Cinema e Argumento

“As Boas Maneiras”: formação humana e familiar em noite de lua cheia

Você gosta de criança?

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra

Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Felipe Kenji, Andrea Marquee

Brasil, 2018, Drama/Terror, 135 minutos

Sinopse: ​Clara (Isabél Zuaa), enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana (Marjorie Estiano) como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ (Adoro Cinema)

Se você precisa categorizar As Boas Maneiras, a escolha mais óbvia seria dizer que essa é uma obra de terror. No entanto, assim como tudo na carreira da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, tal classificação só tende a simplificar a riqueza cinematográfica de seus trabalhos e dos importantes temas que ambos costumam tratar tanto nos longas que dirigem juntos (Trabalhar Cansa) quanto nos que comandam individualmente (Sinfonia da NecrópoleO Silêncio do Céu). As Boas Maneiras confirma a regra: por ter uma atmosfera de suspense fantástico, o longa é predominantemente interpretado pelo público a partir dessa perspectiva, quando, na verdade, ganha diferentes dimensões ao fazer com que a trama oscile, com extrema fluidez e versatilidade, entre momentos de mistério, drama e romance, sendo alguns deles, inclusive, pontuados por sequências musicais! Tanto frescor e desapego aos padrões fazem de Rojas e Dutra dois dos mais talentosos e instigantes realizadores de sua geração. E, para quem se propor a conferir As Boas Maneiras, outras tantas surpresas chegam com esse longa que, na última edição do Festival do Rio, faturou as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Marjorie Estiano) e fotografia.

Assim como os melhores relatos de terror, As Boas Maneiras usa elementos do gênero para falar sobre questões muito mais amplas e não têm nada de irrealistas. Se é difícil falar sobre o filme sem entregar elementos cruciais de sua narrativa, o que talvez baste saber é algo que os próprios diretores defendem sobre a história: ela é, em suma, sobre a formação de uma família. Nada mais justo para o mundo atual, onde redefinimos constantemente conceitos ao mesmo tempo em que nadamos contra uma corrente conservadora e elitista que defende o modelo tradicional de todo tipo de relação. As Boas Maneiras é também uma resposta direta a esse público, cujo repúdio extrapola o âmbito familiar, transformando o fato de ser “diferente” em um ato de resistência. E, por isso, As Boas Maneiras pode muito bem se configurar como um relato político, pois defende, através da alegoria, uma causa importantíssima e contemporânea que ganha leitura nas camadas de duas protagonistas opostas em quase todos os aspectos, começando pela cor da pele até a posição social em que ambas se encontram. 

Após um acontecimento que modifica por completo a sua história, As Boas Maneiras passa a concentrar sua discussão em um outro personagem. Essa quebra, contudo, não representa uma fragilidade. Muito pelo contrário, já que, na medida em que se encaminha para o desfecho, o longa potencializa a sua encenação, agora com um outro viés, sobre o que realmente define as relações humanas. Para tanto, todos os personagens de As Boas Maneiras se justificam em cena, uma vez que Dutra e Rojas, também autores do roteiro, definem muito bem a personalidade de cada um deles. Ainda que deixem para o espectador a tarefa de imaginar elementos que embasam determinados pontos dramáticos, isso surge mais como mérito do que como problema, já que as incógnitas contribuem diretamente para a atmosfera tensa que se instala já no primeiro e desconfortável encontro entre uma babá e a sua futura patroa. Seja no mistério ou na essência familiar, o projeto enaltece Isabél Zuaa, uma atriz forte e que se transforma durante o desenrolar da história, sempre muito bem acompanhada por Marjorie Estiano, pelo garotinho Miguel Lobo (um pequeno furacão!), pela “cantriz” Cida Moreira e por Andrea Marquee. É um elenco de peso, com a cara e o talento de um país que, apesar de tantas mazelas, segue se empoderando e se democratizando na tela do cinema graças a filmes como As Boas Maneiras

Rapidamente: “Maze Runner: A Cura Mortal”, “Perfeita é a Mãe 2”, “Roman J. Israel” e “Todas as Razões Para Esquecer”

Johnny Massaro em Todas as Razões Para Esquecer: filme trata com leveza e bom humor o término de um relacionamento a partir do ponto de vista masculino.

MAZE RUNNER: A CURA MORTAL (Maze Runner: The Death Cure, 2018, de Wes Ball): Sempre gostei de Maze Runner por sua total falta de pretensão em meio a uma enxurrada de franquias infanto-juvenis baseadas em bestseller como Jogos VorazesDivergente. A trilogia comandada pelo diretor Wes Ball nunca quis ser mais do que um eficiente entretenimento, e esse senso de diversão tem seu ponto alto no capítulo derradeiro chamada A Cura Mortal, que, infelizmente, chegou aos cinemas com uma tremenda falta de timing (o protagonista se machucou durante as gravações, atrasando um ano todo o cronograma de finalização e divulgação do filme). O desfecho não merecia mais esse golpe em termos de repercussão (Maze Runner, por alguma razão, nunca chegou a se tornar um verdadeiro hit) porque a trama, ainda que trabalhada em soluções fáceis demais, tem um pique admirável ao conduzir cenas de ação que, pelo realismo e pelo uso mínimo de efeitos digitais, fazem o espectador sentir o perigo e a adrenalina muito mais do que em em outros longas recentes do mesmo estilo. A Cura Mortal, assim como os capítulos anteriores de Maze Runner, tem pouco a dizer dramaticamente (uma prejudicada nesse sentido é Patricia Clarkson, cujo maior destaque ao longo da franquia foi uma esquecível reviravolta), mas será que não é um tanto injusto cobrar do projeto algo que ele próprio nunca prometeu?

PERFEITA É A MÃE 2 (A Bad Moms Christmas, 2017, de Jon Lucas e Scott Moore): Subestimado, o primeiro filme de Perfeita é a Mãe! trazia um elenco feminino de excelente timing cômico em uma história que, a partir de um tom de comédia mais popular, questionava os papeis impostos às mulheres, especialmente às mães, em um mundo onde o conceito de perfeição tem sido cada vez mais desconstruído e determinadas obrigações são felizmente questionadas. Aí imaginem a minha empolgação quando Christine Baranski e Susan Sarandon foram somadas ao time já formado por Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristin Bell para uma continuação. Porém, o entusiasmo termina quando o filme começa: além de antiquado na forma e com prazo de validade já estourado (comédias natalinas envolvendo confusões e desavenças familiares parecem cada vez mais experiências de décadas passadas), Perfeita é a Mãe 2 surpreende de forma negativa ao mudar a pegada do humor, agora predominantemente físico, sexual e gráfico. Dependendo do filme, situações com tapas, pontapés, drogas e ereções podem ter lá sua graça, mas aqui até o talentoso elenco surge pouco à vontade com um texto ralo e sem timing, que chega a comprometer atuações como as de Kathryn Hahn e Susan Sarandon. Previsível do início ao fim e em boa parte de mau gosto, Perfeita é a Mãe 2 é uma ressaca desnecessária.

ROMAN J. ISRAEL (Roman J. Israel, Esq., 2017, de Dan Gilroy): Os indicados ao Oscar 2018 foram anunciados em janeiro, mas ainda hoje tento entender as razões que levaram Denzel Washington a ser lembrado por um filme morno como Roman J. Israel. Denzel é sempre bom ator, mas, vindo de um desempenho intenso como o de Um Limite Entre Nós, sua presença aqui pouco impressiona. Em grande parte, há de se culpar o filme comandando por Dan Gilroy, cineasta que debutou com o visceral O Abutre, mas que, em Roman J. Israel, não preserva o mesmo talento e entusiasmo ao mais uma vez fazer um estudo de personagem. À parte a obra não ter ritmo ou criatividade, Gilroy, que também é autor do roteiro, não extrai complexidade de um protagonista desinteressante, cujas transformações ao longo da história também não são devidamente sentidas. Partindo do relato de um advogado mundano que, ao trocar de empresa, passa a enfrentar dilemas éticos, morais e profissionais ao ter que defender um homem acusado de homicídio, Roman J. Israel planta algumas promessas que acabam não se cumprindo, mas que, na medida do possível, são bem defendidas pelo desempenho sempre crível de Denzel Washington. Ainda assim, é pouco e inexpressivo para um diretor que, em seu filme anterior, já foi muito mais fundo e intenso em questões que, de certa maneira, também não deixam ser discutidas aqui.

