Malévola
Oh, dear! What an awkward situation…

Direção: Robert Stromberg
Roteiro: Linda Woolverton, baseado nas histórias La Belle au Bois Dormant, de Charles Perrault, e Little Briar Rose, de Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, e no filme A Bela Adormecida, de Clyde Geronimi
Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham, Sarah Flind, Hannah New, Isobelle Molloy, Michael Higgins
Maleficent, EUA, 2014, Aventura, 97 minutos
Sinopse: Baseado no conto da Bela Adormecida, o filme conta a história de Malévola (Angelina Jolie), a protetora do reino dos Moors. Desde pequena, esta garota com chifres e asas mantém a paz entre dois reinos diferentes, até se apaixonar pelo garoto Stefan (Sharlto Copley). Os dois iniciam um romance, mas Stefan tem a ambição de se tornar líder do reino vizinho, e abandona Malévola para conquistar seus planos. A garota torna-se uma mulher vingativa e amarga, que decide amaldiçoar a filha recém-nascida de Stefan, Aurora (Elle Fanning). Aos poucos, no entanto, Malévola começa a desenvolver sentimentos de amizade em relação à jovem e pura Aurora. (Adoro Cinema)

Antes de Malévola se tornar a exceção, esta nova onda de adaptações live action de clássicos infantis nunca havia chegado perto de se justificar – nem mesmo em termos de entretenimento. Filmes como o pavoroso A Garota da Capa Vermelha (releitura de Chapeuzinho Vermelho) e outros tantos como João e Maria: Caçadores de Bruxas e Branca de Neve e o Caçador não foram levados a sério por ninguém, o que não criava boas expectativas para este novo filme estrelado por Angelina Jolie. Mas Malévola se revelou um interessante acerto dentro deste mar de produções que variavam do pavoroso ao irregular. Não que o trabalho de estreia de Robert Stromberg como diretor seja um arraso – longe disso -, mas pelo menos vem para provar que é possível sim revirar o baú de histórias infantis já consagradas com uma boa dose de entretenimento e novidades.
O primeiro acerto de Malévola é escolher contar a clássica história de A Bela Adormecida a partir de um outro ponto de vista: o da vilã Malévola. Normalmente, vilões são retratados de forma caricata e unilateral em histórias infantis, mas a verdade é que eles são os personagens mais ricos e interessantes em qualquer circunstância. É grande o número de personagens que ficam na memória por suas maldades e de atores que marcaram época ao abraçar a vilania. Só que também é verdade que são poucos os antagonistas que têm sua “maldade” justificada ou pelo menos colocada em discussão. Desta forma, Malévola surge se destacando logo na concepção: sinceramente, Elle Fanning está realmente uma graça como a doce Aurora, mas acompanhar 90 minutos de uma história com ela seria insuportável com uma Jolie vilã tão inspirada em cena.
Que bom que tiveram a consciência de colocar a princesinha de escanteio (cuja história não é nem contada paralelamente, sendo mero detalhe mesmo) e entregar o filme todo a Angelina, que raramente tem a história fora de seu alcance. Sem dúvida, é o grande momento da atriz em muito tempo, especialmente quando ela estava afastada das delas desde O Turista, realizado em 2010. Poucas vezes ela esteve tão imponente e marcante em cena, tanto em termos de beleza quanto de interpretação. Jolie convence e hipnotiza durante todo o arco da personagem, que começa como uma fada comum, depois tem as razões de sua vilania explicada e aos poucos vai se humanizando – mas sem nunca perder a necessária acidez. Sem dúvida é um novo êxito recente da Disney, muito esperta ao dar boas chances para Jolie, trazendo-lhe ainda bons figurinos, maquiagem eficiente e momentos realmente de rainha.
Dizem que a protagonista carrega Malévola nas costas – o que não deixa de ser compreensível para quem esperava mais do resultado -, mas o filme tem acertos inegáveis, o que inclui a parte técnica com ótimos efeitos visuais e uma concepção visual bastante satisfatória. Funciona ver a história de um outro lado, fazendo com que nada pareça repetição ou reciclagem, e sim algo novo e original. O roteiro uma vez ou outra carece de algo mais consistente que vá além do poder de sua protagonista, mas a proposta está sempre a favor do filme. Somente dois aspectos são realmente incômodos. O primeiro deles é o trio de fadas formado por Imelda Staunton, Juno Temple e Lesley Manville. É evidente que elas estão ali para divertir, mas o filme as subutiliza com piadas que se limitam a situações de assoprar farinha – algo que o Chaves já fazia com o Kiko décadas atrás!
