Três atores, três filmes… com Pedro Salassié
Pedro brinca que ele é a “forma do filme”, enquanto eu sou o “sentido do filme”, fazendo referência aos escritos de Eisenstein e tecendo a tese de que, ao falar sobre filmes, costumamos observá-los de formas distintas. Em grande parte, acredito nisso, mas, quando leio o que ele escreveu sobre três de suas performances favoritas no cinema aqui para a coluna, imediatamente discordo. Seja falando sobre Perkins, Kidman ou Nicholson, Pedro carrega consigo muito de sentido e sensibilidade. Eu e ele nos conhecemos há quase 20 anos, quando nos encontramos pela primeira vez em 2007 para assistir a Ratatouille. Desde então, com os anos e as horas entre nós, sempre preservamos uma ligação e uma amizade que, para além das afinidades cinematográficas, estendeu-se para à vida como um todo. Tê-lo aqui é muito simbólico, um desejo que tenho há muitos anos – e que agora, enfim, se materializa. Obrigado por tudo, brother!
Anthony Perkins (Psicose)
Acredito que tenho um fraco por atores (artistas em geral) que sejam estigmatizados tanto na vida real quanto pelo seu personagem mais conhecido. É o caso de Perkins, que foi durante a vida estigmatizado – a encarnação (sim, porque é algo além da interpretação) que ele fez de Norman Bates no maior clássico de Hitchcock que rendeu ao ator não só o ápice da sua carreira, mas, ao mesmo tempo, a sua “condenação”. Seus papéis anteriores, como o mocinho galã, vistos hoje em dia, chegam a ser cômicos, inverossímeis. Então, foi a caracterização do psicopata dependente emocional da mãe em Psicose, tão convincente e visceral, que o impediu de ter qualquer outro sucesso em sua vida. Resultado: terminou seus dias reprisando por mais três vezes o personagem em sequências do original de qualidade muito duvidosa. Fora das telas, é bom ser lembrado que Perkins também foi estigmatizado por coisas que ainda são alvos de preconceito nos dias de hoje: o gay que não pode se assumir, faz a “terapia da cura gay” e acaba tendo filhos contra sua vontade (Oz Perkins, o atual famoso diretor de terror, de Longlegs: Vínculo Mortal e O Macaco, para citar alguns) e também ter terminado seus dias com o grande estigma do HIV do final dos anos 1980, falecendo de complicações da AIDS em 1992. Como se a tragédia fosse pouca, a sua esposa da época (mãe de Oz) ainda faleceu nos atentados de 11 de setembro de 2001. Ela estava a bordo do primeiro avião a se chocar com as torres gêmeas.
Nicole Kidman (As Horas)
Até hoje acho ofensiva a entrega do Oscar feita por Denzel Washington a Nicole Kidman por seu trabalho em As Horas. Não foi “por um nariz”, como o ator declarou, em tom humorístico. O drama de 2002 dirigido por Stephen Daldry é, na minha opinião, o mais intimista, pessimista e psicologicamente denso já feito. Uma adaptação literária que parece ter sida pelo próprio autor do romance, de tão precisa. É natural que pessoas com tendências a serem introvertidas consigam se identificar com a Virginia Woolf que Kidman entrega aqui. A atriz mergulhou tão profundamente na personagem real – e não só aquela que está na obra As Horas, de Michael Cunningham, mas também na Virginia da vida real – que é algo muito indissociável onde termina Nicole em cena e onde começa Virginia. E ser a pedra fundamental de uma história que, baseada nela, entrega outras duas personagens tão impactantes (interpretadas por Julianne Moore e Meryl Streep) faz com que possamos nos dar conta de que essa Nicole Kidman aqui, no seu auge (tinha há pouco trabalhado até com Kubrick à época), mereceu aquele Oscar em 2003 por muito mais do que somente “um nariz”. Foi a coroação de não somente interpretar a musa dos deprimidos, a autora Virginia Woolf, mas de ter acabado se tornando a própria em tela.