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (idem, 2018, de Pedro Coutinho): Com o uso cada vez mais popular do termo white people problems, um longa como Todas as Razões Para Esquecer teria imensa dificuldade em ser levado a sério. Isso se o diretor Pedro Coutinho não contasse a história com leveza, contemporaneidade e um perceptível conhecimento acerca das consequências de um coração partido. Sem essas qualidades, o filme não passaria de um amontoado de situações rasas sobre um garoto branco, carioca e de classe média que trabalha em uma grande agência de publicidade e tenta superar um término de namoro entre um porre e outro. A obra em si não é necessariamente inventiva — filmes como Ela(500) Dias Com Ela, também sobre corações despedaçados, são referências óbvias inclusive na construção visual, e a tentativa de dar estofo dramático a personagens como a psicóloga vivida por Regina Braga não soam convincentes —, mas há uma certa despretensão na obra, que, ao invés de proferir filosofias ou se aprofundar em reflexões, olha para o vazio de uma geração confusa sentimentalmente tentando fazer com que ela, de alguma forma, possa se identificar com tudo aquilo, percebendo que, apesar das pedras no caminho, tudo fica bem, de um jeito ou de outro. E esse material, digamos, agridoce, ainda é certeiro para Johnny Massaro, que, após o ótimo desempenho em O Filme da Minha Vida, constrói, com versatilidade, as qualidades e defeitos de um personagem que, em teoria, sempre fica a um passo de se tornar caricato.

“O Animal Cordial”: terror brasileiro subverte o gênero slasher e explora os diferentes sentidos da brutalidade

Sabia que eu já matei muita gente?

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Luciana Paes, Murilo Benício, Irandhir Santos, Camila Morgado, Humberto Carrão, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ariclenes Barroso

Brasil, 2018, Terror/Suspense, 96 minutos

Sinopse: São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado).

É uma questão cultural e histórica: uma significativa parcela das plateias brasileiras alimenta um infundado preconceito com a produção audiovisual de seu próprio país, ainda mais se tratando do chamado “cinema de gênero” (termo que refuto porque sempre me parece redundante, afinal todo cinema tem pelo menos um ou mais gêneros). Recupero essa percepção porque, após conferir O Animal Cordial na programação do Fantaspoa 2018, tive a certeza de que, caso fosse produzido por norte-americanos e estrelado por um elenco Hollywoodiano, o primeiro longa-metragem assinado por Gabriela Amaral Almeida daria o que falar. A partir dessa teoria de que, dada a sua nacionalidade, o filme não será devidamente valorizado, quem sai perdendo é o próprio público, que deixa de apreciar um dos trabalhos mais viscerais do cinema nacional em anos — e também uma das obras de terror mais impactantes e descontruídas da recente safra do gênero, independente da origem de quem está por trás das câmeras.

Impactante alegoria sobre barbáries sociais, o longa se utiliza da violência e de uma dose cavalar de sangue para discutir o nosso eventual retorno a um estado primitivo quando enfrentamos situações extremas. A trama parte de um assalto, mas o filme captura uma outra perspectiva: a dos comportamentos desencadeados por esse violento acontecimento. E não falamos propriamente das brutalidades cometidas ao longo de um pesadelo vivido em um pequeno restaurante paulista. A força emocional de O Animal Cordial está menos nos acontecimentos e mais na personalidade muito bem definida de personagens carregados de curvas emocionais. Mais: o longa adota como conceito que não há violência física que se equipare, por exemplo, à agressão emocional da homofobia ou ao desprezo de um casal elitista pela garçonete que trabalha no restaurante. Afinal, o verdadeiro terror é se deparar com a pior índole do ser humano nas mínimas situações.

Por se focar majoritariamente no comportamento e na natureza de seus personagens, O Animal Cordial amplia a inegável tensão que cai nos ombros do espectador durante toda projeção, começando pelos protagonistas Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes), pessoas que, diante do assalto, de repente encontram um tipo de protagonismo que, talvez, jamais tiveram do ponto de vista profissional e emocional em suas cotidianidades. A abordagem do roteiro é certeira porque ela se distancia de tantos outros relatos de terror ao questionar as complexidades de cada personagem, colocando quase em segundo plano o desenrolar do assalto em si. Como um drama tradicional, é possível que O Animal Cordial não tivesse metade do seu impacto, já que muitas das discussões levantadas pelo roteiro — o perigo de amar, os calos emocionais, a exploração profissional — ganham novas leituras e dimensões quando se contrastam com a extrema violência física (e não passa despercebida a maneira como o sangue desempenha papel crucial nas diversas construções de sentido do filme).

A diretora Gabriela Amaral Almeida diz que O Animal Cordial representa o seu desejo pessoal de fazer um filme que ela própria nunca viu. E faz total sentido. Gênero que, no geral, objetifica ou despreza as mulheres ao assassiná-las das mais diferentes formas, o terror ganha aqui um exemplar raro, pois Gabriela usa a falência da masculinidade como espinha dorsal do filme, onde o único homem que mostra dignidade e retidão de caráter é justamente o cozinheiro gay. Enquanto isso, a presença feminina, centrada na figura de Luciana Paes, exerce influência direta em praticamente todos os acontecimentos do roteiro. Como um exemplar do terror slasherO Animal Cordial renega a misógina concepção de seu gênero, inclusive em uma poderosa cena de sexo, onde a mulher, novamente, é quem detém o controle absoluto.

Outro aspecto que chama a atenção é o elenco estelar e de primeiríssima qualidade, algo raro se tratando de obras específicas como essa. Murilo Benício, possivelmente no papel de sua vida, e Luciana Paes, uma atriz que segue despontando como uma das mais talentosas e autorais de sua geração, encabeçam o time de atores, acompanhados de coadjuvantes igualmente intensos, como Irandhir Santos, certeiro na caracterização de um cozinheiro que reivindica seus direitos profissionais e humanos, e Camila Morgado, representando a mulher rica que se vê em uma situação onde jamais imaginou que um dia pudesse estar em função de sua posição social. A presença e o comprometimento de profissionais reconhecidos como eles com um projeto cru, brutal e despudorado comprova o grande prestígio de um filme que, sim, deve satisfazer os dedicados fãs de terror, mas também impactar — e muito — quem estiver aberto a pensar o ser humano por outras vias que não sejam as tradicionais.

“O Processo”: o registro desolador de um pesadelo recente (e ainda presente)

É um jogo de cartas marcadas.

Direção: Maria Augusta Ramos

Roteiro: Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Documentário, 142 minutos

Sinopse: O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo. (Adoro Cinema)

Abraçando a ideia de que a realidade pode ser mais chocante do que a ficção, a cineasta Maria Augusta Ramos realizou O Processo sem qualquer tipo de intervenção: o que se vê na tela durante os 142 minutos de projeção são imagens de bastidores do Planalto e do Congresso Nacional durante o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não há depoimentos registrados especialmente para o documentário, tampouco condução de entrevistas ou análises de especialistas das áreas jurídicas, políticas ou econômicas. A matéria-prima do documentário são imagens já históricas, como a embaraçosa votação na Câmara dos Deputados e o discurso de despedida de Dilma como presidente do Brasil, complementadas por tudo o que a equipe capturou em seu acesso exclusivo a reuniões estratégicas realizadas ao longo do processo de impeachment da então presidente Dilma. Acreditando, com toda a razão, que as imagens por si só seriam suficientes para dar a devida dimensão do circo e da farsa montadas para destituir a primeira mulher governante do Brasil, Maria Augusta Ramos toca fundo não apenas na ferida de um sistema político seletivo e intransigente, mas também na desesperança de uma população que segue a deus-dará.

Boa parte dos políticos de direita negaram o acesso da equipe de filmagens aos seus bastidores, o que torna O Processo um documentário intimamente ligado aos discursos pró-Dilma, aqui centralizados em duas figuras protagonistas: o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hofmann. Mesmo com a limitação imposta pela política de direita, o documentário dá ampla visibilidade aos dois lados da trincheira quando recupera momentos-chave tanto dos bastidores quanto de sessões públicas. A diretora Maria Augusta Ramos e a montadora Karen Akerman ouvem os dois lados em todos os momentos cruciais, evitando qualquer acusação de terem selecionado depoimentos quando eles melhor serviam a algum posicionamento político do filme. E é aí que o fato da câmera só observar os bastidores faz a completa diferença: enquanto Dilma Rousseff e a cúpula do PT surgem racionais, objetivos e bem articulados, nomes da oposição como a jurista Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment, beiram o descontrole, causando inclusive momentos de humor involuntário tamanha a quantidade de discursos mais passionais do que argumentativos. 

Em ordem cronológica, O Processo coloca na tela um período nefasto e recente de nossa política que, desde agora, pode e deve ser visto com certa perspectiva. Sentado na sala de cinema para conferir uma longa narrativa sobre o impeachment, fica ainda mais clara a forma orquestrada, seletiva e irresponsável com que o esse processo foi conduzido, começando pela tenebrosa votação na Câmara dos Deputados que abre o documentário, onde Eduardo Cunha, presidente da Câmara, liderava o movimento pró-impeachment mesmo com incontáveis provas e acusações que deveriam ter lhe tirado do cargo antes mesmo de qualquer movimento contra Dilma Rousseff. A partir daí, O Processo faz uma detalhada retrospectiva desse longo jogo de cartas marcadas, onde se percebe, a cada cena registrada, que os argumentos e os recursos bem defendidos pelo PT jamais teriam chance frente ao sistema imposto. O documentário causa um embrulho no estômago por conta disso: caso você não tenha percebido na época, agora está representado, com extrema clareza, que nada de fato poderia ser feito para reverter um jogo cujo resultado já estava decidido muito antes do início da partida.

