Cinema e Argumento

Vídeo da Semana

Como hoje é dia dos namorados, o vídeo da semana é sobre relacionamentos. Temos aqui a narração final do segundo episódio da terceira temporada de Desperate Housewives. Pode não ser a melhor narração da série (que tem algumas espetaculares e inesquecíveis), mas é a mais apropriada para o momento. A série pode ter seus deslizes, mas as narrações nunca decepcionam.

“Have you met the perfect couple? The two soulmates whose love never dies? The two lovers whose relationship is never threatened? The husband and wife who trust each other completely? If you haven’t met the perfect couple, let me introduce you: they stand atop a layer of buttercream frosting. The secret of their success? Well, for starters, they don’t have to look at each other…”

“Você já conheceu o casal perfeito? As duas almas-gêmeas cujo amor nunca se esgota? Os dois amantes cuja relação nunca está ameaçada? O marido e a mulher que confiam inteiramente um no outro? Se você nunca conheceu o casal perfeito, deixe-me apresentá-los: eles ficam no topo de uma camada de chantilly. O segredo de seu sucesso? Bem, pra começar, eles não têm que olhar um para o outro…”

Margot e o Casamento

Margot e o Casamento, de Noah Baumbach

Com Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh e Jack Black

3

Até hoje não sei dizer o que viram no diretor Noah Baumbach. Seu filme de estréia, A Lula e a Baleia fez respeitável sucesso e colheu grandes admiradores pelo caminho. Eu não fui um deles. Até achei o suposto talento de Baumbach muito questionável, pois ele trabalha um gênero que aprecio muito (famílias disfuncionais e seus problemas de relacionamento), mas em momento algum traz alguma coisa de brilhante ou sequer muito interessante. O que não posso deixar de elogiar é a escolha que ele faz para o elenco, que no final das contas é o que mais marca. O seu segundo longa-metragem, Margot e o Casamento não obteve êxito e aqui no Brasil foi condenado a ser lançado diretamente em dvd. E tudo que o filme conquistou de expectativas foi por causa de Nicole Kidman, e não de Baumbach. A estrutura de Margot e o Casamento é bem parecida com a de A Lula e a Baleia. Praticamente a mesma, arrisco dizer – pegamos uma trama comum mas que pode render bons momentos (irmãs que não se entendem encontram-se para o casamento de uma delas), adicionamos um roteiro puramente falado e um bom elenco. O resultado? Morno. Mais uma vez o diretor não me convenceu.

Fiquei muito incomodado com o roteiro, que não se preocupa em humanizar os personagens, apesar da dimensão dramática que eles recebem. Em momento algum consegui me identificar com qualquer um deles, muito pelo contrário, até tive dificuldade de sequer aceitá-los. Principalmente com a Margot do título, que não é nem simpática, engraçada ou triste – é uma personagem que varia exaustivamente. No entanto, Nicole Kidman consegue extrair excelente desempenho da personagem. É a melhor atuação de Kidman desde… desde quando mesmo? Os méritos são dela, não da personagem. Sua companheira Jennifer Jason Leigh já tem papel mais agradável, talvez o melhor da história. Leigh também está ótima e tem grandes momentos quando o filme se encaminha para o final. Já Jack Black não tem muito o que fazer, já que sua participação não é muito destacada.

Margot e o Casamento tem excelentes conflitos que não foram trabalhados da forma mais instigante, mas que se tornam suficientemente aceitáveis para a produção. O filme é bem ligeiro e com agradáveis diálogos que dão dramaticidade a história. Repito: é uma produção com competência dramática, mas com condução equivocada. O resultado é cheio de falhas, que não são completamente compensadas por seus pontos positivos, porque estamos assistindo um produto inconstante. Ao final do filme, dá pra se entender porque ele foi lançado diretamente em dvd. É uma variação do trabalho de estréia do diretor, o que acabou por não me agradar muito. Pensei que veria alguma inovação ou mais inspiração, mas não. Assisti apenas boas atuações, alguns interessantes momentos e roteiro nada além do aceitável. E só.

