Cinema e Argumento

Pânico na Neve

Direção: Adam Green

Elenco: Shawn Ashmore, Kevin Zegers, Emma Bell, Ed Ackerman, Rileah Vanderbilt, Kane Hodder, Adam Johnson, Chris York

Frozen, EUA, 2010, Suspense, 93 minutos

Sinopse: Um dia típico nas montanhas se torna um pesadelo gelado para três esquiadores que ficam presos em um teleférico antes de sua última descida. A equipe da estação de esqui desliga as luzes da pista e o trio percebe, em pânico, que foram esquecidos. Com hipotermia e queimaduras de frio, os amigos são forçados a tomar medidas extremas para sair da montanha, antes que morram congelados.

Se Pânico na Neve está longe de ser uma revolução ou, ao menos, um exemplar notável do gênero de suspense, pelo menos consegue ser um sopro positivo de qualidade nesse cinema que anda tão desgastado nos últimos anos. Muito comparado com Mar Aberto, já que ambos são filmes sobre pessoas esquecidas em um lugar e sem a possibilidade de escapar, esse trabalho do diretor Adam Green consegue criar tensão durante praticamente toda a história e ainda tem a favor o fato de não cair nos típicos exageros em filmes de suspense adolescentes.

O elenco pouco conhecido já é um fator positivo. É muito mais fácil para o espectador acreditar em alguma história quando não temos, por exemplo, uma Paris Hilton fazendo papel de babaca como em A Casa de Cera. Shawn Ashmore (X-Men), Kevin Zegers (Transamérica e O Clube de Leitura de Jane Austen) e Emma Bell podem até ter participado de filmes com certa repercussão, mas não são rostos populares. Isso traz verossimilhança para Pânico na Neve, que se torna ainda mais real em função dos atores. No entanto, não vamos confundir isso com qualidade. Eles estão apenas ok, fazendo o necessário para seus respectivos papéis.

Mas, o que existe de mais significativo em Pânico na Neve é a forma como a tensão é construída. Com uma notável claustrofobia, o suspense não chega a ser crescente, mas toda vez que aparece consegue ser contundente. Seja na forma como as cenas se apropriam dos danos causados pela baixa temperatura de inverno encenada ou pelas resoluções apresentadas pelo roteiro. As situações e, consequentemente, o destino do personagem de Kevin Zegers são particularmente desesperadores. Nesse aspecto, temos um produto de suspense bem sucedido.

Como dito anteriormente, Pânico na Neve consegue fugir dos exageros de filmes desse estilo, mas não escapa da abordagem simples e dos desfechos previsíveis. O formato é aquele velho conhecido, com algumas tomadas com resoluções facilmente identificáveis. Existem diálogos, também, que parecem desnecessários em uma tentativa meio falha de trazer outros conflitos que não sejam os de suspense para a história. Uma cena, em particular, chama a atenção: aquela em que os personagens começam a discutir quem é o culpado por tudo e começam a pensar no que vão deixar para trás  ou o que deixarão de viver caso morram. Tentativa não muito interessante de colocar drama na história, uma vez que a tensão por si só já traz esse sentimento para o enredo.

Quem procura e se interessa por esse tipo de filme certamente vai sair satisfeito da sessão. Afinal, Pânico na Neve cumpre a sua promessa de trazer suspense. Mas, o mais importante é que o faz com competência e qualidade – dentro de suas próprias restrições, claro. O jeito é assistir sem grandes expectativas e entrar no clima. Se for assim, é muito fácil apreciar o que o longa tem a oferecer. Passageiro e comum? Sim. Mas efetivo enquanto dura. Pena que a má distribuição no Brasil não tenha favorecido o filme, que ainda não encontrou o seu público e nem sequer teve qualquer repercussão. É melhor que muita porcaria por aí que já chega em sua sétima edição e em 3D…

FILME: 7.5


Na coleção… Capote

Capote é um filme lento, arrastado e de poucos acontecimentos. É muito fácil encontrar quem não aprove o resultado do longa de Bennett Miller. A  lentidão da narrativa, realmente, prejudica o andamento da história. Mas, Capote tem dois fatores que relevam qualquer tipo de falta de ritmo. O primeiro deles é a extraordinária interpretação de Philip Seymour Hoffman. O segundo é a ótima evolução emocional de cada um dos personagens.

O filme narra o interesse do escritor Truman Capote (Hoffman) pelo brutal assassinato da família Clutter em uma remota cidade de costumes rurais nos Estados Unidos. O escritor ficou sabendo do crime por uma notícia do jornal e, aos poucos, começou a se envolver cada vez mais. A princípio, era para ser apenas um artigo para o New York Times. Entretanto, Capote se envolveu tanto com a história que decidiu escrever um livro. O resultado? A Sangue Frio, um dos livros de não-ficção mais famosos da literatura norte-americana.

