Cinema e Argumento

Na coleção… Casa de Areia e Névoa

Os personagens e as situações de Casa de Areia e Névoa poderiam muito bem acontecer comigo ou com você. São pessoas que estão atrás de uma vida melhor, que são vítimas de erros do governo ou que são tomadas pelas angústias mais corriqueiras do cotidiano. Elas vivem em uma rua qualquer, num bairro norte-americano. Mesmo assim, estamos diante de um filme cheio de aspectos grandiosos e que deixam a impressão que o resultado final é muito mais do que um simples drama. Estamos diante de uma produção diferenciada.

Casa de Areia e Névoa começa em um nível simples de deamaticidade e, gradativamente, toma proporções cada vez mais intensas, até resultar em um desfecho surpreendente e arrebatador. Tudo isso pontuado por uma marcante trilha sonora de James Horner (desde já uma das melhores da última década) e por uma direção que traz excelentes jogos de câmeras, enquadramentos bem plenejados e cujas escolhas se aproveitam muito bem de todos os aspectos técnicos da produção.

Entretanto, o que existe mais marcante nesse filme é o trabalho de elenco. Encontramos aqui três atuações excepcionais. A mais incrível, sem dúvida, é a de Ben Kingsley. O papel de um homem rígido e fiel aos seus princípios trouxe ao ator momentos de pura soberania, onde Kingsley dá o seu melhor e chega a arrepiar. Jennifer Connelly, cujo papel confronta o de Kingsley, entrega, possivelmente, a melhor atuação de sua carreira. Enquanto isso, a coadjuvante Shohreh Aghdashloo chama a atenção com sua humanidade – e ela poderia muito bem ter vencido aquele Oscar que foi parar, inexplicavelmente, nas mãos de Renée Zellweger por Cold Mountain.

É com esse conjunto geral notável que Casa de Areia e Névoa consegue entregar um resultado extremamente posivito. O filme deixa uma sensação de completa competência, provando que é uma sucessão de escolhas certas. Alguns podem dizer que o desenvolvimento é meio longo (afinal, tem pouco mais de duas horas de duração) e que a solução dos conflitos é trágica demais. Mesmo assim, tudo isso passa batido em um longa-metragem que pode até não ser uma obra-prima, mas que traz qualidades impossíveis de se questionar.

A história? Casa de Areia e Névoa narra um embate. De um lado está Kathy (Jennifer Connelly), jovem que sofre profunda depressão após ter sido abandonada pelo marido. Por um erro do governo, ela é expulsa da casa em que morava. Inconformada, contrata um advogado para recuperar a casa. Do outro lado está Behrani (Ben Kingsley), imigrante iraniano que comprou a casa de Kathy em leilão, o que para ele é a oportunidade de dar conforto à mulher e ao filho e de recuperar o padrão de vida que tinham no Irã.

FILME: 8.5


My Own Love Song

Direção: Olivier Dahan

Elenco: Renée Zellweger, Forest Whitaker, Nick Nolte, Madeline Zima, Elias Koteas, Andrea Powell, Del Pentecost, Chandler Frantz

EUA/França, 2010, Drama, 102 minutos

Sinopse: Jane Wyatt (Renée Zellweger), uma cantora paraplégica que abandonou a carreira, e seu amigo, Joey (Forest Whitaker), decidem viajar de carro para Memphis. Os dois enfrentaram tragédias na vida e buscam na companhia do outro apoio para enfrentar os problemas.

Logo na primeira cena de My Own Love Song já podemos saber qual o tipo de filme estamos prestes a assistir. Jane (Renée Zellweger) está sentada sozinha em um bar tomando cerveja quando um homem começa a puxar assunto. Ele elogia as belas mãos de Jane, sugerindo que ela poderia ser uma pianista. Ela nega, mas revela que é uma cantora. O homem gosta da ideia e a convida para uma partida de sinuca e, quem sabe, uma noite agradável de conversa. Ela aceita. Mas, quando ele levanta e vê que a moça está em uma carreira de rodas, imediatamamente se afasta e vai embora pedindo desculpas.

Para bom entendedor, só essa cena já é o suficiente para prever as escolhas posteriores de My Own Love Song. E elas são todas previsíveis, quando não vazias ou limitadas. Está certo que Olivier Dahan mostrou ser um diretor falho em diversos aspectos do seu trabalho mais marcante, a cinebiografia Piaf – Um Hino ao Amor. Mas, se existia uma coisa que dava muito certo na dramática história de Edith Piaf (Marion Cotillard) era a notável direção de atores e a emoção. Não é o que encontramos nessa inserção americana do francês. Falta vigor e uma representação mais contundente. Tanto por parte do roteiro quanto por parte dos atores.

Se Renée Zellweger já provou, de uma vez por todas, que inutilizou o seu rosto com aplicações de botox (ela simplesmente não consegue fazer qualquer expressão sem que as plásticas em seu rosto fiquem mais evidentes do que a própria emoção que ela quer passar), Forest Whitaker não tem muito o que fazer com seu papel desinteressante e sua representação até um pouco caricata, já que seu papel é o do típico louquinho que faz muitas travessuras e causa simpatia no espectador por também ter um grande coração. Os dois não conseguem segurar o filme, que já sofre por ter um roteiro que não sabe dizer ao que veio.

