossexual. Muito desse resultado se deve ao ótimo desempenho do jovem Jesuíta Barbosa – recentemente visto no ótimo Tatuagem -, que se reafirma como uma das grandes promessas de sua geração. O curta é basicamente sobre esse seu sentimento reprimido e a escolha é acertada, uma vez que o roteiro prefere se centrar mais na interpretação de Jesuíta do que propriamente em sucessões de cenas que evidenciem essa atração. Ponto para o jovem e ator e para O Melhor Amigo, que ainda tem momentos bastante intimistas (gosto especialmente da cena do brigadeiro) e uma conclusão que não faz questão de trazer soluções para tudo.

ANTES DE PALAVRAS, de Diego Carvalho Sá: Um curta que merece reconhecimento pela sensibilidade com que lida com diversos temas delicados, como a auto-descoberta de um garoto que até então se considerava heterossexual e a de uma menina que precisa processar o fato de que seu namorado não gosta exclusivamente do sexo feminino. Delicadeza é a palavra-chave de Antes de Palavras, que tem uma estrutura muito funcional (o foco se alterna entre os três personagens centrais) e momentos realmente especiais, como a última conversa entre os personagens vividos por Maurício Destri e Marcela Arnulf, ambos ótimos. A sequência que menos envolve, entretanto, é a de Dario (Henrique Larré), seja pela falta de novidades de sua storyline (comparado aos outros, é uma figura unidimensional) ou pelo próprio ator, que ainda parece repetir o seu papel de Os Famosos e os Duendes da Morte na hora de construir figuras introspectivas e de poucas palavras. Mas nada que tire a bela simplicidade do curta, que ainda encerra sua história no momento exato.

CLOSE 2013: Mostra Paralela II

André Stern é o protagonista de Algumas Mortes, o melhor curta do segundo dia da mostra paralela

André Stern é o protagonista de Algumas Mortes, o melhor curta do segundo dia da mostra paralela

Em comparação ao primeiro dia da mostra paralela, essa segunda sequência de curtas do mesmo mesmo segmento do CLOSE 2013 certamente se saiu melhor com produções mais interessantes e bem resolvidas em termos de narrativa e estética. Tivemos pelo menos um curta realmente admirável nesta segunda parte da mostra, além de outros estilos bem variados, do suspense ao documentário. Fiquem abaixo com breves comentários sobre as produções. E, a partir de amanhã, acompanhem nossa cobertura da mostra competitiva do Festival – que terá seus vencedores anunciados no próximo domingo (08).

ALGUMAS MORTES, de Lucas Camargo de Barros: Pena que este curta esteja apenas na mostra paralela, quando merecia, sem dúvida, estar na competitiva. Pela sutileza e sobriedade com que trata de diversos temas e pela estética bem pensada (atenção para a fotografia nebulosa que diz muito sobre protagonista e para o excelente trabalho de som), Algumas Mortes conquista justamente porque é muito parecido com a vida real e também por ser de poucas palavras, distante da necessidade de ter que verbalizar e escancarar seus conflitos. A relação de um menino gay com a mãe, suas angústias próprias e os momentos introspectivos de dias reflexivos levam o espectador para dentro de um universo próximo da vida como a conhecemos. Tudo isso em meros dez minutos, onde menos é sinônimo de mais.

QUEM TEM MEDO DE CRIS NEGÃO?, de René Guerra: Nunca é fácil fazer um documentário sobre uma figura já falecida e relativamente desconhecida. Ela não está mais ali para que possamos investigá-la ou para estar, claro, presente na produção, dando ao espectador uma dimensão mais precisa de quem realmente é. Entretanto, Quem Tem Medo de Cris Negão?, sobre a última cafetina travesti da região da região da Amaral Gurgel, em São Paulo, consegue construir a imagem de sua personagem mesmo com todas essas supostas limitações. Ao longo de 25 minutos, conseguimos ter um panorama bem completo sobre a figura-título, já que todos os depoimentos selecionados pelo diretor René Guerra são categóricos para definir quem realmente era Cris Negão, aqui analisada por amigos e também por conhecidos que não estão ali necessariamente para saudar sua imagem. Não chega a ser inventivo como propõe nos primeiros minutos, mas cumpre sua função como documentário.

