Cinema e Argumento

Rapidamente: “Em Ritmo de Fuga”, “Gatos”, “Madame Satã” e “Nossas Noites”

Lázaro Ramos é visceral em Madame Satã, filme de Karim Aïnouz que contempla a vida de uma marcante figura da vida boêmia carioca dos anos 1920.

EM RITMO DE FUGA (Baby Driver, 2017, de Edgar Wright): Menos maneirista e artificial do que em Scott Pilgrim Contra o Mundo, o diretor Edgar Wright alcançou o momento mais célebre da sua carreira até aqui com Em Ritmo de Fuga, aventura que rendeu ao jovem Ansel Egort uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator no segmento comédia/musical. Menciono Scott Pilgrim porque foi o único trabalho de Wright que conferi antes de Em Ritmo de Fuga – e, vocês precisam me perdoar, mas a lembrança não era das melhores. Continuo com a impressão de que o diretor embala demais o seu trabalho para alcançar o status de pop, cult e descolado, o que me distancia da história em si, mas Em Ritmo de Fuga é um bom entretenimento por ter um protagonista devidamente carismático e humano, um bom elenco de suporte, uma trilha bacana e sequências de ação ao mesmo tempo dinâmicas e bem coreografadas. A trajetória pessoal do protagonista ainda dá um toque especial para uma história que, na essência de seus crimes e assaltos, não chega a ser esse espetáculo todo que celebraram desde a estreia. Um dos últimos filmes em que tivemos a oportunidade de ver Kevin Spacey com naturalidade antes da sua irreversível derrocada em Hollywood, Em Ritmo de Fuga tem qualidade técnica e vontade de divertir a qualquer custo. E, considerando mais uma vez a minha relação particular com o cinema de Wright, é justamente a consciência dessa vontade que acaba me distanciando de um mergulho completo na diversão.

GATOS (Kedi, 2016, de Ceyda Torun): Como um grande apaixonado por felinos, fiquei com um sorriso aberto de ponta a ponta ao longo de toda a projeção de Gatos, documentário ambientado em Istambul, na Turquia, onde milhares dos bichanos-título circulam livremente pelas ruas. O maior mérito do filme dirigido pela estreante em longas Ceyda Torun é escapar da armadilha de fazer um registro apenas fofinho sobre os animais para de fato conferir personalidade a cada um deles, como se fossem personagens tão interessantes quanto qualquer um de nós. Percebam também a delicadeza do filme ao destacar a relação dos gatos com os seres humanos, inclusive em casos tocantes, alguns deles cercados de superstição, em que homens e mulheres relatam experiências que trazem à tona todo o afeto e o cuidado que detratores dos felinos insistem em dizer que eles não têm. Tratando-se de solidez cinematográfica, Gatos, em contrapartida, acaba se diluindo. Mesmo compactado em menos de 80 minutos, o documentário, lá pela metade, já começa a andar em círculos por não interseccionar histórias e personagens, aqui apresentados de forma independente, como em capítulos. Quando chegamos ao terceiro ou quarto animal, o longa segue mantendo a curiosidade muito mais pelo charme dos gatinhos e pela habilidade da diretora em acompanhá-los em situações curiosíssimas do que por sua habilidade em explorar novas possibilidades de narração.

MADAME SATÃ (idem, 2002, de Karim Aïnouz): Um dos trabalhos mais marcantes do diretor Karim Aïnouz, Madame Satã aborda, com notável segurança, a personalidade avassaladora de João Francisco dos Santos, que, sob o codinome que dá título ao filme, foi uma personagem marcante da noite carioca em meados dos anos 20. Pobre, analfabeto, negro, homossexual e travesti, Madame Satã tinha um temperamento dos mais fortes, o que o levou para a prisão inúmeras vezes, muitas delas por furtos, agressões e desacato à autoridade. Sobre seus encarceramentos, dizia que boa parte das brigas com os policiais era ocasionada por sua intolerância ao tratamento que eles davam às pessoas, principalmente quando elas eram negras e coincidentemente consideradas suspeitas. Dadas as linhas gerais desse personagem, é preciso aplaudir o trabalho de Karim Aïnouz ao abarcar o furacão Madame Satã sem jamais fazer com que o filme degringole em qualquer tipo de tom, seja da própria história ou da interpretação visceral de Lázaro Ramos, que está no desempenho mais desafiador e brilhante de sua carreira. Premiado em Havana, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Madame Satã é um filme de época que, na escolha da simplicidade, captura a parte boêmia e marginalizada de um Rio de Janeiro de quase 100 anos atrás sem qualquer artificialidade. Para completar, uma força extra-fílmica: sob a luz dos dias de hoje, onde negros, gays e travestis não deixaram de seguir à margem da sociedade, Madame Satã permanece como um elegante grito de reivindicação.

