Cinema e Argumento

49º Festival de Cinema de Gramado #4: “Homem Onça”, de Vinícius Reis

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Desempenho de Chico Díaz é destaque de Homem Onça, filme sobre a era das privatizações.

Homem Onça faz a sua primeira exibição em um momento muito propício. Ainda que ambientado no final dos anos 1990, o filme de Vinícius Reis mostra um Brasil facilmente identificável em 2021: esse que adora a ideia de privatizações e que joga para o ralo o valor da carreira, da camaradagem e de incontáveis carreiras dedicadas ao progresso de um país. Quando o lucro de grandes corporações está acima de qualquer coisa, principalmente quando almejado por autoridades engravatadas dos Estados Unidos, muito se perde e pessoas se corrompem, acarretando profundas mudanças nos aspectos sociais e políticos de um país. O fato de o Brasil discutir, em pleno 2021, a privatização dos Correios, por exemplo, reacende a triste constatação de que pouco mudou e de que vivemos em um país cuja filmografia já lançou luz sobre muitos de seus aspectos político-sociais, mas que talvez nunca tenha olhado de maneira tão específica para os dilemas das privatizações como em Homem Onça.

A ideia do projeto partiu de uma experiência muito pessoal do diretor Vinícius Reis, uma vez que seu próprio pai, funcionário da Vale do Rio Doce à época da privatização da mesma, precisou reconstruir a vida após anos dedicados à estatal. A onça que é referenciada no título do filme também é uma lembrança de seu pai e que, na versão cinematográfica, foi traduzida como uma metáfora dessa transformação. Vinícius, no entanto, não faz um filme biográfico, e sim uma ficcionalização de fatos e lembranças que lhe são muito próximas, conferindo a Homem Onça um retrato íntimo desse protagonista tão brasileiro e interpretado com a excelência habitual do grande Chico Díaz. Em suma, estamos diante de um protagonista que se move a partir de estímulos externos e desconhecidos para ele próprio até então, o que o coloca em situações tanto extremamente desconfortáveis, como aquela em que é acusado de não ter lutado pela permanência de uma pessoa de sua equipe, quanto de certa libertação, a exemplo das noitadas regadas a incontáveis garrafas de vinho e cantorias após o seu desligamento.

Por querer fazer um paralelo entre a vida do protagonista antes e depois das privatização, Homem Onça estrutura a trama a partir de duas linhas temporais que correm paralelamente ao longo do filme. Não acho que seja uma escolha das mais acertadas, principalmente no que se refere à parte em que o Pedro de Chico Díaz, ainda trabalhando na fictícia Gás do Brasil, começa a perceber o movimento gradual do processo de privatização da empresa. A dedicação em dar tanta atenção a esse recorte específico enfraquece o resultado por dois motivos. Primeiro é por de levar tanto tempo — praticamente uma hora, arrisco dizer — para tomar rumos muito claros desde o início e desenhados sem surpresas pelo roteiro também escrito por Vinícius Reis. E o segundo é por preterir maiores reflexões de natureza histórica-sociológica, abandonando, por sinal, a força das imagens reais de protestos contra as privatizações que abrem o filme. Um engajamento mais complexo e menos dramatizado dos fatos talvez pudesse minimizar um pouco a impressão novelesca que fica da parcela dedicada a todo o processo de desligamento profissional do protagonista.

Além de trazer um descompasso de ritmo e interesse a Homem Onça, a divisão em duas linhas temporais também não deixa de truncar a nossa conexão com as transformações internas do personagem vivido por Chico Díaz. As cenas em que ele contracena com a ótima Bianca Byington são luminosas porque nelas percebemos um novo homem imergindo em suas angústias e êxtases. Aprendendo (ou não) a lidar com o vazio trazido pela sensação de ter vivido uma vida de certa forma desperdiçada, Pedro gradativamente se entrelaça, do ponto de vista metafórico, com a onça que habita as redondezas de sua casa no meio do mato. Mais do que associá-lo ao animal, a doença que também passa a acometer o protagonista pode ser interpretada de modo similar ao que vimos em Mormaço: mesmo que seja essencialmente física, ela expressa uma série de conflitos emocionais transferidos para sinais do próprio corpo, como se Pedro não pudesse esconder o que passa dentro de si. É exatamente esse o tipo de discussão que me interessa em Homem Onça e que, em grande parte, está traduzida menos no filme como um todo e mais no excelente desempenho de Chico Díaz, um ator de imenso repertório.

