Cinema e Argumento

O primeiro Oscar de Maggie

Conheço muito pouco da carreira de dame Maggie Smith. Ela, uma senhora de aparência frágil (tem 76 anos), é uma das mais respeitadas atrizes da Inglaterra e já venceu dois Oscars. Conhecida pela nova geração como a professora Minerva McGonagall da série Harry Potter, costuma aparecer de forma tímida no cinema – até porque é muito seleta em relação a seus trabalhos – e, atualmente, estrela o seriado de época Downton Abbey, criado por Julian Fellowes. Já havia assistido uma performance excelente de Maggie em California Suite, onde ela interpreta uma atriz que perde o Oscar. Curiosamente, a britânica foi celebrada pelo mesmo prêmio, na vida real, por seu desempenho nesse filme.

Só que antes de ser coroada por California Suite, Maggie Smith já tinha vencido o prêmio da Academia, na categoria de melhor atriz. A celebração veio em 1970, com A Primavera de Uma Solteirona. O filme narra a história de Jean Brodie, uma professora à frente do seu tempo. Suas alunas são consideradas privilegiadas por ter uma professora como ela e demonstram ser mais “evoluídas” que as outras estudantes. Só que Jean Brodie está longe de ser esse exemplo de professora, uma vez que compartilha romantismos com outros dois professores e tem um gênio difícil – principalmente porque leciona em uma escola altamente conservadora para meninas.

Essa história de A Primavera de Uma Solteirona já foi trabalhada incansavelmente pelo cinema. Afinal, quantas vezes já não vimos esse enredo de professores quebrando regras em escolas conservadoras? Para a época, o filme pode até ter sido mais original, mas, hoje, podemos dizer que ele não envelheceu muito bem, já que A Primavera de Uma Solteirona é um longa sem maiores surpresas. O que fica mesmo é a presença de Maggie Smith, em uma excelente interpretação que transmite toda a vivacidade e esperteza dessa diferente professora. É por ela que o filme vale a pena!

A trilha sonora de… Jane Eyre

Atenção, fãs de premiações e trilhas! É bom ficar de olho em Dario Marianelli para a próxima award season. O italiano, que, merecidamente, venceu o Oscar por Desejo e Reparação, agora entrega mais um belo trabalho que não deve passar despercebido por aí. Em Jane Eyre, Marianelli produz mais uma pérola de sua carreira, mostrando que, mesmo que não seja tão trabalhador quanto um Alexandre Desplat da vida (mas, afinal, quem é?), consegue ser aquele tipo de sujeito que chama a atenção sempre que aparece.

Adotanto um estilo bem parecido com o que estamos acostumados a ouvir em requintados filmes de época, Dario Marianelli não apenas realizou uma trilha que serve como uma luva para a ambientação da produção, mas também um trabalho para ter na coleção e ouvir constantemente, a exemplo de Desejo e Reparação. Alternando entre o belo uso de violinos (e a última vez que vi algo tão bem realizado foi com Hilary Hahn interpretando as composições de James Newton Howard em A Vila e com Abel Korzeniowski em Direito de Amar) e a eficiente beleza do piano, o compositor já é forte candidato ao título de melhor do ano.

Assim, seria injusto escolher composições para exemplificar a qualidade da trilha sonora de Jane Eyre. É um álbum bem completo, onde praticamente todas as faixas funcionam com suas belezas particulares. Estrelado por Mia Wasikowska, o filme ainda nem tem previsão de estreia aqui no Brasil. O jeito, por enquanto, é se contentar com esse presente de qualidade de Dario Marianelli. De fato, um trabalho a ser celebrado. Para fazer o download da trilha, clique aqui.

01. Wandering Jane
02. A Thorough Education
03. Arrival at Thornfield Hall
04. The End of Childhood
05. White Skin Like the Moon
06. A Game of Badminton
07. In Jest or Earnest
08. Do You Never Laugh, Miss Eyre?
09. A Restless Night
10. Waiting for Mr. Rochester
11. Yes!
12. Mrs. Reed is Not Quite Finished
13. The Wedding Dress
14. An Insuperable Impediment
15. Jane’s Escape
16. Life on the Moors
17. The Call Within
18. Awaken
19. My Edward and I

Happy birthday, Meryl!

Calorosas saudações para a melhor atriz de todos os tempos!

62 anos de pura elegância, talento e genialidade.

Parabéns, minha querida Meryl Streep!

Água Para Elefantes

As long as we can walk, we play.

