Cinema e Argumento

Na coleção… O Código Da Vinci

Sinceramente, não entendo o porquê de terem metralhado tanto O Código Da Vinci. Na realidade, consigo enxergar várias razões para o filme ter desapontado o público – e confesso que, quando vi pela primeira vez também fiquei decepcionado – mas acho que elas são poucas para justificar a tamanha aversão que as audiências mundo afora tiveram com esse trabalho de Ron Howard. Baseado no estrondoso best-seller de Dan Brown, O Código Da Vinci abriu o festival de Cannes, onde começou a sua jornada de vaias e críticas negativas.

É certo que a acadêmica direção de Howard prejudicou esse filme. Enquanto o livro era extremamente dinâmico e movimentado, a versão cinematográfica se apoiou demais no didático para desenvolver a trama. Com medo de ser polêmico, o filme resolveu apaziguar algumas críticas (no final, tem um discurso enfadonho do protagonista sobre a validade de todas as opiniões, incluindo as científicas e religiosas) e foi para o caminho inverso do livro. Enquanto Dan Brown criticava de forma ferrenha a igreja, o longa de Howard resolveu apresentar os dois lados da moeda para que o espectador tire suas próprias conclusões.

O didático também não ficou apenas nesse aspecto, mas também no que se refere ao modo de contar a história. A duração é excessiva (a versão estendida tem quase três horas de duração!), o formato ação-repetina-com-diálogos-explicativos é a principal engrenagem e a divisão dos focos narrativos conferem a O Código Da Vinci um clima todo formulaico. No entanto, reclamações a parte, é um filme bem produzido – a fotografia é ideal e a trilha sonora de Hans Zimmer tem momentos excepcionais (a composição Chevaliers de Sangreal é uma das mais belas da última década).

Longe de ser um filme de aspectos grandiosos, O Código Da Vinci se sai bem dentro das limitações impostas pelo estilo quadrado do diretor Ron Howard. Entrega tudo bem mastigado, com situações bem delineadas e discussões interessantes. Claro que se formos comparar com a obra original ou com o que essa produção poderia ter realizado, o resultado é decepcionante. Contudo, O Código Da Vinci, apesar de suas limitações, tem sim um bom resultado. Com ressalvas, é claro. Mas sei que sou um estranho no ninho, já que não consigo ver esse filme todo errado que a maioria vê.

FILME: 8.0


Demônio

I don’t believe in the Devil. People are bad enough by themselves.

Direção: John Erick Dowdle

Elenco: Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O’Hara, Bojana Novakovic, Bokeem Woodbine, Jacob Vargas, Geoffrey Arend

Devil, EUA, 2010, Suspense, 80 minutos

Sinopse: Cinco pessoas que nunca se viram ficam presas num elevador de um arranha céu comercial. Enquanto rumavam para seus respectivos andares, algo acontece e ele para no meio do caminho. E o que para muitos já seria motivo de tensão, piora ainda mais porque estranhos e violentos acontecimentos começam a surgir dentro do pequeno espaço. Alguém ali dentro não é quem aparenta ser. O medo e a maldade tomam conta do local e do lado de fora, ninguém consegue arranjar um jeito de ajudá-los.

Hoje em dia, é impossível criar expectativa com qualquer produto que tenha o nome de M. Night Shyamalan envolvido. Depois de colocar sua credibilidade no lixo de uma vez por todas com O Último Mestre do Ar, Shyamalan deveria tirar umas férias e colocar as ideias no lugar. Mas parece que esses não são os planos dele. Ainda que não dirija nem roteirize Demônio, o indiano faz parte da equipe de produção e também é o autor da história em que o filme é baseado. Por sorte, dessa vez ele não teve dedo podre para estragar o resultado, mas também não estamos diante de um filme que vá dar qualquer crédito para Shyamalan. Demônio é assistível – e só.

A premissa divulgada desde quando Demônio era apenas um projeto apontava que todo o suspense seria encenado dentro de um único cenário: o elevador onde cinco pessoas ficam presas. Não é bem assim. Todo mundo sabe que para um filme ser ambientado todo em um único cenário é necessário muita coragem e uma equipe de alta competência. Se formos olhar o que o diretor John Erick Dowdle  já realizou (Quarentena, por exemplo, a péssima refilmagem do maravilhoso [REC]), podemos saber o porquê de Demônio dividir a sua narrativa entre o elevador e os acontecimentos do lado de fora do espaço, onde outras pessoas tentam socorrer as pessoas lá presas.

