Cinema e Argumento

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #4: “Dois Dias, Uma Noite”

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Em Jogo de Cena, do saudoso mestre Eduardo Coutinho, Marília Pêra, ao interpretar a história real de uma mulher, diz que optou por retrair ao máximo as emoções de sua interpretação. Ela explica que um choro, por exemplo, só parece de verdade quando a pessoa tenta esconder, ao contrário do que acontece no cinema e na TV, onde atores tentam, a todo custo, verter lágrimas e mais lágrimas em cenas dramáticas frente às câmeras. Não. Na vida real, nós tendemos a esconder o choro. Pêra resume com perfeição como as emoções devem ser tratadas na dramaturgia para que tudo pareça o mais real possível. E é por aí que passa o cinema dos irmãos Dardenne, sempre tão naturalista e próximo das experiências de seres humanos comuns.

Desta vez, em Dois Dias, Uma Noite, eles acompanham a jornada de Sandra (Marion Cotillard), uma mãe que perde o emprego em uma votação trabalhista entre seus colegas. A razão? Eles tiveram que escolher entre ela e um bônus de mil euros para o final de ano. Recém recuperada de uma fase depressiva, Sandra não pode perder o emprego e, em um fim de semana, tenta mudar a opinião de todos os colegas que votaram contra a sua permanência na fábrica. No entanto, não espere ver aqui Marion Cotillard ajoelhada frente aos personagens implorando por emprego ou incansáveis choros desesperados dela. Na verdade, as cenas mais belas de Dois Dias, Uma Noite são aquelas que fazem justamente o contrário – e uma das mais bonitas é aquela em que Sandra, frente ao espelho e prestes a cair em lágrimas, se recompõe e repete para si mesma: “você não tem que chorar”.

São pertinentes as discussões trazidas pelo novo filme dos irmãos Dardenne. Para nós brasileiros, elas ganham um sentido extra agora que vivemos eleições presidenciais tão tumultuadas. Dois Dias, Uma Noite passa por convencimento, pelo interesse individual versus o interesse coletivo, por como a opinião de quem está ganhando influencia a de quem está em dúvida e pela minoria que recua suas crenças só porque não crê na possibilidade de vitória. A forma como os diretores distribuem tais situações e análises ao longo do filme é bastante harmônica e frequentemente surpreendente, inclusive até o último minuto, quando a protagonista se vê em uma situação que coloca em xeque todos os valores batalhados por ela ao longo de sua jornada.

A bela Marion Cotillard entrega outro belo desempenho em Dois Dias, Uma Noite. De cara limpa, consegue fugir de qualquer obstáculo envolvendo sua inegável beleza, construindo uma mulher realmente comum e identificável. É fácil torcer por sua Sandra, até porque o roteiro ainda faz questão de discretamente pontuar detalhes pessoais de sua vida, como o casamento em crise e o vício por remédios em uma fase pós-depressão. Caso o filme pareça um tanto arrastado e repetitivo na forma como sempre mostra o discurso inicial da protagonista que explica sua situação para cada colega, isto deve ser proposital: ora, se Sandra está exausta de ter que ir de casa em casa para convencer alguém, nós também temos que compartilhar deste sofrimento. E, como o filme foi filmado na ordem cronológica que se apresenta na tela e com takes repetidos mais de 50 vezes por Cotillard, isto só aperfeiçoa a impressão que fica de mais este excelente filme da exemplar seleção que Cannes conseguiu fazer em 2014.

Garota Exemplar

What are you thinking? What are you feeling? What have we done to each other?

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Direção: David Fincher

Roteiro: Gillian Flynn, baseado em seu próprio romance homônimo

Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Carrie Coon, Kim Dickens, Tyler Perry, Neil Patrick Harris, Lisa Banes, Emily Ratajkowski, Patrick Fugit, David Clennon, Casey Wilson, Lola Kirke, Boyd Holbrook, Sela Ward

Gone Girl, EUA, 2014, Drama, 149 minutos

Sinopse: Amy Dunne (Rosamund Pike) desaparece no dia do seu aniversário de casamento, deixando o marido Nick (Ben Affleck) em apuros. Ele começa a agir descontroladamente e se torna o suspeito número um da polícia. Com o apoio da sua irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), Nick tenta provar a sua inocência e, ao mesmo tempo, procura descobrir o que aconteceu com Amy. (Adoro Cinema)

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Antes de falar sobre Garota Exemplar, uma confissão: sempre tive muita dificuldade de me conectar com os filmes de David Fincher, seja com a forma extremamente racional com que ele desenvolve seus personagens ou com o próprio suspense das suas tramas. Minha má relação com Fincher estava beirando a desistência nos últimos tempos, pois considero A Rede SocialMillenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres obras superestimadas e por demais gélidas para o meu gosto pessoal. Foi bom ter persistido: Garota Exemplar, além de ser forte candidato a estar entre os melhores e mais provocativos filmes do ano, figura também, sem dúvida, entre o que David Fincher já realizou de mais interessante.

