Chatô – O Rei do Brasil
Nós vamos entupir o rabo do Brasil de notícias!

Direção: Guilherme Fontes
Roteiro: Guilherme Fontes, João Emanuel Carneiro e Matthew Robbins, baseado no livro homônimo de Fernando Morais
Elenco: Marco Ricca, Andréa Beltrão, Paulo Betti, Leandra Leal, Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, Letícia Sabatella, Zezé Polessa, Walmor Chagas, José Lewgoy
Brasil, 2015, Comédia, 102 minutos
Sinopse: O magnata das comunicações Assis Chateaubriand (Marco Ricca) é a estrela principal de um programa de TV chamado “O Julgamento do Século”, realizado bem no dia de sua morte. É nele que Chatô relembra fatos marcantes de sua vida, como os casamentos com Maria Eudóxia (Letícia Sabatella) e Lola (Leandra Leal), a paixão não-correspondida por Vivi Sampaio (Andréa Beltrão), como manipulava as notícias nos veículos de comunicação que comandava e a estreita e conturbada ligação com Getúlio Vargas (Paulo Betti), que teve início ainda antes dele se tornar presidente. (Adoro Cinema)

A novela dos bastidores todo mundo já conhece (caso não, eis aqui um resumo dela), mas o que ninguém esperava era que Chatô – O Rei do Brasil vencesse polêmicas e se revelasse uma obra surpreendente. O tempo não fez mal ao filme de Guilherme Fontes, cujo atraso no lançamento não empoeirou nem mesmo os rostos dos atores de 15 anos atrás. Aliás, é uma vitória ainda maior Chatô se mostrar inventivo até hoje, o que só comprova que, caso tivesse sido exibido na cronologia certa, essa produção teria sido um verdadeiro marco em termos criativos do nosso cinema. O cineasta Cacá Diegues já chegou a dizer que Fontes realizou o último filme tropicalista do Brasil, enquanto o crítico Luiz Carlos Merten definiu a experiência como Orson Welles sendo devorado por Macunaíma. Todas são comparações super coerentes e dizem muito sobre este filme que não merecia ter passado tanto tempo na geladeira – ou, nas palavras do próprio Fontes nos créditos finais, sendo censurado.
Ainda hoje faltam, no nosso cinema, filmes como Chatô. Ou seja, obras com sátiras afiadas, carnavalização certeira de situações e misturas transgressoras de comédia com cenários políticos e sociais. A produção cinematográfica brasileira se tornou praticamente estanque em termos de ousadia, além de acuada com a ideia de brincar com sistemas e figuras poderosas. Perceba: é bem provável que você sequer, por exemplo, consiga elencar em uma mão filmes sobre a política brasileira. A situação é pior ainda quando se trata de comédias, e Chatô vem com esse bem-vindo serviço de cutucar a caretice do cinema brasileiro ao transitar por política e jornalismo com uma fluidez invejável. Ajudam a dar o tom: a montagem propositalmente afetada, o histrionismo cômico e o elenco de braços abertos aos seus personagens (e ninguém teria se beneficiado mais com o lançamento de Chatô 15 anos atrás do que Marco Ricca, que está em um dos grandes momentos de sua carreira).
Guilherme Fontes surpreende como diretor ao fazer as parcerias certas para reconstituir época e fazer valer o investimento que cercou Chatô. Além disso, ele mostra bom tino para criação ao posicionar câmeras em lugares inusitados (e não de forma gratuita), encenando devaneios com destreza no humor e segurança na condução dos atores. É um grande feito conseguir com as hipérboles em direção e atuação não prejudiquem o filme, que conquista justamente por suas alegorias. O registro histórico, social e jornalístico do Brasil a partir das megalomanias de Assis Chateaubriand vem regado a várias críticas através do humor, o que, por outro lado, torna grande a decepção com o fato de Chatô não ser uma obra consistente em termos de conteúdo. O filme peca ao fazer com que o espectador leigo saia da sala de cinema sabendo pouco sobre seu protagonista e principalmente sobre quais foram as grandes manobras feitas por ele para se tornar uma poderosa figura do jornalismo.
