Cinema e Argumento

Desenrola

Direção: Rosane Svartman

Elenco: Olívia Torres, Kayky Brito, Lucas Salles, Vitor Thiré, Daniel Passi, Marcello Novaes, Letícia Spiller, Juliana Paiva, Pedro Bial, Juliana Paes

Brasil, 2011, Comédia, 95 minutos

Sinopse: Priscila (Olívia Torres) tem 16 anos e se acha uma garota normal demais, principalmente, quando repara em suas amigas. Quando sua mãe viaja a trabalho e ela fica sozinha em casa, decide que vai dar um jeito na sua caretice e vai fundo nessa ideia. Entre as muitas mudanças que pretende promover na sua vida, a virgindade parece ser uma das prioridades, mas sera que a hora certa é agora? Embora esteja decidida em investir no mais galinha da turma (Kayky Brito) para viver sua primeira experiência sexual, um trabalho em grupo na escola e uma viagem com amigos, podem mudar para sempre as suas expectativas porque ela descobre que nem tudo é exatamente como dizem e a verdade pode ser bem diferente da realidade.

O apresentador Pedro Bial resolveu dar uma de ator em Desenrola e, de tão emocionado que ficou com a experiência, comentou no Twitter: “Desenrola! Que realização! Filme impecável, sensível, emocionante! Cito meu filhinho: parece americano de tão bom”. Existem, pelo menos, duas afirmações absurdas nesse comentário de Bial. A primeira é: desde quando filme “americano” é sinônimo de qualidade? E a segunda e mais importante: seguindo os padrões dele, Desenrola não é bom para ser comparado com filme “americano”. Aliás, esse é um longa-metragem que não segue o padrão de uma excelente sequência de filmes sobre adolescentes que estava sendo apresentada pelo cinema nacional.

Antes Que o Mundo Acabe, As Melhores Coisas do Mundo e Os Famosos Duendes da Morte. Três filmes brasileiros que versam sobre as angústias do mundo adolescente. Claro que cada um a seu modo e com peculiaridades narrativas – em especial o último, dirigido por Esmir Filho. Desenrola é justamente tudo aquilo que esse trio (e também Morro do Céu, que foi exibido num circuito limitadíssimo) não é: óbvio, clichê e comercial. O longa de Rosane Svartman parece um capítulo da novela Malhação nos anos 90: a menina que é virgem mas tem medo de admitir, o garoto que é o “pegador” mas não tem compromisso com ninguém e o menino feio/gordinho que faz piada de todos.

Se esses personagens estereotipados fossem o único problema de Desenrola, até dava pra ser mais piedoso com o filme. O problema é que o roteiro dá margem para que essas limitações fiquem ainda mais evidentes. A história é centrada num único assunto (a sexualidade) e não faz questão alguma de abordar outros aspectos das vidas dos personagens. Ou seja, muito humor sobre quem é virgem ou não, hormônios à flor da pele e conquistar a garota certa. É uma produção sem personalidade – e nisso podemos incluir o elenco, que não chega a trazer uma interpretação mais especial…

No final, o que se pode constatar é que, apesar de Desenrola ficar muito longe da boa fase desse cinema adolescente do Brasil, não chega a ser um longa ofensivo ou sequer digno de ser apedrejado. Por um outro lado, merece, certamente o título de produção para Sessão da Tarde. Afinal, todos os elementos teens (tanto em relação ao humor quanto ao drama) dessa atração da rede Globo estão presentes ali. Só faltava, claro, o Bial ser o novo narrador e dizer em alto e bom tom: “Essa turminha do barulho vai aprontar altas aventuras com muita azaração no colégio”. Quem sabe aí sim não fica mais parecido com um filme americano…

FILME: 6.0

Na coleção… Desejo e Reparação

Desejo e Reparação pode ser considerado um clássico contemporâneo. Dificilmente, nos dias de hoje, um filme de época foi tão bem produzido e, ao mesmo tempo, conseguiu ser extremamente emotivo e até mesmo reflexivo. Narrando a secreta e conturbada história de amor de Robbie (James McAvoy) e Cecilia (Keira Knightley), que é subitamente interrompida pelas atitudes inconsequentes da jovem Briony (Saoirse Ronan), o diretor Joe Wright realizou um grande trabalho que foi injustamente desdenhado pelas premiações – era, por exemplo, superior ao grande vencedor do Oscar, Onde os Fracos Não Têm Vez.