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night, 2017, de Ritesh Batra): Não vou esconder que tenho um tremendo fraco por filmes que reúnem atores veteranos, especialmente em propostas como a de Nossas Noites, que toca em questões tão camufladas na arte, como as mazelas cotidianas do envelhecimento e as pequenas alegrias que podem redimensionar essa fase da vida. Normalmente, na mesma proporção da imediata simpatia que projetos como esse me despertam, vem a decepção, pois nem sempre tais histórias são contadas com a devida dose de complexidade, carisma ou criatividade. E Nossas Noites, adaptação do romance homônimo escrito por Kent Haruf, é mais um exemplar que fica no meio do caminho. Jane Fonda e Robert Redord são ótimos, claro, especialmente juntos, mostrando que, muitas vezes, só mesmo a experiência pode trazer químicas instantâneas e naturais como a deles, mas o grande problema de Nossas Noites não é nem entregar o filme inteiro a eles para se esquecer de contar uma história, e sim tentar separá-los durante boa parte da trama. Quando se atenta demais a personagens secundários (o neto que chega para passar uma temporada na cidade, o filho problemático que passa por uma tumultuada separação, os vizinhos que morrem ou confabulam sobre a relação dos protagonistas), Nossas Noites cai em lugares-comuns, esquecendo-se que a preciosidade da experiência é acompanhar apenas aqueles duas pessoas em universo tão próprio e particular.

Sem Amor

Direção: Andrey Zvyagintsev

Roteiro: Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin

Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Varvara Shmykova, Matvey Novikov, Daria Pisareva, Yanina Hope, Marina Vasilyeva, Maxim Stoianov, Andris Keiss, Aleksey Fateev

Nelyubov, Rússia/França, 2017, Drama, 127 minutos

Sinopse: Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente. (Adoro Cinema)

Clássica na vida e no cinema em geral, a disputa pela guarda de um filho ganha contornos assustadoramente inversos em Sem Amor, novo filme assinado pelo russo Andrey Zvyagintsev, diretor do célebre Leviatã. Nesse duríssimo novo conto assinado por ele, pai e mãe se confrontam para, pasmem, jogar um ao outro a tutela do jovem Alyosha (Matvey Novikov), renegando abertamente as suas responsabilidades como progenitores. Enquanto ela é desprovida de qualquer senso ou vocação maternal, ele argumenta, a partir de uma tese deveras machista, que toda criança depende muito mais da mãe do que do pai. E, em uma dessas peças que a vida nos prega com requintes de crueldade, o filho, um dia, desaparece sem deixar qualquer vestígio. Coincidência do destino? Castigo divino? Premonição infantil? Assombrosas, as duas horas densas de Sem Amor se movimentam a partir dessas interrogações, radiografando o que acontece quando perdemos aquilo que, lá no fundo, nós realmente queríamos perder de alguma forma.

Exibido em uma sessão única e disputadíssima na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, Sem Amor preserva, em seus personagens, bastante do clima das paisagens russas: rígidos e frios, todos lidam com a vida de forma racional e pragmática. Tomem como exemplo os próprios relacionamentos que marido e mulher já nutrem fora do casamento: Boris (Alexey Rozin), que já engravidou a nova namorada, tem zero interesse em lidar com as carências e inseguranças da moça, ao mesmo tempo em que Zhenya (Maryana Spivak) parece não ser ouvida nem mesmo quando diz “eu te amo” para um namorado de idade e renda mais avançadas. A tônica das relações distantes e não tão humanas dos personagens termina por impregnar a grande jornada que o casal se vê obrigado a enfrentar antes de oficializar o término do matrimônio: na busca pelo filho desaparecido, inexiste qualquer faísca de reavaliação afetiva entre os dois, o que endossa a tese de que, se Boris e Zhenya estão juntos, é porque a situação exige ou porque, de alguma forma, também entendem que este é um calvário que, ante seu histórico de erros como pais, precisam enfrentar lado a lado.

