Cinema e Argumento

47º Festival de Cinema de Gramado #7: “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias

Sem seguir o beabá tão comum das cinebiografias brasileiras, Hebe – A Estrela do Brasil faz seu registro da inesquecível apresentadora com dignidade e reverência.

Falecida em setembro de 2012, Hebe Camargo é considerada, ainda hoje, a grande rainha da televisão brasileira. Difícil imaginar uma apresentadora de brilho equivalente no Brasil e muito menos quem possa um dia ocupar esse título com tamanha mitologia. Nas diversas emissoras em que trabalhou, Hebe sempre preservou uma alegria e uma autenticidade que cativava tanto a plateia quanto os incontáveis entrevistados que recebia em seu famoso sofá. De figuras religiosas a transexuais, ela deu voz para diversas causas e pensamentos em plena rede nacional, cultivando uma legião de adoradores que hoje parece impossível de ser alcançada no âmbito televisivo. Por essa e outras tantas razões, assim como habitualmente acontece com a biografia de grandes figuras da vida real, o desafio é imenso: afinal, de que maneira é possível fazer jus a uma figura como Hebe Camargo sem cair na vala tão comum de frágeis relatos que, presos à ânsia de abranger todos os momentos marcantes da vida de determinado biografado, renderiam, na verdade, ótimos documentários?

Pois Hebe – A Estrela do Brasil, que fez sua estreia nacional no 47º Festival de Cinema de Gramado, consegue escapar do formato hiper engessado de cinebiografias porque conta com Carolina Kotscho, talentosa roteirista que fez a diferença em outras duas cinebiografias brasileiras: 2 Filhos de FranciscoFlores Raras. O que esses dois títulos e Hebe têm em comum? Todos entendem que é contraprodutivo querer condensar a vida de uma icônica figura da vida real em meras duas horas, preferindo escolher um determinado recorte de tempo ou fases pontuais dos biografados. No caso de Hebe, acompanhamos a estrela durante a sua transição da TV Bandeirantes para o SBT, justamente quando ela, tão direta e aberta sobre assuntos considerados tabus à época, como a epidemia da AIDS, sente a censura bater em suas canelas. Já perto de seus 60 anos, a Hebe retratada pela roteirista também enfrenta turbulências na relação com o marido e na sua falta de comunicação com o filho adolescente.

Segundo Kotscho, a família e os fãs de Hebe disponibilizaram um acervo com mais de três mil matérias de revistas e jornais para a pesquisa do longa. Desse imenso arquivo, saem todas as falas oralizadas protagonista durante o filme, sem tirar nem pôr. O trabalho, entretanto, faz seus ajustes, o que é perfeitamente aceitável para uma obra de ficção (novamente, não estamos falando de um documentário), lógica que o diretor Maurício Farias transferiu inclusive para o plano da direção. A escalação de Andréa Beltrão é uma prova disso: ainda que devidamente caracterizada e maquiada como Hebe Camargo, a atriz pouco dedica sua atuação a imitações, tiques e trejeitos. Beltrão está preocupada em buscar a energia e a desenvoltura desse ícone televisivo com o talento e as habilidades que, todos nós sabemos, ela tem de sobra. E o resultado é ótimo justamente por priorizar o interior da personagem e não a reprodução de gestos, visuais ou movimentos. 

Ganhando nova dimensão em tempos onde a voz da imprensa é questionada, a liberdade de expressão passa a ser perigosamente ameaçada e pessoas voltam a ser condenadas por ser quem são, Hebe registra a relação da biografada com o público, e não o inverso: tudo o que se vê da apresentadora durante os programas é a partir dos bastidores, inclusive momentos emblemáticos como o de Dercy Gonçalves mostrando os seios ao vivo em rede nacional. É outra decisão bacana porque exime o filme de ter que emular milimetricamente as cenas como elas estão gravadas na memória do público. A perspectiva, afinal, é a de Hebe Camargo, não dos espectadores. Ainda que imperfeito, o filme lida bem com elementos que poderiam ser apenas um fan service, a exemplo da rapidíssima aparição de Nair Bello e Lolita Rodrigues, que diz muito sobre a cumplicidade e a espontaneidade que a protagonista tinha com suas amigas. Aliás, vai além: ao ignorar o beabá das cinebiografias, Hebe até cativa com a sua protagonista-furacão, principalmente nessa fase retratada pelo longa onde a apresentadora, antes uma mulher ligada à ideia da TV como veículo restrito ao entretenimento, enfim compreende o poder do microfone que tem em mãos.

