Cinema e Argumento

Filmes em DVD

goodbadugly

Três Homens em Conflito, de Sergio Leone

Com Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef

4

Confesso que não sou grande fã de filmes faroeste, mas esse conseguiu me conquistar. A princípio, pode ser dito que Três Homens em Conflito estica demais uma simples história. Isso é verdade, mas o diretor Sergio Leone conduz tão bem a trama que fica complicado resistir ao resultado final. O roteiro prende a atenção do início ao fim e ainda é embalado por uma marcante trilha do gênio Ennio Morricone. Não é uma obra de quinta grandeza como os votantes do IMDB apontam (é o quarto melhor filme da história, de acordo com eles), mas sem dúvida é respeitável e muito interessante.

FILME: 8.5

straightstory

História Real, de David Lynch

Com Richard Farnsworth, Sissy Spacek e Ed Grennan

4

Se eu assistisse História Real sem saber absolutamente nada sobre a produção e me perguntassem quem é o diretor, nunca ia passar pela minha cabeça o nome de David Lynch. Lynch, conhecido por obras densas e complexas, realiza aqui um dos seus filmes mais simples; um drama bem óbvio, por sinal. Mas tamanha é a sinceridade do roteiro e a ótima interpretação de Richard Farnsworth (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), que o filme termina por ser uma experiência emotiva e muito prazerosa. É um road movie sem pretensões e que consegue, a cada minuto, passar para o espectador de forma muito verdadeira os sentimentos do protagonista.

FILME: 8.5

sicko

Sicko – S.O.S. Saúde, de Michael Moore

Documentário

3

Sempre acho os documentários de Michael Moore muito interessantes. Mas, também sempre chega em determinado ponto deles que eu começo a ficar cansado. Não foi diferente com Sicko – S.O.S. Saúde, outro filme do diretor que trata de uma temática instigante e com teor contra os Estados Unidos. Explorando bem os problemas do sistema de saúde americano (e, tornando-se ótimo quando mostra como outros países lidam com o bem-estar de suas populações de maneira diferente), o roteiro perde as suas forças quando coloca política no meio. Por mais que a política fosse inevitável no documentário, tirou um pouco do encantamento da discussão.

FILME: 7.5

orfanato

O Orfanato, de Juan Antonio Bayona

Com Belén Rueda, Fernando Cayo e Geraldine Chaplin

3

Esperava mais desse suspense espanhol que fez relativo sucesso no circuito de arte  e foi o representante da Espanha para o Oscar do ano passado. Existe muito de Os Outros em sua estrutura – e, por vezes, é parecido até demais – mas é bem mais complexo do que o filme de Alejandro Amenábar. Mas nem por isso melhor. O Orfanato é um filme que mistura drama e suspense com muita habilidade e ainda conta uma excelente interpretação de Belén Rueda. O final, que demora a ser digerido, encerra o longa com estranhamento e questionamentos, mas também com uma linda cena final. Pena que eu não tenha achado, no geral, que a história é necessariamente envolvente ou original.

FILME: 7.5

revroad

Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes (revisto)

Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio e Kathy Bates

3

Resolvi dar uma segunda chance para esse longa-metragem, que não me conquistou na primeira vez – e que foi até uma decepção, inclusive. O fato é que o filme, realmente, não é nada demais mesmo. É uma mistura dos filmes de Todd Field, As Horas e Beleza Americana, só que em escala bem menor de qualidade. Aqui só podemos ressaltar a ótima Kate Winslet, Michael Shannon e a excelente produção técnica (os figurinos, a fotografia e a direção de arte são ótimos pontos técnicos). O problema é que o filme nunca empolga e em certos momentos fica até irritante por conta de suas discussões intermináveis e histéricas. Uma pena que o resultado não tenha sido o esperado, já que Foi Apenas Um Sonho tem interessantes reflexões.

FILME: 6.5

leatherheads

O Amor Não Tem Regras, de George Clooney

Com George Clooney, Renée Zellweger e John Krasinski

2

Lançado diretamente em DVD – dá pra entender bem o porquê – O Amor Não Tem Regras é um fracasso. George Clooney, um excelente diretor, realizou aqui um trabalho muito decepcionante. A culpa não é totalmente dele, uma vez que o roteiro também é fraco e com uma história pouco interessante. Por mais que os atores estejam à vontade em cena, não dá pra curtir o longa sem se sentir incomodado com a falta de carisma da produção. Tem boa ambientação e um visual legal, mas isso não é o suficiente para elevar o longa a um patamar significativo, ou sequer salvá-lo do monótono.

