Talvez Deserto, Talvez Universo

Direção: Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes
Roteiro: Miguel Seabra Lopes
Elenco: Documentário
Brasil/Portugal, 2016, Documentário, 97 minutos
Sinopse: A Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense é uma estrutura de regime fechado, de segurança média, com vertente reabilitadora. Presta acompanhamento psiquiátrico, psicológico, médico, terapêutico e social. Os homens que a habitam foram considerados inimputáveis pelo tribunal. Sentem o tempo passar, lento. É neste tempo individual que o filme se instala.

A imobilidade da câmera do diretor Miguel Seabra Lopes sugere muito mais do que a mera observação dos pacientes da Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense do hospital psiquiátrico Julio de Matos. Na verdade, essa estática está diretamente ligada ao que (não) acontece dentro de cada um dos personagens. Isso porque, dentro da Unidade, o tempo é outro, a vida parece imóvel e não há nada a ser feito em um cotidiano cujo senso de dimensão é castrado por centenas de remédios diários. Partindo dessa claustrofóbica e angustiante condição, o documentário Talvez Deserto, Talvez Universo, também assinado por Karen Akerman na direção, instiga ao mesmo tempo em que incomoda, engrandecendo-se ao capturar inteligentemente uma situação complicadíssima sem qualquer artifício ou conceito que flerte com a obviedade.
Quando se fala na imobilidade da câmera exclusiva de Lopes, é bom elucidar: por se tratar de uma instituição destinada apenas a homens, a também diretora Karen Akerman, que tem carreira consolidada como montadora (ela assinou esse segmento do excepcional O Lobo Atrás da Porta), foi proibida de entrar no local, trabalhando, dessa forma, com o recebimento dos materiais de Lopes para, a partir daí, com sua visão de montadora, começar a dar os contornos de Talvez Deserto, Talvez Universo. Felizmente, não há, na tela, qualquer resquício de limitação imposta por essas condições: além do documentário ter personalidade muito bem definida, todos os conceitos traçados pela dupla são consistentes, desde o ritmo propositalmente lento para casar com o cotidiano de seus documentados ao próprio preto e branco que descolore ainda mais um mundo já acromático por si só.
Desviando-se da forma clássica do gênero, o documentário se preocupa apenas em observar o dia a dia do local, julgando certeiramente, assim como o recente Fogo no Mar, que o simples registro sem maiores interferências é o suficiente para garantir impacto dramático. Mesmo quando coloca determinado personagem frente à câmera para contar histórias particulares, Talvez Deserto, Talvez Universo se entrega por completo a quem fala e reproduz, basicamente na íntegra e sem cortes, os relatos precisamente escolhidos. O espaço para que cada um se expresse é livre, ao passo que, ao contrário do que se poderia imaginar, a loucura dos pacientes não descamba para a incoerência de discurso. Existe muito a ser contado sobre as mais variadas histórias de vida de personagens dramáticos, divertidos ou que simplesmente tomam como missão de vida conseguir um mero cigarro.
Vencedor do Prêmio Olhares Brasil de melhor longa-metragem na quinta edição do festival Olhar de Cinema, onde fez sua estreia no Brasil, Talvez Deserto, Talvez Universo é contado rodo a partir do olhar dos próprios pacientes e pouco se vê sobre o mundo exterior ou até mesmo sobre as pessoas que trabalham no hospital. A decisão é sábia porque nos sentimos tão parte daquele cotidiano quanto os próprios personagens, mas também porque engrandece a proposta assumida da dupla diretora de fazer um documentário não de denúncia, e sim de questionamento sobre o tipo de psiquiatria que já se promove há muito tempo. Afinal, o que mais instiga no filme é a sua ideia de falar sobre pessoas que, como a própria Akerman define, não deixam de estar mortas, pois vivem mesmo uma espécie de vida adormecida.
Mãe Só Há Uma
É Pierre, porra!

Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria, Lais Dias, Daniel Botelho, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Tenca, Douglas Luckiys, Ulisses Sakurai
Brasil, 2016, Drama, 82 minutos
Sinopse: Pierre descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe. Confuso, ele vai atrás de seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, e a nova realidade faz com que o rapaz encontre finalmente sua real identidade. (Adoro Cinema)

A diretora e roteirista Anna Muylaert preferiu trabalhar em menor escala após o sucesso mundial de Que Horas Ela Volta?. Claro que fazer Mãe Só Há Uma com orçamento mais modesto, elenco praticamente desconhecido e divulgação discreta foram também maneiras da realizadora se desvencilhar de expectativas inevitavelmente altas acerca do que ela realizaria após a impecável narrativa do filme estrelado por Regina Casé e Camila Márdila. No entanto, Muylaert diz que existe um outro propósito por trás das circunstâncias mínimas: o de realizar uma história mais autoral sem ser vítima de eventuais amarras, sejam elas de qualquer natureza. De fato, Mãe Só Há Uma, que adapta livremente o verídico caso Pedrinho, de 2002, toca em questões mais sensíveis ao grande público, mas todas as boas ideias e as importantes discussões propostas pela diretora são limitadas por um filme abrupto cuja história não dá fluidez à criatividade de uma contadora de histórias sempre atenta aos temas mais pertinentes da nossa contemporaneidade.
Filmes com metragem mais enxuta automaticamente propõem a seus diretores e roteiristas um árduo desafio: o de apresentar, de forma objetiva mas igualmente envolvente, toda a essência de uma história em um espaço de tempo, claro, consideravelmente menor. Fácil é expandir um universo ao longo de duas horas, difícil é dizer somente o necessário dele em 80 minutos. Infelizmente, Anna Muylaert tropeça nessa jornada com Mãe Só Há Uma, longa que esquece de aprofundar pontos importantes de sua trama enquanto perde tempo com outros inegavelmente dispensáveis. Por que, por exemplo, querer fazer tanta graça com os amores juvenis do pequeno Joca (Daniel Botelho) ao invés de de dar mais caldo aos efeitos emocionais que as revelações envolvendo Aracy (Dani Nefussi) causam nos seus filhos? Além da personagem ser plenamente esquecida, nunca sabemos de que forma a desconstrução de sua figura atinge efetivamente Pierre (Naomi Nero, excelente), citando alguns dos prejuízos que o malabarismo atrapalhado entre profundidade e curta duração traz ao resultado.
Se existe algo que permanece intacto na transição de Que Horas Ela Volta? para Mãe Só Há Uma são as leituras críticas de Anna Muylaert aos preconceitos (expostos ou não) da nossa sociedade, com ênfase naqueles tão enraizados em boa parte das pessoas de classe alta. Dessa vez, a realizadora paulista surpreende ao compreender muito bem as expressões de uma geração cada vez mais livre na busca de sua própria identidade. Nesse ponto, o filme só ganha ao não trazer qualquer rótulo para o protagonista, que, ao mesmo tempo em que pinta as unhas e gosta de vestidos, também transa com meninas e aqui ou ali experimenta um beijo com garotos. Quando Muylaert coloca esse jovem tão autêntico em sua efervescência de experimentações com a nova família rica e tradicional, Mãe Só Há Uma expõe todos os preconceitos que muitos insistem em dizer que não têm, mas que simplesmente não conseguem esconder quando o filho homem não gosta de futebol ou não quer vestir as camisas certinhas de gola polo que os pais querem colocar na composição de seu figurino. Novamente, a diretora provoca ao tornar a sessão uma experiência incômoda para uma certa parcela do público que é obrigada a se ver na tela com todas as suas infundadas intolerâncias.
Ao mesmo tempo em que essa encenação crítica é um aspecto fortíssimo do longa, também não deixa de ser estranho como ela de certa forma limita a dramaticidade de toda a história: basicamente, o único conflito de Pierre ao ter que conviver com a nova família é ter dificuldades em fazer com que suas expressões sejam aceitas, quando, na realidade, deveria ser muito mais sobre sair de um lar destruído para outro que desconhece. A unilateralidade dos novos pais também não deixa de incomodar, visto que, apesar do bom trabalho de Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi, eles são figuras insensíveis ao momento do filho recém descoberto, tratando-o meramente como um garoto que precisa ser urgente e literalmente doutrinado conforme suas regras. Da busca por um novo modelo de vida aos anseios de uma adolescência hoje cada vez mais livre, o filme é rico na pluralidade e na importância de seus temas, mas a falta de convergência dos assuntos e de uma história que realmente vá para algum lugar impede que a sessão tenha uma riqueza narrativa maior. Na verdade, Mãe Só Há Uma soa como um ensaio relevante e obviamente incômodo pela situação que encena, mas incompleto e apressado na carreira de Muylaert, quando, na verdade, era digno de, no mínimo, ter a mesma costura sofisticada de ideias de Que Horas Ela Volta?.