Há justificativa e contextualização de sobra no roteiro para que os personagens sejam compreendidos por personalidades que, no geral, correriam o risco de cair na vilania. Zhenya, que só teve o filho para satisfazer convenções sociais e familiares e que vem de um ambiente familiar incrivelmente opressivo e conturbado, lança uma provocação atualíssima: afinal, por que atribuímos mais tarefas e responsabilidades às mulheres em situações familiares? Quanto ao relacionamento amoroso entre os dois protagonistas, o filme também pega pesado: em uma daquelas discussões que beiram o desrespeito emocional ao término de uma vida compartilhada, ambos remontam o passar dos anos na relação não com saudosismo por sentimentos que não voltam mais, mas sim reinterpretando cada decisão tomada ao longo do caminho como se elas já assinalassem ou fossem responsáveis pelo inevitável desmantelamento do matrimônio. Sem jamais mostrar uma luz no fim do túnel, o roteiro de Sem Amor é esperto o suficiente para compreender que o pessimismo dos personagens é matéria-prima para complexidade, sem reduzi-lo a uma mera característica que confere algum tipo de personalidade aos protagonistas.

Por ter seus principais conflitos originados de um acontecimento baseado no suspense, Sem Amor precisa inevitavelmente se debruçar sobre uma narrativa de mistério. Mesmo que transfira grande parte dos dilemas para o plano emocional, o filme não esquece de sua grande interrogação ao dedicar quase todo o seu terço final ao desaparecimento do menino, culminando em um desfecho que preza muito mais pelo drama do que por sua resolução racional e que preserva todas intenções do filme. Com grande potência, Sem Amor, que é o representante da Rússia para disputar uma vaga no Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, reverbera pela situação inimaginável de uma criança que se descobre renegada pelos pais e pela demolição final de um relacionamento já em frangalhos. Ainda não conferi The Square, que venceu a Palma de Ouro em Cannes este ano, mas é bom que o diretor sueco Ruben Östlund tenha realizado um filmaço, pois a obra de Andrey Zvyagintsev, que também competiu no festival francês, definitivamente não fica atrás desse status.

Assassinato no Expresso do Oriente

I see evil on this train.

Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Michael Green, baseado no livro homônimo de Agatha Christie

Elenco: Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Josh Gad, Daisy Ridley, Leslie Odom Jr.,  Johnny Depp, Tom Bateman, Olivia Colman

Murder on the Orient Express, EUA/Malta, Drama/Suspense, 104 minutos

Sinopse: O detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) embarca de última hora no trem Expresso do Oriente, graças à amizade que possui com Bouc (Tom Bateman), que coordena a viagem. Já a bordo, ele conhece os demais passageiros e resiste à insistente aproximação de Edward Ratchett (Johnny Depp), que deseja contratá-lo para ser seu segurança particular. Na noite seguinte, Ratchett é morto em seu vagão. Com a viagem momentaneamente interrompida devido a uma nevasca que fez com que o trem descarrilhasse, Bouc convence Poirot para que use suas habilidades dedutivas de forma a desvendar o crime cometido. (Adoro Cinema)

Haja topete para enfrentar a mitologia dupla que cerca O Assassinato no Expresso do Oriente. A primeira delas é, claro, o popular livro homônimo lançado por Agatha Christie em 1934. A segunda é a adaptação dirigida por ninguém menos do que o saudoso Sidney Lumet em 1974 com um elenco que reunia nomes como Albert Finney, Lauren Bacall, Vanessa Redgrave, Sean Connery e Ingrid Bergman (vencedora de seu terceiro e último Oscar pelo desempenho apresentado na obra). Para começo de conversa, que fique, então, anotado: a bagagem que a nova versão de O Assassinato no Expresso do Oriente precisa carregar é das mais pesadas.

O novo projeto, no entanto, não se intimida, pois as ambições não param por aqui: já está confirmada a produção de uma franquia estrelada pelo excêntrico detetive Hercule Poirot, protagonista de Expresso do Oriente, dessa vez interpretado por Branagh. O ator, que também dirige o filme, repetirá a dobradinha em Morte no Nilo, que está na fila de espera como a nova transposição dos universos de Agatha Christie para o cinema. Até lá, fica a torcida para que Nilo tenha mais clima do que a nova versão de Oriente, uma vez que, mesmo com um elenco à altura do filme de 1974 em termos de prestígio, esse remake em cartaz nos cinemas brasileiros não chega perto de causar qualquer comoção.