Porém, o erro mais grave de Malévola é errar conceitualmente naquilo que se propõe a subverter com a protagonista: a vilania. Para mostrar que Malévola não é a vilã radical que pintaram durante décadas e que ela tem suas razões para ser o que é, o roteiro ironicamente transfere toda a maldade unidimensional para o personagem vivido por Sharlto Copley. Ora, se o filme de Stromberg tem como diferencial mostrar que nem todo vilão carrega tal título sem razão, não há sentido em colocar Copley justamente como uma figura má sem explicações ou aprofundamentos. Subverte de um lado, mas repete o erro de outro. Por isso, este é um problema que simplesmente não poderia existir em um filme que tem um conceito tão definido para sua protagonista.
A diversão e a sensação de acerto não são, no entanto, prejudicadas por estes tropeços, nem mesmo quando eles são embalados por uma trilha surpreendentemente sem inspiração do veterano James Newton Howard. A história felizmente sobrevive, provando que histórias live action derivadas de clássicos infantis podem sim render para crianças e adultos. Malévola é mais um acerto da Disney, estúdio que parece retomar uma excelente fase (recentemente Frozen revitalizou o gênero das animações e ainda chegou entre as cinco maiores bilheterias da história!), e, principalmente, uma ótima oportunidade para Angelina Jolie voltar a brilhar. E o melhor de tudo: o filme está ciente que precisa dar todas as chances para ela aproveitar cada momento.
Rapidamente

Em Gata Velha Ainda Mia, Regina Duarte e Bárbara Paz duelam com diálogos encenados em apenas um ambiente
COM LICENÇA, EU VOU À LUTA (idem, 1985, de Lui Farias): Por este filme Marieta Severo chegou a ganhar o Kikito de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado, mas a verdade é que não é muito justo celebrá-la quando a força da história é dividida entre ela e Fernanda Torres. As duas são as protagonistas de Com Licença, Eu Vou à Luta e ambas têm os seus momentos neste longa sobre um conturbado relacionamento entre mãe e filha, em especial quando a segunda, contrariando a família, começa a namorar um homem 18 anos mais velho, divorciado e com dois filhos. Adaptado do livro homônimo e autobiográfico de Eliane Maciel – vivida por Fernanda na versão cinematográfica -, este trabalho de Lui Farias (filho do também cineasta Roberto Farias) trouxe excelentes discussões para a década de 1980 mas que também curiosamente ainda se revelam bastante válidas para os dias de hoje: até que ponto uma garota de 15 anos consegue saber o que é melhor para sua vida? Um homem mais velho está necessariamente se aproveitando de uma menina mais jovem? De que forma os pais devem lidar com as decisões e as transformações dos filhos adolescentes? Alcançando seus melhores momentos nos confrontos entre Marieta e Fernanda – atrizes que por si só já merecem todos os elogios do mundo -, Com Licença, Eu Vou à Luta é crível, objetivo e, por que não, um filme para ser sempre debatido.
GATA VELHA AINDA MIA (idem, 2014, de Rafael Primot): Se existe um gênero que está prestes a se tornar moda no cinema brasileiro este é o suspense psicológico. Em 2014 já tivemos Quando Eu Era Vivo, que foi relativamente bem recebido neste sentido. Agora Gata Velha Ainda Mia vem para reforçar a tendência, colocando Regina Duarte e Bárbara Paz em um único cenário para um embate de opiniões que pouco a pouco traz consequências até mesmo físicas para as personagens. O que existe de mais interessante no longa do jovem Rafael Primot é como ele se esquiva de qualquer esquema comercial. Gata Velha Ainda Mia não é estilo Globo Filmes: o resultado é bastante atípico e pode até mesmo chocar algumas plateias com a forma que desenvolve sua história, seja pelo formato inteiramente apoiado em diálogos ou pelos próprios rumos, muitas vezes extremos e quase macabros. Bárbara Paz continua se mostrando uma atriz com muito a melhorar (em especial aqui, onde é a mocinha), enquanto Regina Duarte, com a sua mais recente mania de beirar o overacting, casa perfeitamente com a personagem megera e irônica que desde os primeiros minutos já sugere que está prestes a explodir como uma mulher bastante perturbada – e é exatamente aí que melhor reside a tensão do filme. Sem nunca parecer teatral, Gata Velha Ainda Mia é estranho e com um final um tanto amortecido, mas um filme que certamente não causará indiferença.
