Cinema e Argumento

46º Festival de Cinema de Gramado #7: Crítica | “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues

Jesuíta Barbosa como Celavi em O Grande Circo Místico: 18º longa do diretor Cacá Diegues atravessa um século e cinco gerações de uma mesma família circense.

Em seu 18º longa-metragem, o cineasta Cacá Diegues reuniu um elenco à altura da mitologia que lhe é atribuída no cinema brasileiro: entre papeis menores e outros de destaque, nomes como Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Juliano Cazarré, Bruna Linzmeyer, Antonio Fagundes e Marcos Frota se alternam em uma história ambiciosa que acompanha, ao longo de um século, o apogeu e a decadência de cinco gerações de uma mesma família circense. Para dar vida a O Grande Circo Místico, filme de abertura do 46º Festival de Cinema de Gramado, Cacá levou mais de dez anos entre a criação do roteiro e o corte final, dado que amplia a expectativa com uma obra que já desperta curiosidade em função da talentosa equipe reunida à frente e atrás das câmeras. Tanto tempo de maturação, entretanto, misteriosamente não livrou o filme de fragilidades recorrentes em histórias que tentam dar conta de um imenso período em menos de duas horas de projeção.

O Grande Circo Místico até joga confetes na arte circense com apresentações esteticamente idealizadas e embaladas por canções irrepreensíveis de Chico Buarque e Edu Lobo. Por outro lado, a intenção é capturar os horrores de uma arte que, com o passar dos anos, perdeu público, incentivo e, por que não, a sua própria humanidade. Para cada cena colorida nos picadeiros, há pelo menos outras duas de bastidores que descortinam violências sexuais, problemas com drogas e outras tragédias que acometem a vida de pessoas cujo propósito profissional é, ironicamente, entreter plateias. Tal proposta já faz de O Grande Circo Místico um filme distante do que seus festivos materiais promocionais indicam, mas o que embaralha o jogo é a questão estrutural. Com incontáveis saltos no tempo, o filme esvazia sua dramaticidade ao não aprofundar situações e personagens. É tiro e queda: com superficialidade e pressa, pessimismo não funciona e soa somente como artifício para tentar conferir algum tipo de consistência à trama.

A leveza mais expressiva de O Grande Circo Místico está em Celavi (Jesuíta Barbosa), misterioso e carismático personagem que não envelhece e acompanha as diferentes fases da família circense. Jesuíta, cuja carreira profissional tem origem no teatro, não exerce papel necessariamente decisivo na trama, mas é o observador que, a cada aparição, traz o encanto e a graça para uma história pesada (e, com seu carisma e talento habituais, Jesuíta cria uma persona de fato interessante). Quanto aos demais atores que estão apenas de passagem (alguns deles, como Antonio Fagundes ou Marcos Frota, estão limitados a uma ou duas cenas), há uma visível entrega — e, no caso de Mariana Ximenes e Juliano Cazarré, donos dos papeis mais trágicos, até certa potência emocional. Eles se esmeram em uma obra truncada e que, pulverizada em ritmo e narrativa, não consegue conectar plateia e personagens. Para tanta espera, O Grande Circo Místico deveria ter armado um espetáculo melhor amarrado e mais grandioso.

46º Festival de Cinema de Gramado #6: Crítica | “Mormaço”, de Marina Meliande

De Roterdã para Gramado: Mormaço, de Marina Meliande, alterna entre o realismo e a alegoria para falar sobre a truculência e a exaustão nas grandes cidades.

Mormaço é um ponto fora da curva. Exibido no Festival de Roterdã deste ano, o drama dirigido por Marina Meliande consegue o feito estranhamente fascinante lembrar outros filmes ao mesmo tempo em que tem uma identidade particular. Tematicamente, é sobre como as grandes cidades são capazes de engolir e transformar seus habitantes, seja em termos literais ou metafóricos. Da perspectiva estrutural, temos duas obras em uma: a primeira é um drama que, para o bem e para o mal, lembra Aquarius no sentido de relatar a vida de pessoas que recusam a ceder suas moradias para projetos políticos ou capitalistas, enquanto a segunda pula do plano realista para a completa alegoria. Evocando, mas jamais emulando filmes cujos ecos surgem apenas como coincidência (o roteiro começou a ser escrito em 2012), Mormaço é, especialmente na primeira parte, fragilizado pela semelhança temática com outras obras, elevando-se, por outro lado, com assustadora vitalidade na segunda, quando garimpa conturbados horrores da nossa sociedade ao mesmo tempo em que promove um angustiante exercício de estilo.

Ao mostrar o apodrecimento de uma vida urbana que se corrompe por interesses e se utiliza da truculência para oprimir os menos favorecidos, o filme apresenta a perspectiva de Ana (Marina Provenzzano), uma jovem defensora pública que trabalha em prol dos moradores da Vila Autódromo, uma das comunidades ameaçadas de remoção para as obras de construção do Parque Olímpico do Rio. Ela, uma mulher independente que mora sozinha em um apartamento da capital carioca, acredita na luta a ponto de permitir que todo o processo, incluindo as derrotas que se revelam inevitáveis, atinjam o seu estado físico e emocional. Meliande, que faz jus a sua assumida intenção de conduzir a história sem nenhuma panfletagem, suscita um discurso claro e contundente através de olhares pouco usuais, como o feminino, aqui simbolizado nessa personagem representante de uma geração cuja exaustão é diretamente definida por uma cidade impiedosa em suas dimensões, exigências e injustiças. 

Até certo ponto, Mormaço apresenta seu universo e seu posicionamento com uma condução mais clássica. O jogo se inverte depois, quando Meliande recupera angústias diárias de uma população oprimida e sem voz para fazer fazer do relato uma experiência aterrorizante. Imersiva, a segunda metade de Mormaço cresce minuto a minuto, mergulhando o espectador em um pesadelo social muitíssimo bem traduzido pela excepcional parte técnica. Mais maduro e eficaz do que 90% das obras que chegam aos cinemas e que assumem ou flertam com a natureza do horror, o projeto causa estranheza ao transformar um filme em outro. A vitória, por outro lado, está na unidade temática: Mormaço é firme em suas convicções, e ainda mais fascinante quando as transporta para a experimentação, decisão responsável por engrandecer um filme que, no realismo ou na alegoria, fala muito sobre as doenças do nosso país que pouco têm a ver com diagnósticos médicos.

46º Festival de Cinema de Gramado #4: Crítica | “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

Karine Teles e Adriana Esteves em Benzinho: nova pérola do cinema brasileiro registra as complexidades femininas e maternais a partir de cotidianas transformações do ambiente familiar.

Assim como Aquarius, o drama Benzinho é um filme sobre resistência, mesmo que de outro tipo, e talvez ainda mais acachapante. Enquanto no celebrado longa de Kleber Mendonça Filho acompanhávamos os dias em que Clara (Sonia Braga), uma jornalista de sucesso, negava-se a vender o seu querido apartamento localizado à beira do mar recifense, o novo projeto assinado por Gustavo Pizzi (Riscado) traz a protagonista Irene (Karine Teles) enfrentando as pequenas batalhas do dia a dia: o marido vive de sonho em sonho sem realizar muita coisa, os filhos pequenos exigem constante atenção, a irmã sofre com um marido agressivo, as contas não param de chegar e, de repente, o filho mais velho é convidado a jogar handebol na Alemanha. Ajudando todos à volta, Irene não recebe de volta o mesmo cuidado, mas se vira nos trinta nesse registro que, cercado de delicadeza, é uma verdadeira homenagem a todas as mulheres que fazem o mundo girar com mais amor e compreensão.

Exibido em janeiro deste ano no Festival de Sundance, Benzinho foi um projeto realizado praticamente em família. À época, o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Teles eram casados e não só escreveram o filme juntos como também escalaram os próprios filhos e um sobrinho para interpretar as crianças. Na mistura, entram outros dois atores igualmente fundamentais: Adriana Esteves e Otávio Müller, que se “infiltraram” na família com uma naturalidade inquestionável. E o resultado se vê na tela, com um elenco que faz sentir o entrosamento do grupo em prol de um projeto afetivo e colaborativo. No entanto, inevitavelmente, Benzinho é centrado na Irene de Karine Teles, vista aqui como uma mulher em suas múltiplas facetas, e não como coadjuvante ou mero objeto. A personagem é uma imensidão de emoções e complexidades, todas elas provocadas pela anunciada despedida do filho que está prestes a partir para o exterior. O curioso contraste é que, por ser sempre tão confiante ao resolver os percalços do cotidiano, todos (inclusive ela) pensam que tudo está bem, quando, na verdade, não está.

Benzinho sugere ser um filme sobre a chamada síndrome do ninho vazio, mas gosto de vê-lo como um retrato muito mais completo: ao perceber que a partida do filho é inevitável, Irene resolve mexer com a sua própria vida, o que envolve desde a conclusão dos estudos até a busca por um novo emprego. E a delicadeza com que o roteiro de Pizzi e Teles captura o infinito universo de uma mulher a partir das mínimas coisas da vida é refinadíssima, pois Benzinho não deixa de buscar a alegria em meio a um material que poderia render um grande dramalhão. Outro mérito do longa é ser extremamente fiel à vida como ela é, seja ao mostrar a dinâmica de uma família que passa por muitas dificuldades à própria escolha das palavras, já que não há qualquer artificialidade nos diálogos. Por mostrar pessoas que continuam sorrindo e sonhando apesar dos obstáculos, Benzinho comove, e o faz com a maior simplicidade do mundo, tarefa muito mais difícil de cumprir do que o público está acostumado a considerar.

Com um elenco irrepreensível, Benzinho tem mesmo o seu coração na grande performance de Karine Teles. Uma das intérpretes brasileiras mais talentosas em atividade (claro que a dona Bárbara de Que Horas Ela Volta? é inesquecível, mas não deixem de garimpar Riscado, que ela realizou também em parceria com Gustavo Pizzi), Karine é maravilhosa ao traduzir todas as transformações internas de uma mulher que tenta não transparecer emoções que ela mesma não consegue diagnosticar com tanta certeza. Muito do que Karine traz para Benzinho vem de sua experiência como mãe e, claro, das mulheres que ela assume homenagear nesse projeto, mas sequências como final, capazes de, silenciosamente, somente em gestos e olhares, fazer a perfeita síntese de um universo particular, são apenas para quem tem vasto talento ou repertório. Karine e o filme como um todo proporcionam, em Benzinho, aquela sensação tão fascinante de um cinema que consegue dar uma rasteira emocional no espectador ao mesmo tempo em que o reergue de forma esperançosa. Curiosamente, não é assim que a vida costuma funcionar? 

“Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo”: continuação aprimora aspectos do filme original, mas não compensa a ausência de Meryl Streep como protagonista

You are still my love and my life, still my one and only…

Direção: Ol Parker

Roteiro: Ol Parker, baseado em história de Catherine Johnson, Ol Parker e Richard Curtis

Elenco: Lily James, Amanda Seyfried, Julie Walters, Christine Baranski, Pierce Brosnan, Dominic Cooper, Andy Garcia, Stellan Skarsgård, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Cher, Meryl Streep, Josh Dylan, Jeremy Irvine, Hugh Skinner

Mamma Mia! Here We Go Again, Reino Unido/EUA, 2018, Musical, 114 minutos

Sinopse: Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a reinaugurar o hotel da mãe (Meryl Streep), agora totalmente reformado. Para tanto convida seus três “pais”, Harry (Colin Firth), Sam (Pierce Brosnan) e Bill (Stellan Skarsgard) e as eternas amigas da mãe, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), ao mesmo tempo em que precisa lidar com a distância do marido Sky (Dominic Cooper), que está fazendo um curso de hotelaria em Nova York. O reencontro serve para desenterrar memórias sobre a juventude de Donna (Lily James), no final dos anos 70, quando ela resolve se estabelecer na Grécia.

Desprezado pela crítica quando chegou aos cinemas em 2008, Mamma Mia! agora volta à vida com uma continuação que reflete muito mais do que o imenso sucesso de público do primeiro filme, que chegou a ser maior bilheteria registrada no Reino Unido até Avatar tomar o posto no ano seguinte: em Lá Vamos Nós de Novo, subtítulo escolhido para a sequência, percebemos que o musical envelheceu muito bem porque se tornou uma obra querida inclusive para quem torcia o nariz dez anos atrás. Levou tempo, mas as pessoas aceitaram abraçar Mamma Mia!. Não restam dúvidas de que o longa original era frequentemente tosco e mal dirigido por Phyllida Lloyd. No entanto, como ficar de mal com uma produção embalada por hits do ABBA, emoldurada com lindas paisagens gregas e energizada por uma Meryl Streep que voava as tranças ao som de Dancing Queen? Cafona, inverossímil e muitas vezes primário, Mamma Mia!, de repente, viu tais defeitos se tornarem parte de sua adorada identidade, permitindo que essa continuação recém estreada nos cinemas brasileiros seja um dos títulos mais esperados do calendário comercial norte-americano em 2018.

Para os temerosos com a ideia de uma sequência, a grata surpresa é que, em inúmeros pontos, Lá Vamos Nós de Novo é superior ao original. Com a saída da diretora Phyllida Lloyd, que recusou o convite comandar a sequência (ela, com toda razão, também não dirigiu mais nada para o cinema depois de A Dama de Ferro), o espectador ganha um filme com maior esmero técnico e criatividade. Ol Parker, roteirista de O Exótico Hotel Marigold 1 e 2, repara várias das escolhas amadoras da antecessora, que vinha do teatro e tinha em Mamma Mia! a sua primeira experiência idealizada para a tela grande. Na continuação, a música se conecta de maneira mais orgânica e menos gratuita à história, inclusive com aquelas que, para satisfazer o grande público, precisam ser repetidas, como a própria canção-título. O contexto é melhor, as coreografias são aprimoradas e a trilha instrumental, assinada por Anne Dudley (Elle), faz releituras de arranjos do ABBA com graça e reverência.

Aliás, por falar em nostalgia, Lá Vamos Nós de Novo preserva a vitoriosa identidade do filme anterior e, na medida do possível, cria um clima para chamar de seu. Preserva-se aqui a alma brega, as paisagens ensolaradas, o perfil cômico de cada personagem e as coincidências fáceis. Além disso, ao transferir boa parte da narrativa para a adolescência de Donna Sheridan (Meryl Streep na versão madura, Lily James na juventude), o musical tem a chance de introduzir novos atores, explorar situações que escapam do musical em que se baseia e contar com o indiscutível carisma de uma protagonista diferente. É nesse universo que Lá Vamos Nós de Novo pulsa como nos melhores momentos do original, especialmente porque Lily James abraça a missão de corpo e alma: lembrada por seus papeis na fábula em live action de Cinderela e no seriado Downton Abbey, a atriz alcança um vigoroso equilíbrio entre a capacidade de emular a personagem interpretada por Meryl Streep e a de fazer próprias criações, sem jamais se limitar à mera cópia. Se há uma estrela no filme, essa é indiscutivelmente Lily. 

A jovem atriz faz tão bem ao filme porque mantem acesa, no físico e no espírito, a chama de uma Donna Sheridan que agora se faz ausente. Por razões que são explicadas logo no início da projeção, Donna segue como o centro dos pensamentos e das motivações de cada personagens, mas dessa vez apenas na memória. Infelizmente, isso não deixa de condenar o projeto: por melhor que seja, Lily James não é Meryl Streep, cuja presença norteava a força, a energia e emoção do longa anterior. A premiada atriz não deixa de aparecer (em uma cena comovente, por sinal), mas é muito pouco para uma história que tanto reverencia a sua lembrança e que constantemente nos lembra que o primeiro Mamma Mia! era irresistível muito em função de seu gigante talento. Sem ela, em termos de uma trama propriamente dita, Lá Vamos de Novo não parece ir a lugar algum. A falta que Donna faz ainda é muito mais forte do que a homenagem que o filme tenta prestar a ela. Nesse contexto, entra a participação de Cher, promovida como um grande acontecimento que poderia ser a jogada perfeita para compensar a ausência de um ícone com outro, mas isso acaba não se cumprindo: divertidíssima e com presença expansiva, Cher é somente uma curiosidade, inclusive pouco justificada, já que sua personagem era inclusive tida como morta no longa de 2008. 

Sem um elo mais consistente, a mesma sensação respinga no roteiro, que é frágil nas duas linhas temporais estabelecidas para a narrativa. Na juventude de Donna, por exemplo, Lá Vamos Nós de Novo falha ao dizer qualquer coisa que já não tenha sido mencionada no filme anterior, onde já eram mencionadas as resoluções de todos os conflitos apresentados aqui. Nós já sabemos que Donna se relacionará com três homens, eventualmente se apaixonará por um deles, viverá desencontros e, ao fim, criará sozinha a sua filha sem saber quem é o pai. Por mais que o filme tente criar envolvimento com cada revelação ou desdobramente, simplesmente não há como. Enquanto isso, nos dias em que Sophie (Amanda Seyfried) homenageia sua mãe, os dilemas pipocam da forma mais rasteira possível (o namorado passando uma temporada em Nova Iorque, a tempestade violenta e inesperada na véspera de uma inauguração) para depois serem resolvidos com a maior facilidade do mundo. Entretanto, assim como como no filme original, Lá Vamos Nós de Novo é o tipo de filme onde o espectador escolhe se é possível se desarmar e partir para o abraço. Caso escolha, encontrará o bom e velho Mamma Mia! que já conhece: repleto de defeitos, mas também vivo, alegre, despretensioso, sonhador e até dotado de um certo fascínio ao tornar o ridículo uma razão do seu sucesso.

“Hannah”: com desempenho monumental, Charlotte Rampling empodera espécie de reality show sobre ausência e solidão

Direção: Andrea Pallaoro

Roteiro: Andrea Pallaoro e Orlando Tirado

Elenco:  Charlotte Rampling, André Wilms, Stéphanie Van Vyve, Simon Bisschop, Jessica Fanhan, Fatou Traoré,  Jean-Michel Balthazar, Gaspard Savini, Julien Vargas, Luca Avallone,  Miriam Fauci, Ambra Mattioli, Mathilde Rault

Itália/França/Bélgica, 2017, Drama, 95 minutos

Sinopse: Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher de terceira idade que divide-se entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros. (Adoro Cinema)

Hannah é um filme que exige imensa preparação por parte do espectador. E isso é o que reconhece o próprio diretor Andrea Pallaoro, que, quando exibiu o longa pela primeira vez no Festival de Veneza deste ano, não escondeu seu nervosismo quanto à recepção do público. Pallaoro sabia que havia realizado um projeto difícil e desafiadora em muitos aspectos, mas que contava com um elemento decisivo na relação da obra com a plateia: o desempenho de Charlotte Rampling, para quem o cineasta italiano escreveu especialmente o papel principal. Nas tantas entrevistas que deu sobre Hannah, ele diz que Rampling é um fator crucial no processo de preencher as várias lacunas propositais deixada pelo roteiro e que, sem ela o filme talvez nem tivesse saído do papel. E, de fato, é nessa relação indissociável com a atriz que a trama se engrandece e se empodera, ainda que seu desempenho contribua para que Hannah se consolide como uma experiência pesada e exaustiva, mas também como um registro bastante assombroso.

O cerne dessa imensa densidade é de fácil diagnóstico: quase um reality show sobre ausência e solidão, Hannah apenas observa os dias de uma mulher que, após a prisão do marido, precisa readaptar toda sua vida, agora aos pedaços e sem a presença da família, que, por alguma razão, também a condena pelo desconhecido ato que levou o marido à prisão. Não há conflitos na forma clássica que o público costuma exigir: praticamente sem diálogos, o filme acompanha a personagem em afazeres banais, seja nas aulas de teatro e natação ou no simples preparo de um bolo. Também não há respostas para qualquer pergunta: desconhecemos o crime que o marido teria cometido (e é possível deduzir que o filho do casal parece ter algum tipo de culpa nessa situação), tampouco entendemos por completo a real dinâmica estabelecida pela protagonista com outros personagens coadjuvantes, como as crianças do andar de cima que causam uma infiltração no seu apartamento ou a rica patroa para quem Hannah (Rampling) presta serviços domésticos. Do início ao fim, o longa joga perguntas, mas não sente necessidade de respondê-las, como se construísse um thriller existencial, termo muito associado ao resultado final desde as primeiras exibições em festivais mundiais.

A dimensão, na realidade, está na perspectiva: à margem, Hannah (Rampling) é sufocada por uma existência que, para ela, está decididamente morta. Sua inadequação social no grupo de teatro é uma clara prova disso, pois, nas aulas, ela finalmente fala, pula, caminha, conversa, mas incorporta tudo aquilo como uma terapia interna, e não necessariamente como uma ferramenta de socialização. A maneira com que o diretor mostra Hannah observando, com extrema distância, o pulo de um grupo de crianças na piscina ou a discussão de um casal no metrô também reforça a posição isolada que tomou conta do seu emocional e do seu comportamento. Fora isso, só o fato de Hannah ser uma mulher na terceira idade, carregando a amargura trazida pela ausência da família, especialmente a do neto de quem sente tanta falta, e as expressões de alguém que já passou por muito na vida já conferem ao longa uma melancolia traduzida ainda na falta de cores de uma fotografia pensada para ser tão morta quanto a personagem principal.

Tais leituras são impulsionadas pelo desempenho monumental de Charlotte Rampling, que chegou a ser premiado em Veneza — e vejam que raridade: com essa honraria, Rampling fica a um passo de conquistar a tríplice coroa dos principais festivais de cinema do mundo (ganhou Berlim por 45 Anos e agora resta “apenas” Cannes para ela chegar lá), um cenário no mínimo sem precedentes para uma atriz acima dos 70 anos. A veterana britânica normalmente já exala mistério com sua forte persona, mas aqui ela é fundamental, pois vem dela uma gigantesca parte do que interpretamos em Hannah. Afinal, uma vez quase sem texto e sem conflitos factuais, cabe ao olhar sempre marcante de Rampling a missão de capturar a profundidade emocional de uma mulher que sente não pertencer mais a lugar algum. Nem imagino o desgaste de tamanha entrega a esse exercício de cinema lento, observador e repleto de lacunas, mas, como espectador, a recompensa é poderosa tanto pelo desempenho da atriz quanto por ela nos ajudar a atravessar uma obra de digestão complicada, desgastante e que, sem dúvida, perderá espectadores pelo caminho. 

Rapidamente: “Eu, Tonya”, “A Melhor Escolha”, “Uma Mulher Fantástica” e “Vingadores: Guerra Infinita”

Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica é um relato digno e delicado sobre o luto a partir da perspectiva de uma personagem trans.

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, de Craig Gillespie): É interessante ver um filme como Eu, Tonya durante a era das fake news: dispensando a imparcialidade e caminhando na linha tênue entre o que é a nossa opinião e o que é de fato verdade, o longa assinado por Craig Gillespie, do ótimo A Garota Ideal, assume o seu relato de defesa na história de Tonya Harding (Margot Robbie), ex-patinadora que, nos anos 1990, foi acusada de estar envolvida no planejamento de um ataque que seu então marido colocou em prática contra Nancy Kerrigan, também patinadora e concorrente de Tonya nas competições da modalidade. Com estilo ácido, ágil e desbocado, o filme cria uma mistura entre drama, comédia e documentário que questiona a veracidade (ou a intensidade) de fatos e perspectivas. O recado é claro: em circunstâncias extremas e suspeitas, tudo se resume ao que cada um vê. Margot Robbie é maravilhosa em todas as fases e facetas de Tonya Harding, naquele tipo de desempenho que define uma carreira em ascensão. Já Allison Janney, vencedora absoluta dos prêmios de atriz coadjuvante em 2018, é sempre uma ótima atriz, mas aqui está presa a uma caricatura unilateral e que se justifica de maneira simplista. Sua personagem, aliás, sintetiza aquele que é o maior problema de Eu, Tonya: o de ultrapassar a linha do politicamente incorreto para convidar o público a rir de temas que são problemas reais da nossa realidade, como o machismo, a violência doméstica e todo tipo de abuso emocional. É o único desajuste questionável (e, por que não, irresponsável) de um filme predominantemente repleto de frescor em clima, ideias e ritmo.

A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying, 2017, de Richard Linklater): Fiel ao seu estilo de olhar para momentos e situações que, isoladamente, parecem corriqueiros, mas que, quando vistos em perspectiva, explicam muita coisa sobre quem nos tornamos, o diretor Richard Linklater realiza A Melhor Escolha com as qualidades e delicadezas que lhe são habituais, mas dessa vez em menor escala, mesmo com um elenco de primeiríssima qualidade (Bryan Cranston, Steve Carell, Laurence Fishburne). E, quando digo menor escala, faço referência ao próprio roteiro, que fala sobre a camaradagem masculina, os anos que nos separam e as situações que nos reúnem com inspiração moderadíssima, muitas vezes até optando por situações e arcos dramáticos previsíveis. Pela linearidade de estrutura e ideias (é fácil deduzir qual será a transformação de cada um dos personagens), A Melhor Escolha se alonga mais do que tem a dizer, o que entrega aos três atores principais a tarefa de ser a base do carisma e do principal interesse da obra. Cranston e Fishburne, como os bons atores que são, tornam a viagem prazerosa, mas cito mais uma vez em específico o sempre subestimado Steve Carell: interiorizando a dor de um homem que perdeu o filho sem recorrer aos artifícios fáceis de interpretação para esse tipo de papel, o ator é minimalista como poucos no cinema norte-americano da atualidade, adicionando outro belo momento a uma carreira já marcada por excelentes trabalhos em filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Amor a Toda ProvaFoxcatcher A Guerra dos Sexos.

UMA MULHER FANTÁSTICA (Una Mujer Fantástica, 2017, de Sebastián Lelio): Vencedor do Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica dá novo significado ao luto quando transfere o tema para a perspectiva de uma mulher transexual. Força e originalidade são extraídas do relato somente com essa mudança de cenário: afinal, é devastadora a situação em que se encontra Marina (Daniela Vega, ótima), proibida de viver quase todos os rituais do luto (o velório de seu parceiro, o abraço reconfortante da família) simplesmente por ser transexual. Mas o bacana de Uma Mulher Fantástica é não abordar a questão da sexualidade como panfletagem, preferindo negar sentimentos fáceis (ao contrário dos estereótipos, a protagonista é uma mulher independente, trabalhadora e talentosa) ou interferências sensoriais e estéticas — e, ainda assim, quando as evoca, o resultado é emblemático, como na sequência em que protagonista encara uma intensa ventania, uma clara metáfora da contracorrente diária que ela enfrenta na vida, ou como na cena em que ela, nua, coloca um espelho no meio das pernas, refletindo aquilo que a define: o rosto e não qualquer órgão genital que ela tenha ou deixe de ter. Uma Mulher Fantástica é de uma delicadeza tremenda — característica que o cinema de língua latina domina com maestria nos melhores exemplares que se encaixam em relatos como esse —, e a vitória no Oscar de filme estrangeiro é dupla: pela celebração da representatividade e pela excelência cinematográfica.

VINGADORES: GUERRA INFINITA (Avengers: Infinity War, 2018, de Anthony e Joe Russo): Sucesso estratosférico de bilheteria e inclusive de comoção por parte da crítica, Vingadores: Guerra Infinita é o perfeito exemplo de como filmes de super heróis são uma verdadeira paixão. Para quem a tem, o que se vê é um filme inovador, marcante e corajoso. Já quando você não se empolga de forma equivalente, como é o meu caso, a situação é um mistério: no máximo bacana, Guerra Infinita não passa de outra diversão de momento. Com o grande mérito de demonstrar plena segurança em um ponto que poderia ser sua ruína — o timing e relevância de incontáveis personagens e universos —, o longa tem a seu favor um vilão de forte presença e que finalmente desperta algum sentimento de ameaça. Entretanto, além da duração tão demasiada quanto inevitável, Guerra Infinita frustra mesmo é quando, ironicamente, tenta colocar em prática as consequências da ameaça tão anunciada pelo vilão: o projeto tanto não tem culhões para traçar um destino drástico para determinado personagem quando sugere a chance quanto encerra essa primeira parte (outra virá em 2019) propondo certo pesar por uma situação que sabemos ser perfeitamente reversível, uma vez que incontáveis franquias já estão encomendadas para os próximos anos. Não precisávamos de um plot twist raso e até mesmo oportunista como esse.

“Hereditário”: luto familiar é a instigante matéria-prima para o medo e a paranoia (até chegar o terço final)

You don’t think I’m gonna take care of you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund, Bus Riley, Heidi Méndez

Hereditary, EUA, 2018, Terror, 127 minutos

Sinopse: Após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram. (Adoro Cinema)

Sucessor de Mãe! no sentido de ser o filme mais polarizador do cinema norte-americano em 2018, Hereditário, contudo, representa algo muito maior: a consolidação do terror mais sofisticado e menos simplista junto às grandes plateias. Se já vivemos épocas em que sucessos de bilheteria eram trabalhos pautados por um estilo mais grotesco e escrachado como A Casa de CeraHorror em AmityvilleO Albergue e uma infinidade de Jogos Mortais, hoje a criatividade e a autoria parecem ter lugar cativo mundo afora. Pensem comigo: Invocação do MalA BruxaCorra!Um Lugar Silencioso, citando apenas obras mais recentes, exploram as possibilidades estilísticas do gênero de forma exemplar, além de, em casos pontuais, proporem a interpretação de discussões contemporâneas a partir do medo, da tensão ou do assombro. Com Hereditário, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, ganhamos mais um título para reforçar essa tese, e um título dos mais interessantes do ponto de vista de repercussão: independente de pré-conceitos e do quanto o resultado como um todo é capaz de envolver, você precisa assisti-lo e, principalmente, debatê-lo, sensação despertada apenas por uma mínima porcentagem dos filmes que costumamos conferir ao longo do ano.

Conduzindo situações e personagens por terrenos incertos, onde muito se deduz e pouco se diagnostica em termos daquilo que devemos temer ou suspeitar (uma qualidade tremenda, diga-se de passagem), Hereditário mostra todo o talento do diretor Ari Aster em seu primeiro longa-metragem: há uma atmosfera latente no filme, auxiliada tanto pelas ferramentas técnicas (a trilha de Colin Stetson cria o clima ideal até mesmo nas notas mais altas e previsíveis) quanto por essa matéria-prima da incerteza que define os melhores relatos de terror. A força maior, contudo, está no conceito pensado para a trama, impulsionada pela discussão sobre como a dor e o luto são capazes de nos levar a lugares que nem imaginávamos existir. Tudo começa quando Annie (Toni Collette) perde a mãe e, dias depois, sofre outro baque emocional que atingirá também e principalmente o filho Peter (Alex Wolff). Entre eles, há ainda o pai vivido por Gabriel Byrne e a estranha irmã mais nova (Milly Shapiro), mas é do intenso calvário emocional de Annie e Peter que Hereditário extrai tensão e angústia. Ao mostrar o quanto o luto mexe com as nossas ideias e sentidos, o roteiro desafia o espectador a concluir se o estado de transe dos personagens está apoiado na loucura, na realidade ou, quem sabe, até mesmo no sobrenatural. E os resultados desse processo de questionamentos são ricos no drama e no terror, inclusive porque Toni Collette e Alex Wolff são atores talentosos.

O filme que percorre caminhos tão instigantes vai por água abaixo no terço final, e por uma razão que julgo ser bastante decisiva, para não dizer um pouco desonesta: a de virar completamente do avesso o seu estilo de terror. Poderíamos dizer que, antes disso, Hereditário comete o pecado de explicar ponto a ponto o seu mistério, o que soa amador para uma obra que vinha carregando força e tensão exatamente na falta de respostas, mas o problema maior está mesmo nessa troca de estilo, que é gravíssima para um gênero tão específico como o terror. Ora, ninguém engoliria Os Outros, por exemplo, caso, de repente, todo o seu mistério fosse somente um plano do boneco Chucky. Hereditário me chateia por causa disso: além das explicações desnecessárias, a conclusão, cuja cena final é uma clara evocação do que já vimos em A Bruxa, transforma um filme em outro (um que eu provavelmente não veria), e ainda o faz a passos apressados, com guinadas e conclusões tumultuadas. Já se a mudança drástica é parte de um plano maior para causar o efeito da provocação e do incômodo, ao menos há de se reconhecer que Ari Aster acertou em cheio, pois Hereditário é, indiscutivelmente, o filme-evento da temporada.

“Oito Mulheres e Um Segredo”: sem roteiro e direção à altura, elenco feminino é a razão do entretenimento

That was spectacular!

Direção: Gary Ross

Roteiro: Gary Ross e Olivia Milch, baseado na história de Gary Ross e nos personagens de George Clayton Johnson e Jack Golden Russell

Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, James Corden, Richard Armitage, Midori Francis, Elliott Gould, Charlotte Kirk, Charles Prendergast

Ocean’s 8, EUA, 2018, Aventura, 110 minutos

Sinopse: Recém-saída da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) logo procura sua ex-parceira Lou (Cate Blanchett) para realizar um elaborado assalto: roubar um colar de diamantes no valor de US$ 150 milhões, que a Cartier mantém sempre em um cofre. O plano é convencer a empresa a emprestá-lo para que a estrela Daphne Kluger (Anne Hathaway) use a joia no badalado Met Gala, um dos eventos mais chiques e vistosos de Nova York. Para tanto, Debbie e Lou reúnem uma equipe composta apenas por mulheres: Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina), Rose (Helena Bonham Carter) e Tammy (Sarah Paulson). (Adoro Cinema)

Um pouco menos emblemática do que o público passou a considerar especialmente agora, a franquia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e concluída como trilogia com Doze Homens e Outro SegredoTreze Homens e Um Novo Segredo era puro entretenimento, com o bônus de ser concebida em uma fase inspirada de Steven Soderbergh, diretor incansável e plural, mas também bastante irregular. Sua cartada mais certeira, entretanto, era o elenco de altíssimo nível, capaz de reunir, na mesma tela, atores como George Clooney, Brad Pitt, Al Pacino e Matt Damon (a lista completa poderia levar mais algumas linhas), todos eles arquitetando assaltos e outros trambiques em pleno clima de descontração. Lá, a presença feminina (Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones) era secundárias, mas agora o jogo virou: onze anos depois do último filme, é a vez das mulheres, como em boa parte do que tem sido produzido nos dias de hoje, assumirem a dianteira de uma franquia que segue o mesmo estilo, dessa vez intitulada Oito Mulheres e Um Segredo.

A única conexão entre esse novo filme comandado por Gary Ross (A Vida em Preto e Branco, Seabiscuit – Alma de Herói e o primeiro Jogos Vorazes) e a versão masculina é o fato de Debbie Ocean (Sandra Bullock) ser irmã de Danny (Clooney), referenciado uma vez ou outra ao longo filme. O problema é que, apesar desse fiapo de conexão, Oito Mulheres e Um Segredo depende mais do estilo e do formato dos longas anteriores do que poderia se esperar. É fato: Gary Ross, também autor do roteiro, faz um trabalho bastante acomodado ao apenas remontar uma fórmula bem sucedida. Não há aqui uma linguagem própria ou ao menos certa personalidade para distanciar Oito Mulheres e Um Segredo de uma mera inversão de elenco. Há algum mal em mexer em time que sempre vence? Não necessariamente, mas, assim como no recente Mulher-Maravilha, a sensação de prato requentado nos lembra que, sim, é alta a relevância de se ter um filme comercial estrelado por mulheres, e seria ainda maior caso determinadas produções nos apontassem novas possibilidades em um mercado historicamente definido por visões masculinas (ao contrário de Mulher-Maravilha, o caso de Oito Mulheres e Um Segredo é ainda mais delicado por ter um homem na cadeira de direção).

Munido de certas liberdades que são coerentes com a veia cool da franquia (como levar a sério a personagem vivida por Sandra Bullock começar o filme com a maquiagem em dia dentro de uma… prisão?!), Oito Mulheres e Um Segredo não é um filme que preza pela verossimilhança ou por sua engenhosidade de roteiro (dependendo do ponto de vista, é o que dá a tônica da diversão) e que não se esmera na construção das personagens, todas com personalidades que existem porque lhe foram superficialmente atribuídas e não porque foram desenvolvidas. A falha mais grave, porém, é uma mera questão de atmosfera. Sem qualquer ameça ou perigo iminente, um filme de assalto não desperta euforia, e é o que acontece com Oito Mulheres e Um Segredo: não há situação que não seja contornável ou qualquer sequência que desperte o mínimo de adrenalina. Durante todo o desenrolar, nós sabemos que os ventos sempre sopram a favor das personagens. E isso, na letra fria da história, é desestimulante, além do mais quando tanta facilidade para idealizar a esperteza das personagens abre uma série de furos no roteiro (é inadmissível, por exemplo, que, em determinado ponto, a polícia acredite que um objeto tenha sido inocentemente perdido quando ele só poderia ser retirado do corpo de quem o usava com uma ferramenta que estava justamente sob os cuidados das autoridades).

Como em tantos outros trabalhos onde atores ou atrizes são maiores do que os filmes em si, Oito Mulheres e Um Segredo não foge à regra e inclusive se potencializa: são nada menos do que oito intérpretes que formam um time simplesmente irresistível. Tanto o projeto tem consciência desse poder que faz o possível para enaltecer cada personagem com trocas constantes de figurinos, maquiagens dignas de um Tapete Vermelho ou tiradas que reforcem o quanto elas são descoladas (o que é ótimo!). Anterior a esse apelo, é mesmo um prazer ver Cate Blanchett contracenando com Sandra Bullock ou Helena Bonham Carter vivendo a insegura figurinista de uma radiante e inspirada Anne Hathaway. Há personagens mais secundárias e sem tanto destaque, seja pelo papel ou por quem a interprete (Sarah Paulson poderia ter rendido mais, ao mesmo tempo em que Rihanna não se justifica muito em cena), o que não quer dizer que elas não tenham sua parcela de contribuição para o carisma do elenco como um todo. É o suficiente para fazer de Oito Mulheres e Um Segredo uma experiência entusiasmante? Quase. O longa de Gary Ross pode ser um bom entretenimento, mas, poucas horas depois da sessão, já se percebe que não tem fôlego para ficar na memória como algo maior do que uma diversão de momento. E é claro que, no frigir dos ovos, como em tudo se tratando sobre  cinema, cada um tem seu próprio gosto e estilo para dar o devido valor a essa percepção.

“Tully”: o lado exaustivo e caótico da maternidade

You only live twice, or so it seems: one life for yourself and one for your dreams.

Direção: Jason Reitman

Roteiro: Diablo Cody

Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Emily Haine, Asher Miles Fallica, Lia Frankland, Gameela Wright, Maddie Dixon-Poirier, Elaine Tan, Marceline Hugot

EUA, 2018, Drama, 95 minutos

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis). (Adoro Cinema)


Selecionando um número qualquer de filmes sobre maternidade, é bem provável que a maioria eleve suas discussões, claro, para o quanto a chegada de um filho pode ser um dos momentos mais transformadores, comoventes e recompensadores da vida de uma mulher. Tully não é esse tipo de filme. Quero dizer, a roteirista Diablo Cody, que volta a trabalhar com o diretor Jason Reitman depois de Juno e Jovens Adultos, não deixa de ilustrar o imensurável amor de uma mãe por um filho, mas o faz de outra maneira, mostrando que, na verdade, o afeto começa na superação diária de uma vida cansativa, complicada e exaustiva. Afinal, essa é uma constatação universal: olhando metodicamente para o cotidiano, toda mãe logo conclui que ter filhos exige um esforço descomunal de sobrevivência, e é nesse vão formado entre a recompensa e o sacrifício materno que Tully deposita suas maiores questões e reflexões.

Propôr um olhar para o extremo oposto de situações clássicas é algo que Diablo Cody sempre fez muito bem. Façamos uma breve retrospectiva: em Juno, a garota que engravida está longe de ser a mais popular da escola, bem como o seu namorado desengonçado; em Jovens Adultos, o mulherão que todos julgam ser requisitada e bem sucedida é, na realidade, uma pessoa incrivelmente frustrada tanto na profissão quanto no plano afetivo; e, agora, em Tully, uma mãe ama cada um de seus três filhos, mas já não tem mais brilho nos olhos e deixa estampar, no rosto e no corpo, o peso diário de uma maternidade caótica. E é perfeito que esse novo roteiro de Diablo tenha ficado mais uma vez sob a responsabilidade de Jason Reitman, outro profissional dedicado a relatos sobre pessoas e sentimentos facilmente identificáveis, mesmo quando eles são sobre um homem riquíssimo que vive a vida de aeroporto em aeroporto pelos Estados Unidos (Amor Sem Escalas) ou sobre uma mulher que, sequestrada junto ao filho, desenvolve uma relação no mínimo atípica com seu sequestrador (Refém da Paixão).

A união do olhar apurado dessa dupla potencializa um texto que toca em outras questões que ultrapassam o plano da identificação com o universo feminino e maternal: em determinado ponto, Tully convida o espectador a refletir sobre como passamos por certas transições sem de fato notá-las, quando só mais tarde, com um misto de pesar, nostalgia e compreensão, chegamos à conclusão que, apesar dos pesares, a vida não ofereceu outra opção a não ser aceitar uma série de desprendimentos para encarar as inevitáveis trocas de papeis que precisamos fazer. Sem discursos manjados ou expositivos, Tully, enfim, percorre esse imenso mundo intimista refletindo sobre as alternativas que criamos para sobreviver e ir em frente, mesmo quando elas soam mais perigosas e capazes de colocar em xeque a nossa identidade do que estamos dispostos a admitir.

Tully, que talvez seja mesmo o melhor roteiro escrito por Diablo Cody até aqui, é minucioso ao extrair de momentos cotidianos a força de seu drama: em uma cena que claramente faz referência à sequência de Amor Sem Escalas onde o personagem de George Clooney prepara a sua mala de viagem uma centena de vezes entre um aeroporto e outro, o filme traduz todo o turbilhão que se instala em uma casa quando chega um recém-nascido (o choro, as fraldas limpas, as fraldas sujas, o peito para mamar, o banho, o acordar, o despertar, a atenção vigilante mesmo à noite). E Charlize Theron, que vem colecionando grandes desempenhos nos últimos anos (Monster – Desejo Assassino, Jovens Adultos, Mad Max: Estrada da Fúria), adiciona mais um à lista, pois sua Marlo é bastante complexa tanto por dentro como por fora, o que exige da atriz uma entrega que ultrapassa a transformação física (ela engordou 22 kg para o papel) e vai fundo nas camadas emocionais de uma protagonista cuja exaustão física e existencial se percebe em cada expressão, palavra e movimento.

Eventualmente, certos detalhes do roteiro de Tully parecem deixar furos pelo caminho (e prefiro não pontuá-los para não estragar a surpresa do que virá pela frente). É também estranha, para não dizer um pouco desconexa com o filme, uma determinada situação envolvendo a protagonista, a recém-contratada babá e o marido. Entretanto, a sensação de estranhamento com idealizações e supostos desvios de roteiro se dissipam ao fim, quando Diablo reserva uma pequena reviravolta que esclarece toda e qualquer interrogação sugerida durante o desenrolar da história. A surpresa vem para promover não a reviravolta pela reviravolta, mas para intensificar questões discutidas ao longo do filme, deixando uma sensação agridoce que permeia qualquer lembrança relacionada a esse pequeno grande filme, mas que, parando para pensar, pode ser exatamente a mesma que temos em relação à vida e ao que ela exige de todos nós.

“As Boas Maneiras”: formação humana e familiar em noite de lua cheia

Você gosta de criança?

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

Roteiro: Juliana Rojas e Marco Dutra

Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Felipe Kenji, Andrea Marquee

Brasil, 2018, Drama/Terror, 135 minutos

Sinopse: ​Clara (Isabél Zuaa), enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana (Marjorie Estiano) como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ (Adoro Cinema)

Se você precisa categorizar As Boas Maneiras, a escolha mais óbvia seria dizer que essa é uma obra de terror. No entanto, assim como tudo na carreira da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, tal classificação só tende a simplificar a riqueza cinematográfica de seus trabalhos e dos importantes temas que ambos costumam tratar tanto nos longas que dirigem juntos (Trabalhar Cansa) quanto nos que comandam individualmente (Sinfonia da NecrópoleO Silêncio do Céu). As Boas Maneiras confirma a regra: por ter uma atmosfera de suspense fantástico, o longa é predominantemente interpretado pelo público a partir dessa perspectiva, quando, na verdade, ganha diferentes dimensões ao fazer com que a trama oscile, com extrema fluidez e versatilidade, entre momentos de mistério, drama e romance, sendo alguns deles, inclusive, pontuados por sequências musicais! Tanto frescor e desapego aos padrões fazem de Rojas e Dutra dois dos mais talentosos e instigantes realizadores de sua geração. E, para quem for aos cinemas brasileiros conferir As Boas Maneiras a partir da próxima quinta-feira, 7 de junho, outras surpresas chegam com a assinatura da dupla nesse longa que, na última edição do Festival do Rio, faturou as categorias de melhor filme, atriz coadjuvante (Marjorie Estiano) e fotografia.

Assim como os melhores relatos de terror, As Boas Maneiras usa elementos do gênero para falar sobre questões muito mais amplas e de que irrealistas não têm nada (lembram de quando falei exatamente a mesma coisa no texto sobre O Animal Cordial?). Se é difícil falar sobre o filme sem entregar elementos cruciais de sua narrativa, o que talvez baste saber é algo que os próprios diretores defendem sobre a história: ela é, em suma, sobre a formação de uma família. Nada mais justo para o mundo atual, onde redefinimos constantemente conceitos ao mesmo tempo em que nadamos contra uma corrente conservadora e elitista que defende o modelo tradicional de todo tipo de relação. As Boas Maneiras é também uma resposta direta a esse público, cujo repúdio extrapola o âmbito familiar, transformando o fato de ser “diferente” em um ato de resistência. E, por isso, As Boas Maneiras pode muito bem se configurar como um relato político, pois defende, através da alegoria, uma causa importantíssima e contemporânea que ganha leitura nas camadas de duas protagonistas opostas em quase todos os aspectos, começando pela cor da pele até a posição social em que ambas sempre se encontraram. 

Após um acontecimento que modifica por completo a sua história, As Boas Maneiras passa a concentrar sua discussão em um outro personagem. Essa quebra, contudo, não representa uma fragilidade. Muito pelo contrário, já que, na medida em que se encaminha para o desfecho, o longa potencializa a sua encenação, agora com um outro viés, sobre o que realmente define as relações humanas. Para tanto, todos os personagens de As Boas Maneiras se justificam em cena, uma vez que Dutra e Rojas, também autores do roteiro, definem muito bem a personalidade de cada um deles. Ainda que deixem para o espectador a tarefa de imaginar elementos que embasam determinados pontos dramáticos, isso surge mais como mérito do que como problema, já que as incógnitas contribuem diretamente para a atmosfera tensa que se instala já no primeiro e desconfortável encontro entre uma babá e a sua futura patroa. Seja no mistério ou na essência familiar, o projeto enaltece Isabél Zuaa, uma atriz forte e que se transforma durante o desenrolar da história, sempre muito bem acompanhada por Marjorie Estiano, pelo garotinho Miguel Lobo (um pequeno furacão!), pela “cantriz” Cida Moreira e por Andrea Marquee. É um elenco de peso, com a cara e o talento de um país que, apesar de tantas mazelas, segue se empoderando e se democratizando na tela do cinema graças a filmes como As Boas Maneiras

Rapidamente: “Maze Runner: A Cura Mortal”, “Perfeita é a Mãe 2”, “Roman J. Israel” e “Todas as Razões Para Esquecer”

Johnny Massaro em Todas as Razões Para Esquecer: filme trata com leveza e bom humor o término de um relacionamento a partir do ponto de vista masculino.

MAZE RUNNER: A CURA MORTAL (Maze Runner: The Death Cure, 2018, de Wes Ball): Sempre gostei de Maze Runner por sua total falta de pretensão em meio a uma enxurrada de franquias infanto-juvenis baseadas em bestseller como Jogos VorazesDivergente. A trilogia comandada pelo diretor Wes Ball nunca quis ser mais do que um eficiente entretenimento, e esse senso de diversão tem seu ponto alto no capítulo derradeiro chamada A Cura Mortal, que, infelizmente, chegou aos cinemas com uma tremenda falta de timing (o protagonista se machucou durante as gravações, atrasando um ano todo o cronograma de finalização e divulgação do filme). O desfecho não merecia mais esse golpe em termos de repercussão (Maze Runner, por alguma razão, nunca chegou a se tornar um verdadeiro hit) porque a trama, ainda que trabalhada em soluções fáceis demais, tem um pique admirável ao conduzir cenas de ação que, pelo realismo e pelo uso mínimo de efeitos digitais, fazem o espectador sentir o perigo e a adrenalina muito mais do que em em outros longas recentes do mesmo estilo. A Cura Mortal, assim como os capítulos anteriores de Maze Runner, tem pouco a dizer dramaticamente (uma prejudicada nesse sentido é Patricia Clarkson, cujo maior destaque ao longo da franquia foi uma esquecível reviravolta), mas será que não é um tanto injusto cobrar do projeto algo que ele próprio nunca prometeu?

PERFEITA É A MÃE 2 (A Bad Moms Christmas, 2017, de Jon Lucas e Scott Moore): Subestimado, o primeiro filme de Perfeita é a Mãe! trazia um elenco feminino de excelente timing cômico em uma história que, a partir de um tom de comédia mais popular, questionava os papeis impostos às mulheres, especialmente às mães, em um mundo onde o conceito de perfeição tem sido cada vez mais desconstruído e determinadas obrigações são felizmente questionadas. Aí imaginem a minha empolgação quando Christine Baranski e Susan Sarandon foram somadas ao time já formado por Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristin Bell para uma continuação. Porém, o entusiasmo termina quando o filme começa: além de antiquado na forma e com prazo de validade já estourado (comédias natalinas envolvendo confusões e desavenças familiares parecem cada vez mais experiências de décadas passadas), Perfeita é a Mãe 2 surpreende de forma negativa ao mudar a pegada do humor, agora predominantemente físico, sexual e gráfico. Dependendo do filme, situações com tapas, pontapés, drogas e ereções podem ter lá sua graça, mas aqui até o talentoso elenco surge pouco à vontade com um texto ralo e sem timing, que chega a comprometer atuações como as de Kathryn Hahn e Susan Sarandon. Previsível do início ao fim e em boa parte de mau gosto, Perfeita é a Mãe 2 é uma ressaca desnecessária.

ROMAN J. ISRAEL (Roman J. Israel, Esq., 2017, de Dan Gilroy): Os indicados ao Oscar 2018 foram anunciados em janeiro, mas ainda hoje tento entender as razões que levaram Denzel Washington a ser lembrado por um filme morno como Roman J. Israel. Denzel é sempre bom ator, mas, vindo de um desempenho intenso como o de Um Limite Entre Nós, sua presença aqui pouco impressiona. Em grande parte, há de se culpar o filme comandando por Dan Gilroy, cineasta que debutou com o visceral O Abutre, mas que, em Roman J. Israel, não preserva o mesmo talento e entusiasmo ao mais uma vez fazer um estudo de personagem. À parte a obra não ter ritmo ou criatividade, Gilroy, que também é autor do roteiro, não extrai complexidade de um protagonista desinteressante, cujas transformações ao longo da história também não são devidamente sentidas. Partindo do relato de um advogado mundano que, ao trocar de empresa, passa a enfrentar dilemas éticos, morais e profissionais ao ter que defender um homem acusado de homicídio, Roman J. Israel planta algumas promessas que acabam não se cumprindo, mas que, na medida do possível, são bem defendidas pelo desempenho sempre crível de Denzel Washington. Ainda assim, é pouco e inexpressivo para um diretor que, em seu filme anterior, já foi muito mais fundo e intenso em questões que, de certa maneira, também não deixam ser discutidas aqui.

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (idem, 2018, de Pedro Coutinho): Com o uso cada vez mais popular do termo white people problems, um longa como Todas as Razões Para Esquecer teria imensa dificuldade em ser levado a sério. Isso se o diretor Pedro Coutinho não contasse a história com leveza, contemporaneidade e um perceptível conhecimento acerca das consequências de um coração partido. Sem essas qualidades, o filme não passaria de um amontoado de situações rasas sobre um garoto branco, carioca e de classe média que trabalha em uma grande agência de publicidade e tenta superar um término de namoro entre um porre e outro. A obra em si não é necessariamente inventiva — filmes como Ela(500) Dias Com Ela, também sobre corações despedaçados, são referências óbvias inclusive na construção visual, e a tentativa de dar estofo dramático a personagens como a psicóloga vivida por Regina Braga não soam convincentes —, mas há uma certa despretensão na obra, que, ao invés de proferir filosofias ou se aprofundar em reflexões, olha para o vazio de uma geração confusa sentimentalmente tentando fazer com que ela, de alguma forma, possa se identificar com tudo aquilo, percebendo que, apesar das pedras no caminho, tudo fica bem, de um jeito ou de outro. E esse material, digamos, agridoce, ainda é certeiro para Johnny Massaro, que, após o ótimo desempenho em O Filme da Minha Vida, constrói, com versatilidade, as qualidades e defeitos de um personagem que, em teoria, sempre fica a um passo de se tornar caricato.

“O Animal Cordial”: terror brasileiro subverte o gênero slasher e explora os diferentes sentidos da brutalidade

Sabia que eu já matei muita gente?

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Luciana Paes, Murilo Benício, Irandhir Santos, Camila Morgado, Humberto Carrão, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ariclenes Barroso

Brasil, 2018, Terror/Suspense, 96 minutos

Sinopse: São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado).

É uma questão cultural e histórica: uma significativa parcela das plateias brasileiras alimenta um infundado preconceito com a produção audiovisual de seu próprio país, ainda mais se tratando do chamado “cinema de gênero” (termo que refuto porque sempre me parece redundante, afinal todo cinema tem pelo menos um ou mais gêneros). Recupero essa percepção porque, após conferir O Animal Cordial na programação do Fantaspoa 2018, tive a certeza de que, caso fosse produzido por norte-americanos e estrelado por um elenco Hollywoodiano, o primeiro longa-metragem assinado por Gabriela Amaral Almeida daria o que falar. A partir dessa teoria de que, dada a sua nacionalidade, o filme não será devidamente valorizado, quem sai perdendo é o próprio público, que deixa de apreciar um dos trabalhos mais viscerais do cinema nacional em anos — e também uma das obras de terror mais impactantes e descontruídas da recente safra do gênero, independente da origem de quem está por trás das câmeras.

Impactante alegoria sobre barbáries sociais, o longa se utiliza da violência e de uma dose cavalar de sangue para discutir o nosso eventual retorno a um estado primitivo quando enfrentamos situações extremas. A trama parte de um assalto, mas o filme captura uma outra perspectiva: a dos comportamentos desencadeados por esse violento acontecimento. E não falamos propriamente das brutalidades cometidas ao longo de um pesadelo vivido em um pequeno restaurante paulista. A força emocional de O Animal Cordial está menos nos acontecimentos e mais na personalidade muito bem definida de personagens carregados de curvas emocionais. Mais: o longa adota como conceito que não há violência física que se equipare, por exemplo, à agressão emocional da homofobia ou ao desprezo de um casal elitista pela garçonete que trabalha no restaurante. Afinal, o verdadeiro terror é se deparar com a pior índole do ser humano nas mínimas situações.

Por se focar majoritariamente no comportamento e na natureza de seus personagens, O Animal Cordial amplia a inegável tensão que cai nos ombros do espectador durante toda projeção, começando pelos protagonistas Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes), pessoas que, diante do assalto, de repente encontram um tipo de protagonismo que, talvez, jamais tiveram do ponto de vista profissional e emocional em suas cotidianidades. A abordagem do roteiro é certeira porque ela se distancia de tantos outros relatos de terror ao questionar as complexidades de cada personagem, colocando quase em segundo plano o desenrolar do assalto em si. Como um drama tradicional, é possível que O Animal Cordial não tivesse metade do seu impacto, já que muitas das discussões levantadas pelo roteiro — o perigo de amar, os calos emocionais, a exploração profissional — ganham novas leituras e dimensões quando se contrastam com a extrema violência física (e não passa despercebida a maneira como o sangue desempenha papel crucial nas diversas construções de sentido do filme).

A diretora Gabriela Amaral Almeida diz que O Animal Cordial representa o seu desejo pessoal de fazer um filme que ela própria nunca viu. E faz total sentido. Gênero que, no geral, objetifica ou despreza as mulheres ao assassiná-las das mais diferentes formas, o terror ganha aqui um exemplar raro, pois Gabriela usa a falência da masculinidade como espinha dorsal do filme, onde o único homem que mostra dignidade e retidão de caráter é justamente o cozinheiro gay. Enquanto isso, a presença feminina, centrada na figura de Luciana Paes, exerce influência direta em praticamente todos os acontecimentos do roteiro. Como um exemplar do terror slasherO Animal Cordial renega a misógina concepção de seu gênero, inclusive em uma poderosa cena de sexo, onde a mulher, novamente, é quem detém o controle absoluto.

Outro aspecto que chama a atenção é o elenco estelar e de primeiríssima qualidade, algo raro se tratando de obras específicas como essa. Murilo Benício, possivelmente no papel de sua vida, e Luciana Paes, uma atriz que segue despontando como uma das mais talentosas e autorais de sua geração, encabeçam o time de atores, acompanhados de coadjuvantes igualmente intensos, como Irandhir Santos, certeiro na caracterização de um cozinheiro que reivindica seus direitos profissionais e humanos, e Camila Morgado, representando a mulher rica que se vê em uma situação onde jamais imaginou que um dia pudesse estar em função de sua posição social. A presença e o comprometimento de profissionais reconhecidos como eles com um projeto cru, brutal e despudorado comprova o grande prestígio de um filme que, sim, deve satisfazer os dedicados fãs de terror, mas também impactar — e muito — quem estiver aberto a pensar o ser humano por outras vias que não sejam as tradicionais.

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