Cinema e Argumento

VIPs e a versatilidade de Wagner Moura

Se me perguntassem qual o melhor ator brasileiro em atividade, certamente diria que é Wagner Moura. Dos grandes talentos revelados nos últimos tempos, ele é o que mais impressiona com seu talento e, acima de tudo, sua versatilidade. Com 35 anos de idade, Moura teve seus primeiros destaques quando trabalhava na TV. No cinema, fez papeis coadjuvantes em longas como A Máquina, Carandiru e Abril Despedaçado, até conseguir maior importância e, finalmente, alcançar o grande público com seu marcante capitão Nascimento de Tropa de Elite. Só que Wagner não dá descanço: está sempre apresentando novas provas de talento.

Em Tropa de Elite 2, ele conseguiu trazer humanidade e amadurecimento para um papel que parecia fadado a ser apenas um eterno símbolo de visceralidade. Agora, ele mostra mais versatilidade em VIPs, onde tem a oportunidade de transitar pelos mais variados tipos de papeis. Na pele de Marcelo, conhecida figura brasileira que aplicou grandes golpes ao fingir identidades, Moura vai de adolescente rebelde até adulto impostor que se passa por figuras públicas. Assim, o trabalho, além de ser físico e gestual, também compreende toda uma gama de abordagens psicológicas.

O ator, claro, consegue carregar essa responsabilidade com muita folga. Inclusive, se não fosse por ele, VIPs estaria condenado ao esquecimento, uma vez que é uma produção sem muita consistência no roteiro. Os fatos narrados parecem todos soltos e sem muita conexão, como se VIPs fosse cheio de blocos onde, a cada nova troca de visual do personagem, uma nova fase se inicia. A narrativa episódica prejudica esse filme que, no final das contas, não deixa muitas lembranças exatamente por não ter foco definido.

Ainda assim, se faltou mais atenção para o emocional e psicológico do protagonista, pelo menos temos Wagner Moura em forma segurando as pontas. É o clássico caso de um ator que consegue ser maior que o filme em questão. Também não é para menos, já que estamos falando de um profissional que agora está alçando voo no exterior filmando Elysium, longa dirigido por Neill Blonkamp com Jodie Foster e Matt Damon no elenco. Não que conseguir trabalhar no exterior seja necessariamente sinônimo de talento… Mas, nesse caso, é.

Vejo Você no Próximo Verão

I am for you.

Direção: Philip Seymour Hoffman

Elenco: Philip Seymour Hoffman, Amy Ryan, John Ortiz, Daphne Rubin-Vega, Richard Petrocelli, Thomas McCarthy, Lola Glaudini, Trevor Long, Stephen Mailer

Jack Goes Boating, EUA, 2010, Drama, 91 minutos

Sinopse:  Jack (Philip Seymour Hoffman) é um motorista de limusine e é amigo do seu companheiro de trabalho, Clyde (John Ortiz). Clyde é casado com Lucy (Daphne Rubin-Vega), que é amiga de Connie (Amy Ryan). Clyde apresenta Connie a Jack, e ele encontra nessa relação um motivo para dar uma guinada em sua vida: procurar uma nova profissão, aprender a cozinhar e se esforçar para realizar um desejo de Connie: um passeio de barco no verão. Enquanto a relação entre Jack e Connie vai se tornando cada vez mais sólida, o casamento de Clyde e Lucy está prestes a ruir.

Não costumo ter muitas expectativas com projetos dirigidos por atores, principalmente quando a pessoa em questão está assumindo pela primeira vez a cadeira de diretor. Por sorte, conferi Vejo Você no Próximo Verão somente por causa da história e nem fiquei sabendo que Philip Seymour Hoffman era o responsável pela obra. Com isso, foi ainda maior a minha admiração por esse filme quando, nos créditos finais, constatei que ele era dirigido pelo ator. Dessa maneira, pelo menos para mim, Hoffman é um ator excepcional e, agora, um nome a ser observado como diretor.

O filme mostra o relacionamento de duas pessoas desajustadas, mas que, ao se conhecerem, encontram uma luz no fim do túnel e uma razão para mudar. Vejo Você no Próximo Verão trabalha com muita sensibilidade os problemas emocionais de dois protagonistas que poderiam facilmente cair na caricatura. Ainda bem que isso não acontece! É surpreendente a forma como os personagens de Philip Seymour Hoffman e Amy Ryan são tratados de forma muito humana e nunca se tornam estereotipados. São figuras que o cinema já mostrou várias vezes e que Vejo Você no Próximo Verão faz questão de aproximar da realidade.

