Cinema e Argumento

Últimas Trilhas Sonoras

Chéri, por Alexandre Desplat

Digo, com a maior certeza, que Alexandre Desplat é um dos maiores gênios quando o assunto é trilha sonora. Depois que estourou com O Despertar de Uma Paixão e A Rainha, não parou mais. Desplat está sempre realizando trabalhos maravilhosos e, de vez em quando, alcança níveis espetaculares. Foi assim, mais recentemente, com O Curioso Caso de Benjamin Button e Coco Antes de Chanel. Agora, é a vez do compositor apresentar mais uma trilha extraordinária com Chéri. Algumas canções nos remetem ao trabalho de A Rainha e isso é um ótimo sinal. A parte sonora de Chéri é fundamental para o filme e, mesmo quando escutada separadamente, funciona em altos níveis.

The Fog of War, por Philip Glass

Outro excepcional trabalho do mestre Philip Glass, que aqui alcança um nível espetacular. Não é apenas a qualidade das composições que impressiona na trilha de Sob a Névoa da Guerra. Outro aspecto notável é como Glass consegue sustentar a qualidade de todas as faixas em um álbum que possui mais de 30 composições. A trilha, portanto, além de ser um grande trabalho, permanece quase que intacta durante todo o tempo. Pena que seja uma passagem pouco conhecida da carreira de Glass.

Taking Lives, por Philip Glass

Às vezes, Philip Glass se arrisca em projetos mais comerciais e não se sai tão bem. É o caso da trilha desse suspense completamente mediano chamado Roubando Vidas. O curioso é que, em alguns momentos, Glass ainda consegue colocar melodias de piano em uma trilha tensa (como na faixa Martin Reese Childhood). No entanto, o resultado fica no óbvio. Glass até tem alguns momentos de inspiração, mas cai no banal e realiza um álbum que não traz nada de diferente. Um momento comum na carreira de um compositor genial.

Los Abrazos Rotos, por Alberto Iglesias

Não sou muito fã do estilo de Alberto Iglesias. Mas, de vez em quando, ele costuma acertar. Na trilha de Abraços Partidos, ficou no meio do caminho – assim como o filme. Se existem algumas faixas bem significativas (minha favorita é Final y a Ciegas), existem outras simplórias e banais. Iglesias seguiu a cartilha e apresentou o que, normalmente, sempre apresenta quando é convidado para fazer as trilhas de Pedro Almodóvar. Só faltou um pouco de inovação. Se é para ver mais do mesmo, é melhor ouvir novamente outros álbuns de Iglesias com maior qualidade.

The Hurt Locker, por Marco Beltrami & Buck Sanders

Juro que não entendi quando vi o nome de Marco Beltrami e Buck Sanders entre os indicados ao Oscar de melhor trilha sonora. Primeiro, os votantes costumam ignorar trilhas que foram feitas por duplas. Segundo, o trabalho deles não possui excelência alguma para figurar na lista. Guerra ao Terror pode até ter méritos quando realiza cenas de tensão, mas certamente a trilha não é uma das conquistas do filme. Beltrami e Sanders foram básicos demais e não deixaram impressão alguma. Tanto, que, após o filme, eu nem lembrava da trilha. O susto foi maior ainda quando a vi entre as finalistas do Oscar. Mas, eles precisavam puxar o saco do filme, não é mesmo?

A Enseada

Direção: Louie Psihoyos

Documentário, EUA, 2009, 92 minutos, 12 anos

Sinopse: Documentário que expõe a matança dos golfinhos no Japão, onde cerca de 23 mil são mortos anualmente e muitos outros são capturados para serem enviados para parques de diversões. O filme mostra Taiji, uma pequena cidade do Japão que parece ser dedicada às maravilhas e mistérios dos elegantes e brincalhões golfinhos e baleias que nadam ao largo das suas costas oceânicas. Mas, em uma remota enseada cercada por arame farpado e placas de “afaste-se”, é onde os pescadores de Taiji, impulsionados por uma multi-bilionária indústria do entretenimento com golfinhos e um mercado clandestino de sua carne, participam de uma caçada invisível.

Um gênero que me desperta diversas sensações com muita frequência é o documentário. Já me emocionei muitas vezes e também já até fiquei literalmente empolgado (caso do ótimo Murderball – Paixão e Glória). O vencedor do Oscar desse ano na categoria, A Enseada, é mais um exemplo de como esse cinema consegue atingir o espectador. Só que, dessa vez, o tom é de denúncia – o que aumenta o destaque do tema debatido.

