Grace: A Princesa de Mônaco
The idea of my life as a fairytale is itself a fairytale.

Direção: Olivier Dahan
Roteiro: Arash Amel
Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi, Geraldine Somerville, Nicholas Farrell, Robert Lindsay, Olivier Rabourdin, Roger Ashton-Griffiths, Jeanne Balibar
Grace of Monaco, EUA/França/Bélgica/Itália/Suíça, 2014, Drama, 97 minutos
Sinopse: O casamento de Grace Kelly (Nicole Kidman) e o príncipe Rainier III (Tim Roth) foi considerado um conto de fadas na vida real quando aconteceu, em 1956. Entretanto, cinco anos mais tarde e com dois filhos, a verdade é que Grace está insatisfeita com a vida no palácio e o distanciamento do marido. A chance de novamente sentir-se útil surge quando seu velho amigo, o diretor Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), a convida para retornar ao cinema como protagonista de seu próximo filme: “Marnie – Confissões de uma Ladra”. O problema é que Rainier é terminantemente contra e, ainda por cima, está envolvido com uma ameaça vinda do presidente francês Charles de Gaule (André Penvern): caso Mônaco não pague impostos à França e acabe com o paraíso fiscal existente, o principado será invadido em seis meses. Em meio às inevitáveis tensões, Grace e Rainier buscam resolver seus problemas tentando evitar que eles causem o divórcio. (Adoro Cinema)

A própria Nicole Kidman declarou que Grace: A Princesa de Mônaco não é uma cinebiografia ou um documentário, mas sim uma busca da vulnerabilidade e humanidade da icônica atriz Grace Kelly. Só que, ao ver o primeiro corte do diretor Olivier Dahan, Harvey Weistein não gostou do que viu. Para que deixasse o filme ser distribuído, adiou o lançamento a fim de realizar mudanças, solicitou cortes e alterou vários pontos da estrutura proposta pelo diretor francês. A polêmica ganhou a mídia e o desgosto de Dahan pelo total controle do distribuidor em cima de seu filme foi escancarado para o mundo inteiro. Dahan deve ter suas razões porque, conferindo este resultado final que abriu o último Festival de Cannes ao som de vaias, fica a impressão de que se, para Weinstein, esta é a versão que merece chegar aos cinemas, é bem provável seus conceitos sobre o que é um bom filme sejam bem questionáveis. Essa sensação vem à tona porque Grace: A Princesa de Mônaco é tão decepcionante, sem personalidade e vazio quanto outra recente cinebiografia: Diana, que, ao invés de ser o tão esperado Oscar de Naomi Watts, revelou-se um filme conceitualmente errado em todos os sentidos.
A verdade é que não tem dado muito certo essa história de “humanizar” figuras históricas. Ao mesmo tempo em que realizadores tentam se esquivar das já fatigadas e quadradas fórmulas de biografias, os resultados apostam em um caminho nobre mas que até agora não foi executado de maneira envolvente. Grace até consegue reconstruir o ícone Grace Kelly, só que é insosso nos dramas pessoais da atriz, além de desinteressante na forma como apresenta seus questionamentos. O recorte escolhido já não é um dos mais interessantes: o início dos anos 1960, quando Grace havia abdicado da carreira de intérprete para se dedicar ao marido, príncipe de Mônaco. Usando como pano de fundo os conflitos com o estadista francês Charles de Gaulle, o longa de Dahan (ou de Weinstein?) opta erroneamente por dedicar boa parte de sua atenção à política, desviando-se da proposta de ser um retrato de uma mulher que, apesar da vida cheia de glamour, tinha problemas iguais aos nossos.
Se a disputa política fosse de certa forma uma influência dramática interessante na vida de Grace Kelly, a produção ganharia contornos realmente complexos. Porém, tanta atenção ao assunto resulta como tempo perdido e a política sempre fica longe de atrair o espectador. Paralelo a isso, o roteiro de Arash Amel traz uma leitura quase machista da vida de uma mulher que anseia voltar ao cinema mas que desiste de uma proposta de ouro (trabalhar novamente com Hitchcock!) para colocar os interesses do marido frente aos dela. Talvez fosse assim na vida mesmo, mas Grace – que logo em sua abertura diz ser um relato ficcional de uma história real -, mostra as desistências da protagonista de forma tão rasa e entediante que a relação dela com o marido resulta apenas inverossímil. Todas estas situações ainda são sublinhadas por uma trilha extremamente invasiva de Christophe Gunning – que é, de longe, um dos piores aspectos do filme.
