Cinema e Argumento

Uma Noite Fora de Série

Direção: Shawn Levy

Elenco: Tina Fey, Steve Carell, Mark Wahlberg, James Franco, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, William Fichtner, Mila Kunis

Date Night, EUA, 2010, Comédia, 88 minutos, 12 anos

Sinopse: Phil (Steve Carell) e Claire Foster (Tina Fey) são casados, têm filhos, mas o relacionamento caiu na rotina. Decidido a mudar o cenário, ele a convida para ir num restaurante super badalado e, sem mesa reservada, assume o lugar de outro casal que parecia ter faltado ao compromisso. Só não contavam com o fato de que os donos da tal mesa eram procurados por um mafioso e assim, a noite que era para ser divertida virou um salve-se quem puder pelas ruas de Nova York.

O trocadilho do título não poderia ser mais infame: referência aos dois atores principais do filme, que possuem as raízes gloriosoas de suas respectivas carreiras na tv. Tina Fey demonstra genialidade em 30 Rock e Steve Carell está sempre impagável em The Office. Portanto, o título sugere que o filme represente um “momento” fora do habitat natural dos dois. É uma pena que Uma Noite Fora de Série não seja  a produção que vá impulsionar a carreira de Fey e Carell no cinema (apesar do segundo já ter certo reconheciment0 nesse meio). Mas, já dá para os espectadores mais leigos – e que não conhecem muito de seriados – perceberem que ambos são ótimos comenediantes. E que, afinal, são eles que seguram o filme.

Você já viu, muitas vezes, um longa-metragem como Uma Noite Fora de Série. A fórmula é bem simples: colocar personagens divertidos em uma situação cheia de confusões. Adicione algumas cenas de ação e uma pitada de clima investigativo. Soa familiar, não? Apesar da repetição de estrutura, é um formato que, ao menos para mim, sempre funciona. Ou, então, se não chega a funcionar por completo, diverte de forma descompromissada. Foi assim com outro filme estrelado por Carell, Agente 86, e é assim com Uma Noite Fora de Série. Basta o espectador não dar importância para os absurdos e ainda ter em mente que tudo não passa de uma diversão corriqueira, que a experiência pode ser agradável.

Mas, mesmo que o lado crítico seja deixado de lado, permanecem algumas falhas muito visíveis no filme. A maior delas é a grande fragilidade da história. Até o espectador mais comum vai notar que todos os pretextos para ação e todos os caminhos tomados para a trama se resolver são completamente simplórios. Parece que o roteiro está no piloto-automático e que o diretor Shawn Levy apenas atirou Fey e Carell em cena para que ambos salvassem o resultado. Se ele fez isso mesmo, a decisão foi acertada. Os improvisos do casal e a ótima química deles (cômica, não romântica) conseguem deixar qualquer um com boa vontade. Uma Noite de Série está muito longe de ser um produto à altura desses dois ótimos comediantes. No entanto, só a oportunidade de ver os dois em cena já compensa.

FILME: 7.0


Os Famosos e os Duendes da Morte

Direção: Esmir Filho

Elenco: Henrique Larré, Ismael Canepelle, Tuane Eggers, Samuel Reginatto, Áurea Baptista, Adriana Seiffert

Brasil, 2009, Drama, 95 minutos, 14 anos

Sinopse: Um garoto (Henrique Larré) de dezesseis anos, fã de Bob Dylan, acessa o mundo através da Internet, enquanto vê seus dias passarem em uma pequena cidade alemã no interior do Rio Grande do Sul. A chegada de uma figura estranha na cidade traz lembranças do passado e o leva para um mundo além da realidade.

Em uma de suas divagações pela internet (que consistem na ação de escrever em um blog de autoria própria ou de conversar com amigos pelo messenger), o protagonista de Os Famosos e os Duendes da Morte proclama: “Longe é o lugar onde a gente pode viver de verdade (…) Estar perto não é físico”. O menino não gosta do lugar onde vive. Ele não se sente próximo do mundo que lhe foi imposto pela vida e muito menos das pessoas que nele habitam. O “Tambourine Man” vive um mundo paralelo, onde exerga esperança e alternativa na vida virtual.

Acompanhar cada ação do protagonista é mergulhar num mar de angústias. Poucas foram as vezes (e, para falar bem a verdade, não me ocorre nenhum exemplo agora) em que o cinema conseguiu retratar tão bem o universo dos adolescentes reclusos e impossibilitados de viver a juventude da forma que tanto anseiam. Os Famosos e os Duendes da Morte vai penetrar na pele daqueles que moram em um lugar isolado… Muito mais: vai atingir de forma contundente aqueles que sentem que não pertecem ao mundo à sua volta, aqueles que enxergam a felicidade como algo quase inalcançável e aqueles que acham que tudo poderia mudar se estivesse em um lugar diferente ou com “aquela” pessoa ao lado.