Considerando a passionalidade, milhões de pessoas apoiavam a destituição da presidente, mas O Processo nos lembra que, independente de seu posicionamento, os fins não justificam os meios. E, nesse momento específico da trajetória brasileira, os meios foram escusos e suficientes para escancarar que a corrupção não é o mal de um partido, mas sim de toda uma sociedade. Impossível, no entanto, acusar O Processo de não problematizar a política de esquerda, por assim dizer: é essencial a cena em que os representantes do Partido dos Trabalhadores versam sobre as razões que levaram ao enfraquecimento da presidente e ao fortalecimento do pedido de impeachment. A falta de inserção de Dilma nos movimentos feministas e do próprio partido nas reivindicações populares despertam reflexões e autocríticas necessárias para a compreensão de toda a engrenagem que culminou no afastamento de Dilma, inclusive, e não menos importante, a relação com a imprensa, sempre tão difícil e parcial, mas tratada, de certa forma, como um simples argumento de vitimização do partido (conforme levantado pelo documentário, o PT foi o governo democrático que mais fechou rádios comunitárias em todo o Brasil, uma contradição difícil de justificar).  

Verdade seja dita que é quase impossível avaliar O Processo sem se deixar levar por posicionamentos políticos, mas essa é uma questão do próprio espectador, uma vez que o documentário faz o mínimo possível para influenciar plateias. Além de não ser propaganda eleitoral, o resultado estarrece justamente por sua narrativa sóbria, onde nem mesmo o nome de cada documentado aparece na tela. Prova maior disso são os simples, mas assombrosos letreiros finais que listam todas as mudanças políticas e sociais promovidas Michel Temer após assumir a presidência. Os fatos falam por si só e confirmam todo o interesse que havia por trás do impeachment, cujas razões oficiais que formalizaram o processo, no final das contas, dificilmente serão lembradas pela população. Como eleitor de Dilma (sinto que devia esclarecer isso, caso já não estivesse evidente pelo texto), fiquei, ao final da sessão, com um inconsolável sentimento tristeza por reviver tamanho pesadelo. Já como cinéfilo, há comemoração, pois O Processo é de uma dignidade tremenda —  e de uma relevância histórica indiscutivelmente urgente.

“Um Lugar Silencioso”: em frente e atrás das câmeras, John Krasinski recupera o poder do silêncio

Who are we if we can’t protect them?

Direção: John Krasinski

Roteiro: Bryan Woods, John Krasinski e Scott Beck, baseado em estória de Bryan Woods e Scott Beck

Elenco: John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Leon Russom, Cade Woodward

A Quiet Place, EUA, 2018, Suspense/Terror, 90 minutos

Sinopse: Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma entidade fantasmagórica assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som. (Adoro Cinema)

Quem mora em qualquer capital e, dependendo do filme, é obrigado a frequentar cinema de shopping sabe como funciona o pesadelo: conversa, risadas, celulares ligados, barulho e, muitas vezes, tudo que é tipo de comida entrando na sala de cinema. Quando se trata de filme de terror, então, pior ainda, pois esse é um gênero que o grande público costuma tratar como brincadeira, esperando, a cada cena, algum susto para, logo em seguida, soltar risada. Digo por experiência própria: Invocação do Mal 2It – A Coisa, minhas últimas experiências com o gênero na tela grande, foram péssimas, agravadas pelas próprias pessoas que compartilhavam a sala comigo. Mas aí, recuperando a esperança, chega um filme como Um Lugar Silencioso, que chuta a porta, acaba com a farra e obriga o mais inquieto dos seres humanos a não emitir qualquer som ao longo de aproximadamente 90 minutos.

O silêncio impera porque Um Lugar Silencioso basicamente não tem diálogos? Também, mas a grande sacada do ator John Krasinski (o eterno Jim Halpert, do seriado The Office) é recuperar algo que o cinema de terror, pelo menos o comercial, tem esquecido nos últimos: o poder do silêncio. Eliminando palavras, puxando o freio de mão da trilha e redimensionando a força de qualquer som inesperado em uma trama que de histriônica não tem nada, Krasinski coloca o espectador na mesma condição do personagens, demandando que você assista ao filme sem emitir qualquer som. Óbvio que esse é um movimento coletivo — se o cinema inteiro está quieto, a tendência é que você também fique —, mas com a diferença de que aqui o silêncio é componente crucial na relação com o filme, pois é como se a sua vida dependesse do silêncio tanto quanto a dos personagens no outro lado da tela.

Os vícios do gênero são passados a limpo em Um Lugar Silencioso, que abre a trama com um acontecimento trágico, já deixando um recado muito claro: o de que, dali em diante, tudo pode acontecer. Isso maximiza a tensão já inerente ao roteiro que Krasinski escreveu junto a Bryan Woods e Scott Beck, que alcança grandiosidade em questões que vão além do mero silêncio: o horror parece eminente porque, apesar do clima pós-apocalíptico, o filme é essencialmente humano e passado em uma casa abandonada com apenas quatro personagens. Há essa compreensão de quanto menor o núcleo de personagens em um filme, maiores são as chances de nos importarmos emocionalmente com eles. Mais do que um grande filme do gênero, estamos , de certa forma, diante de uma alegoria sobre como ter filhos (e não poder protegê-los) pode ser deveras aterrorizante.

Do pânico às lágrimas (acredite, o estofo dramático do filme quanto às relações familiares chega a ser comovente), Um Lugar Silencioso é tão bem construído no suspense que potencializa inclusive artifícios fáceis, a exemplo do prego que aparece onde não deveria ou de um acontecimento a longo tempo esperado e planejado que toma forma na hora mais inconveniente possível. Inclusive, é de se admirar como, mesmo em seus momentos mais gráficos (é uma antiga reclamação minha com histórias de terror: elas costumam mostrar mais do que deveriam), o longa não perde o clima e a força. Parte desse mérito vem de um apuro técnico admirável, em especial do magnífico trabalho de som e da fotografia, que, nas sequências noturnas, é de deixar os nervos à flor da pele.  

Sucesso mundial (não são nem duas semanas em cartaz e o filme já faturou dez vezes mais que o seu orçamento modesto de 17 milhões de dólares), Um Lugar Silencioso é uma vitória para todos os envolvidos: para o cinema de gênero popular, para as plateias que são relembradas do poder imersivo de filmes de terror e principalmente para todo o elenco (Krasinski, que agora tem a confiança da indústria como realizador; Emily Blunt, finalmente com um filme à altura de seu talento; Noah Jupe, que já era uma revelação no recente Extraordinário; e Millicent Simmonds, talentosa atriz surda que volta a abrir espaço para a inclusão após Sem Fôlego). É uma experiência indispensável mesmo para quem não tem relação assídua com o terror e que tem fôlego de sobra para se tornar uma obra digna de ser referenciada.

“Com Amor, Simon”, “Jogador Nº1” e “Pantera Negra”: o cinema-pipoca em uma excelente fase

Não acontece com a frequência que gostaríamos, e por isso mesmo é bom aproveitar: consultando as programações de cinema nesse primeiro semestre de 2018, tem se tornado tarefa fácil e prazerosa levar os amigos para curtir um filme na tela grande. E isso se deve ao fato de que esse cinema-pipoca formado por obras de apelo comercial e alto orçamento agora parece mais dedicado a renegar, em suas devidas proporções e talentos, o famigerado lugar-comum. Há um bom tempo, com exceções pontuais, Hollywood vinha entregando uma infinidade de mega-produções barulhentas e sem personalidade, onde todas pareciam variações umas das outras. Entretanto, caso os primeiros meses de 2018 sirvam de termômetro para o resto do ano, podemos ficar bem otimistas se tomarmos como exemplo três longas em especial: Com Amor, Simon, Jogador Nº1 e Pantera Negra.

Pantera Negra, dirigido por Ryan Coogler

Em cartaz desde a segunda quinzena de fevereiro, Pantera Negra se tornou recentemente o filme de super-herói mais lucrativo da História. Em tese, é uma aventura poderosa por si só: tirando os negros da pobreza, da vilania e da marginalização com que costumam ser retratados em produções dessa magnitude, o diretor Ryan Coogler (Fruitvale Station, Creed) coloca o continente africano no centro do mundo, tornando-o tão múltiplo, heroico e conturbado como qualquer outro do planeta. De nada adianta, no entanto, criar um universo tão rico e não inová-lo na prática (foi o que aconteceu com Mulher-Maravilha, que é menos revelador e subversivo do que as pessoas apontaram). Felizmente não é o caso de Pantera Negra, onde o grande conflito não se dá pelo embate entre dois personagens com objetivos distintos, mas sim pela forma com que eles se digladiam para impor a sua maneira de chegar a uma mesma conquista. A problemática da história está na travessia, e não no ponto de chegada. Com isso, o trabalho mais recente de Coogler pode ser tudo, menos simplista.

