Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado #12: “Pela Janela”, de Caroline Leone

Magali Biff é superlativa no drama Pela Janela. Como Rosália, ela acompanha o tom do filme de Caroline Leone ao adotar um desempenho que mostra tudo sem mostrar nada.

Frequente colaboradora do cineasta Esmir Filho desde os tempos do curta-metragem Saliva, a montadora Caroline Leone também resolveu contar suas próprias histórias em narrativas longas. E começou com o pé direito: antes de fazer sua estreia nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela foi selecionado, ainda em sua gestão de roteiro, para a Fabrique des Cinémas du Monde, projeto organizado pelo Institut Français de Paris, em parceria com o Festival de Cannes e o Marché du Film, para apoiar o desenvolvimento de projetos assinados por diretores que estão produzindo seus primeiros ou segundos longas-metragens. Mais do que a validação tanto do Fabrique des Cinémas quanto do Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela é realmente uma produção bem sucedida. Reforçando o olhar feminino destacado na Serra Gaúcha este ano (quatro dos sete filmes selecionados para a mostra brasileira levam a assinatura de cineastas mulheres), essa coprodução Brasil/Argentina se debruça a falar sobre um nicho que, em Hollywood, por exemplo, somente a diretora Nancy Meyers parece se atentar: o das mulheres de meia-idade que, sim, são protagonistas de suas próprias vidas e que também passam por dilemas e transformações.

Ao passo em que Nancy Meyers fala basicamente sobre mulheres ricas que sofrem por amor, Caroline Leone vai muito mais afundo na vida feminina de meia-idade ao registrar o mundo de uma personagem que, ao perder o emprego de anos em uma fábrica, precisa reconstruir sua vida. A primeira etapa dessa jornada acontece a partir de uma viagem junto ao irmão para a Argentina. Não se engane, entretanto, ao pensar que Leone, também autora do roteiro, percorrerá os caminhos conhecidos de um road movie ou de filmes sobre mulheres maduras. As lógicas clássicas de um filme do gênero estão ali — particularmente, gosto sempre da ideia de encontrar, ao fim da estrada, uma personagem diferente da que entrou —, mas Pela Janela tem um tempo próprio, caminhando a passos lentos, o que nos leva a uma narrativa sem pressa, sem agonia e que dá uma dimensão muito mais interessante a dramas que descambariam para cenas hiperbólicas em projetos sem muita criatividade. Nesse sentido, percebam como o longa finalmente solta o choro há muito tempo preso pela protagonista: ele acontece quando Rosália (Magali Biff) está lavando o rosto, como se ela própria não se permitisse verter lágrimas mesmo em um universo privado, o que diz muito sobre essa mulher calada e introspectiva que acompanhamos ao longo de 85 minutos.  

Registrando com discrição a cultura latina quando viaja pelas estradas da Argentina, Pela Janela faz a sábia escolha de não usar a geografia simplesmente como cartão-postal. Tudo é muito mais delicado do que qualquer ponto turístico poderia traduzir, a exemplo da clara transformação que a protagonista sofre ao ganhar uma camisa que, em um primeiro momento, considera um tanto estapafúrdia, mas que, após determinadas vivências que até então lhe eram desconhecidas, passa a vestir até mesmo com certa vaidade. A cena nas Cataratas do Iguaçu, representando uma comunhão com a natureza e uma metáfora da libertação das lágrimas presas, também é emblemática nesse ponto de virada da vida de Rosália. Sendo assim, é por olhar com calma e proximidade uma fase da vida onde as pequenas mudanças podem causar as maiores das reviravoltas internas que Caroline Leone entrega um filme que, como todo bom cinema, cresce pouco a pouco com o espectador ao longo tempo. Se você não sentir tudo isso, que a experiência valha, ao menos, pelo desempenho maravilhoso de Magali Biff, uma atriz que, apesar de trabalhar com dramaturgia desde os anos 1980, especialmente no teatro, ganha uma de suas chances mais preciosas. Assim como o longa, ela aproveita cada minuto de projeção com a maior das delicadezas, mostrando tudo sem mostrar nada. E isso só é coisa de gente grande.

