– Do you know where you’re spending the afterlife?
– Oh, yes, I do! I’m going straight to hell.

Direção: Lynne Ramsay
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Alex Manette, Siobhan Fallon, Leslie Lyles
We Need to Talk About Kevin, EUA, 2011, Drama, 112 minutos
Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker). Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer. (Adoro Cinema)

Logo após o nascimento de Kevin, Eva (Tilda Swinton) já conseguia perceber dificuldades com o filho recém-chegado. Ele, que chorava compulsivamente quando passava o dia com a mãe, era calmo e silencioso na presença do pai. E assim foi durante toda a vida: com a mãe, Kevin era um menino que parecia ter o demônio no corpo. Com o pai, era justamente o oposto. Eva, portanto, não sabia como lidar direito com essa situação. Afinal, não era apenas o fato do filho não demonstrar qualquer sentimento positivo por ela que a incomodava, mas também o fato de Eva não conseguir provar tal desafeto para o marido, com quem Kevin era tão agradável. Unindo o filho problemático com a mãe que não sabia direito como agir diante de tal situação, criou-se um ambiente doentio. Um ambiente que, posteriormente, teria consequências trágicas para toda a família. É a partir dessas tragédias que Precisamos Falar Sobre o Kevin constrói sua narrativa. Com um enredo que vai e volta no tempo, esse poderoso filme de Lynne Ramsay é cheio de complexidades, além de ser muito incômodo e, por que não, realista – especialmente numa sociedade que muito discute o modo como crianças e adolescentes devem ser criados.
Para início de conversa, é bom avisar que Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme para os fortes. Com uma atmosfera extremamente negativa, o enredo, a cada minuto, torna-se cada vez mais angustiante. É uma jornada de dor não apenas em função de como a tragédia não revelada (só se torna clara por completo no final) destruiu a vida da protagonista, mas também por cada cena que evidencia a completa falta de diálogo entre mãe e filho. Fácil seria culpar a personagem de Tilda Swinton pelas atitudes do filho, mas Precisamos Falar Sobre o Kevin cria cada situação difícil que faz o espectador compreender a total confusão e inércia da mãe. E esse, possivelmente, é o maior mérito do longa-metragem: colocar todos na pele de Eva. Nós sentimos tudo o que ela passa, suas dores e desesperos. Por isso que o trabalho da diretora Lynne Ramsay é tão difícil, uma vez que não somos apenas espectadores desse relacionamento que se desintegra a cada dia. Parece que nós também fazemos parte dele. Tal angústia, presente em momentos maravilhosamente bem explorados por flashbacks e em momentos da atual situação da protagonista, é sentida a todo momento, o que torna Precisamos Falar Sobre o Kevin tão intenso e, arrisco a dizer, desesperador.
Baseado no livro de mesmo nome da autora Lionel Shriver, o roteiro não faz questão de facilitar nada. É um texto que não se preocupa em encenar longos diálogos que evidenciem complexidades. A profundidade de Precisamos Falar Sobre o Kevin está no silêncio, na sensação que certas situações passam. No entanto, esse roteiro construído com tamanha precisão não seria o mesmo sem a extraordinária performance de Tilda Swinton. A britânica de 51 anos de idade sempre foi sinônimo de qualidade (e o seu Oscar por Conduta de Risco foi extremamente merecido), só que, aqui, ela alcança o que é, possivelmente, o trabalho mais complexo de toda a sua carreira. Difícil imaginar o sofrimento da atriz ao mergulhar nesse papel que, basicamente, não tem um momento sequer de alegria. Tilda, porém, tira tudo de letra: econômica em palavras, mas com uma notável habilidade ao transmitir qualquer sentimento com uma simples expressão, ela é outro fator que ajuda Precisamos Falar Sobre o Kevin ser tão marcante. Junto com o roteiro, Tilda intensifica as sensações desse longa-metragem difícil, mas que, se apreciado pelo público certo, está destinado a permanecer durante muito tempo com quem o assite. E isso é o que existe de mais precioso no cinema: a possibilidade do espectador poder se importar com os personagens, entrar na história deles e, acima de tudo, sentir tudo o que eles sentem. Precisamos Falar Sobre o Kevin faz isso com uma facilidade que assusta.
FILME: 9.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:


