Cinema e Argumento

“O Juízo”, um suspense genérico e deslocado na recente safra do cinema brasileiro

Você já se perguntou por que nada em sua vida dá certo?

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Fernanda Torres

Elenco: Felipe Camargo, Joaquim Torres Waddington, Carol Castro, Criolo, Kênia Bárbara, Fernando Eiras, Fernanda Montenegro, Lima Duarte

Brasil, 2019, Suspense, 90 minutos

Sinopse: Augusto Menezes (Felipe Camargo) muda-se com a mulher Tereza (Carol Castro) e o filho, Marinho (Joaquim Torres Waddington), para uma fazenda abandonada, herdada do avô, na esperança de colocar a vida nos trilhos. A propriedade, no entanto, carrega o carma da traição ao escravo Couraça (Criolo), que busca ao longo dos séculos a vingança contra a família de Augusto.

Todo contexto envolvendo a idealização de um filme pode ser fator crucial para definir a reação do público com o que é colocado na tela. Afinal, nada acontece no vácuo, nem mesmo o cinema. Podemos analisar O Juízo a partir dessa premissa: estreando nos cinemas em uma era onde o audiovisual brasileiro viu seus chamados filmes de gênero ressurgirem de maneira empoderada, o longa dirigido por Andrucha Waddington empalidece perante As Boas Maneiras, O Animal Cordial e Mormaço, três títulos recentes que discutiram cicatrizes sociais de nosso país com identidade, bravura e inventividade.

Não tem a ver necessariamente com o nível de excelência alcançado por cada obra, mas sim com o contexto, como já mencionado. Em meio a essa nova corrente de longas de suspense/terror, O Juízo em nada se parece com os seus pares. Claro que isso poderia ser interpretado como um elogio caso o resultado não se assemelhasse, na verdade, com produções de 20 ou 30 anos atrás que não envelheceram bem e adotam fórmulas bastante ultrapassadas, sem tratar clichês em tom de homenagem ou com certa brincadeira.

As pitadas de frustração começam na premissa que ainda insiste em colocar uma família afundada em conflitos no meio do mato, isolada de toda a sociedade e de qualquer meio de comunicação. Lá, coisas estranhas começam a acontecer, espíritos surgem, barulhos passam a vir da floresta e os personagens, inevitavelmente, serão afetados por tudo isso, testemunhando, aos poucos, o desdobramento de um relato envolvendo conturbados episódios de seus antepassados familiares. Tudo da forma como você supõe, entregue do jeitinho convencional que você já viu muitas vezes.

Era de se esperar astúcia maior de O Juízo porque o roteiro é escrito por Fernanda Torres, que, além de ser uma atriz de mão cheia, tornou-se uma autora genial nos últimos anos (seus dois romances, Fim A Glória e Seu Cortejo de Horrores, são obras-primas cercadas de fluidez, criatividade e esperteza) e já havia co-assinado o roteiro de Redentor, uma produção que escapava de ideias formulaicas. Uma teoria para justificar tamanha insipidez talvez seja a de que O Juízo estivesse engavetado há anos, sendo realizado somente agora com certo atraso, sem acompanhar a atual linguagem do cinema brasileiro.

Realizado em família, o filme tem o privilégio de contar com Fernanda Montenegro em um papel coadjuvante. Ela faz o que pode com uma personagem que cai na vala comum: uma médium que, em determinado momento, chega a dizer para um médico que ele precisa acreditar no poder da fé para tratar traumas hereditários, fazendo uma pequena menção ao clássico conflito entre ciência e fé. É um mero detalhe, mas também um elemento que exemplifica bem as abordagens tão antigas quanto o mundo que moldam a trama.

