Cinema e Argumento

Apostas para o Globo de Ouro 2022

Unveiling Of The New 2009 Golden Globe Statuettes

Não houve uma celebridade sequer disposta a participar do Globo de Ouro 2022. O motivo já é conhecido: o aberto boicote da indústria à falta de representatividade do prêmio e outras questões que rondam a Hollywood Foreign Press Association desde muito tempo, como todos os privilégios ofertados e aceitos pelos membros votantes na prospecção de votos. O boicote deu tão certo que nem os movimentos já feitos pelo Globo de Ouro para diversificar seu corpo de associados surtiu efeito, fazendo com que a HFPA ficasse sem emissoras interessadas em transmitir uma cerimônia em qualquer formato.

Tendo tudo isso em vista, o que veremos hoje é algo inédito na história do Globo de Ouro: nem mesmo uma transmissão ao vivo será viabilizada para anunciar os vencedores, que serão divulgados através do site e das redes sociais da premiação, basicamente em formato de release de imprensa, situação ainda mais crítica do que a cerimônia de 2008, realizada sem público devido à greve de roteiristas que acontecia à época. O impacto é claro: o Globo de Ouro terá impacto consideravelmente menor na temporada deste ano, visto que não teremos grande repercussão midiática da transmissão e dos discursos dos vencedores.

Ainda assim, para não perder o hábito, listo abaixo alguns palpites para a noite de hoje, que deve ser dominada pelo drama Ataque dos Cães, de Jane Campion, e pelo musical Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg. 

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Ataque dos Cães / alt: Belfast
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Amor, Sublime Amor / alt: Não Olhe Para Cima
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães) / alt: Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Kristen Stewart (Spencer) / alt: Olivia Colman (A Filha Perdida)
MELHOR ATOR – DRAMA: Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães) / alt: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Zegler (Amor, Sublime Amor) / alt: Alana Haim (Licore Pizza)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!) / alt: Leonardo DiCaprio (Não Olhe Para Cima)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) / alt: Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kodi Smith-McPhee (Ataque dos Cães) / alt: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
MELHOR ROTEIRO: Licorice Pizza / alt: Belfast
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto / alt: Luca
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Mão de Deus (Itália) / alt: Drive My Car (Japão)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer) / alt: “Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR TRILHA SONORA: Duna / alt: Ataque dos Cães

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession / alt: Round 6
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Only Murders in the Building / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Mare of Easttown / alt: Maid

MELHOR ATRIZ – DRAMA: MJ Rodriguez (Pose) / alt: Uzo Aduba (In Treatment)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jeremy Strong (Succession) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Elle Fanning (The Great)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Steve Martin (Only Murders in the Building) / alt: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winset (Mare of Easttown) / alt: Jessica Chastain (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston) / alt: Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Jennifer Coolidge (The White Lotus) / alt: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Kieran Culkin (Succession) / alt: Brett Goldstein (Ted Lasso)

Adeus, 2021! (e com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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Quem pensava que 2021 seria um ano inteiramente novo se comparado a 2020 estava redondamente enganado. Embora a situação envolvendo a pandemia tenha melhorado minimamente, o mundo continuou (e continua) sofrendo com um vírus que ainda deve ficar um bom tempo entre nós. Ao meu ver, isso significa que nossas vidas continuarão sendo transformadas constantemente (e, às vezes, colocadas à prova, quando não de pernas para o ar). Por isso, sigo acreditando na resiliência como a virtude mais necessária para estes nossos tempos. É difícil fazer um balanço claro do ano quando tudo continua tão atípico e quando o mundo (e, mais especificamente, o Brasil) ainda nos atordoa com suas maluquices, mas, do meu lado, dentro do possível, 2021 valeu bastante a pena.

Como espectador, não poderia ter encerrado o ano de maneira mais interessante do que com uma dobradinha de Olivia Colman. Sou do time que considera seu Oscar por A Favorita uma preciosidade e a carreira trilhada por ela desde então uma das mais magníficas. Na TV, Olivia fez FleabagThe Crown, enquanto, no cinema, já garantiu uma segunda indicação ao Oscar pelo impressionante Meu Pai. Em 2021, agorinha aos 45 do segundo tempo, adiciona outra duas pérolas ao currículo: a minissérie Landscapersexibida no início de dezembro, e o longa-metragem A Filha Perdida, disponibilizado hoje, véspera de ano novo, na Netflix. São presentes incríveis de final de ano vindos de uma atriz que coleciona personagens singulares. Não deixem de conferir. Até 2022, queridos leitores!

