Cinema e Argumento

The Special Relationship

Direção: Richard Loncraine

Elenco: Michael Sheen, Dennis Quaid, Hope Davis, Helen McCrory, Adam Godley, Marc Rioufol, Mark Bazeley, Nancy Crane

EUA, 2010, Drama, 93 minutos

Sinopse: Em 1992, o líder trabalhista Tony Blair (Michael Sheen) vai aos Estados Unidos e fica impressionado com as políticas do Presidente Clinton (Dennis Quaid). Dois anos depois ele é convidado para uma audiência com Clinton, que, acertadamente, prevê que ele será o próximo primeiro-minitstro da Grã-Bretanha. Começa a “relação especial” entre os dois. A situação no Kosovo, no entanto, inverte os papéis. Como Clinton é relutante na invasão, Blair é visto na mídia americana como um herói. O Presidente americano acusa seu aliado de esfaqueá-lo pelas costas e a relação especial começa a se abalar.

Michael Sheen é um sujeito subestimado. Ok, ele ainda não foi muito além dos seus papeis biográficos, mas mesmo assim é um ator muito natural e que trabalha com desenvoltura e competência. Ele interpretou o apresentador de TV David Frost, em Frost/Nixon, e formou uma bela dupla com o ótimo Frank Langella. Entretanto, o papel que deu mais visibilidade para o ator britânico foi o do primeiro-ministro Tony Blair, em A Rainha. Ignorado pelas premiações – e também, de certa forma, pelo público – por estar contracenando com papeis mais “apelativos” dramaticamente que o seu, Sheen ainda não foi reconhecido da maneira que devia. The Special Relationship, onde ele volta ao papel de Blair, não vai mudar esse cenário. O que vemos aqui é mais uma prova das qualidades do ator.

Para os formatos televisivos, The Special Relationship é um filme bem realizado. Consegue versar sobre política de forma clara, desenvolver personagens no curto espaço de tempo de 90 minutos e dialogar com o público interessado nesses filmes que envolvem relações entre autoridades da política. Nesse sentido, o telefilme da HBO tem uma jornada cheia de acertos. Até o sempre indiferente Dennis Quaid está bem em cena, ao passo que Michael Sheen reprisa com sua habitual competência o papel de Tony Blair. Quem merecia mais espaço em cena é Hope Davis como Hillary Clinton. Ela é praticamente uma coadjuvante na história e as cenas em que ela descobre os escândalos sexuais do marido já justificariam um maior destaque para a atriz.

Já para quem assistiu A Rainha, o telefilme de Richard Loncraine é um completo genérico. A equipe é praticamente a mesma, incluindo o roteirista Peter Morgan, o compositor Alexandre Desplat (em mais uma notável trilha sonora) e alguns atores do elenco. Por isso, fica aquele forte sentimento de que The Special Relationship só reciclou o formato dirigido por Stephen Frears em A Rainha. Se formos analisar por esse ponto de vista, o resultado pode ser considerado formulaico e óbvio. Claro que é impossível comparar de forma igualitária duas obras de formatos diferentes, mas as intenções de estilo são praticamente as mesmas. Só que The Special Relationship é mais limitado exatamente por ter sido feito para a TV, ainda que seja mais uma caprichada produção da HBO.

Se em determinados momentos a produção estrelada por Dennis Quaid e Michael Sheen não consegue balancear com pleno êxito a sua proposta principal (a próxima relação de confiança entre Tony Blair e Bill Clinton) com as abordagens mais políticas e didáticas, pelo menos tem o dom de resultar em um produto interessante dentro de seu gênero. As falhas estão ali presentes e o telefilme tem algumas limitações, mas nada que vá afastar aquele público que procura por histórias assim. The Special Relationship bem que tenta ser A Rainha versão 2.0, mas, como o formato é diferente, não tem estofo suficiente para conseguir esse título. Ainda assim, merece uma conferida daqueles que gostam do formato.

FILME: 7.5


A trilha sonora de… HP 7 – Parte 1

Qual fã de Harry Potter até hoje não se arrepia ouvindo a música-tema da série composta por John Williams? Pois é, mas acontece que a clásica música do menino-bruxo já sumiu faz um bom tempo das trilhas de Harry Potter. Assim como a saga abandonou sua estética inicial e se reinventou a partir do terceiro filme, o lado musical também se reformulou. Alguns gostam, outros não. Independente disso, a mudança era necessária.

Assim que John Williams deixou a série (ele fez um maravilhoso trabalho, em especial no terceiro filme, mas aprovo a saída dele para uma nova fase), a trilha não foi muito feliz com Patrick Doyle no quarto volume. A equipe se deu conta da escolha errada e convocou Nicholas Hooper. Esse sim um compositor que deu um novo tom para a saga e conseguiu realizar um notável trabalho musical. Ele criou pelo menos uma composição marcante: Dumbledore’s Army.

Hooper também fez a trilha de O Enigma do Príncipe, mas foi substituído por Alexandre Desplat, um dos maiores compositores da atualidade. O francês, três vezes indicado ao Oscar, não apresenta nada de surpreendente ou inovador na trilha de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1. Comparado ao estilo de Desplat e ao que já foi realizado antes no setor musical da série, não existe nada nessa trilha que nós já não ouvimos antes.