45º Festival de Cinema de Gramado #10: um pouco sobre os curtas

Não vemos o rosto de Sara, mas vemos a personagem por completo. O Quebra-Cabeça de Sara é um dos destaques da mostra competitiva de curtas-metragens do Festival até aqui.

Entre um e outro longas, há ainda, no 45º Festival de Cinema de Gramado, um amplo e nobre espaço para os curtas-metragens (os brasileiros são exibidos antes de cada longa e os gaúchos ao longo do primeiro fim de semana em sessões vespertinas). Agora tiro um pouco de tempo para sobre alguns dele. Começo com A Gis, muito provavelmente o melhor filme da mostra que vi até agora – e acho difícil qualquer outro superar. O curta narra em forma de documentário a vida da transexual brasileira Gisberta Salce, que foi brutalmente assassinada em Portugal no ano de 2006. Poderoso e comovente, A Gis arrebata pela maneira completa e respeitosa com que narra a trajetória de sua personagem, devidamente relembrada por amigos, familiares e até mesmo pelo policial que encontrou seu corpo. Além de reproduzir A Balada de Gisberta, linda canção gravada na voz de Maria Bethânia em homenagem à Gis (confira abaixo uma apresentação ao vivo da cantora), o curta se torna universal a partir do íntimo e do particular, o que considero sempre muito bonito e insuperável.

Uma dobradinha perfeita em termos de qualidade e temática é O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro, cineasta que anos atrás esteve aqui em Gramado com outro curta-metragem, O Clube. Filmado inteiramente no apartamento do próprio diretor com a diarista que trabalha quinzenalmente por lá, O Quebra-Cabeça de Sara é caseiro na forma, mas contundente e complexo no conteúdo. Nas imagens, nunca vemos o rosto de Sara e apenas acompanhamos seu trabalho como diarista ao mesmo tempo em que ouvimos uma narração em que ela conta a descoberta da homossexualidade da filha. Ela trabalha com gays, mas prefere que a filha seja uma “vadia” do que lésbica. Sara admite o preconceito e diz que é assim mesmo que pensa. Negra, nem a própria cor ela poupa ao afirmar que tem coisa errada que “só preto faz”. É complicado, mas vitorioso o trabalho de Allan porque Sara não simplesmente destila um discurso odioso. Na verdade, tudo ali é humanizado, onde o diretor evidencia a complexidade dos preconceitos. Normalmente não ouvimos nem procuramos enxergar a dimensão de ideias e valores contrários aos nossos. O Quebra-Cabeça de Sara ouve e procura. Um pequeno grande filme.

Um outro curta-metragem em competição me provocou na leva apresentada até aqui. É Sal, de Diego Freitas. Difícil falar sobre o filme porque toda sua curiosidade gravita em torno da resolução, que é justamente o que traz o impacto de todo o filme. Em linhas gerais, dois homens marcam um encontro e a partir daí divagam sobre as etapas do que estão prestes a fazer nessa noite que logo se revela irreversível para ambos. O objetivo comum dos protagonistas é revelado nos últimos segundos da história, mas Sal se sustenta muitíssimo bem até lá, principalmente porque os protagonistas Eucir de Souza e Guilherme Rodio são muito bons e porque o diretor Diego Freitas consegue criar um clima indiscutivelmente eficiente: é impossível não ficar intrigado e até mesmo nervoso com os misteriosos diálogos dos dois personagens. A revelação é perturbadora, e o mais impactante: baseada em fatos reais. Certamente, um título que não passa despercebido aqui na Serra Gaúcha, pelo assunto que descortina e por suas qualidades como cinema.

No mais, há curtas bacanas, mas que não me comoveram ou instigaram como os que citei acima. Embarcando no plano infanto-juvenil, temos dois exemplares: O Espírito do BosqueMédico de Monstro. Duplamente exibidos, tanto na mostra gaúcha quanto na nacional, TelentregaMãe de Monstros, ambos de Porto Alegre, são realizados com um admirável esmero técnico, mas o primeiro se destaca mais pela provocação de seu desfecho e o segundo pelo bom exercício do cinema de gênero (no caso, o terror). Já a animação Caminho dos Gigantes tem um magnífico trabalho de som e alta qualidade técnica, ao mesmo tempo em que entrega uma história repleta de metáforas e leituras. Por enquanto, em maior ou menor grau, a competição de curtas brasileiros é bem representada, com três filmes especialíssimos. Já está de bom tamanho. A programação completa do 45º Festival de Cinema de Gramado está disponível no site http://www.festivaldegramado.net.

45º Festival de Cinema de Gramado #9: “As Duas Irenes”, de Fabio Meira

Priscila Bittencourt e Marco Ricca como pai e filha em As Duas Irenes, o delicado e completo drama de estreia do diretor Fabio Meira.

Não há como assistir ao drama As Duas Irenes sem imediatamente associar o longa-metragem de estreia do diretor Fabio Meira ao lindíssimo À Deriva, assinado por Heitor Dhalia em 2009. Ambos são obras centradas na vida de jovens garotas que, em meio às transformações e efervescências da adolescência, descobrem que seus pais vivem casos extra-conjungais. Porém, o que difere As Duas Irenes de À Deriva é que o primeiro traz um elemento muito mais complexo: não só o pai de Irene trai a esposa como também vive uma vida à parte com outra família, onde a filha também se chama Irene. Ao descobrir esse segredo que devastaria e intrigaria qualquer pessoa, a jovem decide se tornar amiga dessa outra Irene, tentando compreender primeiro o que levou o pai a criar e sustentar um outro núcleo familiar e segundo a sua própria identidade a partir de uma menina que carrega seu mesmo nome e sangue, mas com personalidade e história de vida inteiramente diferentes.

A situação é desconfortável, e o que fascina em As Duas Irenes é o poder do diretor Fabio Meira, também autor do roteiro, em fazer com que o espectador olhe para as descobertas da protagonista com a mesma curiosidade que ela própria olha. Nesse sentido, é bem possível dizer que o longa se sustenta a partir de uma tensão ininterrupta, seja pela forma como o filme desbrava a figura do pai sem mostrar seu íntimo (o que não é motivo para tratá-lo de forma unidimensional) ou pela nova identidade com que Irene assume para conhecer a meia-irmã, o que faz com que ela engate uma mentira atrás da outra para sustentar uma nova vida. O conflito dá total ritmo para o filme, que, em cada situação vivida pela personagem, desdobra situações importantes e que nos fazem refletir sobre o antiquado modelo patriarcal que ainda hoje rege a sociedade, em especial a de cidades menores. 

Com uma interpretação reveladora da jovem Priscila Bittencourt, As Duas Irenes é delicado e sutil ao tratar o íntimo de todos os personagens, capturando com precisão a turbulência silenciosa dos sentimentos de cada um deles. Enquanto a Irene de Priscila entra em pleno conflito na relação com o pai sem jamais revelar o segredo para a mãe – o que obviamente também ilumina o inegável afeto que ela sente por ele -, outros coadjuvantes ganham suas devidas dimensões, como a mãe da segunda Irene, que, em um momento super discreto mas emotivo, chora por um conflito com o marido. Mais uma prova de que As Duas Irenes tem uma costura muito fina é o trabalho de Marco Ricca como esse pai que, apesar de refletir o comportamento machista e característico de toda uma geração, também tem momentos de afeto e carinho com ambas as famílias. Contido e ao mesmo tempo pulsante, o filme ainda não esquece de de contemplar as emoções, fragilidades, medos e pulsões físicas da fase adolescente. Nada previsível, clichê ou fora de tom. Tudo no lugar. Uma verdadeira pérola.