Ou seja, não dá para esperar muito de um filme dirigido por alguém sem talento provado e muito menos de uma história derivada da mente de Shyamalan. Ainda assim, Demônio possui suas virtudes, começando pela duração: 80 minutos bem objetivos e com pouca enrolação. A tensão, apesar de óbvia e nem ser relacionada a claustrofobia de estar preso em um elevador, existe em alguns momentos. A trilha previsível de Fernando Velásquez também tem sua valia, assim como o desenrolar do suspense. Falar mal de Demônio significa reclamar do jeito batido de desenvolver uma ideia e dos típicos clichês do genêro, como as burradas inadmissíveis de vários personagens ou da burrice de alguns ao não perceberem quais são as melhores atitudes para aquela situação.

Sinceramente, se você, por alguma razão, esperou algo de Demônio, certamente não foi correspondido. O filme é óbvio e não faz nada diferente no que se refere ao gênero de suspense – além de, felizmente, fugir de assuntos mais religiosos ou insistir em teorias demoníacas. A lição que se tira de um filme desses é que o gênero de suspense está cada vez mais saturado no cinema. Portanto, filmes apenas executados de forma satisfatória e longe de  qualquer brilhantismo como Demônio funcionam. Nesse sentido, M. Night Shyamalan consegue saldo positivo em um projeto que tem o seu nome envolvido. Talvez ele deva permanecer fora do controle de suas histórias. O próximo passo é encontrar uma equipe que fará o diferencial e não apenas o básico como aqui…

FILME: 7.0


Tron – O Legado

I kept dreaming of a world I thought I’d never see. And then, one day… I got in.

Direção: Joseph Kosinski

Elenco: Garrett Hedlund, Jeff Bridges, Olivia Wilde, Michael Sheen, Bruce Boxleitner, Beau Garrett, Anis Cheurfa, Conrad Coates

Tron: Legacy, EUA, 2010, Ficção, 127 minutos

Sinopse: Kevin Flynn (Jeff Bridges) é um gênio da informática que, um dia, desapareceu sem deixar vestígios. Seu filho Sam (Owen Best), na época com sete anos, é criado pelos avós e a empresa de Flynn, a Encom, é gerenciada pelos demais acionistas. Já com 27 anos, Sam não quer assumir o controle da empresa e prefere boicotá-la uma vez por ano. Um dia, o braço direito de seu pai, Alan Bradley (Bruce Boxleitner), recebe um bipe, o que faz com que Sam vá até o local onde Kevin tinha uma série de consoles de videogame. Lá Sam encontra uma passagem secreta, que o leva a uma câmara onde está o último trabalho de seu pai. Sam o aciona e é levado a outro mundo, tecnológico, habitado por programas de computação.

Mesmo aqueles que não apreciam Avatar reconhecem a revolução visual que o filme trouxe para o cinema. O filme de James Cameron foi o que deu origem ao sucesso estrondoso do 3D, que hoje faz com que muitas produções obtenham sucessos que não são merecidos, como o recente Alice no País das Maravilhas, por exemplo, absurdamente encontrado entre as dez maiores bilheterias da história. Não sei se Tron – O Legado teria exatamente o mesmo efeito na indústria caso tivesse sido lançado antes do longa de James Cameron, mas, certamente, já serviria de anúncio para o que estaria por vir.

Tron – Uma Odisséia Eletrônica foi lançado pela Disney em 1982, já explorando algumas revoluções técnicas e investindo no mundo dos computadores em sua temática. 28 anos depois, a produtora resolve lançar Tron – O Legado. Com quase nada de detalhes que impossibilitem o espectador leigo de entrar na história, esse blockbuster veio no momento certo, por dois motivos. O primeiro é a época em que vivemos, totalmente voltada para o mundo cibernético, o que faz com que a história seja atraente. Segundo, o cinema encontra-se em um estado tão evoluído de efeitos que o mundo sonhado pelo filme original na década de 80 ganha, agora, traços impressionantes.

