Cinema e Argumento

Últimas Trilhas Sonoras

Koyaanisqatsi, por Philip Glass

Koyaanisqatsi é considerado um dos grandes trabalhos de Philip Glass. E merece o título de obra-prima por diversas razões. Além de ser uma sinfonia assombrosa de tão efetiva, tem o poder de conduzir todo o filme – que não possui diálogos. Junto com o excelente jogo de imagens, Glass trouxe uma trilha sonora singular, que representa um grande momento do compositor. Não é só a música-tema que fica perpetuando na mente, mas também toda a trilha, que deixa uma impressão muito marcante. Trabalho de mestre.

Powaqqatsi, por Philip Glass

Quem ouvir a trilha de Powaqqatsi, pode muito bem ficar com a pulga atrás da orelha. O álbum desperta a sensação de “já ouvi isso antes”. E já ouviu mesmo. Uma famosa composição, The Anthem, utilizada em O Show de Truman, é derivada daqui. Powaqqatsi é um álbum que já começa de forma super empolgante (a faixa de abertura, Serra Pelada, é impecável), mas não consegue sustentar o encantamento por muito tempo. É mais um ótimo resultado de Glass, mas não consegue se equiparar a Koyaanisqatsi. Sem falar, que possui algumas passagens que destoam do conjunto, como From Egypt.

Naqoyqatsi, por Philip Glass

Foi golpe baixo: Philip Glass resolveu produzir toda a trilha de Naqoyqatsi usando violinos como matéria-prima. O que ouvimos aqui não é nada menos que excepcional. Além de se igualar ao primeiro volume da trilogia, é bem possível que seja até superior. Glass realizou, em Naqoyqatsi, uma bela sucessão de composições geniais. Incrível como ele conseguiu fazer qualquer coisa com violinos, indo da tensão até o drama em questão de segundos. Escutar o que o compositor conseguiu na trilogia é obrigatório para qualquer fã de trilhas.

The Cove, por J. Ralph

Surpreendente trabalho de J. Ralph em A Enseada, provando que 2010 está sendo um ano muito significativo para as trilhas de filmes que chegam ao Brasil. Por mais que tenha 27 faixas, J. Ralph nunca perde a mão e consegue, frequentemente, inovar no seu estilo. É extremamente satisfatório ver como uma trilha tão elaborada dessas foi feita justamente para um documentário, gênero não muito apreciado pela maioria. Mais uma prova de que esse estilo de cinema tem sim grandes atrativos. O compositor pode se dar por satisfeito com o resultado alcançado, já que arrebentou no produto final.

The Ghost Writer, por Alexandre Desplat

Alexandre Desplat chegou em um momento da carreira onde até as suas trilhas mais convencionais possuem um ou outro momento de excelente inspiração. É o caso do trabalho em O Escritor Fantasma. Podemos até não ter uma música marcante, mas só de ouvir faixas como a música-tema ou The Truth About Ruth, já dá para notar que, mesmo com tantas trilhas, Desplat nunca perde o fôlego. Junto com a nebulosa fotografia, a boa parte musical é o que traz o tom certo para o filme de Roman Polanski.

Toy Story 3, por Randy Newman

Não sou fã das trilhas sonoras de Randy Newman. Acredito que elas podem até funcionar dentro do filme, mas, quando escutadas fora, não conseguem funcionar como apenas um produto musical. A trilha de Toy Story 3 é assim: tem um bom papel dentro do filme, mas chega a ser repetitiva e meio chata quando escutada fora dele. Claro que existem algumas faixas bem legais (a versão espanhola para You’ve Got a Friend in Me é ótima), mas, aos poucos, a repetição fica visível e o álbum não passa do convencional.

Em Busca de Uma Nova Chance

And then on the last day… he talked to me. And everything he said was exactly how I pictured it would be. And I was the happiest I’ve ever been. Happy and scared all at the same time.