47º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pacarrete”, de Allan Deberton

Pacarrete, de Allan Deberton, traz desempenho memorável de Marcélia Cartaxo.

Às vésperas de seus 200 anos, a cidade de Russas, no interior do Ceará, prepara uma grande celebração. E Pacarrete (Marcélia Cartaxo), uma peculiar bailarina já na casa dos 60, quer fazer parte dos festejos: como seu presente para o povo, ela prepara uma apresentação de ballet pensado desde o delicado figurino até a coreografia, ensaiada sempre que possível para esse número de uma mulher só. No entanto, Pacarrete, que de fato existiu na vida real, é tida como a louca da cidade, e a Secretaria Municipal de Cultura não a quer de jeito nenhum na festa, com a desculpa de que ballet é tedioso para o povo e que essa senhora supostamente desvairada seria vaiada em pleno palco caso chegasse a se apresentar. Mas a bailarina, outrora professora e artista atuante em Fortaleza, não desistirá de seu objetivo, mesmo que tudo seja tão difícil (para ela e para todos).

É importante grifar o supostamente desvairada porque Pacarrete, longa-metragem de estreia do cineasta Allan Deberton, jamais julga sua personagem, e sim convida o espectador a entrar em seu universo, às vezes mais lúcido que os demais, propondo a tese de que talvez, no final das contas, ela seja vítima de uma sociedade intolerante a tudo aquilo que lhe parece diferente. Sem optar pela panfletagem, o filme dá voz a uma senhora que, representando os tantos oprimidos que gritam e jamais são ouvidos, é marginalizada pela própria cidade onde vive. Ela resiste através da arte: não há nada mais desolador para Pacarrete do que ver uma fita VHS de ballet estragar ou então do que não ter como plateia nem mesmo a sua irmã ou a sua empregada em um momento improvisado de ensaio. Quando indagada sobre o que fez ao longo da vida, ela enche o peito para dizer que foi artista e professora. E isso é muito bonito.

Como estudo de personagem, Pacarrete descortina a vida da protagonista basicamente dentro de sua própria casa, utilizando-se de raros momentos na cidade ou na vizinhança apenas para dar novas e importantes pinceladas nesse retrato muito humano que preza pela objetividade, sem se dispersar com qualquer outra subtrama, ainda que existam outros personagens suficientemente interessantes para gerar mais material. Um deles é o amigo vivido por João Miguel, que representa o sopro de esperança e generosidade em uma comunidade hostil. Já dentro de casa, Pacarrete conta com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e a empregada Maria (Soia Lira), convívio esse que captura todo o afeto de um universo feminino ao mesmo tempo muito particular e universal.

Para registrar a rica gama de sentimentos da protagonista e de todos os personagens que estão em sua órbita, o diretor Allan Deberton mergulha em camadas inegavelmente teatrais, mas que nunca destoam do conjunto. Pelo contrário: lúdico, colorido, cômico e por vezes assumidamente exagerado, Pacarrete vai de um gênero a outro e de uma abordagem a outra com uma naturalidade impressionante e com uma delicadeza tremenda ao estender o tapete vermelho para a alma feminina, para a força da arte e, por que não, para o fascínio que é ver um ser humano em toda suas qualidades, fraquezas e incompletudes. Tão cômico quanto dramático, o longa faz essa inflexão entre gêneros com afetividade, o que é no mínimo surpreendente, considerando que temos quatro pessoas envolvidas na criação do roteiro (André Araújo, Natália Maia, Samuel Brasileiro e o próprio Deberton).

A veterana Marcélia Cartaxo, responsável por dar vida à Pacarrete de maneira assombrosa, teve aulas de ballet e francês para interpretar uma protagonista que, assim como a rainha Anne de Olivia Colman no recente A Favorita, poderia cair na histeria por justamente ter a insanidade como matéria-prima para desdobramentos cômicos e dramáticos. Entretanto, em um tour de force que abarca ainda questões inerentes ao envelhecimento e ao eterno saudosismo pela juventude e pelos aplausos, Cartaxo, que já havia eternizado Macabéa em A Hora da Estrela, cria uma personagem que ficará para a posteridade não só na sua carreira, mas também no cinema brasileiro. No 47º Festival de Cinema de Gramado, onde o filme fez a sua estreia nacional, a atriz foi ovacionada desde a primeira cena projetada no Palácio dos Festivais, sendo comparada, em nível internacional, à grandiosidade de outras atrizes como Giulietta Masina, Gloria Swanson e Meryl Streep. Marcélia merece. E graças a um filme que é tão memorável quanto ela.