A investigação em si e os caminhos distorcidos construídos pela imprensa não são novidade (lembro especificamente de Um Grito no Escuro, onde Meryl Streep enfrentava uma jornada perturbadora contra acusações de que ela teria sacrificado o próprio filho em um ritual religioso), mas Fincher executa todo o contexto de com um timing perfeitamente instigante e um enfoque bastante diferenciado. É a partir da desconstrução de Amy (Rosamund Pike) que o filme abandona a mera – mas envolvente – investigação policial para se tornar um incrível estudo de personagem. Existe o lado de Ben Affleck, mas é a personalidade de Amy, a mulher desaparecida, que movimenta a trama. A partir de uma surpreendente revelação ainda em sua metade, Garota Exemplar passa a fugir de escolhas fáceis neste sentido, tornando-se uma viagem imprevisível para qualquer espectador.

São quase duas horas e meia de pleno envolvimento com a hisótira originalmente escrita e levada para as telas por Gillian Flynn, onde o suspense se molda a partir dos rumos da Amy de Rosamund Pike – e conseguir fazer uma trama investigativa se guiar quase que exclusivamente a partir dos conflitos psicológicos de um personagem que supostamente não está viva (cabe a cada um decidir o que aconteceu com Amy) é um mérito a ser festejado. Não que Garota Exemplar não seja um filme de reviravoltas ou revelações (bem pelo contrário), mas o talento da escritora e roteirista de criar uma figura absurdamente fascinante e capaz de guiar toda uma trama de longe se destaca por completo.

Reese Witherspoon comprou os direitos da história e é uma das produtoras de Garota Exemplar, mas quis ir além e ser considerada para o papel principal. Sorte que não a ouviram, já que Rosamund Pike se revelou a escolha perfeita para dar vida à Amy. Não só ela acompanha com perfeição todas as transformações da personagem (que, por meio de flashbacks, revela pouco a pouco o seu envolvimento com o Nick de Ben Affleck) como tira de letra sua dubiedade e complexidade. Frente a ela, Affleck tem pouco a fazer, mas isso não quer dizer que ele faça um trabalho ruim. Pike, principalmente, tem seus melhores momentos quando o filme se encaminha para o final, parte que, por sinal, é a que mais reserva polêmicas.

São compreensíveis as razões de todos os personagens no desfecho de Garota Exemplar, mas a forma apressada com que mudanças tão bruscas foram aceitas e absorvidas por cada um deles torna a história bastante implausível. A análise é interessante, a situação é genial e a reviravolta impecável, mas o que é feito a partir disso, em termos de execução, me distanciou bastante do filme. Para uma produção de quase 2h30, um final complexo e bastante psicológico como esse merecia um estudo mais detalhado. Por sorte, nada que abale tudo de fantástico que Garota Exemplar alcançou durante o caminho (e não dá para deixar de mencionar mais uma excelente trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross). Um dos filmes obrigatórios de 2014.

Maze Runner: Correr ou Morrer

It was all done for a reason.

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Direção: Wes Ball

Roteiro: Grant Pierce Myers, Noah Oppenheim e T.S. Nowlin, baseado no livro “The Maze Runner”, de James Dashner

Elenco: Dylan O’Brien, Thomas Brodie-Sangster, Ki Hong Lee, Will Poulter, Aml Ameen, Dexter Darden, Blake Cooper, Kaya Scodelario, Patricia Clarkson, Chris Sheffield, Joe Adler, Jacob Latimore, Randall D. Cunningham

The Maze Runner, EUA, 2014, Aventura, 113 minutos

Sinopse: Em um mundo pós-apocalíptico, o jovem Thomas (Dylan O’Brien) é abandonado em uma comunidade isolada formada por garotos após toda sua memória ter sido apagada. Logo ele se vê preso em um labirinto, onde será preciso unir forças com outros jovens para que consiga escapar. (Adoro Cinema)