FILME: 6.5

Filmes em DVD

Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Com Al Pacino, Chris Sarandon e Charles Durning

Arrisco dizer que Um Dia de Cão é o melhor filme de assalto que já assisti. Tudo é muito bem conduzido harmonicamente nesse filme tenso e poderoso, que prende o espectador até o último minuto. Não é só o roteiro premiado com o Oscar que faz com que tenhamos essa excelente produção. Ainda que ele e a direção de Sidney Lumet sejam essenciais para o bom andamento, é Al Pacino que brilha a anos-luz na frente de todo mundo. Impressionante como esse ótimo ator, aqui em início de carreira (33 anos atrás), consegue hipnotizar como o protagonista que nem desperta ódio no espectador – na realidade, até torcemos por ele. Recebeu uma merecida indicação ao Oscar por seu trabalho. Ele viria a conquistar o prêmio da Academia mais tarde, com o maravilhoso Perfume de Mulher. Um Dia de Cão, apesar de um pouco extenso, é poderoso e intrigante. Um verdadeiro exercício de tensão como não se vê há muito tempo em filmes desse estilo.

FILME: 8.5

As Pontes de Madison, de Clint Eastwood (revisto)

Com Meryl Streep, Clint Eastwood e Annie Corley

Um dos mais belos romances da década de 90 e talvez o mais sincero. Incrível como tudo em As Pontes de Madison é verossímil, desde os personagens até às situações que eles vivem. O roteiro de Richard LaGravanese (diretor de P.S. Eu Te Amo e Escritores da Liberdade) consegue ser emocionante na medida exata. Contudo, a grande estrela do filme é Meryl Streep, indicada ao Oscar por seu trabalho (perdeu para Susan Sarandon, por Os Últimos Passos de Um Homem), e no melhor desempenho de sua carreira. É aqui que ela volta a mostrar porque é a melhor atriz do cinema, uma profissional exemplar e impecável. De forma alguma a estrutura romântica convencional atrapalha As Pontes de Madison, pois seu teor romântico anula os defeitos do longa. Emocionante e belo, o filme merecia mais reconhecimento e com certeza não são poucas as pessoas que se encantaram com essa linda história de amor.

FILME: 9.5

Coisas Belas e Sujas, de Stephen Frears (revisto)

Com Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou e Sophie Okonedo

Um trabalho menor mas nem por isso menos competente e desinteressante do diretor Stephen Frears (um de meus diretores favoritos, que realizou excelentes produções como A Rainha e Ligações Perigosas). É uma mistura de filme-denúncia com boas doses de tensão e que trata de um tema difícil – o mundo do tráfico de órgãos – de forma muito instigante. A gélida e nebulosa fotografia ajuda a exaltar todo o mistério que envolve essa criminosa prática. Infelizmente não dá pra deixar de se notar que a estrutura parece com aqueles filmes que passam de madrugada na Globo, mas é a direção e o bom elenco (em especial Audrey Tautou, no seu primeiro filme de língua inglesa) que compesam esse defeito. Coisas Belas e Sujas recebeu uma merecida indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Mesmo que não seja uma pérola, merece ser conferido.

FILME: 8.0

Feitiço do Tempo, de Harold Ramis

Com Bill Murray, Andie MacDowell e Chris Elliott

Filme de sucesso dos anos 90 que funciona exatamente por causa de sua proposta. Talvez seja também um dos melhores momentos de Bill Murray (que até então só tinha me conquistado com Encontros e Desencontros) no mundo das comédias. Por mais que o tratamento de Feitiço do Tempo seja quase que totalmente cômico, existe uma pitada de melancolia naquela história. O diretor Harold Ramis percebeu isso e misturou muito bem esses dois gêneros quando necessário. A grande excelência do filme fica mesmo no roteiro e em seus atores (até a insossa Andie MacDowell está em boa atuação), os maiores atrativos desse ótimo filme que é diversão garantida para qualquer público. Seu único defeito é ficar repetindo a mesma comédia até o último minuto de filme. O que não funcionaria em um filme irregular. Mas aqui definitivamente não é o caso.