A sensação de vazio proporcionada por Chatô ao nunca humanizar seu personagem é grande. Não que ele precisasse falar sobre passados traumáticos ou chorar copiosamente nos momentos derradeiros, mas o roteiro escrito por Fontes, João Emanuel Carneiro e Matthew Robbins o retrata como um homem asqueroso e descontrolado que administrava a vida pessoal e profissional de acordo com suas vontades sem considerar o próximo. Afinal, como alguém tão arrogante assim prosperaria justamente no universo da comunicação, que exige tanto bons relacionamentos e conexões? Não temos o outro lado da moeda Assis Chateaubriand, e isso prejudica Chatô na consistência de sua história. É um pecado que, caso a produção não tivesse tanta pegada, poderia destruir destruir a experiência, que já é um tanto atribulada por contemplar tantas tramas em uma curta duração. De qualquer forma, Marco Ricca diz que esta não é uma cinebiografia (isso eximiria Chatô de ter compromissos com o plausível?) – e, de certa forma, ele não deixa de ter razão porque, na realidade, Chatô não é um filme para se encaixar em definições fáceis, o que é um baita elogio!
No Coração do Mar
Say it! Say it! Say you’re scared!

Direção: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt, baseado em história de Amanda Silver, Charles Leavitt e Rick Jaffa, e no livro “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”, de Nathaniel Philbrick
Elenco: Chris Hemsworth, Ben Whishaw, Cillian Murphy, Tom Holland, Brendan Gleeson, Charlotte Riley, Frank Dillane, Paul Anderson, Benjamin Walker, Michelle Fairley, Joseph Mawle, Jordi Mollà
In the Heart of the Sea, EUA, 2015, Aventura/Drama, 121 minutos
Sinopse: Inverno de 1820. O navio baleeiro Essex é atacado por uma baleia gigante e feroz, deixando toda a tripulação desesperada para encontrar uma forma de escapar da morte. (Adoro Cinema)

Ron Howard nunca foi um diretor particularmente criativo. Inclusive, a maior consagração de sua carreira (Oscar de melhor filme e direção por Uma Mente Brilhante) veio por um filme que, por melhor que seja, segue um estilo para lá de tradicional. Entretanto, considerando os filmes mais recentes de sua carreira que seguem essa linha (e temos exemplares realmente excelentes como Frost/Nixon e Rush – No Limite da Emoção), é difícil encontrar algum que seja executado de maneira tão clássica quanto No Coração do Mar, um longa guardado a sete chaves: além de ter sua estreia adiada de março deste ano para dezembro (com o objetivo de preservá-lo para a temporada de premiações), o filme ainda foi exibido em sessões para a imprensa com embargos, o que significa que jornalistas não poderiam publicar qualquer comentário até uma data estipulada (no caso, hoje, 2 de dezembro, um dia antes da estreia mundial). Passado o suspense, o que se constata é que No Coração do Mar é um dos filmes mais ambiciosos do ponto de vista técnico da carreira de Ron Howard, mas o que conta mesmo na avaliação é decidir até que ponto a narrativa assumidamente tradicional pesa como um ponto a favor ou contra o resultado.
Marcando a segunda parceria entre Ron Howard e o galã Chris Hemsworth (o primeiro encontro da dupla foi em Rush), No Coração do Mar narra a história que inspirou o clássico da literatura Moby Dick usando as ferramentas mais simples possíveis, como o fato da trama ser contada sob o ponto de vista do novato da tripulação e da narração ficar a cargo justamente desse mesmo personagem agora envelhecido e ainda atormentado pelo passado. A condução da personalidade dos personagens também segue criações já conhecidas, onde o protagonista íntegro é colocado de escanteio por suas origens humildes, enquanto o antagonista rico, esnobe e de bom sobrenome rouba o cargo tão sonhado e, que por méritos, deveria ser de nosso herói. É tarefa das mais fáceis deduzir como se dará essa relação entre os dois e, principalmente, as consequências que ela trará para toda a equipe de tripulantes. Para colocar um pouco mais de drama na mistura, a história também coloca em cena a esposa grávida que espera pelo marido ao mesmo tempo em que reivindica o fato de ele ter um emprego perigoso que lhe deixa tão longe da família. Dessa forma, em termos narrativos, faltam novidades em No Coração do Mar, que, por outro lado, deve justamente acertar em cheio quem busca aventuras clássicas como essa – e conduzidas como tal.