FILME: 5.5

Inimigos Públicos

Direção: Michael Mann

Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Lili Taylor, Carey Mulligan, Giovanni Ribisi, Emilie de Ravin

Public Enemies, EUA, 2009, Policial, 135 minutos, 16 anos

Sinopse: Ninguém podia deter Dillinger (Johnnt Depp) e sua gangue. Nenhuma prisão o segurava. Seu charme e suas audaciosas fugas ganhavam a afeição de quase todos – desde sua namorada Billie Frechette  (Marion Cotillard) até americanos que consideravam que Dillinger estava tirando dos bancos o dinheiro que os bancos haviam tirado indevidamente deles. Mas enquanto as aventuras da gangue de Dillinger impressionavam muita gente, J. Edgar Hoover planejou explorar a captura do fora-da-lei como forma de elevar seu Bureau de Investigação a uma força policial nacional que mais tarde seria conhecida como FBI. Para isso, ele tornou Dillinger o primeiro Inimigo Público Número 1 dos EUA e colocou o agente Melvin Purvis (Christian Bale) em seu encalço.

Infelizmente, ao fim da sessão, dá pra chegar a conclusão de que Inimigos Públicos é apenas mais um desses filmes sobre ladrões de bancos. Poderia ter sido muito mais do que isso, uma vez que temos um grupo de pessoas talentosas envolvidas no projeto. Mas não foi além do convencional. De qualquer forma, é um bom filme de Michael Mann, que faz tudo certinho (às vezes, até demais) e tem um resultado positivo, sem maiores falhas. Ponto. Não vamos encontrar coisas espetaculares em cena ou aspectos dignos de premiação.

Pra falar bem a verdade, Inimigos Públicos me atraía mais pelo elenco do que pelo diretor ou pela história, já que não me interesso muito por esses enredos de ladrões de banco. O que dá pra ser constatado na narrativa do filme é que ela é previsível. O roteiro se repete o tempo inteiro: Dillinger (o protagonista vivido por Johnny Depp) assalta, a polícia está sempre atrasada; Dillinger passa alguns momentos com Billie (Marion Cotillard), Dillinger é preso; Dillinger acaba fugindo, a polícia está sempre a um triz de ter o assaltante em mãos… E, daqui a alguns minutos, o ciclo começava novamente.

De interessante mesmo temos a boa direção do Michael Mann (que tenta reproduzir o estilo Paul Greengrass de filmar ação, o que já virou moda hoje em dia) e a presença dos atores, em especial a francesa Marion Cotillard – apresentando uma dicção perfeita em inglês – que conseguiu criar uma boa química com Johnny Depp (em boa aparição, mas que fica devendo um pouquinho por sua representação sem maiores nuances).

Inimigos Públicos é um filme policial que, sem dúvida, funciona. Tem tudo no seu lugar. Talvez seja por isso que não cative muito. O conjunto final é muito correto, sem audácia – e esperava-se justamente o oposto, principalmente do diretor Michael Mann, que tem até um estilo interessante de filmar as suas histórias. O longa-metragem, portanto, tem suas virtudes. Mas, assim como a polícia no enredo da película, está sempre a um passo de alcançar aquilo que vai fazer a diferença.

FILME: 7.0

3

 

Opinião – A felicidade de Poppy

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Simplesmente Feliz”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Não é novidade para ninguém que eu detesto o filme Simplesmente Feliz. Mas, por mais que eu não goste do longa de Mike Leigh, existem alguns tópicos interessantes sobre ele a serem observados. O principal, claro, é a personalidade da protagonista Poppy (Sally Hawkins, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical). Adorada e detestada por muitos, a personagem é uma das mais intrigantes dessa temporada. Afinal, qual é o sentido da felicidade excessiva dela?

Em certa cena do longa de Mike Leigh, uma personagem diz para Poppy: “Você não pode fazer com que todos sejam felizes” e a protagonista retruca afirmando que não custa nada tentar. Agora, a maneira como Poppy traça a sua jornada é bem duvidosa. Tudo bem que ela sempre está sorrindo, achando graça em tudo e animada. Mas, tudo isso aparece em excesso nela. Acha tudo engraçado, parece meio hiperativa (às vezes os personagens estão falando e ela não parece nem ouvir) e quer que todo mundo aceite esse seu espírito.