A estrutura da história é claramente divida em três atos bem distintos em todos os sentidos. O primeiro, passado em um verão na Inglaterra, é o melhor de todos porque, além de contar com uma extraordinária performance da jovem Saoirse Ronan, pontua muito bem o psicológico de cada personagem, explora a motivação de cada um deles e apresenta os fatos da forma mais bela possível – e, nisso, incluímos a fotografia de Seamus McGarvey e a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli. Já o segundo, passado em um período de guerra, mantem a excelência técnica, mas não consegue preservar o excelente ritmo apresentado até então. Em termos de ritmo, é justamente o oposto do primeiro ato.

E, na terceira e última parte, Desejo e Reparação nos resevera inúmeras surpresas. É no desfecho que descobrimos a verdade sobre tudo que foi apresentado anteriormente. Assim, além de ter o poder de surpreender diversas vezes, o roteiro também encerra com maestria a jornada de cada um dos personagens. Essa emoção está claramente explícita na cena final, onde Vanessa Redgrave surge para narrar um dos finais mais emblemáticos dos últimos anos. Por todos esses motivos, Desejo e Reparação revela-se um filme indispensável do cinema contemporâneo e falar mais do que isso é correr o risco de estragar o que existe de maravilhoso nesse longa…

FILME: 9.0

A Casa

Direção: Gustavo Hernández

Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso, María Salazar

La Casa Muda, Uruguai, 2010, Suspense, 75 minutos

Sinopse: Laura (Florencia Colucci) foi contratada junto com seu pai para dar uma limpada em uma casa abandonada, cujo proprietário gostaria de vender. Isolada de tudo e sem luz, os dois começam a se preparar para o trabalho, mas são subitamente interrompidos por um estranho ruído que vem do andar de cima. O dono havia avisado para que evitassem as escadas devido ao estado de conservação, porém o pânico toma conta de Laura, que sem saber se o que está acontecendo é fruto de sua imaginação ou realidade, resolve encarar seus medos.

Quem aprecia e leva filmes de terror a sério tem um certo prazer em sofrer. É aquele impasse: estamos lá agonizando, mas, ao mesmo tempo, gostamos dessa sensação que determinado filme nos provoca. Essa sensação, sejamos sinceros, está cada vez mais escassa no cinema atual. São raras as produções que conseguem causar verdadeira tensão no espectador. Esses exemplares, nos últimos anos, estão vindo de lugares bem diferentes. Se o espanhol [REC] foi uma verdadeira aula de como torturar (no bom sentido, claro) o público com suspense, o uruguaio A Casa tenta reproduzir esse mesmo efeito abordando um estilo de narrativa parecido.

É mais ou menos a mesma situação: existe um lugar onde pessoas ficam presas e, lá dentro, fatos misteriosos começam a acontecer. O lugar é escuro, ninguém consegue sair e tudo fica ainda mais perigoso com o passar dos minutos. Com uma admirável técnica de filmar tudo em tempo real (leia-se num take só, ainda que existam divergências quanto a isso), A Casa se torna desesperador exatamente por causa disso: não existe tempo para respirar. É tudo sequencial, sem qualquer trégua na tensão. Só por isso o longa-metragem já merece aplausos, uma vez que espanhóis e uruguaios parecem ter se especializado nessa habilidade tão escassa no cinema norte-americano.

Só que, infelizmente, existem dois problemas muito graves em A Casa. O primeiro é que o filme revela cedo demais o que supostamente “assombra” o tal imóvel em que a protagonista está presa. O maior mérito que uma obra de suspense pode ter é justamente brincar com o imaginário e deixar para o espectador imaginar o que causa tantos momentos de horror. A Casa segue esse parâmetro até certo ponto e, depois, entrega o jogo, diminuindo um pouco o impacto da situação. De maneira alguma isso acaba com a tensão, mas o ideal seria manter a torturante opção de não revelar ao espectador a origem do suspense. Incóginas são sempre muito mais eficientes.

E, se A Casa permanece inabalável em seu suspense mesmo com esse porém, eis que o diretor Gustavo Hernández comete um deslize ainda pior. No desfecho, cria resoluções decepcionantes, quebrando todo o excelente clima apresentado até então. Deixando o espectador com aquela sensação de ter sido feito de trouxa (e essa é a pior sensação ao se assistir a um filme), Hernández aposta em uma resolução que, a princípio, pode parecer incompreensível de tão boba e desestimulante, mas que, aos poucos, vai se consolidando até culminar nos créditos finais, onde os mais intolerantes já estarão com raiva de tudo. Essas pessoas, por sinal, podem muito bem dizer que A Casa é destruído por um final tão incoerente com  a qualidade do resto do longa.