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“Landscapers”, de Will Sharpe (minissérie, Sky/HBO)

This is a true story. E, logo após, apenas This is a story. Pode parecer a deixa mais simples do mundo, mas o letreiro que abre o primeiro dos quatro episódios da minissérie Landscapers diz muito sobre esse true crime que não se assemelha a qualquer outro visto nesta onda recente do “gênero” formada por produções inegavelmente espetaculares, como a minissérie brasileira O Caso Evandro (disponível na Globoplay), e outras tão inacreditáveis quanto incômodas, como The Act, antologia da Hulu que rendeu um Emmy de melhor atriz coadjuvante para a ótima Patricia Arquette.

A abertura é sugestiva não porque, assim como outros trabalhos ficcionais, Landscapers ajuste fatos para fins dramáticos, e sim porque de fato sabemos muito pouco sobre o que realmente aconteceu com Susan e Christopher Edwards, casal sentenciado a 25 anos de prisão por ter arquitetado o assassinato dos pais de Susan e depois enterrado os corpos no jardim da casa onde as vítimas viviam. Susan e Christopher esconderam este segredo por 15 anos, além de falsificarem cartas e outros documentos para indicar que os pais de Susan ainda estavam vivos, viajando pelo mundo. O casal clama inocência até os dias de hoje e sustenta uma versão onde apenas Susan teria alguma culpa, limitada à morte da mãe.

Como se não bastasse o fato das autoridades nunca terem conseguido arrancar qualquer confissão de Susan e Edwards que corroborasse a versão pela qual foram condenados, ambos são extremamente polidos, educados, afetuosos e fieis um ao outro. Vendo de fora e sem prova alguma, é difícil acreditar no que eles possam ter feito. E é por isso que estamos falando de uma true story: sem depoimentos e confissões para tomar como base, resta somente o exercício da imaginação ao roteirista Ed Sinclair, que opta pelo caminho interessante de dimensionar muito mais a relação dos protagonistas do que o crime em si. 

A gênese do relacionamento entre Susan e Christopher está no não pertencimento. Landscapers lança olhar sobre duas pessoas muito calejadas em diferentes níveis e que, quando se encontram, desobrem uma razão para viver, mesmo que em um mundo alheio à vida real, construído por eles próprios, um em que eles possam sobreviver sendo quem são. A minissérie compreende o poder da ilusão deste mundo particular ao explorar as múltiplas alternativas que ele pode apresentar para os fatos. Na cabeça de Susan e Christopher, nada é tão objetivo assim, muito menos na versão trabalhada incansavelmente pela polícia.

De certa forma, Landscapers pode ser um estudo sobre até onde um amor pode ir quanto testado. É convincente e comovente como Christopher (David Thewlis) repete o quanto ele não pode decepcionar Susan por ela ser uma pessoa muito frágil, esperando que as autoridades peguem mais leve ou sejam mais compreensíveis somente por terem essa informação. Não se trata de teatro: em tudo que Landscapers captura do cotidiano do casal, ambos se tratam com imenso carinho e respeito. O que tais sentimentos significam é outra história.

Engana-se, entretanto, quem supõe que a minissérie romantize criminosos ou procure justificativas para seus atos. É, na verdade, um outro olhar — mais complexo e provocador — para defender a ideia de que nada é tão reducionista quanto as pessoas estão acostumadas a acreditar quando se deparam com a figura de um assassino. E tudo se potencializa na dupla de atores que dá vida aos personagens. Olivia Colman e David Thewlis dão uma verdadeira aula de interpretação, com momentos impressionantes juntos ou separados em cena. Eles mergulham em todo tipo de sentimento de uma jornada que não soa condizente ou justa para o mundo paralelo dos personagens. Temos aqui nada menos do que uma construção brilhante de dois grandes atores.

