Cinema e Argumento

Novidade!

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Desde o último fim de semana, vocês devem ter percebido que o logo do site Adoro Cinema passou a fazer parte da barra lateral aqui do blog. Pois fico feliz de anunciar que a razão é muito gratificante: o Cinema e Argumento agora passa a fazer parte da “Comunidade Adoro Cinema” – que, segundo o site, seleciona os “melhores blogs de cinema do Brasil”. Antes de mais nada, é uma honra receber esse convite. Primeiro porque sempre tive o Adoro Cinema como referência na minha formação de cinéfilo. E segundo porque, atualmente, esse é o site número um de cinema do Brasil, com uma média de quatro milhões de acessos/mês. Portanto, fiquem ligados aqui no blog: essa parceria também se estenderá a vocês, leitores!

Rapidamente…

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A CAÇA (Jagten, 2012, de Thomas Vinterberg): Em A Caça – longa exibido na última edição do Festival de Cannes – o diretor Thomas Vinterberg se utiliza da mentira inconsequente e rancorosa de uma criança e de pessoas que ajustam fatos e informações para moldar verdades absolutas para desafiar o público a acompanhar um  incômodo retrato incômodo da vida de um homem injustiçado. A forma como o diretor mastiga além do necessário alguns aspectos (o desfecho não precisava ter um arco tão dramático tão esmiuçado) e entrega todas as cartas em determinados momentos (mais dúvidas e questionamentos perante a veracidade do principal conflito cairiam melhor à proposta) tira um pouco a chance do resultado ser mais brilhante. Porém, Mads Mikkelsen segura muito bem a barra como protagonista, o texto desenvolve sem maiores problemas as delicadas propostas (abuso, mentira, violência, injustiça) e a aproximação com a realidade torna tudo ainda mais interessante.

DARLING – A QUE AMOU DEMAIS (Darling, 1965, de John Schlesinger): Foi por esse filme que Julie Christie ganhou o seu Oscar de melhor atriz – e não por Doutor Jivago, como normalmente é confundido. A concorrência naquele ano não justifica sua vitória, especialmente porque outra Julie (a Andrews, por A Noviça Rebelde) tinha um papel muito mais icônico e, como o próprio tempo mostrou, inesquecível. Prêmios à parte, Christie é mesmo a estrela de Darling, esbanjando sua habitual beleza (intacta com o tempo, como vimos em Longe Dela) e segurando bem o protagonismo da história, que é totalmente entregue a sua figura. É provável que o filme de John Schlesinger tivesse se saído melhor caso não investisse em tantas elipses (especialmente quando a Diana Scott de Christie muda de amantes), mas nada que prejudique a presença da atriz – que, no final das contas, é quem faz Darling valer a pena.

INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild, 2012, de Benh Zeitlin): Em pequenos detalhes, Indomável Sonhadora lembra outros filmes recentes. No primeiro longa-metragem de Benh Zeitlin, está presente a relação conturbada de uma jovem com uma figura familiar extremamente problemática (Preciosa – Uma História de Esperança) e também a dura realidade contada através de um ponto de vista “fabulesco” (Quem Quer Ser Um Milionário?). Tais semelhanças não são um problema, mas também não conseguem ser necessariamente um bônus para esse filme apenas correto, onde pouco acontece. A trilha sonora é um destaque, mas, aqui, o único ponto mais especial a ser celebrado é a atuação da jovem Quvenzhané Wallis. Fora as desnecessárias discussões sobre ela merecer ou não indicações a prêmios por ser uma criança, não há nada a ser questionado na figura da garotinha, que é um verdadeiro furacão em cena e também responsável por tornar Indomável Sonhadora um filme no mínimo curioso.

KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, de William Friedkin): Nas más línguas, Killer Joe será criticado pelo final inconclusivo ou pela repulsa que causa em uma cena particular (a da coxinha de frango). Mas é justamente a meia hora do desfecho que eleva o novo filme de William Friedkin a outro patamar. Não vale, no entanto, depreciar o resto: a história parece repetida (um plano infalível para matar um familiar e ficar com sua apólice), só que Killer Joe trilha caminhos diferentes – e resta ao espectador aprovar ou não um estudo maior de personalidade dos personagens do que do plano em si. Por falar em personagens, os atores conseguem dar bastante verossimilhança a esse mosaico de figuras extremas: do pai boboca vivido por Thomas Haden Church ao misterioso matador de aluguel do título conduzido com notável segurança por Matthew McCounaghey, todos parecem imprevisíveis – sejam por suas inteligências ou por suas particulares demências. Isso por si só já deixa o filme com um quê de tensão, onde o ápice está, como já dito, no final (o jantar cordial mas sarcástico posteriormente banhado em sangue também funcionou muito bem recentemente em Django Livre).