O que encontramos nesse álbum é um estilo que se aproxima mais do estilo de Nicholas Hooper do que do estilo de John Williams. Nesse sentido, Alexandre Desplat continua todo aquele clima mais “adulto” da trilha sonora, livrando-se do tradicional arranjo clássico criado por Williams (mas que poderia estar presente aqui ou ali e não faria mal algum). Mas, pelo menos para mim, Desplat apenas fez uma variação do que Hooper já havia realizado.

Todo o estilo conhecido do francês pode ser reconhecido em faixas como Lovegood. Também podemos encontrar os violinos nervosos em faixas super movimentadas como Sky Battle ou até mesmo melancolia de piano em Harry and Ginny. Mas, no geral, como já dito, o resultado é apenas regular, sem maiores surpresas. Não que isso seja ruim – até porque Desplat nunca chegará nesse nível – só faltou um pouquinho mais de inspiração…

1. The Obliviation

2. Snape to Malfoy Manor

3. Polyjuice Potion

4. Sky Battle

5. At the Burrow

6. Harry and Ginny

7. The Will

8. Death Eaters

9. Dobby

10. Ministry of Magic

11. Detonators

12. The Locket

13. Fireplaces Escape

14. Ron Leaves

15. The Exodus

16. Godric’s Hollow Graveyard

17. Bathilda Bagshot

18. Hermione’s Parent

19. Destroying the Locket

20. Ron’s Speech

21. Lovegood

22. The Deathly Hallows

23. Captured and Tortured

24. Rescuing Hermione

25. Farewell to Dobby

26. The Elder Wand

O Solteirão

– He’s tender and sweet and smart and funny and a million things that you aren’t.

– I was once, honey. It doesn’t last.

Direção: Brian Koppelman e David Levien

Elenco: Michael Douglas, Jenna Fischer, Mary-Louise Parker, Susan Sarandon, Danny DeVito, Jesse Eisenberg, Imogen Poots

Solitary Man, EUA, 2009, Drama, 90 minutos

Sinopse: Há seis anos atrás, Ben Kalmen (Michael Douglas) descobriu que tem um problema cardíaco. Foi a partir de então que sua vida degringolou de vez. Sua famosa concessionária de carros foi à falência, graças à descoberta de um golpe. Seu casamento com Nancy (Susan Sarandon) também foi por água abaixo, já que Ben passou a ter diversos casos. Sem dinheiro e com o nome na lama, hoje ele conta com a filha Susan (Jenna Fischer) e o neto, mas enfrenta resistência do genro Gary (David Costabile).

Em O Solteirão, Michael Douglas faz novamente o papel de um sujeito cafajeste e que engana as pessoas – incluindo sua própria família. Se o Gordon Gekko do recente Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme tinha esse perfil porque era ganancioso e sedento por poder, o Ben Kalmen de O Solteirão tem esse jeito simplesmente porque não consegue ter outro perfil, ele é assim (e não faz a mínima questão de mudar essa situação). Apesar dessas diferenças, tanto os filmes quanto os personagens não se repetem em suas propostas. As abordagens são diferentes.

O péssimo título brasileiro para Solitary Man nada diz sobre o estilo desse filme da dupla Brian Koppelman e David Levien. Quem acha que encontrará uma história cômica, onde o personagem se envolve a todo minuto com mulheres lindas ao estilo Alfie – O Sedutor pode ter uma bela surpresa. O Solteirão tem todo o seu foco no caráter mentiroso do personagem e como ele decepciona as pessoas em sua volta. Ou seja, essa produção pode ser vítima de uma divulgação errada. Na realidade, independente de como é vendido, o filme não ganha nem perde muita coisa por isso.

Digo isso porque O Solteirão é apenas regular em praticamente todos os aspectos. Como drama, não consegue ir muito além da velha história do homem que não consegue se conectar com ninguém e que tende a machucar seus familiares e amigos. Uma história batida e que é tratada de forma corriqueira, incluindo o personagem de Douglas, que está longe de ser magnético como o ótimo Gekko de Wall Street. O ator, por sinal, é, de fato, o grande destaque do filme, uma vez que o elenco de suporte (Danny Devito, Jenna Ficher, Susan Sarandon e Mary-Louise Parker) são mal aproveitados e não possuem o espaço em cena que mereciam.

No balanço final, ao menos para mim, fica a sensação de que O Solteirão não inova e entrega um filme que todos nós já vimos em algum momento da vida. Ainda que esteja longe de ser um filme ruim, a produção nunca engata e fica naquele nível do satisfatório educado. Ou seja, são poucos os que vão reclamar e também são poucos os que vão elogiar. É apenas ok. Se tivesse um roteiro mais original ou, então, um melhor aproveitamento do elenco de suporte, seria bem mais do que uma opção de dvd para se ver sem exigências.