CARLITO, UM LUTADOR, de Luiz Cruz: Desta segunda e última leva de curtas da mostra paralela do CLOSE 2013, foi o curta que menos chamou a minha atenção. Mostrando o encontro de um sujeito que resolve ajudar Carlito, ex-boxeador que acaba de ser espancado na rua, o filme se concentra nesse encontro dois dois, onde ambos discutem fatos que evidenciam angústias, desejos e preconceitos. Mas a situação toda tem vários aspectos implausíveis (especialmente a parte em que o protagonista sai correndo do próprio apartamento deixando um estranho sozinho nele!), seja pelo desempenho dos atores ou pelas próprias tentativas dos diálogos de criar uma ponte entre os dois personagens com um confronto de personalidades bastante opostas.

FERIADO, de Alexander Siqueira: Existe uma linha muito tênue entre a paródia e o over. Linha essa que Feriado consegue mais ou menos equilibrar. Os exageros – sejam de interpretação ou da própria maneira como alguns personagens surgem estereotipados – se prestam a proposta desse curta de realizar um suspense/terror com protagonistas gays. O que limita Feriado é como a história em si não se sustentaria com o mesmo tom caso fosse encenada por heterossexuais. O velho final de semana em uma cabana isolada do mundo onde jovens bebem, riem e fazem sexo até algo misterioso começar a ameaçá-los já foi apresentado infinitas vezes, das mais variadas formas. Por isso, o resultado tem sua graça como paródia apenas por colocar garotos gays como protagonistas e não pela forma como se desenvolve ou se propõe a discutir algumas questões, que incluem, por exemplo, o velho debate de homossexualidade ser uma “opção” e uma lição de moral ao final que não combina com o clima do curta.

SOBRE A PELE E A PAREDE, de Laura Kleinpaul e Henrique Larré: São dois filmes dentro de um, o que reflete um resultado (problema?) muito frequente em filmes de direção compartilhada. De um lado, uma história jovem e pop, que chega quase a ter um tom de videoclipe. De outro, algo mais metafórico (claramente identificável com a tal caixa carregada pelo protagonista) e de complexidades. Visualmente interessante, Sobre a Pele e a Parede, para o meu gosto pessoal, ganha maiores pontos com o primeiro filme, especialmente nas cenas ambientadas dentro de uma festa e que dão o clima ideal a essa história de auto-descoberta. Já a outra proposta parece não casar muito com o curta dinâmico e contemporâneo que é dono dos melhores momentos. Tirando essas complexidades que soam mais como insistências indies em um contexto que poderia muito bem só ganhar sem elas, Sobre a Pele e a Parede é um curta envolvente sensorialmente.

CLOSE 2013: Mostra Paralela I

Karine Teles e Otto Jr. são os protagonistas de "Os Desconhecidos", baseado em conto de Caio Fernando Abreu

Karine Teles e Otto Jr. são os protagonistas de Os Desconhecidos, curta baseado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu

Começando ontem com a exibição de Sete Ondas Verdes Espumantes, fora de competição, o CLOSE 2013 agora dá início as suas tradicionais mostras paralelas e competitivas. O pontapé inicial foi dado hoje, no Museu dos Diretos Humanos do Mercosul, com a primeira leva de filmes da mostra paralela. Os curtas apresentaram uma grande variedade de temas: prostituição, sentimentos reprimidos, relacionamentos que deram errado e o que é considerado masculino ou feminino na infância. A qualidade dos curtas-metragens, no entanto, em sua maioria, não acompanha as propostas diferenciadas das histórias. Abaixo, breves comentários sobre a primeira noite da mostra paralela do CLOSE 2013.

VIDA FÁCIL – O INÍCIO, de Dimas Oliveira Junior: Curioso como esse curta se transforma ao longo de seus 24 minutos. No início, com uma narração em off, parece algo mais contemplativo. Logo, tudo indica que é um documentário. Até que, por fim, descobrimos que se trada de uma ficção sobre prostituição masculina. Intenções válidas e tudo mais, só que Vida Fácil – O Início deixa a impressão que é um trabalho de calouros de cinema – no pior sentido dessa comparação. Péssimas interpretações, transições mal executadas, enquadramentos amadores e resoluções clichês. Uma pena, pois o tema – que raramente tem uma abordagem masculina – merecia um curta melhor elaborado e menos novelesco e amador.

PRISMA, de Matheus Marco Moraes: A relação do que interiorizamos e exteriorizamos quanto aos nossos sentimentos é bem explorada por esse curta que basicamente é uma conversa em tempo real entre dois amigos. Um deles chama o outro para uma conversa a sós e, logo nos primeiros segundos, já percebemos o que está prestes a revelado. A forma como Prisma se inicia, com um segmento chamado Faces, dá a entender que o curta será uma viagem que fica entre o pretensioso e o contemplativo, mas basta começar o encontro entre os dois personagens para que o filme nos ganhe com a simplicidade e com a delicada situação que retrata. Apesar das tentativas, Prisma não chega a ser complexo ou mais elaborado, mas é eficiente quando se apoia pura e simplesmente no conflito sentimental que se propõe a retratar.