Direção: Shana Feste

Elenco: Susan Sarandon, Pierce Brosnan, Carey Mulligan, Johnny Simmons, Michael Shannon, Miles Robbins, Zoë Kravitz

The Greatest, EUA, 2009, Drama, 99 minutos

Sinopse: No último dia de aula, Rose (Carey Mulligan) enfim consegue conversar com Bennett (Aaron Johnson), que a paquera desde o primeiro dia. Eles iniciam um romance arrebatador, onde um é o que o outro sempre sonhou. Só que, logo após terem sua primeira noite de amor, um caminhão atinge o carro em que estão. O acidente mata Bennett, o que coloca seus pais, Allen (Pierce Brosnan) e Grace (Susan Sarandon), além do irmão Ryan (Johnny Simmons), em choque. Três meses depois, Rose bate à porta da família Brewer para avisá-los que está grávida de Bennett.

O pôster nacional é algo cretino (o que não é novidade nos trabalhos de divulgação da Playarte), o trailer é clichê e a premissa não não poderia ser mais batida. É louco quem vai assistir Em Busca de Uma Nova Chance achando que o filme trará algo espetacular ou uma inovação nesse ramo tão explorado que é o drama de pais que perdem um filho. O cinema estrangeiro já deu um tapa na cara dos americanos com o impactante O Quarto do Filho. O cinema hollywoodiano bem que tenta, mas, em praticamente todas as vezes, não consegue chegar aos pés do filme do italiano Nanni Moretti.

Em Busca de Uma Nova Chance é mais uma dessas histórias melodramáticas que querem ser emocionantes. Ora, o filme funciona para aquela sua tia que acha que sempre usa o termo “bela fotografia” para elogiar um filme ou para aquela vovó que acha que todo filme de dramas familiares tem lições de vida muito bonitas. Ou seja, o longa-metragem de estreia da diretora Shana Feste agrada exatamente quem tem que agradar: aqueles desprovidos de criticismo e que conseguem acompanhar um amontoado de clichês repetitivos sem qualquer restrição.

Infelizmente, vai acumular a antipatia de todos que não consegue acompanhar um filme que sequer tem uma cena original. Aí está o problema de Em Busca de Uma Nova Chance: tudo é reciclagem e nada tem um pingo de novidade. O filme estreia no mesmo dia de Toy Story 3 aqui no Brasil. E, quem diria, um filme sobre brinquedos que tomam vida consegue arrancar várias lágrimas e um filme sobre a história de um casal que perdeu um filho em um trágico acidente não consegue nem emocionar. Falta emoção no trabalho de Shana Feste. Podia ter, ao menos, aquela sensação de guilty pleasure. Mas, nem isso chega a ficar muito presente.

Todavia, como já citado, é louco quem esperava algo mais de um filme como esses. Queria dizer que Em Busca de Uma Nova Chance merece ser visto por aqueles que curtem histórias assim, mesmo que com falhas. Não consigo. Sou fã confesso desses melodramas e não consegui me envolver com a história. Um filme desses precisa levar o espectador para o sofrimento dos personagens e não deixá-lo como mero observador da situação. Nós não sentimentos a dor dos personagens. Não o suficiente para torcer por eles. Reclamações à parte, é um filme que tem seus momentos.

A maioria deles se deve ao trabalho de duas ótimas atrizes. É certo dizer que Susan Sarandon e Carey Mulligan rivalizam com papéis óbvios e, por vezes, fora de tom. Contudo, ambas são ótimas atrizes e só a boa presença delas já deixa um certo ar de qualidade. A primeira, que parece ter se especializado em perder filhos no cinema, tem sempre a favor de si o fato de ter uma presença muito humana. A segunda, indicada ao Oscar por Educação, tem simpatia e desenvoltura, o que é fundamental para a aceitação do espectador. Os homens (Pierce Brosnan, o jovem Johnny Simmons e Michael Shannon, em rápida aparição), apesar de esforçados, não conseguem resultados sem falhas.