Enchendo o peito e o coração de toda uma geração que nunca se viu na tela como herói ou teve a consciência cultural de seu pertencimento no mundo, Pantera Negra é um blockbuster da melhor qualidade porque, fora a questão da representatividade, consegue ir muito além no bom uso de efeitos especiais e na adrenalina que imprime a suas cenas de ação, mesmo quando o protagonista, vivido por um insosso Chadwick Boseman, não tem a mesma presença do vilão, interpretado por Michael B. Jordan, frequente colaborador do diretor. Anterior a isso, Coogler, que também escreveu o roteiro ao lado de Joe Robert Cole, cria um universo muito próprio, com uma reprodução impecável da cultura e da identidade africana, o que serve como um fascinante elemento estético e narrativo. Por fim, Pantera Negra se vale da fantasia para suscitar questões políticas e sociais que, dada a nossa atual conjuntura, são cada vez mais urgentes em qualquer plano, inclusive o cinematográfico.

Com Amor, Simon, dirigido por Greg Berlanti

Bem menos sofisticado, mas não menos representativo, é Com Amor, Simon, comédia teen que segue a mesma linha de Pantera Negra ao colocar na tela uma parcela da população que dificilmente se vê protagonista de uma obra popular de ficção. Você pode dizer que filmes de temática LGBTQI existem aos montes, mas aí proponho uma reflexão: quantos deles olham para seus personagens de forma leve e otimista, sem tornar a questão da homossexualidade uma interminável via crucis? Com Amor, Simon, ao registrar a descoberta do desejo de um adolescente por pessoas do mesmo sexo, problematiza sim essa difícil fase, mas o faz a partir de um gênero historicamente dedicado ao público hétero: o da comédia colegial norte-americana. Repleto de simpatia, o longa tem sua maior força no protagonista, que segura a onda com muito talento: Nick Robinson, egresso de Jurassic World, transita com delicadeza e versatilidade entre o gay inicialmente reprimido e o jovem que, aos poucos, começa a se revelar tanto para ele próprio quanto para o mundo.

Ao dar dimensão às angústias que um homossexual em descoberta sofre até mesmo nas mínimas situações do cotidiano (o pai que faz piada ao ver um gay na TV, os olhares repletos de interesse que não podem ser dados a uma pessoa do mesmo sexo, as roupas que são escolhidas de forma estratégica), Com Amor, Simon acerta no íntimo de seu personagem, mas perde a chance de se engrandecer quando trata o coletivo com superficialidade: não são muito eficientes os clichês e as situações colegiais que funcionariam melhor nos anos 1990, muito menos o longo comercial de margarina onde a família vive feliz com a cerca bem pintada e com o gramado bem aparado. Anos atrás, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho também não deixava de flutuar em sonhos e idealizações, mas era mais firme em conflitos e em sua própria personalidade. Por isso, não deixa de ser irônico que, ao tentar inserir a perspectiva gay em um gênero tão enraizado, Com Amor, Simon também soe, de certa maneira, ultrapassado em seu formato. Mesmo assim, a falta de timing não tira o inegável otimismo que a obra entrega, se não para a minha, para as futuras plateias que, desde cedo, poderão se ver com naturalidade na ficção.

Jogador Nº1, dirigido por Steven Spielberg

Completando a tríade, Jogador Nº1 recupera a vertente jovem e criativa de um Steven Spielberg que, pelo menos nos últimos anos, estava dedicado quase exclusivamente a narrativas mais formais. Algo já havia mudado no recente The Post: A Guerra Secreta, que, apesar da pegada tradicional, era conduzido com mais dinâmica e contemporaneidade, mas a virada é revigorante em Jogador Nº1: considerado pelo próprio Steven Spielberg como o filme mais difícil que já dirigiu ao lado de Tubarão e O Resgate do Soldado Ryan, a aventura alterna entre o real e o virtual sem jamais perder a identidade e o tino de entretenimento, endossando a tese de que é sim possível usar a grandiosidade de efeitos visuais para criar uma experiência imersiva e não apenas barulhenta.

Como entretenimento, Jogador Nº1 esbanja diversão com a infinidade de referências que coloca na tela (boa parte delas só serão devidamente apreciadas e descobertas em uma necessária revisão) e logo introduz a circunstância mais fascinante da trama: na realidade alternativa-virtual adaptada do livro homônimo de Ernest Cline, você pode assumir qualquer forma e ter qualquer tipo de poder ou habilidade, o que faz com que conflitos, cenas de ação e confrontos se tornem imprevisíveis. A partir disso, Spielberg brinca com ícones da cultura pop e com clássicos de diferentes artes (a cena que homenageia O Iluminado é excepcional) sem parecer oportunista ou como se somente jogasse na tela referências vazias e que não servem a outro propósito a não ser o da curiosidade.

Desde Guerra dos Mundos, que hoje parece ser muito mais apreciado em comparação à época de seu lançamento, o cineasta não voltava ao mundo da ficção científica, e Jogador Nº1 também é um ótimo comeback ao gênero porque são raras as vezes que obras tão jovens como essa carregam, impulsionadas pela nostalgia e pelo sentimentalismo (característica inevitável na carreira de Spielberg), valores clássicos como o da amizade e o do contato humano, dessa vez reforçados sob a perspectiva das tecnologias, que, sabemos há um bom tempo, mais afastam do que reúnem as pessoas. De fato, Jogador Nº1 muitas vezes parece um videogame, mas um videogame dos bons: divertido, entusiasmante e feito para ser revisitado.

O Sacrifício do Cervo Sagrado

Yes, I can make you mashed potatoes.

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Efthymis Filippou e Yorgos Lanthimos

Elenco: Colin Farrell, Barry Keoghan, Nicole Kidman, Sunny Suljic, Raffey Cassidy, Bill Camp, Alicia Silverstone, Denise Barone, Ming Wang,  Jerry Pope,  Josephine Elle,  Lea Hutton Beasmore

The Killing of a Sacred Deer, Reino Unido/Irlanda/EUA, 2017, Drama/Suspense, 121 minutos

Sinopse: Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado que é casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Já há algum tempo ele mantém contato frequente com Martin (Barry Keoghan), um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando era operado por Steven. Ele gosta bastante do garoto, tanto que lhe dá presentes e decide apresentá-lo à família. Entretanto, quando o jovem não recebe mais a atenção de antigamente, decide elaborar um plano de vingança. (Adoro Cinema)

É difícil desvincular O Sacrifício do Cervo Sagrado de Mãe!, filme de Darren Aronofsky lançado ano passado e que deixou incontáveis plateias em polvorosa. Ambos são trabalhos que assumidamente provocam, mexem com os nervos de forma nada previsível, lançam o espectador em territórios desconhecidos e levantam interrogações sem necessariamente entregar as respostas que o público sempre julga tão necessárias, como se ele próprio não tivesse sua parcela de participação no processo de construção de um filme. E, entrando nas complexidades de obras dessa natureza, onde não há certo ou errado e o que conta é a obra que está nos olhos de quem a vê, O Sacrifício do Cervo Sagrado me atingiu somente como uma versão bem menos exitosa de Mãe! em suas intenções.

A mesma ira que Darren Aronofsky despertou por fazer de Mãe! — e agora uso algumas das definições que ouvi por aí — um filme egocêntrico, extremado e sem muito conteúdo deveria ser multiplicada frente ao trabalho do grego Yorgos Lanthimos, que chegou a sair do Festival de Cannes com o prêmio de melhor roteiro em 2016, empatado com o drama You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay. A base do longa é inquietante: a conduta misteriosa e trágica de um garoto (Barry Keoghan, ótimo) que, após a morte do pai, busca insistentemente se infiltrar na vida do cirurgião que teria sido responsável por essa perda. Entretanto, O Sacrifício do Cervo Sagrado não vai além de um exercício de estilo, onde Lanthimos caminha o tempo inteiro na linha tênue entre a direção que serve aos sentidos de uma trama e a que deseja ser, com certo exibicionismo, um personagem à parte naquele universo.

O longa é, no bom sentido, um experimento nervoso e incômodo, preservando o mérito sempre tão raro de levar o espectador por caminhos imprevisíveis, onde tudo é perfeitamente possível. Toda essa sensação é transferida para a personalidade dramática da obra, que cria dinâmicas familiares interessantes e provocativas, todas bem defendidas por Nicole Kidman e Colin Farrell, atores afeitos a projetos despudorados como esse. Lanthimos está na mesma batida: com todo tipo de enquadramento inusitado e com o máximo de representações gráficas possíveis (um coração ensaguentado pulsa em um peito aberto já na cena de abertura), ele intensifica a “estranheza” da história ao jamais abandonar a sua identidade tão característica como realizador.

Elevadas à décima potência, porém, rimas e estilizações visuais de O Sacrifício do Cervo Sagrado desviam a atenção da trama a todo minuto, quase nos obrigando a contemplar o quanto Lanthimos é bom diretor. Cada cena, seja ela um cotidiano percurso no hospital ou um momento reflexivo de Nicole Kidman encostada na parede, parece ter sido pensada para causar algum impacto estético. Quando isso se incorpora à narrativa de forma orgânica, é um estrondo. Já quando se torna mera muleta para impressionar (o que acontece em boa parte do tempo), comete o desserviço de colocar o espectador para fora daquele universo, e isso é um problema, pois termina comprometendo um filme que, em seu auge, causa estranho fascínio pelo desconhecido, munido de uma tensão constante e de um desfecho perturbador. 

Para fazer justiça e sentido: “American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan”

Radiografando o assassino e não o homicídio em si, The Assassination of Gianni Versace tem sua maior força no desempenho de Darren Criss.

Como o segundo capítulo de uma antologia que tem como proposta dramatizar notórios crimes verídicos, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story tem muito o que se explicar. À parte o fato de que o programa precisava, de alguma forma, manter a altíssima média de qualidade alcançada por sua temporada anterior (The People v. O.J. Simpson), há algo errado no próprio conceito seguido aqui, pois o segundo ano é sobre tudo, menos sobre a morte do estilista italiano Gianni Versace, assassinado em julho de 1997 na porta de sua própria casa em Miami, nos Estados Unidos. Tampouco é sobre os desdobramentos desse crime junto às autoridades e à sociedade, algo ensaiado com timidez nos episódios iniciais, quando se levanta a tese de que, por ser homossexual, Versace teria toda a sua trajetória de vida distorcida, explorada e destruída pela mídia. O pós-crime era a força-motriz de The People v. O.J. Simpson, mas, dessa vez, o seriado optou por outro caminho, o que é desleal tanto com o seu título quanto com a própria estrutura do roteiro.

Primeiro capítulo de outra antologia criada por Ryan Murphy, Feud: Bette and Joan também subvertia conceitos e expectativas ao dar espaço assumidamente maior para Joan Crawford (Jessica Lange), decisão que, com o passar dos episódios, revelou-se sábia em termos dramáticos, inclusive porque a série jamais perdia de vista as amplitudes e complexidades de Bette Davis (Susan Sarandon), que também dava nome ao programa. A mesma subversão poderia agir a favor de The Assassination of Gianni Versace caso os roteiristas tivessem tomado certa perspectiva: não é preciso ser nenhum perito para constatar que o personagem Gianni Versace (Edgar Ramírez) é mera desculpa para que a temporada faça um estudo milimétrico sobre a personalidade de Andrew Cunanan (Darren Criss), jovem que o assassinou em plena luz do dia a céu aberto. O reenfoque dramático é interessantíssimo, mas a proposta da antologia perde a razão quando Versace vira figurante, com aparições que, no geral, são apressadas e pouco contribuem para a discussão como um todo.

Edgar Ramírez como Gianni Versace e Penélope Cruz como Donatella: ambos são coadjuvantes na história assumidamente centrada em Andrew Cunanan (Darren Criss).

Estragando a festa de quem já esperava uma ambiciosa análise da vida artística do estilista ou de quem apostava em um Emmy de melhor atriz para Penélope Cruz (carregada no sotaque e na caracterização de Donatella Versace, beirando o overacting), a nova temporada de American Crime Story passa a ser, portanto, sobre a vida desse garoto problemático e criminoso que, a cada episódio, tem uma nova faceta de seu passado explorada (a temporada é contada de forma rebobinada, chegando até mesmo a sua infância). Filho de uma mãe submissa e de um pai que acumulou grande poder aquisitivo para depois ir à falência com sigilosos trambiques, Andrew era o clássico caso de jovem que acreditava ser destinado a uma vida grandiosa, seja através do dinheiro ou da fama. No entanto, aos trancos e barrancos, foi percebendo que a vida era capaz de pregar as mais inesperadas armadilhas, algo com que ele simplesmente não sabia lidar.

Toda e qualquer frustração desperta no personagem uma sociopatia perceptível na mais corriqueira de suas conversas, onde, entre a arrogância, a insanidade e a falsa humildade, proferia todo tipo de mentira com a mais absoluta naturalidade. Tudo para que as pessoas a sua volta acreditassem que ele estava envolvido em projetos e relações invejáveis. Fama, glória e dinheiro só existiam na cabeça de Andrew, mas sua missão de vida era fazer com que todos comprassem a ideia de que também se tratava de vida real. Para chegar perto do que só existia na imaginação, Andrew se envolvia com homens mais velhos e milionários, homossexuais enrustidos em sua maioria, tirando deles toda a mordomia e o luxo que ele próprio nunca chegou perto de conquistar sozinho. Quando contrariado ou frustrado, seja pela rejeição de um amigo ou de um amante, chegava ao seu instinto mais primitivo e cruel: seduzia e aterrorizava para, finalmente, assassinar.

Quando explora o íntimo de Andrew Cunanan, The Assassination of Gianni Versace ganha vida própria, mostrando que a morte do famoso estilista italiano tem pouca relevância nas discussões da temporada.

Fruto de uma sociedade negligente (todos os personagens percebem a gravidade e a iminência trágica dos problemas de Andrew, mas jamais tomam qualquer tipo de iniciativa em relação a isso), ele chega a Versace no auge de seu transtorno, tirando a vida desse homem que, em termos filosóficos, era a representação de tudo aquilo que um dia ele quis ser (talentoso, famoso, milionário e bem resolvido intimamente com a sua própria sexualidade). É essa trajetória até Versace que guia a segunda temporada de American Crime Story, que troca o assassinado pelo assassino, elucidando não o crime, mas as razões e os distúrbios que levam um ser humano a cometê-lo. No papel de sua carreira até aqui, Darren Criss, cujo trabalho mais relevante até então havia sido em Glee, seriado também da autoria de Ryan Murphy, está irretocável como Andrew Cunanan, sendo perfeitamente convincente e minucioso nas diversas facetas de um jovem que não conseguia perceber ou assumir suas próprias tragédias.

Sem falar de Versace, a segunda temporada de American Crime Story trai o seu próprio título e, mais do que tudo, o próprio espectador com um roteiro que é de certa forma incoerente, considerando todos os nove episódios. Afinal, por que seduzir tanto o público com a vida pessoal e profissional de Versace nos dois primeiros capítulos para, depois, simplesmente jogá-lo para escanteio? Não seria mais justo ser desde sempre claro quanto às intenções de desenvolver a vida de Andrew Cunanan? Em conteúdo, é uma temporada que acerta ao fazer um panorama da vida gay nos anos 1990 e ao versar sobre os distúrbios de um personagem problemático e assassino. Já em estrutura, a situação é tortuosa, especialmente se considerarmos o capítulo final, onde a série, repleta de pressa, resolve correr atrás do tempo perdido para discutir tudo aquilo que deixou de lado ao longo de uma temporada (a repercussão do assassinato, os conflitos internos entre o namorado e a irmã de Versace, o futuro da grife, a invisibilidade dos gays em situações públicas, etc).

Exemplo máximo de que o conceito da série se dilui aqui é A Random Killing, episódio que remonta o assassinato do milionário Lee Miglin pelas mãos de Andrew. Casado, mas secretamente envolvido com garotos de programa mais jovens, Miglin era um bom marido para sua esposa, Marilyn (Judith Light, maravilhosa), que começa a refletir sobre a vida e o íntimo do companheiro ao descobrir que seu corpo foi encontrado ao redor de dezenas de pornografias gays. É o conceito que funcionou tão bem na temporada anterior da American Crime Story e que é representado magistralmente nesse episódio: nos crimes de grandes proporções como o de Gianni Versace, tão importante quanto o que faz determinadas situações chegarem a algum ponto mortal é como assassinatos têm poderes altamente reveladores e reverberam tanto entre quatro paredes quando publicamente. Sendo assim, mesmo que defendida com esmero por Darren Criss e pela ideia de radiografar o íntimo de um assassino (com suas liberdades dramáticas, claro), The Assassination of Gianni Versace poderia muito bem ter alcançado a grandiosidade de The People v. O.J. Simpson caso expandisse para toda a temporada a lógica desse episódio específico. E caso também, claro, alterasse o seu título. Quem sabe American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan? Faria justiça e sentido.

Trama Fantasma

Whatever you do, do it carefully.

Direção: Paul Thomas Anderson

Roteiro: Paul Thomas Anderson

Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch, Dinah Nicholson,  Julie Duck, Maryanne Frost, Elli Banks, Amy Cunningham, Amber Brabant

Phantom Thread, EUA, 2017, Drama, 130 minutos

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante. (Adoro Cinema)

É possível regular as expectativas com diretores que estão acostumados a entregar obras-primas no cinema? Tratando-se de Paul Thomas Anderson, a situação é ainda mais complexa: responsável por obras irretocáveis dos anos 1990 como Magnólia Boogie Nights – Prazer Sem Limites, além de filmes recentes que já carregam a mesma influência (Sangue Negro costuma ser o favorito em todas as listas, mas cito também o poderoso e particular O Mestre), o cineasta volta a acrescentar outro título notável para sua celebradíssima carreira. Claro que só o tempo confirmará, mas, agora, no calor do momento, não parece exagero colocar Trama Fantasma como mais um dos grandes filmes do diretor. 