Verborrágico, O Assassinato do Expresso do Oriente se atrapalha com o zelo excessivo ao material literário. Branagh, de vez em quando, tenta trazer criatividade e fluidez como diretor ao, entre outras jogadas, posicionar a câmera em pontos inusitados, mas não é o suficiente para disfarçar a vocação literária da trama. Escrito por Michael Green (Blade Runner 2049Logan), o roteiro reforça a sensação com a total falta de profundidade dos personagens, que, sem maiores embasamentos dramáticos, desfilam como se tivessem apenas que destacar suas características mais básicas e pontuais. Assim, a tarefa de Penélope Cruz, por exemplo, é somente carregar o sotaque como uma religiosa espanhola tratada como mero alívio cômico.

O que sobra como diversão para O Assassinato no Expresso do Oriente é de fato tentar descobrir quem cometeu o tal homicídio nesse cenário extraordinário, o que, já vale avisar, é uma tarefa impossível (e talvez seja isso que mantenha o espectador interessado em meio a uma condução tão morna). Se Branagh acerta na personificação de Poirot sem transformá-lo em um mero palhaço inteligente, seu trabalho como diretor carece de tração: tanto nas revelações quanto nas pistas falsas que planta, Branagh não cria fascínio pelo senso de surpresa ou esperteza. O resultado é uma conclusão criativa em essência, mas amortecida por um filme que não acompanha sua invenção.

Morno e sem vida, O Assassinato no Expresso do Oriente perde a belíssima chance de ser uma viagem inesquecível: imaginem o tanto que poderia ser feito para os sentidos com uma trama cuja principal circunstância por si só já causa certo pavor. Não sei quanto a vocês, mas, para me angustiar, basta a ideia de estar preso em um trem encalhado por uma avalanche. E o que dirá, então, com um assassino sem identidade à solta! Pois não há essa tensão, e a moral da história, pela milésima vez, é a de que certos ícones devem permanecer intocados. Será que um dia vão aprender?

Extraordinário

Because I’m your mom, it counts the most.

Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Jack Thorne, Stephen Chbosky e Steve Conrad, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Mandy Patinkin, Danielle Rose Russell, Bryce Gheisar, Elle McKinnon, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Millie Davis

Wonder, EUA/Hong Kong, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta. (Adoro Cinema)

Desde que nasceu com uma deformação facial, o pequeno Auggie Pullman (Jacob Tremblay) passou por mais de 20 cirurgias plásticas. Os procedimentos repararam vários de seus sentidos prejudicados, como a visão e a audição, mas jamais lhe conferiram qualquer estética aceitável aos olhos da sociedade. Por isso, se o nosso rosto é o registro mais explícito de tudo aquilo que já vivemos através dos anos, Auggie, com apenas dez, tem história até demais para exibir ao mundo e principalmente ao amedrontador universo escolar que agora lhe aguarda. Eis a verdadeira tragédia que impulsiona a emoção de Extraordinário: não a deformidade física, e sim o fato de um garoto tão jovem e doce precisar compreender, logo cedo na vida, que nem sempre as pessoas conseguem ser generosas com aquilo que consideram remotamente “diferente”.

Sucesso estrondoso de bilheteria nos Estados Unidos, Extraordinário deve repetir sua trajetória bem sucedida com as plateias do Brasil e de todos os cantos do mundo, pontuando mais um grande êxito na carreira do diretor Stephen Chbosky, que, em 2012, escreveu e dirigiu o adorado As Vantagens de Ser Invisível. O efeito é semelhante: tanto Extraordinário quanto As Vantagens de Ser Invisível foram abraçados por público e crítica, mas o diálogo entre os dois filmes é muito mais interessante no sentido de tentar entender o porquê de ambos conseguirem juntar com tanta facilidade dois públicos normalmente distintos. Afinal, como adaptar com excelência um best seller emotivo, motivacional, mais palatável e de viés comercial de modo que ele também agrade uma plateia à espera de narrativas acima da média?

Entre tantos aspectos, é preciso, claro, procurar diferentes ângulos daquilo que já conhecemos. É o que faz Extraordinário, que, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio, coloca outros personagens no centro da narrativa para levantar diferentes percepções quanto ao protagonista, como a da irmã mais velha, que nunca teve qualquer protagonismo em casa frente aos tantos cuidados físicos e emocionais com o caçula, ou a do colega de escola que, aos poucos, passa a compreender Auggie a ponto de se tornar seu melhor amigo. Dessa forma, Extraordinário deixa de ser um monólogo de seu protagonista para se tornar um filme que, sim, sempre converge para sua discussão central, mas a partir de múltiplos caminhos. Essa estrutura traz dinâmica e curiosidade para um relato que que poderia apenas se acomodar nas difíceis circunstâncias de um personagem dramático por si só.  

Chbosky, que escreve a adaptação ao lado de Jack Thorne e Steve Conrad, traça um paralelo estimulante em Extraordinário: de um lado, toda a graça de uma infância cercada de imaginação (Auggie é fã de Star Wars e encontra conforto ao sonhar que é popular na escola por levar o icônico Chewbacca ao pátio da escola!); de outro, a dura realidade de uma sociedade que, quando não comete bullying, dificilmente esconde o olhar torto e assustado para um garoto que, lá no fundo, todos preferem que tome certa distância. Chbosky cumpre os rituais para um filme de natureza assumidamente comercial (há, claro, a trilha do brasileiro Marcelo Zarvos para sublinhar emoções e eventos que surgem apenas para estender um pouquinho mais as lágrimas), mas a leveza e a tristeza são muito bem comandadas por uma direção graciosa e que, no geral, está atenta ao quanto deve açucarar a jornada emocional do longa.

Com o carisma do elenco, ainda há como incrementar o resultado: compensando o fato do talentoso Jacob Tremblay (lembram como ele era magnífico em O Quarto de Jack?) estar embaixo de uma pesada maquiagem que praticamente impossibilita uma composição mais minuciosa do ator, todo o elenco de suporte é consistente em talento, de Julia Roberts, uma atriz que gosto demais em papéis dramáticos, a outros jovens atores, como Noah Jupe, que interpreta o amigo Jack Will, e Izabela Vidovic, que dá vida à irmã de Auggie. Misturando drama e otimismo (uma combinação praticamente infalível para obras dessa natureza), Extraordinário revela mais do que um sucesso de bilheteria que remonta à boa e velha definição do filme-família: tomando certa perspectiva, é mais do que clara a consolidação de um cineasta que tem tudo para consolidar uma carreira com filmes populares e, de quebra, ainda comover novas plateias.

Rapidamente: “De Canção em Canção”, “Escravos do Desejo”, “A Vingança Está na Moda” e “Your Name”

Bette Davis e Leslie Howard em Escravos do Desejo: o filme foi produzido na década de 1930, mas a composição da história segue transgressora mesmo após oito décadas.

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song, 2017, de Terrence Malick): Recentemente o diretor italiano Luca Guadagnino (Um Sonho de AmorUm Mergulho no Passado) alfinetou o cinema do canadense Xavier Dolan com certa razão: Guadagnino diz ter problemas com Dolan porque não acredita que um cineasta possa exercitar a criação artística lançando filmes anualmente, sem reservar uma temporada na agenda para o amadurecimento de ideias. O comentário também poderia ser aplicado à carreira recente de Terrence Malick, um diretor que já chegou a ficar 20 anos sem filmar e que hoje dá indícios de dirigir por encomenda. Só isso para explicar a série de longas genéricos e redundantes lançados por ele desde A Árvore da Vida. Olhando em retrospecto, é fácil constatar que Amor PlenoCavaleiro de Copas e esse mais recente De Canção em Canção são obras viciadas na fórmula de A Árvore da Vida. A câmera gira, atravessa paisagens, captura o pôr-do-sol e gruda na caminhada de personagens que falam frases soltas, se encaram e vagam pelo nada sem chegar a lugar algum. De Canção em Canção poderia ser um filme lindíssimo sobre a beleza e a tragédia dos relacionamentos humanos, em especial os amorosos, tão intensos, reveladores, desnorteantes, sufocantes e finitos. Ao invés disso, o filme parece não ter fim por repetir maneirismos de forma incansável, deixando de dar qualquer profundidade a personagens que, defendidos dentro do possível por um elenco de alto nível (Rooney Mara! Michael Fassbender! Ryan Gosling! Natalie Portman! Cate Blanchett!), inspiram mais tédio e inércia do que qualquer outra coisa. Um período de férias não faria mal ao diretor.