My Own Love Song é um road movie que não tem um propósito bem definido. Se Transamérica, um exemplo mais recente do gênero, sabia delinear bem a importância da vigem para a protagonista Felicity Huffman e seu filho Kevin Zegers, o filme de Olivier Dahan não consegue desenvolver de forma satisfatória um motivo plausível para os personagem terem ido para a estrada ou como o caminho percorrido trará mudança para ambos. Os dramas são simples e corriqueiros e não se encaixam em um filme que deseja ser um road movie. É um filme de estrada que não deixa a sensação de que o é.

FILME: 6.0


Relembrando “Wall Street”

Wall Street – Poder e Cobiça se passa no ano de 1985 e conta a história de Bud Fox (Charlie Sheen), um jovem corretor que trabalha no setor de ações e que deseja ter algum tipo de contato profissional com Gordon Gekko (Michael Douglas), um bilionário inescrupuloso. Bud consegue o feito e se torna um discípulo de Gekko. Mas, na medida em que se envolve no mundo do bilionário, o jovem começa a perder a ética e se dedicar a trabalhos que só visam o enriquecimento, independente das consequências.

Para quem não se lembra ou ainda não tem conhecimento, Wall Street – Poder e Cobiça trouxe para Michael Douglas o Oscar de melhor ator. Sem dúvida, apesar da boa atuação de Charlie Sheen (o verdadeiro protagonista), é Michael Douglas quem mais chama a atenção. Com um pleno domínio do personagem, Douglas constrói um Gordon Gekko arrogante e que trabalha sem medir os seus atos, mas que nunca cai na caricatura ou no exagero.

No entanto, é injusto redimir Wall Street apenas ao desempenho de Douglas. O filme não faz muito o meu estilo, mas tem uma excelente condução. O roteiro consegue ser dinâmico e construir tudo de forma muito clara, nunca confundindo o espectador. As questões éticas estão presentes, bem como a boa dimensão psicológica dos personagens. Esse, portanto, é um dos filmes mais importantes da carreira de Oliver Stone, que hoje está preso em uma crise de identidade ao dirigir filmes sem personalidade.

Talvez, seja exatamente por isso que Oliver Stone tenha decidido filmar Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme. Quem sabe se ele retomar uma história marcante de sua carreira não consegue voltar a boa forma? Só isso para explicar o porquê do diretor reviver uma história contada há mais de 20 anos e que não necessitava de uma sequência. Agora, você vai resistir a um elenco que, além de Douglas, traz Carey Mulligan, Frank Langella e Susan Sarandon? O segundo filme chega aos cinemas brasieiros na próxima sexta-feira.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos

Direção: Paulo Halm

Elenco: Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota, Daniel Dantas, Lúcia Bronstein, Hugo Carvana

Brasil, Drama, 2009, 93 minutos

Sinopse: Zeca (Caio Blat) tem 30 anos mas age como se fosse um adolescente. Formado em Literatura, vive às custas de uma herança. Ambiciona ser escritor e há anos trabalha num livro que jamais consegue terminar, para desespero de seu pai (Danton Mello). Zeca vive com Julia (Maria Ribeiro), professora de Belas Artes, que está terminando o doutorado. O relacionamento vai mal, fragilizado pelas diferenças no modo que cada um encara a vida. Zeca não quer nada, Julia sabe o que quer. Incapaz de escrever, menosprezado pela mulher, Zeca passa os dias entregue ao ócio. É infeliz, porém conformado com isso. Até o dia em que descobre que Julia o está traindo. E, com uma outra mulher.

Em inúmeros seriados, os personagens principais sofrem por nunca serem os mais interessantes. Meredith Grey, Kitty McCallister, Susan Mayer e Carrie Bradshaw são exemplos disso. Elas são ofuscadas por outras personagens em cena e não conseguem ser figuras que despertem a empolgação do público. Mas se o elenco coadjuvante, nesses casos, é um alívio, o mesmo não pode se dizer de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, que tem toda a sua atenção centrada na visão unilateral do protagonista.

O problema é que o personagem principal desse filme é um verdadeiro chato. Zeca (Caio Blat, que abandonou de vez a sua imagem de bom moço recatado desde Cama de Gato), é um amontoado de clichês. Ele é um jovem metido a escritor e que tem bloqueios de criatividade. Nunca consegue acabar uma história que criou, não tem emprego algum, não faz nada o dia inteiro e ainda acha que tudo em sua volta é uma porcaria. Zeca reclama de tudo e ainda descobre que sua namorada, Júlia (Maria Ribeiro), está de caso com outra mulher.