Na história, também existe outro casal, interpretado por John Ortiz e Daphne Rubin-Vega. Seus papeis são justamente o oposto dos já citados: pessoas que não possuem problemas em se socializar e que não têm dificuldades em, por exemplo, executar um trabalho ou expressar sentimentos. Só que, enquanto Jack e Connie de Hoffman e Ryan estão em curva ascendente no relacionamento afetivo, Cyde e Lucy estão desmoronando. E, mais uma vez, o roteiro acerta ao nunca apresentar extremos ou deixar batida demais a forma como esses opostos são trabalhados.

Vejo Você no Próximo Verão, além de ter excelentes interpretações de Philip Seymour Hoffman e Amy Ryan (ambos formando mais uma dupla maravilhosa, depois de Ryan Gosling e Michelle Williams em Namorados Para Sempre), é uma obra muito melancólica, principalmente porque a trilha instrumental de Grizzly Bear e a coletânea que traz Cat Power, DeVotchKa, entre outros, faz questão de dar esse tom junto junto com o roteiro e a direção. A neve e o inverno também estão ali para dar ainda mais essa sensação. Mas, como já dito, tudo sem ser piegas.

A primeira exibição de Vejo Você no Próximo Verão aconteceu no festival de Sundance e o filme percorreu timidamente os maiores circuitos. É óbvio que um longa desse estilo (independente, mas sem aquele tom muito alternativo que limita a percepção de muitos) não ganharia amplitude comercial. No entanto, merecia ter maior apreço do público e da crítica que tanto valoriza esse tipo de cinema. Tenho certeza que muitos vão se surpreender com essa obra de Philip Seymour Hoffman. Ele ainda não está 100%, mas, sem dúvida alguma, está num caminho muito promissor como diretor!

FILME: 8.5

Pooh e o resgate da inocência

Com a evolução técnica das animações e maior complexidade de conteúdo originados pela Pixar, o antigo jeito de fazer animações parece ter desaparecido. Se Sylvain Chomet ganha pontos justamente por apostar na humildade técnica em longas como As Bicicletas de Belleville e o recente O Mágico, podemos dizer que obras assim já não são mais populares. Chomet, por adotar esse estilo, é considerado alternativo e suas animações não ganham maior repercussão – até porque não são dirigidas ao público infantil. Nesse sentido, O Ursinho Pooh é uma verdadeira surpresa por trazer de volta o antigo clima dos desenhos animados comerciais que faziam sucesso.

É no mínimo arriscado resgatar um personagem famoso e apresentá-lo nos mesmos moldes que foi concebido. A questão é: será que ainda existe público para personagens inocentes, história construída sem ambições e humor literalmente infantil? Minha resposta é negativa, mas isso não significa que não tenho enorme satisfação em assistir a longas assim. Só o trailer de O Ursinho Pooh (que tem a maravilhosa canção Somewhere Only We Know) já é o suficiente para qualquer espectador notar que a animação é um resgate. No filme, está toda a pureza e inocência tão esquecida pela infância dos dias de hoje…

Dirigida pela dupla Stephen J. Anderson e Don Hall, essa produção causa uma incrível nostalgia: impossível não lembrar dos desenhos de nossa infância, que estavam longe de alcançar perfeição técnica mas que tinham personagens dignos de nossa afeição. Pouco importa a história, mas sim o carisma dessas figuras, a pureza das mensagens e a simplicidade explícita durante todo o tempo. Claramente dirigo para crianças – e também para aqueles que tiverem disposição para entrar no clima – O Ursinho Pooh é um verdadeiro sopro de positividade numa época em que até a Pixar resolveu cair no óbvio fazer continuações… E você, ainda sente saudade das antigas animações?

NA PREMIAÇÃO ‘MELHORES DE 2011’ DO CINEMA E ARGUMENTO:

Na coleção… A Morte Lhe Cai Bem

Brincar com o caricato é uma decisão muito perigosa. Se dá certo, a diversão é garantida. Se dá errado, o resultado pode ser insuportável. A Morte Lhe Cai Bem, do diretor Robert Zemeckis, caminha nesse mundo de personagens exagerados, situações extremas e trama mais do que inverossímil. O resultado, porém, fica no grupo do resultado positivo.  Claro que esse filme estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis está muito longe de fazer qualquer milagre, mas a diversão é garantida, especialmente se você conseguir entrar no clima e apreciar cada caricatura proposital.