Falar sobre a qualidade de efeitos visuais de um longa como No Coração do Mar já é repetição nos dias de hoje, o que significa que o filme de Ron Howard não desaponta nas cenas em alto-mar. A tecnologia joga a favor do filme, que tem seus melhores momentos quando a tripulação precisa enfrentar a lendária e imbatível baleia que aterroriza os mares. A aparição do animal é o que existe de melhor na trama em termos técnicos e também como exercício de tensão, já que o diretor consegue colocar o espectador dentro daquele barco como se também temêssemos a gigantesca baleia (e o sentimento pode ser pior ainda se você, assim como eu, tiver fobia de barcos em situações de risco como a vivida pelos personagens). A estruturação desses momentos compensa o problema de No Coração do Mar não saber lidar muito bem com seus personagens. Excetuando o Owen Chase de Hemsworth, o Thomas Nickerson do jovem Tom Holland e o capitão George Pollard de Benjamin Walker, é difícil memorizar, por nome, personalidade ou atributos do roteiro, qualquer outro dos tripulantes da jornada.
A situação do jeito clássico de No Coração do Mar incomodar mais do que ajudar se torna um tanto mais complicada quando o filme chega à metade e se torna um mero relato de sobrevivência em alto-mar. Não sei se é porque ainda não me recuperei do tédio causado por Angelina Jolie recentemente em Invencível, mas realmente faltou emoção na dura missão dos personagens tentando sobreviver a todos os tipos de adversidades em uma viagem de longos meses. Racionamento de água e comida e sofrimentos físicos já vimos aos montes, e o roteiro de Charles Leavitt (que tem como seu trabalho mais expressivo o bom Diamante de Sangue) segue toda cartilha envolvendo situações como essa vividas no limite. Novamente, vale ressaltar que é mesmo uma questão de gosto se entusiasmar ou não com No Coração do Mar, um longa que ao menos tem a dignidade de assumir que, sim, seu formato tradicional de aventura sempre foi a primeira escolha. O resultado dessa aposta certamente será refletido com altas cifras nas bilheterias – e, para um projeto que, independente de nosso julgamento, oficializa sua personalidade sem medo, essa é uma conquista das mais merecidas.
Orgulho e Esperança
– I don’t want to give them the wrong impression.
– Right, cause you’re so bloody irresistible!

Direção: Matthew Warchus
Roteiro: Stephen Beresford
Elenco: Ben Schnetzer, George MacKay, Imelda Staunton, Bill Nighy, Dominic West, Monica Dolan, Matthew Flynn, Andrew Scott, Joseph Gilgun, Faye Marsay, Freddie Fox, Jordan Metcalfe, Chris Overton
Reino Unido, 2014, Drama/Comédia, 120 minutos
Sinopse: No ano de 1984, Margaret Tatcher está no poder e os mineiros estão em greve. Depois do orgulho gay chegar em Londres, um grupo de ativistas gays e lésbicas decide arrecadar dinheiro para enviar às famílias dos mineiros. Mas a União Nacional dos Mineiros parece um pouco constrangida em receber esta ajuda. Os ativistas não perdem o ânimo, decidem entregar a doação pessoalmente e partem em direção ao País de Gales. Assim começa a história improvável de dois grupos que não tinham nenhuma relação, mas se uniram em prol de uma causa. (Adoro Cinema)

Genericamente falando, existem dois tipos de filmes quando o assunto é o universo gay. O primeiro é aquele que se preocupa em inserir personagens gays em situações universais, desvendando o que existe de mais íntimo em suas questões sentimentais. Nesse caso, enquadram-se belas obras como Direito de Amar, de Tom Ford, ou Transamérica, de Duncan Tucker. Já o segundo se dedica à panfletagem da causa, o que, obviamente, é a fórmula infalível para entrar no circuito das premiações. Quem não se lembra, por exemplo, de Milk – A Voz da Igualdade, que chegou a ganhar um Oscar de roteiro muito mais por seu relato formal e histórico do que propriamente por qualquer criatividade em relação ao tema? Agora, Orgulho e Esperança, chegando diretamente em home video no Brasil, reforça a tese de que filmes históricos pontuados pela causa gay são muito mais palatáveis às plateias e aos prêmios – afinal, mesmo mais discreto e bem menos ambicioso do que a média celebrada pelos prêmios, o longa chegou a ser indicado ao Globo de Ouro 2015 de melhor filme comédia/musical.