Marido de Fernanda, o cineasta Andrucha Waddington trouxe ainda o filho do casal para integrar o trio de protagonistas. Joaquim Torres Waddington, assim como seus companheiros de tela Felipe Camargo e Carol Castro, navegam no suspense de O Juízo com visível envolvimento, mesmo que a direção de Andrucha não ajude no tema de casa. Tudo leva a crer, no entanto, que o problema esteja no casamento com o texto da vez, pois Andrucha já havia feito um ótimo trabalho com toques de suspense em Gêmeas, longa realizado em 1999 com base em uma obra do mestre Nelson Rodrigues.

Em breves 90 minutos, O Juízo mergulha em traumas transmitidos de geração para geração, fé, (in)sanidade, escravidão e incomunicabilidade, ancorado em um ajuste de contas do fantasma Couraça (Criolo) com a linhagem familiar que um dia lhe causou uma grande perda. A espinha dorsal do suspense, enfim, falha igualmente em surtir efeito. Ao não se apresentar como reflexão social ou como um relato sofisticado o bastante para explorar as vertentes do gênero, o conflito central se esvai e, ocasionalmente, sequer desperta interesse. E o descaso, como sempre, é um dos piores sentimentos que qualquer filme pode despertar na plateia.

“Parasita”: fascinante mistura de gêneros ilustra questões sociais marcantes dos nossos tempos

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin Won

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Ji-so Jung, Ji-hye Lee, JaeWook Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park, Keun-rok Park

Gisaengchung, Coréia do Sul, 2019, Drama/Comédia/Suspense, 132 minutos

Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos. (Adoro Cinema)

A possibilidade de viajar o mundo é um dos maiores fascínios proporcionados pelos filmes que assistimos. Navegando por obras de diversas nacionalidades, podemos desbravar novas culturas, conhecer diferentes linguagens e descobrir a maneira como cada lugar registra, através do cinema, a sua própria existência. Tão maravilhoso quanto isso é perceber como, uma vez que outra, apesar dos idiomas, dos quilômetros e das vivências que nos separam, compartilhamos muitas coisas, até mesmo angústias e conflitos. Nesse sentido, poucas ferramentas conseguem ser tão poderosas quanto a sétima arte, algo que é possível constatar em uma involuntária quadrilogia de filmes recentes que, em língua não-inglesa, evidencia problemas equivalentes em diversos cantos do mundo, como as brutais diferenças entre classes, a reivindicação por algum tipo de humanidade e as dores dos desassistidos pela vida, pela sociedade e pelos governantes.

Vem do Brasil, aliás, um dos exemplares dessa quadrilogia tão representativa: Bacurau, que levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes e versa sobre uma cidade nordestina diante da ameaça de sumir do mapa. Antes disso, o Japão e o Líbano nos entregaram, respectivamente, Assunto de Família e Cafarnaum, dois longas que, entre a delicadeza e a visceralidade, lançaram luz sobre a duríssima jornada de pessoas sem perspectivas de vida. E, agora, chegamos ao impactante Parasita, da Coreia do Sul, que ganhou a Palma de Ouro do último Festival de Cannes em uma escolha unânime do júri presidido pelo cineasta Alejandro González-Iñárritu. Acumulando elogios por onde passa, tornando-se, inclusive, um grande sucesso de público nos Estados Unidos, onde obras de língua não-inglesa raramente performam com certa popularidade, Parasita ostenta um consenso justíssimo ao observar as disparidades no convívio entre famílias de classes distintas, saltando de um gênero a outro com maestria e elevando a já reconhecida carreira de Bong Joon-Ho (Mother, O Hospedeiro, Okja, Expresso do Amanhã) a um novo (e emblemático) patamar de excelência.

