“Meu Pai”, um retrato avassalador dos labirintos da mente e da finitude da vida

Who exactly am I?

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado no espetáculo “Le Père”, de Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller, Scott Mullins

The Father, Reino Unido/França, 2020, Drama, 97 minutos

Sinopse: Um homem idoso (Anthony Hopkins) recusa toda a ajuda de sua filha (Olivia Colman) à medida que envelhece. Ela está se mudando para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora, buscando encontrar alguém para cuidar do pai. Ao tentar entender suas mudanças, ele começa a duvidar de seus entes queridos, de sua própria mente e até mesmo da estrutura da realidade. (Adoro Cinema)

Era um tanto quanto inevitável que, tendo convivido durante muitos com um familiar próximo que sofria do Mal de Alzheimer, Meu Pai me atingisse de forma íntima e pessoal. Ainda assim, tive certa cautela: tema que costuma ganhar tratamentos formais ou excessivamente melodramáticos para deixar alguma lição, a deterioração física e mental da terceira idade não ganhava um relato memorável desde 2013, quando o austríaco Michael Haneke realizou o drama Amor. Já no caso específico do Mal de Alzheimer ou da demência, é bem provável que o último exemplar verdadeiramente delicado e comovente seja de 2006, ano em que Sarah Polley dirigiu Julie Christie em Longe Dela, adaptação do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro. Por mais que filmes dessa natureza surjam aos montes, como Iris, estrelado por Judi Dench e Kate Winslet, ou então Para Sempre Alice, que deu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore, são raros os vislumbres de criatividade e franqueza para retratar uma fase tão complicada da vida sem jogadas apelativas ou a vontade de ser um laudo cinematográfico de doenças que nos acometem na velhice.

E agora temos Meu Pai, que não só é um caso totalmente à parte como também se apresenta como o tipo de projeto que redefine o modo de contar histórias sobre essa temática. Sempre evito fazer tamanha afirmação, mas parece inevitável: em emoção e estrutura, não tenho notícias de outra discussão semelhante a essa que o francês Florian Zeller adapta de “Le Pére”, peça de autoria própria que estreou em 2012 na França e que chegou a ganhar o conceituado prêmio Molière de melhor espetáculo, sendo adaptada para países como os Estados Unidos com Frank Langella e para o Brasil com Fúlvio Stefanini. Aqui, o já esperado componente emocional é emoldurado pela decisão singular de narrar a história a partir da perspectiva do doente e não do cuidador, o que propõe um importante exercício de empatia (e, no caso de quem conviveu com alguém em situação equivalente à vivida pelo protagonista, tudo se ressignifica com imensa força). Melhor ainda é ver Zeller dando conta de um desafio em que até diretores como Roman Polanski já falharam: o de adaptar um espetáculo teatral para o cinema sem qualquer resquício da linguagem e da dinâmica dos palcos. Esse mérito, vale grifar, também vai para a conta de um roteiro muito bem lapidado que ele assina em parceria com Christopher Hampton, um craque das adaptações que tem no currículo trabalhos marcantes como Ligações Perigosas e Desejo e Reparação.

Com um belo e bem-vindo poder de síntese, Meu Pai descortina tudo o que está acontecendo com seu protagonista logo nos primeiros minutos. Aos oitenta e tantos anos, Anthony (Anthony Hopkins) tem esquecido o relógio, brigado com empregadas e dado sinais evidentes de que seu senso de memória e orientação não é mais o mesmo, para completa angústia de sua filha Anne (Olivia Colman), que está de mudança para Paris e precisa decidir o que fazer com o pai. No entanto, não temos certeza nem mesmo sobre as linhas gerais dessa introdução. Será que Anne está realmente indo para Paris? E a atriz que a interpreta é mesmo Olivia Colman? O retrato de um protagonista com Mal de Alzheimer (ou demência, já que o filme não chega a cravar uma definição exata) é extremamente fiel ao se passa na vida real considerando o comportamento de uma pessoa que vive sob essas condições: há a fixação com algum objeto específico (no caso de Anthony, um relógio que ele alega ser roubado a todo momento), as oscilações repentinas de humor, vislumbres inesperados de lucidez em meio a tantos esquecimentos, relatos de histórias que nunca aconteceram ou então são imprecisas em termos de tempo e espaço, a total negação do doente sobre sua condição e, claro, a própria falta de perspectiva acerca de quem o próprio doente é (menino, adulto, idoso, bailarino de sapateado ou engenheiro?). Chega a ser angustiante de tão realista.