NAMORO OU LIBERDADE? (That Awkward Moment, 2014, de Tom Gormican): Já não gosto do título em português, que é radical demais ao reduzir namoros ao status de “prisão”, mas o filme todo é decepcionante. Cada vez mais parece que Hollywood desaprendeu a fazer comédias jovens e românticas que sejam divertidas mesmo com suas previsibilidades. Esta é especialmente chata e óbvia do início ao fim, com protagonistas que não despertam a nossa torcida. O elenco é liderado por Zac Efron, que cresceu, abandonou quaisquer resquícios de sua juventude High School Musical e hoje já é notícia como um dos homens mais desejados da atualidade. Efron ainda tem outro filme nos próximos meses (Vizinhos, que estrela ao lado de Seth Rogen), mas ele não vai além da beleza e sua desenvoltura para humor parece ter sido mesmo apenas memomentânea em 17 Outra Vez, onde estava carismático e divertido. Aqui, ao lado de Michael B. Jordan (do recente Fruitvale Station – A Última Parada) e Miles Teller, ele não consegue fazer muito, provando que é outro nome de sua geração que caiu no estereótipo de beleza sem talento. Mas a verdade é que todo Namoro ou Liberdade? é tedioso, não sabendo que tipo de humor seguir e tentando trazer reflexões sobre solteirice e comprometimento sem qualquer profundidade. Banal, redundante e óbvio, o filme de Tom Gormican não deve agradar os fãs de comédias pastelão nem as adolescentes apaixonadas.
X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: Days of Future Past, de Bryan Singer): Por alguma razão, não consigo mais me envolver com filme de herois. E por mais que X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido seja mais sobre outras questões ainda bastante contemporâneas e menos sobre poderes especiais, não sei se consigo desassociá-lo dessa overdose que o cinema vem tendo de adaptações de HQ’s. De todo jeito, Bryan Singer volta a provar que faz a diferença na franquia, especialmente depois do filme anterior, que hoje parece tão esquecível. Nesta sequência, tudo está mais seguro, em especial o elenco, que deve ser um dos melhores envolvendo herois no cinema, com destaque para Michael Fassbender (um antagonista imponente e realmente temível) e Peter Dinklage (hoje um estouro em Game of Thrones mas que sempre teve seus momentos especiais no cinema). Talvez esta continuação pudesse aproveitar melhor os atores da antiga franquia, que são praticamente figurantes (Halle Berry deve ter apenas uma fala durante quase duas horas), mas isso não é razão para depreciar a nova geração, principalmente quando personagens como Xavier (James McAvoy, sempre um acerto) estão mais complexos e melhor desenvolvidos. Dias de Um Futuro Esquecido pode até não ser uma revolução para o gênero, mas certamente é uma boa opção quando ir ao cinema para assistir a este tipo de história tem se tornado um verdadeiro exercício de desânimo.
Godzilla
You have no idea what’s coming!