Jack Nicholson (As Confissões de Schmidt)
O personagem que consigo, em toda a história do cinema, relacionar a mim mesmo. Simples assim. Todos temos aquele “velho aposentado” que mora dentro de nós, mas assumo que eu particularmente quase sempre vivi assim dia após dia. A vida é um equilíbrio desequilibrado de drama e comédia, de situações que nos envolvemos sem que pedíssemos, de ter que lidar com familiares que não pedimos para ter de levar um “tapa na cara” das pessoas que confiamos. Momentos de raiva (vamos jogar as roupas da Helen no lixo reciclável) e de profunda tristeza (vou passar todos os cremes da Helen no rosto). Momentos de ira completa (falando do “cocky bastard” do novo genro) na comunicação com a mesma pessoa em que a fragilidade do ser humano mais se mostra (o desenho feito por Ndugu). De uma forma incrivelmente hábil, Alexander Payne dirige esse filme como se fosse um carro em uma estrada cheia de cones, variando do profundo drama ao humor ácido (a parceira de uma vida morre, mas eu odiava todos os seus modos, então vamos comprar um caixão azul porque é mais barato). Simplesmente a cada dia que acordamos, não escolhemos simplesmente se o nosso dia será dramático, se será uma comédia, se passaremos medo, se estaremos ansiosos por algo. O Warren Schmidt de As Confissões de Schmidt entrega para nós esse cotidiano: o que virá pela frente?
Rapidamente: “Alpha”, “Blue Moon”, “Heartstopper: Para Sempre” e “Quarto do Pânico”

Em formato de longa-metragem, Heartstopper: Para Sempre encerra a bem-sucedida série da Netflix.
ALPHA (idem, 2025, de Julia Ducournau): Após ter levado a Palma de Ouro no Festival de Cannes com todo o furor causado por Titane, a francesa Julia Ducournau volta ao comando de um longa-metragem, mas sem o mesmo frescor ou a mesma provocação que a consagraram na Croisette. Diante de Titane, Alpha esmorece em todos os sentidos, inclusive no que tange ao horror corporal, aqui explorado por meio de uma epidemia que, aos poucos, petrifica os seres humanos. Ducournau tem ideias rasas para explorar leituras que, por óbvio, remetem à AIDS ou à própria Covid-19. A intolerância humana diante do desconhecido, a falta de preparo para lidar com uma crise emergente de saúde e o isolamento social imposto aos possíveis infectados são conflitos que carecem de originalidade e, da forma que se apresentam, talvez pudessem causar algum impacto décadas atrás. Hoje, Alpha dá a impressão de ser um filme requentado, como se nascesse de um projeto engavetado há muitos anos e desatualizado desde então. Entre o coming-of-age, o drama familiar e o body horror, o longa tampouco parece saber onde centrar-se, causando verdadeira curiosidade apenas quando explora esteticamente a petrificação dos corpos, construída pelos trabalhos exemplares de maquiagem e efeitos visuais. Créditos também devem ser dados à boa interpretação da jovem Mélissa Boros. São pontos positivos que nos lembram como Alpha não chega a ser ruim, apenas repleto de lugares-comuns — a última coisa que eu esperaria de quem causou tudo, menos indiferença em seu filme anterior.
BLUE MOON: MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon, 2025, de Richard Linklater): É quase como se não tivesse existido no Brasil este mais recente filme de Richard Linklater que chegou muito discretamente ao catálogo da HBO Max em junho passado, sem ter passado pelas salas de cinema. Pois trata-se de uma injustiça, a começar pelo desempenho de Ethan Hawke, talvez em seu melhor momento. Ele interpreta o lendário letrista Lorenz Hart, que, passando a noite em um bar, tem sua autoconfiança colocada à prova quando seu ex-colaborador Richard Rodgers (Andrew Scott) chega ao mesmo local para comemorar o sucesso da estreia de seu novo musical, Oklahoma!. Blue Moon: Música e Solidão é palavroso até dizer chega: são incontáveis os diálogos e monólogos encenados com a narrativa transcorrendo em tempo real, formato cuja recepção varia drasticamente de acordo com a afinidade do espectador. Contudo, é inegável que Linklater e, em especial, Ethan Hawke, banham o filme com a melancolia de um homem cuja maior tragédia reside na incapacidade de olhar para seu próprio estado de vida, permanecendo preso a um tempo que há muito já lhe escorreu por entre os dedos. “Ele era alerta, dinâmico e divertido” e “O homem mais triste que já conheci” dizem dois depoimentos trazidos em letreiros logo no início, quando Blue Moon já deixa clara a dualidade inerente a toda a história. Ao compreender a genialidade e a falência de um mesmo homem, o filme alcança notas bastante interessantes, sempre impulsionado pela presença do grande ator que dá vida ao protagonista.