Helen Sharp (Goldie Hawn) está prestes a se casar com o cirurgião plástico Ernest Menville (Bruce Willis), mas ela decide fazer um teste com o seu futuro marido: levá-lo até Madeline Ashton (Meryl Streep), uma atriz e antiga colega de Helen que sempre roubou todos os seus namorados. As duas fingem uma relação pacífica, mas, no fundo, só nutrem ódio uma pela outra. Se Ernest Menville conhecer Madeline e não se deixar levar pelos encantos dela, Helen se convencerá que achou o homem certo. No entanto, mais uma vez, ela perde o namorado. Anos depois, Helen volta mais bela do que nunca, para o completo pavor de Madeline, que vive um casamento fracassado com Ernest e que agora quer, a todo custo, recuperar sua fama e beleza.

Sem dúvida, o ponto alto do filme é o elenco. Se Goldie Hawn transita muito bem entre os papeis de mocinha estranha e de mulher renovada e vingativa, Meryl Streep brilha no seu sempre divertido papel de megera fingida (que, anteriormente, foi trabalhado em Ela é o Diabo). Bruce Willis também não fica atrás e trabalha com muito humor o personagem que está no meio do duelo das personagens principais. O afinado elenco é que dá esse tom tão divertido para A Morte Lhe Cai Bem. É perceptível como todos estão se divertindo – e, para um filme de comédia, esse é um mérito a ser valorizado!

Por um outro lado, A Morte Lhe Cai Bem não dá maiores motivos para que o espectador possa dizer que essa é uma comédia especial. Afinal, o longa de Zemeckis fica cada vez mais absurdo com o passar dos minutos e tem muita gente que pode se irritar com isso… Sorte que Zemeckis conseguiu juntar um trio extremamente eficiente, que entendeu o propósito da história e o tom que o diretor quis atribuir ao enredo. Se não fosse por eles, talvez o resultado não fosse o mesmo, já que A Morte Lhe Cai Bem poderia muito bem fracassar nas mãos de atores errados…

FILME: 7.5

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Hogwarts is threatened! Man the boundaries. Protect us!

Direção: David Yates

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Jason Isaacs, Kelly Macdonald, Tom Felton, Jim Broadbent, Bonnie Wright, Julie Walters, David Thewlis, Emma Thompson, Gary Oldman, Robbie Coltrane

Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA, 2011, Aventura, 130 minutos

Sinopse: Harry Potter (Daniel Radcliffe) e seus amigos Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) seguem à procura das horcruxes. O objetivo do trio é encontrá-las e, em seguida, destruí-las, de forma a eliminar lorde Voldemort (Ralph Fiennes) de uma vez por todas. Com a ajuda do duende Grampo (Warwick Davis), eles entram no banco Gringotes de forma a invadir o cofre de Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter). De lá retornam ao castelo de Hogwarts, onde precisam encontrar mais uma horcrux. Paralelamente, Voldemort prepara o ataque definitivo ao castelo.

David Yates não é qualquer diretor. Haja coragem para assumir uma saga mundialmente famosa, conduzi-la durante quatro filmes e também ser responsável pelo desfecho. Quando assumiu a cadeira de direção em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o britânico já mostrou habilidade ao conduzir um longa que compensava todas as deficiências da obra de J.K. Rowling. Yates construiu uma visão mais sombria (palavra inevitável, não?) do mundo do protagonista, adotou um estilo visual diferenciado e se firmou como um dos grandes nomes da franquia. Yates, posteriormente, tropeçou feio em O Enigma do Príncipe e se reergueu de maneira surpreendente em As Relíquias da Morte – Parte 1. Mas nada nos preparava para o que estava por vir no capítulo final de Harry Potter

Ao não escolher o caminho de se aproveitar da emoção dos fãs para criar dramas fáceis, Yates prova, mais uma vez, o seu amadurecimento como diretor. Mais do que uma revolução visual (é o filme mais impressionante do ponto de vista estético), Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 transparece a intensa vontade do diretor e do roteirista Steve Kloves de apresentar uma história bem narrada e que não deixa resoluções confusas. Se os leitores das obras de J.K. Rowling podem reclamar de pequenos detalhes mal desenvolvidos, talvez o mesmo não seja dito por quem tem apenas conhecimento cinematográfico da saga. É fácil, por exemplo, que até mesmo aqueles que mal se lembram do enredo (como eu, que li As Relíquias da Morte há quatro anos atrás), não fiquem incomodados com passagens meio difíceis de compreender. Tudo é facilmente digerível.