Direção: Gareth Edwards
Roteiro: Max Borenstein, baseado em história de Dave Callaham
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Ken Watanabe, Sally Hawkins, David Strathairn, Juliette Binoche, Richard T. Jones, Victor Rasuk, Patrick Sabongui, Jared Keeso, Luc Roderique, Carson Bolde
EUA, 2014, Ação, 123 minutos
Sinopse: Joe Brody (Bryan Cranston) criou o filho sozinho após a morte da esposa (Juliette Binoche) em um acidente na usina nuclear em que ambos trabalhavam, no Japão. Ele nunca aceitou a catástrofe e quinze anos depois continua remoendo o acontecido, tentando encontrar alguma explicação. Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), agora adulto, é soldado do exército americano e precisa lutar desesperadamente para salvar a população mundial – e em especial sua família – do gigantesco, inabalável e incrivelmente assustador monstro Godzilla. (Adoro Cinema)

Não é novidade que Hollywood tem jogado dinheiro para o alto ao realizar blockbusters ruins e sem entretenimento. São infinitas as produções de alto orçamento que nem mesmo em termos técnicos conseguem mais impressionar. Só que nada nos preparava para Godzilla, refilmagem que deve reunir o maior número de atores talentosos em uma verdadeira bomba recente. Antes este longa de Gareth Edwards fosse uma barulheira como Transformers. Nem isso acontece aqui. O que torna Godzilla um verdadeiro tédio é a insistente vontade do roteiro de se levar a sério demais e tentar revolucionar com uma história vista inteiramente a partir do ponto de vista dos humanos. Tedioso não no sentido de ser, conforme apontam alguns defensores, uma trama que quer mostrar o lado dos humanos na tragédia, mas sim de trazer tantas pessoas chatas e insossas para protagonizar os conflitos. Realmente, assim fica fácil torcer para Godzilla destruir a cidade.
O fato do monstro aparecer apenas na meia hora final não seria um problema caso o roteiro de Max Borenstein, baseado em história de Dave Callaham, ganhasse o nosso coração com personagens envolventes. Entretanto, é um verdadeiro teste de paciência aguentar tanta indiferença com as figuras que aparecem na tela. De Juliette Binoche – que sabe-se lá por quê saiu da França para aparecer menos que os créditos iniciais – nem vale a pena falar, mas comecemos com Bryan Cranston, ator que está no auge de sua carreira após o final do seriado Breaking Bad. Ele faz o que pode, mas não consegue fazer muito com o manjado papel de cientista descabelado que grita teorias que ninguém compra – e que depois, claro, revelam-se verdadeiras. Logo também aparece Aaron Taylor-Johnson, de uma inexpressividade absurda, que supostamente é o heroi mas que não tem cacife para sustentar qualquer coisa. Coloque ainda na lista David Strathairn como o canastrão general que representa a arrogância do ser humano perante o que não pode controlar e uma sofrível Sally Hawkins, cuja única função é fazer perguntas e mastigar explicações para o espectador.
A situação piora minuto a minuto porque o roteiro não consegue construir absolutamente nada de consistente em termos de história ou de personalidade para seus personagens. Não existe relevante dimensão psicológica ou emocional nas figuras que surgem na tela – e se um filme “de monstro” se propõe a focar nos humanos, isso era mais do que necessário. Era obrigatório. Sem personagens interessantes, em uma trama que depende deles, a possibilidade de algo dar certo é mínima. Não adianta ter um elenco milionário se falta material para que eles trabalhem. Assim, mesmo quando pensamos relevar a inexistência de personalidade dos personagens e conferir Godzilla com bom humor, não demora muito para que o texto vire um verdadeiro sonífero ao ser cada vez mais carente de jogadas interessantes ou reviravoltas cativantes. Repleto de explanações dispersivas e cenas avulsas (por que mesmo tanta atenção para o menino oriental para depois descartá-lo com descaso?), o filme é uma preparação infinita e desinteressante para um clímax que, apesar dos efeitos e do investimento, nunca está à altura de compensar todo o tédio de antes.
O clímax, por sinal, também fica devendo, com sequências escuras (ainda mais prejudicadas pelo desnecessário 3D) e destruições sem qualquer novidade. Ou seja, Godzilla é vazio, sem senso de entretenimento e completamente nulo em qualquer metáfora que pudesse mostrar que os humanos, por mais que tenham mísseis e as mais altas tecnologias, nem sempre podem controlar e resolver tudo. Tudo dá errado nessa investida de Gareth Edwards, que nada acrescenta aos tantos filmes que já foram feitos sobre o monstro-título. Possivelmente, a trilha do francês Alexandre Desplat seja o único aspecto realmente positivo desse trágico remake que, até pouco tempo atrás, era um dos filmes mais aguardados do ano (em especial com os trailer super imersivos e de tirar o fôlego). Só que Godzilla é, acredite, ainda pior do que esse texto tenta avisar. Um verdadeiro desastre!