São claras e refinadas as fronteiras de gênero entrelaçadas por Parasita. Desconhecendo a trama, é possível supor que, a partir do primeiro terço, trata-se de uma curiosa e instigante comédia. Passada a apresentação dos personagens e a conclusão do conflito inicial, Bong Joon-ho, que assina o roteiro ao lado de Han Jin Won, leva o espectador para um eufórico suspense de becos aparentemente sem saída. Por fim, o ciclo se completa com um peso dramático que ressignifica a comédia e o suspense trabalhados até ali. O caldeirão de gêneros apresentado em Parasita funciona porque Bong Joon-ho, claro, é um expert nessa mistura (para quem ainda não conferiu qualquer outro filme assinado por ele, vale a busca para constatar tal talento), e o diretor se esbalda em cada abordagem: a comédia é inteligente e apropriada para a fase introdutória do filme, o suspense não é nada óbvio e consegue promover uma grande virada na trama, e o drama amarra todas as pontas com um misto de delicadeza e profundidade. Tudo sem fazer com que Parasita pareça ter vários filmes dentro de um.

A matéria-prima para qualquer um dos gêneros trabalhados por Bon Joon-ho é, sem dúvida, a contemporânea sequência de reflexões sociais que atravessa o filme do início ao fim. Interpretando a família pobre do filme como animais que precisam se esconder ou ser exterminados (a casa sendo dedetizada logo no início, a família embaixo da mesa da sala, a forma como a mãe fala que todos devem se esconder como baratas quando a família rica chegar), Parasita ilustra contrastes sociais com um roteiro impecável. Toda ação tem uma consequência, cada detalhe ganha um significado posterior e até mesmo algumas das revelações da trama são plantadas muito discretamente entre um diálogo e outro, sem que o espectador perceba. E não é pouca coisa, uma vez que Parasita tem quase uma dezena de personagens interagindo em um mesmo ambiente, o que gera um considerável número de dinâmicas diferentes entre eles.

A imensa casa onde a ação do longa se desdobra é também um personagem à parte. Tanto o casarão pode representar a ascensão financeira e social que uma família pobre tanto almeja quanto pode ser desprovida de qualquer idealização material para se tornar o secreto reduto de uma dolorosa distância familiar. Bong Joon-ho distribui acontecimentos e personagens por uma quantidade infinita quantidade de cômodos com destreza e com um inteligentíssimo trabalho de mise-en-scène que define praticamente toda a ação do filme, assim como o comportamento e as decisões tomadas pelos personagens (vale também registrar, claro, o excepcional trabalho de elenco, onde há unidade e destaques pontuais). Com cada elemento orquestrado no devido esmero, Parasita agrega as mais distintas plateias, tornando-se grandioso no detalhe, e hiper relevante em tudo aquilo que, assim como tantos outros filmes recentes, acaba registrando sobre cicatrizes sociais e universais.

“A Vida Invisível”: refinado melodrama de Karim Aïnouz traz uma perspectiva íntima e feminina para a labiríntica jornada de duas irmãs

Você não sabe a falta que você me faz…

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, baseado no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Maria Manoella, António Fonseca, Nikolas Antunes, Fernanda Montenegro, Gillray Coutinho, Cristina Pereira, Bárbara Santos

Brasil/Alemanha, 2019, Drama, 139 minutos

Sinopse: Rio de Janeiro, década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier). (Adoro Cinema)

Em vários materiais promocionais, A Vida Invisível se define como “um melodrama tropical de Karim Aïnouz”. É sensacional que a obra se (re)conheça de tal maneira e que já deixe muito claro para o espectador qual a tônica trabalhada na tela, pois os conflitos são desfiados a partir de situações muito clássicas, quase novelescas, o que pode ser interpretado de maneira pejorativa porque quem prima pela criatividade e não vê beleza na simplicidade. Criar um melodrama consistente e de elementos refinados é um trabalho dificílimo que o cineasta Karim Aïnouz, munido de toda a experiência acumulada em projetos como Madame Satã, O Céu de Suely e Praia do Futuro, domina com destreza. Com essa perspectiva, A Vida Invisível se apresenta como uma obra delicada e universal que, marcada pela passagem do tempo, conduz o espectador a um labirinto de desencontros entre duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1940.