Só que toda essa excepcional qualidade do roteiro não teria o mesmo impacto se o trabalho do elenco não correspondesse. A boa notícia é que todos os atores estão em plena harmonia. Ao passo que, pela primeira vez em toda a saga, Daniel Radcliffe comanda o espetáculo sem qualquer momento que possa desapontar, o resto do elenco juvenil surge mais eficiente do que nunca – até porque, se nessa altura do campeonato não demonstrassem entrosamento, seria preocupante. A história é sim centrada neles, mas o grande destaque é das figuras secundárias. Se dame Maggie Smith aparece valente e representando os bons ideais que um dia fizeram Hogwarts ser palco de inspiração, Alan Rickman surge como uma figura extremamente emblemática. Smith e Rickman, por sinal, protagonizam um duelo (literalmente) de arrepiar.

Ainda assim, é Rickman que fica com o melhor show. Com um flashback simplesmente devastador (e filmado com uma sutileza quase poética), o ator encarna o caráter dúbio do personagem com uma precisão nunca vista antes. É certo que seu Severo Snape (assim com o Dumbledore de Michael Gambon ou a Minerva McGonagall de Maggie Smith) tem espaço muito limitado em cena. No entanto, poucos minutos são o suficiente para o filme e o ator conseguirem extrair passagens memoráveis de um personagem que, no final das contas, é a resposta para vários questionamentos de Harry. Assim, também vale mencionar o bom senso da produção, que não se aproveita de momentos de maior carga dramática desse personagem para forçar emoções.

É mais uma decisão sábia de Yates: apostar na simplicidade e não no melodramático. Portanto, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 é um filme que vai construindo sua carga emocional de forma muito natural – algo perceptível, inclusive, na excelente trilha de Alexandre Desplat, que se torna muito mais eficente no filme do que no seu pouco expressivo resultado fora. Desse jeito, no meio de tanta emoção, sejam elas em relação ao drama ou aos tensos momentos de confronto, a angústia vai acumulando e o espectador se enxerga numa verdadeira montanha-russa de emoções. Isso mesmo, As Relíquias da Morte – Parte 2 éum filme extremamente movimentado nos mais variados tipos de sensações. Mas, como mencionado, sem nunca ser piegas.

Contornando soluções simplórias ou momentos de fraco impacto no livro de J.K. Rowling, o longa é um verdadeiro presente – tanto para os fãs, que encontram nele o melhor momento da saga, quanto para os cinéfilos, que estão diante do grande blockbuster do verão norte-americano. As Relíquias da Morte – Parte 2 é grandioso sem se esquecer de emocionar e dramático sem ignorar a ação. A experiência é totalmente livre de defeitos, com um epílogo que é infinitamente melhor do que o esperado. A melancolia, que já era aguardada em função do desfecho, está presente de forma muito genuína na eterna sensação despedida que temos durante a sessão e no resgate das composições clássicas que John Williams fez para a série.

Enfim, As Relíquias da Morte – Parte 2, depois de ter arrepiado em diversos momentos, não poderia ter dado um golpe mais cruel nos momentos finais. Relembrando o primeiro ano de Harry Potter, quando o protagonista embarcava pela primeira vez no trem rumo a Hogwarts na plataforma 9 3/4, o filme vasculha as memórias mais profundas de quem acompanhou a saga desde o início. Com essas lembranças, As Relíquias da Morte – Parte 2 é a despedida perfeita para quem teve a infância marcada por Harry Potter. E só de lembrar que Hogwarts nunca mais se materializará no cinema ou em livros, já dá um aperto no coração. Os afortunados são aqueles que sempre acompanharam tudo com muita paixão e que sempre terão a escola de magia presente na imaginação. Sorte que sou um deles. Esse épico desfecho é para marcar gerações. Perfeito, perfeito, perfeito…

FILME: 10.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO: