Cinema e Argumento

Pooh e o resgate da inocência

Com a evolução técnica das animações e maior complexidade de conteúdo originados pela Pixar, o antigo jeito de fazer animações parece ter desaparecido. Se Sylvain Chomet ganha pontos justamente por apostar na humildade técnica em longas como As Bicicletas de Belleville e o recente O Mágico, podemos dizer que obras assim já não são mais populares. Chomet, por adotar esse estilo, é considerado alternativo e suas animações não ganham maior repercussão – até porque não são dirigidas ao público infantil. Nesse sentido, O Ursinho Pooh é uma verdadeira surpresa por trazer de volta o antigo clima dos desenhos animados comerciais que faziam sucesso.

É no mínimo arriscado resgatar um personagem famoso e apresentá-lo nos mesmos moldes que foi concebido. A questão é: será que ainda existe público para personagens inocentes, história construída sem ambições e humor literalmente infantil? Minha resposta é negativa, mas isso não significa que não tenho enorme satisfação em assistir a longas assim. Só o trailer de O Ursinho Pooh (que tem a maravilhosa canção Somewhere Only We Know) já é o suficiente para qualquer espectador notar que a animação é um resgate. No filme, está toda a pureza e inocência tão esquecida pela infância dos dias de hoje…

Dirigida pela dupla Stephen J. Anderson e Don Hall, essa produção causa uma incrível nostalgia: impossível não lembrar dos desenhos de nossa infância, que estavam longe de alcançar perfeição técnica mas que tinham personagens dignos de nossa afeição. Pouco importa a história, mas sim o carisma dessas figuras, a pureza das mensagens e a simplicidade explícita durante todo o tempo. Claramente dirigo para crianças – e também para aqueles que tiverem disposição para entrar no clima – O Ursinho Pooh é um verdadeiro sopro de positividade numa época em que até a Pixar resolveu cair no óbvio fazer continuações… E você, ainda sente saudade das antigas animações?

NA PREMIAÇÃO ‘MELHORES DE 2011’ DO CINEMA E ARGUMENTO:

Na coleção… A Morte Lhe Cai Bem

Brincar com o caricato é uma decisão muito perigosa. Se dá certo, a diversão é garantida. Se dá errado, o resultado pode ser insuportável. A Morte Lhe Cai Bem, do diretor Robert Zemeckis, caminha nesse mundo de personagens exagerados, situações extremas e trama mais do que inverossímil. O resultado, porém, fica no grupo do resultado positivo.  Claro que esse filme estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis está muito longe de fazer qualquer milagre, mas a diversão é garantida, especialmente se você conseguir entrar no clima e apreciar cada caricatura proposital.

Helen Sharp (Goldie Hawn) está prestes a se casar com o cirurgião plástico Ernest Menville (Bruce Willis), mas ela decide fazer um teste com o seu futuro marido: levá-lo até Madeline Ashton (Meryl Streep), uma atriz e antiga colega de Helen que sempre roubou todos os seus namorados. As duas fingem uma relação pacífica, mas, no fundo, só nutrem ódio uma pela outra. Se Ernest Menville conhecer Madeline e não se deixar levar pelos encantos dela, Helen se convencerá que achou o homem certo. No entanto, mais uma vez, ela perde o namorado. Anos depois, Helen volta mais bela do que nunca, para o completo pavor de Madeline, que vive um casamento fracassado com Ernest e que agora quer, a todo custo, recuperar sua fama e beleza.

Sem dúvida, o ponto alto do filme é o elenco. Se Goldie Hawn transita muito bem entre os papeis de mocinha estranha e de mulher renovada e vingativa, Meryl Streep brilha no seu sempre divertido papel de megera fingida (que, anteriormente, foi trabalhado em Ela é o Diabo). Bruce Willis também não fica atrás e trabalha com muito humor o personagem que está no meio do duelo das personagens principais. O afinado elenco é que dá esse tom tão divertido para A Morte Lhe Cai Bem. É perceptível como todos estão se divertindo – e, para um filme de comédia, esse é um mérito a ser valorizado!

