53º Festival de Cinema de Gramado #10: júris acertam na escolha dos melhores filmes para safra fraca de curtas-metragens

FrutaFizz, de Kauan Okuma Bueno, foi o melhor filme da mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros.
Uma das experiências mais instigantes que já tive trabalhando com cinema foi ter integrado a comissão responsável por selecionar os curtas-metragens brasileiros em competição do 49º Festival de Cinema de Gramado, realizado em 2021. Ao lado das colegas Jaqueline Beltrame, Milena de Moura e Thaís Cabral, tive a missão de me debruçar sobre quase 600 curtas e selecionar apenas 14 para a disputa pelos Kikitos. Missão complexa e desafiadora em inúmeros aspectos, começando pelo volume e, depois, pela definição das linhas que traçaríamos como ponto de corte para as obras. Região? Temáticas? Representatividade? Virtuosismo técnico? Gêneros? Inventividade? Tudo isso sendo balizado por quatro pessoas com bagagens, preferências, trajetórias e repertórios próprios.
Faço esse breve relato porque, desde então, passei a observar seleções de filmes com um outro olhar — acho que mais generoso e ponderado, levando em consideração que são muitas as variáveis envolvendo tamanho trabalho. Não é estritamente sobre os filmes serem bons ou ruins – até porque isso é muito relativo de pessoa para pessoa —, e sim sobre o que se apresenta e o que o conjunto tem a dizer como um todo. Para este 2025, Gramado apresentou curtas-metragens com definições claras e que fazem eco a tendências já observadas há alguns anos. Na mostra nacional, percebe-se a predileção por histórias que refletem o Brasil de identidades diversas e que, até pouco tempo atrás, sequer era observado. Já na mostra gaúcha, promovida pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, há o tremendo cuidado com a descentralização geográfica, refletida, inclusive, na vitória de Trapo, produção da cidade de Uruguaiana.
Acontece que nem sempre é possível alinhar representatividade com excelência — e repito aqui como isso varia de espectador para espectador e, inclusive, de safra para safra. Considerando os 30 curtas exibidos (12 da mostra nacional e 18 da mostra gaúcha), há pouquíssimo de memorável em uma avaliação final. Entre produções com pautas interessantes, mas realizadas apenas de forma linear, e outras que se baseiam mais no discurso do que na forma, terminei por me apegar mais àquelas que brincaram e ousaram mais com ideias. No caso dos curtas gaúchos, faço coro ao júri oficial, pois acho Trapo carismático e afetuoso ao falar sobre os laços afetivos da infância – e sobre como, ao menor sinal de desaparecimento deles, o mundo vira de pernas para o ar. O filme de João Chimendes levou apenas o prêmio de melhor filme e nada mais, tipo isolado de consagração que sempre me intriga.
Também me alegra a consagração de FrutaFizz, agora na competição nacional. O curta dirigido por Kauan Okuma Bueno é um relato inteligente e muito bem-humorado sobre nostalgia, memória e as ressignificações — muitas delas equivocadas, por vezes — que damos a longínquos apegos da nossa existência. Foi um verdadeiro prazer assistir a esse filme que, aqui em casa, teria levado pelo menos outros Kikitos, como o de melhor roteiro e melhor ator para Renato Novaes. Outro trabalho que destaco e que o júri felizmente reconheceu é Samba Infinito, de Leonardo Martinelli. Se adoro Fantasma Neon e tenho certo distanciamento com Pássaro Memória, filmes anteriores do diretor, Samba Infinito desempatou minha relação com seu cinema. Conjugando afeto, rigor técnico e boas ideias, Martinelli mais uma vez acerta, levando para casa, inclusive, o prêmio de melhor filme pelo Júri Popular.
Confira abaixo a lista completa de vencedores das mostras competitivas de curtas-metragens gaúchos e brasileiros:
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: FrutaFizz, de Kauan Okuma Bueno
MELHOR DIREÇÃO: Adriana de Faria (Boiuna)
MELHOR ATRIZ: Jhanyffer Santos e Naieme (Boiuna)
MELHOR ATOR: Pedro Sol Victorino (Jacaré)
MELHOR ROTEIRO: Ítalo Rocha (Réquiem para Moïse)
MELHOR FOTOGRAFIA: Thiago Pelaes (Boiuna)
MONTAGEM: Lobo Mauro (Samba Infinito)
MELHOR TRILHA MUSICAL: As Musas (As Musas)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Ananias de Caldas e Brian Thurler (Samba Infinito)
MELHOR DESENHO DE SOM: Marcelo Freire (Jeguatá Xirê)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Aconteceu a Luz da Lua, de Crystom Afronário
MENÇÃO HONROSA: Quando Eu For Grande, de Mano Cappu
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: O Mapa em que Estão Meus Pés, de Luciano Pedro Jr.
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Samba Infinito, de Leonardo Martinelli
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Na Volta Eu Te Encontro, de Urânia Munzanzu
PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
MELHOR FILME: Trapo, de João Chimendes
MELHOR DIREÇÃO: Viviane Jag Fej Farias e Amalia Brandolff (Fuá – O Sonho)
MELHOR ATRIZ: Mikaela Amaral (Bom Dia, Maika)
MELHOR ATOR: Igor Costa (O Pintor)
MELHOR ROTEIRO: Cássio Tolpolar (Imigrante/Habitante)
MELHOR FOTOGRAFIA: Takeo Ito (Gambá)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Clara Trevisan (Mãe da Manhã)
MELHOR TRILHA SONORA/MÚSICA: Zero (Bom Dia, Maika!)
MELHOR MONTAGEM: Alfredo Barros (Imigrante/Habitante)
MELHOR FIGURINO: Samy Silva (A Sinaleira Amarela)
MELHOR EDIÇÃO DE SOM/DESENHO DE SOM: Vini Albernaz (Mãe da Manhã)
MELHOR PRODUÇÃO/PRODUÇÃO EXECUTIVA: Renata Wotter (O Jogo)
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Gambá