O roteiro de Landscapers é o primeiro da carreira de Ed Sinclair, marido de Olivia Colman, algo bastante surpreendente tendo em vista as tantas camadas e especificidades do texto. Contudo, ele não está sozinho atrás das câmeras: a direção de Will Sharpe, realizador de carreira curta até aqui, joga com imaginação, realidade, estilo e boas ideias aproveitando elementos da paixão de Susan pelo cinema e, eventualmente, adotando uma linguagem bastante teatral para trabalhar as reconstituições do crime. Mesmo no que evoca como conclusão, há incertezas e improbabilidades em Landscapers, o que pode ser a principal razão para se encantar ou se frustrar com o resultado.

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“A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal (Netflix)

Quando confrontada sobre uma de suas tantas atitudes tomadas a partir de razões aparentemente indecifráveis, Leda (Olivia Colman) diz que ela própria não sabe explicar por que fez o que fez. Este momento é a melhor síntese possível — se é que ela pode existir — de A Filha Perdida, estreia da atriz Maggie Gyllenhaal como diretora. Durante cerca duas horas, Leda se revela uma personagem complexa, nuançada, compulsiva e imprevisível. Sem tentar necessariamente explicá-la, a adaptação do livro de Elena Ferrante propõe uma meditação sobre as múltiplas e incômodas camadas de uma protagonista em um grande entrave com seus próprios traumas — todos ainda muito vivos na personagem, traduzidos em impulsos muita vezes incompreensíveis.

Atriz talentosíssima, Maggie Gyllenhal foi ousada ao escolher A Filha Perdida como seu trabalho de estreia atrás das câmeras. Há, primeiro, toda a expectativa em cima de uma adaptação da célebre e enigmática Elena Ferrante, autora italiana cuja identidade é desconhecida do público e que colocou como condição a escolha de uma mulher para dirigir o filme na negociação da cessão dos direitos de adaptação. E, segundo, A Filha Perdida é, por si só, em sua versão cinematográfica, uma experiência enredada sentimentalmente e complexa em termos de prosa, com uma narrativa complicada de ser transposta para o cinema. É admirável a coragem de Maggie ao abraçar o projeto e, mais ainda, o seu talento para também escrever ela própria o roteiro, entrelaçando as tantas discussões propostas por Ferrante e uma estrutura de idas e vindas no tempo.

Em linhas gerais, A Filha Perdida abrange o período de férias de uma professora universitária cuja tranquilidade é abalada por memórias que vem à tona a partir de um encontro à beira-mar. Passado e presente colidem em um drama psicológico imerso em tensão, ainda que não saibamos exatamente qual. O que, para alguns, pode ser uma mera problemática da vida cotidiana, para Ferrante, é trauma. E por que as escolhas difíceis e exaustivas do nosso dia a dia não haveriam de ser? Gota a gota, o filme desembrulha uma protagonista em suas incontáveis camadas, ao ponto de toda a situação ser muito mais profunda e complexa do que imaginávamos quando o filme começou, sem precisar de engenhosidades ou grandes surpresas.

Como um homem, nunca terei qualquer noção sobre como é viver as turbulências maternas, mas fui provocado pelas discussões evocadas por A Filha Perdida sobre tudo o que não é dito ou mostrado em relação ao papel de uma mãe, especialmente no que tange as habilidades e os comportamentos cobrados pela sociedade. Trata-se de um raro (e necessário) caso de filme que dá voz inclusive a pensamentos ruins envolvendo esse momento de vida de uma mulher, algo que Lynne Ramsay, de certa maneira, já havia discutido, com semelhante teor, no poderoso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Vale, aliás, perceber como ambos os longas abordam o incômodo materno através de simbologias bastante interessantes. Ao passo que Ramsay inunda a tela com o vermelho pulsante de tintas, cores e tomates, Gyllenhaal esmiúça, por exemplo, tudo o que pode ser interpretado a partir da função de uma boneca na vida de uma criança ou de uma figura feminina. Não por acaso, os dois longas são dirigidos por mulheres.