Nicole Kidman há tempos não recebia uma responsabilidade como essa: protagonizar a cinebiografia de uma figura icônica e ser dirigida por um profissional que anos atrás revelou uma grande atriz ao mundo (a francesa Marion Cotillard). E o curioso aqui é que Nicole se esforça e tem bom resultado, mas contra a sua interpretação está o fator beleza. Grace Kelly tinha uma aparência singular. Só que Nicole também tem. Ou seja, ao mesmo tempo em que os closes de Olivier Dahan e o endeusamento da protagonista evidenciam uma mulher belíssima, em momento algum ela chega perto de ser… Grace Kelly! Nós vemos uma Nicole Kidman esbanjando beleza, não Grace Kelly. Escolher uma beleza forte para emular outra beleza forte não foi uma escolha acertada. Resumindo, nada é plenamente bem sucedido neste filme. Afinal, o que aconteceu com Dahan, que anos atrás realizou Piaf – Um Hino ao Amor, uma das biografias mais completas e relevantes dos últimos anos? Se ele quer se especializar em contar histórias de pessoas da vida real, é bom rever várias escolhas, já que Grace: A Princesa de Mônaco é fraco e decepcionante. Aqui no Brasil, pelo menos, não verá a luz do dia antes de 2015, mesmo já tendo rodado dezenas de países .
Boyhood: Da Infância à Juventude
You know how everyone’s always saying seize the moment? I don’t know, I’m kind of thinking it’s the other way around, you know, like the moment seizes us.
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Steven Chester Prince, Jamie Howard, Libby Villari, Ryan Power, Andrew Villarreal, Bonnie Cross, Elijah Smith, Sydney Orta, Tess Allen
Boyhood, EUA, 2014, Drama, 165 minutos
Sinopse: O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo. (Adoro Cinema)

Eventualmente somos tomados na vida por uma sensação de que nada acontece… Até olharmos para trás e perceber que tudo está diferente. Ao contrário do que muitas vezes esperamos de um filme na sala de cinema, por exemplo, a vida não se desenvolve apenas a partir de grandes momentos. É o conjunto de pequenas situações e aprendizados que, em sua maioria, nos faz evoluir. E o diretor Richard Linklater, um grande fã desta lógica, aplica literalmente tal proposta em Boyhood: Da Infância à Juventude, longa que filmou durante 12 anos acompanhando o crescimento de seu protagonista Ellar Coltrane. Se na trilogia Antes… Linklater já baseava a história de seus personagens em momentos do dia a dia e conversas corriqueiras, em Boyhood ele acentua ainda mais essa investida com esse filme extremamente cotidiano que prefere olhar para a beleza dos detalhes que quase passam despercebidos na vida.
Talvez o registro da realidade tão vendido por Boyhood pare mesmo na proposta em si, já que o filme, que supõe ser quase um documentário sobre a história de vida de um garoto desconhecido, escala os famosos Patricia Arquette e Ethan Hawke como os pais – o que, de certa forma, tira o espectador deste senso de registro documental. Mas Boyhood, apesar do que aparenta e repercute, é mesmo uma ficção, onde Linklater se encontrava anualmente com o elenco para gravar novas cenas de um roteiro escrito por ele próprio. Ou seja, não se engane: este não é um reality show sobre a vida do jovem ator Ellar Coltrane. A verdade é que os 12 anos percorridos pelo diretor servem apenas para que, ao vermos o crescimento do protagonista Mason, nos afeiçoemos a ele como os seus próprios pais.