FILME: 7.0


Na coleção… 007 – Cassino Royale

Na onda de repaginar heróis e figuras emblemáticas como, por exemplo, o mascarado Batman, James Bond foi um dos que mais causou polêmica. Ainda assim, também foi um dos que mais agradou o público. Certa parcela diz que Daniel Craig não tem nada a ver com Bond e que Cassino Royale apagou todo o espírito de “agente secreto” do personagem, transformando-o em uma espécie banal de Jack Bauer, do seriado 24 Horas. Outros dizem que a mudança foi mais do que necessária e que o novo filme do 007 foi uma evolução coerente. Faço parte do segundo grupo.

Não sei se o cinema ainda tem espaço para esses heróis de carne e osso que fazem o possível e o impossível para solucionar casos (lembram como o novo Indiana Jones teve uma repercussão super morna?). Ou seja, nada mais coerente do que trazer essas figuras para a realidade, para a luta corpo a corpo e para a ação verossímil. Mesmo que muitos cineastas tomem essa decisão tentando copiar o estilo Paul Greengrass na trilogia Bourne, alcançam bons resultados com essa escolha mesmo assim. Martin Campbell foi um deles e obteve pleno êxito com Cassino Royale.

O filme tem uma história independente dos filmes anteriores – o que é muito bom para o novo público de James Bond – e consegue ser bem conduzido e cheio de adrenalina. Se Daniel Craig até hoje não conquista muito a minha simpatia como Bond, ao menos tem o porte físico e a postura necessária para um papel que exige muito do ator nesse aspecto. Sua companheira de tela, Eva Green, é um dos pontos fracos do longa. Ela tem a beleza, mas ficou muito insossa e com pouco a acrescentar.

Apesar de alguns detalhes que incomodam (em especial a enrolação para o filme finalmente chegar a uma conclusão), Cassino Royale é exemplar como um filme de ação contemporâneo e também como uma nova abordagem do personagem. Além de todo o conjunto geral bem executado, o longa de Martin Campbell traz uma ótima canção de Chris Cornell. You Know My Name já abre a história nos mostrando que estamos diante de um ótimo filme. Um filme que não vai causar qualquer revolução, mas que já consegue ser um dos grandes destaques dentro de seu gênero.

FILME: 8.0


Atividade Paranormal 2

Direção: Tod Williams

Elenco: Sprague Grayden, Brian Boland, Katie Featherson, Micah Sloat

Paranormal Activity 2, EUA, 2010, Suspense, 91 minutos

Sinopse: Kristi (Sprague Grayden), irmã de Katie (Katie Featherston), teve recentemente um filho com Daniel (Brian Boland), que já era pai de uma adolescente. Um dia, ao chegarem em casa, a encontram completamente revirada. Tentando evitar que a situação se repita, Daniel compra um sistema de segurança que instala câmeras em diversos cômodos e no lado de fora da casa. Ao mesmo tempo o casal e a adolescente têm por costume filmar tudo o que acontece ao seu redor. Até que um dia situações estranhas começam a acontecer, o que faz com que o trio acredite que a casa é mal assombrada.

O que comentar sobre um filme que não tem qualquer relevância como cinema? Pois, então, assim é Atividade Paranormal 2, um produto audiovisual que nada acrescenta ao mundo do cinema e que só mostra como certas produções não passam de caça-níqueis sem qualquer propósito além de faturar dinheiro e de se aproveitar de algo que fez sucesso anteriormente. Se o primeiro longa era questionável, ainda tinha alguns méritos, já que conseguia movimentar o imaginário do espectador para causar algumas tomadas de suspense. A continuação, por um outro lado, não faz nada disso e apresenta cenas isoladas, gratuitas e ineficientes.

Logo quando assisti o primeiro filme, comentei que tinha visto sustos, mas não cinema. Essa característica fica ainda mais evidente com o segundo volume, onde a falta de linguagem cinematográfica é gritante. Atividade Paranormal 2 é uma brincadeira (sem graça, por sinal). Nada tem conexão, os sustos – que aqui quase não existem – são previsíveis, a enrolação é infinita e a originalidade é nula. Ou seja, todos aqueles defeitos que já existiam antes se acentuam, principalmente no que se refere aos rodeios que a história faz só para cumprir o tempo de duração para ser considerado um longa-metragem. Sem falar, claro, de uma pobre conexão com a história anterior que não traz resultado algum.

Os momentos finais, que copiam descaradamente o estilo [REC] de filmagem no escuro com câmera na mão, apostam em muita confusão, barulhos e gritos. O que, de certa forma, muda um pouco toda a sensação de monotonia que fica durante a projeção. Mas isso não é o suficiente para justificar algo completamente inexpressivo como Atividade Paranormal 2. Aqui não existe nada de novo, a não ser a revolta que o resultado causa no espectador – que, ao final, vê que pagou para ver mais do mesmo só que piorado e ainda mais sonolento e idiota. O pôster diz que as nossas noites de insônia voltaram com esse filme. Realmente, acho que não vou nem conseguir dormir pensando que coloquei dinheiro e tempo fora com esse que é o pior produto do cinema em 2010…

FILME: 1.0