45º Festival de Cinema de Gramado #6: “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais: ambas são excelentes em mais um filme onde a diretora Laís Bodanzky faz o naturalismo brilhar.

Lá se vão 16 anos desde que a diretora paulista Laís Bodanzky estreou na produção de longas de ficção com o poderoso Bicho de Sete Cabeças. Suas obras posteriores podem não ter causado o mesmo alvoroço do que o filme estrelado por Rodrigo Santoro, que rendeu a Bodanzky uma série de prêmios nacionalmente, mas consolidaram a identidade perfeitamente clara da diretora. Falando sobre a relação entre pais e filhos adolescentes em As Melhores Coisas do Mundo, sobre as dores e alegrias do envelhecimento em Chega de Saudade e sobre a (falta de) inclusão das mulheres no mundo esportivo em Mulheres Olímpicas, Bodanzky sempre procurou radiografar histórias de pessoas como eu e você. Mais especial ainda é a forma como ela lança esse olhar: sem jamais criar tramas mirabolantes ou preocupadas em surpreender, ela relata histórias muito cotidianas, conferindo uma bem-vinda verossimilhança a todos os roteiros que escreve. Não é diferente com o drama Como Nossos Pais, que, após elogiada sessão na mostra Panorama do Festival de Berlim deste ano, integra agora a competição do 45º Festival de Cinema de Gramado e finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 31 de agosto.

Longa de Bodanzky mais centrado no universo feminino, Como Nossos Pais parte de uma transgressão na vida de sua protagonista: exausta de tentar manter o papel da super mulher que dá conta da casa, dos filhos, da família e da carreira, Rosa (Maria Ribeiro) abandona as aparências ao descobrir que, na verdade, é fruto de um passageiro caso extraconjugal vivido por sua mãe em uma viagem internacional. Em crise no trabalho, também já não consegue mais dar conta das filhas, que chegam à pré-adolescência com o típico temperamento dos jovens dessa idade. Para completar o caótico cenário, a mãe de Rosa anuncia a descoberta de um câncer, o que faz com ela passe a refletir sobre a finitude da vida e, claro, das relações familiares. Na teoria, não deixa de ser novelesca a decisão do roteiro de fazer com que a protagonista passe por todo tipo de provação para que Como Nossos Pais se movimente dramaticamente. Já na prática, o filme nunca descamba para o dramalhão porque Bodanzky, como sempre, puxa todo conflito para o plano naturalismo, o que é consequência direta do fato de ela própria também escrever o roteiro (ao lado de Luiz Bolognesi). Qualquer acúmulo de dramas não se apresenta como uma mera apelação para causar impacto dramático, mas sim para refletir a vida como ela simplesmente é (afinal, é difícil encontrar alguém que não tenha vivido fases onde simplesmente tudo parece dar errado).

Ainda que lhe falte certa intensidade ou o frescor dos espirituosos Chega de SaudadeAs Melhores Coisas do MundoComo Nossos Pais opta pela sobriedade mesmo nos discursos prontos ou nas discussões expositivas. Um perfeito exemplo dessa compensação é como o filme constrói Clarice, matriarca da família que passa a agir com notável franqueza após a descoberta de um câncer. Além de não tratar a questão da enfermidade como muleta dramática, Clarisse Abujamra, a atriz, não torna o pragmatismo de sua personagem em uma simples antipatia: aliás, é justamente por agir de forma tão diferente do esperado para a situação que ela se torna a figura mais fascinante da história. E Abujamra, ótima intérprete que é, faz uma composição impecável de uma mulher que, lá no fundo, de um jeito bem diferente, também vive suas angústias e deseja deixar algum tipo de legado emocional para a filha com quem tem uma relação frequentemente distante e conturbada. A Rosa de Maria Ribeiro não fica muito atrás: naquele que é provavelmente o papel de maior destaque de sua carreira, a atriz confere naturalidade e verossimilhança a uma jovem personagem que sente na pele todas as obrigações impostas pela vida e pela sociedade, especialmente para as mulheres.