Assim como no livro, acompanhamos cenas pontuais da vida de Leda quando mais jovem, artifício que nem sempre funciona, seja no material original ou na adaptação. Em ambos os formatos, os flashbacks interrompem um pouco o fluxo da trama, mesmo que essenciais ao que estamos acompanhando. Talvez esse pudesse ser um ponto passível de inovação por parte de Maggie como roteirista, que, bastante reverente ao texto de Ferrante, faz ajustes pontuais na adaptações, mas nenhum fora da curva. Embora ainda não demonstre ser uma cineasta necessariamente criativa ou estética, Maggie é exímia ao construir atmosfera, munida de uma tensão constante, intrigante e que, em boa parte dos casos, não consegue nem ser ensaiada por outros tipos de filmes que necessitam dela, como os suspenses assumidos. Se esse não é um belo atestado de que encontramos uma diretora promissora, difícil saber o que é.

Por ser atriz, é muito natural que Maggie dê atenção especial ao elenco, começando por mais um trabalho extraordinário de Olivia Colman. Com uma capacidade muito natural de elevar seus próprios padrões a cada trabalho, Olivia dá um show ao assumir um papel centrado não em diálogos ou exposições, mas sim em expressões e silêncios. Leda é uma esfinge muito em função da atriz, que navega pela imprevisibilidade da personagem através de uma interpretação enigmática. Ao passo que Dakota Johnson lhe faz uma boa dupla na narrativa presente, Jessie Buckley é maravilhosa ao dar vida à versão mais jovem da protagonista. Atriz em ascensão, Buckley consegue dar o devido grau de profundidade aos flashbacks que, como já mencionado, podem soar, vez ou outra, como interrupções não tão bem sucedidas.

Pragmaticamente falando, é fácil listar os temas abordados em A Filha Perdida: maternidade, abandono, infidelidade, diferenças e semelhanças entre gerações, o efeito do tempo, traumas, remorsos… Mas ainda é pouco para se traduzir em palavras. Tão truncado quanto carregado de nuances, o longa dificilmente se define em explicações fáceis, e é o caso de experiência que, em diferentes níveis, ainda será pauta de muitas conversas. Não creio que seja papel de cineastas, autores ou artistas de qualquer natureza explicarem suas obras ou dar pitacos sobre como outras pessoas devem encarar suas obras, mas, no caso específico de A Filha Perdida, lamento muito que Elena Ferrante seja uma autora reclusa e de identidade desconhecida, pois daria tudo para saber o que ela tem a dizer sobre essa excelente adaptação.

Rapidamente: “Apresentando os Ricardos”, “Cruella”, “Druk” e “Duna”

BEING THE RICARDOS

Como a inesquecível Lucille Ball, Nicole Kidman tem, em Apresentando os Ricardos, a sua melhor interpretação no cinema em pelo menos dez anos.

APRESENTANDO OS RICARDOS (Being the Ricardos, 2021, de Aaron Sorkin): Ao que tudo indica, Aaron Sorkin tem a intenção de se tornar uma espécie de referência em filmes históricos/cinebiográficos — o que, neste caso, não é uma notícia das mais entusiasmantes. Tanto em Os 7 de Chicago quanto agora em Apresentando os Ricardos fica claro que ele pode até ser bom roteirista, mas também o quão longe ele está de ser um diretor inspirado. Se outrora seus roteiros rendiam forma criativa nas mãos de diretores como David Fincher (A Rede Social) e Danny Boyle (Steve Jobs), agora eles se apequenam por justamente não terem um cineasta de visão atrás das câmeras. Apresentando os Ricardos é uma produção que parece ter sido feita a toque de caixa, inclusive do ponto de vista técnico, onde aspectos como design de produção, figurino e trilha sonora soam até familiares, como se já tivessem sido usados em outros filmes de ideias semelhantes. Sorkin aposta na alternância da vida de Lucille Ball (Nicole Kidman) à frente e atrás das câmeras, do seu sucesso estrondoso com I Love Lucy ao seu romance com Desi Arnaz. Acusações envolvendo uma suposta participação de Lucille no partido comunista vêm à tona, e o roteiro busca equilibrar esse recorte com idas e vindas no tempo para ilustrar outros pontos da carreira da estrela. Só que nada ganha a devida tração, restando para Nicole Kidman a tarefa tão recorrente em filmes desse gênero de trazer algum brilho para o filme. E ela consegue, mas não na mímica da Lucille conhecida do público: é nos bastidores da vida da protagonista que Nicole entrega a sua interpretação mais completa e envolvente em pelo menos dez anos. Ela merecia um longa à altura deste momento.

CRUELLA (idem, 2021, de Craig Gillespie): Tenho resistência às desconstruções que a Disney vem fazendo de suas vilãs porque a saída é sempre a mesma: encontrar um outro vilão como explicação. Foi assim com Malévola, que inaugurou, em 2014, essas desconstruções, e é agora, mais uma vez, com Cruella, longa dedicado às origens da icônica Cruella de Vil da animação 101 Dálmatas. Na pele da personagem, Emma Stone se diverte com sua desenvoltura habitual e com os incontáveis e criativos figurinos assinados por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria. Outra Emma, entretanto, diverte-se ainda mais: a Thompson, vivendo a nova vilã que vem para justificar as razões que levaram Cruella e se tornar Cruella. Ela é deslumbrante e divertida em exageros performados sempre no ponto e coerentes com o tom adotado pelo filme. Tirando esses acertos da conta, resta muito pouco em Cruella, pois o filme segue a receita habitual da nova coleção de trabalhos da Disney sobre suas vilãs, estendendo-se além da conta com uma trama em que já sabemos onde tudo vai dar. Em comparação com a animação de 1961, falta à Cruella uma personalidade que vá além dos looks inegavelmente criativos. A Disney já confirmou uma continuação, e fico na expectativa para que, na sequência, possamos mergulhar de verdade nas sombras que fazem de Cruella de Vil uma grande vilã.

DRUK: MAIS UMA RODADA (Druk, 2021, de Thomas Vinterberg): Vencedor do Oscar 2021 de melhor filme internacional, Druk: Mais Uma Rodada talvez seja um dos filmes mais “acessíveis” da carreira do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, e isso não é mau sinal, ao contrário do que costuma acontecer com muitos diretores. Muito mais do que uma brincadeira envolvendo quatro amigos que, tendo descoberto um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida, Druk é uma análise muito bem articulada sobre os estímulos bons ou ruins que procuramos para encontrar algum sentido e atravessar os nossos dias tão exaustivamente mundanos. Passada a euforia vivida pelos personagens a partir da premissa apresentada, Vinterberg convida o espectador a adentrar nas razões que levaram os quatro amigos a procurar um caminho alternativo. É possível voltarmos a ser quem um dia já fomos? Em que momento as coisas se perdem pelo caminho? Como acontecimentos tão cotidianos podem descaracterizar uma vida? Essa virada de chave para o que orbita o experimento etílico não limita Druk à instigante curiosidade de seu ponto de partida, colocando a experiência em um patamar mais reflexivo, sempre potencializado pela ótima interpretação de Mads Mikkelsen, e com direito a passagens catárticas, como a cena final, embalada pela ótima canção “What a Life”, do Scarlet Pleasure, e facilmente um dos momentos mais marcantes entre as produções lançadas no Brasil em 2021.

DUNA (Dune: Part One, 2021, de Denis Villeneuve): O canadense Denis Villeneuve tem redefinido o cenário de blockbusters “conceituais”, movimento ensaiado em A Chegada, evoluído em Blade Runner 2049 e agora consolidado de vez em Duna. Meu envolvimento com os filmes do diretor, no entanto, tem sido inversamente proporcional às dimensões cada vez mais ambiciosas trabalhadas por ele. Sinto falta do Villeuve de filmes como Incêndios, O Homem Duplicado, Sicario e Os Suspeitos ao me deparar com trabalhos como este recente Duna, uma odisseia tão grandiosa quanto insípida e que já recebeu carta branca para um segundo capítulo. Além de replicar o problemático e elitista discurso de ser um filme para ser visto na sala de cinema, Villeneuve não sustenta o filme em uma tela menor, onde Duna se torna maçante e até mesmo tecnicamente frustrante. Se o diretor, assim como em Blade Runner 2049, tenta engrandecer, a todo custo, uma história mínima e circular, atributos como a fotografia de Greig Fraser perdem o impacto, rendendo uma sessão nada sensorial e deveras escura, a ponto de não se enxergar direito boa parte da história. O grande elenco, do protagonista Timothée Chalamet a participações especiais como as de Charlotte Rampling e Zendaya, vaga por areias infinitas em uma trama sem senso de urgência e pasteurizada em um mesmo tom. Na tela grande, Duna pode ser um espetáculo. Em casa, é basicamente um sonífero para quem não abraça o conceito.