49º Festival de Cinema de Gramado #3: “A Suspeita”, de Pedro Peregrino

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Glória Pires em A Suspeita: atriz interpreta investigadora que descobre ter Mal de Alzheimer ao mesmo tempo em que passa a ser alvo de investigação de seu próprio departamento.

É tão louvável quanto perigosa a decisão de investir em um gênero cinematográfico sem muita tradição em determinada cinematografia. Tratando-se de A Suspeita, que marca a estreia de Glória Pires como produtora, temos o gênero policial, circunscrito em um cinema brasileiro que não costuma explorá-lo com tanta frequência. Há, claro, dois caminhos: o do acerto, onde um realizador pode ser bem sucedido em sua aposta, entregando algo bastante diferente do que estamos acostumados a ver, ou o do erro, capaz de transformar a tentativa em um exercício pouco orgânico ou crível, especialmente se o filme cair na tentação de emular a fórmula e a atmosfera de outras produções de países consolidados no gênero. Infelizmente, em que pese a boa intenção dos envolvidos, A Suspeita se enquadra no segundo caso.

Trabalho de estreia de Pedro Peregrino na direção de longas-metragens, o filme traz Glória Pires como Lúcia, uma renomada investigadora policial que, aos 55 anos de idade, descobre ter Mal de Alzheimer, ao mesmo tempo em que acaba se tornando alvo de uma investigação de seus próprios colegas. Não há muita naturalidade na confluência da vida pessoal e profissional da protagonista, ainda menos quando o projeto dá o azar de vir logo após uma produção tão bem resolvida neste aspecto: a minissérie Mare of Easttown, da HBO, onde Kate Winslet também interpreta uma investigadora workaholic que precisa equilibrar seus dias como detetive e uma vida pessoal conturbada. A Suspeita se desarmoniza na costura de perspectivas de sua protagonista, mas o problema é anterior: seja como drama policial ou pessoal, o longa tem poucas ideias.

Mulher solitária que dedica seus dias ao trabalho, Lúcia tenta tocar a vida ignorando a gravidade do Alzheimer precoce que acaba de a acometer. Para tentar se agarrar a algum tipo de referência no futuro, passa a deixar lembretes, comentários e relatos guardados em seu computador, exatamente como a personagem de Julianne Moore fazia em Para Sempre Alice, filme que, entre tantas outras inspirações, serviu de clara referência para a equipe. O problema é que o roteiro escrito por Thiago Dottori utiliza a doença mais como artifício para embaralhar as investigações policiais de Lúcia, que esquece e lembra de fatos conforme é mais ou menos conveniente para cada momento, do que como uma investigação sobre os dramáticos labirintos que começam a desestruturar a mente da protagonista — e, mais uma vez, A Suspeita dá o azar de suceder uma produção brilhante como Meu Pai, desde já um filme definitivo sobre o doloroso processo da perda de memória.

Já no plano profissional de Lúcia, os problemas do longa se equivalem e até mesmo se ampliam, uma vez que todo o enredo envolvendo a personagem como alvo de uma investigação dita os rumos do filme como um todo. Entretanto, as situações são vagas ou pouco instigantes, inclusive deixando várias lacunas, como as razões não muito claras para um determinado criminoso ser considerado tão perigoso e os próprios dilemas morais e profissionais da protagonista, que são abordados de maneira muito passageira, sem dar musculatura para o filme dimensionar dois pontos centrais: as denúncias de corrupção e a dinâmica de Lúcia em relação a seus colegas e ao sistema em que está inserida. O fato de A Suspeita se passar em 2013 na cidade do Rio de Janeiro tampouco faz diferença, pois não há necessariamente uma análise robusta de toda a engrenagem que move os trabalhos da protagonista.

