Ponto Zero
Presta atenção! Só existem três coisas nesse mundo: existe a vida, existe a morte e existe a sorte.

Direção: José Pedro Goulart
Roteiro: José Pedro Goulart
Elenco: Sandro Aliprandini, Patrícia Selonk, Eucir de Souza, Nicolas Conceição, Thiago Ruffoni, Lisandro Belloto, Paulo Adriane, Carlos Azevedo, Luis Franke, Heinz Limaverde, João Carlos Carpendo, Camila Vergara, Giulia Perillo, Simone Telecchi, Luciana Domiciano e Larissa Tavares
Brasil, 2015, Drama, 94 minutos
Sinopse: Esta é a história de Ênio, um menino de 14 anos, capturado em uma claustrofóbica teia familiar que lhe toma a alma e lhe detém o desejo. Ao tentar escapar, ele enfrenta uma noite tempestuosa que o fará mergulhar no imprevisível, no fantástico, no aleatório.

Foram diversas as vezes em que sentei frente ao computador para escrever sobre Ponto Zero, filme gaúcho que conferi no dia 13 de agosto durante a programação competitiva do 43º Festival de Cinema de Gramado. Falhei em todas as tentativas. Isso não aconteceu por distração ou falta do que dizer, mas porque nunca encontrei as palavras certas para descrever o quanto Ponto Zero me comoveu – e talvez nunca encontre. De forma bem genérica, a explicação é a seguinte: esse é o tipo de experiência que, a cada minuto, me lembrava o porquê de eu ter me tornado um apaixonado por cinema. Sinceramente? Não sei se é necessário racionalizar cada detalhe que fez Ponto Zero conversar comigo. Às vezes é simplesmente um mergulho, algo cósmico, exatamente como acontece quando a gente se apaixona sem sequer se importar com as razões. Só que volta e meia vem essa necessidade de exteriorizar o sentimento, falar sobre a identificação com a obra, como se escrever sobre ela amenizasse a vontade que frequentemente vem de revê-la. Ou seja, o filme em si é a causa disso tudo, mas também a cura. Vou tentar agora, do jeito que for, falar um pouco sobre essa obra.
Durante o Festival de Cinema de Gramado, estranhava o fato do diretor José Pedro Goulart falar pouco em entrevistas, revelar quase nada sobre o filme e até mesmo escolher minuciosamente as fotos de divulgação de Ponto Zero (nenhuma delas sequer revela o rosto do protagonista). Frescura? Pretensão? Nada disso, mas, sim, ele involuntariamente criou muitas expectativas em torno do filme, e lembro que, quando a sessão começou, virei para minha colega e disse “é bom que esse filme seja uma obra-prima depois de tanto mistério”. E foi. De repente, o mínimo que o diretor falava sobre a obra fez todo sentido porque Ponto Zero se revelou uma obra digna de ser sentida e não necessariamente de ser explicada. É o típico caso de quanto menos se falar sobre o filme, mais imersiva e surpreendente será a jornada. Para quem gosta de comparações, muitos o relacionam a Depois de Horas, de Martin Scorsese, e eu não deixo de me lembrar da adolescência igualmente solitária e angustiante de Os Famosos e os Duendes da Morte. Mas Ponto Zero tem uma pegada própria e, mesmo com as similaridades temáticas, se distancia bastante desses dois filmes.
Já nos primeiros minutos é perceptível que o primeiro longa-metragem da carreira de Goulart (que dirigiu ao lado de Jorge Furtado O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, um dos mais célebres curtas da cinematografia brasileira) tem um apuro técnico impressionante. A piscina que se confunde com o espaço, a narração que fala sobre distância ao relatar um problema entre dois astronautas e a lindíssima trilha sonora de Léo Henkin já dão o tom: gostando ou não, esta é uma obra que não lhe causará indiferença – e sempre gosto de reforçar que não existe melhor elogio para um filme. Aos poucos, e muito silenciosamente, vamos entrando no conturbado mundo de Ênio (Sandro Aliprandini), um jovem que apanha dos colegas de escola e em casa vive um verdadeiro pesadelo frente aos problemas matrimonias de seus pais. Ele quase não é visto como alguém de personalidade própria – e seus longos cabelos já indicam que Ênio também comprou a ideia de que precisa estar constantemente escondido -, mas, em uma noite específica, embarcará sozinho em uma viagem pelas ruas de Porto Alegre que marcará sua vida para sempre.