47º Festival de Cinema de Gramado #5: “Vou Nadar Até Você”, de Klaus Mitteldorf

Bruna Marquezine em Vou Nadar Até Você: atriz encara a sua primeira protagonista no cinema.

Por falta de outra definição, Vou Nadar Até Você é um road movie, mas com um conceito mais peculiar: ao invés da jovem Ophelia (Bruna Marquezine) pegar a estrada para ir em busca do homem que acredita ser seu pai, ela opta por cruzar a nado o trecho de Santos a Ubatuba, em São Paulo. Sabemos pouco sobre a protagonista, uma menina introspectiva e de poucas palavras que, entre um trecho e outro, passa a se revelar para o espectador assim como talvez para ela própria. No mar, sua vida parece fazer sentido. Atrás das câmeras também, já que ela registra cada momento da curiosa viagem. Mas é com os pés firmados no chão e em contato direto com as pessoas que ela precisa encontrar seu propósito e sua verdadeira identidade.

Vou Nadar Até Você, que estreia nacionalmente na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado, tem a proposta de fazer uma leitura muito particular desse momento decisivo na vida de Ophelia — e o faria com bastante excelência, caso o diretor Klaus Mitteldorf, a partir do roteiro escrito por Nina Crintzs, não optasse por tantos desvios na trama, cometendo o pecado de tirar o protagonismo absoluto de Ophelia. O tropeço começa na própria concepção: narrando paralelamente a história do pai que recebe a notícia de que sua filha até então desconhecida está a caminho, Vou Nadar Até Você tira tempo demais do desabrochar emocional de Ophelia para dar todas as explicações sobre quem é esse homem que gerou a garota.

O filme embola ainda mais o meio de campo ao criar uma subtrama envolvendo o pai e um fotógrafo ajudante vivido por Fernando Alves Pinto que passa a seguir Ophelia antes que ela chegue a seu destino. Mitteldorf, que fez carreira como premiado fotógrafo e publicitário, deixa transparecer alguns vícios de suas experiências pregressas em Vou Nadar Até Você, que é carregado com uma bela, mas excessiva trilha sonora, e que faz questão de registrar cada momento aquático da protagonista em slow motion. Ao final, os desvios da trama e o embelezamento dos takes imediatamente nos jogam para a ideia de que o filme é mais longo do que deveria e que tudo acontece para preencher um pouco mais uma história que, na verdade, só teria a ganhar com mais concisão.

Bruna Marquezine, que assume aqui o seu primeiro trabalho no cinema como protagonista, é delicada como Ophelia, e todas as cenas bem exploradas de sua personagem garantem os melhores momentos de Vou Nadar Até Você. Suas eventuais transformações e descobertas são sutis, escapando de armadilhas comuns em road movies. Mesmo as frequentes tomadas aéreas são mais simbólicas quando a protagonista está em cena, pois representam a pequenez de uma garota perdida em meio à imensidão (a sua e a do mar). É por isso que as ramificações de Vou Nadar Até Você tiram o refinamento dessa obra que, aqui e ali, distante de sua protagonista, cai em um certo vazio emocional e cinematográfico.

47º Festival de Cinema de Gramado #3: “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho

Paulo Mikos em O Homem Cordial: ex-Titã tem no filme de Iberê Carvalho a melhor interpretação de sua

Se tomássemos como parâmetro somente o afetuoso O Último Cine Drive-In, seria um tanto difícil prever que o diretor Iberê Carvalho tivesse um repertório tão vertiginoso quanto o apresentado agora em O Homem Cordial, filme que faz sua estreia nacional na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado. À parte o problema do título, que causa imediata confusão com o recente O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, o novo longa-metragem de Iberê empurra arrasta o espectador noite adentro em uma odisseia que descortina nossas cicatrizes político-sociais e cria um verdadeiro redemoinho a partir de todas nossas intolerâncias, preconceitos e negligências. Como uma investigação sensorial desse cenário, O Homem Cordial é uma experiência angustiante que usa a trajetória pontual de um personagem para trazer uma perspectiva inevitavelmente pessimista do que temos nos tornado de uns anos para cá.