No processo de costura dessas duas abordagens, a montagem de  Joana Collier acaba sendo de pouca ajuda e, na verdade, até desorganiza diversos momentos do filme com cortes anticlimáticos nas (poucas) cenas de ação e ao manter diálogos corriqueiros e que nada acrescentam entre Lúcia e seus colegas. Talvez haja por trás dessas impressões o conceito de que a montagem tenta reproduzir a visão fragmentada e nebulosa da protagonista diante de acontecimentos recentes devido ao avanço do Mal de Alzheimer, mas comigo o efeito foi de um estranhamento que jamais associei à condição de Lúcia. Interpretada por Glória Pires, a personagem, portanto, não estabelece uma grande conexão com o espectador, seja por tudo citado até aqui ou também pela constatação de que Glória não parece combinar com o papel mesmo. A soma de todos esses fatores faz de A Suspeita um filme sem atmosfera e que, ao seguir algumas fórmulas básicas ao invés de propor experimentações em um gênero de pouca tradição, termina com pouco a dizer.

Os indicados ao Emmy 2021

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Ao lado de The Mandalorian, a quarta temporada de The Crown lidera a lista de indicados ao Emmy 2021, despontando como a favorita para finalmente dar o prêmio principal à Netflix.

Em função da pandemia e do processo de filmagem de novas temporadas, o Emmy 2021 se viu sem estreias de grandes dimensões e, principalmente, sem hits como OzarkThe Morning ShowSuccession, a grande vencedora da última edição. Também não há, entre as minisséries, um estouro à altura de Watchmen, que chegou a liderar as indicações do ano passado, levando vários troféus para casa.

A chance de procurar novas séries e fugir do óbvio foi mais uma vez desperdiçada. Ao invés de garimpar produções que costumam ser subvalorizadas, o Emmy preferiu não só indicar as mesmas séries de sempre como ampliar irrestritamente o número de indicações de cada uma, o que resultou em menções forçadas e quantidades desproporcionais de celebração.

Um exemplo é a própria The Crown, que a encabeça lista de indicados ao lado de The Mandalorian. Em que pese a sua inegável excelência, é incompreensível que Claire Foy seja indicada a melhor atriz convidada simplesmente por um flashback passageiro de cinco minutos. Também não se justifica a lembrança de Emerald Fennell entre as coadjuvantes a não ser pelo fato de que ela recentemente ganhou um Oscar de melhor roteiro original por Bela Vingança.

E os exageros não param por aí. São quatro as coadjuvantes lembradas por The Handmaid’s Tale. Entre os homens, três são indicados pela série nesse mesmo segmento. Três atores coadjuvantes estão na disputa em minissérie/telefilme com Hamilton e quatro por Ted Lasso em comédia, isso sem falar em Saturday Night Live, que emplacou cinco indicações. Inspiração repentina, simultânea e grandiosa de diferentes elencos? Não. São simplesmente escolhas fáceis e confortáveis.

Entre outras mancadas, como a de ter Emily in Paris concorrendo em melhor série de comédia, o Emmy 2021 teve um acerto aqui e outro ali. Um deles é a indicação de Mj Rodriguez (Pose), a primeira atriz transexual a estar na disputa por um Emmy. Igualmente especiais são as menções a Hacks, uma das pérolas da temporada, mesmo que Hannah Einbinder concorra a coadjuvante sendo protagonista em pé de igualdade com a maravilhosa Jean Smart.

O que se pode esperar para a premiação é que a Netflix finalmente leve o prêmio de melhor série com The Crown, especialmente se levarmos em consideração que, além de não haver forte concorrência, a série está em seu melhor momento. Entre as comédias, o domínio de Ted Lasso deve ser completo, visto o amor dos votantes traduzido no número de indicações. Quanto às minisséries, tudo leva a crer que WandaVision reinará, mas nunca, em hipótese alguma, duvide do poder da HBO, destaque na lista com Mare of Easttown.

Os vencedores serão conhecidos no dia 19 de setembro. Confira os indicados:

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
The Boys
Bridgerton
The Crown
The Handmaid’s Tale
Lovecraft Country
The Mandalorian
Pose
This is Us

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Emma Corrin (The Crown)
Jurnee Smollett (Lovecraft Country)
Mj Rodriguez (Pose)
Olivia Colman  (The Crown)
Uzo Aduba (In Treatment)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Jonathan Majors (Lovecraft Country)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)
Rege-Jean Page (Bridgerton)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
Aunjanue Ellis (Lovecraft Country)
Emerald Fennell (The Crown)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Madeline Brewer (The Handmaid’s Tale)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
John Lithgow (Perry Mason)
Max Minghella (The Handmaid’s Tale)
Michael K. Williams (Lovecraft Country)
O-T Fagbenle (The Handmaid’s Tale)
Tobias Menzies (The Crown)
Giancarlo Esposito (The Mandalorian)
Chris Sullivan (This is Us)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Black-ish
Cobra Kai
Emily in Paris
Hacks
The Flight Attendant
The Kominsky Method
Pen15
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Shrill)
Allison Janney (Mom)
Jean Smart (Hacks)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Kenan)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Aidy Bryant (Saturday Night Live)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
Hannah Einbinder (Hacks)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Juno Temple (Ted Lasso)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Rosie Perez (The Flight Attendant)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bowen Yang (Saturday Night Live)
Brendan Hunt (Ted Lasso)
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Carl Clemons-Hopkins (Hacks)
Jeremy Swift (Ted Lasso)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Nick Mohammed (Ted Lasso)
Paul Reiser (The Kominsky Method)

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA
I May Destroy You
Mare of Easttown
The Queen’s Gambit
The Underground Railroad
WandaVision

MELHOR TELEFILME
Dolly Parton’s Christmas on the Square
Oslo
Robin Roberts Presents: Mahalia
Sylvie’s Love
Uncle Frank

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Anya Taylor-Joy (The Queen’s Gambit)
Cynthia Erivo (Genius: Aretha)
Elizabeth Olsen (WandaVision)
Kate Winslet (Mare of Easttown)
Michaela Coel (I May Destroy You)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Ewan McGregor (Halston)
Hugh Grant (The Undoing)
Leslie Odom, Jr. (Hamilton)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Paul Bettany (WandaVision)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Jean Smart (Mare of Easttown)
Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
Kathryn Hahn (WandaVision)
Moses Ingram (The Queen’s Gambit)
Phillipa Soo (Hamilton)
Renée Elise Goldsberry (Hamilton)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Ramos (Hamilton)
Daveed Diggs (Hamilton)
Evan Peters (Mare of Easttown)
Jonathan Groff (Hamilton)
Paapa Essiedu (I May Destroy You)
Thomas Brodie-Sangster (The Queen’s Gambit)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados na relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Rapidamente: “Alvorada”, “Amor, Casamentos e Outros Desastres”, “O Diabo de Cada Dia” e “A Mulher na Janela”

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Dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi, Alvorada registra, com imagens exclusivas, os últimos dias de Dilma Rousseff como presidenta do Brasil.

ALVORADA (idem, 2021, de Anna Muylaert e Lô Politi): Depois de O ProcessoDemocracia em Vertigem, fica difícil um documentário tão recente sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff dizer algo que já não tenha sido dito por seus semelhantes. E, por mais que Anna Muylaert e Lô Politi tentem dar um caráter mais íntimo e exclusivo para os últimos dias de Dilma à frente do Brasil a partir de filmagens exclusivas, Alvorada não se sustenta de forma mais sólida em termos de conceito. É interessante ver os bastidores do Palácio da Alvorada e como a vida diária se configura lá dentro, mas isso é tudo o que o documentário tem a dizer. Não ajuda também o fato de só haver uma única entrevista com Dilma Rousseff, que muito provavelmente deve ter durado tão pouco a ponto de ser usada apenas duas ou três vezes ao longo da projeção. Aliás, vale perceber como o filme é mais uma colagem do maior número de imagens possíveis capturadas com exclusividade pela equipe do que um documentário abertamente planejado, deixando a sensação de que suas ideias só tomaram forma de fato na sala de edição. E esse é um problema dos grandes se considerarmos que, politicamente falando, Alvorada já é direcionado a um público específico. Sem o frescor ou a consistência cinematográfica de O ProcessoDemocracia em Vertigem, acaba tendo uma aderência ainda menor diferentes plateias. Para o público-alvo a qual o filme é endereçado, funciona a proposta de “humanizar” a figura de Dilma Rousseff, vista aqui como uma mulher múltipla em ideias, sentimentos e temperamentos como qualquer outra do planeta. Muylaert e Politi apenas observam o cotidiano da ex-presidenta e, no pouco que conseguiram fazê-la sentar para conversar, garantiram os melhores momentos de Alvorada, quando, por exemplo, Dilma fala que sempre foi uma mulher que nunca se desestabilizou. É em sequências como essa que constamos que, curiosamente, portanto, o que falta no documentário é mais do verdadeiro íntimo de sua retratada.

AMOR, CASAMENTOS E OUTROS DESASTRES (Love, Weddings & Other Disasters, 2020, de Dennis Dugan): Tudo o que eu precisava quando dei play em Amor, Casamentos e Outros Desastres era de uma comédia bobinha, romântica e descontraída para me desligar desses tempos tenebrosos que vivemos. E, nesse caso, ainda havia o tempero extra do primeiro encontro entre Diane Keaton e Jeremy Irons no cinema. Tudo não passou de uma ilusão, e a verdade é que marquei bobeira ao não observar o nome de Dennis Dugan na direção. Responsável por uma penca de filmes horroroso estrelados por Adam Sandler (Cada Um Tem a Gêmea Que MereceGente GrandeEu os Declaro Marido e… Larry), Dugan consegue a façanha de bagunçar e aborrecer um formato de filme que, de tão explorado, o mais básico dos diretores já deveria conseguir desenvolver com o mínimo de desenvoltura. Isso mesmo, já vimos Amor, Casamentos e Outros Desastres um punhado de vezes, e não só por ser mais uma comédia ruim feita por Diane Keaton faz para se manter ativa porque papeis melhores não lhe são ofertados: partindo de um mosaico de personagens em histórias conectadas por uma temática em comum (nesse caso, o amor e o planejamento de casamentos), o roteiro tenta fazer graça com piadas que variam do mau gosto, como cegos tropeçando em móveis a anões participando de programas de relacionamento na TV, até histórias que, desde o primeiro minuto, já sabemos qual será o desfecho. O pior de tudo é ver como o roteiro, também assinado por Dugan, é inábil na tarefa de criar qualquer personagem interessante. Tudo é tão desregulado e sem timing que nem mesmo Keaton e Irons conseguem construir algo remotamente cativante, inclusive porque ambos vivem o recorte motivacional e manjado da trama, onde um homem rígido e certinho começa a encarar o mundo com mais espontaneidade ao se relacionar afetivamente com uma mulher cega. Nem como muito esforço dá para escapar da afirmação de que Amor, Casamentos e Outros Desastres é uma verdadeira bomba.