SONATA DE OUTONO (Höstsonaten, 1978, de Ingmar Bergman): Só os fortes conseguem sobreviver ao que o diretor Ingmar Bergman apresenta em Sonata de Outono. É aquele tipo de filme pesado, denso, sufocante – e que nunca se preocupa em fazer concessões para falar sobre as mágoas da vida. Isso mesmo: o longa estrelado por Ingrid Bergman (em impecável atuação) e Liv Ullman é inteiramente sobre relações familiares mal resolvidas, feridas nunca cicatrizadas e erros que ainda trazem tristezas. Não é nada fácil acompanhar a degradação de Charlotte e Eva, mãe e filha, respectivamente, que se reencontram com as intenções mais amigáveis, mas que, conforme passam os dias, começam a libertar todas as dores silenciadas durante anos. Com um texto extremamente forte e uma direção notável (percebam como a fotografia também é um primor), Sonata de Outono talvez seja uma experiência para ficar apenas na memória, porque haja força para rever um filme maravilhoso mas incrivelmente depressivo como esse. Curiosamente, no mesmo ano, Woody Allen realizou Interiores, sua obra máxima, claramente uma homenagem a esse universo de Bergman.

Melhores de 2012 – Ator

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Trabalhar nos Estados Unidos deve ter rendido ótimos trocados para Rodrigo Santoro, mas é aqui no Brasil que ele é um grande ator. De verdade. Um dos nomes mais confiáveis, sem dúvida. Com interpretações espetaculares em filmes que marcaram época (Bicho de Sete CabeçasAbril Despedaçado), o ator voltou a brilhar completamente frente a uma produção nacional: no caso, Heleno, de José Henrique Fonseca, que narra a glória e a decadência de Heleno de Freitas, jogador que fez história no Rio de Janeiro, seja integrando o time Botafogo ou sendo um verdadeiro furacão com as mulheres e a mídia. Impressiona a forma como Santoro emagrece e definha frente às câmeras sem deixar transparecer qualquer resquício de gestos ou expressões calculadas. É uma interpretação extremamente natural, que acompanha com perfeição o charme do jogador (e Santoro nunca esteve tão sedutor no cinema) e também seus últimos dias senis jogado em uma instituição. É um dos grandes momentos do ator, que não permite que a arrogância do protagonista seja um obstáculo. Como Heleno de Freitas, ele se entrega completamente a todas as possibilidades, convencendo a todos de que toda a fama de irresistível e difícil do jogador eram sim justificáveis. Pena que lá fora as chances para Santoro não são tão especiais como aqui…

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OUTROS INDICADOS:

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DENIS LAVANT (Holy Motors)

Versatilidade é a palavra que define a interpretação do francês Denis Lavant em Holy Motors. A prazerosa alucinação que é o filme de Leos Carax pode dividir opiniões, mas isso não acontece com o trabalho do ator. Na pele de diversos personagens, ele está excepcional em cada um deles. E o melhor de tudo é que o resultado nunca se resume apenas o que vemos na excelente maquiagem: o ator atua diretamente com ela – o que, claro, é um verdadeiro presente entre os vários de Holy Motors.

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GEORGE CLOONEY (Os Descendentes)

O desempenho de George Clooney em Os Descendentes comprova que os prêmios recebidos por Syriana – A Indústria do Petróleo foram prematuros. No filme de Alexander Payne, ele se desvia do esquema de interpretar a si mesmo para entregar o seu melhor momento como ator. Na pele de Matt King, o pai de família que descobre uma traição da esposa após ela entrar em coma, Clooney mostrou uma segurança admirável e conduziu com sensibilidade e sutileza todos os momentos do filme.

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JEAN DUJARDIN (O Artista)

Dá para acreditar que Jean Dujardin veio diretamente do cinema mudo para os dias de hoje tamanha a sua desenvoltura ao interpretar um papel desse estilo. O francês, que chegou a vencer o Oscar 2013 por seu desempenho, brilha em O Artista, divertindo com grande naturalidade e também convencendo nos momentos mais reflexivos. Ao lado da também ótima Bérénice Bejo, ele lidera o filme de Michel Hazanavicius com méritos inegáveis.

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TOM HOLLAND (O Impossível)

O jovem Tom Holland foi uma das grandes surpresas de 2012. Ele não se intimidou ao fazer dupla com Naomi Watts em O Impossível, apresentando uma força inquestionável como o verdadeiro protagonista da história. É o primeiro filme de sua carreira e, julgando pelo talento que apresentou, já podemos esperar ansiosamente por seus futuros trabalhos. Segurando sozinho o filme em certos momentos, ele é, sem dúvida, um nome para se guardar.

EM ANOS ANTRIORES: 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei) | 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

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1. Jean Dujardin, por O Artista (39.66%, 23 votos)

2. Dennis Lavant, por Holy Motors (22.41%, 13 votos)

3. George Clooney, por Os Descendentes (15.52%, 9 votos)

4. Rodrigo Santoro, por Heleno (12.07% , 7 votos)

5. Tom Holland, por O Impossível (10.34%, 6 votos)

A trilha sonora de… Segredos de Sangue

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Segredos de Sangue marca a estreia do sul-coreano Chan Wook-Park no cinema estadunidense. Reconhecido mundialmente por obras como Oldboy, o diretor resolveu fazer sua estreia com um suspense estrelado por Nicole Kidman e pela jovem Mia Wasikowska. E, julgando pelo trailer, Wook-Park não parece ter perdido sua veia autoral em outras terras. Segredos de Sangue entrou em cartaz discretamente no início de março nos Estados Unidos, enquanto o Brasil só poderá conferir o resultado em maio. De qualquer forma, apesar de não ter reverberado de forma entusiasmada lá fora, ainda é um dos filmes que mais aguardo em 2013.

E o que dizer, então, quando se descobre que a trilha sonora é do lendário Clint Mansell? Aos 50 anos, ele não tem um Oscar ou sequer um Globo de Ouro em casa (como a maioria dos melhores compositores), mas tem em seu currículo trilhas memoráveis, como Réquiem Para Um Sonho e, mais recentemente, Cisne Negro. Mesmo em produções menores, Mansell não deixa de impressionar, como é o caso da ficção Lunar, repleta de composições impressionantes. E, ao ouvir isoladamente a trilha de Segredos de Sangue, já podemos constatar que, mais uma vez, o compositor acertou em cheio – e ainda conseguiu despertar uma positiva curiosidade: onde as composições tão diferenciadas vão se encaixar na história do filme de Chan Wook-Park?

Além do trabalho individual de Clint Mansell, o álbum ainda conta com alguns diálogos do longa, uma música original (Becomes the Color, apenas ok) e uma composição adicional de Philip Glass (a ótima Duet, feita especialmente para a trilha). Mas é mesmo Mansell o verdadeiro destaque, conseguindo fazer uma excelente mistura de drama e suspense em um resultado muito sensitivo, que nos coloca dentro do filme – ainda que não o tenhamos visto. De todo o nervosismo passado por The Hunter Plays the Game a outras faixas mais ritmadas como Happy Birthday (A Death in the Family), o compositor já nos deu o primeiro presente de Segredos de Sangue. Que o filme esteja à altura! 

1. I’m Not Formed By Things That Are of Myself Alone – Mia Wasikowska
2. Becomes the Color – Emily Wells
3. Happy Birthday (A Death in the Family) – Clint Mansell
4. Uncle Charlie – Clint Mansell
5. A Whistling Tune from a Lonely Man – Hudson Thames
6. The Hunter & the Game – Clint Mansell
7. Blossoming – Clint Mansell
8. Summer Wine – Nancy Sinatra & Lee Hazelwood
9. A Family Affair – Clint Mansell
10. Becoming… – Clint Mansell
11. Duet – Philip Glass
12. Crawford Institute (Family Secrets) – Clint Mansell
13. Stride La Vampa (Verdi) – Victoria Cortez
14. The Hunter Plays the Game – Clint Mansell
15. In Full Bloom – Clint Mansell
16. The Hunter Becomes The Game – Clint Mansell
17. We Are Not Responsible For Who We Come to Be (Free) – Clint Mansell
18. If I Ever Had a Heart – Clint Mansell & Emily Wells

Melhores de 2012 – Roteiro Original

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2012 foi um ano interessantíssimo para os roteiros originais, mas, por melhor que todos sejam, nenhum se compara ao de A Separação. Escrito por Asghar Farhadi, que também é responsável pela direção, o roteiro é um verdadeiro exemplo de como uma história bem elaborada e atenta a todos os detalhes desde o princípio faz toda a diferença. Não que A Separação não tenha outros méritos (a direção é segura e o elenco é excepcional), mas o texto de Farhadi é de uma qualidade absurda: jogando o espectador de um lado para o outro entre os personagens, ele desafia o espectador a descobrir quem diz a verdade em um conflito extremamente nervoso. E nada é apelativo, já que todos os conflitos encenados são muito próximos da vida real. Um belo trabalho calcado em diálogos que, além do confronto principal entre dois personagens, ainda encontra espaço para falar sobre velhice, lealdade e casamento com extrema simplicidade e eficiência. Roteiro de dar inveja.

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OUTROS INDICADOS:

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Quem disse que um filme de James Bond não pode receber aplausos também pelo roteiro? No caso de 007 – Operação Skyfall, celebrações são mais do que apropriadas / Suscetível a todo tipo de interpretação, o roteiro de Holy Motors é um completo delírio, mas instigante justamente em função desse efeito / Moonrise Kingdom é o melhor trabalho de Wes Anderson, que, em parecia com Roman Coppola, criou um texto incrivelmente prazeroso / É bom ficar de olho em Andrew Haigh, que, em Weekend, fez um retrato  realista da intimidade de um casal (e pouco importa se ele é formado por dois homens).

EM ANOS ANTERIORES: 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

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ESCOLHA DO PÚBLICO:

1. A Separação (40.54%, 15 votos)

2. Moonrise Kingdom (32.43%, 12 votos)

3. Holy Motors (10.81%, 4 votos)

4. Weekend (10.81%, 4 votos)

5. 007 – Operação Skyfall (5.41%, 2 votos)