Chocado, mas covarde demais para reagir, ele assume a sua posição de “corno manso”, como o próprio comenta. Só que, como um total desocupado, ele fica com essa história na cabeça e resolve ir atrás da amente de sua mulher e descobrir o que ela tem de tão especial. Com isso, apaixona-se por ela e, então, um triângulo amoroso é formado. No meio de tudo isso, Zeca proclama questionamento existenciais, pensamentos bem elaborados e frases de efeito para tentar, sem muito sucesso, colocar algum tipo de reflexão e filosofia em seus conflitos clichês.

Se não fosse por um personagem principal tão desinteressante, talvez Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos tivesse um resultado mais atraente. Ao mesmo tempo em que os conflitos de Zeca conseguem ter algum tipo de relevância dramática, chega a irritar o modo como ele enfrenta tudo e ainda consegue cometer inúmeros erros conscientemente. Ou seja, comete erros sabendo das consequências e depois reclama de tudo, culpando a vida e as pessoas. Como diria a Maria Elena de Penélope Cruz, sofre de insatisfação crônica. O roteiro torna o personagem interessante na teoria, mas na prática o afasta do espectador no seu desenvolvimento de personalidade.

O bom trabalho de elenco disfarça um pouco esse tratamento irregular de personagens, mas não chega a compensar todas as falhas. A história, que é rasa (para não dizer irrelevante em certos aspectos), tem seus momentos, mas nunca consegue alçar voo. Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, portanto, tem intenções positivas e tenta criar reflexões, mas não consegue ir além de um personagem clichê e que nós já vimos muitas vezes em tantos outros filmes. Mais do mesmo e sem diferenciais…

FILME: 6.0

Livro – Os Famosos e os Duendes da Morte

Se tu sentir saudade, deita na minha cama e olha para o teto do meu quarto. Tu vai ver, talvez pela primeira vez, que as estrelas que o velho colou não estão mais lá. Faz tempo que isso aconteceu. Chove toda vez que eu sinto saudade, mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças. A última caiu, não faz muito tempo. Ela está no bolso de trás da minha calça e vai ficar aqui até quando eu voltar e te abraçar de um jeito tão mais forte do que tu poderá entender…

Identificação é algo essencial para quem quer apreciar a história de Os Famosos e os Duendes da Morte. Identificação não só com a história apresentada mas, também, com o estilo de escrita apresentado pelo autor Ismael Caneppele. O gaúcho parece captar como nenhum outro autor brasileiro a essência das angústias adolescentes e o mundo isolado de pessoas que vivem em sociedades longínquas.

Caneppele, antes de escrever Os Famosos e os Duendes da Morte, já havia percorrido esses horizontes com outra obra, Música Para Quando as Luzes Se Apagam, que também adota um estilo confessional em primeira pessoa (sempre lembrando bastante a narrativa de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger) e versa sobre os momentos de reflexão do protagonista em relação ao mundo à sua volta.

Os Famosos e os Duendes da Morte surgiu da própria vivência de Caneppele na cidade de Lajeado, onde viveu durante anos. O autor, que já confessou que o enredo é uma espécie de ode ao lugar onde um dia viveu e uma crônica de despedida das lembranças que tem de lá, calcou a sua escrita na vivência que tinha com os amigos que nunca saíram da cidade interiorana e nos primos que enxergavam o mundo através da internet.

Portanto, é muito fácil perceber, em cada página, um ponto de vista quase que autobiográfico (talvez, “pessoal”, seja uma palavra mais apropriada). Os Famosos e os Duendes da Morte dialoga com bastante intensidade com as pessoas que, assim como Caneppele, possuiram ou possuem algum tipo de vivência ou identificação com o mundo do protagonista. De forma alguma isso invalida a leitura para os outros públicos, mas, a aceitação da obra é muito mais abrangente para aqueles que se identificam com a proposta.

O livro, mesmo que não chegue a ter nem cem páginas, deixa a sensação de que tem muito mais. No entanto, esse aspecto não pode ser considerado algo negativo. A linguagem extremamente metafórica e as inúmeras reflexões filosóficas do narrador-protagonista exigem a atenção do leitor e isso, no final das contas, torna a leitura mais lenta e dedicada. Mas, esse era um dos principais objetivos de Caneppele. Ele não queria facilitar nada. Ele queria ter liberdade de criação junto com a possibilidade de inventividades.

Encerrando com uma carta de despedida arrebatadora, o livro de Os Famosos e os Duendes da Morte é uma experiência, no mínimo, curiosa. Assim como o filme, é impossível ficar indiferente com o resultado. Quer você goste ou não, nunca poderá ser dito que algo como esse livro/filme já foi feito anteriormente. É algo totalmente novo e original. Não tanto no conteúdo, mas bem mais no que se diz respeito à forma.

Em uma última análise, o que me incomodou no resultado foi o último ato da história, quando o “menino sem nome” embarca em um passeio com Julian. A partir do momento em que essa parte se instala, o livro perde o ritmo e fica figurativo demais para o meu gosto. Então, ao meu ver, Caneppele pecou no encerramento da história. Mas, com a carta final, os deslizes, de certa forma, puderam ser perdoados. Aliás, seria preciso de muito mais para apagar toda a boa sensação que tive ao me identificar com o enredo…