ESCRAVOS DO DESEJO (Of Human Bondage, 1934, de John Cromwell): Reza a lenda que Bette Davis, uma atriz ainda desconhecida no início dos anos 1930, quis fervorosamente protagonizar Escravos do Desejo porque pressentia que esse papel lhe daria o tão esperado estrelado em Hollywood. Bette, que foi também visionária em tantos outros pontos posteriores de sua carreira, já fazia a aposta certa desde o princípio, pois, além de trazer a sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, Escravos do Desejo já representava muito bem o tipo de cinema e de papel que eternizariam essa prestigiada intérprete norte-americana. Por mais que tenha problemas em regular a intensidade e, por que não, a verossimilhança de tantos fatos e reviravoltas em pouco mais de 80 minutos, o filme surpreende pela coragem com que trata representações que, ainda hoje, são tão delicadas para a indústria, como a da mulher, que, aqui, mesmo vista sob a luz da vilania, faz o que bem entende, além de rejeitar qualquer padrão que a sociedade queira lhe impor. Ainda em 2017, é raríssimo encontrar relatos onde o homem corra atrás de uma mulher que lhe é indiferente, invertendo a clpassica fórmula perpetuada por Hollywood ao longo de sua História. Com uma performance realmente reveladora de Bette Davis, interpretando uma das megeras menos conhecidas de sua carreira, Escravos do Desejo segura o interesse do espectador ao tornar imprevisível cada ação da protagonista, uma mulher cuja trajetória jamais se rende ao moralismo da redenção, reforçando a ideia de que Escravos do Desejo foi e ainda é uma obra transgressora.  

A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker, 2015, de Jocelyn Moorhouse): Trazendo o roteiro mais dispersivo e desorganizado da carreira de P.J. Hogan (O Casamento do Meu Melhor AmigoO Casamento de MurielOs Delírios de Consumo de Becky Bloom), A Vingança Está na Moda é uma produção australiana que beira o irritante pela quantidade de indecisões que guiam tanto os rumos da história quanto o próprio tom escolhido pela diretora Jocelyn Moorhose, que não tem qualquer destreza para regular a mistura entre drama e comédia de uma história que não diverte na comédia nem no drama. Kate Winslet até consegue causar certa graça ao desfilar lindamente pela cidade do interior que abandonara anos atrás e que agora volta a ser seu lar, mas o roteiro não molda com clareza a personalidade de uma protagonista repleta de incógnitas. Tudo é abrupto, apressado, mal explicado e, acima de tudo, sem objetivo definido. A Vingança Está na Moda atira para todos os lados e se perde em meio a tantos personagens coadjuvantes que, de vez em quando, ganham inexplicável espaço na trama. Pode até ser que o romance homônimo escrito por Rosalie Ham no qual o longa se baseia também queira se esquivar do clássico arco dramático da protagonista que, após anos, volta para a cidade natal para enfrentar fantasmas do passado, mas a recusa ao óbvio se perde ainda mais na direção: Moorhouse não tem talento desenvoltura para brincar com caricaturas e muito menos delicadeza para fazer a sempre tão refinada alquimia entre o riso e o choro, o que termina comprometendo ainda mais a adaptação já dispersiva.

YOUR NAME (Kimi No Na Wa, 2016, de Makoto Shinkai): Sucesso avassalador no Japão, onde se tornou a maior bilheteria da história do país para uma animação, superando o clássico A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, Your Name faz por merecer tanto badalo: em qualquer recorte de tempo ou espaço, esse filme assinado por Makoto Shinkai seria mesmo uma revelação por toda a sua criatividade. As linhas gerais da sinopse não fazem justiça à obra (dois jovens que passam a trocar de corpos de forma esporádica e sem razão aparente), o que não deve ser motivo de desânimo. É questão de pouco tempo de projeção para que Your Name comece a surpreender com uma narrativa intrincada, surpreendente e gradativamente emotiva. Durante boa parte da história o filme se garante com a comédia, com o carisma dos personagens e com uma trilha sonora irresistível, mas é quando começa a revelar suas artimanhas que a animação ganha uma perspectiva ainda mais interessante. Dificilmente uma experiência para os pequenos (além da trama não-linear que, pouco a pouco, demanda total atenção do espectador, há de se considerar todo o detalhamento da cultura japonesa, tão essencial para o encaixe das peças do quebra-cabeça), Your Name tem um pique invejável e consegue um feito cada vez mais raro, inclusive para filmes com pessoas de carne e osso: o de surpreender a todo momento e de sempre estar muito à frente do espectador, jamais permitindo que ele anteveja suas resoluções. Imperdível!