Como todo filme ambientado à noite, quase em tempo real e com um personagem enfrentando uma conturbada jornada pelas ruas de uma cidade, O Homem Cordial será eternamente associado a Depois de Horas, de Martin Scorsese. Entretanto, o filme de Iberê Carvalho diz muito mesmo sobre o Brasil, e essa sua especificidade lhe confere personalidade diante dos títulos que apenas tentam emular uma fórmula. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, acompanha a noite de retorno aos palcos de uma famosa banda de rock do anos 80, quando viraliza na internet um vídeo que envolve Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder da banda, na morte de um policial militar. Miklos, que, de fato, foi vocalista de uma icônica banda de rock brasileira (os Titãs), tem trilhado carreira no cinema, e seu trabalho aqui talvez possa ser considerado o ponto alto dessa trajetória: com vitalidade e naturalidade, ele segura muito bem um protagonista que tem a câmera grudada em seu rosto praticamente a projeção inteira, o que é um desafio e tanto até para o melhor dos atores.

Inclusive, a técnica de O Homem Cordial tem grande contribuição nos sentimentos claustrofóbicos e eletrizantes trazidos pelo filme. Dessa mistura, é possível tirar dois destaques: a fotografia de Pablo Baião e a montagem de Nina Galanternick, fundamentais para a construção da atmosfera de um filme praticamente todo ambientado à noite. A vertigem de violência, seja ela física, verbal ou emocional, combina com o tom soturno da obra, que, a partir da superexposição nas redes sociais e da compulsão de uma sociedade que precisa registrar e denunciar tudo pela câmera de um celular, fala sobre como muitas vezes ela acaba distorcendo situações e desviando as discussões que realmente importam. O mosaico é completo: racismo, política, abuso de poder, direitos humanos, violência policial, diferença de classes… Não há o que escape de O Homem Cordial em uma radiografia muitas vezes incômoda de se acompanhar e que é desenvolvida a cada esquina dobrada pelo protagonista.

A firmeza de Iberê em não deixar que O Homem Cordial se torne um filme disperso em tantas leituras é grande, ainda que isso não livre o resultado de certos prejuízos, especialmente estruturais: na medida em que abre demais o leque da jornada de seu protagonista, o longa de certa forma o perde de vista para se dedicar a cenas que pesam a mão mais no discurso do que propriamente na construção da história. Exemplo disso é a longa sequência envolvendo Aurélio e um grupo de policiais, onde o comandante da operação representa, com certa caricatura, toda a violência de um sistema preconceituoso, intolerante e racista que já estava sendo contemplado pontualmente por várias passagens do filme. O Homem Cordial retoma as rédeas perto de seu encerramento, quando retrocede para encenar um fato crucial da história, e aí sim volta a abraçar sua força maior de ver o mundo através de um recorte específico. Quando busca sua voz por esse meio, Iberê Carvalho sempre faz o seu filme subir um degrau, mexendo com o espectador sem recorrer à mera explanação.

47º Festival de Cinema de Gramado #2: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Os moradores de Bacurau: premiado em Cannes, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem protagonismo coletivo.

Laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, Bacurau marca a volta do cinema brasileiro ao hall de vencedores do prestigiado evento francês, quebrando um jejum de 12 anos desde que Linha de Passe rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz na Croisette. Com estreia programada no circuito comercial para o dia 29 de agosto, o longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fez sua estreia nacional na noite de abertura do 47º Festival de Cinema de Gramado, fora de competição, e a reação do público, que aplaudiu o filme em cena aberta, reforça a tese de que toda a catarse trazida por momentos cruciais e impactantes da obra diz muito sobre um país que tem sofrido um tremendo desmonte cultural e que, cada vez mais, precisa ter a sua resiliência retratada e impulsionada nas telas.

Não à toa, Bacurau faz questão de registrar em seus créditos finais que é uma produção responsável por mais de 800 empregos diretos e indiretos e também o registro de um país e de sua identidade. Tematicamente, podemos associar o filme com Aquarius, longa anterior de Kleber, no sentido de que ambos são sobre o poder da resistência e sobre como de fato agimos ao invés de apenas levantar uma bandeira com discursos fáceis. Contudo, se Aquarius seguia a escala de O Som ao Redor ao fazer o Brasil se olhar no espelho por meio de um forte realismo social, Bacurau parte para o plano da mistura de gêneros, o que pode tanto deliciar quem gosta de mergulhar em suspense, sangue e mistério como metáfora da nossa realidade quanto incomodar aqueles que preferem um quadro muito mais claro e descritivo.