Entretanto, a virada de chave de Meu Pai está mesmo na decisão de mostrar tudo a partir da perspectiva do protagonista. Não deixa de ser uma decisão para lá de arriscada se elencarmos as tantas armadilhas possíveis para esse formato, começando pelo simples fato de que, ao invés de mostrar a confusão do protagonista, o filme poderia se tornar bagunçado ou desordenado, e não no bom sentido. Pois Florian Zeller não titubeia em nenhum momento. O que Meu Pai nos proporciona é de fato a experiência única de viver a mesma desorientação de uma pessoa que começa a perder de forma gradativa toda e qualquer referência de tempo e espaço. Para construir tal perspectiva, atores trocam de papeis, a brilhante montagem do grego Yorgos Lamprinos alterna cenas onde não sabemos em que ponto elas verdadeiramente começaram ou terminaram e, ao melhor estilo Parasita, o design de produção assinado pela dupla Cathy Featherstone e Peter Francis se torna um personagem à parte, moldando, a partir da discreta transformação de cores e decorações de um apartamento, o desnorteamento espacial do protagonista. Isolados, tais elementos já fariam a diferença. No entanto, o domínio cênico de Zeller é tão grande ao costurar esse conjunto que nada parece mera curiosidade técnica. O efeito é fino e imersivo, especialmente quando lembramos que tudo se passa dentro de um único ambiente e que o propósito é fazer o espectador navegar em uma linha do tempo não muito clara.

No papel do protagonista, Anthony Hopkins é a força que, somada ao trabalho de Florian Zeller, torna Meu Pai um longa tão marcante. Lenda inquestionável, ele se mantem admiravelmente ativo aos 82 anos de idade. Na última década, trabalhou com Darren Aronofsky (Noé), fez blockbusters para se divertir ou ganhar alguns trocados (Thor: Ragnarok, Transformers: O Último Cavaleiro), deu o ar da graça em produções para TV e streaming (a série Westworld na HBO e a adaptação de Rei Lear para o Prime Video) e voltou ao Oscar após doze anos com seu maravilhoso desempenho como Bento XVI em Dois Papas, de Fernando Meirelles. Faltava, no entanto, um projeto comparável a sua estatura como Meu Pai, que combina a possibilidade do ator explorar o seu imenso repertório com o fato de ele participar de um filme singular. E Hopkins prova que não é lenda por acaso ao navegar nas fragilidades e angústias de um personagem que passa a perder o chão e que tenta de alguma maneira se agarrar ao que ainda lhe parece minimamente verdadeiro ou real. Do respeito e generosidade com que compreende a situação do protagonista a um trabalho técnico excepcional de olhares, gestos e movimentos corporais, o ator dá o tipo de aula que pode muito bem marcar o momento mais brilhante de uma carreira já construída em cima de performances memoráveis (e desafio alguém a não sair devastado do filme após a cena final carregada de emoções das mais diversas intensidades). O segundo Oscar de melhor ator que ele levou no último mês de abril não poderia ser mais merecido e ter vindo em um momento mais apropriado.

Menos reverenciada do que Hopkins, Olivia Colman também merece justiça por seu trabalho em Meu Pai. Como a atriz talentosa que é, ela concentra em cada expressão todos os sentimentos opostos de uma filha tomada pela tristeza de ver o pai desaparecendo ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões práticas e definitivas para definir tanto o seu futuro quanto o do próprio Anthony. Mais tocantes ainda são os momentos em que, aqui ou ali, encontra vislumbres de lucidez no homem que lhe deu a vida, lançando sorrisos esperançosos que, ela sabe, não duram por muito tempo. Seu desempenho é fundamental para a composição emotiva que Meu Pai faz dos momentos mais cotidianos envolvendo o contexto do Alzheimer. Sem didatismos e obviedades, Florian Zeller, repito, faz um dos filmes mais definitivos sobre o tema e, de quebra, entrega um resultado que ultrapassa os debates sobre a temática para também ser referenciado pela forma com que cinematograficamente oferece um novo olhar para tantas discussões. Li em algum lugar que, a seu próprio modo, Meu Pai não deixa de ser um filme de terror. E eu concordo: para além de um relato que nos faz entender melhor a jornada de idosos acometidos por doenças da mente, estamos diante de um espelho atemporal da nossa finitude, e principalmente do fato de que ninguém está livre de se tornar a pessoa mais indefesa do mundo ao se aproximar dela.

2 comentários em ““Meu Pai”, um retrato avassalador dos labirintos da mente e da finitude da vida

  1. Pingback: 49º Festival de Cinema de Gramado #3: “A Suspeita”, de Pedro Peregrino | Cinema e Argumento

  2. Texto excelente bem como a análise. Um dos filmes mais impactantes que já vi. O espectador lúcido, da poltrona, alucina junto, esquece junto, se confunde junto, se atordoa igual num labirinto de hipóteses e incertezas. Dói na alma assistir a essa filme, uma realidade dura que pode assolar a qualquer um de nós. Apesar de abalar as emoções, é imperdível.

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