Grande vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2019, o longa tem como núcleo dramático a relação entre personagens de personalidades muito distintas. Eurídice (Carol Duarte) é uma aspirante a pianista que, retraída, segue as regras da família e das tradições da época, tentando encontrar algum propósito de vida em meio a tantas repressões. Já Guida (Julia Stockler), a irmã mais velha, busca a autorrealização fazendo o que quer, mesmo que isso lhe custe a relação com a família e especialmente com o pai, um padeiro português que comanda as mulheres de sua vida (incluindo a esposa) com as doses de machismo e autoritarismo tão comuns à época. De tudo isso, A Vida Invisível poderia extrair uma linguagem televisiva e previsível, mas o roteiro escrito por Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, com base no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, deixa de lado a afetação para buscar a sutileza. 

Um exemplo desse acerto é o emocionante ponto de equilíbrio que o filme encontra ao lidar com a questão da passagem do tempo. Narrando paralelamente a vida das duas irmãs, a história envolve o espectador com reflexões inerentes a todos nós, como as relações que não remendamos, as palavras que não dizemos, as oportunidades que nos são tiradas, os erros que não consertamos e como, inevitavelmente, o tempo passa e acaba nos cobrando tudo isso. Karim, que sempre foi um diretor de relatos difíceis, talvez pela primeira vez se veja na posição de encontrar o belo em personagens e situações mais “comuns”. E o faz inspirado pela delicadeza: com duas excelentes protagonistas em cena e um Rio de Janeiro que está longe de flertar com uma versão cartão-postal, o diretor promove uma viagem muito íntima, feminina e familiar rumo a sentimentos e circunstâncias que não são extraordinários, mas que são palpáveis a todo ser humano.

A odisseia intimista de A Vida Invisível ganha brilho extra ao abordar tão bem o universo feminino e ao questionar as condições da mulher na sociedade. Tanto Eurídice quanto Guida buscam o domínio de seus próprios destinos ou pelo menos de alguma parcela daquilo que pode trazer alguma felicidade, mesmo enfrentando figuras masculinas que, no filme, são propositalmente caricatas e a comédia é sempre uma excelente ferramenta para tecer críticas ou ridicularizar determinadas leituras, como acontece com o patético marido de Eurídice, vivido por Gregório Duvivier. Como um retrato específico, mas também muito amplo das angústias femininas, A Vida Invisível é um refinado melodrama que faz bonito com as mais simples ferramentas do cinema, e ainda nos brinda com uma comovente participação de Fernanda Montenegro, que, como sempre, preenche a tela apenas com um gesto ou olhar. Não há como duvidar: apesar das adversidades, a nossa produção audiovisual tem realmente vivido tempos preciosos.

Rapidamente: “Ad Astra”, “El Camino”, “Era Uma Vez em… Hollywood” e “A Lavanderia”

Meryl Streep em A Lavanderia: novo filme de Steven Soderbergh replica o espírito e as fórmulas de A Grande Aposta e Vice, títulos recentes assinados pelo diretor Adam McKay.

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS (Ad Astra, 2019, de James Gray): É recomendável dar uma pesquisada na filmografia de James Gray (Os Donos da NoiteAmantesEra Uma Vez em Nova York) antes de embarcar em Ad Astra: Rumo às Estrelas. A partir dela, já é possível concluir que essa nova ficção científica estrelada por Brad Pitt não seguirá formatos óbvios e muito menos uma cartilha comercial do gênero. E é isso mesmo o que acontece: contemplativo, Ad Astra é uma experiência sensorial mais preocupada na viagem interior de um homem designado a ir atrás do próprio pai em outro planeta do que nas curiosidades ou nas possíveis adrenalinas envolvendo uma saga no espaço sideral. Munido da belíssima trilha de Max Richter e da excelente fotografia de Hoyte Van Hoytema, James Gray conduz o filme em baixa fervura e com com um toque íntimo que, especialmente no terço final da história, confere uma delicada potência emotiva à jornada do protagonista. Sendo assim, por mais que tenha uma interrogação central, o roteiro de Ad Astra não tem como objetivo desencadear um suspense ou explorar os mistérios do universo. Sua vocação é investigar os meandros de uma relação paterna mal resolvida e lacunar, algo definitivamente alinhado à identidade de Gray como realizador. Não é o tipo de filme que conquistará multidões, mas, como um ponto fora da curva em um gênero amplamente explorado nos últimos anos, Ad Astra alcança o sempre bem-vindo efeito de reverberar além da sessão.