Filmado quase inteiramente em ordem cronológica e com os atores recebendo os roteiros de suas cenas minutos antes de gravá-las, Ponto Zero é um filme de poucas palavras e de notável força visual. Dos impactantes momentos noturnos e chuvosos ao modo como é retratada a capital gaúcha (os carros aqui andam de trás para frente), todas as escolhas “técnicas”, digamos, comunicam alguma coisa, ao contrário dos que dizem que esta é uma obra que tem mais forma do que conteúdo. Afirmar que Ponto Zero tem embalagem demais para conteúdo de menos é uma verdadeira heresia – e pior: só comprova uma desatenção com cada mensagem escondida nas entrelinhas. Não é uma experiência fácil, admito, mas, para mim, essa definição vem por outros motivos: a história é mesmo quase desesperançosa, obscura, pessimista. E a desestruturação familiar – tema que pontuou basicamente todos os filmes do Festival de Cinema de Gramado deste ano – é apenas uma das feridas mexidas por José Pedro Goulart em meio a uma adolescência de solidão, ímpetos sexuais e uma incontrolável vontade de crescer logo.
Apesar do difícil drama transmitido também em imagens (Ponto Zero consegue uma viagem tão sensorial e hipnótica que nem percebemos um peso crescer em nossas costas), o resultado é perfeitamente contundente em sua concepção. Admiro a coragem do jovem Sandro Aliprandini, que, aos 14 anos, topou destemidamente embarcar em um projeto complexo como esse. Seu personagem é dos mais difíceis: quase não conhecemos a voz de Ênio e Sandro precisa exteriorizar em gestos e expressões a personalidade e as angústias de seu sufocado personagem. Tirou de letra. Apesar das sombras, entretanto, Ponto Zero é um filme sobre a busca por algum tipo de luz e, principalmente, sobre como essa procura só depende de nós. Fiquei dias processando a história (tanto que só agora consegui escrever sobre ela) e, nesse meio tempo, durante o Festival, consegui dar um abraço no jovem Sandro durante a entrevista que fiz com ele, e também dizer pessoalmente ao Zé Pedro o quanto eu torcia pelo filme dele. Não costumo fazer isso, mas o que eu sentia pelo filme pediu. Isso porque a obra falou comigo não apenas em função das minhas preferência cinéfilas, mas também por conseguir alcançar o meu interior como ser humano mesmo. Não vejo a hora de reencontrar Ponto Zero.
Rapidamente

Gaspard Ulliel e Louis Garrel estrelam a segunda cinebiografia sobre Yves Saint-Laurent que chegou aos cinemas em 2014. Apesar da seleção para Cannes, o filme está longe de captar intimamente a lenda que era o estilista francês.
CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, de Daniel Barnz): Vítima da antiga maldição dos atores de TV que não conseguem fazer carreira no cinema, Jennifer Aniston volta a provar que, dos seus colegas de Friends, ela é, sem dúvida, a que mais chegou longe. E isso não tem nada a ver com a infinidade de comédias (bobocas, diga-se de passagem) que Aniston protagonizou, mas com filmes sensíveis e que representam desafios para sua vida de atriz, como Por Um Sentido na Vida e A Razão do Meu Afeto. Só que fazia tempo que Aniston não participava de algo relevante, e Cake: Uma Razão Para Viver veio para mudar este cenário. Ainda que não seja uma injustiçada do Oscar 2015 (muitos reclamam que Marion Cotillard teria roubado a sua vaga com Dois Dias, Uma Noite), a atriz está particularmente bem aqui, conseguindo administrar uma personagem difícil e até mesmo desagradável. Já o filme não chega a engrenar e, com exceção da atuação de Aniston, da boa presença de Adriana Barazza e de uma ótima regravação de Halo, da Beyoncé, Cake pouco surpreende como um drama independente norte-americano.