“Turma da Mônica: Lições” confirma êxito da franquia com sequência madura em conflitos e ideias

Não é preciso ser diferente pra ser único.

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Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori e Mariana Zatz, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Lições”, de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi

Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Monica Iozzi, Paulo Vilhena, Isabelle Drummond, Malu Mader, Vinícius Higo, Gustavo Merighi, Camila Brandão, Lucas Infante, Emily Nayara, Ana Carolina Godoy, Beto Schultz, Angélica Paula, Adriano Paixão, Gabriel Blotto, Pedro Souza

Sinopse: Mônica (Giulia Benitte), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) fogem da escola. Agora, terão que encarar as suas consequências, e elas não serão poucas. Nesta nova jornada, a turma descobrirá o real valor e sentido da palavra amizade.

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Até onde se tem notícia, a versão cinematográfica da Turma da Mônica será composta por uma trilogia inteiramente comandada pelo cineasta Daniel Rezende. Há fôlego de sobra para que a franquia se desdobre em mais capítulos, mas, se for mantida a ideia de somente três filmes, é bem provável que seja entregue uma trinca invejável. Isso porque o segundo capítulo intitulado Lições chega aos cinemas brasileiros preservando e ampliando o que deu certo em Laços ao mesmo tempo em que compreende sua missão como um filme de transição, preparando o terreno para um terceiro capítulo onde, possivelmente, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali se confrontarão até mesmo com dilemas de gente grande.

Para falar a verdade, Lições já coloca os pequenos em situações muito próximas da vida adulta. Ao afastarem Mônica do resto da turma, os roteiristas Thiago Dottori e Mariana Zatz, mais uma vez tomando como base a graphic novel de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi, conduzem os personagens a reflexões sobre crescer e as coisas que perdemos ou devemos lutar para reconquistar pelo caminho. E vão além: é no mínimo surpreendente como Dottori e Zatz introduzem temas bastante contemporâneos através de características marcantes das figuras criadas por Mauricio de Sousa. Ver Lições interpretando a fome infinita de Magali como uma questão de ansiedade passível de ser tratada mostra que a franquia veio mesmo para dizer coisas novas e importantes.

A visão amadurecida dos personagens é bem-vinda a Lições porque filmes intermediários de trilogias costumam patinar para encontrar alguma identidade e não simplesmente replicar os acertos de um primeiro capítulo. Pois o longa de Daniel Rezende tem excelente noção do tempo e o quanto ele, na infância, parece se arrastar na mesma medida em que voa sem percebermos. O quarteto de protagonistas pode ter certa resistência, mas a convocação para o crescimento já está aí, e o desafio é conseguir manter o espírito de criança mesmo com a vida adulta acenando no horizonte. Tal norte tomado por Lições cria bases muito sólidas para um filme de transição ainda melhor que seu antecessor e com bastante a contribuir para a franquia.

Outro aspecto que gosto muito no longa de Rezende é como ele não cai em duas armadilhas plantadas desde os primeiros minutos de projeção. A primeira é em relação à narrativa episódica. Por ter um foco muito maior na vida escolar dos protagonistas, Lições parecia fadado a ser um conjunto de esquetes e aventuras, como um entretenimento caça-níqueis. Longe disso: com habilidade, Lições apenas se utiliza do contexto escolar para tratar de questões mais íntimas de seus personagens. A segunda se refere à introdução de outros personagens dos quadrinhos, como Franjinha, Tina e Do Contra. Ainda que haja certo excesso na quantidade de aparição deles, todos trazem alguma contribuição para o desenrolar da trama.