Boyhood, como já mencionado, foi desenvolvido durante 12 anos, mas a equipe só filmou mesmo durante 45 dias ao total. Neste meio tempo, Linklater fez suas adaptações a fatores exteriores, incluindo atender o insistente pedido de sua filha para colocá-la em cena. A escolha se mostrou errada por dois motivos: Lorelei Linklater não é boa atriz e ela ainda se cansou do projeto, pedindo para sair. Este é um exemplo de como deve ter sido difícil para o diretor administrar tantas mudanças de sua equipe ao longo dos anos (especialmente quando ele lida o tempo inteiro com crianças e adolescentes), mas o resultado está certamente bem pontuado na tela. O que existe de mais precioso em Boyhood é como não percebemos o nosso crescente afeto pelo protagonista até o longa chegar, por exemplo, a sua formatura no ensino médio. Neste momento, nos comovemos com sua conquista como se fossemos parte de sua família. Ou seja, a evolução do personagem de Coltrane ultrapassa a curiosidade do natural crescimento físico para também conquistar no emocional – e este é, ao meu ver, um dos grandes méritos de Boyhood.
Já quanto ao filme como um todo, não sou um dos grandes entusiastas. O experimento me comoveu diversas vezes mas algumas fragilidades são perfeitamente notáveis. O primeiro ato envolvendo os primeiros anos da infância de Mason não são lá muito inspirados, em especial a parte que traz um pai violento e autoritário que passa a intimidar todos os personagens em cena. É como se Liklater quisesse fugir do mero relato cotidiano para inserir algum tipo de dramaticidade na história – o que resulta bastante artificial diante de toda a naturalidade que guia a proposta de Boyhood. Se Ethan Hawke surge muito bem nesta parte do filme tirando de letra a representação do pai distante que passa a tentar alguma conexão com os filhos, Patricia Arquette fica meio de escanteio – o que não favorece a atriz (que só vai ter seus melhores momentos lá para o final) nem a trama em si.
É fácil, no entanto, se envolver com a fase adolescente de Mason (Coltrane), principalmente porque é aí que, como todos sabemos, estão algumas das descobertas mais importantes da vida. O amadurecimento da relação com o pai, a saída de casa, a entrada na faculdade e os primeiros casos amorosos pontuam a parte mais fluida de Boyhood, que dá o devido tom reflexivo para que a história se encerre como uma experiência inspiradora. Em 165 minutos nada cansativos, vemos o protagonista crescer sem que necessariamente percebamos suas transformações físicas e emocionais. Quando nos damos conta, do nada, lá está Mason, já de barba no rosto, independente e com uma vida inteira pela frente. Totalmente diferente do que ele era uma hora antes na projeção. E, dadas as proporções de tempo e espaço, tudo não é exatamente assim tão repentino e surpreendente na vida?
Interestelar
Our greatest accomplishments cannot be behind us…

Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Elenco: Matthew McCounaghey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Matt Damon, John Lithgow, Bill Irwin (voz), Wes Bentley, Topher Grace, Ellen Burstyn, Timothée Chalamet, William Devane, David Gyasi
Interstellar, EUA/Reino Unido, 2014, Ficção Científica, 169 minutos
Sinopse: Após ver a Terra consumindo boa parte de suas reservas naturais, um grupo de astronautas recebe a missão de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie. Cooper (Matthew McConaughey) é chamado para liderar o grupo e aceita a missão sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), ele seguirá em busca de uma nova casa. Com o passar dos anos, sua filha Murph (Mackenzie Foy/Jessica Chastain) investirá numa própria jornada para também tentar salvar a população do planeta. (Adoro Cinema)

A lógica que guia os melhores filmes musicais é a de que as músicas surgem a partir da história – o que não temos visto muito atualmente, quando longas como Mamma Mia! ou Across the Universe, por exemplo, frequentemente falham por primeiro selecionar canções de determinado artista para depois criar a trama. O resultado? Narrativas frágeis e histórias rasas não acompanham a cuidadosa seleção musical. A mesma lógica parece ter sido aplicada por Christopher Nolan neste Interestelar – com a diferença, claro, de que as músicas aqui dão lugar para a física quântica. Intensificando cada vez mais um vício que lá em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge já se mostrava um tanto preocupante (o de complicar demais tramas essencialmente simples), Nolan, em seu mais novo filme, dá a entender que, durante um belo dia, folheou um livro de física quântica, elencou teorias que poderiam ser realmente aplicáveis na realidade e, a partir daí, construiu a história de Interestelar. E, assim como os musicais que se preocupam mais em homenagear alguém do que de fato desenvolver uma trama consistente, o diretor sai dos trilhos e se sufoca dentro de suas próprias pretensões.