É muito fácil se chocar ao ouvir sobre massacre de golfinhos. Mas o que acontece quando você realmente tem a possibilidade de ver como isso acontece? A Enseada é exemplar na apresentação dos dados e, principalmente, nas explicações de cada uma das fontes. O roteiro que, a princípio, só mostra a percepção das pessoas que lutam pela causa, vai aos poucos se tornando cada vez mais real. E, em determinado ponto, mostra literalmente o que acontece na tal enseada do título, onde milhares de golfinhos são mortos.

Não cabe, nesse post, divagar sobre a minha opinião em relação a esse massacre. Não é o objetivo desse texto. Portanto avalio A Enseada do ponto de vista cinematográfico. E, posso dizer que o resultado é extremamente satisfatório. Ágil – porém, nunca nem perto do frenético – o filme desperta o interesse de todos, culminando naquele tipo de final que nos motiva a também lutar pela causa. Acho que esse é o grande feito de um documentário de denúncia: mostrar a causa e motivar o espectador a lutar por ela.

Nunca apelativo, o documentário tem alguns momentos de deslize no ritmo – as partes políticas quebram um pouco a fluidez do roteiro – e, também, parece acabar num piscar de olhos. Talvez, tenha sido melhor assim, já que esse estilo de cinema nunca pode discursar por tempo demais, já que corre o risco de aborrecer quem está vendo. A Enseada, no final das contas, é exemplar em inúmeros aspectos: seja no conteúdo, na forma, no roteiro ou na direção. Contudo, como já dito, tem o grande coringa de motivar o espectador. Algo que, para mim, já é o suficiente.

FILME: 8.5

Mary & Max – Uma Amizade Diferente

Direção: Adam Elliot

Com as vozes de Philip Seymour Hoffman, Toni Collette, Barry Humphries, Eric Bana, Bethany Whitmore, Renée Geyer

Mary and Max, Austrália, 2009, Animação, Livre

Sinopse: É baseado em uma história real de dois personagens bastante distintos que passam a se corresponder por cartas e formar uma amizade. Mary (voz de Bethany Whitmore e Toni Collette) é uma garotinha de 8 anos que não possui amigos e tem pais problemáticos. Max (voz de Philip Seymour Hoffman) é um homem obeso de 44 anos que sofre de síndrome de Asperger e também não possui amigos. A história gira em torno de suas cartas e das consequências que elas causam.

Os desenhos com temáticas adultas sempre existiram. Mas, é impressionante como, nos últimos tempos, esse estilo se destacou com grande frequência. Até mesmo aquelas animações mais comerciais e dirigidas ao público infantil trouxeram nem que fosse uma cena  com alguma mensagem mais madura. A Pixar se especializou no assunto. Tanto, que os três últimos trabalhos da produtora (Ratatouille, WALL-E e Up – Altas Aventuras) tinham contornos que crianças ainda não têm capacidade de compreender.

Mary & Max, apesar da classificação livre, é totalmente dirigido a adultos. Não é o caso à la Pixar em que a essência é infantil e que alguns retoques são adultos. Essa realização de Adam Elliot conta uma história cheia de problemáticas emocionais: a Mary do título é sozinha, tem uma mãe alcóolatra, mal conhece o pai distante e ainda é maltratada na escola. Já Max é obeso, tem síndrome de Asperger e quase não tem contato com a sociedade. Também, em certo ponto, temos envenenamento, casos de depressão e até mesmo um personagem se descobrindo gay!

Apesar dessas tramas bem dramáticas, Mary & Max faz um tratamento irônico e divertido desses fatos. Claro que, de maneira alguma, o filme abandona a tristeza dessas storylines. Mas, também, não esquece que o filme não pode ser afogado por elas. Existe um balanceamento fundamental entre drama e comédia na história, o que confere um tom harmônico entre os dois gêneros. Se a sinopse, junto com maiores detalhes da história, parecem apresentar um filme triste, a abordagem narrativa deixa uma impressão bem diferente.