O DIABO DE CADA DIA (The Devill All the Time, 2020, de Antonio Campos): Caso fosse lançado no início dos anos 2000, O Diabo de Cada Dia estaria ao lado de Babel e Crash – No Limite como um filme-elenco de sucesso, especialmente no tocante às premiações. O que os três longas-metragens têm em comum são as histórias interligadas pelo acaso, pela violência ou pela incomunicabilidade — e, muitas vezes, por esses três elementos ao mesmo tempo. Entretanto, tendo estreado em 2020 no catálogo da Netflix, o filme de Antonio Campos não se destaca pelo frescor do formato como seus similares à época e enfrenta um problema maior: ainda que disponha de 140 minutos para desenvolver uma infinidade de personagens e reviravoltas, o resultado não dá conta do tanto que tenta abraçar. Há de se reconhecer que a narração hipnótica de Donald Ray Pollock, autor do livro homônimo em que o filme se baseia, é um caso raríssimo onde essa ferramenta pode ser usada com sabedoria para expandir o que está sendo visto na tela e colocar em palavras aquilo que não precisa ser necessariamente mostrado, mas a sucessão de reviravoltas, mortes e tragédias é tão grande e contempla tantos personagens que, em determinado ponto, O Diabo de Cada Dia se esvazia e já não consegue mais conferir potência e significado a suas dolorosas odisseias geracionais. Ao ter no elenco uma excelente matéria-prima para a força do drama, Antonio Campos dirige alguns nomes com mais eficiência do que outros: enquanto Bill Skarsgård se destaca com um papel pequeno e forte, Tom Holland assume com maturidade a maior parcela de protagonismo da história, ao passo que Robert Pattinson, vindo de uma escalada de excelentes desempenhos (Bom Comportamento e O Farol são alguns deles), inexplicavelmente pesa a mão no sotaque e em uma interpretação que nos remete aos ares robóticos do início de sua carreira. Se O Diabo de Cada Dia não chega a ser grande, ao menos nos instiga a ir atrás do livro para ver se lá, com o ritmo mais detalhado da literatura, tudo ganha a devida tração.

A MULHER NA JANELA (The Woman in the Window, 2021, de Joe Wright): Vítima das grandes expectativas em torno de sua realização, A Mulher na Janela é mais um divertido entretenimento do que o suspense sofisticado que se poderia esperar da união de nomes como Joe Wright, Tracy Letts, Amy Adams e Julianne Moore. Contudo, filmes são o que são e não aquilo que gostaríamos que eles fossem, o que explica o ódio desproporcional atribuído ao resultado de A Mulher na Janela. Adaptado do romance de mesmo nome assinado por A.J. Finn em 2018, o longa foi modificado inúmeras vezes como resposta às reações negativas de suas primeiras sessões de teste, passando por cortes e novas filmagens, até ser levado para estreia direta na Netflix após a desistência da 20th Century Fox de lançá-lo nos cinemas. Nunca é bom sinal quando um estúdio interfere demais no corte final de um filme, muito menos quando se torna público o receio de que ele finalmente encontre o público da forma como foi concebido. E é verdade que a versão apresentada de A Mulher na Janela tem limitações e descompassos, mas há algo fundamental que me faz defendê-lo: o fato dos realizadores não esconderem, desde o primeiro minuto, a natureza expositiva, acentuada e até hiperbólica de seu suspense. Essa honestidade é muito bem-vinda porque regula expectativas e ajuda o espectador a embarcar no tom que será trabalhado ao longo da projeção. Como um todo, A Mulher na Janela é bem sustentado pela ótima presença de Amy Adams e até mesmo por Joe Wright, que, apesar de funcionar melhor comandando produções de época (Orgulho e PreconceitoDesejo e Reparação), consegue conferir certa elegância a uma concepção narrativa e estética que tem sido reduzida pela crítica a comparações com o desejo do diretor em emular Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Aos trancos e barrancos, o senso de diversão de A Mulher na Janela como um lançamento Netflix compensa o percurso atribulado trilhado por uma obra que é o que é, não aquilo que gostaríamos que ela fosse. 

“Meu Pai”, um retrato avassalador dos labirintos da mente e da finitude da vida

Who exactly am I?

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado no espetáculo “Le Père”, de Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller, Scott Mullins

The Father, Reino Unido/França, 2020, Drama, 97 minutos

Sinopse: Um homem idoso (Anthony Hopkins) recusa toda a ajuda de sua filha (Olivia Colman) à medida que envelhece. Ela está se mudando para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora, buscando encontrar alguém para cuidar do pai. Ao tentar entender suas mudanças, ele começa a duvidar de seus entes queridos, de sua própria mente e até mesmo da estrutura da realidade. (Adoro Cinema)

Era um tanto quanto inevitável que, tendo convivido durante muitos com um familiar próximo que sofria do Mal de Alzheimer, Meu Pai me atingisse de forma íntima e pessoal. Ainda assim, tive certa cautela: tema que costuma ganhar tratamentos formais ou excessivamente melodramáticos para deixar alguma lição, a deterioração física e mental da terceira idade não ganhava um relato memorável desde 2013, quando o austríaco Michael Haneke realizou o drama Amor. Já no caso específico do Mal de Alzheimer ou da demência, é bem provável que o último exemplar verdadeiramente delicado e comovente seja de 2006, ano em que Sarah Polley dirigiu Julie Christie em Longe Dela, adaptação do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro. Por mais que filmes dessa natureza surjam aos montes, como Iris, estrelado por Judi Dench e Kate Winslet, ou então Para Sempre Alice, que deu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore, são raros os vislumbres de criatividade e franqueza para retratar uma fase tão complicada da vida sem jogadas apelativas ou a vontade de ser um laudo cinematográfico de doenças que nos acometem na velhice.

E agora temos Meu Pai, que não só é um caso totalmente à parte como também se apresenta como o tipo de projeto que redefine o modo de contar histórias sobre essa temática. Sempre evito fazer tamanha afirmação, mas parece inevitável: em emoção e estrutura, não tenho notícias de outra discussão semelhante a essa que o francês Florian Zeller adapta de “Le Pére”, peça de autoria própria que estreou em 2012 na França e que chegou a ganhar o conceituado prêmio Molière de melhor espetáculo, sendo adaptada para países como os Estados Unidos com Frank Langella e para o Brasil com Fúlvio Stefanini. Aqui, o já esperado componente emocional é emoldurado pela decisão singular de narrar a história a partir da perspectiva do doente e não do cuidador, o que propõe um importante exercício de empatia (e, no caso de quem conviveu com alguém em situação equivalente à vivida pelo protagonista, tudo se ressignifica com imensa força). Melhor ainda é ver Zeller dando conta de um desafio em que até diretores como Roman Polanski já falharam: o de adaptar um espetáculo teatral para o cinema sem qualquer resquício da linguagem e da dinâmica dos palcos. Esse mérito, vale grifar, também vai para a conta de um roteiro muito bem lapidado que ele assina em parceria com Christopher Hampton, um craque das adaptações que tem no currículo trabalhos marcantes como Ligações Perigosas e Desejo e Reparação.

Com um belo e bem-vindo poder de síntese, Meu Pai descortina tudo o que está acontecendo com seu protagonista logo nos primeiros minutos. Aos oitenta e tantos anos, Anthony (Anthony Hopkins) tem esquecido o relógio, brigado com empregadas e dado sinais evidentes de que seu senso de memória e orientação não é mais o mesmo, para completa angústia de sua filha Anne (Olivia Colman), que está de mudança para Paris e precisa decidir o que fazer com o pai. No entanto, não temos certeza nem mesmo sobre as linhas gerais dessa introdução. Será que Anne está realmente indo para Paris? E a atriz que a interpreta é mesmo Olivia Colman? O retrato de um protagonista com Mal de Alzheimer (ou demência, já que o filme não chega a cravar uma definição exata) é extremamente fiel ao se passa na vida real considerando o comportamento de uma pessoa que vive sob essas condições: há a fixação com algum objeto específico (no caso de Anthony, um relógio que ele alega ser roubado a todo momento), as oscilações repentinas de humor, vislumbres inesperados de lucidez em meio a tantos esquecimentos, relatos de histórias que nunca aconteceram ou então são imprecisas em termos de tempo e espaço, a total negação do doente sobre sua condição e, claro, a própria falta de perspectiva acerca de quem o próprio doente é (menino, adulto, idoso, bailarino de sapateado ou engenheiro?). Chega a ser angustiante de tão realista.

Entretanto, a virada de chave de Meu Pai está mesmo na decisão de mostrar tudo a partir da perspectiva do protagonista. Não deixa de ser uma decisão para lá de arriscada se elencarmos as tantas armadilhas possíveis para esse formato, começando pelo simples fato de que, ao invés de mostrar a confusão do protagonista, o filme poderia se tornar bagunçado ou desordenado, e não no bom sentido. Pois Florian Zeller não titubeia em nenhum momento. O que Meu Pai nos proporciona é de fato a experiência única de viver a mesma desorientação de uma pessoa que começa a perder de forma gradativa toda e qualquer referência de tempo e espaço. Para construir tal perspectiva, atores trocam de papeis, a brilhante montagem do grego Yorgos Lamprinos alterna cenas onde não sabemos em que ponto elas verdadeiramente começaram ou terminaram e, ao melhor estilo Parasita, o design de produção assinado pela dupla Cathy Featherstone e Peter Francis se torna um personagem à parte, moldando, a partir da discreta transformação de cores e decorações de um apartamento, o desnorteamento espacial do protagonista. Isolados, tais elementos já fariam a diferença. No entanto, o domínio cênico de Zeller é tão grande ao costurar esse conjunto que nada parece mera curiosidade técnica. O efeito é fino e imersivo, especialmente quando lembramos que tudo se passa dentro de um único ambiente e que o propósito é fazer o espectador navegar em uma linha do tempo não muito clara.

No papel do protagonista, Anthony Hopkins é a força que, somada ao trabalho de Florian Zeller, torna Meu Pai um longa tão marcante. Lenda inquestionável, ele se mantem admiravelmente ativo aos 82 anos de idade. Na última década, trabalhou com Darren Aronofsky (Noé), fez blockbusters para se divertir ou ganhar alguns trocados (Thor: Ragnarok, Transformers: O Último Cavaleiro), deu o ar da graça em produções para TV e streaming (a série Westworld na HBO e a adaptação de Rei Lear para o Prime Video) e voltou ao Oscar após doze anos com seu maravilhoso desempenho como Bento XVI em Dois Papas, de Fernando Meirelles. Faltava, no entanto, um projeto comparável a sua estatura como Meu Pai, que combina a possibilidade do ator explorar o seu imenso repertório com o fato de ele participar de um filme singular. E Hopkins prova que não é lenda por acaso ao navegar nas fragilidades e angústias de um personagem que passa a perder o chão e que tenta de alguma maneira se agarrar ao que ainda lhe parece minimamente verdadeiro ou real. Do respeito e generosidade com que compreende a situação do protagonista a um trabalho técnico excepcional de olhares, gestos e movimentos corporais, o ator dá o tipo de aula que pode muito bem marcar o momento mais brilhante de uma carreira já construída em cima de performances memoráveis (e desafio alguém a não sair devastado do filme após a cena final carregada de emoções das mais diversas intensidades). O segundo Oscar de melhor ator que ele levou no último mês de abril não poderia ser mais merecido e ter vindo em um momento mais apropriado.

Menos reverenciada do que Hopkins, Olivia Colman também merece justiça por seu trabalho em Meu Pai. Como a atriz talentosa que é, ela concentra em cada expressão todos os sentimentos opostos de uma filha tomada pela tristeza de ver o pai desaparecendo ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões práticas e definitivas para definir tanto o seu futuro quanto o do próprio Anthony. Mais tocantes ainda são os momentos em que, aqui ou ali, encontra vislumbres de lucidez no homem que lhe deu a vida, lançando sorrisos esperançosos que, ela sabe, não duram por muito tempo. Seu desempenho é fundamental para a composição emotiva que Meu Pai faz dos momentos mais cotidianos envolvendo o contexto do Alzheimer. Sem didatismos e obviedades, Florian Zeller, repito, faz um dos filmes mais definitivos sobre o tema e, de quebra, entrega um resultado que ultrapassa os debates sobre a temática para também ser referenciado pela forma com que cinematograficamente oferece um novo olhar para tantas discussões. Li em algum lugar que, a seu próprio modo, Meu Pai não deixa de ser um filme de terror. E eu concordo: para além de um relato que nos faz entender melhor a jornada de idosos acometidos por doenças da mente, estamos diante de um espelho atemporal da nossa finitude, e principalmente do fato de que ninguém está livre de se tornar a pessoa mais indefesa do mundo ao se aproximar dela.

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