Scott (Eddie Marsan) foi um que não conseguiu aguentá-la por muito tempo. Até concordo que a figura dele é excessivamente mal-humorada – o oposto de Poppy – mas, sinceramente, ela infernizou bastante a vida dele para merecer aquele puxão de cabelo no final do filme. Mas, por um outro lado, existem alguns personagens na história que aceitam Poppy numa boa, ainda que estejam conscientes de que esse seu espírito bondoso (e que dá uma aparência de ingenuidade perante ao mundo à ela) não é a melhor escolha em determinados casos.

Tal “felicidade” leva Poppy a alguns “perigos”. Além de fazer com que seu instrutor de auto-escola partisse para a agressão, ela inventa de conversar com um mendigo na calada de noite. E, tal cena, eu gostaria que alguém me explicasse o significado, pois não vi nenhum ali. Porque não é um caso de felicidade, ela parece estar sob o efeito de drogas na cena, onde fica falando coisas sem sentido e totalmente viajando na maionese com o mendigo. Aquilo era felicidade?

Está bem, eu confesso que não sou uma pessoa muito acessível a essas histórias super felizes e com pessoas que estão sempre de bem com a vida – uma vez que não possuo muito esse espírito. O que acontece é que a felicidade demonstrada em Simplesmente Feliz é elevada a uma potência meio que inacreditável. Não acho palpável a possibilidade de existir alguém como Poppy, que parece ignorar o fato de que, em alguns casos, a tristeza pode tomar conta. Ou que acha que tudo tem um lado positivo. Nem tudo é felicidade, Poppy!

E você? O que acha da felicidade da Poppy?

_

Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

Dez Cenas Finais da Década

Só a interpretação do Jack Nicholson na cena final de As Confissões de Schmidt já bastaria para que o momento fosse um dos melhores da década. No entanto, a cena é carregada de emoção e não é só o personagem que se abala emocionalmente com o desenho que o garoto Ndugu mandou da África. Encerrando com perfeição a história, o momento é uma grande prova do talento do diretor Alexander Payne e, claro, de Nicholson.

kmpdvd002867180957

É no último momento de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças que está centrado o maior momento emotivo entre Joel (Jim Carrey, ótimo) e  Clementine (Kate Winslet, excelente). Depois de tantos encontros, desencontros e desentedimentos, o casal finalmente coloca os pingos nos is em uma conversa interessantíssima e que marca, acima de tudo, a complexidade dos relacionamentos humanos. É o fim e também o começo da história.

A carta e o suicídio de Virginia Woolf  (Nicole Kidman, quase irreconhecível) encerram o longa-metragem de Stephen Daldry com perfeição. Extremamente poético em sua profunda essência, o desfecho de As Horas é um dos mais emblemáticos da década, provando que o filme,  além de ser um dos melhores dos últimos anos, também tem inúmeras cenas que ficam marcadas no espectador.

Se já não bastasse a cena de Sylvia (Kate Winslet) entrando na Terra do Nunca, Marc Forster ainda criou outra cena para levar o espectador às lágrimas. Numa emocionante conversa entre James (Johnny Depp) e Peter (Freddie Highmore), o roteiro chegou em outro momento marcante e, junto com as duas ótimas atuações e a trilha de Jan A.P. Kaczmarek, construiu mais um momento memorável de Em Busca da Terra do Nunca.

Para quem não leu o livro de Ian McEwan – como eu – esse final de Desejo e Reparação foi uma surpresa. Extremamente comovente por causa da grande revelação sobre o destino de Cecilia (Keira Knightley) e Robie (James McAvoy), a cena ainda causa impacto por causa de Briony (Vanessa Redgrave), visivelmente arrependida de seus atos e querendo, a todo custo, reparar os grandes erros de seu passado. Excelente participação de Vanessa Redgrave.

Laura Linney e Mark Ruffalo comandam, com muito sentimentalismo, essa bela cena de Conte Comigo, que marca a despedida de dois personagens em uma parada de ônibus.  Ruffalo e Linney alcançam um resultado significativo e dão, mais uma vez, uma demonstração de seus talentos. O filme pode até não ser grande coisa, mas a cena final, realmente, é de emocionar quem conseguiu se comunicar com o filme.

Outro adeus que encerra um filme de forma impecável. Ao som de Just Like Honey, acompanhamos a sincera despedida dos dois principais personagens de Encontros e Desencontros. Bill Murray e Scarlett Johansson (no melhor desempenho de sua carreira) deixam para o espectador a dúvida sobre o que foi sussurrado naquele abraço nas ruas de Tóquio. Um momento muito inspirado da diretora Sofia Coppola.