Por um outro lado, A Morte Lhe Cai Bem não dá maiores motivos para que o espectador possa dizer que essa é uma comédia especial. Afinal, o longa de Zemeckis fica cada vez mais absurdo com o passar dos minutos e tem muita gente que pode se irritar com isso… Sorte que Zemeckis conseguiu juntar um trio extremamente eficiente, que entendeu o propósito da história e o tom que o diretor quis atribuir ao enredo. Se não fosse por eles, talvez o resultado não fosse o mesmo, já que A Morte Lhe Cai Bem poderia muito bem fracassar nas mãos de atores errados…

FILME: 7.5

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Hogwarts is threatened! Man the boundaries. Protect us!

Direção: David Yates

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Jason Isaacs, Kelly Macdonald, Tom Felton, Jim Broadbent, Bonnie Wright, Julie Walters, David Thewlis, Emma Thompson, Gary Oldman, Robbie Coltrane

Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA, 2011, Aventura, 130 minutos

Sinopse: Harry Potter (Daniel Radcliffe) e seus amigos Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) seguem à procura das horcruxes. O objetivo do trio é encontrá-las e, em seguida, destruí-las, de forma a eliminar lorde Voldemort (Ralph Fiennes) de uma vez por todas. Com a ajuda do duende Grampo (Warwick Davis), eles entram no banco Gringotes de forma a invadir o cofre de Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter). De lá retornam ao castelo de Hogwarts, onde precisam encontrar mais uma horcrux. Paralelamente, Voldemort prepara o ataque definitivo ao castelo.

David Yates não é qualquer diretor. Haja coragem para assumir uma saga mundialmente famosa, conduzi-la durante quatro filmes e também ser responsável pelo desfecho. Quando assumiu a cadeira de direção em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o britânico já mostrou habilidade ao conduzir um longa que compensava todas as deficiências da obra de J.K. Rowling. Yates construiu uma visão mais sombria (palavra inevitável, não?) do mundo do protagonista, adotou um estilo visual diferenciado e se firmou como um dos grandes nomes da franquia. Yates, posteriormente, tropeçou feio em O Enigma do Príncipe e se reergueu de maneira surpreendente em As Relíquias da Morte – Parte 1. Mas nada nos preparava para o que estava por vir no capítulo final de Harry Potter

Ao não escolher o caminho de se aproveitar da emoção dos fãs para criar dramas fáceis, Yates prova, mais uma vez, o seu amadurecimento como diretor. Mais do que uma revolução visual (é o filme mais impressionante do ponto de vista estético), Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 transparece a intensa vontade do diretor e do roteirista Steve Kloves de apresentar uma história bem narrada e que não deixa resoluções confusas. Se os leitores das obras de J.K. Rowling podem reclamar de pequenos detalhes mal desenvolvidos, talvez o mesmo não seja dito por quem tem apenas conhecimento cinematográfico da saga. É fácil, por exemplo, que até mesmo aqueles que mal se lembram do enredo (como eu, que li As Relíquias da Morte há quatro anos atrás), não fiquem incomodados com passagens meio difíceis de compreender. Tudo é facilmente digerível.

Só que toda essa excepcional qualidade do roteiro não teria o mesmo impacto se o trabalho do elenco não correspondesse. A boa notícia é que todos os atores estão em plena harmonia. Ao passo que, pela primeira vez em toda a saga, Daniel Radcliffe comanda o espetáculo sem qualquer momento que possa desapontar, o resto do elenco juvenil surge mais eficiente do que nunca – até porque, se nessa altura do campeonato não demonstrassem entrosamento, seria preocupante. A história é sim centrada neles, mas o grande destaque é das figuras secundárias. Se dame Maggie Smith aparece valente e representando os bons ideais que um dia fizeram Hogwarts ser palco de inspiração, Alan Rickman surge como uma figura extremamente emblemática. Smith e Rickman, por sinal, protagonizam um duelo (literalmente) de arrepiar.

Ainda assim, é Rickman que fica com o melhor show. Com um flashback simplesmente devastador (e filmado com uma sutileza quase poética), o ator encarna o caráter dúbio do personagem com uma precisão nunca vista antes. É certo que seu Severo Snape (assim com o Dumbledore de Michael Gambon ou a Minerva McGonagall de Maggie Smith) tem espaço muito limitado em cena. No entanto, poucos minutos são o suficiente para o filme e o ator conseguirem extrair passagens memoráveis de um personagem que, no final das contas, é a resposta para vários questionamentos de Harry. Assim, também vale mencionar o bom senso da produção, que não se aproveita de momentos de maior carga dramática desse personagem para forçar emoções.

É mais uma decisão sábia de Yates: apostar na simplicidade e não no melodramático. Portanto, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 é um filme que vai construindo sua carga emocional de forma muito natural – algo perceptível, inclusive, na excelente trilha de Alexandre Desplat, que se torna muito mais eficente no filme do que no seu pouco expressivo resultado fora. Desse jeito, no meio de tanta emoção, sejam elas em relação ao drama ou aos tensos momentos de confronto, a angústia vai acumulando e o espectador se enxerga numa verdadeira montanha-russa de emoções. Isso mesmo, As Relíquias da Morte – Parte 2 éum filme extremamente movimentado nos mais variados tipos de sensações. Mas, como mencionado, sem nunca ser piegas.

Contornando soluções simplórias ou momentos de fraco impacto no livro de J.K. Rowling, o longa é um verdadeiro presente – tanto para os fãs, que encontram nele o melhor momento da saga, quanto para os cinéfilos, que estão diante do grande blockbuster do verão norte-americano. As Relíquias da Morte – Parte 2 é grandioso sem se esquecer de emocionar e dramático sem ignorar a ação. A experiência é totalmente livre de defeitos, com um epílogo que é infinitamente melhor do que o esperado. A melancolia, que já era aguardada em função do desfecho, está presente de forma muito genuína na eterna sensação despedida que temos durante a sessão e no resgate das composições clássicas que John Williams fez para a série.

Enfim, As Relíquias da Morte – Parte 2, depois de ter arrepiado em diversos momentos, não poderia ter dado um golpe mais cruel nos momentos finais. Relembrando o primeiro ano de Harry Potter, quando o protagonista embarcava pela primeira vez no trem rumo a Hogwarts na plataforma 9 3/4, o filme vasculha as memórias mais profundas de quem acompanhou a saga desde o início. Com essas lembranças, As Relíquias da Morte – Parte 2 é a despedida perfeita para quem teve a infância marcada por Harry Potter. E só de lembrar que Hogwarts nunca mais se materializará no cinema ou em livros, já dá um aperto no coração. Os afortunados são aqueles que sempre acompanharam tudo com muita paixão e que sempre terão a escola de magia presente na imaginação. Sorte que sou um deles. Esse épico desfecho é para marcar gerações. Perfeito, perfeito, perfeito…

FILME: 10.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Desenrola

Direção: Rosane Svartman

Elenco: Olívia Torres, Kayky Brito, Lucas Salles, Vitor Thiré, Daniel Passi, Marcello Novaes, Letícia Spiller, Juliana Paiva, Pedro Bial, Juliana Paes

Brasil, 2011, Comédia, 95 minutos

Sinopse: Priscila (Olívia Torres) tem 16 anos e se acha uma garota normal demais, principalmente, quando repara em suas amigas. Quando sua mãe viaja a trabalho e ela fica sozinha em casa, decide que vai dar um jeito na sua caretice e vai fundo nessa ideia. Entre as muitas mudanças que pretende promover na sua vida, a virgindade parece ser uma das prioridades, mas sera que a hora certa é agora? Embora esteja decidida em investir no mais galinha da turma (Kayky Brito) para viver sua primeira experiência sexual, um trabalho em grupo na escola e uma viagem com amigos, podem mudar para sempre as suas expectativas porque ela descobre que nem tudo é exatamente como dizem e a verdade pode ser bem diferente da realidade.

O apresentador Pedro Bial resolveu dar uma de ator em Desenrola e, de tão emocionado que ficou com a experiência, comentou no Twitter: “Desenrola! Que realização! Filme impecável, sensível, emocionante! Cito meu filhinho: parece americano de tão bom”. Existem, pelo menos, duas afirmações absurdas nesse comentário de Bial. A primeira é: desde quando filme “americano” é sinônimo de qualidade? E a segunda e mais importante: seguindo os padrões dele, Desenrola não é bom para ser comparado com filme “americano”. Aliás, esse é um longa-metragem que não segue o padrão de uma excelente sequência de filmes sobre adolescentes que estava sendo apresentada pelo cinema nacional.

