Cinema e Argumento

Oscar 2012: apostas (indicados)

Na próxima terça-feira (24), conheceremos os indicados ao Oscar 2012. Abaixo, os meus palpites (apenas categorias principais):

MELHOR FILME

O Artista

Os Descendentes

Histórias Cruzadas

O Homem Que Mudou o Jogo

A Invenção de Hugo Cabret

Meia-Noite em Paris

Tudo Pelo Poder

MELHOR DIRETOR

Michel Hazanavicius (O Artista)

Alexander Payne (Os Descendentes)

Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)

Tate Taylor (Histórias Cruzadas)

Woody Allen (Meia-Noite em Paris)

MELHOR ATRIZ

Glenn Close (Albert Nobbs)

Viola Davis (Histórias Cruzadas)

Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin)

Michelle Williams (Sete Dias Com Marylin)

MELHOR ATOR

George Clooney (Os Descendentes)

Leonardo DiCaprio (J. Edgar)

Jean Dujardin (O Artista)

Michael Fassbender (Shame)

Brad Pitt (O Homem Que Mudou o Jogo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Bérénice Bejo (O Artista)

Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)

Janet McTeer (Albert Nobbs)

Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Shailene Woodley (Os Descendentes)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kenneth Branagh (Sete Dias Com Marilyn)

Jim Broadbent (A Dama de Ferro)

Albert Brooks (Drive)

Jonah Hill (O Homem Que Mudou o Jogo)

Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Os Descendentes

Histórias Cruzadas

O Homem Que Mudou o Jogo

A Invenção de Hugo Cabret

Precisamos Falar Sobre o Kevin

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

50%

O Artista

Ganhar ou Ganhar – A Vida é Um Jogo

Meia-Noite em Paris

Jovens Adultos

Livro – Prayers for Bobby

Bobby Griffith fazia parte de uma família extremamente religiosa. Ele, inclusive, acreditava em Deus e era um católico praticante. Todavia, Bobby escondia um segredo que ia contra todos os ensinamentos cristãos pregados por sua família: ele era gay. O cenário? Estados Unidos dos anos 1970, onde homossexuais eram vistos como seres pecadores. Também era a época em que Harvey Milk, um político e ativista gay de grande popularidade, foi assassinado. A AIDS começava a se alastrar e era exclusivamente relacionada ao mundo homossexual. Ou seja, já não bastasse a família extremamente religiosa, Bobby ainda enfrentava tempos difíceis, onde o mundo não fazia questão de abraçar os gays. Ele se assumiu, e a família o rejeitou, especialmente a mãe, Mary. Tal situação permaneceu até o último minuto de sua breve vida, quando, aos 20 anos, Bobby se atirou de uma ponte e faleceu ao ser atingido por um caminhão. Sua mãe, devastada, passa a compreender o mundo do filho tempos depois, quando lê os diários deixados por ele. A partir daí, muda a sua visão do mundo e passa a lutar pelos direitos gays. A vida de Bobby, bem como a mudança de Mary, é relatada no livro Prayers for Bobby – A Mother’s Coming to Terms With the Suicide of Her Gay Son, que, em 2009, chegou a ser adaptado para um telefilme estrelado por Sigourney Weaver.

Leroy Aarons, jornalista e escritor falecido em 2004, conheceu a família Griffith no ano de 1989. A partir de seu envolvimento com as histórias do jovem Bobby contadas pela mãe, Mary, Aarons escreveu Prayers for Bobby, um livro até hoje sem tradução para o português, e que preserva muito a linguagem jornalística de seu autor. Qualquer pessoa que tiver a oportunidade de entrar em contato com o trabalho, notará a frequente característica do escritor em contar histórias paralelas e, principalmente, em situar o leitor no contexto social e político dos Estados Unidos dos anos 70. Prayers for Bobby, se assim podemos dizer, é um livro de relatos, e não especialmente uma obra com traços daquela dramaturgia com início, meio e fim, onde fatos reais recebem linguagem e tratamento ficcionais. O trabalho de Leroy Aarons, na realidade, é quase exclusivamente informativo, apenas apresentando fatos e situações, deixando de lado maiores interpretações sobre os personagens e seu sentimentos.

Aqui, conhecemos Bobby e somos apresentados a momentos que marcaram sua autodescoberta, mudanças que foram definitivas na sua vida e pessoas que tiveram grande influência em suas decisões – sejam elas positivas ou negativas. Também ficamos a par da vida de Mary, desde a sua formação religiosa e seu cotidiano como esposa até o trágico fato envolvendo Bobby que mudou a sua vida. Mesmo que Prayers for Bobby não se utilize de maiores romantismos para contar a vida dos dois, também não faz a mínima questão de tomar partido. Bobby foi sim injustamente incompreendido e sua breve vida tão promissora foi completamente marcada por tristezas. Entretanto, o autor não quer endeusá-lo. Bobby tinha falhas, gênio difícil e frequentemente tomava decisões que não eram as mais inteligentes para o estilo de vida daquela época (o jovem chegou a ser, por livre e espontânea vontade, garoto de programa, o que dificultaria ainda mais sua aceitação na sociedade). A mãe também está longe de ser vilanizada. Aarons aproveita a oportunidade para mostrar que a religião de Mary tinha um propósito em sua vida e que seu sentimento de controle não era só em relação aos filhos, mas também ao próprio marido, uma vez que o casamento dos dois passou por fortes turbulências devido ao ciúmes obsessivo de Mary.