Para quem, assim como eu, já era fã de carteirinha do filme anterior, só há boas notícias em Lições, com a consolidação de tudo o que funcionava em Laços, do design de produção super caprichado ao tom nostálgico em homenagem à infância eternizada nos quadrinhos de Mauricio de Sousa. E são indispensáveis novos elogios para Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, que fazem um trabalho maravilhoso como Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, respectivamente. Em tempo de tela, o destaque para os dois primeiros continua evidente, o que, no entanto, é de certa maneira equilibrado pelo fato de todos terem conflitos que desafiam suas personalidades isoladas e tão únicas. No próximo filme, eles estarão bem acompanhados de outro querido personagem que ainda não deu as caras, e vale acompanhar os créditos finais para descobrir quem está prestes a se juntar ao time. 

Em “Casa Gucci”, as manchetes e o marketing importam mais do que o filme em si (e isso nunca é uma boa notícia)

Father, son and House of Gucci.

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Direção: Ridley Scott

Roteiro: Becky Johnston e Roberto Bentivegna, baseado no livro “Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte”, de Sara Gay Forden

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Jeremy Irons, Salma Hayek, Jack Huston, Alexia Murray, Vincent Riotta, Gaetano Bruno, Camille Cottin, Youssef Kerkour

House of Gucci, EUA/Canadá, Drama, 158 minutos

Sinopse: O casamento e o divórcio turbulento entre Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e Maurizio Gucci (Adam Driver) leva a um assassinato.

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Com frequência, Hollywood se apropria de histórias da vida real (e com vocações cinematográficas) para realizar filmes que acreditam no apelo isolado dos fatos retratados como fórmula de sucesso, o que faz com que algo muito importante se perca nas discussões: a obra em si. Casa Gucci padece desse mal: tem Lady Gaga, que já deu incontáveis entrevistas sobre o seu método de atuação; há também a força da marca Gucci para despertar expectativas em torno de como o mundo da moda será retratado; e, por fim, soma-se a curiosidade voyeurística do público pelos bastidores da vida de ricos e poderosos envolvidos em crimes ou escândalos. Salvas raras exceções, não vejo como boa notícia quando curiosidades orbitantes ganham mais holofotes do que o próprio filme. Inclusive, vejo quase como quase uma sentença de que receberemos muito pouco em troca, e o novo trabalho de Ridley Scott não foge à regra.

Entendo, claro, o quanto tudo isso faz parte de um jogo muito natural de Hollywood. Por isso mesmo, também deixo de lado a problemática da apropriação cultural, visto que isso obviamente está posto desde os primeiros minutos de Casa Gucci, quando constatamos o quanto o filme está mais interessado nas caricaturas, nas perucas, nos sotaques e nos confetes do que em contar uma boa história. Tendo feito essas observações, parto para o filme em si, que, como esperado, já deu conta do esperado circo midiático em torno de sua realização (membros da família Gucci ficaram desgostosos com o resultado, enquanto o consagrado estilista Tom Ford diz ter dado risadas ao assistir ao longa, mas pelas razões erradas).

Assinado por Becky Johnston e Roberto Bentivegna, a partir do livro Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte, de Sara Gay Forden, o roteiro é um dos problemas centrais do filme de Ridley Scott, outrora um diretor de títulos inesquecíveis como Thelma & Louise, Blade Runner: O Caçador de Androides e Alian: O 8º Passageiro. Até dá para classificar como interessante a decisão dos roteiristas em se debruçar no encadeamento de fatos que levou ao assassinato em questão e não em todo o burburinho crime em si, mas a aposta só seria vitoriosa se Casa Gucci não fosse previsível, disperso, risível na construção de conflitos e sem ritmo até chegar ao tão aguardado “clímax” (entre aspas por razões a serem comentadas daqui a pouco).