Capote foge das formalidades tão presentes em cinebiografias e entrega um produto, sim, biográfico, mas longe de parecer como tal. Um dos grandes méritos desse trabalho de Bennett Miller é falar especificamente sobre a jornada emocional do protagonista. É fantástico acompanhar toda a transormação de Capote na medida em que se envolve cada vez mais com a história e com entrevistas exclusivas com os assassinos. Gradativamente, o personagem vai se modificando e, ao final, podemos nos surpreender ao ver a figura principal tão devastada.

Porém, toda essa abordagem dramática não teria a mesma força se não tivéssemos um ator tão extraordinário como Philip Seymour Hoffman no comando. Vencedor do Oscar de melhor ator por seu desempenho, Hoffman reproduziu com exatidão todos os tiques e trejeitos de Capote. Mas, todo mundo sabe que, às vezes, isso não é o bastante. Ele vai além. Muito mais do que uma reprodução biográfica, o ator criou uma figura crível e verdadeira. Não é só uma pessoa sendo reproduzida na tela. É, também, um personagem dramático de grande qualidade.

Se não fosse por seu ritmo cansativo, Capote seria um filme mais admirável. Gosto bastante de todo o resultado geral, mas, assim como muitos, fico incomodado com um roteiro tão lento como esse. Bennett Miller só teria a ganhar com um texto mais dinâmico e que não dialogasse exclusivamente com aqueles que tem paciência para acompanhar algo assim. Essa mesma história ainda tem outra versão (inferior, por sinal), Confidencial, com Toby Jones, Sandra Bullock e Daniel Craig.

FILME: 8.0


Trilogia “Pânico”

A trilogia Pânico representou uma verdadeira revolução no modo do cinema contemporâneo de fazer filmes de suspense e terror. Não só trouxe a moda de assassinar adolescentes como também virou sensação entre esse público. A repercussão foi tanta que, inclusive, surgiu a famosa série de comédia Todo Mundo em Pânico, que parodiou o filme e tantos outros exemplares famosos do cinema naquela época. Mas, afinal, os longas realmente justificam tanto sucesso?

Se formos levar em consideração apenas o primeiro filme, é fácil dizer por que a história se tornou sensação no ano de lançamento. Muito mais do que um guilty pleasure dos anos 90, Pânico conseguia apostar em suspense e sangue sem nunca partir para o exagero. Tudo era muito harmônico e o desenvolvimento dos personagens também era satisfatório. Os personagens, inclusive, beiram ao caricatural (principalmente a jornalista sedenta por sucesso interpretada por Courteney Cox), mas o roteiro nunca permite que eles sejam prejudicados por isso. Pelo contrário, a caricatura de cada um deles é um alívio narrativo dentro do suspense.

De certo modo, a revelação final de quem era o assassino mascarado não tem tanta relevância quanto o próprio suspense criado durante o filme. É mais divertido acompanhar quem será a próxima vítima ou qual será a próxima cena de tensão do que, de fato, tentar adivinhar quem é o possível responsável por tudo. Pânico, no final das contas, se tornou um filme que, além de cumprir o que promete dentro do gênero, também traz diversão. Algo meio raro de se encontrar nos dias de hoje.

Como todo produto de sucesso, Pânico teve outras duas continuações, uma de 1997 e outra de 2000. As sequências, apesar de igualmente bem realizadas e com propostas quase que sem alterações, já não funcionam tão bem como o primeiro volume. O principal obstáculo é que o roteiro simplesmente tenta reproduzir o que deu certo antes. O mesmo formato e o mesmo desenvolvimento. Ou seja, mais do mesmo e sem novidades. Se é pra ser assim, mais fácil rever o primeiro capítulo da história.

Mas, se todos pensavam que a série tinha terminado no terceiro capítulo, eis que o diretor Wes Craven resolve ressuscitar a história. Com o elenco original de volta e ainda com novos rostos na história como Anna Paquin, Rory Culkin, Adam Brody e Mary McDonnell, Pânico 4 tem sua estreia prevista nos cinemas norte-americanos para abril de 2011. Agora, era mesmo necessário um quarto filme para a série?

Guerra Sem Cortes

Direção: Brian De Palma

Elenco: Izzy Dias, Rob Devaney, Ty Jones, Daniel Stewart Sherman, Anas Wellman, Mike Figueroa, Kel O’Neill, Patrick Carroll

Redacted, EUA/Canadá, 2007, Drama, 90 minutos

Sinopse: História baseada em um recente acontecimento da Guerra no Iraque, no qual quatro soldados americanos estupraram e mataram uma garota de 14 anos, além de matar mais três membros da família.

É preciso ter muita coragem para realizar um filme que, desde antes do seu lançamento, já está fadado a passar em branco por cinemas e locadoras. Mesmo sabendo que Guerra Sem Cortes não seria reconhecido e muito menos alcançaria êxito nas bilheterias, o diretor Brian De Palma resolveu ir em frente com o projeto. Mas, não foi diferente: o projeto estagnou na arrecadação e, pelo mundo, também não teve sucesso. Aqui no Brasil foi exibido apenas nos festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Afinal, quem iria exaltar, em plena era Bush (o projeto é de 2007), um filme que faz uma forte denúncia sobre as atrocidades cometidas pelo exército norte-americano no Iraque?