A ESTRADA 47 (idem, 2014, de Vicente Ferraz): Gerou grande polêmica a vitória de A Estrada 47 no Festival de Cinema de Gramado ano passado. E não é só porque A Despedida, de Marcelo Galvão, era claramente o melhor trabalho em competição, mas também porque o filme de Vicente Ferraz está longe de ter qualquer brilho. Fora a história diferenciada (você sabia que o Brasil também lutou na Segunda Guerra Mundial?) não há absolutamente nada de novo – ou até mesmo envolvente – na execução em si. O comprometimento da equipe com a trama está explícito na tela, bem como a qualidade técnica: A Estrada 47 foi filmado no inverno italiano e os atores enfrentaram estas condições bravamente. O ritmo, entretanto, não ajuda, e o resultado é arrastado e nada instigante. Faltam conflitos pessoais consistentes (eles estão meramente abreviados em uma narração do protagonista Daniel de Oliveira) e envolvimento com a guerra. Ainda tento compreender o porquê desta história ter conquistado Gramado e, posteriormente, o Cine Ceará, onde também foi consagrado como melhor filme.
SAINT-LAURENT (idem, 2014, de Bertrand Bonello): Foram produzidas duas cinebiografias sobre o lendário estilista Yves Saint-Laurent em 2014. A primeira, realizada de forma mais tímida e com equipe pouco conhecida, já era decepcionante, o que nos levava a acreditar que Saint-Laurent, selecionada para a competição do Festival de Cannes daquele ano, pudesse suprir as lacunas deixadas sobre a vida do protagonista no cinema. A má notícia é que nada adiantou trazer dois jovens galãs contemporâneos da filmografia francesa para fazer este trabalho alçar voo. Infinitamente mais cansativo e decepcionante que o longa anterior sobre Laurent, o registro de Bertrand Bonello é confuso no desenho dos personagens e principalmente nos saltos temporais que faz ao longo de intermináveis 150 minutos. Continuamos sem saber quem era de fato Yves Saint-Laurent intimamente, e suas aventuras sexuais regadas a drogas pouco ajudam o espectador a se envolver com o confuso e problemático ser humano que ele era. Construindo um personagem muito mais afetado do que Pierre Niney na outra biografia, Ulliel é mais sedutor do que bom ator como Laurent – o que parece ser sua única arma para se destacar em um filme problemático, vazio e sem força. Somente na cena em que o protagonista mostra a uma mulher como ela pode se tornar alguém mais radiante com as roupas certas é que Saint-Laurent capta o estilista em sua profissão e espírito.
Cássia Eller
Eu nunca conheci ninguém como a Cássia. Ela era diferente. Ela era melhor.

Direção: Paulo Henrique Fontenelle
Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle
Brasil, 2015, Documentário, 115 minutos
Sinopse: O documentário Cássia retrata o ícone do cenário musical brasileiro nos anos 90. Em sua breve trajetória, Cássia Eller deixou uma marca inegável na cultura do país. Além da projeção musical, sua história pessoal expos tabus e ganhou repercussão nacional após sua morte, quando a guarda de seu filho “Chicão” ficou com sua companheira Maria Eugênia. O filme descreve através dos depoimentos de amigos como Zélia Duncan, Nando Reis e de Maria Eugênia toda a sua trajetória desde o inicio da carreira; além de narrar a personalidade paradoxal de Cássia, contrastando sua timidez e delicadeza com a irreverência e personalidade nos palcos.

Cássia Eller era um verdadeiro furacão nos palcos. Das performances explosivas à voz inconfundível, mostrou os seios diversas vezes, desafiou o público careta e abriu para todos a sua orientação sexual sem qualquer hesitação. Não era exclusivamente tanta “força”, entretanto, que a tornava única. O mais fascinante sobre Cássia era a sua capacidade de conseguir ser tudo isso e o oposto. Quando engravidou, abandonou as roupas rebuscadas para usar delicados vestidos. Se em determinada época não ligava para a opinião de quem dizia que ela gritava ao invés de cantar, logo mudou a diretriz da carreira quando ouviu a mesma avaliação do próprio filho, que revelou preferir Marisa Monte na época. Tinha opiniões fortes, mas era tímida e insegura frente à imprensa. Cantava Nirvana no Rock in Rio com uma fúria que impressionou David Grohl ao mesmo tempo que interpretava repertórios de Renato Russo e Édith Piaf. Cássia Eller era furacão e calmaria. Por isso, sintetizar em um único filme todo o seu espírito de conciliação era uma tarefa das mais difíceis. Felizmente, o documentário Cássia Eller, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, cumpre a missão com o mesmo intenso talento da cantora que retrata.