Não dá para achar explicações do porquê de Em Busca de Uma Nova Chance ter sido exibido nos cinemas e não ter sido lançado direto em dvd. Um filme comum desses não merecia espaço nas telonas. O ideal é vê-lo naquela noite de sábado onde não existe outra melhor opção. Pelo texto, pode parecer que eu destetei o debut de Shana Feste. Não é verdade. Na realidade, até defendo: ele não chega a ser ruim. Só me irrita demais o fato de uma história dessas não conseguir emocionar nem empolgar com as atrizes que tem em mãos e com a premissa que sempre funciona quando bem trabalhada. É, diretora, às vezes, infelizmente, experiência é fundamental para se achar o tom certo. Quem sabe na próxima?

FILME: 6.0

O Escritor Fantasma

Oh yes, the wall of ego. We all have one, our equivalent of the dentist’s fish tank.

Direção: Roman Polanski

Elenco: Ewan McGregor, Kim Cattrall, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Tom Wilkinson, James Belushi, Timothy Hutton, Jon Bernthal

The Ghost Writer, Inglaterra/França/Alemanha, 2010, Drama/Suspense, 128 minutos

Sinopse: Um escritor fantasma (Ewan McGregor) é contratado para terminar a autobiografia de Adam Lang (Pierce Brosnan), um ex-primeiro ministro britânico. Durante o trabalho, ele descobre segredos que colocam sua vida em perigo.

Uma de minhas manias é escrever assim que possível sobre um filme que vi no cinema. Gosto de ter o filme ainda fresco na memória para poder falar sobre as minhas impressões. Tive várias oportunidades para escrever sobre O Escritor Fantasma. Mas, fiquei adiando e hoje já não sei mais se conseguirei passar o que esse novo trabalho de Roman Polanski realmente representou para mim. O motivo de ter me distanciado do texto desse filme é simples: ao menos para mim, não é fácil definir em palavras o resultado do longa-metragem.

O Escritor Fantasma é um filme com suspense e não um filme de suspense. Explico: existe, na história, um mistério e uma situação intrigante a ser resolvida. Mas, o roteiro não se utiliza disso para criar o seu clima. Em vários momentos, O Escritor Fantasma perde o ritmo e consegue até ser monótono. Portanto, é uma história intrigante mas que não chega necessariamente a ter suspense. Esse formato, que foi escondido do público, pode afastar aquela parcela que procura um filme tenso do início ao fim ou cheio de revelações – como a sinopse aponta.

Quando tenta ser esperto ou trazer surpresas, o filme falha. A revelação final, envolvendo a verdadeira identidade de um personagem, pode até surpreender. No entanto, a forma como o protagonista chega nessa descoberta e o modo instantâneo como tudo se materializa na tela dá a sensação do típico final gratuito e corriqueiro só para surpreender a todos. Por um outro lado, quando o roteiro se dedica a passagens mais sucintas, tem grandes acertos.

Não sei se o foco centralizado da trama chegou a me agradar (só é mostrada a visão do personagem de Ewan McGregor, uma vez que ele está presente em todas as cenas), mas, certamente, foi uma boa jogada de suspense. É fácil compartilhar das mesmas dúvidas do protagonista e também desconfiar de tudo e de todos como ele próprio desconfia. Aí é que está a engrenangem que faz O Escritor Fantasma funcionar: é a partir da visão dúbia que temos de cada personagem que o espectador constrói a sua própria tensão.

Roman Polanski, diretor vencedor do Oscar por O Pianista, realiza uma produção bem competente – não só nos principais aspectos, mas também com acertos na nebulosa fotografia e na trilha ideal do francês Alexandre Desplat. Talvez, não seja o filme esperado ou muito menos aquele tipo de história que deixe fascínio por todos os lados. O Escritor Fantasma não é assim. Tem falhas e, em vários momentos, não sabe muito bem que ritmo dar para o enredo. Entretanto, tem uma competência mais do que reconhecível. E só isso já é o suficiente para definir o ótimo conjunto geral.