Tron – O Legado é o grande blockbuster de 2010: cheio de pirotecnias, tomadas grandiosas, cenas de ação com suspense e muitos efeitos especiais. Quem pensou que o diretor John Kosinski poderia se perder no meio de tanta tecnologia, como aconteceu recentemente no cinema com o superficial Speed Racer, pode ir mudando de ideia. Se existe algo que não é um problema em Tron – O Legado, esse é o uso de efeitos. Se as cenas de ação se beneficiam com o uso preciso deles, a direção de arte também tira proveito. Os cenários e a fotografiam são tecnológicos, mas nunca parecem falsos. Pelo contrário, o mundo de Tron – O Legado chega a arrepiar na sua concepção visual de tão impecável. Algo para deixar qualquer um de boca aberta.

Portanto, é um espetáculo para os olhos e para os ouvidos (vale mencionar  esutupenda trilha do Daft Punk) que não pode deixar de ser visto nas telonas. Certamente, em dvd, não terá metade do impacto que tem em uma boa sala de cinema. E, para aqueles que, assim como eu, fogem sem pensar duas vezes do preço abusivo do 3D nunca recompensado nos filmes, a dica é aproveitar o deleite visual de Tron – O Legado nesse formato. Claro que o filme seria igualmente encantador na sua técnica sem os malditos óculos, mas o formato é mais um ponto positivo, já que consegue nos deixar ainda mais por dentro dos cenários da história. Nada de objetos voando ou brincadeirinhas. O 3D aqui serve como um artifício sutil para construir várias camadas de imagem que nos transportam com mais detalhismo para os cenários.

A notícia ruim é que se Tron – O Legado é arrebatador no visual e consegue criar sequências de ação extraordinárias, o roteiro não consegue prender a atenção do espectador na hora da calmaria. Ou seja, quando tem que criar a trama, trazer consistência para os fatos e embasar os personagens, o filme fica devendo muito. É falho na tentativa de criar problemas interessantes e, atrapalhado por uma duração de mais de duas horas, torna-se meio monótono quando precisa se basear apenas em diálogos.  Isso nem deveria ser novidade, uma vez que o filme anterior já tinha esse problema. O fato é que não existe conteúdo sólido e a falta dessa base impede que Tron – O Legado seja mais do que apenas um lindo espetáculo técnico.

Outro aspecto que não chega a ser necessariamente ruim, mas que poderia ser melhor são os protagonistas. Garrett Hedlund tem todo o tipo e o preparo físico para o papel, mas o ator é completamente neutro. Não fede nem cheira, sabe? E Jeff Bridges, que tem dois papéis, conseguiu o feito de estar satisfatório em um e péssimo no outro. Se a serenidade é um ponto positivo quando Bridges interpreta Kevin Flynn, o mesmo já não pode se dizer da caricatura quando ele surge na tela como CLU. Ele não soube mesclar exageros com descontração como fez Michael Sheen em sua pequena participação. De resto, Tron – O Legado é o blockbuster na essência da palavra. O blockbuster que não foi para as salas de cinema no verão americano e que só foi chegar agora, tardiamente em 2010. Talvez isso explique o fracasso do longa mundo afora…

FILME: 7.5

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

Para certas pessoas, a guerra é a cura. A guerra funciona como uma válvula de escape. Comigo foi sempre assim, parceiro.

Direção: José Padilha

Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Tainá Müller, Milhem Cortaz, André Mattos, Rod Carvalho, Maria Ribeiro

Brasil, 2010, Drama/Policial, 115 minutos

Sinopse: 2010. Nascimento (Wagner Moura) enfrenta um novo inimigo: as milícias. Ao bater de frente com o sistema que domina o Rio de Janeiro, ele descobre que o problema é muito maior do que imaginava. E não é só. Ele precisa equilibrar o desafio de pacificar uma cidade ocupada pelo crime com as constantes preocupações com o filho adolescente. Quando o universo pessoal e o profissional de Nascimento se encontram, o resultado é explosivo.

O primeiro Tropa de Elite nada mais era do que um filme bem dirigido e que só fez sucesso entre o grande público por causa da estranha satisfação e humor que as pessoas encontravam ao ver o capitão Nascimento (Wagner Moura) treinando o BOPE no meio de tapas e exigências físicas. O filme também estourou porque o protagonista dizia inúmeros bordões como “pede pra sair”. Por alguma razão, o público se “divertia” com isso e fez do longa um instantâneo hit do cinema brasileiro. Ou seja, pelo menos para mim, Tropa de Elite não era um grande filme – a não ser na direção de José Padilha e na atuação de Wagner Moura, os únicos aspectos dignos de grandes elogios. Fez sucesso estrondoso com os brasileiros, mas foi reconhecido por razões que não eram cinematográficas. Superestimado, então.

