Cinema e Argumento

Os vencedores do Oscar 2021

Com os prêmios de filme, direção e atriz, Nomadland foi o grande vencedor do Oscar 2021.

Contrariando a opinião geral das redes sociais e da imprensa especializada, tenho para mim que a cerimônia do Oscar 2021 foi uma das melhores desde que comecei a acompanhar a premiação. Logo de cara, o produtor Steven Soderbergh, ao lado de Jesse Collins e Stacey Sher, conseguiu reverter algo que me incomoda profundamente há anos: fazendo jus ao título do seu último filme, Let Them All Talk, ele pensou uma cerimônia onde os infinitos clipes com trechos de filmes e os intermináveis monólogos de incontáveis apresentadores ficaram em segundo plano para dar protagonismo ao discurso dos vencedores, que puderam falar por quanto tempo quiseram, rendendo momentos comoventes, como o de Thomas Vinterberg ao receber o prêmio de melhor filme internacional (bastante comovido, o diretor dinamarquês homenageou a filha adolescente que faleceu durante as filmagens do longa). A majestosa entrada de Regina King percorrendo os corredores do Union Station para chegar até ao palco e apresentar o primeiro prêmio da noite também seguiu a linha de valorizar quem faz o Oscar ser Oscar.

É importante lembrar que a criticada decisão de apresentar as categorias de melhor ator e melhor atriz depois de melhor filme não é invenção do Oscar 2021. Na realidade, essa foi uma tradição da Academia durante muitos anos. O que mais gosto nessa decisão é o fato dos produtores terem entendido que as categorias de melhor atriz e ator se eram as mais aguardadas dessa edição, independentemente do resultado, superando inclusive melhor filme, que, convenhamos, sabíamos que seria entregue com muito mérito a Nomadland, de Chloé Zhao, também vencedora do prêmio de melhor direção (outro prêmio anunciado mais cedo, corroborando a intenção de preservar os melhores suspenses para o final). É bastante provável que, predominantemente verbalizada e sem chamariscos de números musicais, a audiência da cerimônia tenha caído drasticamente assim como a de todas as outras temporadas da premiação, o que nos leva a seguinte pergunta: quem é o público do Oscar e para quem ele deve ser feito? Não creio que seja destinado a quem está zapeando na TV e sintoniza para assistir apenas porque o Eminem está cantando. Dito isso, ter dado espaço absoluto para os vencedores faz mais uma vez sentido.

Mais do que isso, as críticas à decisão de colocar as categorias de melhor ator e atriz para o final é uma plena injustiça com duas das melhores surpresas da cerimônia (e que orgulhosamente já estavam previstas nas minhas apostas). Anthony Hopkins é um colosso em Meu Pai, e sua vitória carrega não apenas o reconhecimento a um dos melhores atores de língua inglesa (e em franca atividade, vale lembrar, depois de outra indicação no ano passado por Dois Papas), mas também a coroação de uma das melhores interpretações masculinas a ganhar o Oscar de melhor ator nas últimas décadas. Chadwick Boseman teve o desempenho de sua carreira em A Voz Suprema do Blues, porém, considerando a competição, seu prêmio seria muito mais uma homenagem do que uma celebração ao desempenho em si. Enquanto isso, apesar da imprevisibilidade da categoria, parecia um tanto quanto inconcebível Frances McDormand perder como melhor atriz. Ela é o coração e a protagonista absoluta de Nomadland, além de trabalhar nuances e delicadezas que não lhe são oferecidas com tanta frequência. Vitória mais do que incontestável depois de uma equivocada celebração por Três Anúncios Para Um Crime.

Para encerrar, minha felicidade foi equivalente entre as categorias técnicas, onde discordei somente das surpresas de melhor fotografia (o preto-e-branco de Mank é muito bonito, mas o trabalho desse segmento é fundamental para a imersão de Nomadland), já que a vitória de Judas e o Messias Negro em canção original foi de bom gosto (era, de fato, a melhor na categoria) e que a consagração de O Som do Silêncio em melhor montagem revela uma Academia muito mais refinada no que diz respeito à categoria depois de vitórias bizarras ou óbvias como a de Bohemian Rhapsody e Ford vs. Ferrari. Claro que faria ajustes aqui e ali (a trilha de Minari me encanta muito mais do que a de Soul), mas, no geral, a cerimônia foi justa e equilibrada, sem parecer que os votantes quiseram optaram por uma distribuição para fazer média. Gostos pela cerimônia à parte, tenho certeza que o Oscar 2021, quando avaliado daqui alguns anos (se não já agora), será lembrado justamente por isso: pela sua coerência e pela coragem ao fazer escolhas pontualmente autênticas, sendo coerente com o que a vitória de Parasita sinalizou ano passado, e não com as lembranças indigestas de Green Book sendo escolhido o melhor filme dois anos após Moonlight: Sob a Luz do Luar.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: D’Mile, H.E.R. e Tiara Thomas, por “Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
MELHOR MONTAGEM: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank)
MELHOR FOTOGRAFIA: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
MELHOR CURTA-METRAGEM: Dois Estranhos
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Colette
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Se Algo Acontecer… Te Amo

“O Som do Silêncio” é uma experiência bela, humana e sensorial que dispensa os clichês de filmes sobre deficiência

It just passes. It just fucking passes.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Abraham Marder e Darius Marder, baseado em história de Darius Marder e Derek Cianfrance

Elenco: Riz Ahmed, Paul Raci, Olivia Cooke, Mathieu Almaric, Lauren Ridloff, Domenico Toledo, Chelsea Lee, Shaheem Sanchez, Chris Perfetti, Bill Thorpe, Michael Tow, Rena Maliszewski

Sound of Metal, EUA, 2019, Drama, 120 minutos

Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal que o rapaz. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio. (Adoro Cinema)

Na comunidade de reabilitação voltada para pessoas surdas onde O Som do Silêncio desenvolve boa parte da sua história, todos recebem, com certa periodicidade, uma tarefa a ser cumprida. Alguns pregam madeiras, outros ajustam telhas, enquanto Ruben (Riz Ahmed), o baterista de um duo de heavy metal que está perdendo a audição de forma repentina e vertiginosa, recebe uma missão aparentemente simples, mas, para ele, profundamente complexa: “aprender a ser surdo”.

Tal missão diz muito sobre o protagonista e sobre como O Som do Silêncio desenha sua trajetória com melancolia. Ao abraçar os dilemas de um homem que fica sem chão após perder sua conexão vital com a música e que se recusa a aceitar uma condição irreversível, o diretor Darius Marder refuta os didatismos comumente adotados pelo cinema no arco da “superação” de uma deficiência para focar na jornada interna de um protagonista que, em plena negação quanto a uma nova realidade, é tomado de maneira cumulativa por um sentimento de não pertencimento.

O que torna O Som do Silêncio um filme assertivo na emoção é a sua estreita aproximação com a realidade e com o mínimo de intervenções possíveis por parte de Marder para glamourizar ou espetacularizar o sofrimento do protagonista, o que já se traduz na ideia de ambientar suas vivências em uma comunidade de pessoas surdas. É inteligente porque, ao estar nesse ambiente, Ruben primeiro terá que se reconhecer nas pessoas que agora passam a ser seus semelhantes para somente depois voltar ao mundo como ele antes conhecia.

Primeiro ator de origem muçulmana indicado ao Oscar, Riz Ahmed estudou seis meses de bateria para performar as cenas onde Ruben demonstra todo o seu talento musical. Contudo, as pérolas do ator estão nos momentos em que ele interage com a comunidade surda, aqui representada por pessoas que de fato vivem com a deficiência. Os olhares de estranhamento e, aos poucos, de compreensão que Ahmed dirige aos surdos com os quais ele aprende e convive são tocantes, pois misturam a dor, a angústia, as contradições e, por fim, a evolução de um homem que, apesar da resistência e dos sonhos perdidos, terá que se (re)conhecer como surdo para encontrar novos sentidos e propósitos. É um desempenho excepcional e que, com certeza, marca um novo momento na carreira do ator.

Em certo ponto, Ruben é apadrinhado por Joe, personagem vivido com grande delicadeza por Paul Raci. Coordenador da clínica e um homem que já viu muita coisa na vida, ele clamará pelas mudanças e pelas transformações internas tão rejeitadas pelo protagonista. Joe sabe que as coisas simplesmente não podem mais ser as mesmas quando alguém perde a audição, e sua determinação em transmitir isso para toda a comunidade e especialmente para Ruben é muito humana e natural. A dinâmica estabelecida entre ele e o personagem de Ahmed é um dos pontos altos de O Som do Silêncio porque envolve sabedoria e generosidade mesmo quando as ações e as opiniões dos personagens entram em conflito.

Surpreende esse ser o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder tamanha a disciplina das emoções que ele administra com propriedade e a sua maturidade ao abordar um tema frequentemente banhado em clichês para transformá-lo em uma viagem interna e existencial. Marder parece ter tirado o melhor proveito de seu convívio ao lado do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre, I Know This Much is True), com quem colaborou ao escrever o roteiro do subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, absorvendo toda a sua vocação para narrar histórias essencialmente trágicas, mas que jamais se rendem ao histrionismo ou a caminhos simples. O que vemos em O Som do Silêncio é, portanto, um roteirista que segue amadurecendo e que, agora em seu primeiro longa de ficção, passa a se lapidar como um diretor muito promissor.

É importante dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer essa transição com pleno êxito porque é frequente o número de roteiristas cujo talento simplesmente não se traduz na cadeira de direção. Um exemplo recente capaz de ilustrar essa tese é o de Aaron Sorkin, autor de roteiros versáteis e respeitados como os de A Rede Social e que agora dirige longas-metragens tradicionais até o último fio de cabelo como Os 7 de Chicago.

Sendo assim, conduzido por um cineasta que faz uma fina leitura de seu próprio texto, O Som do Silêncio esbanja delicadeza no belo trabalho de som que aqui e ali reproduz a (falta de) audição de seu protagonista, no desenho de personagens muito bem explorados (até mesmo a pequena participação do francês Mathieu Almaric é repleta de ressignificados), na ideia de que a deficiência não é algo a ser superado mas sim uma condição que faz parte de quem a tem e, claro, na construção dos desempenhos de Riz Ahmed e Paul Raci. Frente a tudo isso, fica, para mim, a certeza de que ainda vou revisitar O Som do Silêncio muitas vezes.

“Pieces of a Woman”: do início ao fim, um drama realista e doloroso sobre o luto materno

I lifted my head. That’s what I’m asking you to do now.

Direção: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Steven McCarthy, Tyrone Benskin, Frank Schorpion, Harry Standjofski

EUA/Canadá/Hungria, 2020, Drama, 126 minutos

Sinopse: Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo. (Adoro Cinema)

Como espectadores, fomos acostumados a esperar que o grande ato de um filme se situe, por razões óbvias, no recorte final da trama, quando respostas finalmente são dadas ou quando o desfecho, mesmo que inconclusivo, é capaz de fazer conexões simbólicas ou emocionais para que tudo o que vimos até ali encontre o seu propósito. Vou além ao instintivamente teorizar que o grande ato de um filme também pode ser um momento poderoso, um pico inesperado ou uma sequência de fatos envolventes e fascinantes estejam onde eles estiverem na linha temporal da trama. E aí me pego pensando: o que acontece quando esse grande ato está, por exemplo, no início de um filme, como acontece em Pieces of a Woman? A resposta é tão simples quanto injusta: tudo o que vem depois acaba subvalorizado pelo público. Aceitamos que um longa-metragem compense todos os seus defeitos prévios com um final capaz de superar expectativas, mas, quando um relato começa no seu ápice para depois trilhar caminhos menos poderosos, o nosso veredito de que o filme falha em preservar as expectativas criadas é imediato, como se ele tivesse a obrigação de alcançar o seu máximo do início ao fim, uma tarefa basicamente impossível. Trata-se de uma reação naturalmente instintiva e que, entretanto, deveria nos exigir um trabalho maior de reflexão, pois, no caso de Pieces of a Woman, ela desvaloriza outros aspectos bastante interessantes de um relato que analisa o luto materno com franqueza e pungência.

Adquirido pela Netflix após exibição no último Festival de Veneza, onde a protagonista Vanessa Kirby se saiu vitoriosa com a Volpi Cup de melhor atriz, Pieces of a Woman começa indiscutivelmente majestoso, com uma longa sequência de mais de 30 minutos que retrata o momento em que Martha (Kirby) entra em trabalho de parto na própria casa, local escolhido por ela para que a filha nascesse. Contudo, o tão sonhado momento vira pesadelo quando — e isso já está explícito na própria sinopse — a filha não sobrevive e Martha se vê obrigada a enfrentar um luto materno antes de sequer ter aprendido o que é ser mãe. A abertura é marcante por mostrar todo o processo de um parto natural com imensa verossimilhança. Não há espaço para glamourização aqui: em tempo real, o diretor húngaro Kornél Mundruczó, a partir de um roteiro de sua esposa Kata Wéber, retrata o parto como um momento difícil e exaustivo, onde a mulher se vê vulnerável e indefesa, amparada por uma figura masculina que, apesar das boas intenções, é quase inútil nesse momento. Funciona como uma imediata imersão no universo emocional da personagem que acompanharemos por todo o filme e como um excelente exemplo da direção equilibrada entre economia e emoção de Mundruczó, inclusive no que se refere à condução dos atores, uma vez que é particularmente formidável o trabalho de Molly Parker como a parteira de Martha. Entre a delicadeza e a angústia de uma mulher responsável por aquele parto, é através de todas as inflexões e expressões da atriz que entendemos cada movimento em cena.

Após esse prólogo, Pieces of a Woman avança para o dia em que a protagonista começa a retomar algum tipo de rotina. Sua via crucis, no entanto, continua: da discussão em torno do que será feito com o corpo do bebê até os sufocantes abraços de compaixão que recebe de conhecidos, Martha se blinda de tudo e de todos para tentar manter o mínimo de equilíbrio interno diante de um momento tão inimaginável. Para ela, essa parece ser a única saída diante de seus próprios fantasmas, enquanto todos a sua volta acham que, por evitar lágrimas e sofrimentos públicos, Martha não está sofrendo o suficiente pela filha perdida. A patrulha em cima do sofrimento alheio é uma das discussões centrais de Pieces of a Woman, já que não são apenas os olhares estranhos no trabalho e na rua que a protagonista precisa administrar, mas também o temperamento controlador de uma mãe decidida a assinar até mesmo os cheques de trâmites funerários e a desestabilização emocional de um marido que, através de discussões cotidianas e da tentativa de relações sexuais estranhas e forçadas, tenta extrair da esposa os estímulos esperados. Ao mostrar a figura masculina fragilizada e a feminina impenetrável, Mundruczó traz uma importante e atualíssima provocação sobre o peso que a sociedade coloca nos ombros das mulheres e das mães, sempre julgadas pela maneira com que externalizam um tipo de sofrimento que, em circunstância alguma, deveria ser alvo de questionamentos.

As reflexões propostas por Pieces of a Woman passam pela própria história de vida do diretor e da roteirista. Casados há vários, Mundruczó e Kata Wéber perderam um bebê enquanto ela ainda estava grávida, e a escrita do roteiro se deu para ela como um processo de cura e terapia após o trauma. Há, portanto, o chamado de lugar de fala porque Wéber transpõe para o roteiro questões que ela viveu na pele. Afinal, o quanto falamos sobre o luto e sobre os dolorosos espectros da maternidade? Ou de onde vem a nossa obsessão em tentar encontrar algum tipo de compensação – judicial, financeira, midiática – para vivências tão acidentais e aleatórias quanto a morte? O longa é certeiro e equilibrado no tocante a essas discussões centradas no universo feminino, o que já não pode ser dito quando o roteiro se volta para Sean, o marido interpretado por Shia LaBeouf. Por si só, o personagem já é consideravelmente menos interessante do que a protagonista vivida por Vanessa Kirby, e a sua subtrama com a personagem de Sarah Snooke (a Siobhan do ótimo seriado Succession) não colabora para a unidade do drama, tanto por soar descartável quanto por não ter maiores conclusões. Nesse sentido, a atenção dada à mãe de Martha surte melhor efeito. Não é o caso de uma personagem notável — inclusive porque suas aparições são pequenas e, por vezes, cíclicas —, mas a escalação da grande Ellen Burstyn eleva a presença da personagem, colocando-a como uma peça bastante interessante na composição da história.

Sem ter vivido a experiência materna na vida real, Vanessa Kirby assistiu a diversos documentários e a partos em hospitais de Londres para entender a dimensão do episódio que dá origem aos conflitos de sua personagem. E ela se sai maravilhosamente bem. Não é porque sua Martha toma distância de tudo e de todos (inclusive dela própria) que nada acontece internamente, o que Vanessa compreende com perfeição. Esse complexo contraste entre o interno e o externo é trabalho dos mais difíceis e se resolve com excelência na interpretação da atriz, cuja beleza e juventude contribuem para o retrato dessa mulher tão precocemente calejada e despedaçada pela vida. O estado enclausurado com que ela incorpora os choros represados e a inabilidade em retomar qualquer normalidade do cotidiano é verossímil e alinhado com o melhor de Pieces of a Woman, um filme que vai na contramão dos retratos clássicos sobre o luto e que nunca se entrega ao mero voyeurismo do sofrimento alheio. Afinal, a perda de uma filha já carrega elementos trágicos por si só. Inexplicavelmente lançado no Brasil sem título em português, o trabalho de Mundruczó tem seus tropeços, como os personagens e as subtramas que, na tentativa de ampliar o espectro dramático, soam como tentativas incompletas. E há, sem dúvida, para muitas pessoas, os 30 minutos iniciais tão comentados por darem uma tração que o restante do longa não consegue manter. Entretanto, comparados ao que Pieces of a Woman tem de melhor, como a performance de Vanessa Kirby e a reflexão sobre o luto materno, são aspectos menores e que não deveriam abalar o valor deste filme bonito e doloroso.

Rapidamente: “Os 7 de Chicago”, “Era Uma Vez Um Sonho”, “Mank” e “Soul”

Aguardado como o filme que finalmente poderia dar o Oscar para Amy Adams e Glenn Close, Era Uma Vez um Sonho acabou como uma das grandes frustrações de 2020 segundo a crítica norte-americana. E com razão.

OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7, 2020, de Aaron Sorkin): Ben Stiller, Paul Greengrass e Steven Spielberg chegaram a se envolver com o projeto, mas quem acabou assumindo Os 7 de Chicago como diretor foi o premiado roteirista Aaron Sorkin (A Rede Social, Steve Jobs, entre outros). Seu primeiro longa na cadeira de direção foi A Grande Jogada, em 2017, e é impressionante como, depois de dois trabalhos, fica evidente o quanto Sorkin é infinitamente melhor roteirista do que diretor. Para falar bem a verdade, no caso de Os 7 de Chicago, há até uma apatia inesperada no texto, que é formulaico em estrutura e não se esmera muito para propor novos olhares a uma história maior do que o próprio filme. Trata-se de um roteiro que lida bem com a multidão de personagens em cena (são sete apenas no título!) e que consegue tornar minimamente interessante um drama de tribunal com mais de duas horas de duração. Entretanto, todas as emoções que Os 7 de Chicago tenta transmitir são pasteurizadas e didáticas, com aquele clima empoeirado de homenagear injustiçadas figuras da vida real mais para aliviar a consciência do público norte-americano do que para cutucar a ferida de incontáveis problemas dos sistemas políticos, sociais e jurídicos do país que, do ponto de vista de construção dramática, são retratados basicamente como obstáculos a serem ultrapassados pelos personagens. Nada na direção de Os 7 de Chicago aponta para a ideia de que Sorkin, após anos vendo seus roteiros tomarem forma nas mãos de grandes cineastas como Mike Nichols e David Fincher, tenha descoberto algum tipo de vocação genuína para esse ofício. É um bom entretenimento para quem se dá por satisfeito com o básico, e frustrante para quem, como este que vos fala, está sempre em busca do que existe de novo a ser dito. De qualquer maneira, em ambos os casos, dá para aproveitar a presença do excelente elenco, onde todos estão em sólida sinergia, algo no mínimo difícil para um longa construído em cima de personagens com personalidades tão distintas e interpretados por atores de diferentes naturezas e intuições.

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy, 2020, de Ron Howard): O filme que renderia, de uma vez só, os tão aguardados Oscars de Amy Adams e Glenn Close se revelou um dos maiores desastres de 2020 junto à crítica internacional. E, de fato, razões não faltam para classificar Era Uma Vez Um Sonho como ao menos um projeto problemático, a começar pelos caminhos tortuosos tomados pelo roteiro de Vanessa Taylor (A Forma da Água) para representar a questão da saúde mental, vista aqui com descaso e ao estilo mais reducionista possível. É complicado, em pleno século XXI, ver um filme embasado na tese de que pessoas com distúrbios mentais/emocionais se “descontrolam” ou algo parecido simplesmente por não terem força de vontade, consciência ou disciplina. O problema se intensifica quando Era Uma Vez Um Sonho nunca observa de forma crítica a situação de uma família pobre, disfuncional e desassistida pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, conhecido por seus problemas e pela falta de programas públicos. Quando tenta dar gravidade ao tema, o diretor Ron Howard, em mais um trabalho nada inventivo, usa as mais óbvias das muletas: a de criar conflitos através de discussões que levam o elenco a berrar, discutir e se confrontar, como se isso fosse garantia de intensidade ou profundidade. Estruturada a partir de uma montagem desprovida de critério, onde o longa vai e volta no tempo sem justificar a ordem, a relevância ou a razão dos saltos temporais, a trama se concentra no personagem vivido por Gabriel Basso, jovem que deixou a família para tentar a sorte na cidade grande e que volta ao lar quando a mãe mais uma vez enfrenta problemas de longa data. Basso tenta se articular em um personagem de pouca energia, mas é jogo perdido porque, além de tudo, ele contracena com Amy Adams e Glenn Close, duas atrizes que, por serem quem são, já se destacam naturalmente. Deixo registrada uma certa defesa a elas porque, apesar das críticas pesadas também dirigidas a suas performances desde o lançamento, a dupla é dos males o menor: Amy tem coerência com uma personagem que, em função da natureza de seus distúrbios, não poderia agir ou se expressar de outra maneira, e Glenn busca conferir dimensão a uma mulher quase estereotipada em sua rispidez. Não salvam o filme ou fazem algo marcante. Apenas aliviam um pouco a frustração trazida por um folhetim desconjuntado.

MANK (idem, 2020, de David Fincher): Depois de Ryan Murphy e Aaron Sorkin, agora David Fincher se soma à lista dos diretores que se banalizaram com projetos originais para a Netflix. No caso de Fincher, o trabalho em questão é Mank, seu aguardado projeto sobre os dias em que Herman J. Mankiewicz escreveu o célebre roteiro do clássico Cidadão Kane. De início, seria possível afirmar que, na realidade, esta é uma obra específica e isolada demais em si mesma, claramente circunscrita ao público cinéfilo interessado pela Hollywood dos anos 1930 e 1940, e que, por isso mesmo, não se trata de um trabalho banal. Seria verdade se não houvesse o fator David Fincher na jogada. Para um diretor de fibra e imaginação como ele, o que se vê Mank é muito óbvio, inclusive porque Herman era um homem fora da curva, marcado por seu temperamento difícil e por sua genialidade, o que não se converte em substância dramática. Do início ao fim, a partir de um punhado expressivo de flashbacks, o filme é um estilizado desfile de curiosidades e referências cinematográficas, apresentando-se como um perfeito exemplo do lado problemático de fazer aquilo que chamamos de fan service, ou seja, algo pensado para agradar fãs (no caso, os de um específico recorte Hollywoodiano). Divertido para quem gosta. Tedioso para quem espera outro tipo de envolvimento. Lamento ter saído de Mank sabendo tão pouco sobre o personagem-título e seu processo de escrita como roteirista, pois Fincher, tão determinado a fazer um filme de cinéfilo para cinéfilos, prefere explorar, em grande escala, diversos locais, bastidores e jantares característicos do período retratado, sem jamais criar uma experiência robusta em ideias e em vida própria. Eventualmente, ele ilumina o roteiro assinado por seu pai Jack Fincher ao dirigir, por exemplo, uma radiante Amanda Seyfried e também ao explorar com inteligência a fascinante parte técnica (o trabalho de som que emula os filmes daquela época e a trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross são um achado), mas é dominante a atmosfera de mais do mesmo, até mesmo no que se refere a Gary Oldman como Mankiewicz, em uma interpretação acomodada e nada camaleônica. 

SOUL (idem, 2020, de Pete Docter e Kemp Powers): Boas ou ruins, as animações do selo Disney/Pixar sempre conquistam uma legião de fãs porque todas reverberam na plateia com mensagens bonitas, afetivas e, por vezes, adultas e complexas, conjugando a diversão dos pequenos e as reflexões existenciais endereçadas à vida adulta. Dos casos mais completos e recentes que acertam em cheio nessa fórmula, tenho Divertida MenteViva: A Vida é Uma Festa entre os meus títulos favoritos. Já considerando aqueles onde a mensagem se sobrepõe ao todo, evidenciando a infalibilidade e, em alguns casos, as motivações puramente comerciais, estão quase todas as continuações realizadas até aqui (Os Incríveis 2Procurando DoryToy Story 4) e outros trabalhos pontuais como ValenteSoul, o novo lançamento da Disney/Pixar, talvez esteja no segundo grupo, pela simples razão de que, excluída a bonita mensagem sobre encontrar nosso propósito, enxergar a beleza das pequenas coisas da vida e entender a dimensão dos nossos verdadeiros sonhos, o que sobra é uma dobradinha de reciclagens. A primeira é a que introduz um universo mais abstrato e detalhado em conceitos, onde os personagens observam e refletem sobre a vida tomando certa distância, exatamente como aconteceu em Divertida Mente. A segunda faz graça com a eterna brincadeira da troca de corpos, uma saída fácil demais para compensar a ausência quase total de elementos lúdicos para o público infantil. A combinação desses dois aspectos torna Soul um filme menos interessante do que a comoção causada pelas mensagens sugere, até porque elas próprias são imperfeitas. Afinal, por que a vida de professor precisa ser tratada como algo inglório ou como uma profissão que só ganha sentido se passarmos por determinadas transformações e aprendizados? É uma animação que, assim como todas da Disney/Pixar, terá um público amplo e apaixonado, ainda que esteja distante de simbolizar o pacote completo de acertos dessa parceria tão frutífera em encantamentos.

“Let Them All Talk” pulveriza o encontro de três grandes atrizes para insistir na excessiva presença de Lucas Hedges

Trying is all.

