Cinema e Argumento

The Space Between

And for that little tiny sliver of the moment, he’s right there by your side with you. And nothing, no other person, no distance or time, can take him away from you.

Direção: Travis Fine

Roteiro: Travis Fine

Elenco: Melissa Leo, Anthony Keyvan, Brad William Henke, AnnaSophia Robb, Hunter Parrish, Philip Rhys, Kelli Williams, Don Franklin, Kyle Bornheimer

EUA, 2010, Drama, 90 minutos

Sinopse: Montine (Melissa Leo) é uma aeromoça que, quando não está trabalhando, vive uma vida solitária. Ela tem a mãe doente e acaba de sofrer uma perda. No dia 11 de setembro de 2001, em um vôo, ela conhece o jovem Omar (Anthony Keyvan), que foi enviado para Los Angeles pelo pai para estudar em uma escola para crianças com altas habilidades. Quando o avião pousa, no entanto, Omar descobre que o World Trade Center foi destruído. Com o tráfego aéreo paralisado, Montine ajuda Omar a voltar para Nova York pelas estradas dos Estados Unidos, com o intuito de descobrir se o pai do garoto está vivo ou não.

Dependendo do diretor, a previsibilidade não chega a ser algo negativo. Vejam Travis Fine, por exemplo, que dirigiu, roteirizou e produziu esse telefilme chamado The Space Between. A história contada por ele nada mais é do que um drama repleto de elementos que já vimos várias vezes em outras experiências cinematográficas: a tragédia do 11 de setembro, a improvável amizade entre um adulto e uma criança, uma viagem que muda a vida de duas pessoas, a mulher amargurada que usa a bebida para afogar as tristezas, e por aí vai… E poderíamos, durante horas, ficar listando tudo o que existe de previsível nos acontecimentos desse telefilme estrelado por Melissa Leo. Contudo, Travis Fine comanda tudo de forma tão simples que até relevamos esses detalhes que, nas mãos de um diretor mais pretensioso, poderiam afundar a história.

O que encontramos, portanto, é um longa previsível, mas completamente inofensivo: nada de tramas aborrecidas por serem batidas, estereótipos forçados ou resoluções enfadonhas. The Space Between, em suas limitações, consegue contornar tais problemas e colocar a experiência no nível do agradável – para dizer o mínimo. Essa sinceridade de não querer ser mais do que realmente é tira o longa de Travis da zona de risco dos clichês e deixa a história com uma cara destinada ao grande público da TV: ou seja, o formato é acessível, os dramas não são lá muito complexos, o ritmo é bom e tudo se encaixa com o devido rigor para que a história cumpra cirurgicamente os 90 minutos da grade de programação destinada ao longa.

Em contrapartida, The Space Between não dialoga com o público que exige mais intensidade, uma vez que o formato é – repetindo – pensado para ser acessível. Por isso, o trabalho de Travis pode não ser visto com muita simpatia pela parcela do público que espera algo novo ou diferente. Eles, pelo menos, devem reconhecer que o diretor foi inteligente ao escalar Melissa Leo para encabeçar o elenco, já que ela é uma atriz que tem as características perfeitas para o papel que desempenha. Leo, sempre com um dom espescial para personagens sofridos e que possuem a tristeza estampada no rosto (arrasou em Rio Congelado, lembram?), é o principal atrativo do longa. Ao contrário de seu teatro desnecessário quando venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante, ela é extremamente sutil em papeis como o de The Space Between. Leo, afinal, sabe lidar com o tom ameno e açucarado desse filme esse que não é uma maravilha, mas que serve aos seus pequenos propósitos.

FILME: 7.5

Happy birthday, Meryl!

Nossos infinitos votos de felicidade para a maior atriz que o cinema já viu. Parabéns, Meryl, por 63 anos de puro talento!

Na coleção… Um Estranho no Ninho

Segundo filme a vencer as cinco categorias principais do Oscar (filme, direção, ator, atriz e roteiro), Um Estranho no Ninho é aquele tipo de clássico que não é grandioso ou cheio ambições. É, justamente, único por ser singelo e humano. Na obra mais célebre do diretor Milos Forman, Jack Nicholson interpreta R.P. McMurphy, um sujeito que já foi preso várias vezes por agressão e que, agora, é acusado de estuprar uma menina de 15 anos. Para escapar da prisão, ele finge ter problemas mentais e é enviado para um manicômio, onde será observado durante dias para um diagnóstico final. No ambiente, ele precisa se encaixar em uma nova vida, mergulhando na ingenuidade, loucura e amizade dos pacientes de lá. Ao mesmo tempo, ele rivaliza com a enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), uma mulher de ferro que parece ser a única a oferecer, de fato, algum risco para a farsa do protagonista.