O cenário de Orgulho e Esperança é o Reino Unido de 1984. A comandante política desse cenário é a dama de ferro Magaret Thatcher. Os mineiros estão em greve, e Thatcher não parece nem um pouco disposta a ceder. O tempo corre e, em um ato de coleguismo, um grupo de gays e lésbicas de gays e lésbicas resolve arrecadar dinheiro para enviar aos mineiros, que passam por graves situações financeiras. Só que os tempos são de conservadorismo e os mineiros, muitos vindos do interior e com uma visão extremamente preconceituosa, são relutantes em aceitar a ajuda. Até o dia em que alguns deles, a frente de seu tempo, se unem aos gays, movimentando as águas de toda uma classe. É motivacional e bem uma humorada a abordagem do diretor Matthew Warchus para este tema que frequentemente se entrega aos clichês que permeiam a batalha por um ideal. Não fosse essa escolha do diretor em criar algo descontraído, Orgulho e Esperança irritaria com o estouro da trilha sonora quando os protagonistas alcançam uma vitória, as constantes epifanias e discursos revolucionários proferidos inesperadamente em cima de mesas e a previsibilidade na construção unilateral de determinados personagens, como a vizinha irredutível que abomina gays mesmo com todas as suas amigas aderindo à causa.
É claro que a ausência de conflitos realmente consistentes em Orgulho e Esperança chega a atrapalhar um pouco a verossimilhança da história (percebam como todos os obstáculos são perfeitamente vencidos sem muitos esforços durante todo o filme), mas a vivacidade com que Warchus mostra, por exemplo, donas-de-casa idosas ou conservadoras descobrindo, durante o convívio com os gays, pequenos prazeres que lhe são desconhecidos ou negados (dançar até o amanhecer, falar sobre o corpo masculino naturalmente e opinar sobre sexo sem qualquer pudor) é de arrancar sorrisos de qualquer um. Ou seja, a habitual sobriedade britânica tira o longa de várias armadilhas melodramáticas tão comuns no gênero (não poderia faltar, claro, o filho enrustido que mora com pais ultraconservadores), e a ideia da força do cinema gay focado no individual e nas descobertas pessoais, sejam elas dos próprios homossexuais ou das pessoas em volta, é constantemente fortalecida ao longo da obra. Nesses momentos, Orgulho e Esperança brilha. Só que a previsível panfletagem é muito mais cômoda e fácil de comprar do que os conflitos individuais, e o filme faz questão de se focar nela. Com isso, a certeza que fica é que seria muito mais revigorante se novos projetos fugissem desse caminho já ultrapassado.
007 Contra Spectre
You are a kite dancing in a hurricane, mr. Bond…

Direção: Sam Mendes
Roteiro: Jez Butterworth, John Logan, Neal Purvis e Robert Wade, baseado na história de John Logan, Neal Purvis e Robert Wade e nos personagens criados por Ian Fleming
Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Christoph Waltz, Naomi Harris, Monica Bellucci, Andrew Scott, Rory Kinnear, Dave Bautista, Jesper Christensen, Alessandro Cremona, Stephanie Sigman
Spectre, Reino Unido/EUA, 2015, Ação, 148 minutos
Sinopse: James Bond (Daniel Craig) vai à Cidade do México com a tarefa de eliminar Marco Sciarra (Alessandro Cremona), sem que seu chefe, M (Ralph Fiennes), tenha conhecimento. Isto faz com que Bond seja suspenso temporariamente de suas atividades e que Q (Ben Whishaw) instale em seu sangue um localizador, que permite que o governo britânico saiba sempre em que parte do planeta ele está. Apesar disto, Bond conta com a ajuda de seus colegas na organização para que possa prosseguir em sua investigação pessoal sobre a misteriosa organização chamada Spectre. (Adoro Cinema)

007 Contra Spectre é um filme que enterra tudo o que o capítulo anterior, Operação Skyfall, fez de positivo pela franquia. Não seria um grande problema se este longa novamente dirigido por Sam Mendes fosse apenas esquecível (exatamente como foi com Quantum of Solace sucedendo Cassino Royale), mas o que acontece é que 007 Contra Spectre retrocede em aspectos importantes e conceituais, como a aposta no realismo e a dedicação a uma trama que dialoga com o clássico e o contemporâneo. Tudo é frágil demais neste novo filme que já tinha a difícil missão de dar continuidade a uma história tão bem realizada e madura quanto a de Skyfall, e a lembrança que fica deste novo capítulo é que ele não impressiona nem como um mero filme de ação isolado. Não é necessário ser um especialista para constatar onde 007 Contra Spectre erra. É claríssimo: o roteiro escrito a oito mãos é de uma superficialidade que chega a impressionar, o que é imperdoável visto que a autoria dele é justamente de nomes responsáveis por Cassino Royale e Operação Skyfall. Estaria o quarteto cansado da franquia a ponto de conduzi-la com tanta displicência?