AMARELINHA, de Rafael Jardim: Um menino tenta jogar bola com seus amigos e não tem a menor desenvoltura para a atividade. Zombado por eles, acaba expulso do jogo e encontra consolo na figura de uma menina que joga amarelinha. E, com ela, ele é zombado novamente. Não é um curta cuja temática da sexualidade esteja necessariamente escancarada, mas basta parar para pensar na máxima que assombra a infância de que “meninos brincam com meninos e meninas brincam com meninas” (a sinopse de Amarelinha, diga-se de passagem) para que sua presença no CLOSE faça total sentido. Já sobre o curta em si, existe pouco a ser dito: a história é contada de forma linear, sem diálogos e com uma trilha exagerada que parece não casar com a proposta. Por sorte, é rápido, direto ao ponto e até instigante sensorialmente. Mas não passa disso.

OS SOBREVIVENTES, de Daniel Nolasco e Marcela Coppo: Caio e Jane tentaram. Durante anos. Mas não deram certo. Chegada a hora do adeus, tentam avaliar o que deu errado. E, na conversa, percebem que foi um pouco de tudo: sexualidade, excesso de intelectualidade, visões de mundo conflituosas… Os Sobreviventes, baseado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu, consegue fazer um bom panorama de todas essas questões que assolaram o casal durante anos. Questionamentos levantados de forma breve mas críveis (o da sexualidade é particularmente interessante). Só fica estranha mesmo a forma como os diretores e roteiristas preservaram a linguagem literária: muitas vezes, os protagonistas falam de forma muito elaborada, com um vocabulário que não se encaixa com a vida real. Assim, Os Sobreviventes nos tira um pouco do filme e parece mais um exercício para mostrar a intelectualidade de seus realizadores.

CALE-SE!, de Vlademir Gomes: A revelação final até que dá o tom e justifica a presença desse curta no CLOSE, mas, no geral, Cale-se! é raso e pouco envolvente. Tudo indica que seja a duração (são meros sete minutos para mostrar o teste de uma amizade em uma mesa de bar), mas a verdade é que o roteiro – que sabe-se lá porque reuniu quatro pessoas para escrever algo tão óbvio – pouco diz sobre as motivações dos personagens. Ao fim do curta, só sabemos que ambos são tipos extremos: de um lado, o homem casado que acha certo sair para farrear; de outro, o comportado e julgado como careta pelo amigo. A dinâmica entre os dois também é mal estabelecida e, por mais que o final justifique tantos conflitos até então sem razão aparente, o filme em si não se sustenta sem a revelação derradeira.

Tatuagem

O Moulin Rouge do subúrbio! A Broadway dos pobres! O Studio 54 da favela!

tatuagemposter

Direção: Hilton Lacerda

Roteiro: Hilton Lacerda

Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado, Ariclenes Barroso, Nash Laila, Arthur Canavarro, Clébia Souza, Erivaldo Oliveira, Mariah Texeira, Diego Salvador

Brasil, 2013, Drama, 118 minutos

Sinopse: Brasil, 1978. A ditadura militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas. Liderado por Clécio Wanderley, a trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, além de seu tradicional público de homossexuais, ensaiam resistência política a partir do deboche e da anarquia. A vida de Clécio muda ao conhecer Fininha, apelido do soldado Arlindo Araújo, 18 anos: um garoto do interior que presta serviço militar na capital. É esse encontro que estabelece a transformação de nosso filme para os dois universos. A aproximação cria uma marca que nos lança no futuro, como tatuagem: signo que carregamos junto com nossa história.

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“Por que não podemos ser mais despudorados? Não entendo como aquela escala evolutiva do século XX deu origem a tempos tão conservadores. Pensei que tudo isso fosse passado. É assustador ainda ter que discutir quem merece respeito ou não”. Hilton Lacerda, quando exibiu Tatuagem pela primeira vez, no 41º Festival de Cinema de Gramado, chegou apresentando seu filme exatamente assim: como uma ode à liberdade – seja ela sexual ou de qualquer forma de expressão – em uma época onde as produções televisivas e cinematográficas brasileiras estão cada vez mais caretas. Nunca tivemos tanta liberdade, mas a contracorrente também se mostra cada vez mais vigorosa. Por isso, é gratificante ver que Tatuagem, debut do diretor pernambucano em longas de ficção, dá esse grito contra o preconceito de forma bastante natural – e o melhor de tudo: sem sequer insinuar ser uma planejada panfletagem quadrada da causa LGBT. Sem preconceitos (claro!) e concessões, o filme é aberto ao sexo, a toda forma de amor, ao exagero, às descobertas, ao espírito libertário. E, para construir esse retrato, tem como foco o fictício Chão de Estrelas, um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, onde um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas.

Tatuagem se estabelece não como um relato do amor proibido entre Clécio (Irandhir Santos), líder do Chão de Estrelas, e Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem soldado em plena ditadura militar, mas como um mosaico de várias figuras que viviam suas vidas como bem entendiam naqueles tempos. Hilton Lacerda fala sobre um grupo e não sobre uma época ou sobre personagens específicos. Com essa escolha, ele acerta em importantes aspectos, distribuindo muito bem temas e circunstâncias que, caso trabalhadas com foco demasiado, poderiam minar a o interesse pelo longa, como o contexto político (a ditadura é sempre discretamente pontuada com os questionamentos certos) e o romance entre Clécio e Fininha. Em termos narrativos, não existem excessos em Tatuagem, e isso pode ser considerado fruto da experiência de uma carreira conceituada de Lacerda como roteirista (ele tem no currículo filmes como Amarelo MangaFebre do Rato Baixio das Bestas). O mundo gay, as encenações teatrais e a dinâmica do elenco são extremamente críveis, ao passo que o diretor e roteirista também se sai admiravelmente bem ao desenvolver toda a questão sexual de seu filme. Poucas vezes no cinema recente vimos uma produção tão bem resolvida quanto ao seu gênero.

O mundo de Lacerda não está isento de previsibilidades (óbvio que não poderia faltar a figura do bullier no exército que, na realidade, é um curioso enrustido), mas a forma como ele aplica diferentes e interessantes personalidades a cada um dos personagens é consistente, principalmente quando a contextualização – seja da origem do comportamento deles ou da própria ditadura – não sufocam o espaço que cada figura tem para conquistar o espectador. E falar sobre os personagens nos leva, obviamente, ao excelente elenco de Tatuagem. O trio principal, especialmente, é um verdadeiro achado, com desempenhos minuciosos de Irandhir Santos (que, um dia, se o destino for justo, terá o mesmo reconhecimento de Wagner Moura por sua grande versatilidade), Jesuíta Barbosa (um iniciante para se acompanhar de perto, sempre à altura de seu parceiro de cena Irandhir) e Rodrigo García (impagável e com pleno domínio dos exageros de Paulete, personagem que mais explora caricaturas mas que também tem um momento super contido e especial). Excelência reconhecida: no 41º Festival de Cinema de Gramado, Irandhir chegou a levar o kikito de melhor ator, enquanto o filme foi eleito o grande vencedor da mostra competitiva, além de ganhar em outras categorias. Já no Festival do Rio, quem levou a melhor como ator foi Jesuíta.

Tatuagem, no entanto, não é um filme de ritmo dinâmico, justamente por ser mais um retrato do dia a dia de uma trupe do que um filme de reviravoltas ou acontecimentos, apostando em um tom mais pausado como forma de imersão naquele mundo. Infelizmente, a mesma lógica não é aplicada no desfecho, que, certamente, é o momento mais decepcionante de todos. Causa estranhamento a forma apressada com que Tatuagem se encerra. Além de não mostrar (literalmente) um fato que muda por completo a vida do Chão de Estrelas, o roteiro ainda se “livra” de um personagem sem o mínimo de carinho ou lógica por tudo aquilo que ele havia representado ao longo do filme. Tudo acontece às pressas, sem a calma que o filme adotava até então. Por isso, o discurso libertário ao final pode até ser bonito, mas os minutos derradeiros não fazem jus ao resultado como um todo. Desta forma, é fácil sair da sessão de Tatuagem com um forte sentimento de desapontamento, ainda que tais problemas não coloquem em xeque o que o filme havia conquistado até ali. O que faltou foi esse cuidado para dar a Tatuagem um final à altura de seu  discurso e de sua própria relevância, reforçando a sensação de que ele não merece ficar apenas no imaginário do público gay, mas também no de de todos que dizem abaixo ao preconceito.

FILME: 8.5

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