Uma das discussões mais clássicas é se a forma importa mais que o conteúdo. Cássia Eller está no lado do conteúdo, já que Fontenelle optou por realizar um documentário em uma forma clássica: depoimentos com pessoas sentadas frente a uma câmera, fotos, recortes de jornais e eventualmente trechos de consagradas apresentações musicais. E sabem o que é o mais interessante? O filme está longe de parecer um documentário quadrado tamanha a singularidade que Cássia Eller alcançou como pessoa e artista. Uma produção como essa nunca soaria tradicional tendo uma personagem tão complexa, rica e subversiva. E é exatamente isso o que acontece, mesmo que Cássia Eller tenha uma linearidade super óbvia que começa nos dias de anonimato da cantora e segue até a sua morte prematura, estendendo-se ainda à batalha judicial que concedeu a guarda de seu filho Chicão à companheira Maria Eugênia – e esse é um dos pontos altos do documentário não só pela força emocional envolvendo a recém falecida cantora mas pela vitória que significou para a classe LGBT.
O passo a passo temporal quase não é percebido aqui, pois acompanhamos a vida de uma mulher que nunca cansava de (se) surpreender. Musicalmente falando, Cássia Eller só cresceu a cada ano e um de seus momentos mais marcantes nos palcos é amplamente registrado aqui: a gravação do Acústico MTV, onde, abandonando quase por completo a Cássia “furiosa” que todos conheciam, apresentou músicas e novas versões de seu repertório que chegavam a se aproximar da melancolia. Durante toda a vida, a cantora foi celebrada como unanimidade, e Fontenelle faz com que até o espectador mais leigo consiga sair de Cássia também admirando a artista. Inclusive, mesmo para quem tem um pouco de noção da vida da personagem-título irá se surpreender com alguns fatos apresentados, como o que desconstrói a ideia de que Cássia Eller teria morrido em função de uma overdose (ela já vinha sofrendo crises de pânico que culminaram em um infarto do miocárdio, conforme laudo do IML que foi distorcido pela imprensa).
Contemplando o imenso ecleticismo da carreira da cantora, Cássia Eller nos faz lembrar de sucessos como Malandragem, Por Enquanto, Relicário e O Segundo Sol, e é impossível sair do filme sem querer ouvir novamente toda a discografia dela, que ainda hoje é lembrada por unificar os fãs dos mais variados gêneros. Poucos conseguem fazer música de qualidade para todos e o documentário de Fontenelle, além de completo e delicado ao passear pela vida da cantora, acerta na sua lição de casa ao explorar a contribuição musical da carioca que até os dias de hoje é considerada referência. Respeitoso, Cássia Eller nos leva ao íntimo de sua personagem com depoimentos de amigos e admiradores e também com um vasto material pessoal (as fotos, muito íntimas, são de uma beleza única, assim como as cartas lidas por Malu Mader). É ainda digno ao não se aproveitar das polêmicas envolvendo Cássia Eller, não se propondo a julgar qualquer uma de suas atitudes. Um belo tributo que todo artista relevante para qualquer arte deveria receber.
Divertida Mente
I’m positive that you’ll get lost in there!

Direção: Pete Docter e Ronaldo Del Carmen
Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve e Pete Docter, baseado em história de Pete Docter e Ronaldo Del Carmen
Elenco (vozes): Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Paula Poundstone, Bobby Moynihan, Paula Pell, Dave Goelz, Frank Oz
Inside Out, EUA, 2015, Animação, 101 minutos
Sinopse: Riley é uma garota divertida de 11 anos de idade, que deve enfrentar mudanças importantes em sua vida quando seus pais decidem deixar a sua cidade natal, no estado de Minnesota, para viver em San Francisco. Dentro do cérebro de Riley, convivem várias emoções diferentes, como a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza. A líder deles é Alegria, que se esforça bastante para fazer com que a vida de Riley seja sempre feliz. Entretanto, uma confusão na sala de controle faz com que ela e Tristeza sejam expelidas para fora do local. Agora, elas precisam percorrer as várias ilhas existentes nos pensamentos de Riley para que possam retornar à sala de controle – e, enquanto isto não acontece, a vida da garota muda radicalmente. (Adoro Cinema)

Dois trailers antecederam a minha sessão de Divertida Mente: os de Hotel Transilvânia 2 e Minions. E haja paciência, pois ambas as prévias já antecipam que ambas são animações que subestimam a inteligência de qualquer espectador. Só que há quem diga – levianamente, claro – que esse gênero existe com o propósito de apenas entreter crianças. Assim, a errada disseminação de tal lógica nos leva a produção de filmes que se utilizam somente de piadas físicas e nada criativas para arrancar risadas dos pequenos. No entanto, é sim missão do gênero educar o olhar desta geração e, principalmente, diverti-la com histórias refinadas e suscetíveis a crescerem junto com ela. A Pixar, apesar da baixa em qualidade que teve nos últimos anos, foi pioneira em entretenimento inteligente para crianças e obras igualmente fascinantes para os adultos, mas com Divertida Mente alcança um patamar muito acima do esperado, fazendo um contraste gritante com os trailers da minha sessão. Sim, é verdade, inteligência também é fundamental e necessária para as animações.