Falar que a maturidade de Esmir Filho como diretor impressiona é cair no lugar comum. O relevante é que Os Famosos e os Duendes da Morte marca o espectador pelo conjunto geral. Não é só o trabalho atrás das câmeras que traz a singularidade estética e narrativa do filme. Logo, já podemos citar o trabalho exemplar de Henrique Larré como o protagonista. Larré não apenas captou toda a essência dramática do personagem, como também a transmitiu com muita segurança. Podemos notar, em cada olhar e gesto, uma figura verdadeira. Todos os coadjuvantes possuem seus momentos. Mas, ao meu ver, a estrela é Larré – cuja cena que mais me marcou foi aquela em que ele dança e desaba de tristeza nos braços da mãe em uma noite de festa junina.

Algo muito importante a ser considerado é a forma como o filme não se restringiu aos moradores do Rio Grande do Sul. O blogueiro que vos escreve é porto alegrense, portanto, seria muito fácil me identificar com os traços riograndenses da projeção. Entretanto, Os Famosos e os Duendes da Morte se livra desse empecilho e realiza uma história não menos que universal.  O roteiro narra cada minuto como se fosse algo que pudesse acontecer em qualquer lugar do planeta. A solidão existe… Não importa em que lugar. O filme, em um balanço geral, é um estudo minucioso sobre as angústias de uma minoria que cada vez perde mais espaço: os adolescentes isolados. Isolados não por vontade própria, mas porque a vida deu esse fardo.

Apesar de tantos méritos, pensei que Os Famosos e os Duendes da Morte iria me atingir não só com sua temática irresistível (que é perfeita para o meu gosto pessoal), mas também como cinema. Não foi exatamente o que aconteceu. O formato, por algumas vezes, não me causou o efeito necessário. O filme perde impacto e força justamente nas cenas em que se propõe a ser figurativo. De certa forma, elas quebram o ritmo da história. Não digo que faltou cinema em Os Famosos e os Duendes da Morte (muito pelo contrário!), mas não foi apresentado o tipo de tratamento narrativo que normalmente me conquista. Se tivesse apostado menos naquelas tomadas filmadas com câmera na mão e em algumas complexidades, talvez tivesse me conquistado por completo. Só faltou isso para eu celebrar não somente a perfeita reflexão do conteúdo do filme, mas também a estrutura e o formato.

FILME: 8.5


Na coleção… Babel

Na época em que foi lançado, Babel sofreu inúmeras comparações com Crash – No Limite. Os paralelos feitos entre a obra de Alejandro González Iñárritu e o celebrado longa-metragem de Paul Haggis são válidos. No entanto, os dois filmes são bem distintos em suas essências. O formato pode ser parecido, mas a linguagem utilizada no conteúdo é diferente. Enquanto Crash – No Limite limitava-se a falar sobre o preconceito da sociedade norte-americana, Babel versa sobre a comunicação por meio de um caráter global.

Iñárritu considera Babel o terceiro volume de uma trilogia – que começou a ser construída com o ótimo Amores Brutos e que recebeu continuidade, depois, no denso 21 Gramas. Das três produções, Babel pode ser considerada a que menos alcança resultados notáveis. Contudo, de maneira alguma, deve ser desprezada por isso, já que é o longa-metragem mais acessível da tal trilogia. Sem falar, claro, que possui aspectos extremamente interessantes – e também intensos.

A forte direção de Iñárritu consegue ir além da mera costura de várias histórias. Ele coloca, na trama, traços dramáticos complexos e ainda se permite trabalhar a identidade cultural de cada país retratado em cena. Indicado ao Oscar, ele perdeu a estatueta na categoria de direção para Martin Scorsese. Por mais que eu considere Os Infiltrados um dos filmes mais bem realizados da carreira de Scorsese, o grande trabalho daquele ano, para mim, era o de Iñárritu.

Logo em seguida, claro, aparecem as performances. Todos os atores possuem algum momento especial. No entanto, ao meu ver, o destaque fica com Rinko Kikuchi e Adriana Barraza. Ambas estão ótimas em seus respectivos papéis e são elas que carregam a maior parte da força emocional do filme. Enquanto Kikuchi é a figura mais complexa, Barraza é a mais sentiemental. Não desmereço Brad Pitt e Cate Blanchett, mas os dois ficaram atrás das duas atrizes “desconhecidas”.

No geral, Babel tem seus méritos, mas também não deixa de ter falhas. A maior delas é ser um longa-metragem cansativo, já que a duração é um pouco excessiva. Também fica aquela sensação de que “já vimos isso antes”. Porém, são defeitos que não diminuem a excelência do filme. Na avaliação geral, eles só fazem com que Babel não seja o longa memorável que poderia ser, eles só não deixam o filme ir muito além do ótimo resultado.

FILME: 8.0

Hoje acordei…

…meio Baby Jane. Estou bebendo litros de whisky, fritando ratos e passarinhos, rindo da desgraça alheia e com uma vontade insaciável de fazer o mal. Brincadeira. Na realidade, esse vai ser um post meio maquiavélico mesmo. Portanto, quem é Poppy de Simplesmente Feliz e acha que tudo é felicidade e que não podemos nos abalar com a maldade dos outros, pode parar de ler agora.