Os problemas começam no fato de que não há um sentimento de ameaça real em 007 Contra Spectre, já que o antagonista surge sem expressividade alguma. É difícil crer que Franz Oberhauser (Cristoph Waltz, mais contido do que o habitual mas risonho como sempre) seja a grande mente por trás de todas as vilanias desta nova fase da franquia. Oberhauser, além de suas motivações rasas e explicadas em diálogos altamente expositivos, também cai na caricatura mais óbvia dos vilões: o sujeito que sabe-se lá como implanta uma bomba mirabolante e faz o protagonista tomar uma decisão de vida ou morte em três minutos. Sendo mais específico, o vilão simplesmente não aterroriza ninguém porque não tem habilidade alguma, e a cena em que ele aprisiona James Bond, torturando-o com um equipamento que perfura crânios, está entre as mais constrangedoras e sem criatividade desta nova leva de filmes do agente secreto. Nem mesmo a tentativa do diretor de agigantá-lo logo em sua primeira aparição impacta, pois a ideia de colocar Oberhauser na ponta de uma mesa com o rosto escondido por sombras é uma das mais ultrapassadas quando o assunto é introdução de antagonistas. Uma curiosidade é que o papel chegou a ser oferecido ao veterano Gary Oldman, que disse não ao projeto, e com toda razão: não há ator de quinta grandeza que consiga impressionar com tal texto.
Com orçamento de 245 milhões de dólares (o filme mais caro entre todos de James Bond!), 007 Contra Spectre foi rodado em três continentes, trazendo obviamente todo um requinte que só locações verdadeiras podem trazer. Por outro lado, não faz diferença alguma o longa de Sam Mendes viajar por tantos países da Europa, América do Norte e África. Se a trama estivesse concentrada toda na Inglaterra, 007 Contra Spectre não sofreria qualquer alteração. Talvez porque as quase 2h30 de duração só esmiúçam uma história genérica demais e de pouca inteligência, que não exige um nível global de viagens para ser solucionada. Opções como um relógio explosivo, conflitos que partem de uma bomba-relógio e escolhas decisivas tomadas em uma ponte só trazem a sensação de que a nova empreitada de James Bond é apenas uma formalidade contratual depois do sucesso financeiro e criativo de Operação Skyfall. Já foi dito que este novo filme retoma o James Bond clássico – aquele mesmo de estripulias implausíveis, conquistador nato de mulheres e protagonista de cenas de ação pra lá de imaginativas – e, tendo muita boa vontade, dá para pensar por este lado, mas por que voltar de forma tão direta a isso depois da celebrada mudança de tom assumida desde que Daniel Craig passou a ser o protagonista? Não faz sentido mudar em time que está ganhando (e de goleada).
Toda essa situação só agrava, por exemplo, a falta que Judi Dench faz (Ralph Fiennes é um ótimo ator, mas não tem a ironia e a elegância da atriz inglesa) ou o problema de 007 Contra Spectre não ter personagens tão interessantes quanto os anteriores – e quando o filme os rememora em fotos ou diálogos a ausência se torna ainda maior. Excessivamente sentimental nos rumos que dá ao protagonista, o novo capítulo com a assinatura de Sam Mendes tem uma bond girl muito digna, interpretada por uma Léa Seydoux bela, interessante e dramatizada na medida certa (ao contrário da pífia participação de Monica Bellucci, que, de tão irrelevante, poderia ter sido interpretada por qualquer desconhecida para não decepcionar tanto). As sequências de ação seguem inegavelmente bem conduzidas, mas o roteiro é tão problemático que pouco se salva em 007 Contra Spectre. Depois de tanta especulação aliada à vontade de público e crítica para que Sam Mendes voltasse retornasse, não era de se imaginar que o resultado pudesse ser tão decepcionante. E, repito, isso não tem nada a ver exclusivamente com o filme viver à sombra de Operação Skyfall.
Rapidamente

No trabalho mais ácido e autoral de Alexander Payne, Laura Dern brilha como a problemática Ruth, em um desempenho injustamente ignorado pelas premiações.