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Fora o público-alvo, é difícil entender quem ainda aguenta esta febre de aventuras jovens baseadas em best sellers que invadiu o cinema desde Jogos Vorazes. Particularmente, tenho filtrado muita coisa desde então – e até onde sei não perdi grandes filmes. De qualquer forma, este Maze Runner – Correr ou Morrer conseguiu fisgar a minha atenção neste balaio de semelhantes adaptações infanto-juvenis, principalmente porque a proposta parece ser a junção de dois filmes que gosto bastante: A Vila (no sentido de mostrar uma comunidade que não ultrapassa determinadas fronteiras em função de um perigo real) e Cubo (o labirinto e o quebra-cabeça cheio de ameaças mortais). A ideia por si só já é instigante – claro que com suas devidas proporções de violência e coragem, já que este é um filme para jovens -, mas o diretor Wes Ball pode se considerar bem sucedido ao levar para as telas o livro The Maze Runner, de James Dashner.

Para embarcar em Maze Runner é necessário, claro, abstrair eventuais cafonices e o fato de que nem todos os jovens atores são bons ou convincentes. Só que existe algo a ser comemorado: não espere aqui um manjado triângulo amoroso ou sequer um flerte meloso, muito menos grandes estrelas liderando um elenco repleto de rostos bonitinhos. Não, praticamente todos os intérpretes deste filme são desconhecidos e – repetindo – mesmo que nem todos sejam bons, é interessante ver de vez em quando uma história mais próxima da realidade neste sentido de trazer pessoas que parecem comuns, da vida real mesmo. Quem mais vai puxar sua memória no filme é Thomas Brodie-Sangster, o garotinho de Simplesmente Amor que segura bem as pontas ao lado do protagonista Dylan O’Brien.

Voltando ao filme em si, Wes Ball acertou em uma parte fundamental: a tensão. Se Maze Runner tem suas didáticas introduções e patina bastante para desenvolver a personalidade de seus personagens, a aventura compensa a certa falta de consistência do lado dramático. As cenas ambientadas no labirinto são o ponto alto da produção por duas razões bem claras: a) os efeitos cumprem as expectativas e ajudam a conduzir a adrenalina com bastante firmeza, e b) o  perigo é um só, e não um Sítio do Pica-Pau Amarelo cheio de criaturas folclóricas que conduziriam a ação a uma histeria. O labirinto supre a falta de força da convivência entre os jovens, que é pontuada inclusive por alguns clichês, como o personagem do contra que se acha líder e resolve virar arqui-inimigo do mocinho recém chegado que inevitavelmente será o profeta do grupo. Ou seja, Maze Runner se sustenta por sua aura de mistério, por sua premissa intrigante, não por seus conflitos dramáticos.

Obviamente existe toda uma expectativa em relação ao final deste longa. A boa notícia é que ele funciona muito bem, trazendo realismo e um eficiente clima apocalíptico para a trama. A má é que Maze Runner não acaba aqui, já que a saga, em sua versão literária, tem nada menos que cinco livros – o que significa que o cinema vai tentar explorá-la ao máximo, claro. Mas é por ter uma história que supostamente se estende por tantos capítulos que fica a dúvida: afinal, quais são os rumos que serão tomados por Maze Runner? As expectativas são muito mais em função da curiosidade (não necessariamente positiva) em relação ao que será criado daqui para frente do que necessariamente por causa do gancho final. Como espectador leigo, não projeto grandes alcances para Maze Runner, já que a ideia em si do filme está praticamente esgotada neste primeiro volume.

O Lobo Atrás da Porta

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Direção: Fernando Coimbra

Roteiro: Fernando Coimbra

Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Thalita Carauta, Karine Teles, Emiliano Queiroz, Antonio Saboia, Isabelle Ribas, Gustavo Novaes, Paulo Thiefenthaler, Tamara Taxman

Brasil, 2014, Suspense/Drama, 95 minutos

Sinopse: O desaparecimento de uma criança faz com que seus pais, Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabiula Nascimento), vão até uma delegacia. O caso fica a cargo do delegado (Juliano Cazarré), que resolve interrogá-los separadamente. Logo descobre que Bernardo mantinha uma amante, Rosa (Leandra Leal), que é levada à delegacia para averiguações. A partir de depoimentos do trio, o delegado descobre uma rede de mentiras, amor, vingança e ciúmes envolvendo o trio. (Adoro Cinema)