FILME: 8.0

Crimes do Coração, de Bruce Beresford

Com Diane Keaton, Sissi Spacek e Jessica Lange

O diretor Bruce Beresford sabe lidar com amor e amizade de uma forma bem convencional, mas que no final das contas acaba conquistando qualquer um. Antes desse Crimes do Coração ele havia ganho o Oscar de Melhor Filme por Conduzindo Miss Daisy, excelente filme que falava sobre a improvável amizade entre uma senhora e um negro. Nesse seu novo trabalho, que recebeu três indicações ao prêmio da Academia – incluindo melhor atriz para Sissi e roteiro adaptado – ele não apresenta nada que já não tenhamos visto no cinema. São três irmãs com personalidades diferentes que em um momento da vida (nesse caso quando o avô adoece) são obrigadas a se reunirem novamente. Uma está sendo acusada de tentativa de homicídio, outra quer ser famosa e a terceira envelheceu antes do tempo por ser a única que permaneceu cuidando do parente enfermo. A partir daí, elas vão destilar todas as frustrações que adquiriram através dos anos e tentar entender as suas histórias de vida. O enredo e a estrutura banal não prejudicam o filme, mas também não ajudam. Quem consegue fazer com que Crimes do Coração seja uma boa experiência é o excelente trio de atrizes, em especial Sissi e Diane, ambas excelentes e com uma grande química. De resto, nada de novo ou muito original.

FILME: 7.5

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, de Tim Story

Com Jessica Alba, Chris Evans e Ioan Gruffudd

Um velho ditado popular diz que “errar é humano”, mas também diz que “persistir no erro é burrice”. E é exatamente o que essa continuação de Quarteto Fantástico faz. Pior ainda, além de persistir em todos os pontos negativos de seu filme anterior, consegue tornar tudo mais desinteressante e pobre. Confesso que o filme anterior é um guilty pleasure meu, consegui assiti-lo sem criticismo e me diverti com o resultado, mas mesmo assim eu reconhecia todos os seus erros. Em Surfista Prateado também entrei na onda, mas a fórmula saturou e a infantilidade se tornou algo inaceitável para mim. Os efeitos especiais pouco ajudam a trama absurda e completamente inverossímil (mesmo se tratando de uma história em quadrinhos) e o elenco parece completamente perdido, como se estivessem atuando como “favor”. O diretor Tim Story mais uma vez se mostra um diretor medíocre e sem qualquer domínio em seu cargo. A aventura funciona durante alguns momentos, mas logo se perde na obviedade.

FILME: 5.5

Norbit, de Brian Robbins

Com Eddie Murphy, Thandie Newton e Cuba Gooding Jr.

Logo quando acabei de ver Norbit, minha sensação foi de alívio. Primeiro porque eu nunca vi tanta bobagem junta em toda minha vida, e segundo por Eddie Murhpy não ter um Oscar em mãos. Todo mundo sabe que ele não é um bom ator e que talvez Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho tenha sido um golpe de pura sorte, mas é difícil entender como Murhpy foi se meter em algo tão acéfalo depois de quase ter ganho o Oscar de ator coadjuvante. Não apenas ele, mas Thandie Newton e Cuba Gooding Jr. também não mereciam participar de tamanha idiotice. O filme nada mais é que isso – ridículo, sem graça, idiota e completamente inútil. A única coisa que presta mesmo é o excelente trabalho de maquiagem que foi indicado ao prêmio da Academia e que merecidamente não levou. Se alguém, um dia, me disser que gostou dessa “coisa”, perco a minha fé nesse mundo.

FILME: 2.0

Últimas Trilhas Sonoras

There Will Be Blood, por Jonny Greenwood

Todo mundo sabe que Sangue Negro é um drama diferente em diversos aspectos. É uma mistura de um épico sobre ganância e cobiça com uma grande reflexão religiosa e sobre valores familiares. Essa singularidade do filme de Paul Thomas Anderson também está presente na inovadora trilha de Jonny Greenwood. Alternando diferentes tipos de batidas e músicas, Greenwood acertou completamente ao criar um estilo musical único e memorável, fazendo jus a grandiosidade do filme. Uma pena não ter concorrido ao Oscar, pois era merecedora. Só algumas canções como Open Spaces, Future Markets e Prospectors Arrive já comprovam que a trilha merece respeito. Um trabalho memorável. Veredito: Para ouvir constantemente.