HEARTSTOPPER: PARA SEMPRE (Heartstopper Forever, 2022, de Wash Westmoreland): Quatro anos e três temporadas depois, a série Heartstopper, da Netflix, chega ao fim em formato de longa-metragem. É uma despedida digna para a jornada afetiva do casal Charlie (Joe Locke) e Nick (Kit Connor), outrora dois jovens descobrindo a natureza de suas sexualidades e agora um par romântico que enfrenta os desafios tradicionais de qualquer relacionamento, passando por ciúmes, problemas de comunicação, distância e a busca por um meio-termo diante de conflitos. A direção fica por conta de Wash Westmoreland (Para Sempre Alice), que não inventa a roda e busca seguir a cartilha bem-sucedida de uma série importante na desconstrução de como as saídas do armário costumam ser retratadas pelo audiovisual. É claro que Heartstopper tem seus dramas, mas o que importa aqui é a esperança, a aceitação e a possibilidade de um mundo melhor para aqueles que simplesmente desejam ser quem são. Se, neste último capítulo, a criadora da HQ homônima e roteirista Alice Oseman por vezes patina na construção da trama, preterindo demais os coadjuvantes e sendo repetitiva no conflito central de Charlie e Nick, por outro lado, o resultado como um todo não desaponta por se manter fiel a seus personagens e ao tom trabalhado nas três temporadas. Heartstopper: Para Sempre termina com aquele quentinho tão característico da série, e o único deslize imperdoável aqui é colocar outra atriz no papel de Olivia Colman (devido a conflitos de agenda, ela não pôde participar desse capítulo derradeiro). Afinal, não é como se não percebêssemos — ou como se não sentíssemos falta de Olivia, que chegou a vencer um Emmy pela série.
QUARTO DO PÂNICO (idem, 2025, de Gabriela Amaral Almeida): Produção original Telecine, Quarto do Pânico foi encomendado para o streaming quando poderia ter trilhado certa carreira nas salas comerciais — e a recente mobilização das plateias em torno de filmes de suspense e terror como Obsessão e Backrooms respaldam essa tese. Lançado sem maiores alardes em fevereiro deste ano, o remake dirigido pela talentosa Gabriela Amaral Almeida do filme de David Fincher em 2002 não atualiza a história a ponto de justificar o remake. Há pouco de verdadeiramente brasileiro em uma trama que ainda bebe demais da estrutura de tensão e desenvolvimento do filme original. Talvez por ter grande reverência ao trabalho de Fincher, Gabriela pouco mexe no formato, o que fica bastante perceptível se você revê o longa de 2002 em sessão dupla. Os pontos de tensão e de viradas permanecem os mesmos, e a diretora termina por se beneficiar mais de leituras que, invariavelmente, são reflexos dos nossos tempos, como a ameaça à figura feminina e o constante estado de medo e alerta que as mulheres enfrentam. Em termos de exercício cinematográfico, Quarto do Pânico é bem menos cifrado e estimulante do que outros trabalhos de Gabriela, em especial o magnífico O Animal Cordial, seu surpreendente e visceral longa-metragem de estreia. Hoje, ela prepara Cão de Guarda, trabalho em que repetirá a parceria com Murilo Benício e que é descrito como um road movie envolto em ação e dramas psicológicos. No centro da história, um dedetizador passa a perder sua capacidade de sentir afeto após um acidente aparentemente sem consequências físicas graves. Só pela sinopse, tenho a forte suspeita de que o verdadeiro chão da realizadora está nas histórias originais.
“O Diabo Veste Prada 2” rejeita ideia do mero fan service para medir o pulso do nosso tempo
May the bridges I burn light my way.

Direção: David Frankel
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, B.J. Novak, Simone Ashley, Tracie Thoms, Caleb Hearon, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J Shen, Patrick Brammall, Pauline Chalamet
The Devil Wears Prada 2, EUA, 2026, Comédia, 119 minutos
Sinopse: De volta às elegantes ruas de Nova York e aos sofisticados escritórios da revista Runway, as personagens de O Diabo Veste Prada se veem envolvidas em uma disputa por receita publicitária em meio ao declínio da mídia impressa, colocando à prova antigas relações e ambições profissionais.

Incrédula, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha um momento que, vinte anos atrás, poderia ser uma miragem: Miranda Priestly (Meryl Streep) chegando ao escritório da revista Runway e, ela própria, colocando seu casaco em um cabide. Muita coisa mudou desde o lançamento de O Diabo Veste Prada em 2006, tanto para o mundo quanto para suas personagens, e a roteirista Aline Brosh McKenna, que escreveu o longa original e volta para o segundo, entende como tantos reveses são essenciais para revisitar um universo cinematográfico que marcou época e gerações.
Orçado em 35 milhões de dólares, o primeiro O Diabo Veste Prada faturou quase dez vezes mais quando chegou aos cinemas mundialmente, superando as expectativas em torno de um projeto protagonizado por mulheres e encabeçado por uma atriz já então considerada veterana aos 56 anos. Clássicos só podem receber tal distinção com o tempo, e não é exagero afirmar que o filme de David Frankel se tornou um na cultura pop. Motivos não faltaram, da interpretação icônica de Meryl Streep ao frescor estético de um império da moda embalado por hits nas vozes de Madonna, Alanis Morissette, U2, Moby, entre outros.
Não só O Diabo Veste Prada foi visto e revisto com o passar dos anos como também reinterpretado em muitas de suas simbologias. A vilania da história reside em Miranda ou no namorado de Andy vivido por Adrian Grenier? A editora-chefe da Runway seria, de fato, o diabo de saias ou é vista dessa maneira apenas por ser uma mulher — e não um homem — em posição de poder? À parte respostas, é indiscutível que Miranda Priestly, por si só, tornou-se um dos papéis mais emblemáticos da carreira de Meryl Streep, o que definitivamente não é pouca coisa.
Agora, após exatas duas décadas, O Diabo Veste Prada 2 apresenta um novo momento na vida de suas personagens. O tempo passou fora e dentro das telas, algo que a sequência dirigida por David Frankel abraça como mote. Não se trata, em suma, de uma continuação alheia às mudanças do mundo ou fabricada para satisfazer a nostalgia de uma legião de fãs. A virada de chave está nessa noção de que Andy e Miranda não podem ser mais as mesmas quando as noções de moda e jornalismo há muito já se transformaram.
Os casacos agora pendurados pela própria chefe são resultado de reclamações feitas ao setor de Recursos Humanos. Não há mais orçamento para viagens de quatro semanas com o objetivo de produzir o ensaio do mês. Os transportes executivos dão lugar às corridas por Uber, assim como viagens aéreas agora só são possíveis por meio de classe econômica. E a antes tão poderosa Runway praticamente deixa de existir na versão impressa para existir em uma versão digital que, como lembra Nigel (Stanley Tucci), virou uma mera rolagem no feed quando os usuários de redes sociais tiram um tempo para ir ao banheiro.
É surpreendente que O Diabo Veste Prada 2 talvez seja o primeiro filme sobre o estado atual do jornalismo porque Hollywood desaprendeu a fazer grandes projetos comerciais com algo a dizer, muito menos com algum tipo de posicionamento. Pois o roteiro de McKenna, além de fazer observações sobre o sucateamento das mídias, utiliza esse cenário para moldar suas personagens nos planos cômicos e dramáticos. Se o jornalismo virou negócio — e não um dos mais vantajosos para os próprios jornalistas —, tudo passa a se dar na base de negociação, mesmo para quem antes apenas demandava.
McKenna toma o cuidado de não fazer de O Diabo Veste Prada 2 uma lição de moral ou uma espécie de punição em cima da sua personagem-título. Isso acontece porque todos estão no mesmo barco, envoltos em crises e incertezas, inclusive a Andy de Anne Hathaway, que volta à Runway após a demissão em massa realizada pelo jornal onde acreditava estar fazendo um trabalho com princípios e significados. Ao mesmo tempo, são as próprias pessoas da sua geração que tomam o poder através de ricaços da tecnologia, muitos deles invadindo todas as áreas apenas com números e métricas em mente.
Em meio ao naufrágio, o que resta é a colaboração entre os que tentam sobreviver. É quando surgem as transformações dos personagens de um filme para o outro, em especial as das protagonistas. Há quem possa dizer que Miranda está mais suavizada nessa sequência, o que, para mim, na realidade, faz total sentido. E, sendo bem sincero, é reconfortante ver que até o diabo pode mudar, mesmo que conforme a música da vez. Ocorre, enfim, a flexibilização de sentimentos — ou, então, as nuances — que, no fundo, gostaríamos de ter visto no primeiro longa.
Ao buscar novos pilares, O Diabo Veste Prada 2 não abandona, claro, a essência que tornou seu antecessor um marco na cultura pop. Em cena, há diversas referências ao que vimos em 2006, como o retorno de Vogue na trilha sonora e do suéter azul cerúleo no figurino. De Donatella Versace a Lady Gaga, o desfile de participações especiais também segue dando prestígio ao projeto. Felizmente, são inserções calibradas e que resistem à tentação de soarem cacoetes, algo exemplificado no uso do icônico That’s all de Miranda, utilizado uma única vez.
Mesmo com tantos méritos e com a presença gratificante de um elenco que volta aos personagens como se os tivessem interpretado ontem, não dá para se dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar. O Diabo Veste Prada 2 não incendeia como o anterior, talvez por insistir em elementos que continuam não dando certo (o novo par romântico de Andy é outra vez insípido) e por não corrigir aquelas rotas fáceis demais que contornam problemas aparentemente incontornáveis para as personagens. Há ainda adições que em nada contribuem — e, nesse sentido, me pergunto qual a razão de desperdiçar um grande ator como Kenneth Branagh para um papel tão descartável. E, ah, claro, sem esquecer da estética pouco viva em cores e iluminação que toma conta das produções comerciais atuais.
Pode até ser que eu não reveja O Diabo Veste Prada 2 da mesma maneira incansável com que revejo o primeiro, mas fico feliz em poder dizer que a sequência tem vida própria diante de tantos projetos semelhantes que se sustentam apenas pela nostalgia momentânea. Ao ser comparado com, digamos, Gladiador 2 e Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, o retorno de Meryl Streep e companhia ao universo da moda justifica sua existência ao apostar em um tipo de cinema outrora bem trabalhado em Hollywood: o que comunica ideias por meio da despretensão. Como o bom jornalismo, O Diabo Veste Prada 2 se sai vitorioso porque nega as expectativas óbvias e busca novos ângulos para explorar.
“Michael” é mais uma cinebiografia como tantas outras (e que, com certeza, frustraria o próprio Rei do Pop)
Keep those feet still, my man!

Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Juliano Valdi, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Kendrick Sampson, Jayden Harville, Jaylen Lyndon Hunter, Judah Edwards, Nathaniel Logan McIntyre, Tre’ Horton, Rhyan Hill, Joseph David-Jones, Jamal Henderson
EUA/Reino Unido, 2026, Drama, 127 minutos
Sinopse: O filme conta a história da vida de Michael Jackson além da música, acompanhando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five, até se tornar o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca incansável para ser o maior entertainer do mundo.

A sensação é de déjà-vu imediato: tão logo Michael começa, surge a silhueta icônica do protagonista, aquecendo-se antes de entrar no palco, enquanto um público delirante grita por seu nome ao fundo. Vemos Michael Jackson apenas de costas para, logo em seguida, retrocedermos algumas décadas até a sua infância nas mãos de um rígido pai que tinha por missão de vida treinar os filhos rumo ao estrelato. É o tipo de história e estrutura que, no campo das cinebiografias, já vimos dezenas de vezes e que Michael, mesmo com um personagem sui generis, não faz questão nenhuma de subverter. De todas as frustrações que um projeto como esse poderia causar, trata-se da maior: a de colocar a vida do Rei do Pop em uma caixinha de caminhos prontos e fáceis, sem minimamente evocar, em termos cinematográficos, a pulsante criatividade de um brilhante repertório musical.
Bem como aconteceu com Wicked, Michael chega aos cinemas camuflando — pelo menos em seus materiais promocionais — a informação de que haverá uma sequência e que, por óbvio, os acontecimentos desse primeiro são apenas a primeira parte de um arco a ser finalizado na segunda obra. A ambição poderia ser justificada caso o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor) se utilizasse da imaginação para ir além da narrativa tradicional e investigar a mente do cantor, a exemplo do que Dexter Fletcher fez no ótimo Rocketman, ainda a melhor cinebiografia musical realizada por Hollywood nos últimos anos. Contudo, Fuqua não é exatamente um diretor inspirado, basta olharmos para sua carreira que, em retrospecto, é apenas marcada por obras de ação muito parecidas entre si.