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Muito mais do que estar vivendo uma excelente fase repleta de filmes ricos em conteúdo e inovações, o cinema brasileiro também tem sido brindado nos últimos anos com a revelação de vários profissionais na direção de longas-metragens. São deles os melhores filmes que vimos nos últimos tempos aqui no Brasil. Do grito libertador de Tatuagem (debut na direção de ficção do exímio roteirista Hilton Lacerda) ao charme irresistível do bem sucedido Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (dirigido por Daniel Ribeiro, adaptando seu segundo curta-metragem), a filmografia brasileira ganhou grandes filmes em um curto espaço de tempo nos últimos meses com diretores estreantes. A coroação desta bela escalada acontece, no entanto, com o surpreendente O Lobo Atrás da Porta, que é, facilmente, o mais intenso e surpreendente de todos os exemplares desta safra.

Um dos longas mais consistentes de 2014 em qualquer geografia, o filme marca a iniciação do paulista Fernando Coimbra na direção de longas-metragens – e a estreia já começou com brilho: no Festival do Rio, O Lobo Atrás da Porta faturou os prêmios de melhor filme e melhor atriz para Leandra Leal em 2013. É um merecido reconhecimento e incentivo a este diretor que mostra plena segurança ao construir uma história que, mesmo classificada como suspense, transita perfeitamente bem entre diversos gêneros. Se, nos primeiros minutos, anuncia ser quase um policial envolvendo a investigação do desaparecimento de uma garotinha, logo Coimbra mostra, pouco a pouco, que as resoluções e consequências deste mistério se darão a partir de um roteiro mais interessado em uma análise psicológica e comportamental de seus personagens do que em fatos ou revelações propriamente ditas.

A partir do momento que começa a estabelecer conexões entre cada uma das figuras a partir de flashbacks, dá até para esquecer que existe um mistério a ser resolvido de tão envolvente a construção de cada situação e desenvolvimento. Este resultado é mérito da segura direção de Coimbra e do eficiente roteiro escrito por ele próprio, mas também do excepcional elenco reunido, que merece todos os elogios possíveis. Como há bastante tempo não víamos no cinema nacional, temos aqui um grupo de atores em plena forma. Falar do magnífico desempenho de Leandra Leal (mais uma vez!) é cair no lugar comum, até porque todos que a acompanham também são perfeitos em suas devidas proporções e abordagens, do protagonismo de Milhem Cortaz aos dois ou três momentos em que Thalita Carauta rouba a cena.

Em O Lobo Atrás da Porta há espaço espaço para comédia, drama e tensão. De tudo um pouco, mas sem perder a forte personalidade impressa pelo diretor. As resoluções, que lembram os extremos que o ser humano sente frente à dor e à vingança ao estilo mais recente de A Pele Que Habito, são desconcertantes pela falta de qualquer concessão. Coimbra não quer agradar. Mais do que isso, é um final muito honesto na forma como dá puro realismo a seus personagens, em especial à personagem de Leandra Leal. Não existem respostas ou julgamentos certos para tudo o que acontece em O Lobo Atrás da Porta. É apenas o retrato franco do quanto o ser humano faz o que bem entende para não se prejudicar ou simplesmente apenas para curar mágoas e injustiças. E falar mais do que isso é estragar as pequenas grandiosidades desse que é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

Mapas Para as Estrelas

Na-na-na-na! Hey-hey-hey! Goodbye! Sing it!

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Direção: David Cronenberg

Roteiro: Bruce Wagner

Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Evan Bird, John Cusack, Olivia Williams, Robert Pattinson, Niamh Wilson, Emilia McCarthy, Sarah Gadon, Amanda Brugel, Jayne Heitmeyer, Clara Pasieka

Maps to the Stars, EUA/Canadá/Alemanha/França, 2014, Drama, 111 minutos

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Eles começam a sair juntos e flertar um com o outro, por mais que Agatha mantenha segredo sobre seu passado. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco, já que é a estrela principal de uma série de TV de relativo sucesso. Entretanto, como esteve internado recentemente, está sob a atenção especial de sua mãe (Olivia Williams) e dos produtores da série, que temem um escândalo.