FILME: 8.0

Toy Story 3

So long, partner…

Direção: Lee Unkrich

Com as vozes originais de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Michael Keaton, Wallace Shawn, Don Rickles, Ned Beatty, John Morris

EUA, 2010, Animação, 103 minutos

Sinopse: Andy (John Morris), o dono dos bonecos Woody (Tom Hanks) e Buzz Lightyear (Tim Allen), está prestes a ir para a faculdade. Com isso a maior parte de seus brinquedos é doada a uma creche. Lá o grupo conhece novos brinquedos, entre eles Ken (Michael Keaton), que logo se interessa por Barbie (Jodi Benson).

Logo quando saí da sessão de Toy Story 3, fiquei me perguntando o porquê dessa terceira parte não ter sido realizada antes. Por que o fechamento definitivo das aventuras de Andy e sua turma demorou tanto para sair? Por que esse emocionante desfecho ficou tanto tempo sem ter sido produzido? Não tenha dúvidas: a Pixar esperou o público crescer para realizar uma produção que também evoluiu com os espectadores. As crianças que antes assistiram os primeiros dias e sonharam que seus brinquedos também pudessem tomar vidas hoje são adolescentes ou adultos que, talvez, nem sequer possuem mais um brinquedo.

Toy Story 3, além de transportar algumas pessoas de volta para o filme de suas infâncias, também toca em diversas memórias pessoais do público. Ele nos remete ao momento em que cada um de nós deixou de ser criança.  A força emotiva do mais novo desenho animado da Pixar está aí. Os brinquedos precisam se despedir de seu dono. Andy já não quer mais saber de bonecos. Mas os bonecos querem saber de Andy. E, mesmo com a angústia dos personagens em serem abandonados, eles são forçados a partir para uma próxima. É um adeus que dói, que traz memórias e que, acima de tudo, nunca apagará da memória os bons momentos de uma querida infância.

Roteirizado por Michael Arndt, do fabuloso Pequena Miss Sunshine, Toy Story 3 tem pleno êxito nas emoções. Cada cena dramática toca fundo no coração e a verossimilhança passada pelo roteiro é algo sobrenatural. Parece que nós estamos sendo abandonados também, junto com os personagens. O maior êxito do texto é nos transportar para a pele dos brinquedos. Parece que nós também vimos alguém crescer e estamos sendo deixados de lado. Mas, na realidade, fomos nós que crescemos, exatamente como o garoto Andy, e abandonamos nossa vida de criança. Aí está a grande identificação que qualquer ser humano na face da Terra vai encontrar com a história. É um tema universal.

Mesmo que seja fabuloso em suas emoções, Toy Story 3 é convencional quando se propõe a ser uma aventura – algo que o filme é em praticamente todo o tempo. Não me recordo muito bem dos anteriores, mas senti nesse capítulo um excesso significativo de correria e artimanhas da trupe de Woody e Buzz Lightyear. Uma correria que disfarça uma certa falta de desdobramentos mais elaborados. Por isso, o filme dirigido por Lee Unkrich (que não era responsável pelas animações anteriores) parece convencional para os padrões Pixar na maior parte de sua duração. O humor está ali e a aventura também, mas nada de muito espetacular quando comparado ao lado emotivo da história.

Fico feliz de ter visto um filme como Toy Story 3. Confesso que foi uma experiência diferente de outras da Pixar. No bom e no mau sentido. Dessa vez, não fui pego de surpresa a todo momento e nem achei o resultado digno de muito alarde. No entanto, nunca fiquei tão envolvido emocionalmente com um desenho da produtora. Gostei de ver um filme que cresceu junto comigo e que me trouxe reflexões que perpetuam até agora na minha cabeça. O final, corajoso e super melancólico para uma animação, traz uma cena muito bonita… Mas, também, muito triste. Não é à toa que muita gente vai se emocionar. Eu fui um desses e não tenho vergonha de dizer que estava caindo em lágrimas quando os créditos finais subiram.

FILME: 8.0