Se tantos outros filmes falharam no relato dessa guera ou, então, foram completamente superestimados (como é o caso do vencedor do último Oscar, Guerra ao Terror, que é apenas bom), o trabalho de Brian De Palma em Guerra Sem Cortes foi o mais injustiçado. De todos os retratos que o cinema já fez sobre o Iraque, esse é, sem sombra de dúvida, o mais contundente. De Palma não juntou imagens reais e nem formou uma espécie de documentário,  mas escreveu o roteiro baseado em situações que aconteceram de verdade e, simplesmente, transferiu cada situação da realidade para a encenação. Ou seja, tudo o que acontece no filme foi alguma situação relatada por soldados ou outros envolvidos. Por isso, frequentemente, o longa parece um pouco encenado demais e menos natural do que deveria transparecer.

É perceptível a vontade do diretor de querer chocar e emocionar, principalmente em cenas mais pesadas de violência. Tanto o uso da trilha sonora quanto a interpretação do elenco evidenciam isso. Podemos encontrar, também, o tradicional delineamento de quem é mocinho ou bandido. Para alguns, o filme pode parecer fake por todas essa escolhas do diretor de encenar a realidade com atores. Para mim, não foi assim. Por mais que seja fácil perceber esses elementos, em momento algum considerei o filme prejudicado por eles. Pelo contrário, toda a emoção funciona e a denúncia tem um êxito digno.

Se, logo nos créditos iniciais, Guerra Sem Cortes não anunciasse que as imagens são encenadas – e, talvez, seja em função disso que possamos perceber uma clara dramatização na história – seria fácil acreditar que estamos diante de um documentário (afinal, as imagens são filmadas com câmera digital, como se fosse um relato pessoal feito por um dos soldados). E a boa notícia é que o resultado final deixa uma excelente impressão: Guerra Sem Cortes funciona como drama e, também, como documentário. É de se lamentar que o filme melhor executado sobre a guerra do Iraque tenha sido, justamente, aquele que menos teve reconhecimento. Uma pena.

FILME: 8.5


That Evening Sun

Direção: Scott Teems

Elenco: Hal Holbrook, Mia Wasikowska, Carrie Preston, Ray McKinnon, Walton Goggins, Barry Corbin, Dixie Carter, Barlow Jacobs

EUA, 2009, Drama, 110 minutos

Sinopse: Depois de envelhecer um fazendeiro (Hal Holbrook) retorna à sua antiga propriedade e tem que lidar com traições na família, com o reaparecimento de um inimigo e com prejuízos e perdas em suas terras.

Não é necessariamente proposital, mas That Evening Sun tem o poder de fazer o espectador se lembrar de outros dois filmes. O primeiro é O Regresso Para Bountiful, pois trata da história de amor de um protagonista pela terra onde sempre viveu e de onde tem boas lembranças. O segundo é Casa de Areia e Névoa, onde a disputa por uma determinada propriedade traz consequências conflituosas para todos os personagens. Mas, as semelhanças ficam só na teoria, já que, na prática, That Evening Sun não tem nada de cópia.

Esse longa-metragem dirigido por Scott Teems sequer foi lançado em circuito comercial e, até o momento, só teve exibições em festivais. Ainda assim, conseguiu duas indicações ao Independent Spirit Awards para os coadjuvantes Ray McKinnon e Mia Wasikowska (que ainda só me conquista em papéis mais fortes e problemáticos, como a de Sophie, no seriado In Treatment). O devido reconhecimento não foi dado ator Hal Holbrook, que é a verdadeira razão para se assistir a esse filme. Holbrook, que possui uma humanidade muito presente em suas representações (e isso pode ser comprovado no desempenho apresentado em Na Natureza Selvagem), conduz a história com competência, sendo o principal atrativo.

Não é certo dizer que That Evening Sun se resume apenas ao ator, mas é bem compreensível quem define dessa maneira. Digo isso porque o resultado é convencional e não transparece momentos de inovações de narrativa ou sequer grandes originalidades. Nós já vimos em outras produções o que acontece em That Evening Sun e o filme não se diferencia nesse aspecto. Contudo, é uma história assistível e que vai ter a simpatia de muitas pessoas exatamente por ter um ator tão experiente e competente no comando. Nada de atuação excepcional, mas suficientemente boa para segurar as pontas.

A cena final, que despertou a minha atenção por ser  melancólica (até em função da trilha sonora) é aquele sopro de sentimentalismo que faltou durante o filme. Por que aquele homem queria tanto de volta aquela terra? Qual era a razão da tumultuada relação dele com o filho? O que aconteceu com a sua esposa? Perguntas que não são respondidas diretamente e que, se fossem baseadas naquela simples, porém efetiva, última cena, certamente trariam algo de mais especial para That Evening Sun. Como isso não aconteceu, ficamos apenas no regular.

FILME: 7.5