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Recentemente exibido no Festival do Rio, Mapas Para as Estrelas começou sua repercussão ainda lá na metade do ano, em Cannes, quando ganhou o prêmio de interpretação feminina para Julianne Moore. Mas caso você tenha a chance de conferi-lo, não pense duas vezes, pois, pelo menos nos Estados Unidos, este novo filme de David Cronenberg será lançado somente em 2015 – e possivelmente apenas em home video. Já aqui no Brasil, ainda não existe nem previsão de seu lançamento comercial. É no mínimo estranha a decisão da Focus Features em escantear o longa, já que este é o trabalho mais irônico, ácido e crítico de Cronenberg em anos – e também o mais acessível (o que está longe de ser um demérito).

Bastante polêmico como sempre, o diretor, com Mapas Para as Estrelas, fez um filme realmente envolvente, distanciando-se bastante da proposta do esquisito – e quase pretensioso – Cosmópolis, estrelado por Robert Pattinson. O jovem ator, aliás, repete a parceria com Cronenberg agora, mas em um papel bem menor, como o motorista de uma limusine (claramente uma referência ao seu trabalho anterior com o diretor). Só que é todo o restante do elenco que brilha por completo, deixando difícil que ele tenha algo a fazer aqui tanto em termos de interpretação quanto em relação a seu limitado papel.

Mapas Para as Estrelas encontra em seu elenco uma de suas maiores forças, mas vai muito além desta mera definição: tudo está bem posto e desenvolvido aqui e o que obviamente chama mais a atenção tematicamente é a questão dos complicados cotidianos de pessoas que tiveram suas personalidades construídas a partir de uma vida repleta de fama – seja uma atriz veterana que está vendo sua carreira despencar ou um jovem, que, aos 13 anos, já administra uma fortuna de milhões. São obviamente relatos e críticas pertinentes em tempos que o cinema é cada vez mais voltado para o público jovem e onde grandes talentos que fizeram história se vêem sem papeis e reduzidos a chances bobocas em comédias até mesmo grosseiras.

É genial este contraste proposto por Cronenberg porque ele foge de panoramas fáceis. Outro diretor mais simplista certamente faria a cronologia óbvia de celebridades que descobrem a fama e são corrompidas por ela. O que Mapas Para as Estrelas mostra é bem diferente: figuras que já provaram da fama e que hoje enfrentam vários problemas por causa dela. São todos personagens que não sabem muito bem o que fazer para seguir em diante. A Havana de Julianne Moore, por exemplo, faz de tudo para conquistar um desejado papel e vive sob a sombra da falecida mãe, indicada ao Oscar e que agora terá este seu consagrado papel refilmado – e ela precisa lidar com o fato de que, mesmo sendo uma famosa atriz, não é a mais cotada para incorporar o papel da sua própria finada matriarca.

É interessante também a vida desestruturada do jovem Benjie (Evan Bird). Ele foi criado em um ambiente problemático, onde a irmã – descobre-se pouco a pouco – ateou fogo na casa da família, o pai desde sempre viveu no mundo artístico administrando a carreira de estrelas e o próprio Benjie, hoje estrelando uma série de TV, já teve que passar por um processo de desintoxicação envolvendo uso abusivo de drogas antes dos 13 anos. Porém, na realidade, a questão da fama aqui é mero detalhe para que o filme destrinche grandes problemas familiares e psicológicos em pessoa ricas em conflitos dramáticos.

O elenco segue tudo com total entrega e intensidade. Se Bird tem força e desenvoltura de sobra para dar vida a Benjie (um personagem difícil e intenso para alguém de sua idade), Julianne Moore dá um verdadeiro show como a ensandecida Havana, nunca tornando-a histérica ou caricata – o que seria fácil demais, visto que sua personagem é descontrolada e frequentemente vítima de azar e injustiças. E quanto à desenvoltura, naturalidade e capacidade de se transformar… Bom, neste sentido, Moore dispensa comentários. Mia Wasikowska também tem seus momentos como a garota que volta a Hollywood e vira assistente de Moore, até mesmo se distanciando de um certo tipo de garota difícil que tanto lhe marcou.

Obviamente, porém, Mapas Para as Estrelas não é para qualquer um. Além do final que transborda pessimismo, este é um longa de personagens difíceis inseridos em situações e vidas sufocantes. Assombrados por expectativas e alucinações, tentam colocar suas vidas nos trilhos. Mas tudo isso não impede que o resultado seja uma viagem gratificante, reflexiva e subversiva. Mais do que isso, uma investida bastante completa, como há tempos Cronenberg não fazia. Os ares estadunidenses (esta foi a primeira filmagem do diretor nos EUA em quase 50 anos de carreira) parecem ter feito muito bem ao autor.