Tinha muito receio de conferir Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro. Não queria assistir uma repetição de bordões ou mais uma sucessão de tiroteios, mortes e torturas. Todavia, desde o início, foi visível que a recepção dessa continuação foi completamente diferente do volume anterior. O filme é, atualmente, o mais visto da história do Brasil, mas, curiosamente, fez menos sucesso no boca-a-boca com o povo. Sabe por quê? Tropa de Elite 2 abandona firulas para contar uma história consistente e com mais conteúdo. Partiu do cinema de entretenimento (pelo menos foi visto assim por muita gente) para o cinema de denúncia. Essa sequência supera o primeiro justamente por se levar muito mais a sério e querer levar o espectador para a reflexão. Guerra, tráfico e polícia não são temas corriqueiros no cinema. São temas sérios.

Dando um tapa na cara dos políticos e da própria polícia, Tropa de Elite 2 mexe em várias feridas sem temor algum. O diretor José Padilha não hesita em criticar tudo e todos, colocando em dúvida o que se passa nas favelas e no próprio Palácio do Planalto. Ninguém é santo e até o próprio capitão Nascimento (Wagner Moura) começa a se enojar do mundo em que trabalha. Ao contrário do que poderia acontecer, o roteiro faz denúncias e criticas sem parecer enfadonho. É certo que existem  algumas previsibilidades estruturais e aqueles velhos exageros de mortes cheias de sangue e tiros (algo que sempre incomoda os mais conservadores), mas, em conteúdo, Tropa de Elite 2 é certeiro em tudo que se propõe a questionar. Talvez essa proposta tenha dado tão certo porque o roteiro costurou com precisão a vida profissional e pessoal do protagonista.

Outro mérito desse ótimo longa-metragem é que, caso não tivesse o número dois em seu título, nada mudaria. A continuação praticamente independe do primeiro volume, criando uma história atemporal e sem amarras ao enredo do filme anterior. Mas, para quem viu a primeira versão de Tropa de Elite, é fácil notar que a continuação evoluiu em todos os aspectos. Wagner Moura aparece cada vez mais impressionante (e humano) como o capitão Nascimento, José Padilha usa toda sua habilidade extraordinária atrás das câmeras não só para filmar sequências de ação mas também para se aventurar em planos e closes mais inovadores dramaticamente e a trama tem um conteúdo de maior consistência e relevância social.

Portanto, fico muito feliz de ter cedido aos meus preconceitos com Tropa de Elite. Não queria assistir essa continuação, mas não resisti de curiosidade após tantos comentários louvando o filme. E não é para menos, a continuação se difere bastante do primeiro em muitos aspectos e consegue ser um dos grandes filmes de 2010 (possivelmente, o mais ousado). Não chego a exagerar em elogios porque não consigo apreciar em extremos produções desse gênero – afinal, não é o meu estilo. Contudo, seria muita heresia de minha parte deixar de elogiar um filme surpreendente como esse, que vem para provar que o cinema de alta qualidade sobre “favelas” não foi um momento único do cinema nacional em Cidade de Deus. José Padilha provou, com Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, que ainda existem equipes dispostas a ir muito além do básico nessa temática tão batida do cinema brasileiro.

FILME: 8.5


Nascimento (Wagner Moura), agora coronel, foi afastado do BOPE por conta de uma mal sucedida operação. Desta forma, ele vai parar na inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Contudo, ele descobre que o sistema que tanto combate é mais podre do que imagina e que o buraco é bem mais embaixo. Seus problemas só aumentam, porque o filho Rafael (Pedro Van Held) tornou-se adolescente, Rosane (Maria Ribeiro) não é mais sua esposa e seu arqui inimigo Fraga (Irandhir Santos) ocupa posição de destaque no seio de su

Alice no País do Globo de Ouro

Indicações do Globo de Ouro: tão constrangedoras quanto a dancinha do Chapeleiro Maluco em Alice no País das Maravilhas. Quando eu criar coragem para comentar essa lista vergonhosa, posto aqui no blog. Primeiro vou deixar passar a indignação… Confira a lista completa.