The Normal Heart
Once upon a time, there was a little boy who always wanted to love another little boy. One day, he finally found that love. And it was wonderful.

Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Larry Kramer
Elenco: Mark Ruffalo, Matt Bomer, Julia Roberts, Jim Parsons, Taylor Kitsch, Jonathan Groff, Joe Mantello, William DeMeritt, Sean Meehan, Stephen Spinella, John Mainieri, Adam B. Shapiro, BD Wong
EUA, 2014, Drama, 132 minutos
Sinopse: Ned Weeks (Mark Ruffalo) é um escritor. Seu namorado Felix (Matt Boomer) contrai o vírus da AIDS, o que faz com que Ned se torne um grande ativista. A principal bandeira é mostrar para o mundo que a doença não deve ser vista como um “câncer gay”, ideia comprada pela médica cadeirante Emma Brokner (Julia Roberts), que passa a agitar a causa dentro da comunidade científica. (Adoro Cinema)

Em uma festa, Ned (Mark Ruffalo) dança abraçado com o seu namorado Felix (Matt Bomer). Durante a dança, ele revela que, nos tempos de colégio, sempre teve o sonho de poder dançar assim com outro garoto, enquanto seus colegas demonstravam livremente o afeto que nutriam por meninas. “Imagina se isso fosse possível naquela época?”, comenta Ned, já um homem de cabelos grisalhos dos anos 1980 que, pela primeira vez na vida, encontrou um grande amor. Ou seja, The Normal Heart, que estreou dia 25 de maio na grade de programação da HBO estadunidense, se propõe a fazer um retrato dos anos em que a AIDS começou a se disseminar na América, mas também fala sobre uma geração que viveu (ou não) pequenos prazeres da vida que lhes eram negados. Por isso, seria simplista demais reduzir o filme de Ryan Murphy apenas a um necessário registro dessa doença que já vitimizou milhões de pessoas ao redor do mundo. Mesmo que muitas vezes The Normal Heart vire quase uma panfletagem da causa gay – bem como o superestimado Milk, de Gus Van Sant -, existem, em contrapartida, estes momentos de pura sutileza que colocam os personagens muito acima da mera explanação da AIDS como uma das doenças mais tristes de todos os tempos.
Tem sido relativamente forte a repercussão desta mais nova produção da HBO, talvez por outros motivos que não os do filme especificamente. Mais uma vez, retomamos uma importante questão levantada pelo recentemente celebrado 12 Anos de Escravidão. Afinal, estamos aplaudido o filme em si ou a relevância de sua temática político-social? A circunstância da disseminação da AIDS nos anos 1980 já havia sido magistralmente trabalhada pela emissora anos atrás, quando Mike Nichols marcou época com um elenco fenomenal ao dirigir a minissérie Angels in America, um dos grandes marcos na trajetória da emissora. Lá, estavam presentes de forma muito mais artística e ficcional os relacionamentos homossexuais, a não aceitação de familiares e amigos (ou a própria não-aceitação), a degradação do corpo em função da AIDS e os pensamentos de uma geração gay que precisava lidar com problemas que hoje já são perfeitamente conhecidos – mas nem por isso devidamente cuidados, como a doença em questão. Nenhuma novidade temática em The Normal Heart, portanto. Mas, mesmo que nada inédito e quase didático em sua abordagem, o telefilme, bem como 12 Anos de Escravidão, impacta e fica com o espectador.
As credenciais do diretor Ryan Murphy não inspiravam confiança: na TV, ele inaugurou séries de sucesso como Nip/Tuck, Glee e American Horror Story, mas estranhamente nunca conseguiu manter o padrão delas (quando não as arruinava); no cinema, fez um filme bastante interessante chamado Correndo Com Tesouras mas logo decepcionou profundamente com o tedioso Comer Rezar Amar. Já agora com The Normal Heart, ele faz o seu trabalho mais relevante até aqui – tanto em termos de TV quanto de cinema – provando que, fora alguns excessos (a duração é bastante sentida), ele consegue lidar com um tema difícil com grande dignidade. Não era o que prevíamos nos minutos iniciais, completamente regados a clichês e estereótipos do mundo gay (mais adiante Murphy ainda coloca os personagens dançando, claro, ao som de I Will Survive em uma festa!), só que aos poucos The Normal Heart começa a se encontrar, especialmente quando introduz o personagem de Matt Bomer na trama – figura esta que, posteriormente, se tornará o coração do filme. É quando mostra todos os questionamentos e medos da geração em questão por meio da história de Ned (Ruffalo) e Felix (Bomer) que Murphy, em parceria com o roteiro de Larry Kramer, alcança seus melhores momentos. Quando fala sobre todos mostrando todos, The Normal Heart quase cai no quadrado. Quando fala sobre todos resumindo-os em dois personagens, o resultado chega a ser emocionante.