Baseado no romance homônimo de Ken Kesey, o roteiro de Um Estranho no Ninho não planeja ser um estudo sobre a vida dentro de um manicômio ou uma análise sobre a sanidade de seus personagens. O objetivo, aqui, é mostrar que todas as pessoas, em sua essência, são iguais. Loucas, mas também esperançosas, sonhadoras e… em busca da felicidade. A entrada do personagem de Nicholson nesse ambiente muda não apenas o cotidiano dos pacientes, mas dele próprio, que não age com o mínimo de preconceito ou maldade lá dentro. Pelo contrário: parece que a missão do personagem é, justamente, unir os pacientes e construir um ambiente melhor para eles. Foi através de sutilezas como essas que Um Estranho no Ninho conquistou gerações e é considerado, até hoje, um dos clássicos mais queridos do cinema. Por isso, deve ser elogiado o excelente trabalho de Milos Forman não só ao orquestrar tantos elementos narrativos e técnicos, mas também ao dirigir notavelmente seus atores. E eles merecem citações à parte.

Importante notar, aqui, que, antes de seus protagonistas, o elenco de suporte também é certeiro: Danny DeVito e Christopher Lloyd, por exemplo, são alguns dos nomes que compõe esse excelente grupo de atores que tornam a experiência não só trágica, mas também cômica (o humor do filme é muito genuíno). Só que o destaque mesmo é Nicholson. Possivelmente, o ator nunca esteve tão à vontade em um papel. Por seu ótimo trabalho, ganhou merecidamente o seu primeiro Oscar. Louise Fletecher, que estranhamente nunca mais teve um grande papel depois do filme, também é um destaque: como a gélida enfermeira Ratched, merece aplausos por construir com eficiência uma figura simplesmente detestável que não dá um sorriso sequer. Ela mesma reconheceu o difícil trabalho: logo depois do final das gravações, tirou o uniforme e ficou apenas de roupa íntima frente ao elenco para mostrar que não era fria como sua personagem. Por fim, em sua simplicidade, Um Estranho no Ninho se torna uma grata surpresa. Revolucionário ou não, deve, pelo menos, levar o espectador do drama ao humor com uma naturalidade invejável.

FILME: 8.5

W.E. – O Romance do Século

Darling, they can’t hurt you if you don’t let them.

Direção: Madonna

Roteiro: Madonna e Alek Keshishian

Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D’Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, David Harbour, James Fox, Judy Parfitt, Laurence Fox, Christina Chong

W.E., Inglaterra, 2011, Drama, 119 minutos

Sinopse: Anos 30. O Duque de Windsor, Eduardo VIII (James d’Arcy), é o primeiro na lista de sucessão da coroa britânica. Ele conhece e se apaixona por Wallis Simpson (Andrea Riseborough), uma americana casada. Quando Eduardo assume o trono passa a sofrer pressão para que não se case com Wallis, devido ao fato dela não ser inglesa e ter dois divórcios no currículo. Para ficar com seu grande amor, ele renuncia ao trono, que passa a ser ocupado por seu irmão Bertie (Laurence Fox). Em 1998, Wally Winthrop (Abbie Cornish) é obcecada pela história de amor entre Eduardo e Wallis. Ela trabalha na preparação de um grande leilão de objetos do casal e costuma fantasiar como seria a vida deles. Entretanto, na vida real Wally enfrenta vários problemas no casamento com William (Richard Coyle). (Adoro Cinema)

Nunca devemos colocar a mão no fogo por atores ou cantores que resolvem virar diretores. De vez em quando, a ideia dá certo e temos maravilhosos trabalhos de astros como George Clooney ou Sean Penn, por exemplo. Só que, na maioria das vezes, o resultado está muito longe de ser admirável. E, em 2011, pelo menos duas artistas artistas sem grandes experiências atrás das câmeras resolveram se arriscar no ramo. Guiadas pelo egocentrismo, Angelina Jolie e Madonna contaram histórias de amor proibidas que desafiaram épocas. Ambas apresentaram filmes complemente problemáticos. E a primeira dessas decepções já chegou em território brasileiro: W.E. – O Romance do Século, comandado pela rainha do pop.