Só que o caso de Interestelar é ainda mais grave porque estamos falando de um filme que custou nada menos que 165 milhões de dólares e que, em tese, como um blockbuster, deveria fazer altas bilheterias e dialogar de alguma forma com o grande público. Entretanto, Nolan aposta em um filme tão complicado, complexo e explicativo que fica difícil acreditar que as plateias esperadas se comunicarão por completo com o resultado. O britânico está se envolvendo em uma perigosa rede: seus filmes são grandiosos e de alto custo, mas suas histórias estão cada vez mais complicadas. A pergunta é: com viagens que só evoluem neste sentido, o grande público continuará cativo? E até quando os estúdios confiarão em Nolan para seus filmes, cujas propostas estão bem longe de garantir o resultado seguro que os investimentos em questão pedem? Não seria nenhuma surpresa ver Nolan ficando na geladeira pelos próximos anos ou realizando obras menos ambiciosas caso Interestelar aponte algum tipo de fracasso. E, julgando pelo que é aqui, o diretor, caso queira continuar nessa escalada de complexidade, precisa urgentemente achar suas devidas proporções. Não dá para ser tão restrito com orçamentos estratosféricos. Principalmente quando os trailers claramente escondiam o perfil complexo e difícil de Interestelar.
Na ânsia de apresentar teorias, o longa se perde logo no primeiro ato, justamente o momento em que é necessário fazer a plateia se conectar com os personagens. Só que o roteiro que Nolan escreve em parceria com o seu irmão Jonathan é muito mais cuidadoso com a física quântica e com explanações envolvendo a preocupante situação do planeta Terra do que com as personalidades dos personagens, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes. Por isso, despedidas não são tão tristes, motivações são quase inconvincentes e os elos entre cada uma das figuras em cena resultam extremamente frágeis. Querendo acertar na física, erra no básico do drama, o que dificulta com que nos importemos com o destino do personagens. É firula demais para uma história essencialmente simples – e que, curiosamente, sequer define muito bem a raiz de seu drama. Por isso, em certo ponto, fica quase impossível ter boa vontade para acompanhar e compreender tantas teorias que só servem para… trazer mais teorias. Toda essa complexidade, na verdade, pouco se desdobra em conflitos – o que significa que, em um palpite, apenas 10% das voltas que Nolan dá implicam em alguma consequência consistente para o filme.
O descuido com detalhes básicos do roteiro em prol dos rodeios quânticos segue durante toda a projeção. O melhor exemplo disso é o personagem de Matt Damon, que, em um primeiro momento, sugere ser a virada que Interestelar tanto precisava mas logo se apresenta como uma guinada tola ao estilo Marion Cotillard em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Uma total perda de tempo para um filme que custa a engrenar e que, neste momento, parecia disposto a finalmente trabalhar algo mais envolvente. Ledo engano. O “conteúdo” se abarrota cena após cena, culminando em um final quase absurdo de tão implausível (pelo menos dramaticamente, já que sou um leigo em física e apenas fã de dramaturgia), com resoluções que realmente beiram o desastre ou o cafona – afinal, precisava mesmo Jessica Chastain fazer uma descoberta, jogar os papeis para o alto, gritar “eureca!” e beijar o primeiro que aparece? Christopher Nolan continua mestre na experiência sensorial, sabendo utilizar como poucos a união de bons efeitos visuais, trilha emblemática (mais uma vez de Hans Zimmer, um dos pontos altos do filme) e todas as possibilidades do orçamento nas cenas que pedem grandes proporções, mas, infelizmente, está se afundando na própria pretensão.
Para quem deseja ignorar a complexidade e procurar por emoção, Interestelar também será profundamente frustrante. Esta é uma experiência vazia. Não tem romance, ação empolgante ou suspense intrigante – e, para um longa desta proporção, que depende tanto do retorno do grande público, esta carência é bastante prejudicial. Não que o filme de Nolan precisasse ser lacrimoso ou repleto de adrenalina, mas aí resultar apenas tedioso, desnecessariamente longo e repleto de excessos é outra história. Não bastasse tudo isso, Interestelar carregava ainda a difícil missão de ser filme o primeiro grande filme passado no espaço depois de Gravidade ter revolucionado por completo o tema. E, em todas as instâncias, Nolan fracassou em ser um sucessor ou pelo menos mais uma vertente da inegável excelência apresentada por Alfonso Cuarón no longa protagonizado por Sandra Bullock. Em Interestelar, o impacto visual do espaço não é o mesmo, os atores nunca parecem 100% entregues ou confortáveis (Jessica Chastain e Casey Affleck, principalmente, fazendo o que podem com papeis mal aproveitados) e o que realmente toca (a distância, a passagem do tempo, o que se perde entre quem está na galáxia e quem está na Terra) não é devidamente explorado. É hora de parar um pouco e repensar, Christopher Nolan. É inacreditável que um dos piores filmes do ano carregue a sua assinatura.