Antecedido pelo belo e sensível curta-metragem Lava (sobre um vulcão solitário cuja vontade de ser amado guia uma narrativa musical!), Divertida Mente é, sem dúvida alguma, o trabalho mais complexo já concebido pela Pixar. É, antes de qualquer coisa, uma obra que sintetiza o porquê do selo do estúdio ter alcançado notável reconhecimento: com a Pixar, há diversão para as crianças e material de sobra para que os adultos se envolvam tanto quanto elas. Ninguém é excluído de Divertida Mente, e o êxito do filme, que foi aplaudido em sua primeira sessão no Festival de Cannes este ano, também se reflete nas bilheterias: o trabalho da dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen é a maior estreia de bilheteria de uma história inteiramente original, superado o até então recordista Avatar. Cannes e bilheteria. Todos aplaudem a Pixar. E não é exagero dizer que bastam 10 minutos de Divertida Mente para se entender as razões desta conquista.
Mesmo se tratando de Pixar, é surpreendente que uma premissa tão atípica tenha saído do papel: aqui, a animação é passada toda dentro da mente de uma criança, onde os protagonistas são sentimentos! Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho ainda passeiam por lembranças, brincam com a imaginação, entram em pensamentos abstratos e descobrem detalhes de como são “produzidos” os sonhos. Há motivos de sobra para as crianças se entreterem com Divertida Mente, mas é somente com o tempo que elas conseguirão compreender o quão fascinante esse filme realmente é. Dos personagens adoráveis dentro e fora da mente ao plot pra lá de envolvente, a animação é assinada com impressionante segurança por Pete Docter, veterano da Pixar já responsável por Monstros S.A. e Up – Altas Aventuras, em parceria com o estreante na direção de longas Ronaldo Del Carmen. Além da direção, a dupla também tem os créditos da criação da história, o que comprova que a ousadia e a genialidade dos dois se estenderam para fora do papel.
Dosando humor e emoção em um universo constantemente surpreendente, Docter e Del Carmen ganham os pequenos com as cores, os personagens e as situações, mas fisgam o coração dos adultos com a escolha de falar sobre como a vida pode ser frustrante e imprevisível. Nós não temos controle sobre ela e às vezes não há otimismo que mude essa situação. Tão genial quanto parece ou quanto qualquer análise pode apontar, Divertida Mente recupera uma força criativa que parecia perdida na Pixar – e o faz transbordando criatividade e emoção em um roteiro atento a todos os detalhes, onde nenhum detalhe é esquecido. Porém, assim como em quase todos os filmes do estúdio, o que fica de mais válido é a série de ensinamentos deixados pela história em questão. No caso deste, é tudo muito claro e verdadeiro: sem alegria é difícil viver, mas a tristeza também faz parte das nossas vidas e é somente ela que nos amadurece e nos faz crescer. Uma reflexão super válida que norteia este novo clássico das animações que acaba de ganhar as telas do cinema.
A Incrível História de Adaline
Tell me something I can hold on to forever and never let go.

Direção: Lee Toland Krieger
Roteiro: J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz
Elenco: Blake Lively, Michiel Huisman, Harrison Ford, Ellen Burstyn, Kathy Baker, Amanda Crew, Lynda Boyd, Hugh Ross, Richard Harmon, Anjali Jay, Hiro Kanagawa, Peter J. Gray
The Age of Adeline, EUA, 2015, Drama, 112 minutos
Sinopse: Adaline Bowman (Blake Lively) nasceu na virada do século XX. Ela tinha uma vida normal até sofrer um grave acidente de carro. Desde então, ela, milagrosamente, não consegue mais envelhecer, se tornando um ser imortal com a aparência de 29 anos. Ela vive uma existência solitária, nunca se permitindo criar laços com ninguém, para não ter seu segredo revelado. Mas ela conhece o jovem filantropo, Ellis Jones (Michiel Huisman), um homem por quem pode valer a pena arriscar sua imortalidade.