EL CAMINO: A BREAKING BAD MOVIE (idem, 2019, de Vince Gilligan): Há de se compreender a imensa vontade do público em querer voltar ao universo da premiada série Breaking Bad. Contudo, El Camino, o filme dirigido por Vince Gilligan que avança um tantinho na história do programa, jamais se justifica — e pior: sequer está entre os momentos inspirados do seriado, que teve seu último episódio exibido em setembro de 2013. Em linhas gerais, o filme é apenas a encenação de uma nova via crucis para Jesse Pinkman, o trágico personagem vivido sempre com muita garra por Aaron Paul. Vá lá, muitos reencontros são bem-vindos, e há uma infinidade de referências nostálgicas a elementos e outros personagens da série. Entretanto, como extensão ou complemento ao universo de Breaking Bad, El Camino é uma decepção sem fim: além de ter um roteiro repleto de furos (é inadmissível que Jesse, perseguido nacionalmente pela polícia, hospede-se na casa de amigos traficantes já investigados um punhado de vezes sem que ninguém o procure lá), El Camino não tem clima ou muito menos menos uma trama que acrescente camadas desconhecidas de Jesse Pinkman. Nem como entretenimento funciona: repetitivo, o longa é uma sucessão de cenas de tensão que seguem a mesmíssima fórmula, apontando para uma falta de inspiração e cuidado que jamais poderíamos prever em um roteiro de Vince Gilligan. Apesar da nova investida, o desfecho que seguirá forte na memória é, sem dúvida alguma, o que vimos lá em 2013 no episódio Felina, e não El Camino, que tem tudo para não resistir ao tempo.

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019, de Quentin Tarantino): Mais um trabalho de excessos assinado por Quentin Tarantino, Era Uma Vez em… Hollywood reforça a falta de objetividade que tem acometido o diretor nos últimos anos. Assim como em Os Oito Odiados, ele leva cerca de três horas para contar uma história que poderia durar muito menos. É clara dedicação em criar uma atmosfera mais calorosa e nostálgica, mas a marcha é tão lenta que a baixíssima fervura não consegue levar o espectador para muito além das homenagens afetuosas ao cinema que o diretor presta com tanta propriedade aqui (e que podem tanto deliciar os apaixonados por cinema quanto entediar as plateias mais populares que acompanham a filmografia de Tarantino. No sentido de não fazer muita coisa com o imenso tempo que toma do espectador, a mais prejudicada é Margot Robbie, resumida a irradiar tela com sua beleza bem fotografada (ela não dispõe de texto suficiente ou outras munições para expandir sua personagem). Entre ecos de outros filmes de cineasta (a reimaginação de acontecimentos reais como em Bastardos Inglórios) e o tradicional clímax sanguinolento, macarrônico e de tom elevado, Era Uma Vez em… Hollywood tem em Leonardo DiCaprio e Brad Pitt as suas melhores qualidades. Inspirados e assertivos nas facetas de papéis muito diferentes, eles são o sopro de energia em um longa maçante, excessivo e por vezes interminável. A conclusão segue a mesma: um pouco de objetividade só faria bem a esse icônico cineasta que hoje está viciado em inchaços narrativos.

