Refém da Paixão
I don’t think losing my father broke my mother’s heart but rather losing love itself.

Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, baseado no romance “Labor Day”, de Joyce Maynard
Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tom Lipinski, James Van Der Beek, J.K. Simmons, Maika Monroe, Tobey Maguire, Brooke Smith, Brighid Fleming, Alexie Gilmore, Lucas Hedges, Micah Fowler, Chandra Thomas
Labor Day, EUA, 2013, Drama, 111 minutos
Sinopse: É o final do verão, às vésperas do Dia do Trabalho na cidade de Holton Mills, New Hampshire. Henry (Gattlin Griffith), um garoto de 13 anos, tem poucos amigos, e passa o dia lendo, vendo televisão ou sonhando acordado com os belos corpos de suas colegas de escola. A única companhia de Henry é sua mãe, Adele (Kate Winslet), uma ex-dançarina divorciada há muito tempo. O garoto tenta integrar a nova família de sua mãe e agradar o padrasto, mas Adele tem um grave segredo que não lhe permite ser feliz. Mas tudo muda no Dia do Trabalho, quando Frank (Josh Brolin), um homem misterioso e ferido, aproxima-se de Henry e pede sua ajuda. (Adoro Cinema)

Desde que teve seu momento mais célebre com o ótimo Amor Sem Escalas, o diretor Jason Reitman tem visto sua carreira perder o grande prestígio conquistado com esta obra que sucedeu o também celebrado Juno. Recentemente, Jovens Adultos conseguiu a muito custo alguma repercussão devido ao desempenho de Charlize Theron, e agora esse Refém da Paixão passou praticamente despercebido pelas salas de cinema. As razões são bem claras: enquanto o filme estrelado por Theron tinha uma protagonista extremamente difícil, Refém da Paixão é cercado de estranhezas. Em sua mais nova investida, Jason Reitman faz uma mistura de gêneros que pode facilmente confundir o gosto do espectador. Entrando na lista de filmes que, por maiores os méritos, são quase impossíveis de ser recomendados por não ter um público definido, Refém da Paixão não é, mais do que nunca, uma experiência “certa” ou “errada”, mas sim um filme que varia imensamente de percepção de acordo com a plateia.
“Ela não perdeu um marido, ela perdeu o amor”, fala Henry (Gattlin Griffith) sobre sua mão logo nos primeiros minutos de projeção. Ele resume a condição de Adele (Kate Winslet), sua mãe, que vive isolada e quase sem sair de casa após uma dolorosa separação que posteriormente é melhor aprofundada com outros dramas. Ou seja, a princípio, Refém da Paixão parece um drama bem conduzido sobre como um filho assume as responsabilidades operacionais e emocionais da casa para cuidar de uma mãe completamente fragilizada. Mas logo o roteiro, escrito pelo próprio Reitman, baseado no romance Labor Day, de Joyce Maynard, introduz um suspense envolvendo um sequestrador. A tensão da situação se mistura com as fraquezas emocionais da protagonista apresentadas minutos antes e, aos poucos, o filme também começa a ganhar toques quase românticos quando passa a colocar Adele nas teias do irresistível charme e bom mocismo de Frank (Josh Brolin), que se revela um sujeito longe de ser necessariamente perigoso.
Misturando drama, suspense e romance, Refém da Paixão tem um foco que basicamente se estrutura a partir do ponto de vista do jovem Henry, que, assim como nós, tenta, de longe, compreender o que está sendo cultivado entre sua mãe e o bondoso sequestrador. E, assim como ele, ficamos confusos em diversos momentos. Primeiro, como aceitar a paixão de uma mulher sequestrada por seu sequestrador? Segundo, como torcer pelo casal, já que o homem, apesar de aparente bom pai e marido, foi preso por homicídio e fugiu da cadeia? Mas, bem como o garoto, aos poucos percebemos que é possível digerir toda a situação. E talvez seja justamente essa mistura de propostas e abordagens que tenha me fisgado, já que o filme de Reitman está longe de trilhar caminhos com respostas fáceis. Você pode dizer que Refém da Paixão é qualquer coisa, menos convencional em sua proposta.
Ainda em tempo, é errado definir a história exclusivamente como drama, suspense ou romance. Até porque, se fosse realmente dedicado a um desses gêneros, aí sim o resultado cairia no lugar comum. Particularmente, vejo essa multiplicidade de focos como um ganho para o filme, que traz uma sutil e eficiente tensão sexual no suspense, uma sensibilidade ao tratar o estado catatônico da protagonista que ainda sofre pela separação e vários acertos ao tratar da complicada relação de dependência entre mãe e filho – sendo este segundo obrigado a crescer mais rápido do que outros garotos de sua idade para tentar amenizar a infelicidade da mãe. Os flashbacks – outro artifício que mistura ainda mais a trama -, não são lá tão eficientes, em especial os que constroem o passado de Frank. No entanto, um deles se destaca de forma contundente e até emocionante: aquele que mostra o doloroso passado de Adele e a verdadeira razão que fez ela dar as costas para a vida.
Se a trilha de Rolfe Kent cria o ambiente certo e o elenco é mais do que acertado, com Kate Winslet voltando a fazer algo de relevante desde Mildred Pierce, Josh Brolin surpreendendo com um dos momentos mais completos de sua carreira (ele está sensual, perigoso e sensível ao mesmo tempo) e o jovem Gattlin Griffith despontando como um nome para se ficar de olho, o filme também não está isento de algumas bobeiras fáceis de serem percebidas. Dois casos saltam aos olhos: a menina que sabe praticamente tudo da vida amorosa e sexual dos adultos (uma personagem que verbaliza e explica mais do que deveria) e a óbvia investida do roteiro de complicar a vida dos personagens em momentos-chaves (óbvio que a polícia aparece na situação mais inconveniente e que o gerente do banco desconfia de uma determinada situação na hora mais inesperada, por exemplo). Entretanto, como um todo, o longa me pareceu muito bem resolvido em suas estranhezas e múltiplas abordagens. É provável que a história vá mais além do que deveria em seus momentos derradeiros, mas o saldo geral é positivo – ainda que seu fracasso com público, crítica e premiações seja perfeitamente compreensível.
Alabama Monroe

Direção: Felix Van Groeningen
Roteiro: Felix Van Groeningen e Carl Joos, com a colaboração de Charlotte Vandermeersch, baseado na peça “The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama”, de Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels
Elenco: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Nils De Caster, Robbie Cleiren, Bert Huysentruyt, Jan Bijvoet, Sofie Sente, Ruth Beeckmans, Jan Hammenecker, Blanka Heirman, Kirsten Pieters, Yves Degryse
The Broken Circle Breakdown, Bélgica, 2012, Drama, 111 minutos
Sinopse: Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) se apaixonam à primeira vista. Ele é um músico romântico e ela a realista dona de um estúdio de tatuagem. Apesar das diferenças, o relacionamento dá certo e eles têm uma filha, Maybelle (Nell Cattrysse). Aos seis anos, a menina fica gravemente doente e a família se desestabiliza. (Adoro Cinema)

Certos filmes, por mais cheio de méritos e bem realizados que sejam, são tão tristes que exigem um intenso preparo emocional do espectador. No cinema recente, o exemplar mais contundente neste sentido foi Namorados Para Sempre, uma viagem dolorosíssima – mas extremamente franca -, às estâncias mais turbulentas de um relacionamento amoroso. E se parecia quase impossível que um filme de estrutura semelhante fosse tão avassalador quanto ele pelo menos nos próximos anos, eis que surge esse Alabama Monroe, que segue basicamente a mesma linha de mostrar, com idas e vindas no tempo, a total desestruturação de uma paixão. Só que com uma diferença crucial: aqui, o casal vivido por Johan Heldenbergh e Veerle Baetens tem sua paixão abalada não apenas pelo tempo ou por diferenças que se afloram conforme vão se conhecendo melhor, mas também por uma infelicidade do destino que faz com que sua filha de seis anos passe por inúmeras rodadas de quimioterapia para tratar um câncer recém descoberto.
Indicado ao Oscar 2014 de melhor filme estrangeiro – representando a Bélgica -, Alabama Monroe já anula qualquer possibilidade de bons sentimentos envolvendo a história logo em seus primeiros minutos. Ao anunciar que a filha do casal terá que passar por vários tratamentos médicos agressivos que destruirão sua imunidade, o filme, quando começa a ir e voltar no tempo para mostrar os primeiros momentos do casal e suas alegrias juntos, instantaneamente se torna ainda mais triste. Não adianta: pouco importa se a conexão entre aquelas duas pessoas é natural e comovente, pois já sabemos que o futuro lhes reserva uma dor imensurável. Cada alegria de Alabama Monroe é, portanto, profundamente triste, o que demanda do espectador uma grande força para acompanhar essa viagem constantemente dolorosa. Na equação, adicione ainda um melancólico repertório folk (o casal dedica a vida à música), que é certeiro ao mexer gradativamente com os sentimentos da plateia.
As semelhanças estruturais com Namorados Para Sempre, entretanto, não são qualquer problema para este quarto longa-metragem do diretor Felix van Groeningen. Existe uma grande naturalidade em cada segundo de projeção, especialmente porque a história não se utiliza do câncer da garota para apelações (mesmo com várias sequências da pequena no hospital e sem cabelos). Mas é igualmente interessante o fato de Alabama Monroe ser menos sobre a doença da filha e mais sobre o arco dramático do casal, desde quando se conheceram em função da música até quando passaram a não aguentar mais os obstáculos impostos pela vida – a dois ou não. E tanto Johan Heldenbergh quanto Veerle Baetens são os rostos ideais para protagonizar essa história: ambos “gente como a gente” e nada idealizados. Mais importante ainda, são excelentes atores que transmitem cada dor e tristeza em um mergulho irrepreensível no universo de seus personagens.
Reservando algumas surpresas na forma como organiza os fatos, como a apresentação de acontecimentos mais cedo do que o esperado e outras reviravoltas que são reveladas aos poucos, Alabama Monroe é baseado na peça-musical The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama, o que explica o seu tom quase de bastidores e mais intimista nas várias sequências folk. Por sinal, as canções pouco a pouco se tornam cada vez mais melancólicas para a história deles – e quando, em uma apresentação, Didier (Heldenbergh) estende a mão para Elise (Baetens) sem receber a dela de volta, o filme mostra plena compreensão do quanto a música é peça fundamental para suas simbologias – muito mais do que deixa a entender em seus primeiros momentos. Sem falar, claro, do bônus de todas serem inseridas nos momentos mais adequados da trama. Porém, é válido repetir: mesmo que repleto de detalhes admiráveis, Alabama Monroe é um filme impiedoso em sua veracidade – e, acima de tudo, feito para ser assistido com grande preparo, pois seu efeito pode até ser emocionante, mas em um sentido devastador.
Noé
This is the end of everything!

Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Ari Handel e Darren Aronofsky
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Nick Nolte, Anthony Hopkins, Ray Winstone, Douglas Booth, Logan Lerman, Mark Margolis, Kevin Durand, Leo McHugh Carroll, Marton Csokas, Finn Wittrock
Noah, EUA, 2014, Drama, 138 minutos
Sinopse: Noé (Russell Crowe) vive com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros. Um dia, Noé recebe uma mensagem do Criador de que deve encontrar Matusalém (Anthony Hopkins). Durante o percurso ele acaba salvando a vida da jovem Ila (Emma Watson), que tem um ferimento grave na barriga. Ao encontrar Matusalém, Noé descobre que ele tem a tarefa de construir uma imensa arca, que abrigará os animais durante um dilúvio que acabará com a vida na Terra, de forma a que a visão do Criador possa ser, enfim, resgatada. (Adoro Cinema)

Despertava imensa curiosidade a assinatura do confiável Darren Aronofsky nesse projeto chamado Noé. Com uma carreira simplesmente impecável, o diretor finalmente se renderia ao cinema comercial em sua nova investida? Ou deixaria sua marca nessa história clássica da Bíblia trazendo discussões inteligentes e inovadoras? Digamos que Aronofsky investe um pouco em cada uma das duas opções. E, infelizmente, falha em todas as suas tentativas. Por ficar no meio do caminho entre um filme meramente de grande escala e uma produção mais reflexiva, o diretor não consegue dialogar com nenhum dos públicos. Os fãs de blockbusters não vão encontrar absolutamente nada de novo nessa vertente e quem é fã de outros trabalhos de Aronofsky como Réquiem Para Um Sonho e Cisne Negro sentirá que este é um projeto que está longe de explorar os inegáveis talentos do diretor.
Por que, então, ele quis contar essa história? Bom, particularmente, este me parece um grande mistério. Até porque Noé é contado de forma muito linear e previsível, sem qualquer inventividade digna de Aronofsky. Ok, você pode dizer que talvez o filme esteja sendo injustiçado por ser vítima do alto nível de seu realizador – que aqui não apresenta nada de singular-, mas a verdade é que mesmo que fosse comandado por um nome qualquer, Noé seria igualmente esquecível. Em suma, o principal problema do filme é não concentrar seus conflitos naquela que é a melhor parte da história: quando Noé (Russell Crowe) é tomado por uma fé cega e torna a vida dentro da arca já flutuante um verdadeiro pesadelo. Muitos assuntos interessantíssimos – e por que não ainda bastante atuais? -, são discutidos ali, sendo o mais importante deles, claro, o fanatismo e a crença exacerbada. Só que quando essa pauta surge em cena, o filme já deve estar em seu último terço e as tantas situações que se instalam deixam o ritmo corrido; e a profundidade, claro, quase inexistente.
Se antes disso Noé tivesse feito algo de relevante que justificasse tanta atenção para depois ter que finalizar tudo às pressas, a situação seria bem diferente. Porém, mais da metade do filme é desnecessariamente focada na construção da arca. Com essa preparação que mais serve para apenas introduzir personagens e conceitos do que de fato construir uma trama, Aronofsky – que escreve o roteiro em parceria com seu fiel colaborador Ari Handel -, deu margem para muitas bobagens, como os gigantes de pedra (inclusive com suas batalhas supostamente épicas), que dão um quê de Michael Bay ao filme, e às visões de Noé, nunca devidamente envolventes ou convincentes por conta do excesso de efeitos visuais. Por isso, quando o longa começa a ficar perto de construir verdadeiras complexidades ao colocar os personagens na arca em pleno mar, tudo se dissolve em uma parcela do filme que é abarrotada demais.
São poucos os aspectos de Noé que realmente impactam – e o maior deles é, sem dúvida, a trilha do sempre mestre Clint Mansell. Aronofsky quer de tudo um pouco e termina tendo quase nada de expressivo, com direito a algumas caricaturas (Anthony Hopkins parece o Mestre dos Magos da Caverna do Dragão e Nick Nolte não poupa no overacting como o vilão), discursos prontos (a cena final de Emma Watson com Russell Crowe) e mensagens atuais e válidas, mas que não precisavam ser verbalizadas pois já estavam perfeitamente compreensíveis nas simbologias do roteiro. São várias chances perdidas, e o cartaz, que remete muito ao horror que Rolland Emmerich passou a realizar nos últimos anos com filmes como 2012 também falha ao resumir o próprio filme: Noé, além de fraquíssimo em aprofundamentos dramáticos, também está longe de ser um blockbuster bobo mas divertido. O verdadeiro Aronofsky precisa logo voltar.
Entre Nós
Em 10 anos, nós teremos mudado o mundo? Ou o mundo terá nos mudado?

Direção: Paulo Morelli
Roteiro: Paulo Morelli
Elenco: Caio Blat, Carolina Dieckmann, Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, Martha Nowill, Júlio Andrade, Lee Taylor
Brasil, 2014, Drama, 100 minutos
Sinopse: Isolados numa casa de campo, jovens amigos decidem escrever e enterrar cartas destinadas a eles mesmos, para serem abertas dez anos depois. Porém, após uma tragédia ocorrida naquele mesmo dia, os amigos ficam dez anos sem se ver. Agora, este reencontro irá trazer à tona antigas paixões, novas frustrações e um segredo mal enterrado.

Em As Melhores Coisas do Mundo, filme de 2010 dirigido por Laís Bodanzky, um personagem diz, a certa altura, que não é impossível ser feliz depois que crescemos, só fica mais difícil. Mas se nesse filme a diretora pintava um retrato maduro mas ainda cheio de alegorias envolvendo crescer e as alegrias da adolescência, Entre Nós talvez ateste que a impossibilidade da felicidade na vida adulta seja algo cada vez mais concreto. Por isso, ao contrário do que sugere o material de publicidade, o filme de Paulo Morelli surpreende ao se esquivar de qualquer clichê ou até mesmo de amortecimentos comerciais para falar sobre a transição da adolescência para a vida adulta. Na história protagonizada por Caio Blat e excelente elenco, a visão de mundo de pessoas que um dia tiveram uma adolescência sonhadora e cheia de expectativas é melancólica e repleta de promessas não realizadas. O resultado dessa proposta é a produção mais franca sobre virar adulto que vimos pelo menos no cinema brasileiro recente. Nada de romances inspiradores, humor comercial ou dramas simplistas. Não. E o filme de Morelli pode até causar estranhamento ao adotar essa visão mais pé no chão.
Saudosista mas puxando muito mais para a melancolia, Entre Nós é um brinde à amizade. Entretanto, é um gole amargo. O roteiro escrito pelo diretor é enfático ao defender a ideia de que crescer é difícil, que nem todos os sonhos podem ser realizados e que a adolescência é possivelmente a única época bela de nossas vidas. Uma vez terminada e mal aproveitada, não há mais volta. “Em 10 anos, teremos mudado o mundo ou ele terá nos mudado?”, pergunta um personagem, ao escrever uma carta prestes a ser enterrada para que fosse aberta uma década depois. A resposta para a pergunta vem quando os amigos se reúnem para ler essas cartas escritas uma década atrás. E as conclusões tiradas por eles a partir delas são o registro oficial de vidas interrompidas não só por uma tragédia que os abalou anos antes, mas também por acomodações, sentimentos não verbalizados e atitudes nunca tomadas. Mas não se engane: tudo isso não é mérito apenas do texto. O próprio Morelli como diretor tem excelentes escolhas, especialmente ao conduzir o ótimo elenco. Ele dirige muito bem não só aqueles que já são sinônimos de talento (Caio Blat), mas também outros que pareciam nunca ser capazes de esbanjar discrição e sutileza (Carolina Dieckmann e Paulo Vilhena), além de nomes desconhecidos que chegam para roubar a cena, como Martha Nowill.
Para além dessa visão negativa (ou seria realista?) de como a vida pode cortar nossas asas, Entre Nós é certeiro na opção de ambientar sua história praticamente toda no hoje para mostrar ao espectador quem os personagens um dia foram. Sem ter que dedicar metade de seu filme ao passado ou ter que se utilizar de flashbacks, entendemos plenamente o que cada um passou entre os anos que os separam daquele último fim de semana que passaram juntos. O reencontro da turma é o suficiente para captarmos suas novas personalidades, conquistas e derrotas. O pouco material envolvendo a adolescência dos personagens e a ausência de cenas na transição dos anos não são empecilhos para o filme, já que Paulo Morelli consegue transmitir todo esse hiato por meio dos diálogos – o que é um belo atestado de seu talento como roteirista. Em certos momentos, Entre Nós quase descamba para o previsível e o novelesco (uma das últimas cenas de Blat na montanha fica perto de colocar tudo a perder) ou, então, aproxima-se de estereótipos, como o da personagem de Carolina Dieckmann, quase reduzida à esposa magoada que sofre em silêncio com cara de choro. Contudo, são – felizmente – momentos passageiros que não ofuscam a franqueza desse pequeno grande filme que mostra que, muitas vezes, a vida é simplesmente difícil. E que o cinema e a dramaticidade só têm a ganhar ao não escapar dessa verdade.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
A gente tem que falar as coisas que a gente sente. Não adianta deixar guardado.

Direção: Daniel Ribeiro
Roteiro: Daniel Ribeiro
Elenco: Guilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorin, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Selma Egrei, Isabela Guasco
Brasil, 2014, Drama/Comédia, 106 minutos
Sinopse: Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego, tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel (Fabio Audi) chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade. (Adoro Cinema)

Eu Não Quero Voltar Sozinho é um curta-metragem de 2010 que ganhou diversos fãs por todo Brasil com sua temática delicada mas desenvolvida de forma bastante sutil. Na história, Leonardo (Guilherme Lobo) é um garoto cego que descobre em Gabriel (Fabio Audi) a sua primeira paixão. Além de sua própria deficiência, da dificuldade em lidar com esse novo sentimento e de admiti-lo para os que estão a sua volta, o garoto ainda precisa administrar a dinâmica com Giovana (Tess Amorin), sua colega e melhor amiga que secretamente nutre uma paixão por ele. O curta tinha a seu favor uma naturalidade absurda e uma “queridez” que o tornava simplesmente irresistível. Assim, quando o diretor Daniel Ribeiro anunciou que estava desenvolvendo um longa baseado nesta história, a expectativa logo se instalou. Particularmente, não queria criar tanta fé no projeto. Afinal, a essência do que Ribeiro tinha alcançado permaneceria intacta em um formato com duração cinco vezes maior que o original? A magia não seria diluída meio do caminho?
Não. Felizmente. O universo quase fabulesco de Leonardo permanece irretocável em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que atende plenamente as expectativas dos fãs do curta e também dos que embarcam na história pela primeira vez. É inspirador como Daniel Ribeiro dá uma verdadeira aula ao transpor o seu curta para o formato de longa sem perder absolutamente nada nessa mudança. É perfeita a precisão com que o diretor transfere todas as situações e discussões do curta para este maior espaço de cinema sem cair no erro de bater demais na mesma tecla ou prolongar desnecessariamente determinadas temáticas. O que acompanhamos em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um verdadeiro sopro de humanidade, uma mostra de como a arte pode nos inspirar a renovar a fé nas relações humanas – especialmente em tempos tão virtuais e de dinâmicas tão efêmeras. Porém, antes de mais nada, este é um filme sobre o amor. Em qualquer forma. Isso porque o amor apresentado pelo diretor não é visto; é apenas sentido. Leonardo não vê Gabriel, o que nos remonta à ideia tão negada nos dias de hoje de que o amor não escolhe sexo ou aparência. O amor é descoberta, entendimento, companheirismo. Independente de sua origem.
São muitos os momentos de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho que exemplificam o amor “natural” de maneira emocionante. Um ponto alto é certamente a passagem onde Leonardo veste apenas o esquecido moletom do colega, sentindo o seu cheiro e imaginando o seu toque. Nas mãos de outro diretor, tal cena poderia cair em um erotismo descabido ou em um clichê abundante. Não com Ribeiro, que imprime uma humanidade perfeitamente identificável a todos nós nesse momento. Afinal, quem nunca relembrou secretamente um grande amor por meio de um cheiro ou de um objeto? Ou seja, por mais que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho se utilize de um terreno extremamente suscetível a erros para narrar tal história (as possibilidades de clichês são muitas: a vida colegial, a discussão da deficiência, a superproteção da família), o roteiro escrito pelo próprio diretor consegue o feito de narrar cada cena com uma naturalidade invejável. Até mesmo a nudez de Gabriel e Leonardo em uma cena no vestiário surge delicada e com nenhum outro tom a não ser o sentimental. E, nesta missão, o elenco tem uma imensa parcela de contribuição, onde todos defendem seus papeis com uma desenvoltura que muitos atores com anos de carreira procuram e nunca encontram.
Só que é limitado definir Ribeiro como um excelente diretor de elenco ou como um sujeito mais afeito ao sentimento do que a técnica. Sim, ele extrai beleza e humanidade de cada situação corriqueira do dia a dia e de questões complexas como a deficiência e a homossexualidade. Mas também também é um cineasta atento a todas as ferramentas que possam tornar a história ainda mais imersiva. Basta perceber a cena que introduz Gabriel na trama, por exemplo. Quando o garoto abre a porta da sala de aula perguntando se aquela é a turma em que ele deveria estar, a câmera não está focando na porta, e sim no ouvido do protagonista, capturando intimamente a primeira vez que o garoto entra em “contato” com aquele que posteriormente se tornará o primeiro amor de sua adolescência isolada e virgem em todos os sentidos. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ainda acerta ao não se dedicar inteiramente a uma história de amor. Há espaço para as questões individuais do jovem Leonardo, que, como o próprio título denota, quer buscar seu caminho e construir uma identidade ao mesmo tempo em que busca a compreensão de um mundo que não pode ver. Um mundo que, para ele, existirá com ou sem a realização de um amor.
As fragilidades estão eventualmente presentes, assim como é fácil perceber que o filme toma certas liberdades e que muitos momentos são sustentados quase exclusivamente em função desse clima simplesmente irresistível e adorável. A escolha de não terminar o filme em uma cena emblemática (que poderia se assemelhar à estrutura do curta) para continuar um pouco mais afim de atender à óbvia necessidade dar um final feliz a todos ou de fazer a piadinha final contra o “vilão” para fazer a plateia sair do cinema de alma inteiramente lavada chega a ser quase um deslize comercial para um filme tão bem resolvido em sua construção. Entretanto, a verdade é que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganha tanto o coração do espectador que é preciso estar muito de mal da vida para diminuí-lo por causa disso. Sem exageros, este é um marco no cinema brasileiro contemporâneo. Um filme para fazer história, ensinar, humanizar, quebrar preconceitos. E melhor ainda: mostrar que é possível fazer tudo isso sem qualquer medo, com a maior simplicidade e franqueza possível. Uma beleza singular que merece ser vista, revista e aplaudida. “Ué, mas você não gosta da sua personalidade?”, pergunta Giovana. “Gosto, mas o problema não sou eu”, responde Leonardo. Que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho seja, então, uma forma de resolver o problema dos “outros” e de fazê-los refletir sobre os conceitos e preconceitos que cultivamos. Afinal, a arte só passa a ter sentido a partir dessa troca com o espectador.