Antes Que o Mundo Acabe, As Melhores Coisas do Mundo e Os Famosos Duendes da Morte. Três filmes brasileiros que versam sobre as angústias do mundo adolescente. Claro que cada um a seu modo e com peculiaridades narrativas – em especial o último, dirigido por Esmir Filho. Desenrola é justamente tudo aquilo que esse trio (e também Morro do Céu, que foi exibido num circuito limitadíssimo) não é: óbvio, clichê e comercial. O longa de Rosane Svartman parece um capítulo da novela Malhação nos anos 90: a menina que é virgem mas tem medo de admitir, o garoto que é o “pegador” mas não tem compromisso com ninguém e o menino feio/gordinho que faz piada de todos.

Se esses personagens estereotipados fossem o único problema de Desenrola, até dava pra ser mais piedoso com o filme. O problema é que o roteiro dá margem para que essas limitações fiquem ainda mais evidentes. A história é centrada num único assunto (a sexualidade) e não faz questão alguma de abordar outros aspectos das vidas dos personagens. Ou seja, muito humor sobre quem é virgem ou não, hormônios à flor da pele e conquistar a garota certa. É uma produção sem personalidade – e nisso podemos incluir o elenco, que não chega a trazer uma interpretação mais especial…

No final, o que se pode constatar é que, apesar de Desenrola ficar muito longe da boa fase desse cinema adolescente do Brasil, não chega a ser um longa ofensivo ou sequer digno de ser apedrejado. Por um outro lado, merece, certamente o título de produção para Sessão da Tarde. Afinal, todos os elementos teens (tanto em relação ao humor quanto ao drama) dessa atração da rede Globo estão presentes ali. Só faltava, claro, o Bial ser o novo narrador e dizer em alto e bom tom: “Essa turminha do barulho vai aprontar altas aventuras com muita azaração no colégio”. Quem sabe aí sim não fica mais parecido com um filme americano…

FILME: 6.0

Na coleção… Desejo e Reparação

Desejo e Reparação pode ser considerado um clássico contemporâneo. Dificilmente, nos dias de hoje, um filme de época foi tão bem produzido e, ao mesmo tempo, conseguiu ser extremamente emotivo e até mesmo reflexivo. Narrando a secreta e conturbada história de amor de Robbie (James McAvoy) e Cecilia (Keira Knightley), que é subitamente interrompida pelas atitudes inconsequentes da jovem Briony (Saoirse Ronan), o diretor Joe Wright realizou um grande trabalho que foi injustamente desdenhado pelas premiações – era, por exemplo, superior ao grande vencedor do Oscar, Onde os Fracos Não Têm Vez.

A estrutura da história é claramente divida em três atos bem distintos em todos os sentidos. O primeiro, passado em um verão na Inglaterra, é o melhor de todos porque, além de contar com uma extraordinária performance da jovem Saoirse Ronan, pontua muito bem o psicológico de cada personagem, explora a motivação de cada um deles e apresenta os fatos da forma mais bela possível – e, nisso, incluímos a fotografia de Seamus McGarvey e a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli. Já o segundo, passado em um período de guerra, mantem a excelência técnica, mas não consegue preservar o excelente ritmo apresentado até então. Em termos de ritmo, é justamente o oposto do primeiro ato.

E, na terceira e última parte, Desejo e Reparação nos resevera inúmeras surpresas. É no desfecho que descobrimos a verdade sobre tudo que foi apresentado anteriormente. Assim, além de ter o poder de surpreender diversas vezes, o roteiro também encerra com maestria a jornada de cada um dos personagens. Essa emoção está claramente explícita na cena final, onde Vanessa Redgrave surge para narrar um dos finais mais emblemáticos dos últimos anos. Por todos esses motivos, Desejo e Reparação revela-se um filme indispensável do cinema contemporâneo e falar mais do que isso é correr o risco de estragar o que existe de maravilhoso nesse longa…

FILME: 9.0