A LAVANDERIA (The Laundromat, 2019, de Steven Soderbergh): É inevitável tecer comparações entre A Lavanderia e o estilo que o diretor Adam McKay passou a adotar nos últimos anos em títulos como A Grande ApostaVice. Novamente, temos um tema super complicado (para não dizer desinteressante) tratado com um tom cômico, crítico e com certas opções narrativas cujo objetivo é facilitar o entendimento da trama para o espectador mais leigo. O prolífero Steven Soderbergh, que já chegou a vencer um Oscar de melhor direção por Traffic, aborda, dessa vez, o escândalo conhecido como Panama Papers, um dos maiores escândalos de vazamento de dados da história, quando milhões de documentos revelaram um amplo esquema de ocultamento de fortunas e lavagem de dinheiro em diversos paraísos fiscais ao redor do mundo. Para tanto, ele opta se apoiar descaradamente na fórmula de A Grande Aposta Vice, entregando uma experiência requentada, quase sem personalidade, onde nem mesmo o elenco de luxo encabeçado por Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas consegue trazer qualquer frescor. Isso é um tanto inaceitável mesmo quando lembramos de Soderbergh em seus momentos menos interessantes, já que ele sempre errou experimentando e não copiando. Há uma crítica contundente e importante na cena final, protagonizada por Meryl Streep em seu melhor momento no filme, mas é pouco para uma obra que, ao contrário dos títulos que tenta emular, não cria uma ponte efetiva entre o espectador e a difícil trama que tenta traduzir de forma irreverente.

“Greta”: com grande interpretação de Marco Nanini, longa investiga as complexas intimidades de um personagem gay na terceira idade

A felicidade nem sempre é divertida.

Direção: Armando Praça

Roteiro: Armando Praça, baseado no espetáculo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Mello

Elenco: Marco Nanini, Démick Lopes, Denise Weinberg, Gretta Sttar

Brasil, 2019, Drama, 97 minutos

Sinopse: Pedro (Marco Nanini) é um enfermeiro de 70 anos que trabalha em um hospital público de Fortaleza. Sua melhor amiga é Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que enfrenta graves problemas de saúde. Quando ela precisa ser internada, mas não encontra leito disponível, Pedro sequestra um paciente recém-chegado, Jean (Démick Lopes), e o abriga em sua casa. Inicialmente, o enfermeiro tem medo do rapaz agressivo, que se esconde da polícia por ter assassinado um homem a facadas. Depois, nasce entre eles uma relação de cumplicidade e afeto. (Adoro Cinema)

Lançado pela primeira vez como um espetáculo teatral em 1974, o texto Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá era uma comédia escrachada que fazia o público rir de personagens cujas tragédias carregavam um quê de mediocridade. Cerca de 35 anos depois, mais especificamente em 2008, a situação mudou de cenário quando o diretor Armando Praça entrou em contato com o trabalho do dramaturgo Fernando Mello: em tempos mais livres, democráticos e tolerantes, Praça, decidido a realizar seu primeiro longa-metragem, já não via mais lugar para que a história de Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos apaixonado por um criminoso, fosse motivo de risada. Não que exista algo de errado com o gênero da comédia, que pode sim ser poderoso em inúmeras leituras e circunstâncias, mas, para ele, o caso era diferente: as piadas envolvendo a encenação do texto haviam envelhecido mal, tornando urgente a necessidade de uma releitura para uma história tão íntima. O que importava para o diretor era que o protagonista fosse enfim visto como um homossexual repleto de facetas e que busca ser reconhecido como… um ser humano.