Para começo de conversa, acho que sou uma pessoa bem tolerante com a opinião dos outros, não? Principalmente eu que, na maioria das vezes, discorda do “auê” que tantos filmes causam. Ultimamente, no entanto, tenho recebido, aqui no blog, uma grande quantidade de comentários ácidos (para não dizer grosseiros e mal educados). A maioria desses recados dos leitores – e que, na maioria das vezes, são de pessoas aleatórias e que não possuem blog – é para me xingar.

Digamos, por exemplo, que eu não tenha gostado de um filme X. Aí, lá vem alguém dizer que eu não entendo, com o perdão da palavra, “merda” nenhuma sobre cinema e que eu tinha que calar a minha boca. Ou ainda, que eu preciso rever meus pobres conceitos e aprender a apreciar um filme de verdade. Não sei o que passa na cabeça dessas pessoas, mas, certamente, não é algo decente. Só um completo mal educado xinga alguém por não gostar de alguma coisa. Opinião é opinião e acho que, independente de qual ela seja, tem que ser respeitada.

Ainda existem aqueles que tentam, a todo custo, querer me ensinar as lições do filme como se eu não tivesse entendido o roteiro. Já disseram que não conheço os princípios católicos, que não tenho coração e que, também, não tenho capacidade intelectual para compreender determinado assunto. Fica um recadinho bem simples: permito que falam essas coisas (até porque elas podem bem ser verdade), mas façam isso com classe… Ou, ao menos, com humor. Vamos nos respeitar, está bem? Porque, nos meus textos, nunca deixo de respeitar meus leitores.

No final das contas, esse post serve para dar um recado bem direto: se você não concorda com as minhas opiniões e acha esse blog uma “merda”, você tem três opções. Primeiro: leia, fique indignado e feche a janela. Segundo: leia, fique indignado e nunca mais volte aqui. Terceiro: leia, fique indignado e fale com educação em seu comentário. A internet nos trouxe mil maravilhas, pessoal. A interação entre pessoas de milhares cantos do mundo é uma delas. Não vamos usar isso para o mal. Porque eu, pelo menos, não vejo graça com as observações que fazem aqui. Nem fico ofendido. Só me sinto decepcionado com a cabeça de certas pessoas que não sabem fazer a política da vizinhança…

Fica aqui, então, esse meu breve desabafo. E você, o que acha quanto a isso?

ps: só não vale me xingar nos comentários hahaha

Tudo Pode Dar Certo

I happen to hate New Year’s celebrations. Everybody desperate to have fun. Trying to celebrate in some pathetic little way. Celebrate what? A step closer to the grave?

Direção: Woody Allen

Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, John Gallagher Jr., Michael McKean, Ed Begley Jr., Conleth Hill

Whatever Works, EUA, 2009, Comédia, 92 minutos

Sinopse: Boris Yellnikoff (Larry David) é um velho rabugento que tem o hábito de insultar seus alunos de xadrez. Ex-professor da Universidade de Columbia, ele considera ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Um dia, prestes a entrar em seu apartamento, Boris é abordado por Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), que lhe implora para entrar. Ele atende ao pedido, a contragosto. Percebendo sua fragilidade, Boris permite que ela fique no apartamento por alguns dias. Ela se instala e, com o passar do tempo, não aparenta ter planos de deixar o local. Até que um dia lhe diz que está interessada nele.

Constantemente, Woody Allen realiza algum filme onde existe um velhinho negativo, engraçadinho, crítico e sarcástico. A última vez em que essa figura apareceu foi no insosso Scoop – O Grande Furo. Na maioria das vezes, é o próprio Allen que interpreta esse personagem (que muitos também consideram um espelho do que o diretor é na vida real). Aqui, ele transferiu a responsabilidade para o ator Larry David. Ou seja, o que vemos em Tudo Pode Dar Certo é mais uma encenação do tal velhinho… Só que sem Allen representando.

O mais novo filme do diretor é outro exemplo de roteiro que está centrado em diálogos inteligentes. Quem aprecia esse estilo do cineasta, certamente vai aprovar o bom resultado de Tudo Pode Dar Certo. Afinal, o filme não só nos remete ao clássico estilo Woody Allen de fazer comédia, como também traz algumas tiradas interessantes. Voltando para Nova York, estamos mais uma vez assistindo um enredo centrado na personalidade do protagonista – que, aqui, inclusive, fala com as câmeras e filosofa bastante.

Se, por um lado, é bom ver o diretor retomando um tipo de cinema que tanto lhe trouxe sucesso, também fica uma certa decepção. Tudo Pode Dar Certo pode mesmo ser divertido, mas não tem frescor. É mais do mesmo, um desvio no caminho que o diretor estava traçando em uma sequência de filmes diferentes. O elenco, assim como o texto, é o que existe de melhor no filme. Mas, falta inovação. Portanto, é tudo muito simples: se você está disposto a assistir aquele humor clássico de Woody Allen, vá sem medo. Agora, se você não vê mais tanta graça nesse estilo, deixe passar.

FILME: 7.5