Marcado como a despedida do ator Daniel Day-Lewis (ele anunciou, de forma discreta e sem muitas explicações, que chegou a hora de se aposentar), Trama Fantasma esbanja o domínio fílmico tão característico de Paul Thomas Anderson. É o que define bons cineastas e o que nos dá a certeza de seus respectivos talentos: quando você identifica cada composição, plano e conjugação de texto, som e imagem sabendo exatamente quem é o responsável pelo conjunto. No entanto, Anderson não trabalha a seu favor (muitos diretores acham que dirigir bem é sinônimo de dirigir bonito, com certa vaidade), e sim em prol da história, que se engrandece com a elegância, a sobriedade e a vontade do cineasta em não facilitar as coisas para quem está do lado de cá da tela.

Sempre trabalhando com personagens únicos em personalidades e complexidades, Anderson abandona tanto a ideia de fazer um filme especificamente sobre moda quanto de falar sobre processos criativos. Claro que esses são assuntos que permeiam e pontuam Trama Fantasma, mas são detalhes que convergem em uma história centrada nos vícios, nos malefícios e nas (im)perfeições dos relacionamentos amorosos, a começar pelo protagonista que, em linhas gerais, é autoritário, machista e cheio de si, como se o seu talento e sua trajetória profissional fossem desculpa para que mulheres se submetam a qualquer uma de suas vontades.

Reyndolds Woodcock (Day-Lewis) agiu assim durante toda a vida, tirando da musa da vez tudo aquilo que precisava para uma nova coleção ou para uma nova peça, sem jamais enxergar uma amante, e sim alguém que deveria mais é agradecer pela chance de conviver com um homem talentoso como ele. Até mesmo Cyril (Lesley Manville), a única mulher que Reyndolds respeita por ser sua irmã ou por ser quem comanda com mãos de ferro o seu atelier, não deixa de o tratar com certa reverência. Entretanto, chega Alma (Vicky Krieps), que coloca tudo de pernas do ar por, a sua maneira, desafiar as dinâmicas daquele ambiente e os modelos de relacionamento cultivados por Reynolds, um homem que, como tantos outros, não têm ideia do quanto renega a importância das mulheres para, na verdade, ser definido por elas.

O ponto de virada na esperteza de Trama Fantasma é tratar Reynolds e Alma praticamente como oponentes. De início, ela segue os passos de suas antecessoras: deixa de fazer barulho durante o café-da-manhã para não estressar seu amante, acorda às quatro da madrugada para trabalhar com ele em um vestido e ouve todo tipo de comentário que Reynolds tenta travestir de elogio, mas que só revelam o quanto ele olha para as relações humanas com oportunismo artístico, como no primeiro encontro entre os dois, onde, já tirando as medidas de Alma, afirma que seus seios são menores do que a média com que está acostumado a lidar e que cabe a ele definir se irá exaltá-os ou não em um figurino. 

Por gostar de Reynolds (e aí estão as confusões emocionais causadas por relacionamentos tóxicos), Alma decide não abandoná-lo e permanece na casa, reivindicando desse homem tudo aquilo que, antes, jamais era dito ou clamado por qualquer mulher. A dinâmica instalada a partir daí é de confronto: uma simples refeição pode ser uma incansável quebra de braço entre os dois, e Reynolds, mesmo incomodado, de repente percebe que finalmente encontrou uma mulher à altura. A partir dessa manipulação e dessa co-dependência, Trama Fantasma ilumina as relações que diariamente se destroem e se reconstroem em ciclos viciosos e de auto-ilusão, já que Alma não deixa de representar o caso clássico de mulher abusada emocionalmente e que, de um jeito ou de outro, sempre cede ao seu homem.

O universo de perfeição costurado pelos lindos figurinos, pela impecável fotografia assinada pelo próprio Anderson e pela trilha arrebatadora de Jonny Greenwood ajuda na claustrofobia, pois costuma ser muito mais doloroso encontrar desconstrução e dor em um mundo aparentemente perfeito do que em um contexto que por si só sugere sofrimento e instabilidade. Seja no roteiro ou na direção, Anderson extrai o melhor dos sentidos ao apostar em um ritmo contemplativo e pausado, o que amplia a sensação propositalmente incômoda da obra. Trama Fantasma é de uma elegância ímpar, afirmação que se estende ao formato e, claro, ao conteúdo.

Por fim, despedindo-se da carreira de ator, Daniel Day-Lewis arrasa novamente, interiorizando as sensações e os pensamentos de um personagem que permitiria hipérboles e até caricaturas. É o tipo de papel que só poderia ser para ele, e é por isso mesmo que assusta o quanto Vicky Krieps, cumprindo uma tarefa dificílima, consegue se equiparar ao ator em força e inteligência. Essa dupla fenomenal também está em excelente companhia: Lesley Manville, frequente colaboradora do diretor Mike Leigh, é cortante e imponente com um simples olhar, evocando uma autoridade quase impossível diante do protagonista. Merecidamente reconhecido pelo Oscar 2018 com surpreendentes indicações em seis categorias, incluindo filme e direção, Trama Fantasma é o tipo de projeto que não termina após a sessão e que, muito em breve, será tema de novas leituras, conversas e discussões. E esse não é o melhor presente que um filme pode nos dar?

A Forma da Água

Unable to perceive the shape of you, I find you all around me.

Direção: Guillermo Del Toro

Roteiro: Guillermo Del Toro e Vanessa Taylor

Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy, Stewart Arnott, Nigel Bennett, Lauren Lee Smith, Martin Roach

The Shape of Water, EUA, 2017, Drama, 123 minutos

Sinopse: Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer). (Adoro Cinema)

Para o completo pavor de Donald Trump, não há país de língua latina que tenha conquistado mais os Estados Unidos nos últimos anos do que o México. Começou com Alfonso Cuarón, que, muito antes de ganhar sete Oscars com Gravidade, incluindo o de melhor direção, já havia assinado o melhor capítulo de uma das franquias mais lucrativas de todos os tempos: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Trajetória semelhante teve, logo em seguida, Alejandro González Iñárritu, que também faturou o Oscar de melhor direção, dessa vez por dois anos consecutivos (BirdmanO Regresso) e que já tinha noção de como era ser abraçado pelos membros da Academia com suas múltiplas indicações por Amores BrutosBabelBiutiful. E todos nós sabíamos que era questão de tempo para Guillermo Del Toro, amicíssimo de Cuarón e Iñárritu, chegar ao topo de sua relação com os norte-americanos (as únicas honrarias destinadas a um filme seu foram Oscars técnicos por O Labirinto do Fauno). O desafio de Del Toro, entretanto, era muito maior: apesar de encher incontáveis cinemas para se divertir com filmes de monstros, Hollywood tem uma dificuldade tremenda de levá-los a sério. Apaixonado por todo tipo de estranha criatura, o diretor precisava, de certa maneira, quebrar esse paradigma. E aí vem a linda notícia: com A Forma da Água, o recordista de indicações ao Oscar 2018 (são treze, ao total), ele chegou lá. E mais: repetindo os passos de Cuarón e Inãrritu, que também precisaram fazer filmes falados em inglês para serem reconhecidos apesar da longa trajetória em língua latina, mas que navegaram nessa transposição preservando todo o talento que, lá atrás, antes de qualquer prêmio, firmou cada um deles como os grandes realizadores que sempre foram.

Mais uma vez renegando as ideias comerciais, infantilizadas e enraizadas em filmes de cunho fantástico para mostrar ao espectador como é possível — e natural — discutir o ser humano através da fantasia, Del Toro faz de A Forma da Água um filme bonito por si só, mas que, não podemos negar, ganha sentido mais apurado frente ao mundo em que vivemos (tendência cada vez mais forte em uma boa parcela de produções ao redor do mundo, afinal, filmes também são, de um jeito ou de outro, registros de seus respectivos tempos). Basicamente, a trama principal acompanha uma faxineira muda que se apaixona por um monstro capturado por um laboratório. Quem chega perto de compreendê-la são apenas dois de seus amigos próximos: o vizinho gay e a colega negra. Vejam só a composição abertamente crítica e contemporânea: o bem, representado por esse trio de “minorias”, trava sua batalha contra o mal, aqui visto sob uma perspectiva facilmente reconhecível: a do chefe homem, autoritário, branco, engravatado, intolerante e atolado em preconceitos. A Forma da Água, claro, nos conduz para reflexões impossíveis de serem ignoradas em uma história como essa, como a ideia de que a folclórica monstruosidade que o cinema tanto nos ensinou a temer em criaturas estranhas é, na maioria das vezes, coisa coisa somente do ser humano. E já que o filme decide contar tudo isso em tom de fábula, quase como se fosse uma encantadora e envolvente animação, tais conotações ganham uma força ainda maior, pois poucas coisas mexem tanto com a gente quanto os sonhos e a assustadora ameaça de que eles podem ser destruídos inclusive por quem, em tese, deveria ser nosso semelhante.

Em ideias e conceito, A Forma da Água é muitíssimo bem resolvido, e todo o espetáculo visual proporcionado pelo filme ajuda a corroborar essa afirmação. É impossível não se impressionar com a trilha do prolífero Alexandre Desplat, que entrega um dos seus melhores trabalhos tanto pela identidade criada para a saga da protagonista Elisa (Sally Hawkins) quanto pela discrição ao narrar uma história sem ser invasivo ou explicativo. Não deixe escapar também o impressionante design de produção assinado por Paul D. Austerberry: ele é capaz de, através de lindas e sutis composições, criar encantamento e proximidade mesmo em ambientes desgastados pelo tempo e pelo descuido, como o próprio edifício onde mora a nossa heroína. Mais: completando a grande contribuição técnica para os sentidos, a fotografia de Dan Laustsen transita entre a inocência de Elisa e a vilania do chefe Strickland (Michael Shannon) com igual apuro e imponência. Del Toro captura tão bem essa composição que saímos da sessão com a certeza de que esse universo sempre esteve muito vivo em sua cabeça. Sensação semelhante é traduzida pelo ótimo: Richard Jenkins, o eterno Nathaniel Fisher do seriado Six Feet Under, e Octavia Spencer, agora distante das caricaturas de Histórias Cruzadas para se tornar uma atriz cada vez mais espontânea, estão ótimos como coadjuvantes de Sally Hawkins, uma atriz de talento singular que surpreende não pela destreza técnica ao dar vida a uma mulher que só comunica através de LIBRAS, mas por fazer emergir, com extrema delicadeza, os sentimentos antes negados e agora descobertos por essa mulher que sempre foi julgada por sua deficiência física. Hawkins brilha em cada cena de A Forma da Água, nada menos do que isso.

E como o assunto é elenco, chegamos a quem quase coloca a perder todo esse vitorioso universo: Michael Shannon. É um pouco chocante fazer essa constatação porque Shannon é ator dos grandes e porque é um tremenda decepção vê-lo fora de tom como aqui. Culpa exclusivamente dele? Jamais. Shannon perde sim a mão ao entrar até demais no overacting exigido para clássico um vilão de conto-de-fadas, mas com uma grande ajuda do roteiro, que se dedica em excesso a esse antagonista que não chega perto de causar um décimo do interesse que qualquer outro personagem do filme desperta. Para justificar tanta atenção, vilões precisam ser fascinantes em suas ambições e medidas descabidas, mas aqui Strickland é aquele tipo de figura que você não deseja conhecer e você quer apenas que ele logo caia fora de cena. Não ajuda o roteiro tratá-lo como um mero obstáculo na vida da protagonista, abordagem que torna suas cenas simplórias, repetitivas e responsáveis por quebrar o ritmo e o encantamento construídos com tanto talento paralelamente. Submerso em doses de doçura consideravelmente maiores se comparadas a outras de suas obras (mesmo protagonizado por uma criança, O Labirinto do Fauno, por exemplo, era uma obra dura e trágica), Del Toro sofistica muito mais a luz no fim do túnel do que as trevas no meio do caminho. A Forma da Água não perde sua beleza em função disso, mas, sem dúvida, deixa escapar, por pura bobeira, a chance de ser o longa irretocável que, em diversos momentos, chegou muito perto de ser.

Rapidamente: “120 Batimentos Por Minuto”, “Cinquenta Tons de Liberdade”, “Fala Comigo” e “Projeto Flórida”

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o francês 120 Batimentos Por Minuto é um registro histórico de suma importância e um relato dramático de potente impacto.

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements Par Minute, 2017, de Robin Campillo): Um dos mais elogiados filmes do último Festival de Cannes (inclusive um favorito de Pedro Almodóvar, presidente do júri), 120 Batimentos Por Minuto saiu do festival francês com o Grande Prêmio do Júri (espécie de segundo lugar), mas, injustamente ficou fora da disputa do Oscar 2018 de filme estrangeiro. Em linhas gerais, a história recupera as ações do Act Up, grupo ativista criado nos anos 1990 para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS. Para esse retrospecto, o diretor Robin Campillo, que também assina o roteiro com a colaboração de Philippe Mangeot, mistura tons, digamos, mais “didáticos” com outros ficcionais bastante comoventes. E é surpreendente como ele alterna as reuniões do Atc Up para discutir as intervenções pela conscientização da AIDS com o relacionamento entre dois de seus integrantes sem jamais tornar o relato desarmônico. O ritmo não deixa de ser desafiador (muitas sequências são consideravelmente mais longas, com destaque para aquelas que acompanham os debates do grupo), mas nada se compara ao quanto o filme exige emocionalmente do espectador: é uma jornada dura ver o passar dos anos do protagonista Sean (Nahuel Pérez Biscayart, em grande desempenho), que, lutando contra a AIDS, começa a ver seus dias e sua saúde se esvaírem dia a dia. Nada em 120 Batimentos Por Minuto é maquiado ou econômico, o que rende diálogos detalhados com franqueza (uma cena muito íntima entre Sean e o namorado revela o relacionamento e a transa que lhe trouxeram a doença) e uma força dramática equivalente a um soco no estômago. Registro histórico importantíssimo e exercício dramático impactante, 120 Batimentos Por Minuto é uma produção para ser lembrada.

CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed, 2018, de James Foley): Com o machismo completamente possessivo de Christian Grey (Jamie Dornan) já devidamente idealizado e consumado, além da questão sexual já resolvida entre ele e sua musa Anastasia (Dakota Johnson), não há mais o que ser dito em termos de história nesse terceiro e último capítulo da franquia Cinquenta Tons. O que resta para Christian e Ana é o casamento, que terá algumas pequenas intrigas (imaginem que absurdo ela não querer usar o sobrenome dele no trabalho!) e dilemas que, na vida real, seriam assunto sério para longas sessões de terapia, mas que, no filme, se tornam questões eventualmente bem humoradas e até abordadas com certo romantismo (Christian não quer ter filhos porque, assim, a mulher amada teria que dar praticamente toda a sua atenção para os filhos e não mais para ele). Existe também o ex-chefe de Anastasia, que após levar um fora da protagonista no filme anterior, agora resolve colocar em risco a vida da mocinha. Tudo papo furado para disfarçar a completa falta de assunto da franquia, que, ao menos, nos longas anteriores, causava certo escândalo pela abordagem errada de conflitos sérios ou certa graça pelo humor involuntário resultante de situações e interpretações que beiravam o ridículo. E, sem ter o que falar, Cinquenta Tons de Liberdade (aliás, onde está, afinal, essa liberdade?) anda infinitamente em círculos, incapaz de dar qualquer outra dimensão a personagens cujos principais conflitos e questionamentos já foram resolvidos. Pouca coisa mudou: a trilha continua sendo o ponto alto, os protagonistas seguem insossos e a nudez, como sempre, não é nada que impossibilite uma exibição na TV aberta, onde Anastasia, claro, se despe com muito mais frequência do que Christian. A diferença é que, em Cinquenta Tons de Liberdade, tudo parece invenção das mais preguiçosas para suprir duas horas de projeção sobre o nada. Se o filme é assim, é de se deduzir que o livro seja todo esse marasmo elevado à décima potência.

FALA COMIGO (idem, 2017, de Felipe Sholl): Quando você fica sabendo da existência de um projeto que reúne Karine Telles e Denise Fraga, duas das atrizes mais talentosas e preciosas que o cinema brasileiro tem atualmente, é inevitável esperar que esse encontro resulte em um grande filme. Não é o caso de Fala Comigo, que promove apenas duas cenas entre Karine e Denise, focando a sua trama no jovem Diogo, filho de uma terapeuta que acaba se envolvendo com Ângela (Karine), uma mulher muito mais velha tratada pela sua mãe. São facilmente identificáveis as razões que unem Diogo (Tom Karabachian) e Ângela: ele é virgem, está com os hormônios à flor da pele e quer, como todo adolescente, a tão sonhada independência, enquanto ela, recém saída de uma traumática separação, vive esse doloroso momento com oscilações de humor e crises de depressão. De maneira objetiva, Fala Comigo delineia bem os personagens, deixando claras as suas respectivas personalidades e motivações. No entanto, Felipe Sholl, que estreia na direção após ter escrito o roteiro de longas como Campo GrandeHistórias Que Só Existem Quando LembradasHoje (também com Denise Fraga), não sai muito da superfície para elucidar as vertentes dessa relação do ponto de vista emocional. Por isso mesmo Fala Comigo parece tão plano, como se lançasse uma discussão sem dar maiores subsídios para que o espectador consiga ir além das linhas gerais. Com um desfecho até provocativo frente a tudo o que a sociedade costuma definir como padrão para relacionamentos, o longa encontra mesmo a sua força no elenco, onde o jovem Tom Karabachian segura muito bem a responsabilidade de contracenar com as duas grandes atrizes que são Karine e Denise (a primeira, pela dimensão da personagem e pelo apelo da história, tem mais material para se destacar). Vamos ver como Felipe Sholl, sempre tão atento aos dramas humanos e cotidianos, se sai daqui para frente em outros projetos como diretor.

PROJETO FLÓRIDA (The Florida Project, 2017, de Sean Baker): Até pouco tempo atrás, vinha conquistando prêmios e mais prêmios da crítica para o coadjuvante Willem Dafoe, mas agora o momento parece ter passado. Ainda assim, é difícil Projeto Flórida não ter público garantido no circuito indie, muito em função do diretor Sean Baker, que repercutiu bem por aqui com o elogiado Tangerine. Seu novo trabalho descortina os contrastes entre infância e vida adulta, mostrando como os pequenos enxergam o mundo de forma muito diferente da nossa, mas, principalmente, como eles também podem ser afetados pelas duras realidades da vida que, infelizmente, não poupam ninguém. Ai de você, portanto, não gostar de uma obra trabalhada em cima da ingenuidade e de crianças que tentam, na medida do possível, viver o seu próprio universo. Pois, nesse caso, podem me acusar de insensível mesmo, pois Projeto Flórida me trouxe mais momentos de tédio e impaciência do que de emoção. É complicado achar o ponto certo em um longa como esse porque ele é todo trabalhado em cima de crianças que correm, brincam, cospem em carros e até colocam fogo em lugar abandonados. Acompanhar isso durante um tempo dá a graça e a delicadeza que a história precisa, mas há uma dedicação excessiva, fazendo com que, em muitas vezes, o filme não vá a lugar algum e só ganhe certa força com a pequena Brooklynn Prince, que tem um momento de partir o coração quando tudo chega à reta final. Enquanto isso, o mundo adulto também pouco envolve, em especial a mãe da protagonista, que deveria ser melhor explorada em suas complexidades para não ser apenas a progenitora irresponsável, mas de boas intenções com a filha. Até mesmo Willem Dafoe, tão mergulhado em um desempenho econômico, surge sem impressionar nesse filme que, muitíssimo bem fotografado e instigante visualmente, termina justamente quando parecia perto de trilhar caminhos mais ambiciosos.

Três Anúncios Para Um Crime

The time it took you to get out here whining like a bitch, Willoughby, some other poor girl’s probably out there being butchered.

Direção: Martin McDonagh

Roteiro: Martin McDonagh

Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Peter Dinklage, John Hawkes, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Kerry Condon, Zeljko Ivanek, Amanda Warren, Selah Atwood, Darrell Britt-Gibson

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 115 minutos

Sinopse: Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o detetive Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação.

6 de março de 2006. Foi logo na primeira hora desse dia, em plena madrugada, que milhões de cinéfilos do mundo inteiro acompanhavam atônitos uma das maiores reviravoltas do Oscar: Crash – No Limite, aos 45 do segundo tempo, desbancava o favorito absoluto O Segredo de Brokeback Mountain na categoria de melhor filme. O choque foi generalizado pela surpresa, claro, mas também porque Brokeback Mountain é reverenciado como uma obra-prima irrepreensível, enquanto Crash segue sendo acusado, entre outras coisas, de ser uma obra manipuladora e bagunçada em todas as suas discussões sobre racismo, xenofobia e qualquer tipo de intolerância. Considerado o pior vencedor do Oscar de todos os tempos, o longa assinado por Paul Haggis (diretor que esteve recentemente entre os inúmeros homens acusados de má conduta e assédio sexual em Hollywood) agora tem um irmão caçula: Três Anúncios Para Um Crime, filme equivocado que, por ser defendido por nomes respeitados e por se vender como uma comédia inteligente e politicamente incorreta, tem sido mais poupado do que deveria. E o pior: mais elogiado do que jamais mereceria, chegando ao Oscar 2018, inclusive, com toda pompa de favorito ao prêmio principal junto ao drama fantástico A Forma da Água.

Beira o chocante ver uma obra como Três Anúncios Para Um Crime flertando com celebração que tanto fez mal a Crash tempos atrás. Inclusive, um adendo se faz necessário: ainda que problemática para muitos, Crash era uma obra que, ao menos, tinha a autenticidade de assumir a série de coincidências que adotava como componente dramático de sua trama e, principalmente, a vontade de manipular as emoções do espectador. A situação é mais complicada com Três Anúncios Para Um Crime porque o filme se disfarça de obra esperta, temperamental e transgressora quando, lá no fundo, está repleta de problemas como as fáceis piadas de mau gosto com um personagem anão que só está ali para ser motivo de chacota e como a tão discutida redenção de um personagem racista (esse não chega a ser o maior dos problemas pois também precisamos refletir sobre até que ponto pessoas de ideias e conceitos discutíveis não podem ter algum material dramático digno de transformação ou evolução). O que faz o longa ser uma verdadeira bagunça são os pontos mais básicos do roteiro escrito pelo próprio diretor Martin McDonagh, que chegou a ser defendido como autor de um dos textos mais afiados dos últimos anos.

A arrancada por si só é aberta a questionamentos: McDonagh, que sempre foi conhecido pela utilização do humor (Na Mira do Chefe é um excelente exemplar desse seu talento), agora se confronta com uma história dramática e de pegada oposta aos seus trabalhos anteriores, que partiam da comédia para, aí sim, pensar em desdobramentos dramáticos. Em suma, Três Anúncios Para Um Crime nasce de uma ideia triste e provocadora: a de uma mãe que, desesperada, compra três outdoors em uma estrada para causar algum efeito nas investigações estagnadas do assassinato de sua filha, que foi estuprada até a morte. E aí vem piada atrás de piada, algumas delas eficientes na missão de potencializar sensações incômodos no espectador, mas que, no geral, não combinam com uma trama bem menos criativa do que o roteiro julga contar. É hiper rasa a dimensão dramática que McDonagh tenta dar aos seus personagens, incluindo a protagonista Mildred Hayes (Frances McDormand), que, bem defendida por Frances McDormand na medida do possível, já seria uma figura trágica, mas que o diretor insiste em dramatizar através de momentos até mesmo constrangedores, como no lamentável flashback onde ela, em uma histérica discussão, diz torcer para que sua filha seja estuprada por andar sozinha à noite pelas ruas, antecipando o que aconteceria tempos depois.

Três Anúncios Para Um Crime, contudo, não é centrado somente em Mildred, dividindo boa parte de sua história com outros personagens, em especial o policial racista e assumidamente escroto vivido por Sam Rockwell, um ator talentosíssimo que sempre serviu para qualquer papel. A divisão do protagonismo se dá na ideia da produção querer fazer, como o próprio diretor gosta de dizer, um amplo panorama desse mundo bagunçado que vivemos, como se fosse um doloroso mosaico em carne viva de pessoas que não sabem muito bem como reagir aos obstáculos e aos problemas da vida. Sob essa perspectiva, McDonagh, assim como no roteiro que Paul Haggis escreveu para Crash, coloca todas as cartas possíveis na mesa, fazendo a clássica confusão entre quantidade e qualidade. Tem questionamento sobre tudo o que você pode imaginar: abuso de poder, racismo, pedofilia, violência doméstica, e assim por diante… E quando digo que a quantidade se confunde com a qualidade é para elucidar, por exemplo, o desdobramento gratuito de uma amiga negra de Mildred que acaba na prisão. O momento quer falar sobre a frágil condição dos negros em situações onde autoridades brancas se aproveitam de condições privilegiadas, mas esquece que sequer sabíamos qualquer coisa sobre a personagem, antes uma mera figurante praticamente sem nome. Ora, quando uma personagem serve apenas de muleta para uma discussão temática, o roteiro se dilui.

A provocação mais inteligente de Três Anúncios Para Um Crime é não querer ser um filme de investigação, ainda que, no terço final, por um breve momento de sua última hora, decida o ser. A jogada esperta, que sabota de forma interessante várias expectativas, faz com que esse relato seja sobre o entorno do crime e sobre como uma decisão corajosa como a da protagonista é capaz de ter efeitos inesperados e fora de controle. Por mais que seja tortuoso como suspense, comédia e drama, é necessário reconhecer esse mérito que alivia um pouco a barra de uma obra cujo maior estofo está no talentoso elenco reunido aqui, todos bons por natureza e não por incentivo do filme. Por maior que seja a boa vontade com Três Anúncios Para Um Crime, é um árduo desafio compreender como um longa problemático e dispersivo como esse tenha chegando tão longe com o público e com a crítica desde a sua primeira elogiada exibição no Festival de Veneza em setembro do ano passado. Infelizmente, não é a experiência relevante que precisávamos sobre uma série de mazelas que atingem o conturbado mundo em que vivemos nos dias de hoje. Se o destino for justo, será apenas questão de tempo para que todos percebam a manipulação velada e os problemas reais de um filme cuja personalidade é somente confusa e fora de tom.

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