Florence: Quem é Essa Mulher?
But I fought. And I fought. And I fought… And I’m still here!

Direção: Stephen Frears
Roteiro: Nicholas Martin
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, John Kavanagh, David Haig, Christian McKay, Josh O’Connor, Elliot Levey, John Sessions, Mark Arnold, Jorge Leon Martinez
Florence Foster Jenkins, Reino Unido, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos
Sinopse: Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) é uma rica herdeira que persegue obsessivamente uma carreira de cantora de ópera. Aos seus ouvidos, sua voz é linda, mas para todos os outros é absurdamente horrível. O ator St. Clair Bayfield (Hugh Grant), seu companheiro, tenta protegê-la de todas as formas da dura verdade, mas um concerto público coloca toda a farsa em risco. (Adoro Cinema)

Toda atriz que se preze deveria ter como meta conseguir cair nas graças do britânico Stephen Frears. As parcerias firmadas pelo diretor já corroboram por si só essa afirmação (Glenn Close foi superlativa em Ligações Perigosas, Helen Mirren encontrou o papel mais emblemático de sua carreira em A Rainha e Judi Dench fez mil maravilhas com os papeis-título de Senhora Henderson Apresenta e Philomena), mas um rápida retrospectiva já evidencia a maior beleza de sua carreira como contador de histórias: a de procurar grandeza em relatos aparentemente pequenos, sempre com delicadeza, discrição e humanidade. Não é diferente com Florence: Quem é Essa Mulher?, onde Frears se inspira ao unir forças com Meryl Streep (novamente uma grande atriz, algo que parece motivá-lo) para encontrar tudo o que não é óbvio nas íntimas particularidades de uma personagem que tinha tudo para cair no ridículo.
Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) era uma socialite de bolsos cheios: bancava o cenário musical de clubes em Nova York ao mesmo tempo que também sustentava todas as regalias de um devotado marido. Instantaneamente, isso já aponta para a fácil ideia de que esse tão importante dinheiro justifica o fato de meio mundo aguentar as notas operísticas, desafinadas e histéricas dessa mulher apaixonada por música, mas desprovida de bom senso para perceber que o que lhe faltava era justamente talento vocal. Entretanto, Frears, em parceria com o estreante roteirista de longas Nicholas Martin, não segue esse caminho e busca, na realidade, saídas muito tocantes para construir a história. O britânico trata Florence de forma digna na medida em que faz com que o espectador se preocupe tanto com ela quanto os personagens que não lhe dizem a verdade. Isso porque, no fundo, invejamos algo ali: seria a sua capacidade de propositalmente se esconder do cinismo e das dores da vida em sonhos? Ou, então, a sua autenticidade de fazer o que bem entende enquanto muitos de nós reprimimos tantas de nossas expressões com medo do ridículo? Você decide.
Meryl Streep, obviamente, é cirúrgica ao conduzir a personagem, lembrando, sem nunca se repetir, a bem humorada e divertida Julia Child, também uma desajustada apoiada por uma marido incondicional que compreende por completo as frustrações de sua esposa com o destino (enquanto em Julie & Julia fica implícito que a protagonista sofria por não poder ter filhos, em Florence: Quem é Essa Mulher? são verbalizados, não de forma menos eficiente, os fatos de Jenkins ter sido obrigada a abandonar a carreira de pianista por causa de um acidente e de ter contraído sífilis de seu primeiro e agora falecido marido). De roupas largas e com enchimentos para reproduzir o típico físico da mulher que retrata, Meryl alcança as notas certas procurando as erradas e ainda é beneficiada por um parceiro de cena que não lhe deve absolutamente nada: Hugh Grant, que vinha desacelerando a carreira rumo a uma assumida ideia de aposentadoria e repensou a situação após o convite para trabalhar com a atriz. E fez bem, pois tem aqui um de seus melhores momentos, saindo-se acertadamente engraçado nas estripulias de seu St. Clair e devidamente tocante como um sujeito que, independente das definições de estados civis, nutria imenso carinho e respeito por Florence.
Ao encontrar um espirituoso equilíbrio entre o drama e a comédia (nas risadas, também merece nota o divertido trabalho de Simon Helberg como um alívio cômico à moda antiga, seguindo a própria proposta do filme), Florence: Quem é Essa Mulher? vai de sequências realmente completas no humor (o primeiro ensaio da protagonista junto ao piano) a outros até mesmo emocionantes (a cena em que Florence se imagina cantando perfeitamente é bela, especialmente porque a voz de Meryl, que começou sua carreira artística estudando ópera, contribui demais para o resultado). É com a elegância de uma boa reconstituição de época e com o respeito de um diretor que compreende que esse é um relato não sobre o quão especiais são os nossos talentos, mas sim sobre o quão alto sonhamos que Florence: Quem é Essa Mulher? se torna mais um filme minimamente grande da carreira de Stephen Frears. Como fã – tanto dele, de Meryl e do estilo -, só tenho a comemorar.
Procurando Dory
You are lucky. No memories, no problems.

Direção: Andrew Stanton e Angus MacLane
Roteiro: Andrew Stanton e Victoria Strouse, com colaboração de Angus MacLane e Bob Peterson, baseado em história de Andrew Stanton
Elenco (vozes originais): Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Hayden Rolence, Kaitlin Olson, Diane Keaton, Ty Burrell, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver, Willem Dafoe, Allison Janney
Sinopse: Um ano após ajudar Marlin (Albert Brooks) a reencontrar seu filho Nemo, Dory (Ellen DeGeneres) tem um insight e lembra de sua amada família. Com saudades, ela decide fazer de tudo para reencontrá-los e na desenfreada busca esbarra com amigos do passado e vai parar nas perigosas mãos de humanos. (Adoro Cinema)

Desde que a Disney comprou a Pixar em janeiro de 2006 por uma cifra bilionária, é perceptível que a primeira tem tido prioridade não apenas nos projetos que envolvem os dois estúdios, mas também na criação das histórias que são ou um dia foram da segunda. Mercadologicamente, claro, é muito justo. Artisticamente, nem tanto. Enquanto são anunciadas cada vez mais continuações de obras emblemáticas da Pixar (e confesso que morro de medo de que, daqui a pouco, acrescentem à lista filmes como Ratatouille e WALL-E), a dupla de selos parece ter parado para refletir: recentemente, Jim Morris, presidente da Pixar, anunciou que o estúdio lançará apenas obras originais a partir de 2019. É um excelente sinal, principalmente agora que Procurando Dory ganha as telas dos cinemas quebrando recordes e mais recordes de bilheteria. Excelente porque a continuação de Procurando Nemo, de 2001, pode até ser divertidíssima e um excelente passatempo recheado de mensagens importantes, mas, no todo, não se configura necessariamente como uma continuação: ao invés de expandir o universo dos carismáticos protagonistas, o filme apenas reproduz, com certa comodidade, toda a estrutura narrativa do longa anterior. Por outro lado, a história parece se cercar muito bem de elementos certeiros para não deixar transparecer tal fragilidade.
Racionalmente avaliado, Procurando Dory, assinado pela dupla Andrew Stanton e Angus MacLane (existe alguma explicação para animações serem cada vez mais assinadas por duplas ou até trios?), não apresenta quase nada inédito às águas de Nemo, Marlin e da esquecida Dory. Voltamos a acompanhar os personagens em uma longa cruzada pelo oceano e as infinitas engenhosidades que precisam ser pensadas quando alguns deles novamente são capturados para um aquário (dessa vez em proporções bem maiores do que no primeiro longa). A carta na manga de Procurando Dory que compensa essa certa preguiça do roteiro é a nostalgia para o público mais adulto de reencontrar um universo que marcou tantas infâncias no início dos anos 2000, enquanto a nova geração mergulha pela primeira vez na proposta da animação com o mesmo senso de humor do filme original. Não há dúvidas: a sequência conversa tanto com adultos quanto crianças porque sua diversão não está no humor pelo humor, mas sim em uma rica gama de personagens criativos, genuínos e inseridos em um espaço que instiga visualmente.
O alto nível de dubladores da versão original (Ellen DeGeneres! Albert Brooks! Sigourney Weaver! Diane Keaton! Willem Dafoe!) comprova o quanto Nemo e sua turma continuam com prestígio depois de tanto tempo. É bom ver uma legião de astros emprestando seus nomes a uma trama de grande importância aos pequenos – e também aos adultos, por que não? Basta olhar um pouquinho além dos grandes mergulhos e das situações inegavelmente cômicas para perceber que Procurando Dory é um filme sobre minorias. O assunto se torna especialmente latente nessa continuação a partir do momento em que a condição da peixinha Dory, que sofre de perda da memória recente, vira alvo da impaciência e da irritabilidade até do amigo Merlin, que, no longa anterior, só encontrou o filho graças à ajuda dela. Ao longo da animação, a protagonista tem suas capacidades questionadas, o que imediatamente faz com que sua jornada em busca dos pais se revele uma bela homenagem à filosofia de que não devemos dar ouvidos a quem nos desmotiva. Só devemos continuar a nadar!
Maior estreia de uma animação no Brasil, Procurando Dory tem outro mérito importante: o de não tornar a condição de sua protagonista estritamente um empecilho. Seria fácil tornar o desenrolar da trama e até mesmo o humor repetitivos com a função de Dory, a cada cinco minutos, esquecer o que estava fazendo. Por sorte e talento dos roteiristas, não é isso o que acontece, uma vez que o esquecimento da peixinha, em certo ponto, é até mesmo invejado por um mal humorado polvo que ela encontra no caminho. “Você tem sorte. Sem memórias, sem problemas!”, diz o não tão temido animal aquático. Ao se atentar para essas delicadezas e fugir do lugar-comum para não cair na obviedade, Procurando Dory consegue disfarçar muito bem a total falta de inovação na estrutura de seu roteiro – e se não fosse por esse detalhe, estaríamos diante de um filme tão grande quanto o original.
Julieta

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado em contos de Alice Munro
Elenco: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Rossy de Palma, Nathalie Poza, Mariam Bachir, Susi Sánchez, Bimba Bosé, Agustín Almodóvar, Priscilla Delgado
Espanha, 2016, Drama, 99 minutos
Sinopse: Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Entretanto, um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. (Adoro Cinema)

A canadense Alice Munro fez história quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2013. Era a primeira vez que a honraria sueca se destinava, entre homens e mulheres, a um nome dedicado a fazer carreira a partir da produção de contos. Considerada uma das grandes vozes femininas da literatura contemporânea, a escritora tem como uma das marcas de sua obra o protagonismo de mulheres em histórias de amor e tragédia criadas a partir de eventos cotidianos (para principiantes, deixo como dica o livro Felicidade Demais, lançado em 2009). Imaginem, então, a comoção de saber que Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol consagrado mundialmente por captar em seus filmes as alegrias e as mazelas da alma feminina, levaria às telas o universo da canadense com Julieta. Era o casamento perfeito, especialmente para ele, que vinha de um completo desastre (Os Amantes Passageiros) para retomar sua relação com o cinema feminino depois de exatos dez anos (Volver, de 2006, foi a última obra legitimamente Almodóvar assinada por ele nesse sentido). Entretanto, falta consistência a essa união aparentemente infalível, e é não muito difícil constatar o desvio: apesar de gêmeos tematicamente, a escritora e o espanhol têm pouco em comum no que se refere à forma, o que faz de Julieta uma experiência deveras decepcionante.
Ao contrário do que já foi dito, Almodóvar não parece ter perdido a mão. Com seu novo filme, é apenas vítima de uma incompatibilidade que ele próprio parece não ter percebido. Quando se pensa na carreira do cineasta, imediatamente vem à cabeça os deliciosos melodramas, as flores avermelhadas de Volver, a trilha acentuada de Má Educação, as histrionices de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos e as tragédias do passado e do presente de Fale Com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe. É uma pegada totalmente oposta ao que Alice Munro realiza em seus contos tão repletos de delicadezas e introspecção. Uma prova da necessidade dessa abordagem é a transposição que Sarah Polley fez do conto The Bear Came Over the Mountain para o cinema com o delicadíssimo Longe Dela, longa que, por entender a carreira de Munro, torna emocionante uma história aparentemente banal de um casamento abalado pelo Mal de Alzheimer. Já em Julieta, texto e direção estão fora sintonia: se a história é sobre uma mulher que descortina o passado para explicar o presente onde sua filha agora está ausente, Almodóvar, com a insistente trilha do grande Alberto Iglesias, por exemplo, dá um tom quase policialesco ao filme, sugerindo que revelações engenhosas, crimes ou tragédias surpreendentes estão prestes a acontecer. Só que o diretor não percebe que não estamos em A Pele Que Habito (um filme excepcional, diga-se de passagem) e que Munro nunca sobe o tom nem mesmo para falar de fatalidades. Com ela, a fervura é sempre baixa.
Desregulado nesse sentido, Julieta conta uma história que deveria se entregar à lógica de que menos é mais e não ao acampamento estético e sensorial que arma plano a plano. É curiosa a sensação que o filme traz porque o diretor é plenamente consciente dos elementos que lhe consagraram (e sabe, claro, utilizá-los muito bem), mas essa tomada de consciência o impede de ver as verdadeiras necessidades dessa adaptação que une três contos específicos da autora (Ocasião, Daqui a Pouco e Silêncio, da coletânea Fugitiva, de 2004). Não temos, em Julieta, qualquer reviravolta inesperada, e isso frustra porque o diretor nos induz ao aposto. Com isso, o filme se prolonga em uma história por vezes atropelada na passagem do tempo e problemática no ritmo ao nunca nos entregar o que seu diretor e roteirista tanto sugere, culminando em um final completamente abrupto.
Com tanta exploração sensorial, Almodóvar esquece de dar sentido a pontos fundamentais da história que nunca ganham explicações plausíveis, uma vez que o roteiro nunca convence o espectador dos motivos que fazem a protagonista ter vergonha de seu passado a ponto de escondê-lo a sete chaves nem explora com o devido aprofundamento o real significado dessa culpa pesada que a personagem carrega. Em Julieta, prevalecem as escolhas do diretor de dramatizar em sons e cores o que, na realidade, está nas pequenas coisas. Se a experiência ganha pontos dramáticos mais dignos de nota, isso acontece graças ao ótimo desempenho de Emma Suárez. Ela, que interpreta a protagonista na fase madura com a devida pose de uma mulher sofrida de Almodóvar, tem um tempo consideravelmente menor em cena e tira o melhor da tarefa ligeiramente ingrata de ficar apenas narrando fatos de sua vida em uma carta que sabe-se lá por que está sendo escrita, já que não revela praticamente nada que a sua destinatária já não saiba ou tenha vivido anos atrás.
Marcando o vigésimo longa-metragem do diretor, Julieta teve passagem muito tímida pela competição do Festival de Cannes deste ano e não chega aos cinemas trazendo a revolução da carreira de uma atriz como aconteceu com Penélope Cruz em Volver ou as resoluções polêmicas do suspense A Pele Que Habito. São contraditórios os sentimentos causados acerca da qualidade do novo longa de Almodóvar porque tudo parece estar em seu devido lugar. Enquanto o roteiro, em sua essência, trata de questões muito interessantes como a de uma filha que reconhece só entender a mãe após passar pelas mesmas dores que ela ou sobre como a culpa é capaz de se perpetuar mesmo para quem não deveria ter motivos para senti-la, o cineasta continua impecável ao pensar planos e composições visuais que salientam um universo feminino trágico mas sempre altivo em muitas particularidades. Julieta, contudo, não se eleva em função dessa estranha e quase imprevisível incompatibilidade entre dois artistas que, na teoria, tinham tudo para dar certo, mas que, na prática, se revelaram mais fortes separadamente. Apesar da falta de um importante tempero, a mistura vale por trazer um cineasta retomando uma fórmula de sucesso que havia deixado de lado há uma década. Que Julieta seja encarado, então, como apenas o ensaio de uma bela retomada. Sendo otimista dessa forma, dá para compensar um pouco a frustração.