Odiada por alguns e adorada por outros, a cena final de Dúvida é desconcertante. Consegue o feito de mostrar a fragilidade de um ser humano rigoroso e ainda termina o filme de John Patrick Shanley enfatizando a força do título do filme. É uma das melhores cenas de Meryl Streep no longa e sua companheira Amy Adams não fica atrás em cena. Gostando ou não, é impossível negar que o final é um dos que mais dividiu opiniões na década.

The Blower’s Daughter, do cantor Damien Rice, é a grande razão por essa cena estar incluída aqui. Embalando as cenas que mostram os destinos dos personagens, a música carrega boa parte da emoção do longa e termina de um jeito impecável o doloroso longa de Mike Nichols. No início do filme, ela até não podia ter tanto impacto, mas no final se torna inesquecível quando tocada.

pprada

O sorriso de Miranda Priestly (Meryl Streep), dentro do carro após reencontrar Andrea (Anne Hathaway), já se tornou um dos melhores momentos contemporâneos de Meryl Streep. Ao mesmo tempo em que ela passa a frieza de uma mulher que não quer se render aos sentimentos quando está na frente dos outros, também transmite com muita habilidade o que se passa no íntimo da inesquecível personagem. Cena maravilhosa.

17 Outra Vez

Everyone’s happier with me out of the picture, Ned. It’s time to move on…


Direção: Burr Steers

Elenco: Zac Efron, Leslie Mann, Matthew Perry, Thomas Lennon, Michelle Trachtenberg, Allison Miller, Melora Hardin

17 Again, EUA, 2009, Comédia, Livre, 105 minutos

Sinopse: Mike (Zac Efron) é um dos garotos mais populares da escola, atleta a caminho de uma excelente universidade. Mas, resolve jogar tudo para o ar e se casar com sua namorada de colégio. Depois de 20 anos, quando sua vida não é exatamente aquilo que planejou, ele tem um encontro com um misterioso funcionário da escola e, de uma hora pra outra, volta a ter 17 anos. Assim começa uma série de trapalhadas e problemas com a esposa e os filhos – que agora estudam com ele.

Não sei quanto a vocês, mas toda vez que eu enxergo o rosto de Zac Efron me vem à cabeça aquelas terríveis músicas de High School Musical e a imagem de várias garotas babando ou gritando pelo ator. O musical da Disney foi uma maldição e uma benção para Efron. Enquanto conseguiu dinheiro e sucesso, também ficou marcado com o seu tipinho teen que causa repulsa em várias pessoas. Se em Hairspray – Em Busca da Fama ele se despiu do seu típico visual e até que teve um bom resultado, em 17 Outra Vez ele mostra que não precisa mudar a sua conhecida aparência para mostrar que pode ir além de meras cantorias e coreografias dirigidas ao público adolescente.

Claro que Zac Efron não causa surpresa e muito menos apresenta uma interpretação marcante. O que ele faz é usar toda a sua simpatia e desenvoltura para tentar fugir da imagem que ele constriu nos musicais da Disney. Portanto, Efron está muito à vontade como protagonista e, sem dúvida alguma, é um bom astro para  filmes mais descontraídos – ainda que ele, possivelmente, tenha potencial para fazer produções melhores e diferentes. Inclusive, ele consegue ser mais efetivo que o Matthew Perry (a versão adulta do jovem na história). O ator de Friends tem poucas cenas, é verdade, mas não causa empatia alguma em suas chances.

A trama, mais batida impossível, já foi mostrada no cinema em milhares de vezes. 17 Outra Vez é mais um exemplar do gênero que não traz diferencial algum. Porém, é um longa que é efetivo, não subestima a inteligência do espectador e em momento algum se utiliza de artifícios grotescos para produzir humor. Não se importa com sua previsibilidade e tenta torná-la mais aceitável. Isso, de certa forma, é notável para um filme com esse tipo de história, já que normalmente essas produções costumam testar a paciência de quem está assistindo tanta bobagem em cena. 17 Outra Vez tem sim os seus clichês, mas são encenados de uma maneira que eles não soam prejudiciais ao resultado final.

Ninguém vai acabar de ver a película de Burr Steers (do irregular A Estranha Família de Igby) achando que a produção é hilária, inteligente ou surpreendente. Mas, a boa notícia é que também ninguém vai pensar que é uma desgraça ou um insulto ao cinema. 17 Outra Vez fica sim num meio termo – justamente, como já foi mencionado, pelo fato de tratar uma história desgastada de maneira um tanto comum – mas acho que vai agradar quem estiver disposto a assistir mais do mesmo. Afinal, se você for assistir o filme, não é porque está esperando algo original ou inovador, nao é mesmo?

FILME: 6.5

3