Falando nelas, é importante que Como Nossos Pais seja dirigido e roteirizado também por uma mulher no sentido de trabalhar, com economia e sutileza, discussões essencialmente panfletárias ou estereotipadas em mãos masculinas. Por mais que o longa não esteja livre de abordagens, digamos, rasas (a paranoia da protagonista em descobrir qualquer tipo de traição do marido é um conflito que anda em círculos), o resultado é envolvente ao radiografar uma sociedade contemporânea, urbana e em constante transformação, aqui retratada sob a luz das relações que se estabelecem entre diferentes gerações. Ao se manter fiel ao tipo de cinema que sempre gostou de fazer, a diretora estabelece a sua vocação temática não como a descoberta de uma fórmula que deve sempre ser mantida, mas sim como uma maneira de, a cada filme, exercitá-la nos mais variados tipos de histórias e personagens.

45º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Matador”, de Marcelo Galvão

O Matador é o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Foto: Pedro Saad/Netflix

Vá entender o porquê de tanta gente – público e crítica – ter inventando a tal polêmica em Cannes que discutia o valor de um filme a partir do fato de ele estrear ou não em uma sala de cinema. Curto e grosso, saio em defesa da plataforma ao dizer o seguinte: prefiro mil vezes assistir a um filme que está na tela (seja ela qual for) exatamente da mesma forma que foi pensado em sua fase embrionária do que me deparar com uma obra que passou por dezenas de produtores, sendo mutilada a cada decisão estritamente comercial com fins de distribuição só para chegar na tela grande. Esse, afinal, é o principal cerne da questão: a preferência pelo valor artístico, pela visão de um criador. Isso deve ser soberano, sempre. E a Netflix tem plena consciência disso.

Antes, em Cannes, OkjaThe Meyerowitz Stories. Agora, em Gramado, O Matador, que faz sua primeira exibição nos 45 anos do festival serrano, mas sem reproduzir – com toda razão – as “polêmicas” que tomaram o célebre evento francês na edição deste ano. E o caso é novamente de acerto: em escala de produção e em construção de gênero (no caso, o faroeste), Marcelo Galvão, um habitué de Gramado com vitórias recentes pela comédia Colegas e pelo belíssimo drama A Despedida, faz de O Matador um divertido e competente western brasileiro. E isso se distancia do mero impacto de dimensões que o filme tem – o esmero técnico aqui é realmente de tirar o chapéu, da trilha super funcional assinada por Ed Côrtes ao design de produção de Zenor Ribas -, alcançando o plano do próprio conceito da história, uma vez que Galvão, também autor do roteiro, cria tramas e personagens muito particulares sem jamais trair o que o filme delimitou como crível e possível para aquele universo. Não há artificialidades aqui e muito menos o estofo raso de técnica e dramaturgia tão comum em longas que tentam emular gêneros bastante específicos.

Em termos estruturais, pontos para a acertada decisão de misturar elementos clássicos do gênero – as heranças malditas, as sucessões familiares, a morte como solução fácil – e ao mesmo tempo brincar, por exemplo, com os pontos de vista da trama, como na boa parcela do filme que se distancia do protagonista Cabeleira (Diogo Morgado) para contar outras histórias. Há ainda algumas surpresas divertidas, como um pequeno número musical com a portuguesa Maria de Medeiros. Primeiro longa Original Netflix produzido no Brasil, O Matador cimenta a impressão já sugerida anteriormente de que Galvão é um cineasta que, apesar de não ter a chamada “assinatura” que a crítica tanto adora tornar obrigatória na carreira de cineastas, encontra sua assinatura, justamente, na falta de assinatura. Transitar por todos os gêneros e mesmo assim manter uma boa média de qualidade exige talento, e é um feito alcançado por poucos. Galvão sai ganhando. E a Netflix também por ter a visão de apostar no projeto, que muito provavelmente não chegaria aos cinemas. Muito menos em um número digno de salas.