Relatos Selvagens

Direção: Damián Szifrón
Roteiro: Damián Szifrón
Elenco: Ricardo Darín, Óscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Érica Rivas, Rita Cortese, Julieta Zylberberg, Darío Grandinetti, Liliana Ackerman, Alejandro Angelini, César Bordón, María Laura Caccamo, Juan Pablo Colombo, Alan Daicz
Relatos Salvajes, Argentina/Espanha, 2014, Comédia, 122 minutos
Sinopse: Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens para um lugar fora de controle. (Adoro Cinema)

Nada mais normal do que dizer que filmes episódicos são irregulares. A série Cities of Love é a maior vítima desta crítica (e a mais recente versão, Rio, Eu Te Amo, não foge à regra), mas eis que esta máxima vem a ser quebrada agora com o excepcional Relatos Selvagens. É verdade que, ao contrário da série citada, os segmentos deste filme argentino de Damián Szifrón são todos dirigidos por ele próprio, mas as tramas são tão distintas e o diretor consegue imprimir diferentes linguagens a cada um deles que não dá para menosprezar a grande harmonia do filme com o fato de que existe apenas um diretor e roteirista por trás de tudo. Não. Relatos Selvagens é perfeito porque, mesmo tendo um único capitão, consegue ser múltiplo e afinado em tudo o que apresenta.
Mais um filme repleto de qualidades que saiu de Cannes de mãos abanando este ano (a exemplo de Acima das Nuvens e Dois Dias, Uma Noite), Relatos Selvagens deve chamar muitas pessoas ao cinema em função de Ricardo Darín, que parece ter tomado conta da filmografia inteira da Argentina. No entanto, é bom saber: ele é apenas detalhe dentro de um longa cheio de méritos que apresenta seis histórias sobre vingança contadas com muita acidez e com um humor que não deixa de lembrar o de Quentin Tarantino em Kill Bill (não à toa existe aqui também uma noiva ensaguentada). Os segmentos passam por estradas, casamentos, homicídios acidentais, restaurantes e outras circunstâncias, com o divertidíssimo começo sendo já um rápido (mas infalível) curta passado dentro de um avião.
Todos os personagens de Relatos Selvagens se encontram em situações limites. Se já não perderam a paciência com algum fato, ao menos estão prestes a explodir. Existe um certo número de traumas que uma pessoa pode suportar antes de sair pelas ruas gritando já diria a Jasmine de Cate Blanchett em Blue Jasmine. E, aqui, a vingança, a fúria e até mesmo a irracionalidade falam mais alto frente o sofrimento e o desespero. Talvez seja pela gama de personagens descontrolados que alguns acusam Relatos Selvagens de ser exagerado – o que é bastante errado dada a temática e o tom abertamente cômico proposto por Szifrón. Com uma trilha bastante funcional de Gustavo Santaolalla, o filme do argentino alcança sim um balanço entre a comédia e a dramaticidade com pleno êxito.
É complicado falar especificamente de cada segmento porque cada um deles reserva rumos bastante inesperados, do início ao fim. Relatos Selvagens não aposta na obviedade e frequentemente surpreende (com exceção da segunda história, passada em um restaurante, que é a menos inventiva), e, se existe algum disparate entre os segmentos, este seria que uns são mais excepcionais que outros – o que não quer dizer que algum deles fique abaixo da média. Conferindo o filme no cinema, vi uma reação rara da plateia que até então só havia presenciado em festivais de cinema: palmas em diversos momentos da sessão. Não resisti e fiz coro aos colegas cinéfilos no cinema. Isto porque, de fato, Relatos Selvagens é digno de aplausos.