Direção: Francis Lawrence

Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Mark Povinelli, Richard Brake, Donna W. Scott, Sam Anderson

Water for Elephants, EUA, 2011, Drama/Romance, 120 minutos

Sinopse: Jacob Jankowski (Hal Holbrook) já passou dos 90 anos e não consegue esquecer seus momentos da juventude nos anos 30, período difícil da economia americana, que o levou a trabalhar num circo. Foi lá, enquanto era jovem (Robert Pattinson) e um ex estudante de Veterinária, que ele conheceu a brutalidade dos homens com seus pares e também com os animais, mas encontrou a mulher por quem se apaixonou. Marlena (Reese Whiterspoon) era a Encantora dos Cavalos, a principal atração e esposa do dono do circo: August (Christoph Waltz) um homem carismático, mas extremamente perigoso quando suas duas paixões estavam em jogo.

De todos os filmes que já conferi com Robert Pattinson, esse deve ter sido aquele em que o ator menos me incomodou com sua presença. Para falar bem a verdade, Pattinson está longe de ser um problema em Água Para Elefantes. O incômodo é outro: o triângulo amoroso. Reese Witherspoon, Christoph Waltz e Robert Pattinson não possuem absolutamente nada em comum e é visível a falta de química entre eles. O longa de Francis Lawrence já tem contra si o fato de ser meio antiquado, mas a situação se agrava com atores que não mostram  sintonia.

Transportando o espectador para o mundo dos circos (mas sem aquele belíssimo apuro estético que Tim Burton conseguiu em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, por exemplo), Água Para Elefantes faz de tudo para contar uma história de amor ao estilo antigo, onde o casal vive um romance proíbido e é ameaçado por um cruel vilão que tem completo domínio sobre a mocinha e sobre o lugar onde ela trabalha. Essa história já foi contada milhares de vezes (Baz Luhrmann que o diga, em Moulin Rouge!), mas Água Para Elefantes deixa a sensação de estar parado no tempo.

Esse é um filme que poderia ter funcionado em décadas passadas – e podem acreditar que ele teria vários fãs – mas hoje soa ultrapassado. A culpa não é apenas dos atores (e não estou apontando ninguém em individual e sim a falta de química entre eles), mas também do roteiro de Richard LaGravenese, que conduz tudo da maneira mais linear possível. No final das contas, Água Para Elefantes além de ser muito açucarado em seu romance (o que deve ser atraente para determinados públicos) é também insosso. Que mistura de sensações, hein?

FILME: 6.0

A Minha Versão do Amor

This is the paternal wisdom I’m gonna get?

Direção: Richard J. Lewis

Elenco: Paul Giamatti, Rosamund Pike, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Rachelle Lefevre, Scott Speedman, Macha Grenon, Thomas Trabacchi, Clé Bennett

Barney’s Version, EUA, 2010, Drama, 134 minutos

Sinopse: Barney Panofsky (Paul Giamatti) tem 65 anos e trabalha em uma produtora de TV. Inconformado com a separação, ele se diverte azucrinando o novo marido de sua ex-esposa. Por ficar muito sozinho, já que seus filhos estão crescidos, ele passa a relembrar fatos do passado. De como se casou com Clara (Rachelle Lefevre), ao acreditar que ela estava grávida de um filho seu, e, um ano depois, com sua segunda esposa (Minnie Driver). No mesmo dia do casamento ele conhece e se apaixona por Miriam (Rosamund Pike). A partir de então Barney tenta conquistá-la a todo custo, passando por cima de seu casamento. Para atingir seu objetivo ele contará com a ajuda não intencional de Boogie (Scott Speedman), seu melhor amigo.

A Minha Versão do Amor é aquele tipo de filme que narra os amores e os conflitos de um personagem através das décadas. Numa comparação bem aleatória, lembra o estilo de O Amor nos Tempos do Cólera. Só que histórias como essa precisam de protagonistas envolventes e sedutores e não difíceis como Barney (Paul Giamatti), o indeciso e perdido protagonista de A Minha Versão do Amor. Ao contrário de seu intérprete, Barney não tem a força necessária para sustentar sozinho a simpatia de um longa-metragem que já tem contra si uma duração exacerbada.

Barney casa e, no dia do próprio casamento, já está apaixonado por outra mulher. Quando alcança o que deseja, comete uma traição. Ele tem ataques repentinos de insatisfação e não controla muito bem o que diz. Ok, se é difícil simpatizar com Barney, pelo menos temos Paul Giamatti para compensar esse problema. Ele, que chegou a vencer o Globo de Ouro de melhor ator em comédia/musical por esse filme, certamente é o ponto alto desse filme que não ousa em sua estrutura – é o típico drama que vai e volta no tempo sem grandes surpresas.

Contando com Giamatti no topo do elenco, A Minha Versão do Amor ainda ganha pontos no excelente desempenho de Rosamund Pike e nas cenas do impagável Dustin Hoffman. Eles são uma excelente razão para se assistir a esse filme que tem na sua exagerada duração o seu maior problema. São mais de duas horas para contar uma história que está longe de ser extraordinária ou apaixonante como o roteiro pensa que é. A Minha Versão do Amor é simples e, inclusive, se fosse objetivo e sem tantos rodeios, poderia ser um pouco mais interessante…

FILME: 6.5