Se Ryan Murphy não faz cerimônias para mostrar um homem até então absurdamente lindo caindo nu em um chuveiro com seu corpo magérrimo e cheio de feridas, o diretor o faz sem qualquer sinal de apelação. Aliás, é essa franqueza que torna o filme tão tocante, mostrando todos os detalhes de um relacionamento que sobrevive mesmo diante da finitude da vida. E não seria esta a maior prova possível de amor? Por isso, Mark Ruffalo – naquele que é possivelmente o momento mais relevante de sua carreira – e Matt Bomer cumprem com louvor a representação deste grupo muito maior que enfrentou (e ainda enfrenta) situações repletas de medos e anseios, alegrias e carinhos – e, no caso de The Normal Heart, vitalidade e enfermidade. Bomer, especialmente, vence as barreiras de sua impecável beleza grega e entrega cenas de partir o coração, em uma interpretação que certamente será celebrada pelas premiações. É quase decepcionante, portanto, que esta força emocional de The Normal Heart não se traduza para os momentos mais formais da história que são destinados a literalmente discursar sobre a causa gay. Sou muito mais fã deste filme que coloca na pele de dois personagens as discussões íntimas e sociais de um grupo que se apresenta de forma muito convencional quando trabalhado em conjunto. Fosse inteiro assim, seria realmente mais do que um filme necessário apenas por sua temática. Seria também obrigatório cinematograficamente.
O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
Time is luck. Don’t waste it living someone else’s life. Make yours count for something.

Direção: Marc Webb
Roteiro: Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci, baseado em história de Alex Kurtzman, James Vanderbilt, Jeff Pinkner e Roberto Orci, e nos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DeHaan, Sally Field, Paul Giamatti, Chris Cooper, Felicity Jones, Colm Feore, Campbell Scott, B.J. Novak, Max Charles, Marton Csokas, Sarah Gadon
The Amazing Spider-Man 2, EUA, 2014, Aventura, 142 minutos
Sinopse: Peter Parker (Andrew Garfield) adora ser o Homem-Aranha, por mais que ser o herói aracnídeo o coloque em situações bem complicadas, especialmente com sua namorada Gwen Stacy (Emma Stone) e sua tia May (Sally Field). Apesar disto, ele equilibra suas várias facetas da forma que pode. No momento, Peter está mais preocupado é com o fantasma da promessa feita ao pai de Gwen, de que se afastaria dela para protegê-la. Ao mesmo tempo ele precisa lidar com o retorno de um velho amigo, Harry Osborn (Dane DeHaan), e o surgimento de um vilão poderoso: Electro (Jamie Foxx). (Adoro Cinema)

Quando chegou aos cinemas em 2012, O Espetacular Homem-Aranha decepcionou por ser um desnecessário reboot da bem sucedida trilogia de Sam Raimi. Decepcionante no sentido de que apenas cinco anos tinham passado desde que a saga estrelada por Tobey Maguire havia se aposentado. O tempo era pouco para que o público desassociasse o herói do rosto de Maguire ou para que a história fosse recontada praticamente da mesma forma. O primeiro filme comandado por Marc Webb – recém saído do ótimo (500) Dias Com Ela -, parecia, então, uma apenas uma cópia inferior do excelente trabalho de Raimi. Mais do que inferior, uma cópia até mesmo tediosa, cujo único grande mérito era trazer um casal infinitamente mais carismático. Por isso, as expectativas eram nulas para essa continuação produzida em apenas dois anos. E se esse reboot continua se mostrando injustificável, pelo menos agora o diretor já está se desgrudando do que vimos antes para explorar outras facetas do personagem. Com as devidas proporções, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro consegue ser um avanço desde o debut de Webb no mundo do aracnídeo.