A imortalidade é um dos sonhos mais antigos da humanidade. Que maravilha seria não envelhecer e ter todo o tempo do mundo para ver filmes, ler livros, descobrir músicas e conhecer todos os lugares do mundo, certo? Por outro lado, assim como no recente Amantes Eternos, A Incrível História de Adaline vem para assinar embaixo da teoria de que ter todo o infinito pela frente pode ser pra lá de desinteressante – e, no caso deste filme protagonizado pela gossip girl Blake Lively, uma condição especialmente dolorosa. Para Adaline, qual o sentido de ter a imortalidade em suas mãos se todos a sua volta não partilham da mesma “bênção”? Apaixonar-se, por exemplo, significa – que surpresa! – sofrer, já que a pessoa amada vive com um prazo de validade, e ter filhos é ver sua próxima geração dar adeus à vida antes de você. Por ter esse enfoque diferenciado em relação a uma das utopias mais clássicas do mundo, A Incrível História de Adaline conquista – e sua boa execução só impulsiona a agradável experiência que o filme proporciona.
Enquanto Jim Jarmusch olhava para a imortalidade com fadiga, o diretor Lee Toland Krieger o faz com pesar. A escolha é imensamente mais arriscada, por duas razões bem simples: A Incrível História de Adaline poderia cair facilmente para o melodrama ou apelar apenas para escolhas fáceis afim de agradar o grande público, visto que sua protagonista vem de um relevante sucesso televisivo nos Estados Unidos – e comercialmente tem a chance de mobilizar este público para as salas de cinema (não à toa a tradução brasileira é espetaculosa se comparada ao título original). Ainda que com ressalvas, o longa consegue sim se esquivar dos defeitos que poderiam estragar seu resultado, acumulando apenas um erro que, caso suprimido, poderia deixar A Incrível História de Adaline mais envolvente. Ao invés de apenas deixar no ar ou tornar fabulesca a magia que impede Adaline de envelhecer, o filme prefere racionalizar a situação com explicações físicas para justificar o fato – e por isso mesmo não é muito difícil deduzir como a situação se resolverá. Tirar um pouco os pés do chão só faria bem ao roteiro da dupla J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz.
Mais importante do que ter uma boa parte técnica a serviço das transições de época encenadas nos flashbacks (a direção de arte e os figurinos acompanham de forma irrepreensível o passar das décadas), A Incrível História de Adaline ganha verossimilhança principalmente pela escolha de seu elenco. Blake Lively prova ter fôlego e simpatia de sobra para carregar um papel que deve esconder o sofrimento de sua condição ao mesmo tempo que precisa irradiar a suposta empolgação de uma juventude cheia de possibilidades. Ela contracena com dois atores experientes e que, dada a proporção de seus papeis, conseguem ter aparições bem dignas: Harrison Ford e Ellen Burstyn, com ele sendo a chave de um dos momentos mais instigantes da trama. Os veteranos incrementam a boa sensação de que A Incrível História de Adaline tem coração e não é meramente uma brincadeira romântica ou dramática envolvendo a fantasia de nunca envelhecer.
É acertada a escolha do roteiro em não estruturar a cronologia da história de forma linear, já que brincar com o tempo poderia levar o filme de Krieger a se perder na transição das décadas com excesso de situações, personagens e até mesmo alegorias de maquiagens e figurinos. A construção só se beneficia com a opção de mostrar o passado apenas quando precisa justificar os porquês das atitudes de Adaline. O que não deixa mesmo que A Incrível História de Adaline seja uma experiência completa é querer explicar uma condição fantasiosa que não precisava de justificativas. Todos nós sabemos que deixar de envelhecer é simplesmente impossível. Por isso, não há narração que possa nos convencer que trovões e descargas elétricas são capazes de alterar o percurso natural da vida. É para se celebrar, no entanto, que tais explicações (pontuadas, claro, por um narrador onipresente) surjam apenas no início e no final do filme – ou não, já que estes são momentos cruciais em uma experiência cinematográfica. No caso de Adaline, os maiores problemas estão justamente aí.