A animação não chega a ser excepcional, mas conquista facilmente. O maior mérito é a excelente humanização dos personagens, principalmente com a sinceridade da história entre os dois. Mary & Max poderia, facilmente ter entrado para os indicados ao Oscar de melhor animação, pois tem um feito irrepreensível: é uma história corriqueira e que se fosse filmada com pessoas de verdade, talvez, não tivesse o mesmo efeito. No entanto, aqui, esse enredo banal foi representado de uma forma que escapa do óbvio. Algo comum narrado de uma maneira diferente. O que já é o suficiente para merecer algum tipo de reconhecimento.

FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Nova York, Eu Te Amo

Direção: Vários

Elenco: Julie Christie, Orlando Bloom, Natalie Portman, Kevin Bacon, Ethan Hawke, Chris Cooper, Robin Wright Penn, Shia LaBeouf, Christina Ricci

New York, I Love You, EUA/2009, Drama, 103 minutos, 14 anos

Sinopse: O longa reune histórias independentes ambientadas em Nova York. Em “Nova York, Eu Te Amo!” onze diretores contam histórias de amor que se passam na cidade de Nova York.

Nem vou entrar em maiores desdobramentos sobre a minha opinião em relação a essa eterna modinha hollywoodiana de reproduzir todo e qualquer formato que faz sucesso. Indo direto ao assunto, Nova York, Eu Te Amo é mais uma falha tentativa americana de copiar um estilo que deu certo para alcançar sucesso. Se na versão de Paris, Te Amo o conjunto, por mais irregular que fosse, era interessante e, em alguns casos, genial (o segmento de Alexander Payne, por exemplo), aqui na versão americana não chega nem perto do mesmo feito.

Alguns curtas possuem o seu charme e outros são extremamente figurativos e bem dirigidos (destaco, principalmente, aquele estrelado por Julie Christie e Shia LaBeouf, que tem uma linda fotografia). No entanto, tudo fica muito longe de causar qualquer tipo de empolgação. Além do formato por si só já atrapalhar a aceitação, fica a impressão que é uma reciclagem inferior da versão francesa. O que é verdade. Nova York, Eu Te Amo tem vários rostos conhecidos, mas é uma pena que nenhum se sobressaia e que o resultado geral não passe do mediano.

Já existe uma versão brasileira sendo planejada para ser rodada em breve. É bom os envolvidos capricharem e apresentarem algo de novo. Porque, se for para ver mais do mesmo, vou dispensar a experiência. Nova York, Eu Te Amo, portanto, pode até parecer original e interessante para quem não assistiu “Paris”, mas, ao menos para mim, não surtiu qualquer sensação de originalidade. É um filme que tem seus momentos, mas que não consegue rivalizar com os roteiros banais que se encaixaram nesse formato que necessita de momentos cheios de ideias boas.

FILME: 6.5


Filmes em DVD

Perigosa, de Alfred E. Green

Com Bette Davis, Franchot Tone e Margaret Lindsay

Outra grande interpretação de Bette Davis – que recebeu, merecidamente, seu primeiro Oscar  de melhor atriz com esse filme. Perigosa é enxuto e objetivo (não chega a ter nem 80 minutos de duração) e narra, com muita habilidade, a vida de uma estrela decadente e alcóolatra que encontra em uma nova paixão a possibilidade de se reerguer. Os diálogos são ótimos e tanto Davis quanto o seu par Franchot Tone colocam muita verossimilhança em cada palavra. Perigosa não chega a ser um daqueles clássicos estupendos que encantam em todos os aspectos – mas só pela maravilhosa interpretação de Davis e pelo excelente roteiro já temos um longa-metragem digno de maiores elogios.

FILME: 8.5

À Deriva, de Heitor Dhalia

Com Débora Bloch, Vincent Cassel e Laura Neiva

Logo o filme já começa e já dá para perceber que À Deriva não é um produto qualquer. Só a linda trilha sonora e a fotografia diferente já nos trazem a sensação de que o novo longa-metragem de Heitor Dhalia se difere de tantos dramas corriqueiros no cinema brasileiro. E, na medida em que o roteiro se desenvolve, mais temos essa certeza. Não só tem claras referências derivadas de Desejo e Reparação – notem como a personagem de Laura Neiva lembra muito a Briony Tallis de Saoirse Ronan: ela é jovem, muito madura para a sua idade e, de um jeito ou de outro, passa a interagir com o mundo adulto em sua volta (assim, criando sua própria visão dos fatos). À Deriva narra um verão de uma família que está sucumbindo devido a dificuldades emocionais. Não sei se Heitor Dhalia alcançou um resultado excepcional, mas conseguiu, com muita facilidade, realizar o melhor filme nacional desde Jogo de Cena.

FILME: 8.5

A Vida de David Gale, de Alan Parker (revisto)

Com Kevin Spacey, Kate Winslet e Laura Linney

Tinha assistido esse filme muitos anos atrás e lembro de ter ficado extremamente surpreendido com o resultado. Numa revisão, não me pareceu tão maravilhoso quanto eu lembrava e algumas falhas e clichês ficaram mais evidentes. Mas, ainda assim, permanece como um filme exemplar. Começamos pelo ótimo elenco: o trio Spacey-Winslet-Linney está ótimo, todos honrando os seus respectivos nomes. Além deles, o roteiro é muito bem amarrado e tem cenas bem intensas – principalmente aquelas que envolvem o desfecho da personagem de Linney. A Vida de David Gale tem duas horas de duração e se sustenta muito bem até o final (tanto, que até a última tomada traz uma última revelação). É um suspense que não está livre de aspectos desnecessários, mas que tem um balanço final extremamente positivo.

FILME: 8.5

A Última Noite, de Robert Altman (revisto)

Com Meryl Streep, Kevin Kline e Lily Tomlin

Esse foi o último filme de Robert Altman e poucas pessoas deram importância. E, a grande maioria que viu, só se preocupou em dizer que o filme não estava à altura do diretor. A Última Noite, na minha opinião, serviu perfeitamente como um filme de despedida para o diretor. O enredo não poderia ser mais saudosista e o elenco entendeu completamente isso – todos os atores parecem extremamente sinceros e envolvidos por essa premissa. Quem pretende assistir, já tem que saber previamente que o filme quase não tem história e que narra, exclusivamente, o último dia de um programa de rádio. Por isso, A Última Noite é repleto de números musicais. Quem aprecia filmes assim, vai aprovar o resultado. Quem não se sente atraído, não deve tentar. Mas não custa dar uma chance, nem que seja para ver os atores em ótimos momentos (e dá para incluir até mesmo Lindsay Lohan) – em especial Meryl Streep e Lily Tomlin, iluminadas em uma excelente parceria.

FILME: 8.0

Se Beber, Não Case!, de Todd Phillips

Com Bradley Cooper, Ed Helms e Zach Galifianakis

De tanto que culturam esse filme, fui me afastando dele. Conferi por acaso e, realmente, não é essa preciosidade que tanto apontaram. Mas a verdade é que não dá para ignorar o guilty pleasure que esse sucesso é. Não existe nada de novo – é apenas uma reciclagem de vários fatores que tanto deram certo nesse tipo de história – e o filme não faz questão de esconder isso. Se Beber, Não Case!, no entanto, alcança ótimo resultado dentro de suas próprias limitações. O filme assumiu a sua identidade pastelão e abraçou a fórmula. Com isso, obtivemos um resultado bem divertido e satisfatório. Não é um filme que vá mudar a vida de alguém e muito menos merecer um Globo de Ouro, mas diverte bem mais que tantas comédias bestas que entram em cartaz.

FILME: 8.0

Os Fantasmas de Scrooge, de Robert Zemeckis

Com as vozes de Jim Carrey, Colin Firth e Gary Oldman

Não sei o que o diretor Robert Zemeckis viu nessa tecnologia que ele aplica desde que realizou O Expresso Polar. Parece que ele se deslumbrou demais com esse tipo de animação e nunca mais entregou um projeto à altura de seu nome. Mas se O Expresso Polar e A Lenda de Bewoulf até tinham seus atrativos, esse Os Fantasmas de Scrooge já parte para o aborrecido. Primeiro, esses contos de Natal já encheram o saco. É sempre a mesma ladainha: sempre tem algum rabugento que odeia a data mas que, no final das contas, vai aprender a amar o dia do Papai Noel da maneira mais enfadonha possível. O problema, contudo, é que Os Fantasmas de Scrooge não serve para as crianças. É dark, barulhento e arrastado demais – ou seja, a criança que não começar a chorar de susto vai começar a ficar impaciente. Mas também afasta os adultos, que não vão se envolver com uma história tão batida e rasa. Fica o recado para o senhor Zemeckis: hora de partir para outra.

FILME: 6.0