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Deborah Eisenberg

Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Gemma Chan, Candice Bergen, Dianne Wiest, Daniel Algrant, John Douglas Thompson, Christopher Fitzgerald, Samia Finnerty, Fred Hechinger, David Siegel, Mike Doyle

EUA, 2020, Drama, 113 minutos

Sinopse: Uma célebre autora (Meryl Streep) faz uma viagem com algumas velhas amigas (Candice Bergen e Dianne Wiest) para se divertir e curar feridas antigas. O seu sobrinho (Lucas Hedges) junta-se a elas, bem como a sua nova agente literária (Gemma Chan), que está ansiosa para saber mais sobre o seu próximo livro.

Aos 57 anos, Steven Soderbergh já ultrapassa, segundo o IMDB, a marca de 40 títulos como diretor. É impressionante o seu vigor ao se manter na ativa porque, ao contrário de tantos outros cineastas acomodados a fórmulas, Soderbergh tem uma mente inquieta e está sempre pronto para propor e experimentar novas ideias, mesmo que grande parte de suas ousadias não se converta em bons filmes. Para fazer Let Them All Talk, seu mais novo longa-metragem disponibilizado diretamente na HBO Max, ele apostou outra vez na busca por aquilo que não é óbvio. Dessa vez, temos o diretor a bordo de um transatlântico, acompanhado de três grandes atrizes e munido de um roteiro onde o elenco recebeu a liberdade de improvisar diálogos para lapidar as ideias de um texto bastante enxuto sobre determinados conflitos. O que Soderbergh e a diretora Deborah Eisenberg queriam era fazer de Let Them All Talk uma experiência em que os intérpretes construíssem os seus personagens de forma mais intuitiva, imaginando o que poderia estar por trás das páginas do roteiro. É uma ideia ótima em função dos grandes nomes envolvidos, mas infelizmente não é o caso de um grande filme, e por uma razão difícil de acreditar: ao invés de extrair todas as possibilidades de um encontro entre Meryl Streep, Dianne Wiest e Candice Bergen, a trama insiste em desperdiçar esse trio para dar um inexplicável e excessivo destaque a outro personagem bem menos interessante interpretado pelo jovem Lucas Hedges.

A gênese dramática de Let Them All Talk está em uma atribulada amizade: Alice (Streep), Susan (Wiest) e Roberta (Bergen) se reúnem depois de muitos anos porque a primeira, uma escritora de sucesso às voltas com a finalização de um novo livro, está para receber uma homenagem e opta por viajar à Europa levando as amigas. No entanto, há um certo estranhamento entre elas, e a viagem se dará mais como uma discreta tentativa de reconciliação por parte de Alice do que como as férias dos sonhos entre três mulheres que dividiram uma vida inteira como confidentes. Let Them All Talk é muito discreto sobre a distância e o estranhamento entre essas mulheres, inclusive porque elas são quase formais umas com as outras. Também parte da tripulação, o sobrinho de Alice (Hedges) não deixa de, em tese, representar o espectador na observação dessas personagens: tanto ele quanto quem assiste ao filme tenta entender os enroscos dessa amizade de longa data e as razões quem levam Alice a manter a produção do novo livro a sete chaves. Tudo isso significa que o roteiro de Eisenberg, ao colocar uma barreira entre as protagonistas e ao se dedicar a um personagem que, assim como nós, é um estranho em meio a esse convívio, não dará a Streep, Wiest e Bergen a chance de um encontro caloroso e de deliciosa comunhão, já abalando as animadas expectativas criadas para a reunião de um elenco de tamanho talento.

As afinidades cinematográficas de cada espectador dirão se esse ponto de partida de Let Them All Talk reverbera como um banho de água fria ou como uma interessante ruptura do óbvio. Vejo como um problema, pois a proposta não é refletir sobre os meandros dos conflitos velados, e sim tentar criar alguma curiosidade, levantando questionamentos como se a relação entre as personagens fosse uma equação a ser resolvida. São muitas as perguntas feitas pelo filme, e buscar alguma resposta para elas sem de fato conheceremos as personagens acentua a frustração. Quem é o homem que Alice observa todos os dias na piscina? Por que Roberta evita tanto a amiga que tenta se reconectar com ela? Qual é, afinal, o teor do livro que Alice esconde até mesmo da própria editora? O roteiro perde um tempo precioso com as voltas dadas para construir esses pequenos mistérios, e o terço final corrobora essa sensação, quando todas as questões são respondidas com afeto, surpresa e a certeza de que Let Them All Talk só teria a ganhar se tivesse descortinado as razões de seus conflitos com antecedência. Ao colocar os pingos nos is, o roteiro proporciona, por exemplo, um belo e sincero momento entre as personagens de Meryl Streep e Candice Bergen, aí sim aproveitando suas atrizes com a devida reverência. E mais: sem muito a dizer na maior parte da projeção, o elenco parece não ter tirado grande proveito da possibilidade do improviso, o que acaba sendo um problema exclusivo de como o filme desenvolve as personagens.

Na onda do desperdício, entra o fator Lucas Hedges, um ator do qual gosto muito e que, contudo, precisa de papeis densos como os de Manchester à Beira-Mar ou Boy Erased: Uma Verdade Anulada para funcionar com substância. Sejamos justos ao concordar que é tarefa desafiadora se sobressair ao lado de atrizes como as reunidas aqui porque elas são capazes de preencher a tela apenas com suas ilustres presenças, mas Hedges realmente rema com um papel cuja presença poderia ser eliminada sem qualquer prejuízo à trama. A ideia de Let Them All Talk ter esse personagem que emula o olhar do espectador não se sustenta, pois, inclusive, descobrimos detalhes fundamentais sobre as personagens antes mesmo dele. Ou seja, tanto pela interpretação de Hedges quanto pela função do personagem dentro da narrativa, é injustificado o tempo dedicado ao garoto, que protagoniza subtramas insípidas, como os encontros repetitivos com a personagem de Gemma Chan. Para um relato essencialmente feminino, a presença de Hedges é anticlimática, nos privando de explorar melhor o íntimo das mulheres que deveriam ser as estrelas absolutas do projeto.

A decepção em não vermos ainda mais de Meryl, Candice e Diane também vem da constatação de que Let Them All Talk tem sim protagonistas com um grande repertório de camadas a ser explorado, começando pela Alice de Meryl Streep. Ela é a clássica autora angustiada por um bloqueio criativo, algo que o roteiro não torna um clichê. Primeiro porque é palpável a sua angústia, especialmente a partir do momento em que ela conhece um autor admirado pelas amigas e que está com a carreira indo de vento em poupa. E segundo porque o processo de escrita é retratado com uma abordagem muito realista, onde uma autora se vê encurralada diante de prazos e expectativas, entendendo que uma dita genialidade literária pode levar um escritor até certo ponto, mas que, como em qualquer profissão, muito depende do acaso, das circunstâncias e do estado espírito de quem executa um projeto. Não por coincidência, Alice escolheu a literatura, uma atividade solitária, como seu ganha-pão, visto que é palpável a inabilidade da personagem em administrar relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Vale mencionar que estamos diante de um papel oferecido com pouca frequência para Meryl Streep: despida de distrações (especificamente das transformações biográficas que marcam a sua filmografia), Meryl é vista aqui em plena essência, sem caracterizações. Nesta aparição mais cristalina e cotidiana, ela possivelmente terá um dos desempenhos menos apreciados de sua carreira recente, injustiça que também a acometeu, por exemplo, em As Horas, outro papel em que dava vida a uma mulher comum.

A Alice de Meryl tem importância central, e ela está muito bem acompanhada de outras duas atrizes que, cada uma a sua maneira, contribuem para o que Let Them All Talk tem a nos oferecer de melhor: a possibilidade de vê-las juntas em cena. Quem acabou conquistando a crítica estadunidense foi Candice Bergen, dona do papel, digamos, mais chamativo do filme. Indicada ao Oscar apenas nos anos 1980 com Encontros e Desencontros, Bergen voltou a receber atenções no cinema depois de décadas confinada a papeis pequenos em comédias comerciais como Miss SimpatiaDoce LarVoando AltoNoivas em Guerra. Seu excelente repertório como atriz está bem explorado em um papel que transita entre o drama e a comédia. Infeliz no emprego e ávida por conseguir uma vida financeiramente melhor, a Roberta de Bergen tem ressentimentos de longa data com a Alice de Meryl, e é essa tônica que tira a personagem do mero alívio cômico para colocá-la como uma peça importante das melhores discussões do longa. Já Dianne Wiest abraça um papel de menos destaque em todos os sentidos, mas se junta de forma orgânica às colegas porque sua doçura habitual é perfeita para uma personagem que se vê no meio de duas amigas mal resolvidas. Toda vez que Let Them All Talk permite que as três se encontrem, a experiência sobe de patamar. É fácil perceber isso. Talvez não para Soderbergh e Eisenberg, que misteriosamente seguiram firmes com excessos de Lucas Hedges do roteiro até o corte final. Perderam, enfim, a belíssima oportunidade de festejar três grandes atrizes com a plena atenção que elas merecem. 

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