É fato que os filmes de Raimi continuam trazendo saudades em praticamente todos os sentidos, mas agora terminaram as introduções dos personagens e suas motivações começam a ficar mais claras. Essa qualidade surtiria mais efeito caso o filme não tivesse tantos problemas de estrutura e excessos – o que fica evidente logo nos primeiros minutos, quando o roteiro escrito pelo trio Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci dedica sua longa sequência a um fato envolvendo o passado de Peter Parker (Andrew Garfield) para depois só tocar no assunto brevemente ao longo do filme. Por que abrir o longa com tanto destaque a esse fato, então? Só que o problema mais sério de todos é justamente aquele que atingiu Homem-Aranha 3, o pior longa comandado por Raimi na antiga franquia: o grande número de vilões. Qualquer espectador mais desatento consegue sentir que não havia necessidade de introduzir três inimigos neste filme. O Electro de Jamie Foxx já cumpre a missão de antagonista da vez e, por isso, apresentar Harry Osborn na metade para somente na meia hora final transformá-lo em Duende Verde é pura perda de tempo. O jovem Dane DeHaan continua ótimo para o tipo conturbado, mas sua história soa como algo paralelo e avulso. Pior ainda é a situação de Rino, vivido por um descontrolado Paul Giamatti que, em duas cenas, já surge como uma figura completamente desinteressante.
Tal excesso traz uma grande dispersão para a trama e tantas alegorias de vilões nos remetem aos tempos de Batman Eternamente, filme que era um festival colorido e fantasioso de uma cidade ameaçada pelos mais diversos tipos de antagonistas. Sem falar da grande falta de ritmo, especialmente porque O Espetacular Homem-Aranha 2 leva duas horas e meia para contar sua história, tornando-se, desnecessariamente, o filme mais longo já feito sobre o personagem. O que faz a diferença – para o bem ou para o mal, dependendo do espectador – é que o longa de Webb retoma um tipo de super-heroi em extinção: aquele caricatural, bem de quadrinhos mesmo, com romance idealizado, piadinhas e vilões eloquentes. Em tempos que o realismo é cada vez mais comum em histórias de HQ’s, tal escolha soa como antiquada ou saudosista? Cabe ao espectador decidir. Detalhes à parte, o conjunto geral funciona, com o devido aprofundamento de personagens e com o acerto de ser até bastante sentimental. Todo romance de Peter e Gwen Stacy (Emma Stone) é funcional não só pelo carisma dos atores, adoráveis juntos, mas porque a história sabe aproveitar bem o sentimento de culpa de Peter, seu afastamento para não colocar a amada em perigo e também seu impulso de estar sempre próxima dela de um jeito ou de outro. A trama chega a ser emocionante nesse sentido, com um desfecho até corajoso para o gênero.
Outro aspecto que se resolve em O Espeacular Homem-Aranha 2 é a ação, agora melhor pontuada, com efeitos infinitamente melhores que o primeiro (que tinha um lagarto horroroso quase vindo de um videogame) e que só melhoram as sequências que exigem adrenalina, com admiráveis voos do Homem-Aranha. Pequenas cenas também são preciosas: a conversa da tia May (Sally Field) com Peter sobre o passado de seus pais é sincera e traz o que existe de melhor em uma interpretação de Sally: a fragilidade, não as caras e bocas que tanto lhe caracterizam com o passar do tempo. A relação do Aranha com seu publico ainda rende mais um pequeno grande momento: aquele em que ele salva um garoto do bullying, conserta sua maquete destruída e o acompanha a pé até a escola para que chegue a salvo. Em suma, o reboot continua sem necessariamente empolgar, enquanto os de Raimi já despertavam emoção logo nos créditos de abertura com o inesquecível tema de Danny Elfman (o que também é relativamente corrigido aqui, com uma trilha melhor de Hans Zimmer em parceria como grupo The Maginificent Six), mas é bom ver que dessa vez o tédio não impera e que de certa forma a sensação de repetição e mera cópia deixa de existir. Pena que um pouco tarde, já que a nova franquia termina no próximo filme.