Cinema e Argumento

007 Contra Spectre

You are a kite dancing in a hurricane, mr. Bond…

spectreposter

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Jez Butterworth, John Logan, Neal Purvis e Robert Wade, baseado na história de John Logan, Neal Purvis e Robert Wade e nos personagens criados por Ian Fleming

Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Christoph Waltz, Naomi Harris, Monica Bellucci, Andrew Scott, Rory Kinnear, Dave Bautista, Jesper Christensen, Alessandro Cremona, Stephanie Sigman

Spectre, Reino Unido/EUA, 2015, Ação, 148 minutos

Sinopse: James Bond (Daniel Craig) vai à Cidade do México com a tarefa de eliminar Marco Sciarra (Alessandro Cremona), sem que seu chefe, M (Ralph Fiennes), tenha conhecimento. Isto faz com que Bond seja suspenso temporariamente de suas atividades e que Q (Ben Whishaw) instale em seu sangue um localizador, que permite que o governo britânico saiba sempre em que parte do planeta ele está. Apesar disto, Bond conta com a ajuda de seus colegas na organização para que possa prosseguir em sua investigação pessoal sobre a misteriosa organização chamada Spectre. (Adoro Cinema)

spectremovie

007 Contra Spectre é um filme que enterra tudo o que o capítulo anterior, Operação Skyfall, fez de positivo pela franquia. Não seria um grande problema se este longa novamente dirigido por Sam Mendes fosse apenas esquecível (exatamente como foi com Quantum of Solace sucedendo Cassino Royale), mas o que acontece é que 007 Contra Spectre retrocede em aspectos importantes e conceituais, como a aposta no realismo e a dedicação a uma trama que dialoga com o clássico e o contemporâneo. Tudo é frágil demais neste novo filme que já tinha a difícil missão de dar continuidade a uma história tão bem realizada e madura quanto a de Skyfall, e a lembrança que fica deste novo capítulo é que ele não impressiona nem como um mero filme de ação isolado. Não é necessário ser um especialista para constatar onde 007 Contra Spectre erra. É claríssimo: o roteiro escrito a oito mãos é de uma superficialidade que chega a impressionar, o que é imperdoável visto que a autoria dele é justamente de nomes responsáveis por Cassino RoyaleOperação Skyfall. Estaria o quarteto cansado da franquia a ponto de conduzi-la com tanta displicência?

Os problemas começam no fato de que não há um sentimento de ameaça real em 007 Contra Spectre, já que o antagonista surge sem expressividade alguma. É difícil crer que Franz Oberhauser (Cristoph Waltz, mais contido do que o habitual mas risonho como sempre) seja a grande mente por trás de todas as vilanias desta nova fase da franquia. Oberhauser, além de suas motivações rasas e explicadas em diálogos altamente expositivos, também cai na caricatura mais óbvia dos vilões: o sujeito que sabe-se lá como implanta uma bomba mirabolante e faz o protagonista tomar uma decisão de vida ou morte em três minutos. Sendo mais específico, o vilão simplesmente não aterroriza ninguém porque não tem habilidade alguma, e a cena em que ele aprisiona James Bond, torturando-o com um equipamento que perfura crânios, está entre as mais constrangedoras e sem criatividade desta nova leva de filmes do agente secreto. Nem mesmo a tentativa do diretor de agigantá-lo logo em sua primeira aparição impacta, pois a ideia de colocar Oberhauser na ponta de uma mesa com o rosto escondido por sombras é uma das mais ultrapassadas quando o assunto é introdução de antagonistas. Uma curiosidade é que o papel chegou a ser oferecido ao veterano Gary Oldman, que disse não ao projeto, e com toda razão: não há ator de quinta grandeza que consiga impressionar com tal texto.

Com orçamento de 245 milhões de dólares (o filme mais caro entre todos de James Bond!), 007 Contra Spectre foi rodado em três continentes, trazendo obviamente todo um requinte que só locações verdadeiras podem trazer. Por outro lado, não faz diferença alguma o longa de Sam Mendes viajar por tantos países da Europa, América do Norte e África. Se a trama estivesse concentrada toda na Inglaterra, 007 Contra Spectre não sofreria qualquer alteração. Talvez porque as quase 2h30 de duração só esmiúçam uma história genérica demais e de pouca inteligência, que não exige um nível global de viagens para ser solucionada. Opções como um relógio explosivo, conflitos que partem de uma bomba-relógio e escolhas decisivas tomadas em uma ponte só trazem a sensação de que a nova empreitada de James Bond é apenas uma formalidade contratual depois do sucesso financeiro e criativo de Operação Skyfall. Já foi dito que este novo filme retoma o James Bond clássico – aquele mesmo de estripulias implausíveis, conquistador nato de mulheres e protagonista de cenas de ação pra lá de imaginativas – e, tendo muita boa vontade, dá para pensar por este lado, mas por que voltar de forma tão direta a isso depois da celebrada mudança de tom assumida desde que Daniel Craig passou a ser o protagonista? Não faz sentido mudar em time que está ganhando (e de goleada).

Toda essa situação só agrava, por exemplo, a falta que Judi Dench faz (Ralph Fiennes é um ótimo ator, mas não tem a ironia e a elegância da atriz inglesa) ou o problema de 007 Contra Spectre não ter personagens tão interessantes quanto os anteriores – e quando o filme os rememora em fotos ou diálogos a ausência se torna ainda maior. Excessivamente sentimental nos rumos que dá ao protagonista, o novo capítulo com a assinatura de Sam Mendes tem uma bond girl muito digna, interpretada por uma Léa Seydoux bela, interessante e dramatizada na medida certa (ao contrário da pífia participação de Monica Bellucci, que, de tão irrelevante, poderia ter sido interpretada por qualquer desconhecida para não decepcionar tanto). As sequências de ação seguem inegavelmente bem conduzidas, mas o roteiro é tão problemático que pouco se salva em 007 Contra Spectre. Depois de tanta especulação aliada à vontade de público e crítica para que Sam Mendes voltasse retornasse, não era de se imaginar que o resultado pudesse ser tão decepcionante. E, repito, isso não tem nada a ver exclusivamente com o filme viver à sombra de Operação Skyfall.

Rapidamente

citizenruth

No trabalho mais ácido e autoral de Alexander Payne, Laura Dern brilha como a problemática Ruth, em um desempenho injustamente ignorado pelas premiações.

CIDADES DE PAPEL (Paper Towns, 2015, de Jake Schreier): Mesmo sendo mais uma adaptação de um sucesso literário de John Green, Cidades de Papel não chegou a fazer nem um terço da bilheteria de A Culpa é das Estrelas. A arrecadação inferior é compreensível, pois a história não tem o mesmo apelo emocional e o próprio elenco é infinitamente menos interessante (como Shailene Woodley faz falta!). De qualquer forma, excetuando comparações, Cidades de Papel é um filme perfeitamente convencional: uma aventura adolescente sobre Quentin (Nat Wolff) um garoto que, apaixonado pela vizinha repentinamente desaparecida (Cara Delevingne), resolve procurá-la com a ideia de que ela deixou pistas justamente para ser encontrada. Neste sentido, Cidades de Papel é um tanto confuso na questão do gênero que segue, começando como um romance adolescente para logo em seguida ganhar tons de mistério, flertar com as comédias colegiais e terminar no drama. A mistura não é das mais harmônicas, deixando o filme fique quase sem personalidade. O que faz mesmo a diferença em Cidades de Papel é o fato de seu desfecho ser dos mais atípicos para produções do estilo. Há grandes chances do grande público desaprovar ou pelo menos considerar estranho o final mais reflexivo e longe de ser romantizado, mas a conclusão mostra uma maturidade rara em histórias populares como essa. Quem dera o cinema acostumasse mais o público com esses encerramentos.

RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, de Alexander Payne): Celebrei Nebraska, de 2013, como o retorno do verdadeiro Alexander Payne. Caso esse filme não existisse, poderia continuar considerando o diretor como um dos mais “domesticados” dos últimos anos. Famoso por sua acidez, por seus personagens atípicos e por tramas com belas doses de comédia e drama, ele vinha cada vez mais caindo na normalidade, e é até estranho lembrar que um longa tão convencional quanto Os Descendentes leve a sua assinatura, por exemplo. Minha teoria se confirmou conferindo Ruth em Questão, o primeiro filme de Payne e também o mais ácido e desafiador de toda a sua carreira. Se você acha Eleição ou até mesmo As Confissões de Schmidt sarcásticos, espere para ver o longa de estreia dele, que, além do afiado drama de Ruth (Laura Dern), jovem inconsequente e presa diversas vezes cheirando cola e até mesmo grafite, coloca no centro de seus conflitos a questão do aborto em dimensões raras no cinema. Ruth em Questão mostra a vida de sua protagonista de forma tragicômica (é o que Payne sempre faz de melhor) e traz um maravilhoso desempenho de Laura Dern solenemente ignorado pelas premiações, conferindo a este longa difícil – e por isso mesmo único – o estilo que Alexander Payne, pouco a pouco, diluiria em seus próximos filmes mas recuperaria de forma admirável em Nebraska.  

SICARIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, de Denis Villeneuve): Se existe qualquer semelhança entre SicarioTraffic, celebrado filme de Steven Soderbergh de 2000, ela para na questão temática. Isso porque o diretor canadense Denis Villeneuve não é inexperiente ao ponto de fazer um filme sem identidade própria. Muito pelo contrário: um dos melhores realizadores de sua época, Villeneuve novamente traz força e disciplina a uma história complexa e que não segue os caminhos esperados dentro do gênero. Até a metade dá para discordar disso, já que é quando Sicario parece apenas um filme sobre estadunidenses investigando um império de drogas na fronteira com o México. Nada de muito novo até aí, com exceção da bela escolha de personagens: os dois agentes escalados para a missão são um homem negro e uma mulher, sendo que ela, vivida por uma Emily Blunt cada vez mais merecedora de papeis fortes e dramáticos como esse, é a mais respeitada de seu segmento e quem dá ordens ao parceiro de trabalho. Por outro lado, aos poucos Sicario vai envolvendo e, no silêncio quase imperativo de sua trama (tudo se revela sutilmente, fazendo com que o espectador tenha que ficar atento aos detalhes), chega até mesmo a sufocar nos momentos derradeiros, mostrando até que ponto vão nossos princípios na busca pela justiça e na nossa avaliação do que é certo ou errado. A direção de Villeneuve é mais consistente que o roteiro do estreante Taylor Sheridan, e as parcerias que ele volta a estabelecer são fundamentais (a perturbadora trilha de Jóhann Johannsson e a fotografia de Roger Deakins são um show a parte), o que amortece eventuais fragilidades da trama, ilustrada ainda por um marcante desempenho de Benicio Del Toro.

45 Anos

So full of history, you see?

45yearsposter

Direção: Andrew Haigh

Roteiro: Andrew Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine

Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Dolly Wells, Geraldine James, Richard Cunningham, Sam Alexander, David Sibley, Max Rudd, Michelle Finch, Kevin Matadeen, Camille Ucan

45 Years, Reino Unido, 2015, Drama, 95 minutos

Sinopse: Kate Mercer (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa. (Adoro Cinema)

45yearsmovie

Nunca defina o britânico Andrew Haigh como um diretor para o público gay. Não é assim que ele quer ser reconhecido. Na realidade, essa nunca foi a sua intenção. É claro que o currículo aponta para um outro caminho: seus dois primeiros longas-metragens, Greek Pete e o ótimo Weekend, falam sobre relações homossexuais e, logo após a realização deles, Haigh foi para a HBO fazer Looking, seriado com a mesma temática. Pura coincidência, segundo ele. Haigh quer ser lembrado, na realidade, como um autor dedicado à complexidade das relações humanas, independente de qualquer definição ou sexualidade. Quem disse isso foi ele próprio, quando exibiu 45 Anos, seu mais recente trabalho, no Festival de Berlim deste ano. No evento, o filme saiu consagrado com os prêmios de melhor atriz e ator para os protagonistas Charlotte Rampling e Tom Courtenay, mas, embarcando na história, logo se percebe que, mesmo que o maravilhoso desempenho da dupla seja um marco, a franqueza dela só seria possível nas mãos de um diretor como Haigh, que compreende que uma simples viagem ao mais íntimo do ser humano pode ser a fonte inesgotável de dramas e reflexões que tantos procuram em circunstâncias mirabolantes. 

Assim como em Weekend, o novo filme de Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, se utiliza de uma estrutura das mais inteligentes: a de ambientar todos os acontecimentos em um único recorte de tempo – no caso, os quatro dias que antecedem a festa de 45 anos de casamento de Kate (Rampling) e Geoff (Courtenay). É inteligente porque o diretor sabe que não precisamos acompanhar a vida inteira dos personagens na tela para realmente conhecê-los. O que basta é uma conversa onde Kate diz se arrepender não ter tirado mais fotos com o marido ao longo dos anos ou a forma carinhosa com que lembra da infinidade de animais de estimação que tiveram, fazendo uma clara referência ao fato do matrimônio não ter gerado filhos. 45 Anos se constrói e se explica por meio desses pequenos momentos, e a fórmula funciona ainda mais a partir do momento em que Geoff recebe uma carta que reativa lembranças de uma tragédia de anos atrás. Passando do inesperado romance jovem de Weekend para o relato maduro de um casamento de mais de quatro décadas que entra em uma intensa reflexão, Andrew Haigh não tropeça na significativa transição temática e entrega, em 45 Anos, uma sólida história onde o presente é reinterpretado a partir do passado rumo a um futuro agora incerto.

Sabendo o mínimo possível sobre os detalhes da trama, a experiência de mergulhar nesta repentina reavaliação matrimonial se torna ainda mais envolvente, principalmente porque o roteiro aborda o ponto de vista de Kate e não o de Geoff, que seria o escolhido por praticamente todos os diretores. Se, assim como a protagonista, descobrirmos aos poucos o que envolve a tal mensagem recebida e os efeitos que surgem a partir dela, é bem provável nos sentirmos parte desse mesma viagem incômoda e até mesmo dolorosa. O que basta saber sobre 45 Anos é que inicialmente este parece um filme apenas sobre um dilema envolvendo um anúncio entregue por correio, mas a verdade é que tudo toma proporções bem maiores e delicadas que nos levam a pensar que a vida pode ser simplesmente uma série de jogadas certas ou erradas em um universo de aleatoriedades. Entre coisas não ditas e memórias impossíveis de serem ignoradas, o roteiro também nos lembra da dura verdade que às vezes não há proximidade ou casamento que nos garanta conhecer o outro por completo. 45 Anos parte dessas desconstruções, arquitetando cada momento de forma sempre sutil e silenciosa, especialmente do lado de Kate, que é quem o roteiro e a câmera do diretor escolhem seguir em todas as cenas, sem exceção.

Ao mesmo tempo em que é crível ao mostrar como se configuram relações de longa data, o filme sabe lidar muito bem com cada um dos personagens isoladamente. Enquanto a obsessão de Geoff é perfeitamente compreensível (afinal, quem conseguiria deixar de lado as lembranças de um passado como o dele?), a angústia de Kate passa a tomar conta de nós porque a personagem vive praticamente em silêncio, tentando não demonstrar pensamentos e sentimentos que estão claramente lhe consumindo. E é aí que a experiência e o talento de atores como Courtenay e Rampling fazem toda a diferença. Ela, em especial, é quem domina a cena por ter obviamente mais destaque e o papel melhor explorado, mas vale lembrar que são poucas as intérpretes que conseguiriam interiorizar tantas coisas e ao mesmo tempo transparecer isso ao espectador através de somente um olhar ou um gesto. A condução que a britânica adota para o papel vai de acordo com o próprio filme, que sempre tem um certo nervosismo no ar. Isso é resultado da rotina minuciosa da pacata vida dos personagens, da ambientação em uma casa isolada no interior e do naturalismo com que Haigh imprime à história sem o uso de qualquer intervenção, nem mesmo de trilha instrumental.

45 Anos é destas experiências que ficam com o espectador após o desfecho e que só crescem com o passar do tempo. Ficam as lembranças também porque o filme reserva seu melhor para o último dia que acompanhamos da vida de Kate e Geoff. Faz todo sentido, por exemplo, que, nos momentos finais, eles dancem ao som de Smoke Gets in Your Eyes, do The Platters, uma canção que, inicialmente romântica, pode ganhar uma nova leitura sob à luz desse filme. Trechos dela como “Eles me perguntaram como eu sei que o meu amor verdadeiro é verdadeiro” e “Eles disseram que um dia você vai descobrir que todo o amor é cego” são a narração perfeita para este momento que, graças aos dois atores, torna-se repleto de significados – e o que Rampling faz nos exatos 10 segundos finais é de um verdadeiro assombro. Assim, apesar da decepção que é Looking, Andrew Haigh, pelo menos no cinema, continua como um nome para ficarmos sempre atentos – e, para quem vos escreve, fã de carteirinha de dramas sobre relacionamentos e suas complexidades, um cineasta que desde já cria imensas expectativas por seu próximo trabalho.

Os 33

Aim to miss.

the33poster

Direção: Patricia Riggen

Roteiro: Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, baseado no livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar

Elenco: Antonio Banderas, Juliette Binoche, Rodrigo Santoro, Gabriel Byrne, Adriana Barraza, Bob Gunton, Paulina García, Lou Diamond Phillips, Juan Pablo Raba, Mario Casas, Naomi Scott, James Brolin, Kate del Castillo, Oscar Nuñez, Jacob Vargas

The 33, EUA/Chile, Drama, 120 minutos

Sinopse: Capiapó, Chile. Um desmoronamento faz com que a única entrada e saída de uma mina seja lacrada, prendendo 33 mineradores a mais de 700 metros abaixo do nível do mar. Eles ficam em um lugar chamado refúgio e, liderados por Mario Sepúlveda (Antonio Banderas), precisam racionar o alimento disponível. Paralelamente, o Ministro da Energia Laurence Golborne (Rodrigo Santoro) faz o possível para conseguir que os mineiros sejam resgatados, enfrentando dificuldades técnicas e o próprio tempo. (Adoro Cinema)

the33movie

Só pela composição do elenco se percebe que Os 33 não é um filme particularmente comprometido com suas raízes. Sejamos francos: escalar um espanhol (Antonio Banderas), uma francesa (Juliette Binoche), um irlandês (Gabriel Byrne) e um brasileiro agora praticamente estadunidense (Rodrigo Santoro) para protagonizar, falando inglês, uma história sobre o povo chileno é o primeiro indicador de que esta é uma produção motivacional de sobrevivência para norte-americano ver – e, quem sabe, arrecadar uma gorda bilheteria com as estrelas reunidas. Poderia ser pior: Binoche foi escalada de última hora para substituir Jennifer Lopez, que preferiu priorizar sua participação no reality show musical American Idol! Não entrando em maiores discussões sobre este mundo em que uma atriz do calibre de Binoche vem para compensar a ausência de Jennifer Lopez, concluímos, então, com tal panorama, que Os 33, apesar de não ser o que podemos chamar de um filme necessariamente oportunista, está mais preocupado com o possível espetáculo de sua extraordinária história do que com fazer um retrato marcante deste que foi o maior acidente envolvendo mineiros na história do Chile.  

Não dá para deixar de se impressionar com o que os 33 mineiros do título viveram. Preso a quase 700 metros de profundidade após um grande deslizamento dentro de uma mina na cidade de Capiapó, o grupo sobreviveu durante 17 dias sem ter contato algum com o exterior, dividindo uma caixa de comida pensada para satisfazer apenas 30 pessoas durante três dias. Como sabemos, todos saíram vivos de lá, o que é um feito simplesmente extraordinário. E quando se afirma que Os 33 não é necessariamente oportunista, isso é porque o filme dirigido por Patricia Riggen, mesmo com suas convencionalidades, não pesa a mão e muito menos parte para o implausível com a missão de tirar lágrimas do espectador. Neste sentido, o relato é respeitoso e entrega ao público menos exigente (ou em busca de um mero entretenimento baseado em fatos reais) a fórmula sempre certeira para fins comerciais que tanto caracteriza os novelões estadunidenses sobre superação do ser humano: o tradicional início, meio e fim, subtramas de descontração, redenções pessoais, reavaliações da vida e o final feliz inspirador.

Já para quem procura transgressão, Os 33 é bastante decepcionante. Ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira ou até mesmo do recente Expresso do Amanhã, o filme de Patricia Riggen não explora a construção de uma nova “sociedade” em um ambiente isolado e de condições impensáveis. Os 33 não é sobre o comportamento humano frente ao desespero – o que, diga-se de passagem, seria um caminho inteligentíssimo a ser seguido. Na realidade, o roteiro do trio Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, que tem como base o livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar, é simplesmente sobre o racionamento de água e comida e a busca por possíveis saídas dentro da mina. Nada mais. Enquanto isso, do lado de fora, familiares reivindicam por mais buscas e as autoridades pouco a pouco começam a agir. É tudo muito inofensivo e linear, o que não dá à história a devida dimensão dramática que ela merecia, sem falar dos habituais cacoetes de filmes sobre tragédia, como o sujeito que, desde o início, avisa que a situação pode ser perigosa mas nunca é ouvido e o coadjuvante que entra na mina e, por alguma força desconhecida, já não se sente bem lá.

Nos tradicionais ingredientes do gênero que compõem a mistura de Os 33, coloque ainda alívios cômicos (muitos deles entregues a uma subaproveitada Adriana Barraza), soluções arquitetadas sem muita criatividade (óbvio que um importante passo para a solução do conflito principal surge de uma conversa motivacional e aparentemente passageira) e uma trilha sonora (a última do recém falecido James Horner!) que tenta reproduzir a latinidade ausente no restante da obra. Uma vez ou outra Patricia Riggen tenta dar o seu toque ao filme, como no momento em que encena um banquete entre os mineradores (não é a mais brilhante das ideias, mas pelo menos tira um pouco a história do didatismo), e consegue o mais difícil: não se perder nas dezenas de personagens que protagonizam o grande conflito da trama. Só que realmente não há como fazer diferente com um projeto que, na mais funda de suas raízes, já foi pensado como entretenimento para o cinemão dos Estados Unidos e não como uma verdadeira homenagem à brava história desses 33 homens chilenos.

Beira-Mar

beiramarposter

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Mateus Almada, Maurício Barcellos, Irene Brietzke, Elisa Brittes, Maitê Felistoffa, Francisco Gick, Fernando Hart, Danuta Zaguetto, Ariel Artur

Brasil, 2015, Drama, 83 minutos

Sinopse: Martin e Tomaz passam um fim de semana imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto.

beiramarfilme

Os anos 2000 têm sido riquíssimos para o mundo jovem no cinema. Desde a virada do milênio, a temática foi contemplada com longas mais descontraídos (Antes Que o Mundo AcabeAs Melhores Coisas do Mundo), experiências complexas (Os Famosos e os Duendes da Morte), quase-fábulas irresistíveis (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) e até mesmo documentários assinados por grandes mestres (Eduardo Coutinho e seu Últimas Conversas). Por outro lado, mais recentemente, a safra direcionou um carinho especial aos jovens repletos de questionamentos, de famílias desestruturadas e de transições complicadas para a vida adulta.  O apelo colou, e os festivais de cinema passaram a celebrar filmes assim: o delicado Ausência começou sua trajetória no Festival do Rio e chegou à Toulouse, enquanto o arrebatador Ponto Zero fez sua estreia em Gramado em 2015 sendo considerado o grande injustiçado da premiação. Arrisco a dizer, por outro lado, que nenhum outro filme com estilo mais contemplativo sobre a adolescência tenha sido tão aguardado quanto o gaúcho Beira-Mar, exibido no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Com estreia programada para 5 de novembro, o filme da dupla Felipe Matzembacher e Marcio Reolon é, entretanto, a experiência menos interessante entre as destacadas aqui.

Matzembacher e Reolon, que entrevistei algumas vezes e que já participaram de matérias e colunas aqui do blog, vão ter de me desculpar, mas, mesmo sendo admirador de vários projetos deles dentro e fora das telas (em 2012, por exemplo, Um Diálogo de Ballet era o meu curta favorito em competição no Festival de Cinema de Gramado), não cheguei a me envolver emocionalmente ou até tecnicamente com Beira-Mar. Nele está representada uma gama de reflexos da vida de seus realizadores, conforme eles próprios assumem: o filme é um resgate do que a dupla viveu, de uma forma ou outra, na adolescência, e também mais um exercício audiovisual dos diretores sobre o tema juventude e identidade sexual. Neste sentido, ponto para Beira-Mar, que é uma produção legitimamente Matzembacher-Reolon (sempre acho admirável quando diretores conseguem ter uma assinatura facilmente reconhecível desde que não caiam em repetições, como é o caso deles). Já quanto à execução, encontrei pouco do que considero como os maiores diferenciais da dupla. O estilo da narrativa é bom: nada é mastigado ou expositivo demais, inclusive porque os diretores preferem trilhar o caminho das entrelinhas. Entretanto, mesmo após alguns dias da minha sessão, o peso dos aspectos que considero ruins continua a me incomodar infinitamente mais.

Já começo tendo problemas com a escalação da dupla principal. Fora o óbvio fato de Maurício Barcellos, por exemplo, não ter nenhuma experiência prévia em atuação (e isso está evidente ao longo de todas as suas cenas no filme), falta uma energia de amizade entre ele e Mateus Almada – e isso é um grande problema, pois a conexão estabelecida pelos dois personagens seria o mote de Beira-Mar. Não é necessariamente culpa deles, vale dizer. O que acontece é que nem bem o filme completa meia hora, e Martin (Almada), que convenceu o introspectivo Tomaz (Barcellos) a deixar a família “puta” por deixar de ir a um casamento para acompanhá-lo em uma viagem à praia, não hesita ao entrar sozinho em um bar mesmo sabendo que o amigo, que viajou justamente para lhe fazer companhia, está impossibilitado – e claramente sem vontade – de entrar no local. É, no mínimo, um abandono um tanto inusitado para dois jovens que seriam supostamente tão amigos. Mais à frente, Beira-Mar já flerta com a homoerotização da relação em uma cena explícita nesse sentido: a dupla de diretores, ao colocar os dois personagens jogando videogame, os enquadra de forma com que pareça que os dois estão se masturbando lado a lado compulsivamente. A homoerotização não é o problema, mas sim a prematuridade dela, já que, pelo menos para mim, ainda não estava consolidada a ideia de forte amizade entre os personagens. Neste ponto, é mais fácil ver Martin e Tomáz como inevitáveis e futuros amantes do que como amigos incondicionais.

Não parece existir grande intimidade entre os dois protagonistas, e vários momentos do filme corroboram isso, como quando descobrimos que um esconde do outro seus desenhos em um caderno ou quando as relações estabelecidas verdadeiramente por eles no plano amoroso só são verbalizadas após algum conflito envolvendo o assunto aos 45 do segundo tempo. Falta em Beira-Mar o que Alfonso Cuarón conseguiu desenvolver com maestria em E Sua Mãe Também: no filme estrelado por Diego Luna e Gael García Bernal (também sobre dois amigos passando uma temporada longe de casa e coincidentemente no litoral), não demorava muito para que sentíssemos naturalmente a longa amizade cultivada com calor e intimidade pelos personagens – e, detalhe, ela também envolvia uma masturbação (literal!) entre eles. Assim, se já é difícil embarcar no sentimento de amizade de Martin e Tomaz, o que dizer, então, dos dramas familiares sem maiores aprofundamentos e das aventuras sexuais e etílicas vivenciadas pelos dois neste tempo que passam juntos? O principal, pelo menos para mim, não funciona, o que termina minando consequentemente todo o resto.

Um dos aspectos mais instigantes na proposta de Beira-Mar é a ambientação invernal em uma casa no litoral. A cidade está vazia (quase não vemos outras pessoas habitando este local não especificado) e o cenário parece perfeito para reproduzir o que se passa no interior dos protagonistas. Só que o mar frio e revolto indicado pela sinopse só é visto no desfecho do longa e a geografia não é fator tão influente no que se desenvolve emocionalmente, o que faz com que se torne indiferente a ideia de Beira-Mar se passar na praia (se fosse feito em uma cidade do interior da Alemanha não faria diferença alguma). É impossível não lembrar de como Woody Allen, nos anos 1970, fez justamente o oposto ao encenar um intenso drama familiar à beira da praia com Interiores. Lá sim o contexto do mar se desenhava como fator decisivo nas lembranças e no próprio destino dos personagens confinados no litoral. Em Beira-Mar, a ambientação funciona esteticamente, mas desaponta como ferramenta narrativa deste longa já necessitado de diálogos mais inspirados.

Por falar em narrativa, este é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras: uma viagem transformadora, um confronto com nossas raízes familiares ou um retrato das angústias adolescentes, por exemplo. Nenhuma é particularmente imperativa ou marcante, principalmente a familiar, que sempre deixa questões muito no ar e que simplifica dramas que mereciam mais atenção (é indesculpável que a figura do pai, lembrado apenas como o sujeito responsável por deixar más lembranças ao filho e que só quer passar perna na família, seja tão mal explicada). Ainda é um tanto confusa a virada que Beira-Mar dá em seus últimos momentos, quando finalmente coloca na tela algo esperado e até mesmo insinuado ao longo de toda a história. O novo sentido que o roteiro dá à relação de Martin e Tomaz surge abrupto e questionável, pois o filme acaba justamente quando deveria esmiuçar o que um momento tão decisivo como aquele de fato significa para os personagens – e isso não tem nada a ver com o que ambos farão com aquilo dali em diante, mas sim com as verdadeiras razões que os levaram até este ponto. Nós não sabemos muito bem o porquê dessa mudança na relação deles. Queria muito ter gostado do filme tanto quanto gosto de outros projetos dos diretores, mas, assim como uma tarde fria e chuvosa na praia, Beira-Mar decepciona por entregar justamente o oposto do esperado.