Dessa forma, Prayers for Bobby é bem sucedido como um registro humano e histórico da luta pelos direitos gays e, mais do que tudo, pela necessidade de diálogo entre pais e filhos. É uma história universal e que, bem como o filme estrelado por Sigourney Weaver, mostra que, antes de hetero/homossexuais (ou qualquer outro termo que preferirem), somos humanos. Leroy Aarons, em cerca de 260 páginas (considerando a versão da editora HarperOne lançada nos Estados Unidos), luta por isso, pela conscientização de que todos somos iguais, independente de sexualidades. E isso é o que mais importa em Prayers for Bobby. É certo que o autor poderia ter apresentado um estilo mais elaborado do ponto de vista narrativo (a forma como vai e volta no tempo, alternando capítulos entre Mary e Bobby não chega a ser tão atraente), livrando-se do previsível caráter jornalístico, onde, a todo momento, cita datas, nomes e cidades – algo que, no final das contas, o leitor não absorve muito. De qualquer forma, é apenas detalhe de um livro que cumpre sua missão de mostrar como a falta de conhecimento, bem como a intolerância, pode tornar esse mundo ainda mais doloroso. Não chega a ser tão impactante ou emocionante quanto o telefilme exibido em 2009 pela Lifetime, mas também tem o seu valor humano. É o retrato de uma sociedade desinformada e ignorante que, infelizmente, até hoje tem o seu legado.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

– Do you know where you’re spending the afterlife?

– Oh, yes, I do! I’m going straight to hell.

Direção: Lynne Ramsay

Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Alex Manette, Siobhan Fallon, Leslie Lyles

We Need to Talk About Kevin, EUA, 2011, Drama, 112 minutos

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker). Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer. (Adoro Cinema)

Logo após o nascimento de Kevin, Eva (Tilda Swinton) já conseguia perceber dificuldades com o filho recém-chegado. Ele, que chorava compulsivamente quando passava o dia com a mãe, era calmo e silencioso na presença do pai. E assim foi durante toda a vida: com a mãe, Kevin era um menino que parecia ter o demônio no corpo. Com o pai, era justamente o oposto. Eva, portanto, não sabia como lidar direito com essa situação. Afinal, não era apenas o fato do filho não demonstrar qualquer sentimento positivo por ela que a incomodava, mas também o fato de Eva não conseguir provar tal desafeto para o marido, com quem Kevin era tão agradável. Unindo o filho problemático com a mãe que não sabia direito como agir diante de tal situação, criou-se um ambiente doentio. Um ambiente que, posteriormente, teria consequências trágicas para toda a família. É a partir dessas tragédias que Precisamos Falar Sobre o Kevin constrói sua narrativa. Com um enredo que vai e volta no tempo, esse poderoso filme de Lynne Ramsay é cheio de complexidades, além de ser muito incômodo e, por que não, realista – especialmente numa sociedade que muito discute o modo como crianças e adolescentes devem ser criados.

Para início de conversa, é bom avisar que Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme para os fortes. Com uma atmosfera extremamente negativa, o enredo, a cada minuto, torna-se cada vez mais angustiante. É uma jornada de dor não apenas em função de como a tragédia não revelada (só se torna clara por completo no final) destruiu a vida da protagonista, mas também por cada cena que evidencia a completa falta de diálogo entre mãe e filho. Fácil seria culpar a personagem de Tilda Swinton pelas atitudes do filho, mas Precisamos Falar Sobre o Kevin cria cada situação difícil que faz o espectador compreender a total confusão e inércia da mãe. E esse, possivelmente, é o maior mérito do longa-metragem: colocar todos na pele de Eva. Nós sentimos tudo o que ela passa, suas dores e desesperos. Por isso que o trabalho da diretora Lynne Ramsay é tão difícil, uma vez que não somos apenas espectadores desse relacionamento que se desintegra a cada dia. Parece que nós também fazemos parte dele. Tal angústia, presente em momentos maravilhosamente bem explorados por flashbacks e em momentos da atual situação da protagonista, é sentida a todo momento, o que torna Precisamos Falar Sobre o Kevin tão intenso e, arrisco a dizer, desesperador.