Madonna está pouco preocupada com dinheiro (tem a música para isso). Por isso, ela quer, na verdade, alcançar status com W.E. – O Romance do Século, filme que é cheio de traços que sempre foram muito presentes em sua carreira musical. E, de fato, W.E. parece uma canção pop: tem uma produção legal e um estilo interessante  – mas, no fundo, tudo isso é mero disfarce para um conteúdo óbvio repleto de mensagens batidas. Esse é o segundo filme de Madonna (o primeiro foi Filth and Wisdom, que passou despercebido por aqui) e, em sua nova investida, ela parece ter se dedicado de corpo e alma ao projeto: W.E. tem produção requintada, enquadramentos diferentes e uma grande vontade de surpreender. Só que Madonna não tem cacife para isso. Música é música, filme é filme. Com tanta glória em sua carreira musical, ela não precisava  da pretensão de também querer ser cineasta.

Em muito a direção de Madonna quer reproduzir todo aquele grande impacto visual que Tom Ford apresentou em Direito de Amar. E podemos dizer que, nesse aspecto, ela alcança alguns pontos positivos. Só que o problema maior aqui não é a direção e sim o roteiro. Escrito por Madonna, em parceria com Alek Keshishian, o texto de W.E. é cheio de irregularidades. Não devemos nem levar em consideração o fato do filme narrar com desleixo duas histórias paralelas que se comunicam – até porque qualquer conexão profunda ou sutil entre elas está anos-luz do estupendo resultado alcançado em As Horas, por exemplo. As falhas se encontram, antes disso, nas próprias histórias, separadamente. E elas merecem comentários individuais.

A primeira, que traz os conflitos reais (para quem não lembra, acompanhamos a história do irmão do personagem de Colin Firth em O Discurso do Rei), é a storyline que, sem dúvida, mais interessa. Por outro lado, a trama deixa a sensação de que não deveria contada em cápsulas, esquivando-se de cenas que seriam fundamentais para a intensidade dramática do filme. Assim, nunca vemos como foram as separações dos casais ou os detalhes dos problemas que o tal relacionamento proibido trouxe para a família real. É tudo muito básico e pouco aprofundado – sem falar que é difícil criar conexão com a história, já que ela é constantemente interrompida pela outra, narrada nos dias atuais.

Por sinal, a história contemporânea é um dos pontos mais fracos de W.E. – O Romance do Século. Já devemos partir do pressuposto que é difícil torcer por uma protagonista completamente inerte perante o violento e abusivo marido. Ele espanca a esposa, deixa bem explícito que a trai e não tem a mínima ideia do que é tornar um matrimônio agradável. O que ela faz? Apanha, chora e… vai para uma exposição todo santo dia! Lá ela se sente completa, encontra uma amizade esperançosa e, claro, se dá conta que precisa ir até Paris para se encontrar na vida. Claro, nos filmes, quase ninguém sofre na pobreza. Todo mundo pode sofrer em Paris. É de dar pena, portanto, que a talentosa Abbie Cornish tenha amargado essa personagem tão vazia.

Essa falta de diálogo entre as duas histórias, a inverossimilhança de uma e o tratamento raso da outra são quase insuportáveis. Quase. Quase porque Madonna não é boba. Como roteirista, ela realmente pode ser fraquíssima, mas ao criar impacto visual ela não é (e nunca foi) incompetente. Pelo contrário. No mínimo dois aspectos de W.E. – O Romance do Século são dignos de muitos elogios. O primeiro é o belo trabalho de Abel Korzeniowski na trilha sonora, trazendo composições ímpares que confiram o talento inigualável que ele já havia apresentado em Direito de Amar. O segundo é o figurino criado pela conceituada Arianne Phillips, que concorreu ao Oscar e deveria ter sido coroado pela elegância e sutileza.

Assim, é de se lamentar que tais aspectos e um visual tão interessante ilustrem um roteiro mal desenvolvido. Infelizmente, W.E. – O Romance do Século não é um filme envolvente. E poderia ser. Deveria ser. Madonna, aqui, deve aprender uma valiosa lição: no mundo da música, ela pode fazer o mais fraco dos cds e ainda assim ter um público que vai escutá-la e elogiá-la, seja pela admiração incondicional ou pelo simples fato de que um cd, na maioria dos casos, não toma mais do que 90 minutos de alguém. No cinema não é assim. Não basta ser Madonna na sétima arte. Errar na música é mais perdoável e inofensivo. Não é qualquer um que vai sentar em uma sala de cinema durante duas horas e ter paciência  para procurar aspectos elogiáveis só para defender W.E. em função do nome da rainha do pop. A dinâmica é diferente, Maddie!