O roteiro, de certa forma, está configurado mais como uma checklist de tudo o que não poderia faltar no episódio em questão, não abrindo espaço para respiros: a cada cena, Casa Gucci introduz um personagem, promove uma mudança de ares, apresenta um conflito que desaparece tão rápido quanto surge, faz variar motivações conforme cada acontecimento e revela uma coisa aqui e outra ali para criar intrigas e desafetos. Inexiste o espaço para nuances e camadas. Tudo está verbalizado e pontuado em marcos específicos, o que demonstra a dificuldade de Casa Gucci em explorar as verdadeiras essências e leituras dramáticas de fatos que, aqui, nada mais são do que meros… Fatos.

Fatos por fatos, esperava, ao menos, que o filme guardasse o melhor para o final, quando Maurizio Gucci (Adam Driver) é morto a mando de Patrizia Reggiani (Lady Gaga). Contudo, Casa Gucci termina abruptamente logo após duas ou três cenas após assassinato de Mauricio. É um anticlímax completo porque tanto não temos a recompensa de uma história bem contada até ali como também a parte que poderia dar alguma tração de última hora para a narrativa fica somente para os letreiros dos créditos finais. Erro duplo: a ideia de preferir a jornada do que o ponto de chegada é desarranjada e sequer  ganhamos algo em troca ao final para atenuar o cansaço até ali.

Toda a longa e exaustiva caminhada rumo ao desfecho é o que Casa Gucci tem de pior. Falta boa inflexão a cada virada de chave, a exemplo da súbita mudança de dinâmica no casamento de Mauricio e Patrizia, bem como a decisão de Patrizia em assassinar o marido, algo repentino demais para um roteiro tão dedicado a mostrar como a personagem operava para manipular Mauricio e se tornar uma figura fundamental dentro dos negócios da Gucci.

Aliás, qual seria a dimensão desse império e a razão da Gucci ser Gucci? Considerando o que é mostrando neste longa, sabemos muito pouco. Mais uma vez simplista — e aí também se repete o problema da falta de nuances —, o roteiro não dimensiona os processos criativos da marca, a engenhosidade das operações de negócios e o requinte dos bastidores. Passagens com potencial para serem triunfantes ganham espaço como acontecimentos quaisquer, a exemplo do período em que a Gucci estava em derrocada e se reerguei a partir da ascensão de Tom Ford nas passarelas. Em certo ponto, chega a nosso conhecimento que Clark Gable usou sapatos da marca e que os icônicos lenços de Rodolfo Gucci (Jeremy Irons) estiveram no pescoço de Grace Kelly. Entretanto, fica para uma pesquisa pós-filme entender como tudo isso se deu.

Ao não ser um trabalho de encher os olhos em termos de figurino ou de caracterização, Casa Gucci tinha outra chance de ouro: se justificar na diversão e no aproveitamento de um elenco estelar. Só que a pompa raramente corresponde ao que se vê na tela. Jeremy Irons e Al Pacino, como os grandes atores que são, tentam tirar algum proveito, mas o roteiro e todo o contexto os aprisionam. Eles são bons acertos se lembrarmos da desastrosa interpretação de Jared Leto como o fracassado Paolo Gucci. Leto mira em uma leitura tragicômica e acerta no constrangimento, para dizer o mínimo.

A cota de entretenimento de Casa Gucci está na performance de Lady Gaga, visivelmente se divertindo do início ao fim. A cantriz, como sempre, tem grande presença, ainda mais se tratando de uma personagem com muitas particularidades. Se, na superestimada performance de Nasce Uma Estrela, eram claras as suas limitações dramáticas quando o filme lhe exigia maior repertório, aqui ela é mais funcional porque a história demanda presença e estrelato, atributos que Gaga, como um ícone pop e não necessariamente atriz, tem de sobra. A única ressalva é a de que, a partir determinado momento, sua personificação de Patrizia estaciona em uma nota só.

Costumo dizer que tão frustrante quanto ter uma experiência ruim ou mediana na sala de cinema é ter uma morna e que nem mesmo nos erros consegue criar um guilty pleasure involuntário. Para muitos, como já pude constatar, Casa Gucci diverte e sobrevive bem aos seus eventuais problemas. Não foi assim comigo. Desejava que tivesse sido, mas ver um filme que busca graça em frases como a de que não devemos confundir chocolate com cocô porque ambos se parecem mas tem gostos diferentes, não está nadinha próximo das minhas afinidades cinematográficas.

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