Baseado no livro de mesmo nome da autora Lionel Shriver, o roteiro não faz questão de facilitar nada. É um texto que não se preocupa em encenar longos diálogos que evidenciem complexidades. A profundidade de Precisamos Falar Sobre o Kevin está no silêncio, na sensação que certas situações passam. No entanto, esse roteiro construído com tamanha precisão não seria o mesmo sem a extraordinária performance de Tilda Swinton. A britânica de 51 anos de idade sempre foi sinônimo de qualidade (e o seu Oscar por Conduta de Risco foi extremamente merecido), só que, aqui, ela alcança o que é, possivelmente, o trabalho mais complexo de toda a sua carreira. Difícil imaginar o sofrimento da atriz ao mergulhar nesse papel que, basicamente, não tem um momento sequer de alegria. Tilda, porém, tira tudo de letra: econômica em palavras, mas com uma notável habilidade ao transmitir qualquer sentimento com uma simples expressão, ela é outro fator que ajuda Precisamos Falar Sobre o Kevin ser tão marcante. Junto com o roteiro, Tilda intensifica as sensações desse longa-metragem difícil, mas que, se apreciado pelo público certo, está destinado a permanecer durante muito tempo com quem o assite. E isso é o que existe de mais precioso no cinema: a possibilidade do espectador poder se importar com os personagens, entrar na história deles e, acima de tudo, sentir tudo o que eles sentem. Precisamos Falar Sobre o Kevin faz isso com uma facilidade que assusta.

FILME: 9.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Globo de Ouro 2012: Resultados

Breves comentários sobre a 69ª edição do Globo de Ouro:

Os Descendentes? The Artist (finalmente com distribuidora aqui no Brasil)? A Invenção de Hugo Cabret? Depois que os prêmios se dividiram tanto e que Martin Scorsese levou o prêmio de melhor diretor, fica cada vez mais difícil prever o que está por vir nas próximas premiações. Isso é ruim? Bem pelo contrário. É o suspense que tanto esperamos…

– Ricky Gervais já cansou. Quando era ousado, reclamaram. Quando foi podado, acabou insosso. Os estadounidenses não sabem rir deles próprios. Gervais não consegue mudar isso. Hora de trocar a fita.

– Depois do Critics’ Choice Awards, Woody Allen conquista, de novo, a categoria de melhor roteiro. Seria prematuro considerá-lo como uma barbada para vencer o Oscar depois de tantos anos?

– O caminho de George Clooney nas premiações já parece bem claro com Os Descendentes (ainda deve levar o SAG, uma vez que nunca conquistou o prêmio). Mas será mesmo que a Academia vai premiá-lo uma segunda vez? E ainda como ator? Pelo visto, aquela estatueta de Syriana foi mesmo muito prematura…

– Madonna ganhando canção? Bom, mais um atestado de que ganhar Globo de Ouro de canção é quase um atestado para ficar de fora Oscar (lembrando que Masterpiece já não consta na pré-lista divulgada recententemente). Sem falar que basta ser uma estrela para vencer: Mick Jagger, Prince, Cher, Madonna…

– Meryl Streep silenciou todos aqueles que duvidavam de sua Margaret Thatcher. Pela primeira vez em anos (é sua oitava vitória), seu Globo de Ouro finalmente significa alguma coisa, já que, aqui, ela bateu grandes candidatas e não venceu por falta de concorrência, como em O Diabo Veste Prada e Julie & Julia. A alegria de todos ficou visível e o terceiro Oscar… Bom, cada vez mais perto.

– Christopher Plummer e Octavia Spencer já podem preparar o lugar na estante. Pelo visto, o ano é deles mesmo. Uma pena que a segunda nem merece.

– Para completar, um pedido: votantes do Oscar, coloquem Viola como coadjuvante. Esse é o lugar dela em Histórias Cruzadas. Assim, ela e Meryl, grandes amigas, saem ganhando. Seria épico. Duas felicidades na mesma noite. Ninguém precisa ficar com o coração dividido.

(confira aqui a lista completa de vencedores e mais comentários)

Globo de Ouro 2012: Apostas

2012 é um ano estranho para as premiações. Temos vários filmes, dos mais diferentes estilos – mas não existe um favorito absoluto. Se Os Descendentes parecia a aposta mais óbvia para levar todos os prêmios, eis que o Critics’ Choice Awards confundiu um pouco a situação ao consagrar The Arsist. No entanto, vale lembrar que a corrida pelo Oscar começa somente amanhã, quando o Globo de Ouro apresentará os seus vencedores. Mesmo que não seja o termômetro mais confiável para prever os votos da Academia, tem papel fundamental ao apontar nomes promissores e tendências que devem ser seguidas em outros prêmios. Abaixo, as apostas do Cinema e Argumento para o Globo de Ouro:

MELHOR FILME DRAMA: Os Descendentes, de Alexander Payne

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: The Artist, de Michel Hazanavicius

MELHOR ATOR DRAMA: George Clooney (Os Descendentes)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Jean Dujardin (The Artist)

MELHOR ATRIZ DRAMA: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Michelle Williams (Sete Dias Com Marilyn)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)

MELHOR DIRETOR: Michel Hazanavicius (The Artist)

MELHOR ROTEIRO: Tudo Pelo Poder

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Masterpiece” (W.E. – O Romance do Século)

MELHOR TRILHA SONORA: Abel Korzeniowski (W.E. – O Romance do Século)

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Separação (Irã)

MELHOR ANIMAÇÃO: As Aventuras de Tintim