FILME: 5.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Livro – Como Ver Um Filme

No último dia 27, a crítica de cinema Ana Maria Bahiana esteve em Porto Alegre para uma sessão de autógrafos do seu mais recente livro, Como Ver Um Filme. Além disso, a autora também ministrou, na capital gaúcha, o curso Como Ver um Filme 2: Os Gêneros (a blogueira Kamila, do Cinéfila por Natureza, fez um excelente texto sobre a experiência). Tive o prazer de participar do curso e, também, da sessão de autógrafos, o que foi o suficiente para conhecer melhor Bahiana e, claro, entrar de cabeça em todas as propostas dela com o curso e o livro. O texto que segue é, assim, uma breve análise sobre a versão literária de Como Ver Um Filme (editora Nova Fronteira, 2012) e como ela pode ser considerada, sem exageros, o manual cinematográfico mais recomendável e interessante da atualidade.

Primeiro, precisamos saber quem é Ana Maria Bahiana. Jornalista e escritora, em três décadas de cobertura cultural já escreveu para publicações do calibre da Rolling Stone e do The New York Times. Também já foi roteirista do filme 1972 e, atualmente, reside em Los Angeles, onde é a correspondente brasileira da famosa Hollywood Foreign Press, do Globo de Ouro. Depois, é necessário compreender o objetivo de Como Ver Um Filme. O livro, que, segundo Bahiana, já estava pronto faz certo tempo e que só viu a luz do dia agora, é uma obra que pretende educar o olhar do espectador, mostrando a ele todo o processo de criação de um longa-metragem, desde quando a ideia é lançada para algum realizador (o famoso pitch), a escolha de elenco, a escrita do roteiro, as gravações, etc. Também é um livro que faz um estudo sobre todos os gêneros cinematográficos, apresentando a premissa de cada um deles e também referências para que o espectador posso identificá-los.

Em pouco mais de 250 páginas, Ana Maria Bahiana prima por uma linguagem simples e bem explicativa, mas sem nunca soar didática demais. Como Ver Um Filme, dessa forma, é uma obra para todo e qualquer leitor interessado em cinema. Isso por si só já é um grande mérito, uma vez que a grande maioria das obras literárias sobre cinema e até mesmo dos textos de escritores e críticos do ramo costumam apostar, digamos, em uma linguagem erudita demais, como se entender cinema fosse sinônimo de se expressar com um jeito pomposo e altamente intelectual. Bahiana, então, subverte as expectativas e apresenta um resultado extremamente agradável para qualquer público.

Outro mérito admirável de Como Ver Um Filme é considerar filmes contemporâneos. Se formos procurar obras mais segmentadas ou até mesmo universais, será difícil encontrar aquelas que exemplifiquem seus conceitos com longas mais recentes. Ora, filme bom não é só é filme antigo. E Bahiana, ao mesmo tempo em que cita obras como O Iluminado, Cidadão Kane e E.T., também aponta longas mais atuais que possuem aspectos admiráveis, como Namorados Para Sempre, Kill Bill e Onde os Fracos Não Têm Vez. E tal decisão é fundamental para aproximar o cinéfilo leigo que ainda não tem vasto conhecimento e que só teve maior vivência com filmes que conferiu nos últimos anos. Mais uma vez, a autora dialoga com todos, sem segmentar seu público-alvo.

Como Ver Um Filme é, de certa forma, uma enciclopédia cinematográfica que nunca se torna cansativa. Claro que o texto, uma vez ou outra, adota traços mais didáticos para explicar tópicos que só poderiam ser comentados dessa maneira, mas nada que altere a essência simples e altamente eficiente proposta pela autora. É um trabalho mais do que recomendado, uma experiência enriquecedora  que merece reconhecimento por nunca julgar o gosto do espectador. Na realidade, a autora quer é entregar ao leitor ferramentas para que ele próprio faça comparações e perceba detalhes que normalmente não vê para depois construir uma nova percepção sobre o cinema quando procurar uma sessão ou uma locadora. Bahiana une o clássico ao contemporâneo e fala com todos. Algo que, nos dias de hoje, está estranhamente raro… Principalmente quando o cinema se torna cada vez mais democrático.