Não entro no grupo dos mais radicais e afirmo que essa produção uruguaia sobrevive aos detalhes mencionados. É óbvio que o diretor poderia ter caprichado no encerramento (afinal, a história, que é baseada em fatos reais, foi construída apenas a partir de fotos tiradas pela protagonista na tal casa), mas não acho justo julgar o conjunto geral de um filme a partir de um péssimo desfecho. Porém, é possível entender quem acha que os pontos positivos de A Casa são invalidados em função dos rumos escolhidos. Só resta a você saber se é do grupo que, mesmo que acabe a sessão com frustrações, ainda consegue admirar o que existe de bom em um longa ou se é daquele tipo que sai revoltado xingando toda a equipe envolvida no filme…

FILME: 8.0

A dama de ferro está chegando!

E eis o primeiro teaser de A Dama de Ferro, dirigido por Phyllida Lloyd.

Meryl Streep em mais um papel forte…

Não é de se esperar uma caracterização e uma atuação impecável?

Só me deixou com ainda mais vontade de ver logo esse filme!

Meia-Noite em Paris

You’re a surrealist! I’m a normal guy!

Direção: Woody Allen

Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Michael Sheen, Carla Bruni, Adrien Brody, Alison Pill, Kurt Fuller, Mimi Kennedy

Midnight in Paris, EUA/França, 2011, Comédia, 94 minutos

Sinopse: Gil Pender (Owen Wilson) é um roteirista de filmes que, atualmente, está escrevendo um livro. Ele também está prestes a se casar com Inez (Rachel McAdams). Os dois estão passando uma temporada de férias em Paris junto com os pais dela. Na capital francesa, Gil começa a ter a inspiração que lhe faltava, especialmente quando descobre que, sempre à meia-noite, ele é capaz de visitar outras épocas de Paris numa espécie de viagem do tempo proporcionada por um veículo que o encontra numa esquina. Nessas viagens, ele conhece grandes celebridades como Pablo Picasso, Salvardor Dalí e Ernest Hemingway, que lhe ajudarão não apenas a ter ideias para seu novo livro, mas também a avaliar aspectos de sua vida.

Desde que abandonou Nova York para produzir seus filmes em outros lugares, Woody Allen já passou pela Inglaterra (Match Point), Espanha (Vicky Cristina Barcelona) e, futuramente, estará na Itália. Contudo, nenhuma outra obra recente de Woody Allen conseguiu transbordar tanto encantamento por um lugar como Meia-Noite em Paris. A abertura, mais longa do que poderia ser normalmente só para explorar as ruas da cidade-título, já detalha a beleza singular da capital francesa nas mais variadas locações. Só que Woody Allen não é limitado: Meia-Noite em Paris não chega nem perto de ser apenas um longa-metragem de cartão-postal. É também uma obra inteligente.

O que mais chama a atenção nesse novo filme do diretor é como o roteiro explora de forma eficiente uma eterna discussão: afinal, a geração anterior não era muito mais interessante? Partindo do pressuposto de que sempre achamos a nossa realidade monótona e de que as décadas passadas proporcionaram mais inspiração e satisfação do que a nossa, Woody Allen abre uma excelente reflexão sobre onde estaria de verdade a nossa felicidade. Agora ou no passado? Ele vai além: também deixa o espectador pensando sobre em que lugar somos realmente felizes. Será que não é necessário viver em outro país para encontrarmos plenitude em nossas vidas?

Se eu ainda espero aquela intensa complexidade emocional que Woody Allen apresentou em Interiores (o melhor filme do diretor, ainda que pouco conhecido), pelo menos foi extremamente gratificante ver um longa com maior frescor do que os trabalhos anteriores dele. Desde Vicky Cristina Barcelona, o diretor realizava apenas pequenas obras sem maiores atrativos. A situação foi revertida com Meia-Noite em Paris, um filme que é inteligente sem ser arrogante mas que ao mesmo tempo funciona de forma ainda mais prazerosa para os intelectuais que conhecem, por exemplo, Dalí, Picasso, Hemingway e afins.

Assim, com propostas interessantes, belíssimas imagens de Paris e seu habitual humor, Woody Allen realizou uma obra muito agradável e que deve ficar entre os mais satisfatórios de seus trabalhos contemporâneos. É fácil, por exemplo, relevar a personagem estereotipada de Rachel McAdams (a esposa desagradável e que não compartilha do lado sonhador do marido), a falta de ritmo entre algumas transições do filme ou, então, o desfecho super previsível. Meia-Noite em Paris merece ser assistido. Se não for para apreciar a mensagem bem executada, pelo menos para encher os olhos com Paris, que nunca esteve tão bem retratada pelo cinema nos últimos anos…

FILME: 8.0