Junte a isso o fato de Michael passar pelo crivo da família Jackson e ter eliminado polêmicas como as acusações de abuso infantil contra o cantor, tornando-se mais um projeto chapa branca entre tantos. Tal abordagem não é novidade se considerarmos como as celebridades norte-americanas vêm sendo retratadas pelo cinemão já há certo tempo, e talvez seja por já esperar pouco de Michael que meu problema tenha ficado mais com a decisão mercadológica — e nunca artística — de narrar a vida de Jackson em dois filmes. Há uma série de efeitos colaterais resultantes dessa escolha, a começar, sem dúvida, pela sensação de incompletude. Afinal, a partir do roteiro de John Logan (O Aviador, 007 – Operação Skyfall), Fuqua pouco consegue fazer com que Michael se sustente sozinho, embora já entregue vários hits como Thriller, Billie Jean e Beat It.
Se a história tem bastante para contar – ela até o final dos anos 1980, quando Michael Jackson já havia se tornado uma febre mundial e detentor do título de álbum mais vendido de todos os tempos —, há, por outro lado, um enorme vazio em como tudo é retratado. A condução formulaica nunca alcança a verve extasiante das músicas, e o roteiro não descortina o cantor para além da superfície. Percebam, por exemplo, como, mesmo se dedicando a abarcar um bom pedaço da infância de Michael, saímos da sessão sem sequer compreender os perfis dos quatro irmãos que, com ele, formaram a banda The Jackson 5. Seu próprio processo criativo é um mistério: à parte o momento em que Beat It ganha vida, em uma das melhores passagens do filme, ou quando Michael começa os trabalhos do videoclipe de Thriller, a origem do seu álbum mais célebre é resumida a um mural onde o protagonista fixa o nome de cada música produzida para escolher qual servirá como título.
Dramaticamente falando, temos apenas um grande conflito: o do artista que tenta sair da sombra do pai. Para o bem e para o mal, Joseph (Colman Domingo) exerceu papel fundamental na criação dos filhos, e é interessante como Michael não se furta de mostrar, em especial, como o controle do pai fez mal para toda a família, até mesmo para a mãe (Nia Long), que, pouco a pouco, tenta se impor em uma casa dominada por uma voz masculina. Defensor da ideia de que sucesso não vem de mão beijada e que, sendo negro, é preciso fazer todo tipo de sacrifício, seja ele qual for, para ser alguém na vida, Joseph alçou os filhos ao sucesso, mas também produziu uma série de traumas, negando, inclusive, o prazer da infância a eles. Não por acaso, Michael vivia em uma eterna síndrome de Peter Pan, adotando macacos e girafas ou fazendo de sua mansão um lugar dos mais recreativos — a famosa Neverland que, espera-se, seja abordada futuramente.
Fuqua e Logan não se aprofundam nas leituras possíveis em cima desses fatos, fazendo do protagonista um personagem raso em emoções, condição perfeita para que várias lacunas se abram no estudo do biografado. É nula, por exemplo, qualquer sugestão aos desejos afetivos e sexuais de Michael — ou à falta deles. E como podemos acreditar que a família é tão importante para o protagonista quando não conhecemos mais facetas da sua mãe e de seus irmãos? O dilema da trama está, enfim, na busca por libertação de um artista e de um filho, o que rende alguma densidade até determinado ponto, mas que não dá sustentação ao filme no geral. Ao dar tanta atenção a isso, Michael termina suas duas horas de duração sem navegar nas tantas possibilidades envolvendo um grande ícone, mesmo no que ele tinha de mais mundano e humano.
Para Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, resta o trabalho de mimetizar o tio, o que ele executa com precisão do ponto de vista técnico. Acontece que, como meu interesse nesse tipo de interpretação reside na alma e na essência, não cheguei a me impressionar, muito em função de Jaafar ter pouco material dramático para revelar uma verdadeira vocação para atuar neste que é o seu primeiro papel no cinema. Ele, junto a Michael como um todo, tem missões árduas para o segundo filme, entre elas, a de dar mais camadas a um personagem que, no primeiro longa, surge deveras plano em uma homenagem aquém de sua grandeza. Se Michael Jackson pensava cada trabalho e aparição para causar impacto ou fazer a diferença como artista, sua cinebiografia deveria, no mínimo, tentar o mesmo, sem medo de assumir riscos. Tenho certeza de que o Rei do Pop concordaria.