Tim Maia

Direção: Mauro Lima
Roteiro: Antônia Pellegrino
Elenco: Babu Santana, Robson Nunes, Cauã Reymond, Alinne Moraes, Laila Zaid, Valdinéia Soriano, Paulo Carvalho, Bryan Ruffo, Luis Lobianco, George Sauma, Tito Naville, Renata Guida
Brasil, 2014, Drama, 140 minutos
Sinopse: “Mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno, mais tudo!” O grito de guerra de Tim Maia ainda ecoa nas festas de todas as gerações, idades e classes sociais, onde sua música é sinônimo de alegria e romance. Transgressor, amoroso e debochado, Tim se consagrou como um dos artistas mais queridos e respeitados da música brasileira. Desde a adolescência, quando desembarcou em Nova York sem falar uma palavra em inglês, Tim Maia sempre fez o que queria, com quem e quando queria, e pagou um preço alto por sua liberdade. Mas, depois de sua passagem, a música brasileira nunca mais foi a mesma.

Tim Maia é um filme que dá conta de seu personagem. O furacão nascido Sebastião Rodrigues Maia está bem retratado nesta nova cinebiografia dirigida por Mauro Lima (que, anos atrás, comandou Selton Mello como o traficante carioca João Guilherme Estrella em Meu Nome Não é Johnny), especialmente porque a dupla Babu Santana e Robson Nunes interpreta o cantor com exemplar fidelidade ao longo das décadas. Mas Tim Maia é um filme para quem consegue se contentar com as formalidades tradicionais de uma biografia, com direito a narrações explicativas, vida contada desde os tempos de criança, ascensão e queda de um astro em uma narrativa linear, e por aí vai. Faz parte deste grupo? Então é satisfação garantida. Já se você acha que um filme deste estilo precisa ir além do óbvio, é bom não elevar as expectativas.
Contemplando a história do cantor durante nada menos que 50 anos, Tim Maia opta por narrar por completo toda a trajetória de seu personagem-título (sempre gosto de dizer que recortes específicos podem dizer muito mais do que a narração de uma vida inteira), mas felizmente o filme de Mauro Lima consegue transmitir toda a difícil e tempestuosa personalidade de Tim, um sujeito que pode até ter alcançado o sucesso em função de sua perseverança em fazer o que bem entendia, mas que também perdeu muitas pessoas ao longo do caminho por causa de sua intransigência. Nós compreendemos quem era o protagonista e isso por si só já é uma grande conquista para o longa. Mauro Lima não é mau diretor e isso faz toda a diferença para que a história deste ícone não se torne uma verdadeira bagunça como foi Garrincha – Estrela Solitária, por exemplo.
Como em toda biografia que se preze, Tim Maia tem a seu favor dois ótimos atores incorporando o autor de clássicos da música brasileira como Gostava Tanto de Você, Não Quero Dinheiro e Descobridor dos Sete Mares. Enquanto Robson Nunes capta perfeitamente o timing cômico e genioso do personagem, Babu Santana obviamente se destaca por trazer ao espectador as maiores semelhanças físicas com o cantor. É especialmente no final, quando Tim Maia já enfrentava a solidão, o problema com as drogas e uma obesidade cada vez mais acentuada, que Santana tem os seus melhores momentos, seja representando o cantor no palco ou fora deles. Além da semelhança física, o que existe de especial no trabalho do ator é como ele dá sequência ao que Nunes realizou na primeira fase do personagem, fazendo com que o espectador nunca desvincule uma figura da outra.
Fora as convencionalidades, o que joga contra Tim Maia é o roteiro nada econômico de Antônia Pellegrino, responsável por estender o filme além do necessário. Já não bastasse a duração excessiva para um trabalho da Globo Filmes (em especial este, biográfico e com apelo comercial), o resultado faz sentir a metragem: são diversas as passagens que, se não pudessem ser excluídas, pelo menos fossem reduzidas pela falta de acréscimo dramático ao enredo, como a viagem de Tim aos Estados Unidos na adolescência. Que este espaço fosse usado para explorar mais a parte musical (vale registrar: o repertório do cantor é irresistível), que, quando aparece, tem momentos empolgantes. Isto porque Tim Maia se sai bem ao falar sobre os bastidores pessoais de seu personagem-título, mas quase não esmiúça a genialidade musical e a criação de tantos clássicos dele que até hoje colocam todos para dançar nas pistas.