CIDADES DE PAPEL (Paper Towns, 2015, de Jake Schreier): Mesmo sendo mais uma adaptação de um sucesso literário de John Green, Cidades de Papel não chegou a fazer nem um terço da bilheteria de A Culpa é das Estrelas. A arrecadação inferior é compreensível, pois a história não tem o mesmo apelo emocional e o próprio elenco é infinitamente menos interessante (como Shailene Woodley faz falta!). De qualquer forma, excetuando comparações, Cidades de Papel é um filme perfeitamente convencional: uma aventura adolescente sobre Quentin (Nat Wolff) um garoto que, apaixonado pela vizinha repentinamente desaparecida (Cara Delevingne), resolve procurá-la com a ideia de que ela deixou pistas justamente para ser encontrada. Neste sentido, Cidades de Papel é um tanto confuso na questão do gênero que segue, começando como um romance adolescente para logo em seguida ganhar tons de mistério, flertar com as comédias colegiais e terminar no drama. A mistura não é das mais harmônicas, deixando o filme fique quase sem personalidade. O que faz mesmo a diferença em Cidades de Papel é o fato de seu desfecho ser dos mais atípicos para produções do estilo. Há grandes chances do grande público desaprovar ou pelo menos considerar estranho o final mais reflexivo e longe de ser romantizado, mas a conclusão mostra uma maturidade rara em histórias populares como essa. Quem dera o cinema acostumasse mais o público com esses encerramentos.
RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, de Alexander Payne): Celebrei Nebraska, de 2013, como o retorno do verdadeiro Alexander Payne. Caso esse filme não existisse, poderia continuar considerando o diretor como um dos mais “domesticados” dos últimos anos. Famoso por sua acidez, por seus personagens atípicos e por tramas com belas doses de comédia e drama, ele vinha cada vez mais caindo na normalidade, e é até estranho lembrar que um longa tão convencional quanto Os Descendentes leve a sua assinatura, por exemplo. Minha teoria se confirmou conferindo Ruth em Questão, o primeiro filme de Payne e também o mais ácido e desafiador de toda a sua carreira. Se você acha Eleição ou até mesmo As Confissões de Schmidt sarcásticos, espere para ver o longa de estreia dele, que, além do afiado drama de Ruth (Laura Dern), jovem inconsequente e presa diversas vezes cheirando cola e até mesmo grafite, coloca no centro de seus conflitos a questão do aborto em dimensões raras no cinema. Ruth em Questão mostra a vida de sua protagonista de forma tragicômica (é o que Payne sempre faz de melhor) e traz um maravilhoso desempenho de Laura Dern solenemente ignorado pelas premiações, conferindo a este longa difícil – e por isso mesmo único – o estilo que Alexander Payne, pouco a pouco, diluiria em seus próximos filmes mas recuperaria de forma admirável em Nebraska.
SICARIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, de Denis Villeneuve): Se existe qualquer semelhança entre Sicario e Traffic, celebrado filme de Steven Soderbergh de 2000, ela para na questão temática. Isso porque o diretor canadense Denis Villeneuve não é inexperiente ao ponto de fazer um filme sem identidade própria. Muito pelo contrário: um dos melhores realizadores de sua época, Villeneuve novamente traz força e disciplina a uma história complexa e que não segue os caminhos esperados dentro do gênero. Até a metade dá para discordar disso, já que é quando Sicario parece apenas um filme sobre estadunidenses investigando um império de drogas na fronteira com o México. Nada de muito novo até aí, com exceção da bela escolha de personagens: os dois agentes escalados para a missão são um homem negro e uma mulher, sendo que ela, vivida por uma Emily Blunt cada vez mais merecedora de papeis fortes e dramáticos como esse, é a mais respeitada de seu segmento e quem dá ordens ao parceiro de trabalho. Por outro lado, aos poucos Sicario vai envolvendo e, no silêncio quase imperativo de sua trama (tudo se revela sutilmente, fazendo com que o espectador tenha que ficar atento aos detalhes), chega até mesmo a sufocar nos momentos derradeiros, mostrando até que ponto vão nossos princípios na busca pela justiça e na nossa avaliação do que é certo ou errado. A direção de Villeneuve é mais consistente que o roteiro do estreante Taylor Sheridan, e as parcerias que ele volta a estabelecer são fundamentais (a perturbadora trilha de Jóhann Johannsson e a fotografia de Roger Deakins são um show a parte), o que amortece eventuais fragilidades da trama, ilustrada ainda por um marcante desempenho de Benicio Del Toro.