Into The Wild, por Eddie Vedder

Essa seja talvez a trilha mais injustiçada desse ano, e muitos blogueiros devem concordar comigo. O grande empenho de Eddie Vedder para compor a parte musical do filme de Sean Penn está plenamente visível nessa excelente trilha sonora. O cd possui uma canção mais bonita que a outra. E não apenas na música, mas na letra também. Toda a mensagem de Na Natureza Selvagem sobre solidão, sociedade e exclusão está presente na letra de cada composição. Só de se ouvir Guaranteed, a trilha já se torna interessante. Apesar de alguns exageros (Hard Sun), Eddie Vedder realizou um trabalho memorável, que até lhe rendeu o Globo de Ouro desse ano de melhor canção original. No entanto, é um absurdo saber que nenhuma de suas belíssimas canções (cito também Society) foi indicada ao Oscar, enquanto três musiquinhas de Encantada foram. Uma lástima. Mas o público deve fazer jus a trilha e imortalizá-la. Veredito: para ouvir constantemente.

Away From Her, por Jonathan Goldsmith

A trilha sonora de Longe Dela é um dos pontos mais fortes do longa de estréia da atriz Sarah Polley. Toda a melancolia daquela bonita história de amor está impressa em cada composição do trabalho de Jonathan Goldsmith, que acertou completamente no seu estilo sonoro simples e emocionante. Porém, existe um defeito que faz com que a trilha não seja tão memorável como poderia ser – é curta demais. As canções são breves e o cd acaba muito rápido. Para se ter uma idéia, metade das músicas possuem apenas, em média, um minuto de duração. Por isso acaba sendo uma maravilhosa experiência de poucos minutos que será esquecida em breve. Porém, o compositor faz um belíssimo trabalho na sua trilha, trazendo uma das melhores trilhas (se não a melhor) do cinema independente recente. Marnie’s Theme, Grant And Christie e Skunk Lillies são apenas algumas das belas faixas da trilha. Veredito: Para ouvir constantemente.

Cassandra’s Dream, por Philip Glass

Apesar de ainda não ter visto o mais recente trabalho de Woody Allen, fiquei curioso por conhecer a trilha ao saber que ela foi composta pelo gênio Philip Glass. A procura foi gratificante, e me deparei com um trabalho musical do compositor muito parecido com o seu anterior, Notas Sobre Um Escândalo. É o mesmo estilo só que um pouco mais repetitivo e pouco inovador. De qualquer forma, é Philip Glass, e não decepciona. Muito pelo contrário, encontramos aqui os típicos minimalismos dele que fizeram tanto sucesso. Relativament curta, a trilha funciona fora do filme, resta saber se ela se encaixa na produção. Cassandra’s Dream, Sailing e Death On The Boat são as passagens mais interessantes dessa boa trilha sonora que já fica entre as melhores do ano. Veredito: Para ouvir ocasionalmente.

Frida, por Elliot Goldenthal

O compositor Elliot Goldenthal roubou de Philip Glass o seu tão merecido Oscar. Um dos principais prêmios que As Horas merecia ter levado na festa da Academia era o de trilha sonora. Os votantes acabaram preferindo a trilha sonora de Frida, filme estrelado por Salma Hayek (no melhor momento de sua carreira), que conta a história da pintora Frida Khalo. Confesso que durante um bom tempo quis fugir dessa trilha, mas até que o resultado é bem gratificante. Fica visivel que a Academia prefere essas composições latinas com violão (vide as duas vitórias injustas de Gustavo Santaolalla e a premiação da música Al Otro Lado Del Río), mas o prêmio para essa trilha foi um certo exagero. Por mais que tenha ótimas passagens como Floating Bed, Portrait Of Lupe e Still Life, a trilha nunca passa do “simpático” e do “regular. Competente trabalho de Elliot Goldenthal, mas superestimado. Destaque para a participação de Caetano Veloso na bela Burn It Blue. Veredito: Para ouvir as favoritas de vez em quando.

Obrigada ao Pedro, ao Wally e a Kamila, que no post anterior fizeram sugestões para essa segunda edição de críticas sobre trilhas sonoras. O espaço continua aberto para dicas.

Vídeo da Semana

A abertura do seriado Damages contém uma das canções mais contagiantes já exibidas no mundo televisivo. When I Am Through With You, de The VLA dá o tom certo para a montagem de abertura. Damages merece ser conferida, especialmente por causa do memorável desempenho de Glenn Close e de sua trama adulta e inteligente.