Já colocando uma pitada de suspense em sua abertura com o letreiro “daqui a alguns anos…”, sem identificar exatamente quando a história acontece, Bacurau é, em uma leitura mais simplista, um filme sobre o futuro, quando, na verdade, está intimamente ligado às mazelas políticas e sociais que já foram e ainda são vividas pelo povo brasileiro. Kleber e Juliano, também autores do roteiro, constroem toda atmosfera de Bacurau a partir de uma incômoda sensação de instabilidade social que, ao longo e ao final da obra, será responsável por um crescente quadro de selvageria. Há sangue, morte, tiros e outras barbáries no filme, o que, curiosamente, é capaz de misturar náusea e um macabro conforto no espectador: se a primeira reação é de baque com tamanha violência, logo ela é amortecida pela ideia de que, de alguma forma, ela evoca a força de um povo esquecido pelo mundo e maltratado pela vida, mas que decide assumir seu protagonismo em uma importante linha de batalha.

Ambientado em um futuro próximo que não é exatamente especificado, Bacurau é, na verdade, sobre o nosso presente e o nosso futuro.

Garimpando referências, Kleber diz que é possível encontrar em Bacurau ecos de Sam Peckinpah e até de Alfred Hitchcock, mas que esse filme, na realidade, reflete sua paixão por um cinema brasileiro eternizado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros mestres, assim como a grande admiração que ele e Juliano nutrem pelo chamado cinema de gênero. Em sua passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o diretor, por outro lado, salientou que refuta a ideia de referências como estandarte de um filme e que, apesar das críticas iniciais em Cannes terem gerado uma série de leituras em cima disso, ele dispensa a necessidade de ter que explicá-las ou iluminá-las. Nada mais justo, principalmente se tratando de um filme de difícil classificação e que precisa ser consumido pelo espectador com o mínimo possível de informações, de forma que cada um o preencha a partir de seu próprio repertório cinéfilo.

Como o próprio título já sugere, Bacurau é um longa sobre esse lugar específico e, por isso mesmo, é natural que Kleber e Juliano tenham tomado a decisão de não definir um protagonista específico para a trama. O coletivo é a força-motriz do longa, e a construção dos personagens é um mérito à parte, uma vez que o roteiro consegue nos apresentar cada um dos moradores do local sem pressa ou atropelo, além de atribuir a eles características e personalidades pontuais de maneira orgânica. “Quem nasce em Bacurau é o quê”, pergunta um forasteiro a certo ponto, recebendo uma resposta curta e simbólica: “É gente”. Tal momento retoma o posicionamento do filme de colocar diversos rostos do Brasil na tela, compondo um mosaico tanto de personagens interessantíssimos quanto de bons atores, onde até mesmo uma musa como Sonia Braga abraça com ferocidade e comprometimento um papel tão “pequeno” quanto o dos seus demais colegas.

Saindo das fronteiras que passamos a conhecer desse lugar chamado Bacurau, temos também um outro núcleo, encabeçado pelo ator alemão Udo Kier. Nele, o desenvolvimento dos personagens e das atuações soa mais superficial. Pode ser que essa seja uma escolha consciente de Bacurau: a de fazer dos estrangeiros figuras mais caricatas, de pouca identificação, algo que, entretanto, não diminui uma ligeira frustração com o distanciamento que temos com as motivações (ou ao menos o mistério) daqueles personagens. Também são pouco interessantes os discursos reiterativos que Bacurau toma em seu terço final, sublinhando, inclusive em diálogos, muitos pontos sobre a vilania ou sobre o desdobramento de certas figuras que, de um modo ou de outro, já estavam claros até ali. 

Em comparação aos outros dois longas assinados por Kleber, Bacurau é mais específico do que O Som ao Redor e Aquarius, mas isso não é motivo para alarde ou depreciação: ao longo de muitos anos o cineasta vem gestando esse projeto assumidamente de gênero com Juliano Dornelles e não aceitá-lo como tal é perder boa parte de sua essência e de tudo aquilo que a dupla diz com tanta propriedade. Criando um lugar onde a figura mais querida do local “gerou michê e puta, mas nenhum ladrão” e onde as pessoas buscam refúgio em escolas e museus para enfrentar ameaças mortais, Kleber e Juliano caminham por essa linha hoje tão tênue entre a ficção e a realidade para entregar o tipo de catarse que pode muito bem nos dar algum tipo de fôlego em meio à loucura e ao ódio que logo voltam a cair sobre as nossas cabeças quando voltamos à vida real após a sessão. 

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