De comédia teatral a drama cinematográfico, o texto, agora com o título abreviado de Greta, ganha uma perspectiva bastante realista ao narrar os anseios de Pedro, um homem imerso em solidão e invisível perante a sociedade. Por si só, o retrato já é raro: além de mostrar um personagem na terceira idade com as devidas complexidades e transformações, Greta discute o tabu da homossexualidade na velhice, fase da vida em que muitos gays voltam ao armário para escapar de uma nova rodada de preconceitos e cobranças impostas pela sociedade. A situação é ainda mais delicada, uma vez que ele, um trabalhador de classe média baixa apaixonado pela atriz Greta Garbo, está imerso em solidão e invisibilidade (sua única amiga é uma transexual que passa por sérios problemas de saúde). A partir desse isolamento social que, por tabela, é responsável por reprimir muitos dos seus desejos ainda pulsantes, Pedro tem relações sexuais tortas e tortuosas em saunas da cidade e até mesmo com alguns de seus pacientes, o que rompe qualquer traço ético que ele deveria estabelecer com uma profissão que, nessa altura da vida, exerce sem motivação alguma.

Ambientado em pouquíssimos cenários e com um número de coadjuvantes que não enchem uma mão, Greta bebe, inevitavelmente, de sua origem teatral ao fazer tanto com tão pouco. O olhar que lança para a vida de seu protagonista é desesperançoso, inclusive porque o único feixe de luz na vida de Pedro está na paixão impossível com um fugitivo da polícia que ele conhece no hospital e passa a abrigar na sua própria casa. Não há moralismo ou o mínimo resquício de pudor em Greta: ao passo que Marco Nanini se despe de qualquer vaidade em um papel que já foi do saudoso Raul Cortez nos palcos, o filme em si não alivia para o espectador, adotando uma fotografia de poucas cores e planos fechados para despertar uma sensação de claustrofobia, antes já ensaiada pela quantidade limitada de cenários (vale notar como o apartamento do protagonista é um aperto e como a câmera insiste, de forma acertada, em se aproximar dos personagens mesmo em ambientes onde eles próprios parecem não caber).

Greta não comete o erro de fazer de seu protagonista uma figura palatável. Pedro erra (com convicção) e frequentemente toma atitudes questionáveis. Ele também se entrega a relações mesmo sabendo que elas estão fadadas a incontáveis problemas, não procura justificar a substituição do seu vazio emocional por sexo casual (muitas vezes, aliás, em condições deprimentes) e parece não ter filtro para distinguir até que ponto de fato está fazendo o que bem entende ou se está apenas se humilhando. Há um ar patético, talvez preservado da origem teatral, e uma decadência inerente ao personagem que Marco Nanini captura com profundidade e sem nenhuma maquiagem, em uma entrega impressionante. Com o vasto repertório acumulado como um intérprete capaz de transitar com facilidade entre o drama e a comédia, Nanini brilha em cena, mais ainda quando navega pelo descontrole emocional de um homem que talvez já não saiba mais quantos traumas consegue aguentar antes de enlouquecer de vez (ou de enfim retomar forças para se reconstruir).

É importante entrar no universo particular de Greta sem cobrar certas verossimilhanças. Não há muita explicação, por exemplo, para o fato da polícia jamais procurar Pedro ou visitar sua casa para saber sobre o paradeiro do criminoso que ajudou a escapar do hospital e por quem se apaixonou. As evidências são claríssimas, mas o filme não se preocupa muito com essa lacuna, o que contribui para para o esvaziamento dessa situação impossível, onde o protagonista se relaciona com um homem acusado de homicídio. Dispensando esse tipo de fragilidade, Greta é tanto incômodo quanto delicado porque coloca a totalidade do que somos como dois lados da mesma moeda. Nossos ímpetos, sonhos e desejos nos identificam como seres humanos, mas, vejam que ironia, também nos separam. Muito do que tomamos como certo ao longo da vida é negado a Pedro simplesmente pela combinação entre a sua idade e a sua natureza sexual. E é no epicentro dessa rejeição que o filme, buscando conexão e sentido para um protagonista errante, evidencia muitas de nossas falhas. Armando Praça está certo: no caso de Greta, faz mesmo todo o sentido deixar as velhas piadas de lado.

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